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Cada dia de vida é um dom que Deus nos dá!

13 de dezembro de 2011 16

Naquele dia, o dia do meu aniversário, eu vi o quanto a solidão é capaz de cortar mais fundo que um bisturi. Porque passados quatro anos, a cicatriz da cirurgia mal se faz notar. Já aquele remendo na minha alma, esse sim, expõe feridas inflamadas, por mais que o tempo passe.
Era 12 de dezembro de 2007. Dia dos meus 38 anos. Eu tinha em casa a família que, por décadas, implorei a Deus: um marido apaixonado e uma filha de 2 aninhos. Mas acordei longe deles. De luvas. As luvas que denunciavam minha contaminação.

No dia anterior, em vez de preparar a festa, dei entrada na clínica. Extremo conforto, flores naturais no meu quarto, mil canais na TV, a chance de escolher o menu de cada refeição. Tudo pra disfarçar aquele acessório, gigante, na frente da minha cama. Um biombo, blindado.
O médico chegou de colete à prova de balas, comentou qualquer regra e me ofereceu a radiação. Tomei até a última gota, independente do veneno que continha. Era uma dose única. E também a única chance de dizimar qualquer vestígio do tumor recém-removido.

Naquele dia, eu teria aceitado qualquer coisa. Porque o que estava em jogo não era o meu futuro. Mas todas as experiências que, por falta de experiência, nem ao menos constavam nos meus maiores sonhos: acompanhar minha filha no primeiro dia na escola, ver meu bebê tirar as fraldas, assistir chorando à primeira apresentação de Dia das Mães.
Só vivendo pra ver o quanto essas horas conseguem ser as mais importantes de uma vida inteira. E só passando pela reclusão que eu passei pra saber a gratidão que eu sinto, todos os dias, por cada dia, cada “colinho da mamma” que escuto minha filha pedir quando acorda, cada beijo de boa noite que dou sem pressa na pele mais pétala do mundo.

Naquele aniversário, de luvas, jamais imaginei ver de perto a Minnie abraçando minha filha com suas luvas gigantes. Quando eu atendia o telefone, de luvas, trocava o canal, de luvas, ouvia a enfermeira – escondida atrás do biombo pra se defender de mim -, puxava a descarga três vezes a cada xixi, porque afinal essa era a regra, o que eu menos conseguia era pensar no mundo lá fora.
Eu só pensava no meu medo, na minha dor, na minha fragilidade, e mais do que tudo, na mãe que eu tinha perdido há duas semanas. Pela mesma doença… com um diagnóstico imperdoavelmente tardio, ofuscado por uma beleza, um vigor e uma ternura que desconcertavam qualquer um. Dos filhos aos especialistas. Quando descobrimos, já tinha se alastrado.
Órfã de confiança e coragem, eu só pensava no passado, antes da doença dela, antes da minha, antes da minha melhor amiga se calar pra sempre. Só pensava no quanto eu abriria mão daquele leito ergonômico em que passei meu aniversário pelo sofazinho duro do hospital, destinado às companhias da minha mãe, onde por tantas noites eu fingi dormir. Ela em silêncio, pela dor. Eu, muda… Sem o direito de confessar o prognóstico que me amordaçava.

Quando a gente fica muito triste é assim. Não consegue apostar no positivo. Planejar longe. Sonhar alto. Acreditar. Naquele aniversário, provei tudo isso. Sem festa, sem abraço, sem nem ao menos um computador, já que o maior cúmplice dos meus desabafos ficou doente junto comigo. O dia 12 de dezembro foi o start pra 12 longos dias de reclusão… vendo minha filhinha à distância, pela janela, e quase me arrependendo depois, tamanha a saudade que aquela visão catapultava.
Foram dias vazios. De extrema solidão. Mas não em vão. Porque aprendi o quanto é pouco comemorar um aniversário. É preciso celebrar cada dia. Agradecer cada alegria. E também as tristezas, pelas lições que nos dão. Abraçar cada amigo. Dizer “conta comigo”! E não poupar elogios, pro afeto circular. Rezar mais. Resmungar menos. E parar de invejar o jardim do vizinho. Do que vale a grama perfeita sem tempo pra rolar feito criança?
Passado tanto tempo, aprendi que não importa quanto tempo temos, mas os momentos soberanos em que sentimos o tempo congelar. Os momentos únicos, que nenhum passar de tempo consegue apagar. Os momentos que hoje, me dedico a colecionar. Tenho Jesus pra me inspirar. Cristo só zerou o calendário porque reverteu os valores de um mundo inteiro. Nos convenceu que Deus nos conhece pelo nome. E essa dádiva eu pude provar. Cada dia de vida é um dom que Deus nos dá!

Oba! Esse ano tirei todos os meus atrasos de abraço...

