Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

01 de novembro de 2013 0

FEIRA DO LIVRO. LER É PODER.

A maioria dos brasileiros nunca comprou ou sequer leu um livro na vida. Formar mais leitores na infância e na juventude é um desafio vital para o país.

Por outro lado, temos uma geração de jovens ansiosos por realização pessoal e por uma vida relevante agora, que não podem esperar pelo futuro.

Esses jovens, que desejam viver a vida apaixonados e que sonham em mudar o mundo, inspiraram a campanha publicitária para a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre.

O slogan “LER É PODER” sugere que ler é poder saber, pensar, questionar, transformar, ter seguidores e fazer diferença no mundo.

Nos comerciais de TV e na campanha gráfica aparecem imagens de pilhas de livros que inspiraram Sigmund Freud, John Lennon e Steve Jobs.  Como nas palavras cruzadas, os nomes deles são formados pelos títulos desses livros. E fica a mensagem provocativa: os livros inspiraram o pai da psicanálise, um dos ícones do rock e o inventor do computador pessoal – quais vão inspirar você?

FL-0001-13L AN 26X35 JOBS_RBS

26 de outubro de 2012 0

Feira do Livro de Porto Alegre chega a sua 58ª edição

Evento é organizado pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL)

Porto Alegre vive dias de expectativa. A partir de hoje a cidade á o palco de mais uma Feira do Livro. Neste ano, o evento, que é organizado pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), chega a sua 58ª edição. Entre os dias 26 de outubro e 11 de novembro, os moradores e visitantes irão respirar ares de cultura e literatura.

A Feira é sediada em espaços emblemáticos do Centro Histórico do município: a Praça da Alfândega e o Cais do Porto. A praça abriga as bancas de editoras, distribuidores e livrarias. O cais comporta expositores e a programação da Área Infantil e Juvenil. Neste ano, as crianças e os adolescentes poderão desfrutar de quase 200 atividades. A Feira também está na Av. Sepúlveda, onde estão instituições importantes como a Fundação Biblioteca Nacional e o FNDE, além da Praça de Alimentação e do Território de Pasárgada, com atrações artísticas.

Em prédios no entorno da Praça, como o Santander Cultural, serão sediadas mesas-redondas, oficinas e apresentações artísticas da programação adulta, totalizando mais de 300 atividades. Para tanto, a CRL conta com a parceria de mais de 150 instituições e entidades.

Dando continuidade à novidade apresentada em 2011, nesta edição os dias temáticos estão divididos da seguinte forma: Bibliotecas (26/10), Jorge Amado (27/10), Bem Viver (28/10), Cuba (29/10), Viagem (30/10), Poesia (31/10), Imagem e Literatura (1º/11), América Latina (2/11), HQ (3/11), Literatura Fantástica (4/11), Rio Grande do Sul (5/11), História (6/11), Humor (7/11), Música (8/11), Cultura Popular (9/11), Novos Leitores (10/11) e Consciência Planetária (11/11). Diariamente, está prevista pelo menos uma atividade temática na programação.

As sessões de autógrafos são um dos pontos altos da Feira. Nesta edição, serão mais de 700 sessões, em um total que ultrapassa os 1,6 mil autores.

O evento vem crescendo junto com a cidade. Neste ano, a expectativa de público – 1,7 milhão de pessoas provenientes de vários municípios – segundo pesquisas, em torno de 1/3 do público não reside em Porto Alegre.

Em 2006, a Feira recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República. E em 2010, foi registrada como patrimônio imaterial da cidade de Porto Alegre pela Secretaria Municipal de Cultura.

Acesse o site da Feira e abra espaço para a literatura na sua vida: http://www.feiradolivro-poa.com.br/.

VÍDEO: FH e o Brasil Meridional

01 de setembro de 2012 0

Assista a trechos da entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na série Visões do Rio Grande:

Sobre a estética das obras públicas, por Jorge Barcellos*

21 de maio de 2012 0

*Historiador, mestre e doutorando em Educação/UFRGS

Em réplica a artigo da última edição, uma defesa ao prédio da Câmara Municipal de Porto Alegre

Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.

O artigo de Paulo Bicca, publicado na última edição do Cultura, descreveu o prédio da Câmara Municipal como um dos exemplos de prédio público em um espaço de precárias condições e que contribui para que nossa cidade seja, na melhor expressão, feia. Bicca tentou, mas não conseguiu, isolar o projeto de Cláudio Araújo desse contexto, mas o fato é que o entorno faz parte da Câmara e, na minha opinião, não há nada errado com eles.

O problema está na perspectiva. Bicca quis recriar a experiência do flâneur, personagem emblemático descrito por Walter Benjamin, em nossa experiência urbana. Otilia Arantes conta uma história que ajuda a entender esta posição. Ela diz que um dia Benjamin explicou a Martin Buber que recebera a encomenda de um artigo sobre Moscou e que sua intenção era apresentar a cidade como se ela mesmo fosse uma teoria, sem digressão teórica, descrevendo as imagens da cidade a partir de sua “posição interna”. Isso o fez vagar por feiras de vendedores, ruas cobertas e observar os objetos da vida cotidiana. É que o “Projeto das Passagens” tinha uma pedagogia materialista, uma crítica à ascensão das mercadorias e buscava pelo potencial de transformação social. Mas aquele ainda era um projeto que via a remodelagem do mundo pela industrialização e urbanização como algo que levaria as massas ao paraíso. O mundo dos sonhos.

Bicca quer para si o lugar do flâneur porto-alegrense benjaminiano. Resolveu sair e caminhar pela cidade. E o que viu? Na Câmara, “um arremedo de estacionamento, em terra, esburacada e com lodo e água empoçada quando chove”. Critica o painel em frente à Câmara “que independente de seu conteúdo, jamais poderia estar aí”. O que critico na posição de Bicca? É que ele escolheu como método observar a cidade de dentro, a “posição interna” de que fala Benjamin. Qual a pedagogia de Bicca? A de que precisamos de uma cidade melhor, sim, mas aquela na qual os arquitetos tenham a palavra principal para “impedir de construir o que não deve ser construído”, diz.

