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Sobre a estética das obras públicas, por Jorge Barcellos*

21 de maio de 2012 0

*Historiador, mestre e doutorando em Educação/UFRGS

Em réplica a artigo da última edição, uma defesa ao prédio da Câmara Municipal de Porto Alegre

Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.

O artigo de Paulo Bicca, publicado na última edição do Cultura, descreveu o prédio da Câmara Municipal como um dos exemplos de prédio público em um espaço de precárias condições e que contribui para que nossa cidade seja, na melhor expressão, feia. Bicca tentou, mas não conseguiu, isolar o projeto de Cláudio Araújo desse contexto, mas o fato é que o entorno faz parte da Câmara e, na minha opinião, não há nada errado com eles.

O problema está na perspectiva. Bicca quis recriar a experiência do flâneur, personagem emblemático descrito por Walter Benjamin, em nossa experiência urbana. Otilia Arantes conta uma história que ajuda a entender esta posição. Ela diz que um dia Benjamin explicou a Martin Buber que recebera a encomenda de um artigo sobre Moscou e que sua intenção era apresentar a cidade como se ela mesmo fosse uma teoria, sem digressão teórica, descrevendo as imagens da cidade a partir de sua “posição interna”. Isso o fez vagar por feiras de vendedores, ruas cobertas e observar os objetos da vida cotidiana. É que o “Projeto das Passagens” tinha uma pedagogia materialista, uma crítica à ascensão das mercadorias e buscava pelo potencial de transformação social. Mas aquele ainda era um projeto que via a remodelagem do mundo pela industrialização e urbanização como algo que levaria as massas ao paraíso. O mundo dos sonhos.

Bicca quer para si o lugar do flâneur porto-alegrense benjaminiano. Resolveu sair e caminhar pela cidade. E o que viu? Na Câmara, “um arremedo de estacionamento, em terra, esburacada e com lodo e água empoçada quando chove”. Critica o painel em frente à Câmara “que independente de seu conteúdo, jamais poderia estar aí”. O que critico na posição de Bicca? É que ele escolheu como método observar a cidade de dentro, a “posição interna” de que fala Benjamin. Qual a pedagogia de Bicca? A de que precisamos de uma cidade melhor, sim, mas aquela na qual os arquitetos tenham a palavra principal para “impedir de construir o que não deve ser construído”, diz.

Mas quem diz o que deve ou não deve ser construído? Os arquitetos, o Estado ou a sociedade? Se você observar o que Bicca valoriza, é sempre a paisagem clássica em detrimento da moderna, mas como tornar atual a arquitetura pública? Diz Jeudy: “Atualizar significa primeiro subtrair a temporalidade habitualmente atribuída ao passado, para torná-lo atemporal e conferir-lhe ao mesmo tempo um “poder de contemporaneidade”. Ao contrário, a leitura de Bicca nada mais faz do que adotar uma estratégia que visa desestabilizar o tempo presente, adotando uma complacência moral que diz que “o passado ilumina o presente”. Projetos são modificados, sim, devido aos contextos, às circunstâncias, por inúmeros atores que não apenas os arquitetos. A arquitetura pública é uma construção coletiva. O que faltou em sua concepção: a ideia de que a arquitetura urbana, muitas vezes, é produto de uma negociação.

Ora, se você quiser descrever a beleza da Câmara Municipal de Porto Alegre e, de resto, dos prédios públicos em geral tão criticados por Bicca, é preciso observar de fora da cidade para ter uma visão melhor do que eles representam na fisionomia da mesma. Antes de Benjamin, Alan Poe. Explico.

