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Triste e obrigatório roteiro

03 de setembro de 2010 8

VINICIUS VACCARO*

“O papel do historiador não é dissentir gratuitamente, mas contar o que é quase sempre uma história desconfortável e explicar por que o desconforto é parte da verdade de que precisamos para viver bem e de forma adequada”
Tony Judt, historiador britânico (1948-2010)

Este post bem poderia estar recolhido ao blog Recortes de Viagem, da colega Rosane Tremea. Mas não se trata de um roteiro qualquer. Em que pese as hordas de turistas que para lá se dirigem diariamente, alguns reunidos em ruidosas excursões, visitar os antigos campos de concentração e extermínio de Auschwitz, na Polônia, é uma experiência singular. E dolorosa.

Porque, por mais que tenhamos lido a respeito do genocídio, assistido a filmes e documentários sobre as atrocidades na II Guerra, ninguém está preparado para deparar com os escombros da maior vergonha da humanidade, o Holocausto. Não é qualquer endereço que simboliza o horror institucionalizado, perpetrado por um Estado contra minorias, uma perseguição sistemática que dizimou mais de 6 milhões de pessoas.

Era a última semana de abril. Ficaríamos, eu e minha mulher, Paula, três dias em Cracóvia, no início de uma primavera europeia que nos brindava com tempo ensolarado e temperatura amena. A visita a Auschwitz já estava programada. Estávamos a cerca de 60 quilômetros dos campos da morte, era obrigatório conferir com os próprios olhos aquilo que alguns poucos ainda insistem em negar. Mas deixamos esse triste roteiro para depois. Decidimos, antes, circular por ruas e bairros históricos dessa joia do Leste, uma das poucas grandes cidades ocupadas pelos nazistas preservadas na II Guerra – diferentemente da capital polonesa, Varsóvia, devastada pelos alemães e que ficou no caminho da contraofensiva soviética.

No balcão do hotel havia ofertas de pacotes de um dia de visita guiada aos campos, em excursão de ônibus. Compramos um pacote, mas para um outro roteiro, no dia seguinte. Para Auschwitz, não. Não era assim que planejávamos conhecer algo que jamais deveria ter existido. Tomamos um táxi e rumamos para a estação ferroviária, no centro de Cracóvia. No meio da manhã, deixamos a cidade de trem, por módicos dois ou três euros, numa lenta viagem. Cerca de uma hora e meia depois, desembarcamos na pequena estação de Oświęcim, o nome em polonês da cidadezinha escolhida pelo nazistas para abrigar os mais temíveis campos de concentração de Hitler.

Na cidade, somos recebidos por espécies de agentes funerários. Existe cortesia, mas não há sorrisos. É como se houvesse um entendimento tácito entre os visitantes e os locais de que a cidade vive de uma tragédia, mas ninguém se orgulha disso. Foi praticamente em silêncio que chegamos a Auschwitz I – o primeiro dos três campos do complexo e que hoje abriga o principal museu do Holocausto no mundo – após curto deslocamento de ônibus e uma breve caminhada por um bairro residencial dessa pequena cidade do sul da Polônia .

Também foi silencioso o percurso entre os pavilhões de Auschwitz I, logo após cruzar o pórtico com a cínica mensagem em alemão Arbeit macht frei (O trabalho liberta). Cada bloco retrata um capítulo da perseguição nazista, em especial aos judeus espalhados por países como Holanda, Itália e Polônia. O bloco 11 talvez simbolize a maldade humana elevada à enésima potência. Considerada a prisão dentro da prisão, era por trás dessas paredes localizadas em uma das esquinas do campo que prisioneiros indesejados – como supostos líderes de eventuais rebeliões – eram supliciados até a morte. Alguns dos castigos consistiam em prendê-los dentro de celas acanhadas a ponto de não se poder sentar. Em uma masmorra, que tinha apenas uma pequena abertura para o exterior, alguns presos eram simplesmente abandonados à morte, sem receber alimentos.