Mas quem diz o que deve ou não deve ser construído? Os arquitetos, o Estado ou a sociedade? Se você observar o que Bicca valoriza, é sempre a paisagem clássica em detrimento da moderna, mas como tornar atual a arquitetura pública? Diz Jeudy: “Atualizar significa primeiro subtrair a temporalidade habitualmente atribuída ao passado, para torná-lo atemporal e conferir-lhe ao mesmo tempo um “poder de contemporaneidade”. Ao contrário, a leitura de Bicca nada mais faz do que adotar uma estratégia que visa desestabilizar o tempo presente, adotando uma complacência moral que diz que “o passado ilumina o presente”. Projetos são modificados, sim, devido aos contextos, às circunstâncias, por inúmeros atores que não apenas os arquitetos. A arquitetura pública é uma construção coletiva. O que faltou em sua concepção: a ideia de que a arquitetura urbana, muitas vezes, é produto de uma negociação.

Ora, se você quiser descrever a beleza da Câmara Municipal de Porto Alegre e, de resto, dos prédios públicos em geral tão criticados por Bicca, é preciso observar de fora da cidade para ter uma visão melhor do que eles representam na fisionomia da mesma. Antes de Benjamin, Alan Poe. Explico.

Alan Poe escreveu o conto O Aperto, uma das descrições mais interessantes da cidade de Edimburgo, onde quis evitar a descrição de sua fisionomia de forma direta, a passeio, já que “todo mundo já esteve em Edimburgo”. A história, recontada por Nicolau Sevcenko, é protagonizada por três personagens: a Signora Psyche Zenóbia, o coadjuvante Pompeu, seu velho escravo, e Diana, uma cadelinha poodle. Passeando os três pela cidade, Zenóbia vê uma catedral gótica com sua torre altíssima e se vê tomada por um desejo irresistível de subir nela e vislumbrar a extensão da cidade. Ela sobe, mas não encontra uma janela, só uma abertura num imenso relógio, que expunha as horas para os seus habitantes. Ela coloca a cabeça na abertura: “O panorama era sublime. Nada podia ser mais magnífico(…)Eu me entreguei com prazer e entusiasmo ao gozo da cena que tão amavelmente se oferecia diante dos meus olhos”. O final da história? Como nos contos de Poe, os ponteiros, como imensas lâminas, afundam-se no pescoço da matrona, o negro foge, e a cadelinha é devorada pelos ratos. Genial.

O que interessa aqui é o método. É que, para descrever a cidade, é preciso voar e correr os seus riscos. É preciso vislumbrar a cidade do céu, das alturas, observando sua situação, a sua aparência geral, fazer uma espécie de travelling do alto, a olho nu, exatamente como foi feito em diversas cenas do documentário Porto Alegre, Meu Canto no Mundo (2007), de Cícero Aragon. Para descrever o papel que a arquitetura pública tem na fisionomia da cidade, como quer Bicca, é preciso procurar uma posição elevada para ver de cima a totalidade da capital. Diz Sevcenko: “Olhada ao rés do chão, a cidade se dissolve em fragmentos, cuja dispersão infinita é sumamente desagradável. Vista, descrita ou representada de um ponto elevado, ela se torna um emblema abstrato imediatamente apreensível”. É disso que se trata, a perspectiva do olhar.

Se você olha a Câmara de cima, o que vê? Você não vê os estacionamentos, tão criticados em sua feiura por Bicca, mas a imensidão de uma bela área verde, das árvores que embelezam o prédio legislativo. Elas têm uma história contata por funcionários e vereadores que as plantaram, que cuidaram delas dia após dia, área que, no ano passado, foi cenário da reprodução do primeiro plantio de mudas recriado por alunos do projeto de educação pelo trabalho que frequentam a Câmara. É, portanto, uma área que se atualizou permanentemente e que tem uma história para contar e que, pelo artigo, Bicca desconhece. O estacionamento existe, sim, e pode ser feio para o caminhante: é que a Câmara é um prédio inacabado e foi finalizado aos poucos. Sofreu adaptações. Ele não é produto da idealização de um arquiteto em férias, não é o prédio dos sonhos, mas algo vivo em contato com a sociedade porto-alegrense. O estacionamento é um problema e uma necessidade nas cidades – e é assim também na Câmara –, mas, graças a ele, mais parcelas da população têm acesso ao legislativo.

Naquele espaço, se Bicca observasse melhor, até um bicicletário está sendo construído onde ele só vê terra esburacada, prova de que o Legislativo atende a demandas da comunidade, no caso, os ciclistas. Mas não há nada mais belo ao redor daquele prédio e que o dignifica do que o imenso cinturão verde que o cerca. Quanto ao painel, está escrito nele apenas um convite à entrada e participação nos debates. Aquela é uma rua de grande circulação. Se o Parlamento não tiver o direito de convidar seu público, quem pode?
Não, Bicca, discordo. O Legislativo e seu entorno estão inseridos na paisagem da cidade. Não, Bicca, discordo. O Legislativo dá o exemplo do que deve ser construído em termos de prédios públicos. Não, Bicca, o prédio da Câmara não é um espaço urbano de má qualidade. Claro que há muito a ser feito em busca de uma arquitetura bem inserida, com o que concordamos, mas a verdade é que a Câmara está, sim, bem inserida na cidade. É que, Bicca, não vivemos no mundo dos sonhos dos arquitetos, mas no mundo possível de uma sociedade na qual seus atores lutam por seus direitos, e nisso, o legislativo tem um lugar fundamental.
Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.

