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Um passeio crítico pelas ruas de Porto Alegre, por Paulo Bicca*

21 de maio de 2012 0

* professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS

A pobreza das construções públicas da Capital pode estimular a sociedade a assumir o urbanismo como um fato cultural significativo

Louvável que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, no seu discurso de posse, sua primeira fala oficial, tenha enfatizado que a arquitetura e o urbanismo devem ser tratados como realidades culturalmente significativas, indispensáveis à construção de uma boa e bela cidade, e não apenas como patrimônio do passado a ser valorizado e preservado. Certamente, a grande maioria está de acordo. Mas é revelador e preocupante o fato de essas verdades ainda precisarem ser reafirmadas. Porém, isso infelizmente se justifica, pois, via de regra, o que ocorre é a inobservância daquilo que a ministra corretamente apregoa, trazendo-me à memória uma passagem da peça Calabar, escrita e musicada, em 1973, pelo irmão Chico Buarque de Hollanda e o teatrólogo Ruy Guerra.Refiro-me ao trecho:

“Há uma grande distância entre a intenção e o gesto”. O discurso da ministra trouxe-me igualmente à lembrança a carta Flavius Belisarius, general do Império Bizantino, escrita em torno de 550 d.C. e destinada ao rei dos estrogodos, Tolita, que havia invadido Roma.”Os homens sábios”, disse o general,”embelecem com obras de arte as cidades que delas carecem; os homens tolos, ao contrário, delas as despojam”.Recordou-me também o filósofo e poeta simbolista francês Paul Valéry e sua obra Eupalinos ou o Arquiteto, escrita em 1923.Elaborado nos moldes de um diálogo platônico, entre Sócrates e Fedro, o texto tem a arquitetura e o arquiteto de nome Eupalinos como objetos centrais do discurso.

No diálogo, Fedro revela a Sócrates o que esse arquiteto lhe teria afirmado:”Diga-me, pois és tão sensível aos efeitos da arquitetura, se tens observado, em teus passeios por essa cidade,que,entre os edifícios que a povoam,uns são mudos, outros falam; e outros, em fim, os mais raros, cantam.Não é seu destino, nem sequer sua característica geral, o que a tal ponto os anima, ou, ao contrário, ao silêncio lhes apequena.
Isso procede do talento do seu construtor”.

Mas se não fosse a Fedro que Eupalinos dirigisse a palavra, mas, sim, a cada um de nós? E se, em vez de uma cidade imaginária, fosse Porto Alegre o objeto das suas observações? O que veríamos se por ela andássemos com os olhos atentos? Por isso, convido a um pequeno passeio pela cidade, focando na arquitetura e no urbanismo, pelos quais o poder público é o responsável,pois,se a ministra está com a razão,o mínimo que se pode exigir é que dê o bom exemplo. Mas, infelizmente, não é isso que ocorre, como se pode constatar na grande maioria dos casos, entre os quais apresento alguns dos mais significativos. Comecemos pela área que melhor revela o que os três níveis do poder público têm construído como o seu próprio espaço. Refiro-me à ampla área ganha ao Guaíba por meio dos aterros realizados nos anos 1990 e na qual se situam, com destaque, a Câmara Municipal, os prédios da administração federal e o Centro Administrativo do Estado. Uma não cidade,cujas precárias condições arquitetônicas e urbanísticas, apenas em parte, podem ser creditadas ao ideário modernista ali adotado, muito embora, para isso, ele tenha contribuído bastante.

Destaque-se, de início, o espaço do Legislativo Municipal. Sem entrar no mérito da sua arquitetura, o prédio da Câmara, pela função que abriga, deveria ter, no mínimo, o seu entorno tratado de forma digna. Mas o que, de imediato, encontramos ao chegar é um estacionamento _ pior que isso, um arremedo de estacionamento, em terra, esburacado e com lodo e água empoçada quando chove. E na saída pelo pórtico, e fronteiro a ele, o que se destaca é um outdoor anunciando que, no Parque da Harmonia, oficialmente
Maurício Sirotsky Sobrinho, existe uma churrascaria.Aliás, no acesso a esse parque, situa-se um pequeno monumento com o busto do referido empresário da comunicação abandonado em meio a dejetos e lama. Prestar homenagem nesses termos é quase melhor não fazê-lo.