Depois de cerca de duas horas de visita ao museu, resolvemos seguir para Auschwitz II, ou Auschwitz-Birkenau, distante três quilômetros de Auschwitz I. Diferentemente do primeiro campo, onde há muito para ler e ver, no maior e mais terrível campo de extermínio que já existiu é preciso sentir. Em Birkenau, tranformado em uma espécie de memorial do sofrimento judeu, é difícil afastar da mente a reconstituição da chegada dos prisioneiros em trens de transporte de gado. Famílias sendo separadas, muitos com a esperança de que resistiriam ao sofrimento, outros resignados, conscientes que desembarcavam ali para morrer.

Caminhe sem pressa em Birkenau. Procure se isolar dos demais visitantes (não é difícil, o campo tem 5 milhões de metros quadrados). Reflita. E constate a que ponto o desprezo pela vida pode chegar.

Restam poucos pavilhões nos quais milhares de judeus, prisioneiros de guerra russos e ciganos ficavam amontoados, em ambientes insalubres. Dos infames crematórios, para os quais eram conduzidos preferencialmente velhos, mulheres e crianças – aqueles que não serviam ao “esforço de guerra alemão” –, só se veem ruínas.

Mas a torre na entrada do campo, aquela por baixo da qual cruzavam trens abarrotados de seres humanos condenados ao extermínio, aquela torre permanece intacta. E que continue assim. Para que a história não se repita, é preciso conhecê-la.

*Editor, visitou Cracóvia e Auschwitz

Comentários (8)

  • elio diz: 4 de setembro de 2010

    Chega a ser revoltante quando alguns inimigos dos judeos negam este crime horrendo que ceifou a vida de mais de 6 milhões de pessoas.Como podem negarem isso !?

  • Recortes de Viagem » Arquivo » Cracóvia, uma joia do Leste diz: 4 de setembro de 2010

    [...] O principal deles é conhecer os campos de concentração de Auschwitz (Oświęcim, em polonês), distante cerca de 60 quilômetros. Na área declarada patrimônio mundial pela Unesco, dois campos preservados expõem a crueldade sem limite do Holocausto. Nos balcões dos hotéis há ofertas de roteiros com guias. Se preferir uma viagem mais reservada e sem pressa, experimente ir para lá de trem. Programa-se para passar o dia em Auschwitz (leia mais sobre esse roteiro no blog do caderno Cultura, clicando aqui). [...]

  • Paula diz: 4 de setembro de 2010

    Informação e sentimento juntos, excelente texto.

  • Guilherme diz: 4 de setembro de 2010

    É importante manter a verdade… só não podemos deixar que esta verdade inconveniente seja usada para um povo cometer injustiças contra outro, como é o caso lá na tal terra santa.

    Mas falando de verdades… e o tal livro que ninguém deixa publicar? Por que o Mein Kampf ainda causa tanto tabu? Alguém ainda teme que a palavra escrita do ditador possa “nazistificar” as massas novamente? Que alguém ainda caia naquele papo de que a culpa é toda do judeu? É muita pretensão… é uma coisa que deveria ser falada, assim como falamos sobre drogas, sexo, violência… são desagradáveis, mas falamos nelas…

  • Carolina diz: 5 de setembro de 2010

    Concordo. Não podemos esquecer. Quem puder, visite o Museu do Holocausto (Yad Vashem), igualmente difícil e obrigatório, está repleto de pertences, fotos, histórias, documentos. Impossível não chorar e não se colocar no lugar daquelas pessoas, que eram como nós, adultos, crianças, idosos, jovens, mas foram tratadas com muita crueldade. Quem não conhece sua história corre o risco de cometer os mesmos erros.

  • Eduardo diz: 6 de setembro de 2010

    Excelente artigo.

  • Yago Pabalis diz: 9 de setembro de 2010

    Ótimo texto!!

  • Dido diz: 19 de outubro de 2010

    Não se pode negar o holocausto dos judeus e não se pode esquecê-lo. Pena é que grande parte dos descendentes das vítimas esqueceu … ou fingiu que esqueceu… e repete a receita com o povo palestino. Uma infâmia tão grande quanto a que cometeram os nazistas, porém, com a aprovação dos Estados Unidos e de seu séquito, para quem a existência do infame Estado israelense é de grande interesse. Realmente a humanidade não quer a justiça. Nem mesmo a felicidade. Poder e dinheiro é o que interessa.

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