Um passeio crítico pelas ruas de Porto Alegre, por Paulo Bicca*

21 de maio de 2012 0

* professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS

A pobreza das construções públicas da Capital pode estimular a sociedade a assumir o urbanismo como um fato cultural significativo

Louvável que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, no seu discurso de posse, sua primeira fala oficial, tenha enfatizado que a arquitetura e o urbanismo devem ser tratados como realidades culturalmente significativas, indispensáveis à construção de uma boa e bela cidade, e não apenas como patrimônio do passado a ser valorizado e preservado. Certamente, a grande maioria está de acordo. Mas é revelador e preocupante o fato de essas verdades ainda precisarem ser reafirmadas. Porém, isso infelizmente se justifica, pois, via de regra, o que ocorre é a inobservância daquilo que a ministra corretamente apregoa, trazendo-me à memória uma passagem da peça Calabar, escrita e musicada, em 1973, pelo irmão Chico Buarque de Hollanda e o teatrólogo Ruy Guerra.Refiro-me ao trecho:

“Há uma grande distância entre a intenção e o gesto”. O discurso da ministra trouxe-me igualmente à lembrança a carta Flavius Belisarius, general do Império Bizantino, escrita em torno de 550 d.C. e destinada ao rei dos estrogodos, Tolita, que havia invadido Roma.”Os homens sábios”, disse o general,”embelecem com obras de arte as cidades que delas carecem; os homens tolos, ao contrário, delas as despojam”.Recordou-me também o filósofo e poeta simbolista francês Paul Valéry e sua obra Eupalinos ou o Arquiteto, escrita em 1923.Elaborado nos moldes de um diálogo platônico, entre Sócrates e Fedro, o texto tem a arquitetura e o arquiteto de nome Eupalinos como objetos centrais do discurso.

No diálogo, Fedro revela a Sócrates o que esse arquiteto lhe teria afirmado:”Diga-me, pois és tão sensível aos efeitos da arquitetura, se tens observado, em teus passeios por essa cidade,que,entre os edifícios que a povoam,uns são mudos, outros falam; e outros, em fim, os mais raros, cantam.Não é seu destino, nem sequer sua característica geral, o que a tal ponto os anima, ou, ao contrário, ao silêncio lhes apequena.
Isso procede do talento do seu construtor”.

Mas se não fosse a Fedro que Eupalinos dirigisse a palavra, mas, sim, a cada um de nós? E se, em vez de uma cidade imaginária, fosse Porto Alegre o objeto das suas observações? O que veríamos se por ela andássemos com os olhos atentos? Por isso, convido a um pequeno passeio pela cidade, focando na arquitetura e no urbanismo, pelos quais o poder público é o responsável,pois,se a ministra está com a razão,o mínimo que se pode exigir é que dê o bom exemplo. Mas, infelizmente, não é isso que ocorre, como se pode constatar na grande maioria dos casos, entre os quais apresento alguns dos mais significativos. Comecemos pela área que melhor revela o que os três níveis do poder público têm construído como o seu próprio espaço. Refiro-me à ampla área ganha ao Guaíba por meio dos aterros realizados nos anos 1990 e na qual se situam, com destaque, a Câmara Municipal, os prédios da administração federal e o Centro Administrativo do Estado. Uma não cidade,cujas precárias condições arquitetônicas e urbanísticas, apenas em parte, podem ser creditadas ao ideário modernista ali adotado, muito embora, para isso, ele tenha contribuído bastante.

Destaque-se, de início, o espaço do Legislativo Municipal. Sem entrar no mérito da sua arquitetura, o prédio da Câmara, pela função que abriga, deveria ter, no mínimo, o seu entorno tratado de forma digna. Mas o que, de imediato, encontramos ao chegar é um estacionamento _ pior que isso, um arremedo de estacionamento, em terra, esburacado e com lodo e água empoçada quando chove. E na saída pelo pórtico, e fronteiro a ele, o que se destaca é um outdoor anunciando que, no Parque da Harmonia, oficialmente
Maurício Sirotsky Sobrinho, existe uma churrascaria.Aliás, no acesso a esse parque, situa-se um pequeno monumento com o busto do referido empresário da comunicação abandonado em meio a dejetos e lama. Prestar homenagem nesses termos é quase melhor não fazê-lo.

E o que se observa naquela que deveria ser uma bela avenida, chamada Loureiro da Silva, parte da Primeira Perimetral? Ao longo do terreno da Câmara, uma cerca qualquer; e na sua entrada, que deveria ser a principal, outro outdoor, que, independentemente de seu conteúdo, ali jamais poderia estar. E do lado oposto da avenida, situa-se a Seção de Fabricação de Pré-Moldados do Departamento de Esgotos
Pluviais (DEP) do município. É um conjunto de barracões e depósito de canos de cimento e de montes de areia,sobre os quais se estendem as”ruínas”do Aeromóvel, ignorando um antigo prédio de valor arquitetônico que ali se encontra. E é impossível deixar de constatar o desleixo da cerca e dos muros
que contornam essa extensa área pública em localização privilegiada. Não basta olhar apenas para a faixa contígua à orla; é preciso, no mínimo, prestar igual atenção para o que ocorre no seu entorno imediato.

Soma-se a isso o quarteirão ocupado pela sede da Fundação de Ciência e Tecnologia do Estado (Cientec), cujo conjunto de construções, sem valor arquitetônico e urbanístico, não corresponde ao significado e à importância dessa instituição e não contribui, antes pelo contrário, para a qualificação do lugar onde se encontra. O mesmo pode ser dito a respeito do local ocupado pelos prédios do Instituto Parobé. O quadro em parte se completa com a extensa área na qual se situam os órgãos da administração federal, setor constituído por arquitetura, na sua maioria, de qualidade duvidosa. São construções totalmente isoladas do seu entorno por espaços vazios, cercados integralmente por grades, gerando um lugar sem nenhuma vida urbana.

Infelizmente, o Centro Administrativo do Estado reforça esse cenário composto por espaços urbanos de má qualidade. Seu urbanismo _ se é que assim se pode chamar _,totalmente desestruturado e desconectado da cidade,”relacionase” com ela por meio de imensas áreas de estacionamento de automóveis, fechadas por cerca de mourões de cimento, telas e arames farpados. Imagino o que pensaríamos se o mesmo tratamento tivesse sido dado a nossa Praça da Matriz; e o que diríamos se essa lógica tivesse prevalecido na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes, em Brasília.Óbvio que acharíamos um absurdo.Lá,não aqui.

