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Getúlio Vargas, com exclusividade, no Cultura

19 de maio de 2012 0

O caderno Cultura deste sábado traz a nova e badalada biografia de Getúlio Vargas. Em reportagem, entrevista e comentários, os leitores terão a chance de conhecer um pouco sobre Getúlio 1882-1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50), que cobre o período gaúcho da vida do político de São Borja.

O Cultura também traz, com exclusividade, trecho inédito do segundo volume da biografia. Programado para 2013, o texto cobre a vida de Getúlio de 1930 a 1945, dando sequência ao trabalho que acaba de chegar às livrarias. Em 2014, está previsto o terceiro e último volume, que trará o período de 1945 a 1954:

Confira trechos do primeiro volume:

Aos sete anos o esquivo Getúlio assistira às contingências da política invadirem-lhe a porta de casa e se instalarem no seio familiar. Às vésperas da quartelada que resultou que resultou na Proclamação da República, em 1889, os Vargas e os Dornelles se viram situados em campos políticos radicalmente opostos. O pai de Getúlio se declarou republicano convicto. Os irmãos de dona Candoca, ao contrário, como a maioria, permaneceram fiéis aos liberais comandados por Gaspar Silveira Martins, o homem que “mandava e fazia chover” no Rio Grande do Sul naquelas últimas décadas do Império.”

Os dois clãs, Vargas e Dornelles, esqueceram a origem em comum. Ambos eram provenientes de troncos familiares que remetiam aos casais açorianos que, no século XVIII, haviam desembarcado no Brasil com a ilusão de encontrar aqui a Terra Prometida. Seus antepassados vieram em navios superlotados, obrigados a suportar mais de dois meses numa travessia marcada pela escassez de água e alimentos. Muitos foram atirados ao mar, depois de morrerem vitimados por doenças provocadas pela desnutrição e pela falta de higiene a bordo. Ao desembarcarem, em vez das benesses anunciadas, descobriram-se abandonados.

Sem a apregoada ajuda governamental, uns vagaram ao léu, outros aos poucos começaram a se aclimatar ao novo país, e, com isso, deram início a núcleos de povoamento que seriam a origem de várias das futuras cidades gaúchas, inclusive a capital Porto Alegre. Cinco ou seis gerações depois, com a ocupação gradativa de territórios e a luta contínua pela posse de terras, alguns dos descendentes dos pioneiros açorianos haviam se firmado como estancieiros no interior da província. Era o caso dos Vargas e dos Dornelles, irmanados pela linhagem, mas tornados arquirrivais pelas circunstâncias da política partidária.

Como atestado de que era um antimonarquista histórico, o pai de Getúlio evocava um episódio ocorrido ainda nos tempos da Guerra do Paraguai, quando num gesto de promoção política o imperador d. Pedro II decidiu vistoriar o front, o que levou o monarca até a cidade de Uruguaiana, onde os paraguaios estavam submetidos ao cerco das tropas da Tríplice Aliança. Na ocasião, o oficial Manuel Vargas tivera a oportunidade de conhecer o imperador de perto mas, segundo ele próprio afirmaria depois ao filho Getúlio _ e mais tarde aos netos _, recusara a honraria:

“Eu não ia beijar a mão de um homem de falinha de mulher, barba de milho, mãozinha delicada. Eu não fui falar com ele não”, gabava-se o bigodudo Manuel Vargas.

Seja isso fato ou folclore familiar, o certo é que o pai de Getúlio colaborou em uma das ações táticas mais significativas da pregação republicana: o abolicionismo. Antes da decretação da Lei Áurea, em consonância com a orientação emitida pelo congresso de 1884 do Partido Republicano do Rio Grande do Sul (PRR), Manuel Vargas concedeu a carta de alforria a todos os escravos da estância _ muito embora, na zona de fronteira onde estava localizada a Fazenda Triunfo, o trabalho dos cativos nunca tenha representado uma presença realmente ativa na economia rural, ao contrário do que acontecia nas regiões rio-grandenses dedicadas à produção de outro produto básico da economia regional, o charque.