Alan Poe escreveu o conto O Aperto, uma das descrições mais interessantes da cidade de Edimburgo, onde quis evitar a descrição de sua fisionomia de forma direta, a passeio, já que “todo mundo já esteve em Edimburgo”. A história, recontada por Nicolau Sevcenko, é protagonizada por três personagens: a Signora Psyche Zenóbia, o coadjuvante Pompeu, seu velho escravo, e Diana, uma cadelinha poodle. Passeando os três pela cidade, Zenóbia vê uma catedral gótica com sua torre altíssima e se vê tomada por um desejo irresistível de subir nela e vislumbrar a extensão da cidade. Ela sobe, mas não encontra uma janela, só uma abertura num imenso relógio, que expunha as horas para os seus habitantes. Ela coloca a cabeça na abertura: “O panorama era sublime. Nada podia ser mais magnífico(…)Eu me entreguei com prazer e entusiasmo ao gozo da cena que tão amavelmente se oferecia diante dos meus olhos”. O final da história? Como nos contos de Poe, os ponteiros, como imensas lâminas, afundam-se no pescoço da matrona, o negro foge, e a cadelinha é devorada pelos ratos. Genial.

O que interessa aqui é o método. É que, para descrever a cidade, é preciso voar e correr os seus riscos. É preciso vislumbrar a cidade do céu, das alturas, observando sua situação, a sua aparência geral, fazer uma espécie de travelling do alto, a olho nu, exatamente como foi feito em diversas cenas do documentário Porto Alegre, Meu Canto no Mundo (2007), de Cícero Aragon. Para descrever o papel que a arquitetura pública tem na fisionomia da cidade, como quer Bicca, é preciso procurar uma posição elevada para ver de cima a totalidade da capital. Diz Sevcenko: “Olhada ao rés do chão, a cidade se dissolve em fragmentos, cuja dispersão infinita é sumamente desagradável. Vista, descrita ou representada de um ponto elevado, ela se torna um emblema abstrato imediatamente apreensível”. É disso que se trata, a perspectiva do olhar.

Se você olha a Câmara de cima, o que vê? Você não vê os estacionamentos, tão criticados em sua feiura por Bicca, mas a imensidão de uma bela área verde, das árvores que embelezam o prédio legislativo. Elas têm uma história contata por funcionários e vereadores que as plantaram, que cuidaram delas dia após dia, área que, no ano passado, foi cenário da reprodução do primeiro plantio de mudas recriado por alunos do projeto de educação pelo trabalho que frequentam a Câmara. É, portanto, uma área que se atualizou permanentemente e que tem uma história para contar e que, pelo artigo, Bicca desconhece. O estacionamento existe, sim, e pode ser feio para o caminhante: é que a Câmara é um prédio inacabado e foi finalizado aos poucos. Sofreu adaptações. Ele não é produto da idealização de um arquiteto em férias, não é o prédio dos sonhos, mas algo vivo em contato com a sociedade porto-alegrense. O estacionamento é um problema e uma necessidade nas cidades – e é assim também na Câmara –, mas, graças a ele, mais parcelas da população têm acesso ao legislativo.

Naquele espaço, se Bicca observasse melhor, até um bicicletário está sendo construído onde ele só vê terra esburacada, prova de que o Legislativo atende a demandas da comunidade, no caso, os ciclistas. Mas não há nada mais belo ao redor daquele prédio e que o dignifica do que o imenso cinturão verde que o cerca. Quanto ao painel, está escrito nele apenas um convite à entrada e participação nos debates. Aquela é uma rua de grande circulação. Se o Parlamento não tiver o direito de convidar seu público, quem pode?
Não, Bicca, discordo. O Legislativo e seu entorno estão inseridos na paisagem da cidade. Não, Bicca, discordo. O Legislativo dá o exemplo do que deve ser construído em termos de prédios públicos. Não, Bicca, o prédio da Câmara não é um espaço urbano de má qualidade. Claro que há muito a ser feito em busca de uma arquitetura bem inserida, com o que concordamos, mas a verdade é que a Câmara está, sim, bem inserida na cidade. É que, Bicca, não vivemos no mundo dos sonhos dos arquitetos, mas no mundo possível de uma sociedade na qual seus atores lutam por seus direitos, e nisso, o legislativo tem um lugar fundamental.
Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.

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