O cenário não muda quando, continuando nossa piccola passeggiata, chegamos à Avenida Erico Verissimo, Segunda Perimetral,no trecho em que se situam,de um lado,o Ginásio Tesourinha, e de outro, instalações da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).Trata-se de uma avenida que, pela sua importância na estrutura viária e urbana da cidade, deveria merecer um tratamento urbanístico a sua
altura. Mas o que encontramos é o oposto.Aliás, o jogador Tesourinha merecia algo bem melhor que a arquitetura do ginásio que leva seu nome. Quanto às instalações da EPTC, seus prédios são velhos barracões que muito se assemelham àqueles utilizados nos canteiros das grandes obras. Barracões cujos fundos muitas vezes se voltam para a avenida, sendo os espaços residuais, entre eles e a calçada, usados como depósitos, inclusive de dejetos, expostos a quem por ali circula. Tais condições arquitetônicas não diferem muito daquelas dos prédios da sede dessa mesma empresa, localizados na Avenida Ipiranga e que em nada contribuem para a qualidade urbanística dessa,antes pelo contrário.

Não se pode esquecer a má arquitetura do Ginásio da Brigada Militar,construído nos anos 1960 para os jogos da Universíade que ocorreu então em Porto Alegre.Ao seu lado,um grande espaço, vazio e mal cuidado, no qual se encontram barracões deteriorados.A Escola de Bombeiros completa o conjunto. Não se trata de negar a importância da mesma, mas, se um dia a sua localização aí foi adequada, hoje não o é mais, por várias razões, entre outras porque impede a qualificação urbanística do lugar, além de ser inadmissível
do ponto de vista da economia urbana.Aliás, há inúmeras situações como essa em Porto Alegre, envolvendo áreas e atividades de órgãos municipais, estaduais e federais. Isso recomenda a realização de um inventário, por meio do qual se identifiquem aqueles casos considerados inadequados ou nocivos à cidade, demandando, portanto, a correspondente ação da administração pública,nos três níveis.

O que mais nos chama a atenção na Avenida Ipiranga? As suas pontes! É gritante a diferença de qualidade entres as belas pontes mais antigas, que faziam parte do projeto original de retificação do Riacho Dilúvio (Avenida Getúlio Vargas,Azenha e Avenida João Pessoa),e as canhestras pontes de construção mais recentes. Diferenças que podem, em boa parte, ser explicadas por um trecho retirado da publicação Um Plano de Urbanização, do prefeito José Loureiro da Silva e do arquiteto Edvaldo Pereira Paiva, pela Editora
Globo, em 1943:”A ponte a ser construída à Avenida Getúlio Vargas, como todas as outras que forem construídas sobre o canal do Riacho, constituirá, pela sua arquitetura e acabamento, verdadeira obra de arte que muito contribuirá para o embelezamento daquela artéria. As pontes, como disse Prestes Maia,prefeito de São Paulo,’caracterizam fortemente a individualidade das grandes capitais’.As pontes de Paris, Roma, Florença,Veneza etc ligam-se indissoluvelmente às lembranças dessas cidades”.

Essas questões de ordem estética e esses cuidados com a paisagem foram ignorados quando da construção das pontes” modernas”,como se fosse requerido cumprir a sua função primária, isto é, permitir a passagem de um lado para outro do riacho. O mesmo pode ser dito quando pensamos na história dos viadutos, começada de forma exitosa com o Viaduto Otávio Rocha, obra magistral de arquitetura urbana _ obra ímpar e talvez sem equivalente no mundo.Porém, o espírito que animou a sua concepção infelizmente esteve ausente no projeto dos demais viadutos de Porto Alegre.As primeiras pontes do riacho e o nosso mais antigo viaduto ajudam a compreender porque, no vocabulário dos engenheiros, existe a expressão obra de arte então a eles aplicada. Expressão que, por inércia, ainda hoje se mantém, mas cujo significado se perdeu totalmente na maioria dos casos.

A grande maioria das nossas pontes urbanas e viadutos, assim como as perimetrais, dá razão ao arquiteto austríaco Camillo Sitte, que, já no final do século 19, no Construção de Cidades Segundo Princípios Artísticos, afirmava:”Aquele que não se preocupa da urbanização como arte considera-a somente como um problema técnico e, quando o efeito artístico não responde as nossas esperanças, ficamos surpreendidos e perplexos…Porém,apesar disso, na próxima obra se trata tudo novamente desde esse ponto de vista, com se fosse um traçado ferroviário no qual se faz abstração do sentimento”.
No nosso caso, um traçado rodoviário que, tomando de empréstimo mais algumas palavras de Sitte, procura legitimar-se pela”divinização do eterno pretexto do tráfego”, revelando-se, entretanto,”demasiado pobre para poder, justificadamente, rechaçar a ajuda da arte, dos ensinamentos da história e as grandes tradições da urbanização”

Estamos vivendo o primado do produto sobre a obra, já afirmou o sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre, no seu livro O Direito à Cidade, escrito no início dos anos 1960. Segundo ele, na lógica da economia de mercado, há forte e dominante tendência à substituição da obra pelo produto; ao contrário de outros tempos passados, nos quais prevalecia “o sentido e o gosto da obra, em particular no setor arquitetônico e urbanístico. Com efeito, diz Lefebvre, a obra depende mais do valor de uso do que do valor de troca”. Tendência à qual o poder público não têm sido imune.

Retomando o nosso passeio pelas ruas de Porto Alegre, o que percebemos nas mudanças ocorridas na arquitetura dos prédios das escolas públicas? O que constatamos quando comparamos com as construções escolares mais recentes os antigos prédios do Colégio Júlio de Castilhos (refiro-me àquele outrora situado na Avenida João Pessoa, no local onde hoje se encontra a Faculdade de Economia da UFRGS), do Instituto Parobé, da Escola Ernesto Dornelles, do Instituto de Educação? Independentemente dos seus variados
estilos, todos esses prédios se caracterizam por uma inegável dignidade arquitetônica,simbolicamente associada à relevância então conferida à atividade que neles ocorria. O que talvez nos revele que, à decadência da instituição escola pública, corresponde a degradação da arquitetura dos seus edifícios.São como as duas faces de uma mesma moeda.

