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A despedida da missão

28 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

Ao chegarmos na quinta-feira (26/01), finalizamos a mais avançada missão brasileira à Antártica.

Ao comemorar-se o centenário da chegada do homem ao Polo Sul Geográfico e do trigésimo do Programa Antártico Brasileiro, o Brasil finalmente tem um laboratório científico no interior daquele continente, ampliando a área geográfica de atuação do país em mais de 4 milhões de km².

Ao longo do último mês, enfrentamos um ambiente muito agressivo, a sensação térmica caiu a –42°C, alguns trabalharam ao relento constantemente batidos pelo o vento incessante que vem do Sul. O importante é que atingimos as metas que tínhamos em mente, dos quais a mais importante foi a instalação do módulo científico sustentável, usando somente energia solar e eólica, totalmente automatizado para o estudo da atmosfera.

O módulo Criosfera 1 é aquele de um país latino-americano instalado mais ao Sul do planeta. Será um arco importante para expansão das atividades de nosso programa antártico, abrindo possibilidades para outros grupos nacionais.

Encerro este blog como uma nota de esperança, mas também de alerta, de colega polar anônimo:

"A Antártica é o último continente intocado do planeta, o único que ficou na sua forma original existente antes da expansão do espaço ocupado pelo homem. Exemplo de cooperação internacional, é a nossa última chance de trabalharmos em conjunto pela preservação ambiental do planeta. Se lá falharmos, teremos poucas chances de ter sucesso em outras regiões da nossa casa!"

Veja registros de outros momentos da Expedição


Um pouco de ciência: a estação Amundsen-Scott (EUA) no Polo Sul Geográfico

26 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

A estação científica mais próxima do Criosfera 1 é a estação dos Estados Unidos situada no Polo Sul Geográfico e que tem o nome dos dois pioneiros a chegarem naquela posição (90°S): o norueguês Roald Amundsen (14 de dezembro de 2011) e o britânico Robert F. Scott (17 de janeiro de 2012). Está no meio do platô da Antártica Oriental, e para chegar lá teríamos que atravessar as montanhas Transantárticas, que estão a menos de 200 km de nosso acampamento. O platô do manto de gelo atinge 2830 m de altitude no Polo Sul Geográfico e por isso lá é em média 17°C, mais frio do que no Criosfera 1. Entre 50 (no inverno) e 200 (no verão) cientistas, técnicos e pessoal de apoio habitam a estação.

Amundsen-Scott, como todas as estações no interior da Antártica, e quem sabe também a Criosfera 1 no futuro, são plataformas importantes para investigações de astrofísica, climatologia, glaciologia, sismologia e ciências do geoespaço - aquelas que investigam as interações do vento solar com a magnetosfera e partes da atmosfera superior, incluindo as auroras polares.

Em particular, o platô do manto de gelo antártico tem o ar mais limpo e seco do planeta, e é a nova fronteira para instalação de telescópios e rádio-telescópio. Esse ar limpo, e a grande distância das áreas fontes de poluentes, garantem que as medições no interior da Antártica tenham representatividade global. Assim, os melhores sítios para monitorar os gases estufas (como CO2, dióxido de carbono, e CH4, metano) estão no manto de gelo da Antártica. Por curiosidade, as medições realizadas em Amundsen-Scott desde 1958 mostram que a concentração de dióxido de carbono continuam aumentando e já atinge 385 ppmv (partes por milhão por volume), concentração similar que nossos equipamentos estão medindo no Criosfera 1! Isso representa um aumento de 40% na conentração de CO2 desde o início da Revolução Industrial, por volta de 1780 (conforme determinado por testemunhos de gelo).

Mas, de todas as pesquisas, a mais avançada e também a mais estranha é  da investigação das partículas subatômicas neutrinos. Para isso, foram escavados dezenas de poços com 1 km de profundidade onde foram colocados sensores para detectar as raras colisões de neutrinos (uma das mais elusivas partículas subatômicas, com as moléculas de água que compõem o gelo. Trata-se na verdade de um cubo de gelo co de 1 x 1 x 1km . Para o avanço do conhecimento físico é essencial detectar essas partículas, algumas cosmogênicas e outras de origem solar. Os neutrinos são partículas de carga neutra, invisíveis, quase sem massa que viajam dos limites do Universo através de planetas e outras matérias sem serem absorvidos ou defletidos (estão constatemente atravessando seu corpo e a Terra).