Do mesmo modo, Manuel Vargas apoiou, desde a primeira hora, o nome do chefe do PRR, Júlio de Castilhos, para o comando político do estado. Não era à toa que Manuel mantinha o retrato do líder na parede principal da sala de jantar da fazenda. Castilhos, nascido em Cruz Alta, zona das serras gaúchas, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, havia sido o principal redator do jornal A Federação, combativo órgão da propaganda republicana local na chamada fase heroica do movimento. Gago, baixinho, atormentado pelas cicatrizes da varíola que lhe havia devastado o rosto na infância, Castilhos era um orador medíocre, mas um demônio diante de uma folha de papel em branco. Seus artigos, carregados de ironia e furor, fustigavam adversários e arrebatavam leitores. Entre estes últimos, incluía-se Manuel Vargas, assinante compulsório de A Federação, o “alcorão partidário”, como o jornal viria ser definido, e cujos exemplares chegavam à Fazenda Triunfo sempre atrasados, em companhia da correspondência trazida na mala semanal dos correios de Porto Alegre até São Borja, distantes quase 600 quilômetros uma da outra. (Páginas 36 e 37)

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.

“A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas”, escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. “Bem se diz _ e uma vez me repetiste _ que para vencer, às vezes, basta esperar”, alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.

É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio _ ou qualquer outro filiado ao PRR _ não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.

“O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria”, protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.

A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.

Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.

João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: “Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado”, escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. “Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado”, denunciou a Hiena. “Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo”, acusou João Francisco.

Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.

“Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido”, condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.

Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um “sargentão sem compostura”, paparicado por oficiais que não passariam de um “canalha” que precisava “de uma reprimenda para entrar na disciplina”. As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.

Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.

“Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais”, acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes. (Páginas 176, 177 e 178)

Ao mesmo tempo que mantinha encontros secretos na calada da noite com revolucionários em pleno palácio do governo estadual, Getúlio ainda tentava costurar acordos de paz com Washington Luís. Em nova carta a João Neves, detalhou: caso se confirmassem as informações de um ataque próximo, só restariam três opções ao Rio Grande: 1) aceitar o aniquilamento de forma passiva; 2) deflagrar uma revolução antes da suposta agressão federal ou 3) retornar às tentativas de reconciliação com Washington Luís. A primeira opção, é óbvio, estava fora de cogitação. Quanto à segunda, Getúlio continuava reticente:

“Não podemos assumir perante o país a responsabilidade moral de deflagrar a guerra civil, baseados em meras suposições, pois não temos ainda como demonstrar, concretamente, a existência do plano reacionário.”

Restava, portanto, a última opção: reconciliar-se com o Catete. Getúlio expôs o quadro para Afrânio de Melo Franco. Segundo os informantes que dizia possuir, tudo indicava que Minas seria varrida do mapa, assim como Rio Grande. Diante da perspectiva, tentou convencer Afrânio a escrever a Epitácio Pessoa, para que este, com a autoridade de ex-presidente da República e de representante brasileiro em Haia _ portanto um observador hipoteticamente distanciado dos acontecimentos que ora dividiam o país –, atuasse como mediador entre a cúpula da Aliança Liberal e o governo da República. O parentesco de Epitácio com João Pessoa não era garantia de distanciamento, mas Getúlio indicou uma proposta de solução negociada que imaginou ser a prova mais clara de desprendimento pessoal: renunciaria à própria candidatura, e convenceria João Pessoa também a fazê-lo, em favor de dois novos nomes, os presidentes estaduais de Pernambuco e do Ceará, Estácio Coimbra e Matos Peixoto. Como Estácio Coimbra era ligado a Washington Luís, Getúlio supôs que o presidente da República ficaria constrangido em recusar a oferta.

“Com isso nós tranquilizamos a vida do país e saímos vitoriosos, inutilizando a candidatura do Catete”, previu.

O caso, portanto, passara a se inviabilizar a todo custo a ascensão de Júlio Prestes ao Catete, mesmo pagando um preço elevado por isso.