A preocupação do que ocorre em Porto Alegre aumenta quando se constata que essa anticultura arquitetônica _ que observamos nas obras realizadas pelo poder público _ perpassa e transcende os governos das últimas décadas. Estamos diante de uma anticultura que tem se mostrado hegemônica, no sentido de Gramsci, pois, mesmo aqueles que dizem com ela não concordar, acabam por aceitá-la,
comportando-se como se a ela não houvesse alternativa.

Não se pode ser conivente com tal situação. Mas é igualmente necessário dizer que os moradores de Porto Alegre, na sua imensa maioria, têm-se mostrado indiferentes ao que nela ocorre arquitetônica e urbanisticamente. Comportamo- nos como não cidadãos, como se a cidade não nos pertencesse; como se os seus problemas nos fossem alheios, não nos dissessem respeito; ou como se cada um pudesse buscar uma solução individual para os mesmos.Vã ilusão.

Uma música ruim, podemos não ouvi-la; um filme ou uma peça de teatro medíocres, podemos não assisti-los; uma pintura, uma escultura ou uma fotografia que nos desagradem, podemos evitá-las; um livro mal escrito, pode não ser lido. Isso é impossível com a arquitetura da cidade, pois a nossa relação com ela é direta e compulsória, basta olharmos pela janela ou sairmos à rua.Não adianta recorrer ao mecanismo de defesa psíquica identificada por Freud sob o nome denegação, pela qual se ignora ou não se aceita como
de fato existente aquilo que nos causa desconforto. Em absoluto, isso não altera e muito menos nega a situação real, pois contribui para a sua permanência por meio da ilusão de que ela não existe.Atitude semelhante à do avestruz, que enfia a cabeça no buraco,deixando de enxergar aquilo que o ameaça,supostamente”negando”assim a sua existência.

Não podemos aceitar edifícios ou espaços urbanos mudos; não podemos nos contentar com aqueles que apenas e dificilmente falam; nem tampouco admitir ou sermos complacentes com aqueles que, pretendendo cantar, desafinam. E o belo canto da arquitetura da cidade não pode ser desfrutado apenas por poucos e privilegiados ouvidos; ele precisa ser acessível a todos,indistintamente.

Porém,não se deve confundir a arquitetura que canta com a arquitetura espetacular, isto é, a arquitetura da”sociedade do espetáculo”,para usarmos expressão do francês Guy Debord. Não confundi-la com a arquitetura à qual falta urbanidade, no dizer do historiador italiano Bruno Zevi; arquitetura daqueles maniáticos em se fazer notar e afirmar a sua própria personalidade; arquitetura dos que se preocupam
em inventar sempre algo novo, ser originais, sobressair-se. Com uma tal arquitetura,diz Zevi,”acabaremos rodeados de construções que poderão ter todas as qualidades, mas que, de nenhuma maneira, poderão chamar-se urbanas… Quem tem necessidade de se fazer notar tem geralmente pouco a dizer”. Nessas condições, não se enquadra a magistral obra da Fundação Iberê Camargo, uma”sinfonia”para os nossos
olhos,projeto do arquiteto português Álvaro Siza.

Portanto, retomando as palavras da ministra, não basta impedir que se destrua o que não deve ser destruído. É necessário impedir que se construa o que não deve ser construído. O poder público precisa dar o exemplo, estimulando a sociedade a assumir, de maneira ativa e consciente, a arquitetura e o urbanismo como fatos culturais significativos, relevantes na política. Devemos nutrir a esperança de que um dia se formarão”verdadeiros partidos técnico-arquitetônicos, com as suas paixões e os seus pleitos”, quando então “a arquitetura palpitará de novo na excitação dos sentimentos e no estado de espírito de todos, numa escala cada vez mais elevada, e a humanidade,educada mais plasticamente, se habituará a considerar o mundo como dócil argila, própria para esculpir formas sempre mais belas de vida”.

A tarefa é árdua, os obstáculos são enormes e há muito a ser feito na arquitetura e no urbanismo de uma Porto Alegre que se pretenda culturalmente expressiva, mais humana, mais bela e aprazível. Mas, como já disse o poeta português Fernando Pessoa,”Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”

Getúlio Vargas, com exclusividade, no Cultura

19 de maio de 2012 0

O caderno Cultura deste sábado traz a nova e badalada biografia de Getúlio Vargas. Em reportagem, entrevista e comentários, os leitores terão a chance de conhecer um pouco sobre Getúlio 1882-1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50), que cobre o período gaúcho da vida do político de São Borja.

O Cultura também traz, com exclusividade, trecho inédito do segundo volume da biografia. Programado para 2013, o texto cobre a vida de Getúlio de 1930 a 1945, dando sequência ao trabalho que acaba de chegar às livrarias. Em 2014, está previsto o terceiro e último volume, que trará o período de 1945 a 1954:

Confira trechos do primeiro volume:

Aos sete anos o esquivo Getúlio assistira às contingências da política invadirem-lhe a porta de casa e se instalarem no seio familiar. Às vésperas da quartelada que resultou que resultou na Proclamação da República, em 1889, os Vargas e os Dornelles se viram situados em campos políticos radicalmente opostos. O pai de Getúlio se declarou republicano convicto. Os irmãos de dona Candoca, ao contrário, como a maioria, permaneceram fiéis aos liberais comandados por Gaspar Silveira Martins, o homem que “mandava e fazia chover” no Rio Grande do Sul naquelas últimas décadas do Império.”

Os dois clãs, Vargas e Dornelles, esqueceram a origem em comum. Ambos eram provenientes de troncos familiares que remetiam aos casais açorianos que, no século XVIII, haviam desembarcado no Brasil com a ilusão de encontrar aqui a Terra Prometida. Seus antepassados vieram em navios superlotados, obrigados a suportar mais de dois meses numa travessia marcada pela escassez de água e alimentos. Muitos foram atirados ao mar, depois de morrerem vitimados por doenças provocadas pela desnutrição e pela falta de higiene a bordo. Ao desembarcarem, em vez das benesses anunciadas, descobriram-se abandonados.

