
Foto Cassiano Ferraz, Divulgação
Duas instituições que nasceram para reinar juntas: o futebol e o rock. Não é a toa que, quando ouvimos ou vemos um time promove um grande espetáculo no campo costuma-se dizer que "joga por música". No caso de um grande show, "o jogo foi ganho". Vimos isso com Paul McCartney há algumas semanas na Ressacada e dias depois com o passeio do Avaí na conquista do estadual. O Taliesyn Rock Bar reverencia as duas paixões amanhã (sábado), abrindo as portas às 15h para exibir as finais da Champions League, para no cair da noite, às 20h, começar o espetáculo do rock, com as bandas Eutha, Califaliza, Mary's Secret Box e Five 5 Boys.
A estreia da noite é a Five 5 Boys. Banda nova, mas as carinhas são bem conhecidas. Daniel Gomes, André Guesser e Thiago Gomes encerram a história com Samambaia Sound Club e, enfim, abraçam a causa do novo capítulo, com uma nova banda, em sintonia com a nova proposta estética e artística empreendida nestes dois últimos anos. Desde o lançamento do CD SIM/NÃO e com as saídas de Jean Mafra (vocal) e Marco Antônio Jaguarito (guitarra), a SSC remanescente se mutuou, rearranjou-se para se adaptar a nova formação, mais crua, roqueira, menos psicodélica, enfim tornar produtiva toda a expectativa gerada pela mudança.
A banda prepara o primeiro disco, Estética e Cultura de Massa, as músicas estão prontas, e, segundo Guesser será um disco de rock, cantado em uníssono e com "o chimbal bem aberto". Simplificando tudo: "se antes as pessoas dançavam para o lado, agora será para cima". Mas algo não bate aí: o que um trio (ex-quinteto) quer ao chamar-se Five 5 Boys. Diz o Guesser que é a apropriação/homenagem a um grupo anônimo de intervenção urbana que agia na década de 1990 na região de Barreiros, a casa do grupo. Até hoje a identidade do grupo (ou do artista) permanece um mistério. Alguém vai reclamar?
Abaixo vai o papo com o animado boyband Guesser:
ContraVersão: No lançamento de SIM/NÃO, em 2010, ficou claro naquele show que a banda havia mudado radicalmente. Isso estava claro na formação, mas também na guinada radical na música. Se a questão era mudar o nome, por que tanta demora?
André Guesser: Marquinho, naquele momento nossa preocupação não era mudar o nome, era lançar o cd SIM/NÃO, que gravamos através de um edital público e tínhamos isso como compromisso. O disco foi gravado como Samambaia Sound Club, independente dos componentes. Como saíram o Jaguarito e o Jean, e isso se deu com muita tranquilidade, tivemos que mudar alguns arranjos para se adaptar a nova formação, pois o Thiago, além de tocar guitarra, começou a cantar. Mudamos e gostamos.
Quando o Jaguarito anunciou que teria que sair pra morar no Rio, na mesma hora eu disse pra eles que continuaria com a Samambaia, mesmo que tivesse que mudar a sua forma artística, porque tinha muito do meu DNA naquele projeto, muito do meu suor, muito além da arte. Eles sabiam disso. Foram muitas noites recortando encartes para o show do dia seguinte, muitas viagens dentro de um mondeo, com pneu careca, lotado de cuecas e equipamentos. Quantos contatos fiz durante esses anos, quantos sapos engoli pra levar a samambaia a algum lugar. É claro que foi o esforço de cada um, mas eu acreditava muito e não queria jogar isso fora, o seu nome, a sua projeção, o seu crédito. Não queria ter que fazer tudo de novo, degrau por degrau, pois foram sete anos e só com a música não é o suficiente. Por menor que éramos, de 2005 a 2009, fomos umas das bandas catarinenses que mais apareceu no cenário, que mais tocou. Foram diversos shows no interior de SC, RS e PR, sempre com a bandeira de música autoral. Eu saia das apresentações, descia do palco, cansado, botava a caixa de cd embaixo do braço e saia pra vender, quase sempre sozinho, porque aquilo era um pedaço da minha vida. Até o nome foi eu quem deu. Pelo show de lançamento e por essas questões, não mudamos o nome. Se hoje estamos mudando, é porque chegou o momento e pra nós três será melhor.
ContraVersão: A SSC sempre passou por mutações na sua formação e recessos, mas quando lhe ocorreu que de fato a fórmula se esgotou?
André Guesser: Não acho que a fórmula se esgotou, acredito que ela mudou, tomou outros caminhos. Se tu for ver o show do Jean (Mafra, hoje com Jeam Mafra e Bonde Virtigem), vais ver muita coisa da SSC, assim deve ser com o Jaguarito e assim vai ser conosco agora. Não nascemos da SSC, ela que nasceu de nós. Tudo bem que os cinco juntos tinham uma fórmula, mas os pedaços continuam com cada um. No nosso caso, umas porcentagens a mais.Resolvemos encerrar de fato o nome SSC porque notamos que aquilo que estamos fazendo agora, nos dá novas e melhores perspectivas com outro nome. Esse nosso novo trabalho é rock e quem queria ver rock, não ia aos shows da SSC. Muitos amigos que gostavam da SSC, e que agora gostam ainda mais do trabalho, também nos incentivaram a mudar. Mudamos. Mostrar um novo trabalho com um novo nome, tira um certo peso de nossas costas.