“Paris bem vale uma missa”, ironizou Getúlio, lançando mão da frase histórica, atribuída ao protestante Henrique IV. que no século XVI se convertera ao catolicismo para assumir o trono da França.

A sugestão embutia uma jogada de implicações arriscadas. Se Washington Luís não aceitasse as condições do acordo, dada a já reconhecida obstinação em atestado de intransigência, o que poderia dificultar sua situação junto à opinião pública. Mas havia um risco fatal: acenar com uma hipótese de renúncia poderia passar a ideia de estar fugindo da disputa por medo antecipado da derrota.

“É um golpe de efeito, que pode todavia ser interpretado como manifestação de fraqueza. Que achas?”, indagou Getúlio a João Neves.

Para Neves, considerando-se o cenário que o próprio Getúlio havia esboçado, a questão chegara a um ponto-limite, a partir do qual só haveria dois desfechos possíveis: “rendição ou revolução”. E Neves não tinha mais dúvidas sobre qual caminho eles deveriam seguir:

“Sempre que Vargas insistia comigo por uma terceira solução, eu lhe impunha um invariável argumento: iríamos bater a uma porta fechada a sete chaves. Resultado: perderíamos a autoridade perante o povo e seríamos liminarmente rechaçados.” Estava na hora, por seguinte, de optar pela ousadia.

“O mundo nunca pertenceu aos tímidos”, sintetizaria Neves.

Por timidez, medo ou mesmo prudência, Afrânio de Melo Franco acatou a sugestão de Getúlio e escreveu para Epitácio Pessoa, solicitando a mediação do ex-presidente junto ao Catete. Pediu também o indispensável sigilo em torno da delicada missão:  “Se ela fosse divulgada, poderia parecer a alguns como sendo prova de vacilação de espírito, ou de temor”, explicou Afrânio.

Antes que a mensagem pudesse sequer chegar ao destinatário, os piores receios de Getúlio se materializaram. Na Câmara dos Deputados, cópias mimeografadas da carta de Afrânio a Epitácio eram repassadas de mão em mão, alvo de ataques e piadas da bancada governista. O datilógrafo, inadvertidamente, jogara no cesto de lixo o papel-carbono utilizado para providenciar as duas únicas cópias autorizadas do documento, enviadas uma para Antônio Carlos, outra para Getúlio. Um servente mais ardiloso reconheceu o valor daquele carbono amassado e o repassou ao deputado Azevedo Lima, que por vez o entregou a um redator do jornal A Vanguarda, em cujas páginas a carta foi publicada na íntegra.

O Malho, como sempre, tripudiou. Na capa de 5 de outubro, uma charge em cores mostrava uma senhora decrépita, em coma, deitada no leito de enferma. No cobertor remendado por retalhos velhos, lia-se a inscrição: “Aliança Liberal”. A redor da cama, apareciam Antônio Carlos, vestido de enfermeiro; Borges de Medeiros, segurando um vela; e Getúlio Vargas, cabisbaixo. O título: “À beira do túmulo”. A legenda: “Cuidado! Se aparecer outra carta por aí, ela estica a canela”. (Páginas 359, 360 e 361)

Confira, com exclusividade, trecho inédito do segundo volume

Por volta de onze e meia da noite daquele 25 de fevereiro de 1932, uma quinta-feira, os habituais frequentadores da praça Tiradentes, mais famoso reduto da boemia carioca à época, tiveram suas atenções voltadas para o som do motor de pesados caminhões que passavam pela rua ali em frente. Sambistas, atores, coristas, músicos e malandros que sempre lotavam os cafés do local até alta madrugada assistiram com surpresa à passagem do comboio composto por três enormes veículos de carga, apinhados de soldados do Exército. Eram cerca de 180 homens fardados. Todos levavam fuzis, pistolas e submetralhadoras em punho.