E o que se observa naquela que deveria ser uma bela avenida, chamada Loureiro da Silva, parte da Primeira Perimetral? Ao longo do terreno da Câmara, uma cerca qualquer; e na sua entrada, que deveria ser a principal, outro outdoor, que, independentemente de seu conteúdo, ali jamais poderia estar. E do lado oposto da avenida, situa-se a Seção de Fabricação de Pré-Moldados do Departamento de Esgotos
Pluviais (DEP) do município. É um conjunto de barracões e depósito de canos de cimento e de montes de areia,sobre os quais se estendem as”ruínas”do Aeromóvel, ignorando um antigo prédio de valor arquitetônico que ali se encontra. E é impossível deixar de constatar o desleixo da cerca e dos muros
que contornam essa extensa área pública em localização privilegiada. Não basta olhar apenas para a faixa contígua à orla; é preciso, no mínimo, prestar igual atenção para o que ocorre no seu entorno imediato.

Soma-se a isso o quarteirão ocupado pela sede da Fundação de Ciência e Tecnologia do Estado (Cientec), cujo conjunto de construções, sem valor arquitetônico e urbanístico, não corresponde ao significado e à importância dessa instituição e não contribui, antes pelo contrário, para a qualificação do lugar onde se encontra. O mesmo pode ser dito a respeito do local ocupado pelos prédios do Instituto Parobé. O quadro em parte se completa com a extensa área na qual se situam os órgãos da administração federal, setor constituído por arquitetura, na sua maioria, de qualidade duvidosa. São construções totalmente isoladas do seu entorno por espaços vazios, cercados integralmente por grades, gerando um lugar sem nenhuma vida urbana.

Infelizmente, o Centro Administrativo do Estado reforça esse cenário composto por espaços urbanos de má qualidade. Seu urbanismo _ se é que assim se pode chamar _,totalmente desestruturado e desconectado da cidade,”relacionase” com ela por meio de imensas áreas de estacionamento de automóveis, fechadas por cerca de mourões de cimento, telas e arames farpados. Imagino o que pensaríamos se o mesmo tratamento tivesse sido dado a nossa Praça da Matriz; e o que diríamos se essa lógica tivesse prevalecido na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes, em Brasília.Óbvio que acharíamos um absurdo.Lá,não aqui.

O cenário não muda quando, continuando nossa piccola passeggiata, chegamos à Avenida Erico Verissimo, Segunda Perimetral,no trecho em que se situam,de um lado,o Ginásio Tesourinha, e de outro, instalações da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).Trata-se de uma avenida que, pela sua importância na estrutura viária e urbana da cidade, deveria merecer um tratamento urbanístico a sua
altura. Mas o que encontramos é o oposto.Aliás, o jogador Tesourinha merecia algo bem melhor que a arquitetura do ginásio que leva seu nome. Quanto às instalações da EPTC, seus prédios são velhos barracões que muito se assemelham àqueles utilizados nos canteiros das grandes obras. Barracões cujos fundos muitas vezes se voltam para a avenida, sendo os espaços residuais, entre eles e a calçada, usados como depósitos, inclusive de dejetos, expostos a quem por ali circula. Tais condições arquitetônicas não diferem muito daquelas dos prédios da sede dessa mesma empresa, localizados na Avenida Ipiranga e que em nada contribuem para a qualidade urbanística dessa,antes pelo contrário.

Não se pode esquecer a má arquitetura do Ginásio da Brigada Militar,construído nos anos 1960 para os jogos da Universíade que ocorreu então em Porto Alegre.Ao seu lado,um grande espaço, vazio e mal cuidado, no qual se encontram barracões deteriorados.A Escola de Bombeiros completa o conjunto. Não se trata de negar a importância da mesma, mas, se um dia a sua localização aí foi adequada, hoje não o é mais, por várias razões, entre outras porque impede a qualificação urbanística do lugar, além de ser inadmissível
do ponto de vista da economia urbana.Aliás, há inúmeras situações como essa em Porto Alegre, envolvendo áreas e atividades de órgãos municipais, estaduais e federais. Isso recomenda a realização de um inventário, por meio do qual se identifiquem aqueles casos considerados inadequados ou nocivos à cidade, demandando, portanto, a correspondente ação da administração pública,nos três níveis.

