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Novos Horizontes: inclusão social sobre duas rodas

18 de novembro de 2011 1

Quem gosta de correr ou pedalar deveria provar, ao menos uma vez, a sensação de fechar os olhos enquanto se exercita… A velocidade não tem cheiro, tato ou paladar. Mas em compensação, consegue gerar sons e visões inesquecíveis! E assim foi no feriadão da República. A convite do Ricardo Carvalho, idealizador do grupo de pedaladas pra cegos Novos Horizontes, acompanhei a “excursão” com cinco bikes duplas pela Beira-Mar Norte, bairro João Paulo e bairro Saco Grande, em Florianópolis.

Todos os sábados, às 9 da manhã, os ciclistas e seus convidados deficientes visuais se reúnem em frente à loja Della Giustina, bem próximo ao terminal TITRI. Dali até a hora do almoço, a prioridade é pedalar a dois, de preferência em alta velocidade e com muitas descidas pelo caminho. “Quando o vento bate no rosto dá uma sensação de liberdade… É uma experiência que eu nunca poderia ter sozinha”, conta Inês, de 33 anos, professora de Educação Especial na ACIC, a Associação Catarinense para Integração dos Cegos.

Nascida prematura, Inês perdeu a visão no período em que ficou na incubadora. Mas a falência de um sentido não a impede de dar grandes sentidos à sua vida. Casada com Alírio, de 38 anos, mãe da Alice, de 10 anos, Inês gosta tanto dos passeios de bike que passou a fazer ginástica e musculação, pra garantir o condicionamento necessário pras rondas de magrela. A companhia do marido, cego desde os 13 anos, é um estímulo extra. “Eu já participei de várias modalidades de atletismo, e em função da cegueira passei a praticar musculação, natação e futebol de salão, porque não abro mão dos esportes. Mas andar de bicicleta é muito bom porque traz de volta aquela sensação gostosa de quando eu pedalava por aí”, avalia Alírio.

Ele e Artur, outro atleta inveterado de 57 anos, foram os primeiros membros do grupo, que começou com o rodízio de apenas uma bike dupla, em fevereiro deste ano. “O Ricardo me procurou por eu ser Coordenador de Lazer da ACIC e já marcamos o passeio pro dia seguinte”, lembra. Desde então, o programa é prioridade pro massoterapeuta que perdeu a visão assim que nasceu sua filha, há 30 anos, quando uma bolada na testa, em pleno futebol, deslocou a retina dos olhos. Pra ele, os treinos em bikes duplas são mais do que eventos sociais e esportivos. “Esses passeios também são culturais, porque quando o condutor da bike descreve o que estamos vendo, lugares, monumentos, a gente conhece a cidade em detalhes”, observa Artur, que recentemente desbravou Buenos Aires assim, sobre duas rodas, com a “turma” e a filha.

Administrador de uma corretora de seguros, casado, 42 anos, pai de três filhos e apaixonado pelo esporte, Ricardo Carvalho vinha acalentando a ideia de criar o projeto Novos Horizontes desde 2008, época em que morava em Brasília e viu uma ação semelhante por lá. “O que me moveu foi a oportunidade de estender a qualidade de vida que o ciclismo me oferece à outras pessoas que não podem fazer isso sozinhas”, explica Ricardo. Hoje, o grupo conta com cinco bikes, adquiridas a partir das doações de vários apoiadores. Mas a intenção é que o projeto, que tem seu “diário de bordo” aqui, cresça muito mais, afinal, todos os passeios têm fila de espera.

Entre os novatos no grupo, que aguardavam ansiosos pela oportunidade, estão a Jussara, de 54 anos, cega desde 1995, e o José, de 43 anos, que perdeu a visão de um olho aos 8 anos e do outro aos 22 anos. “Sentir o ventinho na hora da descida foi maravilhoso. Quero ser convidada mais vezes”, anuncia Jussara, que adorou a estreia. “Como eu andava de bicicleta quando enxergava, o passeio me ajudou a matar a saudades dessa sensação de liberdade, de fazer as curvas em alta velocidade”, comemora José, pra quem fôlego não é problema… afinal, além de massoterapeuta e servidor da Secretaria de Estado da Educação ele ainda encontra tempo pra fazer aulas de forró, samba avançado, bolero, rock e pilates. “Independente do quanto esta experiência oferece aos deficientes visuais que participam dos passeios, quem mais ganha sonhos nós, voluntários, que recebemos uma energia muito positiva ao conviver com amigos que enxergam a vida de uma forma tão linda”, conclui, emocionado, o mentor do projeto.

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O sorriso do Artur diz tudo!

Inês, a estreante, agora quer replay!

Ricardo Carvalho, idealizador do projeto, conduzindo Alírio, um apaixonado por esportes

Vários ciclistas dão retaguarda ao passeio em bikes individuais, pra garantir a segurança da turma

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Comentários (1)

  • DanielBiólogo diz: 18 de novembro de 2011

    A Bicicleta é uma fantástica máquina na humanização do espaço público e pedalar com essa galera, “É show de Bike”.

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