Os caminhões oficiais – dois pertencentes à corporação militar e o terceiro identificado mais tarde como sendo do departamento de limpeza pública do Distrito Federal -, contornaram a Tiradentes e margearam lentamente a profusão de dancings, bares, cinemas e teatros que fervilhavam ao redor da praça. Seguiram assim, sem pressa, até estacionarem enfileirados à altura do número 77, onde funcionava a sede do Diário Carioca.

O jornal, que quinze meses antes apoiara com ardor a Revolução de 30 e a consequente chegada de Getúlio Vargas ao poder, passara a publicar artigos e editoriais inflamados a favor da reconstitucionalização do país – desde novembro de 1930, Getúlio vinha governando por decreto, após a Constituição Federal ter sido declarada suspensa. A maioria desses textos, editados com destaque na primeira pagina do Diário, era assinada pelo diretor de redação, José Eduardo Macedo Soares. Um dos últimos, publicado no dia 24 de fevereiro de 1932, fustigara:

“O regime do sr. Getúlio Vargas fracassou. Primeiro, pela resistência que encontrou no sentimento brasileiro de invencível repugnância a qualquer escravidão política. Segundo, pela insanável incompetência dos homens nos quais se apoiou”.

Macedo Soares, com seus característicos olhos verdes e fundos, de grandes pestanas e pálpebras meio caídas, era um polemista profissional. Em 1912, após chegar ao posto de tenente, largara a Marinha e passara a militar na imprensa, ao fundar seu primeiro diário, O Imparcial, pioneiro na publicação de ilustrações entre os jornais do Rio de Janeiro e crítico sistemático do então presidente Hermes da Fonseca. Ex-deputado federal por três mandatos consecutivos, fora preso por subversão também em três ocasiões, uma delas em 1922, quando ocupara a companhia telefônica de Niterói, encarregado da tarefa de cortar as ligações locais com a capital, onde os insurgentes tenentistas sublevavam o Forte de Copacabana. Mandado para o presídio da ilha Rasa, fugira pela porta da frente, ludibriando os carcereiros, envergando sobre o uniforme de presidiário um terno levado pelo irmão.

Em 1928, Macedo Soares fundara o Diário Carioca, para fazer oposição ao governo de Washington Luís. Pouco depois aderira à Aliança Liberal – a coalizão de forças que apoiara Getúlio Vargas à presidência da República. Em seguida à vitória do movimento de 1930, começara a criticar os civis e militares abrigados no Clube 3 de Outubro, agremiação fundada no ano seguinte no Rio de Janeiro por representantes do tenentismo. Defensores de um regime forte e autoclassificados como “patriotas enérgicos”, os integrantes do 3 de Outubro – o nome do clube era uma homenagem à data do estopim da Revolução de 30 – pregavam a necessidade de manutenção indefinida do período de exceção, durante a qual o Congresso e os legislativos estaduais deveriam continuar fechados e as prerrogativas individuais e as liberdades civis revogadas. Os “outubristas” argumentavam que uma possível volta à ordem legal apenas serviria para trazer de volta os políticos e a politicalha varridos do poder pela Revolução.

“Foi para realizar a tarefa de renovar o país que se instituiu, em fins de 1930, a ditadura no Brasil”, afirmava um dos mais destacados líderes tenentistas, Juarez Távora, promovido a major pelo governo revolucionário. “Essa obra prévia de desentulho, a ditadura só poderá dar por concluída quando houver separado, criteriosamente, o joio do trigo, os elementos imprestáveis, inadequados ou apodrecidos dos esteios bons que também se encontram sob os destroços da velha ordem”.

Em contraposição ao Clube 3 de Outubro, o Diário Carioca se convertera no baluarte do retorno à ordem constitucional. Suas páginas não cansavam de exigir eleições livres para uma Assembleia Nacional Constituinte, com vistas à elaboração de uma nova Carta Magna para o Brasil. Por isso, os três caminhões parados em frente à sede do jornal àquela hora da noite, com soldados ostensivamente armados, não pareciam indicar uma visita de cortesia.

