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Artista que não acaba mais

28 de março de 2012 0

É muito difícil aquilatar a obra de um artista do porte de Millôr Fernandes (1924 — 2012). O mais seguro é dizer o que Millôr não fez.

Millôr não fez TV. Oportunidades, com certeza, não lhe faltaram. Estreou profissionalmente na revista O Cruzeiro, da cadeia Diários Associados, de Assis Chateaubriand, responsável pela primeira emissora de TV do Brasil, a Tupi, criada em 1950. Muitos ases do humor brasileiro emigraram do rádio para a TV — Chico Anysio, Max Nunes, Haroldo Barbosa, Manoel de Nóbrega. Outros, como Jô Soares, saíram dos palcos para a telinha. Até mesmo Sérgio Porto, também conhecido como Stanislaw Ponte Preta, chegou a fazer TV (Lalau era tão tímido, lembra seu amigo Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, que no início se apresentava de costas para a câmera). Millôr permaneceu distante desse veículo, que desprezava. Na cronologia biográfica postada em seu site, escreve sobre o auge, em 1950, da seção Pif-paf, em O Cruzeiro: “Na redação, entrevista para o rádio, uma espécie de televisão da época, muito melhor, porque sem imagem”.

Millôr não fez música. Caetano Veloso, um de seus muitos desafetos, nunca o perdoou pela sátira ácida a que foi submetido nas páginas do Pasquim ao voltar do exílio, no início dos anos 1970. Em célebre entrevista nos anos 1980, disse ter ouvido de Jaguar algo mais ou menos assim: “Não é que o Millôr odeie você. Ele odeia música”. Com Chico Buarque, a briga chegou às vias de fato. Em entrevista, Millôr disse que o autor de O Que Será era alguém a quem não “confiaria o cachorro para passear”. Uma noite, num bar do Rio, o tempo fechou entre Chico e Millôr. Integrantes da primeira redação do Pasquim acreditam que, nos dois casos, o motivo da incompatibilidade não era político nem estético, mas atendia pelo nome de Tarso de Castro — jornalista gaúcho, fundador do Pasquim e, não por coincidência, amigo de toda vida de Caetano e Chico. Millôr e Tarso travaram um duelo pesado pelo controle do Pasquim depois da “gripe”, como ficou conhecido o episódio em que a maioria da equipe do jornal foi presa no final de 1970 e início de 1971. Mas é difícil acreditar que Millôr odiasse música. Em 1967, ele chegou a se apresentar em um show (como “ator”, é verdade) ao lado de ninguém menos que Elizeth Cardoso e Zimbo Trio.

Millôr, até prova em contrário, não fez cinema. Se cultivava alguma preferência nesse terreno, pouco fica revelado em seus escritos — talvez preferisse ouvir o que seu amigo Ivan Lessa tinha a dizer sobre o assunto. A fala de um personagem de Computa, Computador, Computa dá uma pista sobre o que ia pela cabeça do autor: “Sim, irmãos e patrícios, nossa mediocridade está seriamente ameaçada pelos progressistas ateus que pretendem nos esmagar com sua personalidade individual. Estamos seriamente infiltrados em nossa medíocre intimidade. Querem acabar com nossos medíocres programas de televisão. Com o Festival da Canção. Com o sinteco, o cinema novo e o cinema velho”. Não se furtava, porém, a dar seu testemunho sempre que procurado, fosse sobre o Pasquim ou sobre amigos, como pode ser constatado, entre outros, no documentário A Mochila do Mascate (2006), de Gabriela Greeb, sobre Gianni Ratto.

Descontadas essas três artes, Millôr foi exímio em todo o resto. Cronista, poeta, contista, dramaturgo, roteirista de espetáculos, tradutor, colunista, criador e administrador de jornais, artista gráfico, ilustrador, chargista, escritor sem estilo, jornalista sem fins lucrativos, guru do Meyer, inofensivo à camada de ozônio, ofensivo à burritsia (como ele próprio apelidou “nossa elite política”, lembrando que os russos do século 19 chamavam sua elite intelectual de “inteligentsia”) — Millôr era artista que não acabava mais.

Millôr não fez TV, música e cinema. Pior para esses três.

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