>> Leia outros posts da série Um pouco de ciência

Convivendo com o frio: problemas médicos

26 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

Hoje, com a facilidade de montar-se uma dieta balanceada e roupas leves e térmicas, os problemas médicos foram muito atenuados e casos de mortes por exposição ao frio são raros. No entanto, temos que estar alerta aos seguintes problemas:

Queimadura pelo frio (frostbite) - é o início do processo de congelamento de parte do corpo. Se for externa (na epiderme), formará uma bolha parecida àquela de queimadura por calor. Se rapidamente tratada, problemas graves são evitados. Mas caso progrida para os vasos internos de um artelho, isso poderá levar a gangrena e amputação. Ainda hoje ocorre com aqueles que, descuidadamente, tiveram que trabalhar com metal sem proteção para a mãos (ou perderam suas luvas). Os dedos dos pés também são atingidos (e secar as botas e mudar as meias diárias frequentemente é essencial). Além disso, temos que observar constantemente se não há manchas brancas no nariz e bochechas de nossos colegas. Este será o primeiro sinal de queimadura por frio!

Hipotermia - Um dos problemas mais graves, pois se dá lentamente e geralmente é percebido em estado mais adiantado. A temperatura do corpo como um todo cai, por exposição aos elementos, e pode ser acelerada pela má alimentação e desidratação. Ao chegar a 35°C o corpo já está tremendo, mas mais grave será quando passado este estágio, o explorador começar a sentir-se sonolento. É claro, se progredir, levará a morte.

Desidratação - O problema médico mais frequente, recorrente em várias expedições ou até mesmo em estações. O interior da Antártica é muito seco e alto, ocorre mais facilmente perda de água do corpo. O problema é que o frio mascara a desidratação e o indivíduo não sente sede. Geralmente identificado pela dor de cabeça, dificuldade para dormir, urina escurecida e irritação.

Estamos dentro da maior reserva de água potável do mundo, infelizmente toda no estado sólido. Assim, umas das atividades essenciais de nosso acampamento é manter sempre uma panela derretendo neve.

>>> Leia outros posts da série Convivendo com o frio

Após um mês de frio intenso, o calor da família

26 de janeiro de 2012 1

Foto: Kamila Almeida

O voo número 7611 da Gol aterrissou às 6h20min desta quinta-feira no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Porém, os 15 integrantes da Expedição Criosfera passaram pelo portão de desembarque do terminal apenas às 7h25min.

Após mais de um mês no frio rigoroso, cada um deles trouxe nas bagagens, além de barracas e sacos de dormir, kits de roupas polares, especiais para a temperatura na Antártica, que varia de -15ºC a -40ºC. Contente em reencontrar a esposa e os dois filhos, o líder da expedição, o professor da UFRGS Jefferson Simões, conta que emagreceu cinco quilos:

— Isso é bom. Estou até sem barriga. Emagrecer é inevitável quando sobrevivemos em uma sensação térmica de -40ºC e dormimos a -8ºC — explica.

Segundo Simões, deve ser levado em conta também toda a força física empregada para montar equipamentos e barracas. No cardápio da viagem ao continente gelado, massa, cereais e enlatados, além de repolho e cenoura.

— Precisamos medir bem o que levamos na expedição. Porque cada quilo transportado custa US$ 25.

O professor, que está há oito anos sem férias, agora só pensa em pegar a estrada para seu apartamento em Atlântida, no Litoral Norte. Porém, isso deve acontecer apenas no mês que vem.

Convivendo com o frio: vestimentas

25 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

Um segundo mito existente sobre a exploração polar são as roupas usadas por nós. Roupas térmicas não tem fonte artificial para gerar energia (o que seria muito pesado). O que usamos são várias camadas (de 3 a 5) de roupas com propriedades diferenciadas e que retém o calor gerado pelo próprio corpo, ao mesmo tempo que perdem a umidade gerada pela transpiração.

Assim, usamos:
1 - Roupas de baixo leves e material artificial;
2 - Uma segunda camada para isolar e aquecer o corpo;
3 - Uma terceira camada grossa para também aquecer;
4 - Um corta-vento (uso quase constante) ou uma parka de pluma para os dias mais frios. Nos dias de frio extremo (abaixo de -30°C) temos que usar uma quinta camada para aquecimento.