A intenção dos recém-chegados não demorou a se revelar. Sem descer dos veículos, os militares obedeceram à ordem determinada por um oficial e, a um só gesto, apontaram os canos de suas armas para a fachada do prédio. A seguir, sob nova ordem, a de fazer fogo, desfecharam uma ruidosa carga de disparos. Depois de meio minuto ininterrupto de artilharia, os caminhões ligaram os motores e seguiram em frente, sacolejando em marcha lenta, como se nada de anormal houvesse ocorrido.

Em meio à balbúrdia que tomou conta dos cafés, os boêmios mais curiosos largaram violões e pandeiros sobre as mesas e saíram para conferir o estrago. A imagem era devastadora. As balas de grosso calibre estilhaçaram as vidraças do Diário e abriram centenas de buracos nas paredes do imóvel de dois pavimentos. Os trabalhadores gráficos e os redatores que preparavam a edição do dia seguinte despontaram à calçada, atônitos.

Enquanto todos aferiam a extensão da violência, notou-se que os caminhões apenas circundavam a praça e já retornavam, ameaçadores. O primeiro ataque fora somente uma mensagem de advertência, compreendeu-se. Os soldados ainda não haviam dado o serviço por terminado.

“Foge, que lá vem bala de novo!”, alguém gritou, em meio à multidão.

Quase não restou ninguém para assistir à segunda ofensiva. A maioria dos que ali se aglomeravam fugiu pela rua da Constituição – via pública que passara a ter um nome meramente decorativo, sem nenhuma correspondência com a situação política do país. Apenas os mais afoitos ousaram buscar um ponto de observação privilegiado por trás das árvores, bancos de granito e postes de iluminação da praça, já que todos os bares e cafés das imediações trataram de cerrar imediatamente as portas e um grande número de funcionários do jornal decidiu acompanhar os populares em debandada.

A nova saraivada de tiros se mostrou ainda mais ensandecida do que a primeira. A exemplo da ação anterior, os soldados atiraram do alto das carrocerias das viaturas, sem ao menos se darem ao trabalho de desembarcar. Mais uma vez, os caminhões entraram em movimento logo após a redobrada carga de artilharia, permitindo que os últimos grupos de jornalistas e gráficos tivessem tempo para evacuar o prédio, advertidos pelos gritos dos soldados de que ainda haveria um terceiro e definitivo ataque.

De fato, depois de novamente contornarem a praça, os três caminhões pararam em fila, no mesmo lugar de antes. A diferença foi que desta vez os soldados saltaram dos veículos e invadiram o prédio, pondo abaixo a porta da frente a golpes de coturno. Um pelotão de recrutas, munido de pás, machados e picaretas utilizadas na construção de trincheiras de guerra, ficou encarregado de destruir tudo o que encontrasse no caminho. O parque gráfico, localizado no andar térreo, consistiu no primeiro alvo. Máquinas tipográficas, mesas, cadeiras e armários foram reduzidos a destroços.

Para surpresa dos invasores, alguns poucos funcionários insistiram em permanecer no interior do imóvel. Entre eles, quatro linotipistas, que receberam coronhadas e golpes de sabre nas costas, na cabeça, nos braços e no peito. Um deles, Crispim Barbosa Júnior, que tentou reagir, foi baleado na barriga e atingido por um projétil que se alojou no osso ilíaco direito.

A fúria do assalto prosseguiu no piso superior, onde funcionava a redação do jornal. Dois redatores que também não fugiram, Rafael Holanda e o crítico de arte Angione Costa, foram espancados e sofreram escoriações generalizadas pelo corpo. Ali também não restou um único móvel intacto. Todos os birôs e máquinas de escrever foram estraçalhados pelos golpes de machado e picareta. Até os corrimões da escada chegaram a ser arrancados. Arquivos foram violados e pilhas de papéis, documentos e fotografias voaram janela afora, o mesmo acontecendo na tesouraria com livros contábeis e fichas dos funcionários.

“Onde está o Macedo Soares?”, um dos militares indagou aos dois jornalistas estatelados no chão.