Sem a apregoada ajuda governamental, uns vagaram ao léu, outros aos poucos começaram a se aclimatar ao novo país, e, com isso, deram início a núcleos de povoamento que seriam a origem de várias das futuras cidades gaúchas, inclusive a capital Porto Alegre. Cinco ou seis gerações depois, com a ocupação gradativa de territórios e a luta contínua pela posse de terras, alguns dos descendentes dos pioneiros açorianos haviam se firmado como estancieiros no interior da província. Era o caso dos Vargas e dos Dornelles, irmanados pela linhagem, mas tornados arquirrivais pelas circunstâncias da política partidária.

Como atestado de que era um antimonarquista histórico, o pai de Getúlio evocava um episódio ocorrido ainda nos tempos da Guerra do Paraguai, quando num gesto de promoção política o imperador d. Pedro II decidiu vistoriar o front, o que levou o monarca até a cidade de Uruguaiana, onde os paraguaios estavam submetidos ao cerco das tropas da Tríplice Aliança. Na ocasião, o oficial Manuel Vargas tivera a oportunidade de conhecer o imperador de perto mas, segundo ele próprio afirmaria depois ao filho Getúlio _ e mais tarde aos netos _, recusara a honraria:

“Eu não ia beijar a mão de um homem de falinha de mulher, barba de milho, mãozinha delicada. Eu não fui falar com ele não”, gabava-se o bigodudo Manuel Vargas.

Seja isso fato ou folclore familiar, o certo é que o pai de Getúlio colaborou em uma das ações táticas mais significativas da pregação republicana: o abolicionismo. Antes da decretação da Lei Áurea, em consonância com a orientação emitida pelo congresso de 1884 do Partido Republicano do Rio Grande do Sul (PRR), Manuel Vargas concedeu a carta de alforria a todos os escravos da estância _ muito embora, na zona de fronteira onde estava localizada a Fazenda Triunfo, o trabalho dos cativos nunca tenha representado uma presença realmente ativa na economia rural, ao contrário do que acontecia nas regiões rio-grandenses dedicadas à produção de outro produto básico da economia regional, o charque.

Do mesmo modo, Manuel Vargas apoiou, desde a primeira hora, o nome do chefe do PRR, Júlio de Castilhos, para o comando político do estado. Não era à toa que Manuel mantinha o retrato do líder na parede principal da sala de jantar da fazenda. Castilhos, nascido em Cruz Alta, zona das serras gaúchas, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, havia sido o principal redator do jornal A Federação, combativo órgão da propaganda republicana local na chamada fase heroica do movimento. Gago, baixinho, atormentado pelas cicatrizes da varíola que lhe havia devastado o rosto na infância, Castilhos era um orador medíocre, mas um demônio diante de uma folha de papel em branco. Seus artigos, carregados de ironia e furor, fustigavam adversários e arrebatavam leitores. Entre estes últimos, incluía-se Manuel Vargas, assinante compulsório de A Federação, o “alcorão partidário”, como o jornal viria ser definido, e cujos exemplares chegavam à Fazenda Triunfo sempre atrasados, em companhia da correspondência trazida na mala semanal dos correios de Porto Alegre até São Borja, distantes quase 600 quilômetros uma da outra. (Páginas 36 e 37)

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.

“A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas”, escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. “Bem se diz _ e uma vez me repetiste _ que para vencer, às vezes, basta esperar”, alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.

É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio _ ou qualquer outro filiado ao PRR _ não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.

“O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria”, protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.

A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.

Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.

João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: “Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado”, escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. “Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado”, denunciou a Hiena. “Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo”, acusou João Francisco.

Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.

“Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido”, condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.

Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um “sargentão sem compostura”, paparicado por oficiais que não passariam de um “canalha” que precisava “de uma reprimenda para entrar na disciplina”. As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.

Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.

“Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais”, acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes. (Páginas 176, 177 e 178)

Ao mesmo tempo que mantinha encontros secretos na calada da noite com revolucionários em pleno palácio do governo estadual, Getúlio ainda tentava costurar acordos de paz com Washington Luís. Em nova carta a João Neves, detalhou: caso se confirmassem as informações de um ataque próximo, só restariam três opções ao Rio Grande: 1) aceitar o aniquilamento de forma passiva; 2) deflagrar uma revolução antes da suposta agressão federal ou 3) retornar às tentativas de reconciliação com Washington Luís. A primeira opção, é óbvio, estava fora de cogitação. Quanto à segunda, Getúlio continuava reticente:

“Não podemos assumir perante o país a responsabilidade moral de deflagrar a guerra civil, baseados em meras suposições, pois não temos ainda como demonstrar, concretamente, a existência do plano reacionário.”

Restava, portanto, a última opção: reconciliar-se com o Catete. Getúlio expôs o quadro para Afrânio de Melo Franco. Segundo os informantes que dizia possuir, tudo indicava que Minas seria varrida do mapa, assim como Rio Grande. Diante da perspectiva, tentou convencer Afrânio a escrever a Epitácio Pessoa, para que este, com a autoridade de ex-presidente da República e de representante brasileiro em Haia _ portanto um observador hipoteticamente distanciado dos acontecimentos que ora dividiam o país –, atuasse como mediador entre a cúpula da Aliança Liberal e o governo da República. O parentesco de Epitácio com João Pessoa não era garantia de distanciamento, mas Getúlio indicou uma proposta de solução negociada que imaginou ser a prova mais clara de desprendimento pessoal: renunciaria à própria candidatura, e convenceria João Pessoa também a fazê-lo, em favor de dois novos nomes, os presidentes estaduais de Pernambuco e do Ceará, Estácio Coimbra e Matos Peixoto. Como Estácio Coimbra era ligado a Washington Luís, Getúlio supôs que o presidente da República ficaria constrangido em recusar a oferta.

“Com isso nós tranquilizamos a vida do país e saímos vitoriosos, inutilizando a candidatura do Catete”, previu.

O caso, portanto, passara a se inviabilizar a todo custo a ascensão de Júlio Prestes ao Catete, mesmo pagando um preço elevado por isso.

“Paris bem vale uma missa”, ironizou Getúlio, lançando mão da frase histórica, atribuída ao protestante Henrique IV. que no século XVI se convertera ao catolicismo para assumir o trono da França.

