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12 de março de 2012 0

Para lembrar

um prazer


SANDRA SIMON

Você já se sentiu inteligente, feliz, levitando numa atmosfera de finesse? Nós, que estávamos na Palavraria no fim da tarde de sábado, nos sentimos inteligentes, finíssimos e, sobretudo, felizes. Reunidos para ouvir a leitura de poemas e prosas de Paulo Neves traduzidos para o francês por Nicole Pegeron, descobrimos nosso amigo (por tímido, a antítese do orador) num à vontade quase faceiro. Apresentou-nos Nicole, a professora que surpreendeu-o ao enviar-lhe, um dia, a tradução dos poemas de viagem, espera. Fascinante surpresa, que resultou na tradução do livro inteiro (os 40 poemas e os escritos), numa colaboração em que o tradutor de francês para o português dialogava com a tradutora de português para o francês.
À entrada, como numa missa, recebíamos em folhinhas a seleta de originais e traduções que seriam lidos e comentados em seguida. Comentários do poeta sobre a inspiração na origem de um poema, sobre um sonho, uma memória, e também finas observações sobre os achados da tradução, as sutilezas, a palavra perfeita que sofistica o verso em francês com uma aliteração, um duplo sentido, um capricho da língua.
Paulo, num microfone. No microfone ao lado, Nicole, discretíssima. Paulo lê o poema Um velho. Ao fim, Nicole respira e pronuncia: “Un vieux”. “Dans une bicoque de bois / un vieux s’appuie à la fenêtre / et regarde, peut-être, le soir venir.” Ficamos em estado de suspensão diante daquela voz, daquela melodia, daquela antiimpostação. La lectrice, Nicole é la lecrtice que se revela diante de nós. As pessoas se perguntam onde ela vive – na França, aqui? –, e alguém conta que ela está morando aqui, e que é uma história de amor. Tanto mais lindo…
Uma hora imersos no prazer daquelas vozes, na beleza daqueles poemas, no prazer e na beleza da língua francesa. E, de repente, parece quase óbvio: o poeta sonhou um sonho reverso. Os poemas surgiam em francês, num sonho. Só depois foram passados ao português pelo poeta desperto, em amnésia.
E, ao fim, saímos da Palavraria lotada para o calor da noite que cai e estamos um pouco inebriados de sofisticação, um pouco mais inteligentes e muito felizes.

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