Como não obtivesse resposta, o oficial que parecia comandar a ação rumou para o gabinete da administração do jornal. Depois de constatar que não havia ninguém lá, permitiu que uma única peça do mobiliário ficasse intacta: a cadeira do diretor editorial. Não admitiu que a despedaçassem, como fizeram com todo o resto. Preferiu disparar contra ela um único tiro, à meia distância. O projétil varou o encosto acolchoado, produzindo um rombo de bom tamanho no enchimento de palha. A mensagem era mais do que evidente. Aquela bala tinha sido reservada para o dono da cadeira. Se estivesse sentado ali, Macedo Soares teria sido trespassado pelo balaço.

Meia hora mais tarde, por volta da meia-noite, depois de se darem por satisfeitos com a quebradeira, os soldados retornaram aos caminhões. Nesse instante o local já se encontrava deserto. Poucos metros adiante, os letreiros do Teatro Recreio anunciavam a nova atração da casa, um espetáculo de revista teatral previsto para estrear na noite seguinte, escrito, dirigido e produzido pelo trio Djalma Nunes, Alfredo Breda e Amador Cisneiros. No elenco, aparecia pela primeira vez em letra de forma o nome de um jovem palhaço, trapezista e acrobata de circo chamado Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz, anunciado nos cartazes pelo pseudônimo de Oscarito Brennier. Muito em breve ele ficaria famoso nos palcos e no cinema, fazendo dupla com Grande Otelo e se tornando conhecido apenas pelo apelido de Oscarito.

O espetáculo que marcou a chegada do célebre comediante ao teatro de revista faria um estrepitoso sucesso, embora as colunas especializadas tenham dado pouca atenção ao novato Oscarito Brennier e preferido destacar a atuação da vedete Otília Amorim e das “25 recreio-girls encantadoras” que dançavam de pernas de fora e com plumas na cabeça ao longo dos vinte números musicais da atração. O que ficou mais evidente, porém, foi a inevitável associação entre o título do novo show do Teatro Recreio e o violento atentado contra o Diário Carioca. Para muitos, o nome do espetáculo poderia servir como um recado ao titular do Palácio do Catete, sede do governo federal:

“Calma, Gegê”.

(…)

Às duas da tarde de 4 de março de 1932, um dia após João Neves ter comunicado a Getúlio a demissão coletiva dos gaúchos, quarenta automóveis saíram do Rio de Janeiro em direção a Petrópolis. Todos os carros estavam ocupados por sócios do Clube 3 de Outubro, que à hora da partida posaram altivos e sorridentes para os fotógrafos dos jornais e revistas. No primeiro veículo, ia o interventor do Distrito Federal, Pedro Ernesto. No que seguia imediatamente atrás, o coronel Felipe Moreira Lima, responsável pelo inquérito relativo ao caso do Diário Carioca. Nos automóveis seguintes, acomodavam-se dezenas de oficiais do 1º Regimento de Cavalaria, a guarnição de onde partiram os caminhões com os soldados que depredaram o jornal de Macedo Soares.

Vencido o percurso de cerca de 70 quilômetros até Petrópolis, a caravana entrou na cidade e seguiu direto para os jardins do Rio Negro. Ao desembarcar, o grupo de visitantes se aglomerou diante das escadarias do palácio e voltou os olhos para as duas portas contíguas da fachada, que encontrou fechadas. Durante os cerca de quinze minutos em que os outubristas permaneceram ali, sem que ninguém do cerimonial do governo lhes dispensasse qualquer atenção, chegou-se a imaginar que seriam vítimas de uma desfeita.

“Será que não tem ninguém no palácio?”, indagou Pedro Ernesto, mantendo um ar de estudada descontração, para não perder a pose diante dos fotógrafos.

Mas o temor de que não fossem recebidos em audiência se dissipou quando as portas enfim se abriram e, pondo fim ao suspense, os ajudantes-de-ordens de Getúlio foram recebê-los, para então encaminhá-los ao salão de honra, onde estavam sendo aguardados. “O sr. Getúlio Vargas já estava no salão, à espera dos manifestantes. A recepção que lhes fez foi a mais cordial. Sorrindo, abraçou os primeiros que se aproximavam”, registrou o enviado especial do Correio da Manhã.