A sugestão embutia uma jogada de implicações arriscadas. Se Washington Luís não aceitasse as condições do acordo, dada a já reconhecida obstinação em atestado de intransigência, o que poderia dificultar sua situação junto à opinião pública. Mas havia um risco fatal: acenar com uma hipótese de renúncia poderia passar a ideia de estar fugindo da disputa por medo antecipado da derrota.

“É um golpe de efeito, que pode todavia ser interpretado como manifestação de fraqueza. Que achas?”, indagou Getúlio a João Neves.

Para Neves, considerando-se o cenário que o próprio Getúlio havia esboçado, a questão chegara a um ponto-limite, a partir do qual só haveria dois desfechos possíveis: “rendição ou revolução”. E Neves não tinha mais dúvidas sobre qual caminho eles deveriam seguir:

“Sempre que Vargas insistia comigo por uma terceira solução, eu lhe impunha um invariável argumento: iríamos bater a uma porta fechada a sete chaves. Resultado: perderíamos a autoridade perante o povo e seríamos liminarmente rechaçados.” Estava na hora, por seguinte, de optar pela ousadia.

“O mundo nunca pertenceu aos tímidos”, sintetizaria Neves.

Por timidez, medo ou mesmo prudência, Afrânio de Melo Franco acatou a sugestão de Getúlio e escreveu para Epitácio Pessoa, solicitando a mediação do ex-presidente junto ao Catete. Pediu também o indispensável sigilo em torno da delicada missão:  “Se ela fosse divulgada, poderia parecer a alguns como sendo prova de vacilação de espírito, ou de temor”, explicou Afrânio.

Antes que a mensagem pudesse sequer chegar ao destinatário, os piores receios de Getúlio se materializaram. Na Câmara dos Deputados, cópias mimeografadas da carta de Afrânio a Epitácio eram repassadas de mão em mão, alvo de ataques e piadas da bancada governista. O datilógrafo, inadvertidamente, jogara no cesto de lixo o papel-carbono utilizado para providenciar as duas únicas cópias autorizadas do documento, enviadas uma para Antônio Carlos, outra para Getúlio. Um servente mais ardiloso reconheceu o valor daquele carbono amassado e o repassou ao deputado Azevedo Lima, que por vez o entregou a um redator do jornal A Vanguarda, em cujas páginas a carta foi publicada na íntegra.

O Malho, como sempre, tripudiou. Na capa de 5 de outubro, uma charge em cores mostrava uma senhora decrépita, em coma, deitada no leito de enferma. No cobertor remendado por retalhos velhos, lia-se a inscrição: “Aliança Liberal”. A redor da cama, apareciam Antônio Carlos, vestido de enfermeiro; Borges de Medeiros, segurando um vela; e Getúlio Vargas, cabisbaixo. O título: “À beira do túmulo”. A legenda: “Cuidado! Se aparecer outra carta por aí, ela estica a canela”. (Páginas 359, 360 e 361)

Confira, com exclusividade, trecho inédito do segundo volume

Por volta de onze e meia da noite daquele 25 de fevereiro de 1932, uma quinta-feira, os habituais frequentadores da praça Tiradentes, mais famoso reduto da boemia carioca à época, tiveram suas atenções voltadas para o som do motor de pesados caminhões que passavam pela rua ali em frente. Sambistas, atores, coristas, músicos e malandros que sempre lotavam os cafés do local até alta madrugada assistiram com surpresa à passagem do comboio composto por três enormes veículos de carga, apinhados de soldados do Exército. Eram cerca de 180 homens fardados. Todos levavam fuzis, pistolas e submetralhadoras em punho.

Os caminhões oficiais – dois pertencentes à corporação militar e o terceiro identificado mais tarde como sendo do departamento de limpeza pública do Distrito Federal -, contornaram a Tiradentes e margearam lentamente a profusão de dancings, bares, cinemas e teatros que fervilhavam ao redor da praça. Seguiram assim, sem pressa, até estacionarem enfileirados à altura do número 77, onde funcionava a sede do Diário Carioca.

O jornal, que quinze meses antes apoiara com ardor a Revolução de 30 e a consequente chegada de Getúlio Vargas ao poder, passara a publicar artigos e editoriais inflamados a favor da reconstitucionalização do país – desde novembro de 1930, Getúlio vinha governando por decreto, após a Constituição Federal ter sido declarada suspensa. A maioria desses textos, editados com destaque na primeira pagina do Diário, era assinada pelo diretor de redação, José Eduardo Macedo Soares. Um dos últimos, publicado no dia 24 de fevereiro de 1932, fustigara:

“O regime do sr. Getúlio Vargas fracassou. Primeiro, pela resistência que encontrou no sentimento brasileiro de invencível repugnância a qualquer escravidão política. Segundo, pela insanável incompetência dos homens nos quais se apoiou”.

Macedo Soares, com seus característicos olhos verdes e fundos, de grandes pestanas e pálpebras meio caídas, era um polemista profissional. Em 1912, após chegar ao posto de tenente, largara a Marinha e passara a militar na imprensa, ao fundar seu primeiro diário, O Imparcial, pioneiro na publicação de ilustrações entre os jornais do Rio de Janeiro e crítico sistemático do então presidente Hermes da Fonseca. Ex-deputado federal por três mandatos consecutivos, fora preso por subversão também em três ocasiões, uma delas em 1922, quando ocupara a companhia telefônica de Niterói, encarregado da tarefa de cortar as ligações locais com a capital, onde os insurgentes tenentistas sublevavam o Forte de Copacabana. Mandado para o presídio da ilha Rasa, fugira pela porta da frente, ludibriando os carcereiros, envergando sobre o uniforme de presidiário um terno levado pelo irmão.

