Por Jefferson Simões
17 de janeiro (84°S, 79°29'39"W; 1287 m; -17°C, sensação térmica -35°C) - Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental
Trabalhos encerrados no Criosfera 1. A partir do meio-dia iniciou a correria para desmontar barracas e fechar o módulo para o inverno antártico. Como temos que trabalhar contra o vento, muitos dos nossos dedos e rosto ficaram dormentes. Às 16h30min, nosso DC-3 Bassler aterrissou na nossa pista de pouso improvisada na neve. Nosso desafio imediato: colocar 2 toneladas de carga (incluindo 600 kg de amostra de gelo), uma moto de neve, bagagem pessoal e 10 passageiros. Apertados, entre caixas e trenós, decolamos às 17h30min para nossa viagem de 470 km.
Agora o módulo Criosfera 1 funcionará totalmente automatizado, até o final do ano. Será que os diferentes sensores sobreviverão o longo inverno polar, sem luz a partir de meados de abril (estima-se que as temperatura do ar caia a -60°C no meio do inverno)?
17 de janeiro - Geleira Union (79°46'S, 82°50'W; -6°C)
19h - Após 27 dias acampados e sob muito frio (a temperatura oscilou entre -9°C e -20°C; e a sensação térmica caiu a -42°C) chegar no acampamento base na geleira Union nos traz uma sensação de calor, pois estava -6°C e sem vento.
Somos recebidos com espumante para comemorar o sucesso da missão. Mas também comemoramos o centenário da chegada da expedição britânica liderada pelo Capitão Robert F. Scott ao Polo Sul Geográfico. Após atravessarem toda plataforma de gelo Ross, subirem as montanhas transantárticas e caminharem até o Polo Sul, Scott, Dr. Wilson (seu chefe científico), Capitão Oates, Tenente Bowers e o Sargento Evans, tiveram o dissabor de encontrar as bandeirolas e uma barraca de Amundsen (que tinha chegado lá no mês anterior, 14 de dezembro). A viagem de retorno resultaria na tragédia polar clássica, numa luta contra a situação meteorológica adversa, forme e exaustão, e finalmente a morte de todos os 5 companheiros.
Se a tentativa de Scott em chegar ao Polo acabou em tragédia, o mesmo não pode ser dito da parte científica da expedição. Alguns dos pioneiros da ciência polar, inclusive o primeiro professor titular de Geografia da Universidade de Cambridge, ficaram na costa da Antártica realizando uma série de investigações sobre o clima, geologia e biologia.
Teremos 24 horas para preparar nossa carga e se as condições meteorológicas permitirem, partir para Punta Arenas.
Um pouco de ciência: pesquisas no acampamento base da geleira Union 1
Enquanto estávamos no platô do manto de gelo, no local do Criosfera 1, nossos sete colegas que ficaram na geleira Union realizaram intensas investigações.
Rosemary Vieira, da Universidade Federal Fluminense, realizou trabalhos sobre a geomorfologia local e coletas de sedimentos para análises em laboratório. O objetivo é a reconstrução paleoclimática e paleoglaciológica da área, para entender-se como as variações climáticas de longo períodos afetaram a evolução das geleiras locais. Ela, como os outros grupos nas redondezas da geleira Union, tiveram que atravessar vários campos de fenda, mesmo as motos de neve tiveram que ser encordadas, para evitar uma queda fatal de pesquisador com seu veículo.
>> Leia o relato de outros dias da Expedição