Depois dos cumprimentos calorosos de Getúlio, Pedro Ernesto pediu a palavra. Fez um discurso sem meias palavras:

“Excelentíssimo senhor chefe do Governo Provisório, o Clube 3 de Outubro aqui está com o fim de trazer o apoio e a solidariedade ao seu governo”, iniciou. “Esta demonstração é a revelação pública de que estamos certos da ação ditatorial de Vossa Excelência, pautada dentro dos princípios revolucionários, e que Vossa Excelência cada vez mais se revela o ditador de que necessitamos para salvar o nosso país”, prosseguiu. “Chegado o momento em que Vossa Excelência sente a necessidade de atos de força, como nos parece também ter chegado, estamos convictos que os fará e, para tanto, tem o apoio absoluto de todos nós”. Ao final, Pedro Ernesto reforçou: “Apoiaremos, de modo absoluto, o governo de Vossa Excelência, como ditador”.

De imediato, foi febrilmente aplaudido pelos colegas.

(…)

Era a vez de Getúlio Vargas falar, em resposta ao discurso do presidente do 3 de Outubro. Ele deveria ter plena consciência de que suas palavras poderiam determinar os rumos do país dali por diante. Seria a oportunidade para expressar uma recusa cabal ao autoritarismo, aos “atos de força” de que se vangloriava Pedro Ernesto, ou de aderir publicamente à tese de que só mesmo uma ditadura conviria ao país naquele momento de crise do capitalismo mundial.

“Recebo a demonstração de solidariedade que me trazeis, e bem compreendendo seu alcance e significação”, iniciou Getúlio. “Sois a vibrante mocidade civil e militar que não quer ver a revolução se afundar no atoleiro das transigências, dos acordos, das acomodações entre os falsos pregoeiros da democracia”.

Os aplausos dos representantes do Clube 3 de Outubro foram entusiásticos. Diante daquela vigorosa saudação, não poderia haver mais dúvidas de que ali estava o líder que exigiam, “o ditador que salvaria o Brasil”. Getúlio prosseguiu, para arrancar mais palmas e aclamação dos outubristas:

“Sob a aparência do apelo à constituinte e defesa duma autonomia que sempre violaram, muitos procuram apenas voltar ao antigo mandonismo e pleiteiam a posse dos cargos para a montagem da máquina eleitoral, veículo indispensável à sua ascensão”.

Pedro Ernesto e seus companheiros exultaram. Estavam ouvindo exatamente o que queriam. Não haviam ido a Petrópolis à toa. Getúlio, tudo indicava, pensava como eles: o sistema eleitoral era uma farsa; a democracia representativa, um estorvo; as manifestações em prol da constituinte, mera fachada para politiqueiros saudosos. A cada frase de Getúlio Vargas, os outubristas se derramavam em novos e acalorados aplausos. Os vivas, porém, foram mais comedidos quando Getúlio seguiu adiante:

“A volta do país ao regime constitucional virá, terá de vir, está na lógica dos acontecimentos. Essa volta processar-se-á, porém, orientada pelo governo revolucionário, com a colaboração direta do povo e não em obediência à vontade exclusivista dos políticos”.

A ressalva de que o regime constitucional viria, mais cedo ou mais tarde, não agradou a alguns dos presentes. Entretanto, desde que isso fosse encarado como uma simples possibilidade, uma perspectiva lançada em direção a um futuro hipotético, nada tinham a opor. Os aplausos só se tornaram realmente mais chochos quando, ao final, Getúlio sentenciou:

“O que não posso é concordar com a prática de violências de quaisquer origens, pois a ninguém é lícito fazer justiça pelas próprias mãos sem com isso diminuir a autoridade do governo e o prestígio da revolução”.

Os outubristas se entreolharam. O que significava aquilo? Eles realmente estavam sendo repreendidos pelo atentado ao Diário Carioca?

De que lado estava, afinal de contas, o senhor Getúlio Vargas?

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