O mais importante: todas as camadas são de fibras artificiais (pro exemplo: nylon, poliéster), feitas muitas vezes de material  reciclado (como de garrafas PET) e a camada externa feita de Gore-tex ou fibra similar (que permite passar a transpiração para fora, mas não deixar o vento entrar). O mesmo princípio é seguido para botas (duas ou mesmo três par de meias) e luvas (3 pares, ou até 4 se usarmos motos de neve).

Mesmo hoje, a dificuldade maior é evitar ao máximo a transpiração, principalmente se temos que fazer alguma atividade física. Uma das maneiras mais fáceis de cair em hipotermia é suar devido a um hiperaquecimento, pois logo depois nossas roupas molhadas congelam. Terrível sensação de frio! Assim, constantemente temos que administrar o número de camadas de roupas e a intensidade de nosso esforço. Evidentemente, qualquer atividade executada fora das barracas é muito mais lenta do que em um ambiente mais quente no Brasil.

O princípio das camadas até hoje não foi aprendido pelos gaúchos, que insistem em usar uma ou duas camadas grossas (geralmente de lã ou malha que retém facilmente a umidade e deixam passar o vento) no nosso inverno.

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FOTO: após carregar navio, equipe se reúne no Chile

25 de janeiro de 2012 0

Depois de seis dias no Chile, a equipe da Expedição Criosfera terminou de embarcar a carga no navio polar Ary Rongel, da Marinha do Brasil. Na foto, os pesquisadores com comandante Marcelo Luis Seabra Pinto.

Diário de Viagem: na volta para o Chile, o primeiro banho em mais de um mês

25 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

18 a 20 de janeiro – Punta Arenas, Chile (entre 8 a 17°C)

Dia 18 tomamos nosso primeiro banho desde 15 de dezembro. Isso é considerado um período curto, já fiquei quase três meses sem banho na Antártica. Um colega chinês teve de passar seis meses sem banho em uma travessia antártica!

Percepções: Após 4 semanas vivendo no meio da neve e do gelo, nossos sentidos ficam aguçados. Nos primeiros dias, notamos os cheiros, sons e principalmente as cores diferentes. Tudo nos parece mais verde (mesmo aqui na Patagônia Chilena), ou seja, após essas semanas no ambiente bicolor (branca da neve e azul do céu) completo silêncio (só o barulho do vento) no manto de gelo antártico. Nos primeiros dias de volta, tudo parece mais do que era antes.

Passamos os últimos três dias preparando a carga que embarcará no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Robgel (da Marinha do Brasil). Nesta segunda, 23 de janeiro, encerraremos oficialmente a expedição Criosfera.

Embarcamos para Porto Alegre no dia 25.

21 a 23 de janeiro – Punta Arenas, Chile

Hoje encerramos a expedição. Quinta-feira (26/01) chegaremos a Porto Alegre.

>> Leia o relato de outros dias da Expedição

FOTOS: equipe carrega equipamentos na saída do acampamento Criosfera 1

24 de janeiro de 2012 5

Depois de mais de um mês no continente gelado, a equipe, liderada pelo professor Jefferson Simões, se despediu da Antártica.

Em galeria de fotos, veja como foi a saída dos pesquisadores do acampamento avançado.

Aeronave da equipe, um DC-3, é carregada com esquis e outras bagagens dos pesquisadores

Bagagens individuais dos pesquisadores são colocadas no DC-3

"É duro o trabalho de colocar uma moto de neve dentro de uma aeronave", explica o professor Jefferson Simões

Equipe carrega caixas de testemunho de gelo  de 100 m (brancas) no DC3

Diário de Viagem: equipe retorna a Punta Arenas

20 de janeiro de 2012 3

Por Jefferson Simões

18 de janeiro - Geleira Union (79°46'S, 82°50'W; -6°C)

Fim dos trabalhos na Antártica e retorno à Punta Arenas, no Chile, onde o Ilyushin 76 com a equipe, carga e 500 kg de amostra de neve e gelo aterrissou às 22 horas. Nos próximos dois dias teremos intensa atividade de preparação de carga e embarque dos testemunhos de gelo para a Universidade do Maine, EUA.


