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Que tal gastar a sola do coração?

09 de novembro de 2011 0

Hoje, nove de novembro, faz nove anos que conheci o amor. E por mais declarações que eu queira inventar, nenhuma traduz com tanta intensidade o quanto “corri” atrás desse amor que tenho hoje. Por isso, faço replay de um texto publicado no portal Acontecendo Aqui, escrito por mim em algum Natal passado, mas ainda sinônimo da duradoura vida a dois que desejo a todo mundo…

Era Natal, tempo e templo “oficial” das reflexões, e no meu coração não foi diferente.
Aquele amor, recém-descoberto na penumbra de um bar, recém-desdobrado na minha casa e na nossa rotina, definitivamente, parecia definitivo. Tal qual os secretamente invejados, nos filmes com final feliz, nos livros com desfechos de união eterna.

Mas como assumir tal ilusão, ou tal intensidade, a quem eu mal conhecia? Como confessar que as minhas intenções eram tão egoístas? Que, no fundo, eu iria subornar a liberdade que ele experimentava, com desenvoltura, pela primeira vez na vida? Que, mesmo precocemente, minha impaciência clamava por um compromisso com aura de aliança?
E meu orgulho? E as memórias de momentos parecidos em que, sem motivo relevante, tudo desmoronou? E se a fonte de tanta certeza não fosse o amor, mas o relógio biológico de uma mulher que, àquelas alturas, perdia o compasso da maternidade?

Quem não se angustia ao receber um vale-prazer eterno?
Juro que assusta, mas não recuei. Me neguei a tingir o conto com ponto final antes mesmo de aplicar a primeira vírgula. Como ainda fazem tantas mulheres, com medo de arriscar, de se esfolar, de se envolver. Como se alguma relação fosse nos deixar pior do que nos deixa o ócio emocional.

Perder alguém dói sim. Mas por poucas horas, alguns dias ou, na clausura, um par de meses. Depois, a lamúria vira lembrança; o desgosto, estímulo; e as horas boas, um patrimônio a ser desfrutado em silêncio, ou compartilhado entre amigos, ou relembrado a dois.
Por isso não admito tanta mulher boicotando a chance de ser feliz, de acordar ao lado, alada. Só porque ele não é como nos sonhos. Ou porque não deu o primeiro passo. Ou, muito pior, porque é diferente de um grande amor anterior, ou do marido da melhor amiga.

A vida nos ensina com tal veemência a proteger… matas nativas, prédios históricos, animais ameaçados, a nossa saúde e, muito apropriadamente, as crianças. Mas proteger sentimentos? Obrigá-los à submersão? Como soa ameaçador…
Porque sem braços alinhavados, sem pernas trançadas, sem declarações expostas, luzindo feito piercing, é a raça humana que corre riscos.
Não de extinção. Mas de exclusão. E só quem já suspirou por um retalho de amor sabe como a vida é vazia sem esse pano de fundo.

Naquele Natal, meu coração parecia ter encontrado seu campo de pouso. E foi bem isso…
Com tantas diferenças, provando uma fase profissional tão distinta da minha, na verdade ainda estagiário, ele não tinha uma casa pra me oferecer. Então fez do seu carinho um ninho, onde eu pudesse, sem turbulências, estacionar o meu amor quando bem conviesse. E assim foi.

Nos conhecíamos há pouco mais de um mês quando coloquei uma aliança na mão esquerda. Pra juntar o nome dele com minha pele, com meus poros. Era uma aliança sem par, sem precedentes. Uma aliança sem pactos, mas profética.
Foi minha forma de assumir, perante ele e o mundo, que meu coração não queria mais, nunca mais, aterrissar em outro platô.

E então anos se passaram. Noivamos. Casamos. Fizemos do forte abraço um berço, pra embalar nosso fruto. Temos diploma de posse registrado em cartório. E apesar de todas as garantias aparentes, a impaciência permanece.
Quem não se angustia ao receber um vale-alegria eterna?

Ser feliz exige gratidão diária. E se Saramago diz que “é uma responsabilidade ter olhos quando outros os perderam”, em relação ao amor vale o mesmo dito.
É preciso saber proteger sem esconder; criticar sem condenar; compartilhar o silêncio sem temer suas conclusões; ajudar sem se promover; aceitar no outro mudanças em outro ritmo; ganhar uma nova família sem descartar os velhos amigos; dar a mão sem se jogar ao pés.

Por isso não aceito desculpas, típicas, de quem sonha com a vida a dois, e espera a sós que ela apareça, “quando for a hora certa”. Porque o amor é fruto de um encantamento. Com certeza. De sorte. Admito. Mas também de muito esforço. É preciso procurar, se expor, se adequar sem dissimular, se apaixonar sem idolatrar. Não é fácil. É fábula!! E seu autor não é o desejo. Nem o destino. É a disposição.

Se o amor der uma pista, corra atrás, pois ele pode não voltar!

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