ContraVersão: De todas as mudanças essa revela um caminho sem volta. Como é ter que conviver com uma nova identidade, buscar novos públicos ou e novos palcos?
André Guesser: Eu já tive outras bandas que passaram por mudanças, inclusive de acabar, e o futuro sempre foi melhor, e é isso que vai acontecer agora. Quando toquei no Phunky Buddha e a banda acabou, meu deus, parecia que o mundo ia cair, as pessoas não acreditavam, mas para nós, músicos, foi tranquilo. Depois vieram coisas melhores e assim sempre será. Buscar novo público é tranquilo, porque mesmo em uma banda conhecida, sempre estamos buscando o novo. Acho que muita gente que gostava da SSC, automaticamente vai curtir esse novo trabalho. Fizemos muitos amigos ao longo do tempo da ssc, e esses sempre estarão conosco, o que nos dá um gás tremendo. Hoje temos uma vantagem, aqueles que não gostavam da banda, podem gostar. Nascer de novo é bacana porque cria em você e nas pessoas uma grande expectativa e isso é produtivo.
ContraVersão: Como foi essa transição na cabeça de vocês: de uma banda eminentemente pop para algo mais cru e roqueiro? E como explicar isso para o público do SSC?
André Guesser: Foi tranquila. Acho que eu, Thiago e Dani já estávamos a fim de fazer algo assim há algum tempo, com a própria SSC. Também não acho que a SSC fosse tão pop assim, acho que o melhor dela sempre foi o lado B, as músicas mais ousadas, mais psicodélicas, assim eram nossos shows.Acho que não precisamos explicar nada para o público, eles vão entender na hora que assistir. Vão gostar. A diferença é que antes as pessoas dançavam pro lado, agora vão dançar pra cima. Tenho muito expectativa de conquistar um público que a SSC não alcançava. Quero voltar a fazer parcerias com bandas e músicos que queiram fazer acontecer, de maneira simples e sincera, isso eu sei que dá certo e o público vem junto.
ContraVersão _ A lida ficou mais difícil após a dissolução do Clube da Luta? Você não acha que o fim do coletivo acabou por isolar as bandas que o integravam?
André Guesser: Não acho, tenho certeza. O fim do Clube da Luta foi também o fim das bandas que o integravam. Onde estão Tijuquera, Aerocirco, Maltines, Coletivo Operante? Quando digo que o Clube não deveria ter acabado, era por isso, o clube eram as bandas, se não tem clube, não tem banda.
Foi um erro, uma besteira achar que ele estava redundante. Redundante estavam as bandas que apresentavam o mesmo show, as mesmas músicas. O Clube nada mais era que um palco, e nós vivemos do palco. Tem gente que torcia pra ele acabar e daí eu pergunto, estão tocando aonde? E respondo: sempre no mesmo lugar. Isso é mudar? Com o Clube tínhamos momentos de som, de discussão, de parcerias, isso fazia a diferença. Era importante até para quem não gostava. O problema do nosso meio, é que muito músico mala e xarope, só quer saber do seu, quer tocar no melhor horário, melhor data, melhor som, não divide, e no final das contas, nesta individualidade maldita, não chega a lugar algum. Depois do clube consegui perceber isso com mais facilidade. Hoje, 2012, estamos vendo alguns bons projetos e que estão dando certo. Eu fico muito feliz com isso, ver que bandas se unem, montam palco e debulham o som. Não tem fórmula mágica, é só ter pessoas que queiram fazer acontecer. Hoje estamos vendo projetos como O clube, as noites do Taliesyn, o Cardume, o Música SC, a Célula, que estão movimentando os trabalhos autorais, mas com a certeza de que dá certo de um coletivo estiver engajado no projeto, porque uma andorinha não faz verão, diria meu avô. Nosso sonho é levar um projeto para o continente, com todo esse pessoal aí.
ContraVersão _ Trabalham em um novo disco? O que virá por aí?
André Guesser: Nós estamos com quase todas as músicas prontas. Temos muita facilidade em compor, só não decidimos quantas entrarão no disco. Ele será um disco de rock, com chimbal bem aberto. Se chamará "Estética e Cultura de Massa", que é um assunto que nos atraí há tempo. O disco terá letras em português e inglês, muitas delas cantadas pelo trio, em uníssono. O que mais queremos é voltar a se reunir com outras bandas, tirar a poeira e planejar novos projetos em conjunto, chamar bandas de fora e fazer acontecer.
ContraVersão _ Dá para garantir que o disco sairá com a mesma formação que o gravou?
André Guesser: Essa é boa. Sabes que não havia pensado nisso. Nos lançamentos da SSC sempre tiveram mudanças, e sempre melhorou (risos). Mas desta vez ficaremos juntos. Acho que eu, Dani e Thiago temos uma ligação muito forte, que vai além da música, coisa de sangue. Nos sentimos muito bem tocando juntos, é sempre divertido, temos facilidade para compor, um complementa o trabalho do outro. Dia desses estava brincando com eles, disse que em trio é muito fácil pra tomar as decisões, escolher repertório, se dois querem, tá feito. Até pra viajar facilita, podemos pegar emprestado o fusca do da caverna e rodar o planeta, com tudo dentro.