Nossa chegada ao Brasil está prevista para segunda-feira, 23 de janeiro. Voltamos todos no mesmo voo, com exceção de dois colegas (Saulo Martins e Guilherme Fernandez) que ficarão na geleira Union completando um levantamento de fendas no gelo perto da pista de pouso, para melhorar a segurança dos pesquisadores e montanhistas que vão à região. Eles chegam a Punta Arenas nos próximos três dias.

Exaustos, só tivemos condições de tomar um banho (o primeiro depois de 30 dias) e jantar. Nos próximos dias, confira um breve relato das principais realizações da Expedição Criosfera.

>> Leia o relato de outros dias da Expedição

Diário de Viagem: de volta ao acampamento base da Geleira Union

18 de janeiro de 2012 0

Por Jefferson Simões

17 de janeiro (84°S, 79°29'39"W; 1287 m; -17°C, sensação térmica -35°C) - Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental

Trabalhos encerrados no Criosfera 1. A partir do meio-dia iniciou a correria para desmontar barracas e fechar o módulo para o inverno antártico. Como temos que trabalhar contra o vento, muitos dos nossos dedos e rosto ficaram dormentes. Às 16h30min, nosso DC-3 Bassler aterrissou na nossa pista de pouso improvisada na neve. Nosso desafio imediato: colocar 2 toneladas de carga (incluindo 600 kg de amostra de gelo), uma moto de neve, bagagem pessoal e  10 passageiros. Apertados, entre caixas e trenós, decolamos às 17h30min para nossa viagem de 470 km.

Agora o módulo Criosfera 1 funcionará totalmente automatizado, até o final do ano. Será que os diferentes sensores sobreviverão o longo inverno polar, sem luz a partir de meados de abril (estima-se que as temperatura do ar caia a -60°C no meio do inverno)?

17 de janeiro - Geleira Union (79°46'S, 82°50'W; -6°C)

19h -  Após 27 dias acampados e sob muito frio (a temperatura oscilou entre -9°C e -20°C; e a sensação térmica caiu a -42°C) chegar no acampamento base na geleira Union nos traz uma sensação de calor, pois estava -6°C e sem vento.

Somos recebidos com espumante para comemorar o sucesso da missão. Mas também comemoramos o centenário da chegada da expedição britânica liderada pelo Capitão Robert F. Scott ao Polo Sul Geográfico. Após atravessarem toda plataforma de gelo Ross, subirem as montanhas transantárticas e caminharem até o Polo Sul, Scott, Dr. Wilson (seu chefe científico), Capitão Oates, Tenente Bowers e o Sargento Evans, tiveram o dissabor de encontrar as bandeirolas e uma barraca de Amundsen (que tinha chegado lá no mês anterior, 14 de dezembro). A viagem de retorno resultaria na tragédia polar clássica, numa luta contra a situação meteorológica adversa, forme e exaustão, e finalmente a morte de todos os 5 companheiros.

Se a tentativa de Scott em chegar ao Polo acabou em tragédia, o mesmo não pode ser dito da parte científica da expedição. Alguns dos pioneiros da ciência polar, inclusive o primeiro professor titular de Geografia da Universidade de Cambridge, ficaram na costa da Antártica realizando uma série de investigações sobre o clima, geologia e biologia.

Teremos 24 horas para preparar nossa carga e se as condições meteorológicas permitirem, partir para Punta Arenas.

Um pouco de ciência: pesquisas no acampamento base da geleira Union 1

Enquanto estávamos no platô do manto de gelo, no local do Criosfera 1, nossos sete colegas que ficaram na geleira Union realizaram intensas investigações.

Rosemary Vieira, da Universidade Federal Fluminense, realizou trabalhos sobre a geomorfologia local e coletas de sedimentos para análises em laboratório. O objetivo é a reconstrução paleoclimática e paleoglaciológica da área, para entender-se como as variações climáticas de longo períodos afetaram a evolução das geleiras locais. Ela, como os outros grupos nas redondezas da geleira Union, tiveram que atravessar vários campos de fenda, mesmo as motos de neve tiveram que ser encordadas, para evitar uma queda fatal de pesquisador com seu veículo.

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