O que mais nos chama a atenção na Avenida Ipiranga? As suas pontes! É gritante a diferença de qualidade entres as belas pontes mais antigas, que faziam parte do projeto original de retificação do Riacho Dilúvio (Avenida Getúlio Vargas,Azenha e Avenida João Pessoa),e as canhestras pontes de construção mais recentes. Diferenças que podem, em boa parte, ser explicadas por um trecho retirado da publicação Um Plano de Urbanização, do prefeito José Loureiro da Silva e do arquiteto Edvaldo Pereira Paiva, pela Editora
Globo, em 1943:”A ponte a ser construída à Avenida Getúlio Vargas, como todas as outras que forem construídas sobre o canal do Riacho, constituirá, pela sua arquitetura e acabamento, verdadeira obra de arte que muito contribuirá para o embelezamento daquela artéria. As pontes, como disse Prestes Maia,prefeito de São Paulo,’caracterizam fortemente a individualidade das grandes capitais’.As pontes de Paris, Roma, Florença,Veneza etc ligam-se indissoluvelmente às lembranças dessas cidades”.

Essas questões de ordem estética e esses cuidados com a paisagem foram ignorados quando da construção das pontes” modernas”,como se fosse requerido cumprir a sua função primária, isto é, permitir a passagem de um lado para outro do riacho. O mesmo pode ser dito quando pensamos na história dos viadutos, começada de forma exitosa com o Viaduto Otávio Rocha, obra magistral de arquitetura urbana _ obra ímpar e talvez sem equivalente no mundo.Porém, o espírito que animou a sua concepção infelizmente esteve ausente no projeto dos demais viadutos de Porto Alegre.As primeiras pontes do riacho e o nosso mais antigo viaduto ajudam a compreender porque, no vocabulário dos engenheiros, existe a expressão obra de arte então a eles aplicada. Expressão que, por inércia, ainda hoje se mantém, mas cujo significado se perdeu totalmente na maioria dos casos.

A grande maioria das nossas pontes urbanas e viadutos, assim como as perimetrais, dá razão ao arquiteto austríaco Camillo Sitte, que, já no final do século 19, no Construção de Cidades Segundo Princípios Artísticos, afirmava:”Aquele que não se preocupa da urbanização como arte considera-a somente como um problema técnico e, quando o efeito artístico não responde as nossas esperanças, ficamos surpreendidos e perplexos…Porém,apesar disso, na próxima obra se trata tudo novamente desde esse ponto de vista, com se fosse um traçado ferroviário no qual se faz abstração do sentimento”.
No nosso caso, um traçado rodoviário que, tomando de empréstimo mais algumas palavras de Sitte, procura legitimar-se pela”divinização do eterno pretexto do tráfego”, revelando-se, entretanto,”demasiado pobre para poder, justificadamente, rechaçar a ajuda da arte, dos ensinamentos da história e as grandes tradições da urbanização”

Estamos vivendo o primado do produto sobre a obra, já afirmou o sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre, no seu livro O Direito à Cidade, escrito no início dos anos 1960. Segundo ele, na lógica da economia de mercado, há forte e dominante tendência à substituição da obra pelo produto; ao contrário de outros tempos passados, nos quais prevalecia “o sentido e o gosto da obra, em particular no setor arquitetônico e urbanístico. Com efeito, diz Lefebvre, a obra depende mais do valor de uso do que do valor de troca”. Tendência à qual o poder público não têm sido imune.

Retomando o nosso passeio pelas ruas de Porto Alegre, o que percebemos nas mudanças ocorridas na arquitetura dos prédios das escolas públicas? O que constatamos quando comparamos com as construções escolares mais recentes os antigos prédios do Colégio Júlio de Castilhos (refiro-me àquele outrora situado na Avenida João Pessoa, no local onde hoje se encontra a Faculdade de Economia da UFRGS), do Instituto Parobé, da Escola Ernesto Dornelles, do Instituto de Educação? Independentemente dos seus variados
estilos, todos esses prédios se caracterizam por uma inegável dignidade arquitetônica,simbolicamente associada à relevância então conferida à atividade que neles ocorria. O que talvez nos revele que, à decadência da instituição escola pública, corresponde a degradação da arquitetura dos seus edifícios.São como as duas faces de uma mesma moeda.