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Comentários (16)

  • André Vasconcelos diz: 13 de dezembro de 2011

    Aninha, não conhecia esta sua história!!! Mas me emocionou e me mostrou a sua aura brilhante, como era brilhante seu olhar e sua energia quando te conheci nos idos anos 90 no DC. A vida nos põe à prova e nos dá prova que vale a pena lutar para viver!! Beijos e continue essa vida linda!!!!

  • Silvia Schiefler de Oliveira diz: 13 de dezembro de 2011

    Minha amiga…. Difícil comentar… Difícil escolher as palavras certas pra expressar o que sinto. Tens razão, comemorar um aniversário e tão pouco quando se tem tanto pra celebrar… Minutos de vida devem ser comemorados, amizades sinceras devem ser festejadas, cada bênção recebida deve ser agradecida, cada abrir de olhos nas manhãs da vida devem ser ovacionados…. Mas hoje eu quero celebrar a amizade, pois Deus me deu grandes amigas… Tu és uma delas… Amo tua transparência, tua intimidade com as palavras, teu riso fácil a cada encontro, teu carinho inesgotável, tua dedicação aos amigos verdadeiros… Hoje eu celebro a tua vida, agradeço por fazeres parte da minha vida e envio a Deus uma prece… Uma prece… Um pedido para que permaneças por perto sempre… Com tua luz, teu carinho, amor e esse encantador sorriso…. Te amo, Ana e sou mais feliz por te ter como amiga… Beijo

  • Fernanda Argoud diz: 14 de dezembro de 2011

    Minha Querida,
    se eu já te admirava antes, agora posso dizer, com alma cristalina, que te amo, Ana, como Amiga, como ídola, como ser iluminado, como Anjo que Deus mandou na minha vida, pra me ensinar, consolar e inspirar…
    Estou aos prantos, aqui, super emocionada com cada palavra que vc escreveu… tenho que sair pro trabalho; como fazer??? ;D
    Do fundo do coração: gostaria que pudéssemos conviver mais, pessoalmente, pois também sei o que é a solidão, o vazio, a ausência e gostaria de tentar ajudar a diminuir a tua, quando a saudade da tua mãezinha bater….
    Mas considere-se muito abraçada, virtualmente, mesmo, tá?
    Trabalho demais, e sempre tem uma pilha ainda maior de trabalho me esperando, mas hei de dar um jeito de vê-los, antes de nos mudarmos, em janeiro!!! <:)
    Um beijão no seu coração,
    Fê.

  • Valdene Butegal diz: 14 de dezembro de 2011

    Aníssima…que relato emocionante!
    Eu, que GRAÇAS À DEUS também sou mãe e agradeço todos os dias por isso, me senti tão tensa com a possibilidade do que poderia ter te acontecido, porque me imaginei no seu lugar… a vida deve mesmo ser celebrada todos os dias. Não só dizer que celebra. Celebrar, no sentido da palavra.
    Muitas vezes nos entristecemos ou damos muita importância à coisas tão pequenas, tão insignificantes, que só uma história dessas pra vermos que temos TUDO…e que sem Deus não somos NADA.
    Eu, que já te admirava, agora te admiro mais!
    Grande beijo e que o Natal se faça em você (e em nós) todos os dias. Que ao acordar toda manhã, comemoremos como se fosse um nascimento. Deus te abençoe!

  • Vania Monteiro diz: 14 de dezembro de 2011

    Nossa Ana…

    Não tenho palavras para descrever o que estou sentindo neste momento. Que essas suas palavras sirvam para mostrar às outras pessoas o quanto é importante não deixarmos para depois o que podemos fazer agora. Dizer “eu te amo”, dar um abraço, curtir um passeio em família,… Coisas tão simples mas que nem sempre damos o devido valor.
    Toda força do mundo! Um beijo enorme no coração!

  • Luciana diz: 14 de dezembro de 2011

    Ana, como disse a Silvinha, difícil achar palavras. Que barra, amiga! Sinto não ter te ajudado naquela hora, não ter sabido, não ter chorado e comemorado o bom resultado naquele momento. Mas posso comemorar agora, comemorar a tua vida e a tua amizade. Viva você, Aninha, continue firme e forte, e ao nosso lado por muitos e muitos anos! Bjs.

  • Bianca diz: 15 de dezembro de 2011

    Ana, Ana!!
    Que linda mensagem. Me fez refletir e ainda estou tentando organizar as idéias. Tua história emociona e a forma como a contas reflete a tua sensibilidade e delicadeza! Beijos Mil, Um lindo 2012 e um Natal Especial!

  • Luiz Carlos diz: 17 de dezembro de 2011

    Ana. A sua vida é uma lição de vida para todos nós. Sinceramente, só passo a lhe admirar ainda mais.
    Que DEUS continue te iluminando e a sua bela família.
    Parabéns, tudo de bom e sucesso sempre.

  • lourival amorim diz: 17 de dezembro de 2011

    Sem palavras.
    Grande lição de vida.
    Abs,

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