Artigo da repórter Jacqueline Iensen publicado na seção Contexto desta segunda-feira no Variedades. Uma necessária reflexão sobre como nos portarmos no momento de ardor político. A propósito, deu um bug no site da Maratona Cultural e a visualização da programação dos dias 24 e 25 está indisponível. Espera-se que o problema seja solucionado nesta tarde.
A hora é da plateia
Acompanhei nos últimos dias, um intenso debate pelas redes sociais sobre a Maratona Cultural que ocorre nos dias 23, 24 e 25 de março em Florianópolis. Há quem defenda, mas há quem acredite que o festival seja um projeto apenas eleitoral.
Aprendi com o tempo a não simplesmente aceitar ou combater uma opinião, mas refletir sobre ela. Nos últimos anos acompanhei de perto a choradeira do setor cultural catarinense em torno da falta de espaços para se apresentar, da falta de apoio financeiro do poder público, da falta de festivais para mostrar o seu trabalho, da falta de um circuito para fazer com a produção cultural circule pelo Estado.
Acho que neste momento é preciso fugir dessa eterna luta entre o bem e o mal pensar um pouco mais longe. Reduzir o projeto a uma iniciativa meramente eleitoreira é simplificar uma grande ação. Não para a política, mas para o público. A hora agora é de tornar a arte uma necessidade no cotidiano das pessoas. E a Maratona tem o fundamental papel de formar plateia. Ninguém valoriza aquilo que não conhece.
Nos últimos anos, grandes iniciativas como o Floripa Teatro
E é nesse sentido que destaco a importância da Maratona. Os produtores culturais precisam se apropriar desta janela que se abriu em novembro do ano passado e batalhar para que a mostra se transforme numa necessidade para a população. E isso só vai acontecer se os grupos se aproximarem das pessoas. Isto significa fazer uma trabalho pré e pós espetáculo. Digo isso porque num espetáculo que assisti no Floripa Teatro, na Lona do Rio Tavares, o ator
Monteiro Lobato escreveu: um país se faz com homens e livros. Com a permissão do ilustre, vou mais longe: um país se faz com homens, livros, música, saúde, educação.
A arte precisa fazer parte do cotidiano das pessoas, não para torná-las supostamente mais "cultas", mas para exercitar um olhar mais crítico sobre a vida.
– Festival Isnard Azevedo, a Mostra de Cinema Infantil, o projeto Orquestra nas Comunidades (só para citar alguns) abrem a porta para um mundo mágico para milhares de crianças e de adultos. Nas lonas montadas em diversos pontos da Ilha, que descentralizam as ações nos grandes festivais locais, milhares de estudantes de diferentes idades têm contato com manifestações artísticas que depois são trabalhadas de forma didática nas salas de aulas. Não são poucos os professores que se utilizam do recurso para tornar as aulas mais atraentes, ainda mais numa época em que se disputa atenção com a internet e sua infinidade de recursos visuais, tão caros ao nosso olhar.– um palhaço – conversou a garotada antes e depois da apresentação. E isso fez toda a diferença. A plateia consegui ter a dimensão do que é a vida do artista, como ele se transforma e mais que ele é uma pessoa comum, de carne e osso. Ou seja, aquela visão de que artista é coisa de outro mundo desapareceu na hora. Tenho certeza que aquelas crianças passaram a ver o palhaço como um profissional e não apenas como um sujeito que pinta a cara e vai para o picadeiro. Talvez seja possível começar aí um sólido processo de educação da plateia. Mas isso só vai acontecer se artistas e comunidade se mobilizarem. Está na hora de ambos assumirem o papel de protagonista dessa história. E só nos tornamos protagonistas de nossas histórias quando nos vemos como o tal.