A preocupação do que ocorre em Porto Alegre aumenta quando se constata que essa anticultura arquitetônica _ que observamos nas obras realizadas pelo poder público _ perpassa e transcende os governos das últimas décadas. Estamos diante de uma anticultura que tem se mostrado hegemônica, no sentido de Gramsci, pois, mesmo aqueles que dizem com ela não concordar, acabam por aceitá-la,
comportando-se como se a ela não houvesse alternativa.

Não se pode ser conivente com tal situação. Mas é igualmente necessário dizer que os moradores de Porto Alegre, na sua imensa maioria, têm-se mostrado indiferentes ao que nela ocorre arquitetônica e urbanisticamente. Comportamo- nos como não cidadãos, como se a cidade não nos pertencesse; como se os seus problemas nos fossem alheios, não nos dissessem respeito; ou como se cada um pudesse buscar uma solução individual para os mesmos.Vã ilusão.

Uma música ruim, podemos não ouvi-la; um filme ou uma peça de teatro medíocres, podemos não assisti-los; uma pintura, uma escultura ou uma fotografia que nos desagradem, podemos evitá-las; um livro mal escrito, pode não ser lido. Isso é impossível com a arquitetura da cidade, pois a nossa relação com ela é direta e compulsória, basta olharmos pela janela ou sairmos à rua.Não adianta recorrer ao mecanismo de defesa psíquica identificada por Freud sob o nome denegação, pela qual se ignora ou não se aceita como
de fato existente aquilo que nos causa desconforto. Em absoluto, isso não altera e muito menos nega a situação real, pois contribui para a sua permanência por meio da ilusão de que ela não existe.Atitude semelhante à do avestruz, que enfia a cabeça no buraco,deixando de enxergar aquilo que o ameaça,supostamente”negando”assim a sua existência.

Não podemos aceitar edifícios ou espaços urbanos mudos; não podemos nos contentar com aqueles que apenas e dificilmente falam; nem tampouco admitir ou sermos complacentes com aqueles que, pretendendo cantar, desafinam. E o belo canto da arquitetura da cidade não pode ser desfrutado apenas por poucos e privilegiados ouvidos; ele precisa ser acessível a todos,indistintamente.

Porém,não se deve confundir a arquitetura que canta com a arquitetura espetacular, isto é, a arquitetura da”sociedade do espetáculo”,para usarmos expressão do francês Guy Debord. Não confundi-la com a arquitetura à qual falta urbanidade, no dizer do historiador italiano Bruno Zevi; arquitetura daqueles maniáticos em se fazer notar e afirmar a sua própria personalidade; arquitetura dos que se preocupam
em inventar sempre algo novo, ser originais, sobressair-se. Com uma tal arquitetura,diz Zevi,”acabaremos rodeados de construções que poderão ter todas as qualidades, mas que, de nenhuma maneira, poderão chamar-se urbanas… Quem tem necessidade de se fazer notar tem geralmente pouco a dizer”. Nessas condições, não se enquadra a magistral obra da Fundação Iberê Camargo, uma”sinfonia”para os nossos
olhos,projeto do arquiteto português Álvaro Siza.

Portanto, retomando as palavras da ministra, não basta impedir que se destrua o que não deve ser destruído. É necessário impedir que se construa o que não deve ser construído. O poder público precisa dar o exemplo, estimulando a sociedade a assumir, de maneira ativa e consciente, a arquitetura e o urbanismo como fatos culturais significativos, relevantes na política. Devemos nutrir a esperança de que um dia se formarão”verdadeiros partidos técnico-arquitetônicos, com as suas paixões e os seus pleitos”, quando então “a arquitetura palpitará de novo na excitação dos sentimentos e no estado de espírito de todos, numa escala cada vez mais elevada, e a humanidade,educada mais plasticamente, se habituará a considerar o mundo como dócil argila, própria para esculpir formas sempre mais belas de vida”.

A tarefa é árdua, os obstáculos são enormes e há muito a ser feito na arquitetura e no urbanismo de uma Porto Alegre que se pretenda culturalmente expressiva, mais humana, mais bela e aprazível. Mas, como já disse o poeta português Fernando Pessoa,”Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”

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