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luxo!

20 de fevereiro de 2010 8

Reprodução
Neste sábado rola no Rock Bühne Key Club, o famoso “bar da chave” na Rua das Palmeiras, uma festa em comemoração aos 30 anos da chegada de Erich Thun a Blumenau.
Já que o dia é de festa, encontrei no arquivo do Santa um perfil do “alemão” escrito por Susan Liesenberg para a Viver! (de 24 e 25 de novembro de 2007).
Ninguém melhor para sabatinar uma das mais interessantes (e controversas) figuras da noite blumenauense.
O texto é uma delícia.

Erich on the rocks

Estrelas do rock são exageradas. Conquistam o paraíso – um lugar onde, para elas, geralmente há muito sexo, música e festa – pecando pelo excesso sem carregar o peso da culpa. Erich Thun nunca compôs uma música, escreveu uma letra ou tocou um instrumento. Mas é um rockstar. Tudo nele é muito. Tudo nele é intenso. Tudo nele é excessivo. Dono do Rock Bühne Key Club, na Rua das Palmeiras, ele reuniu gente como Mick Jagger, John Lennon e Jimi Hendrix no mesmo lugar. Sem crise de identidade ou risco de processo autoral, Erich fez de si um personagem original plagiando os ídolos.
– Eu sou um pouco de tudo o que me cerca – simplifica, entre pôsteres, luzes, quadros, cores, fotos, gritos e discos.
Mãe. Mãe faz toda a diferença. Se a ausência dela é capaz de gerar crises, a presença gera Erich. Margarethe, hoje com 82 anos, deu ao filho o primeiro empurrão para o estrelato. Um sax ou um rolo de fita para gravar músicas como presente de aniversário? Com os hormônios em transe no auge dos anos 60, o espírito leonino rugiu. Naquele 3 de agosto, optou pelo gravador e começou a tocar a trilha sonora de uma história dançante. Aos 14 anos, passaria a noite embalado por Roy Orbinson, e o resto da vida, pelo rock’n’roll.
– A única coisa que diferencia quem curte o ritmo é a idade. Jovens, velhos, todos ouvem rock. O que os une é que ele coloca qualquer um pra dançar, ele inclui. Música tem que ter catarse, tem que liberar o espírito, e isso, só ele faz – atesta.

Metralhadora

Discos eram caros, raros. A grana, mais ainda. Erich ganhou no emprego como tipógrafo o dinheiro para comprar os primeiros vinis. Tudo ia bem, não tivesse de trocar anos depois os LPs por um instrumento que sempre dá a mesma nota. No exército, de metralhadora na mão, stop com Rolling Stones!
Da Braunschweig natal para os campos de treinamento. Por um longo período, o único som eletrizante ouvido na caserna era o uivo dos mísseis. Mas Erich queria mesmo era bombar em outro lugar. Concluiu o serviço militar e marchou até as fervidas pistas de Berlim. Tirou a farda, vestiu-se de anos 70 e virou DJ.
– A música transforma as pessoas. Eu gosto de sentir a vibração na pista e vê-las incorporarem seus ídolos, mesmo que seja por minutos, mesmo que seja pelos instantes que duram uma música – amplifica o disc-jóquei dos ilustres anônimos perdidos na noite.
A cabeleira blond-power brilhou absoluta pela Europa. Na Dinamarca, tocou na inauguração da boate Key Club, que estava para os europeus assim como a Studio 54 foi para os nova-iorquinos, um desbunde exclusivo onde só entrava quem era convidado – ou tivesse a chave, no caso da boate escandinava –, esquema adotado no Key Club que ele abriria aqui nos trópicos, anos depois.
Foi num cenário tropical, aliás, que Erich decidiu vir ao Brasil. De férias em Ibiza, encantou-se pelo balançar das palmeiras das praias espanholas. Mas faltava swing naquele balanço. E a caminho de um outro mar, em 1977, ele desembarcou no Rio de Janeiro. Apaixonou-se perdidamente. Mas foram as palmeiras da Alameda Duque de Caxias, em Blumenau, estas sim, que preencheram seu coração há 27 anos.
Em 1980, de volta ao Brasil, ele ouviu falar de Blumenau. A bordo do navio, o funcionário de uma vinícola gaúcha lhe garantiu que o paraíso era aqui, promessa que mudou do vinho para a água. Nos primeiros anos, Erich e seus discos conheceram a enchente. Mas a lama, como a poeira, sempre baixa. E ele lavou a alma da desgraça ao se tornar a figura mais pop da noite blumenauense.
A melhor festa da cidade atendia por Cabaret, casa de shows-cover de Liza Minelli e dos personagens do filme Victor & Victoria, no térreo do Hotel Bavária. Filas de dobrar a esquina, algumas mesas, muita gente e Erich no som. Foram dois anos de ferveção apenas, mas histórias que até hoje arrepiam os pêlos dos mais nostálgicos.
Anos memoráveis, como foram os de 1982 a 1992, na Joy, nome do seu point definitivo na Rua das Palmeiras – mais tarde rebatizado de Rock Bühne Key Club, o Clube da Chave do Palco do Rock – de onde nunca mais saiu. Nem alguns personagens, que, na memória dele, vão ficar lá para sempre:
– Lembro das pessoas pelas músicas que curtem. Elas traduzem nossos sentimentos, revelam nossa alma, mostram quem somos. Eu conheço cada um que entra aqui pelo ritmo dos passos, pelo balanço do corpo. E não me engano nunca. São mais de 40 anos de night, meu bem.
É assim, pelo tempo de diversão, que ele conta a idade.

