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Um herói africano

24 de junho de 2010 0

Terceiro conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento, o médico Denis Mukwege fala na noite de segunda-feira, às 19h30min, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mukwege é o tema principal da edição do próximo sábado do caderno Cultura, de ZH.

Num momento em que o continente africano atrai atenção mundial em razão da Copa do Mundo, a presença do médico congolês na Capital contribui para que se saiba mais sobre a região. Leia a seguir artigo do psicólogo gaúcho Cláudio Cézar Dutra de Souza, mestrando em sociologia pela Universidade de Paris, sobre a trajetória de Mukwege:

“Nascido em 1955, no então chamado Congo Belga, atualmente República Democrática do Congo, Denis Mukwege é o terceiro de uma família composta de nove filhos. Desde seus primeiros anos de vida, ele testemunhou ocorrências tristemente comuns a tantos países africanos, cuja história de exploração sistemática pelos poderes coloniais europeus no passado reverbera ainda no presente na forma de sangrentas guerras fratricidas, genocídios e golpes de Estado que assolam o continente. Esses conflitos, perpetrados por ditadores subservientes aos interesses econômicos externos ou pelos grupos rebeldes que lutam pela tomada de poder, mantêm amplos segmentos da população civil em um estado de barbárie que já vitimou centenas de milhares de pessoas nas últimas décadas.

Seu pai era pastor da igreja pentecostal de Bukavu, na província de Sud-Kivu, e desde pequeno Denis tinha o hábito de acompanhá-lo em visitas de conforto a hospitais de vítimas de guerra. Um dia, ele perguntou a seu pai porque também não tratava as vítimas, além de rezar por elas. Seu pai respondeu simplesmente:

– Porque não sou médico.

A lembrança do humanismo paterno deixaria marcas em Denis Mukwege, que iria aliar, no futuro, sua sofisticada técnica médica com as preocupações sociais. Em suas palavras: – O puro tecnicismo médico não é suficiente. Quando se combina a técnica com os cuidados humanitários é que realmente fazemos um bom trabalho. Mukwege decidiu estudar medicina no Burundi e depois especializou-se em ginecologia e obstetrícia no Centre Hospitalier Universitaire d’Angers, na França. Sensibilizado com a situação de mulheres que morriam desnecessariamente em razão da ausência de cuidados pré-natais, em 1989 Mukwege fundou um centro de ginecologia e obstetrícia no Hospital Protestante de Lemera, situado em Sud-Kivu, extremo oeste do Congo.

Em outubro de 1996, sob a liderança de Laurent Kabila, iniciaram-se os protestos que iriam por fim aos 32 anos da ditadura de Joseph Mobutu. O hospital de Lemera foi atacado por grupos rebeldes que decidiram, sob as ordens de Kabila, fazer de Sud-Kivu o local de início da guerra que o levaria ao poder no ano seguinte. O saldo do ataque ao hospital foi a morte de dezenas de pacientes, entre eles mulheres grávidas e agentes de saúde barbaramente assassinados. O estoque de medicamentos, os veículos e todo o patrimônio do hospital foi destruído e incendiado pelos rebeldes. Mukwege, que estava na cidade de Bukavu nesse dia, foi o único médico a escapar com vida. Ele foi então acusado de espionagem e teve que deixar Bukavu no porta-malas de um carro, retornando apenas um ano mais tarde.

Em 1999, ele funda o Hospital Panzi, em Bukavu, cidade que conta atualmente com 245 mil habitantes e que acolhe também as populações de cidades vizinhas. Inicialmente projetado para ser um hospital maternidade, suas atividades tiveram de ser expandidas em razão do assustador número de mulheres e meninas que buscavam ajuda para tratar os severos ferimentos resultantes de estupro e violências sexuais. Uma das características mais avassaladoras em relação à situação de guerra no Congo é a utilização do estupro como arma de guerra. Isso significa que existe uma intensa política de violência sexual contra mulheres de todas as idades, perpetrada por ambos os lados em conflito, no intuito de desestabilizar o inimigo. Além de humilhadas e severamente machucadas, as vítimas do estupro de guerra frequentemente sofrem com a rejeição imposta pelo seu meio social, que tende a rejeitá-las e a tratá-las como párias após o ocorrido. Vítimas de violência sexual chegam todos os dias ao Hospital Panzi, e na maioria das vezes o estado delas é deplorável.

Para Mukwege, as palavras “estupro” e “violência sexual” não traduzem fielmente o horror por ele testemunhado em milhares de casos atendidos. Além dos estupros, os soldados também introduzem objetos cortantes nos genitais femininos com o intuito de mutilá-los permanentemente. Esses atos de atrocidade se constituem uma política meticulosamente planejada e estimulada para humilhar e intimidar o inimigo, gerando o caos nas comunidades atingidas. O hospital chefiado por Mukwege atende centenas de mulheres a cada mês e, além das cirurgias de reparação de mutilações genitais, ele oferece também tratamento para HIV, acolhimento psicossocial às vítimas, treinamento de novos agentes e auxílio a crianças geradas pelo estupro.

Mukwege utiliza uma técnica muito particular de reconstrução vaginal que anteriormente só era praticada no Hospital de Addis-Abeba, na Etiópia. As mulheres permanecem hospitalizadas entre três a seis meses, em média e, nesse período, passam por duas a quatro intervenções de cirurgia reconstrutiva. O Hospital Panzi também investe cuidadosamente na formação de profissionais habilitados a enfrentar a avalancha de casos de estupro, tortura e mutilação de meninas e mulheres congolesas.

Mencionado por dois anos sucessivos entre os candidatos ao Prêmio Nobel da Paz, Denis Mukwege foi laureado, em 2008, com o Prêmio Olof Palme, concedido pela Suécia àqueles que se destacam pela promoção da paz, assim como recebeu, no mesmo ano, o prêmio de direitos humanos da ONU. O embaixador da França na República Democrática do Congo, Pierre Jacquemot, outorgou-lhe em novembro de 2009 as insígnias francesas da Legião de Honra. Honrarias dignas de alguém que une a perfeição técnica da medicina ao humanismo e que é também um ativista político que dedica sua vida a trazer a esperança em situações onde imperam o irracionalismo e a maldade humana.”

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