Mulheres e discos

Erich só desacelera a batida quando fala da vida pessoal. Casou-se uma vez, noivou outras seis, tem três filhas – residentes na Europa –, um irmão e mantém um sítio no Garcia/Jordão onde cria seus cães, paixão que vem depois de mulheres e música, nesta ordem. Sobre o sexo feminino, um dado importante: Erich afirma que conquistou mais mulheres do que teve discos. Perdeu a conta dos discos.
Como qualquer estrela do rock, ele cultiva o ego mais do que a modéstia. É com sonoros “eu sei” que responde a elogios, a maioria feitos dele para si mesmo. Sim, excessivo, intenso, muito muito, muito tudo. Da mesma forma como ele venera o público para quem toca, como ele grita para quem se permite pecar pelo excesso sem carregar o peso da culpa, nem que seja pelos instantes que duram apenas uma música, Erich é único, é original. Erich é um luxo!

Postado por Cristiano

Comentários (8)

  • Iggy Pop diz: 23 de fevereiro de 2010

    Luxo? muito legal o bar dele, mas não tem nada de luxo um bar que serve vinho Campo Largo, cerveja quente e vodka em copo trincado.

  • Junior Sofiati diz: 23 de fevereiro de 2010

    continuação…Depois desse dia jurei para mim mesmo nunca mais botar os meus pés no bar. Sem contar que quase todas as vezes que fui a cerveja estava quente. E algumas vezes tive o azar de ser servido em copos sujos e cheios de poeira, e quando fui pedir para trocar, fui ignorado.Vi pessoas negras serem barradas várias vezes. Só vi pessoas de cor entrarem acompanhadas de alguém que ele conhecia melhor. Como disse antes, é uma pessoa muito preconceituosa,pra não dizer racista. sad…but true :(

  • Patrícia Lima diz: 22 de fevereiro de 2010

    Erich é chave na porta, é música alta, é copinho cheio de misturinha do demo! É a reinvenção da Rua das Palmeiras, é quase um Lado C. É tudo de bom! “Fiadapuutaaa”!!!

  • Pessoa Comum diz: 20 de fevereiro de 2010

    E desses aí você não tem medo? hehe

  • Raffael diz: 23 de fevereiro de 2010

    Eu quase fui expulso do bar este débil simplesmente por estar usando um boné. Ele é grosseiro, racista e se acha o cidadão mais cool do mundo.

  • Isabela diz: 21 de fevereiro de 2010

    Saudade dos textos da Susan. Muito bons, sempre.

  • Junior Sofiati diz: 23 de fevereiro de 2010

    Acho o bar do Erich o melhor ambiente para um bar aqui em Blumenau. Se eu tivesse como comprar o espaço, não hesitaría em fazer-lo. O problema é este “ser” que está atrás do balcão. Sei que muita gente puxa o saco e o bajula, mas para mim ele não passa de uma pessoa arrogante, preconceituosa e sem graça. Resumindo, uma pessoa triste. Fui várias vezes ao bar, inclusive toquei com minhas duas bandas (Enzime e Cuba Drinker and the Hi-fi´s), uma vez com cada uma delas.(continua…)

  • Junior Sofiati diz: 23 de fevereiro de 2010

    (continuação…)E posso dizer que TODAS as vezes que estive lá fui mal tratado de alguma forma. A última delas foi em 2008. Na época não estava morando em Blumenau e estava aqui de férias. Quando cheguei ao bar tirei algumas fotos, simplesmente para mostrar aos meus amigos um bar da minha cidade, para eles verem o quanto era legal a decoração e tudo mais, e simplesmente ouço do Erich: “quem te deixou tirar fotos do meu bar?”.De uma maneira muito grosseira…(continua…)

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