Em 1928, Macedo Soares fundara o Diário Carioca, para fazer oposição ao governo de Washington Luís. Pouco depois aderira à Aliança Liberal – a coalizão de forças que apoiara Getúlio Vargas à presidência da República. Em seguida à vitória do movimento de 1930, começara a criticar os civis e militares abrigados no Clube 3 de Outubro, agremiação fundada no ano seguinte no Rio de Janeiro por representantes do tenentismo. Defensores de um regime forte e autoclassificados como “patriotas enérgicos”, os integrantes do 3 de Outubro – o nome do clube era uma homenagem à data do estopim da Revolução de 30 – pregavam a necessidade de manutenção indefinida do período de exceção, durante a qual o Congresso e os legislativos estaduais deveriam continuar fechados e as prerrogativas individuais e as liberdades civis revogadas. Os “outubristas” argumentavam que uma possível volta à ordem legal apenas serviria para trazer de volta os políticos e a politicalha varridos do poder pela Revolução.

“Foi para realizar a tarefa de renovar o país que se instituiu, em fins de 1930, a ditadura no Brasil”, afirmava um dos mais destacados líderes tenentistas, Juarez Távora, promovido a major pelo governo revolucionário. “Essa obra prévia de desentulho, a ditadura só poderá dar por concluída quando houver separado, criteriosamente, o joio do trigo, os elementos imprestáveis, inadequados ou apodrecidos dos esteios bons que também se encontram sob os destroços da velha ordem”.

Em contraposição ao Clube 3 de Outubro, o Diário Carioca se convertera no baluarte do retorno à ordem constitucional. Suas páginas não cansavam de exigir eleições livres para uma Assembleia Nacional Constituinte, com vistas à elaboração de uma nova Carta Magna para o Brasil. Por isso, os três caminhões parados em frente à sede do jornal àquela hora da noite, com soldados ostensivamente armados, não pareciam indicar uma visita de cortesia.

A intenção dos recém-chegados não demorou a se revelar. Sem descer dos veículos, os militares obedeceram à ordem determinada por um oficial e, a um só gesto, apontaram os canos de suas armas para a fachada do prédio. A seguir, sob nova ordem, a de fazer fogo, desfecharam uma ruidosa carga de disparos. Depois de meio minuto ininterrupto de artilharia, os caminhões ligaram os motores e seguiram em frente, sacolejando em marcha lenta, como se nada de anormal houvesse ocorrido.

Em meio à balbúrdia que tomou conta dos cafés, os boêmios mais curiosos largaram violões e pandeiros sobre as mesas e saíram para conferir o estrago. A imagem era devastadora. As balas de grosso calibre estilhaçaram as vidraças do Diário e abriram centenas de buracos nas paredes do imóvel de dois pavimentos. Os trabalhadores gráficos e os redatores que preparavam a edição do dia seguinte despontaram à calçada, atônitos.

Enquanto todos aferiam a extensão da violência, notou-se que os caminhões apenas circundavam a praça e já retornavam, ameaçadores. O primeiro ataque fora somente uma mensagem de advertência, compreendeu-se. Os soldados ainda não haviam dado o serviço por terminado.

“Foge, que lá vem bala de novo!”, alguém gritou, em meio à multidão.

Quase não restou ninguém para assistir à segunda ofensiva. A maioria dos que ali se aglomeravam fugiu pela rua da Constituição – via pública que passara a ter um nome meramente decorativo, sem nenhuma correspondência com a situação política do país. Apenas os mais afoitos ousaram buscar um ponto de observação privilegiado por trás das árvores, bancos de granito e postes de iluminação da praça, já que todos os bares e cafés das imediações trataram de cerrar imediatamente as portas e um grande número de funcionários do jornal decidiu acompanhar os populares em debandada.

A nova saraivada de tiros se mostrou ainda mais ensandecida do que a primeira. A exemplo da ação anterior, os soldados atiraram do alto das carrocerias das viaturas, sem ao menos se darem ao trabalho de desembarcar. Mais uma vez, os caminhões entraram em movimento logo após a redobrada carga de artilharia, permitindo que os últimos grupos de jornalistas e gráficos tivessem tempo para evacuar o prédio, advertidos pelos gritos dos soldados de que ainda haveria um terceiro e definitivo ataque.

De fato, depois de novamente contornarem a praça, os três caminhões pararam em fila, no mesmo lugar de antes. A diferença foi que desta vez os soldados saltaram dos veículos e invadiram o prédio, pondo abaixo a porta da frente a golpes de coturno. Um pelotão de recrutas, munido de pás, machados e picaretas utilizadas na construção de trincheiras de guerra, ficou encarregado de destruir tudo o que encontrasse no caminho. O parque gráfico, localizado no andar térreo, consistiu no primeiro alvo. Máquinas tipográficas, mesas, cadeiras e armários foram reduzidos a destroços.

Para surpresa dos invasores, alguns poucos funcionários insistiram em permanecer no interior do imóvel. Entre eles, quatro linotipistas, que receberam coronhadas e golpes de sabre nas costas, na cabeça, nos braços e no peito. Um deles, Crispim Barbosa Júnior, que tentou reagir, foi baleado na barriga e atingido por um projétil que se alojou no osso ilíaco direito.

A fúria do assalto prosseguiu no piso superior, onde funcionava a redação do jornal. Dois redatores que também não fugiram, Rafael Holanda e o crítico de arte Angione Costa, foram espancados e sofreram escoriações generalizadas pelo corpo. Ali também não restou um único móvel intacto. Todos os birôs e máquinas de escrever foram estraçalhados pelos golpes de machado e picareta. Até os corrimões da escada chegaram a ser arrancados. Arquivos foram violados e pilhas de papéis, documentos e fotografias voaram janela afora, o mesmo acontecendo na tesouraria com livros contábeis e fichas dos funcionários.

“Onde está o Macedo Soares?”, um dos militares indagou aos dois jornalistas estatelados no chão.

Como não obtivesse resposta, o oficial que parecia comandar a ação rumou para o gabinete da administração do jornal. Depois de constatar que não havia ninguém lá, permitiu que uma única peça do mobiliário ficasse intacta: a cadeira do diretor editorial. Não admitiu que a despedaçassem, como fizeram com todo o resto. Preferiu disparar contra ela um único tiro, à meia distância. O projétil varou o encosto acolchoado, produzindo um rombo de bom tamanho no enchimento de palha. A mensagem era mais do que evidente. Aquela bala tinha sido reservada para o dono da cadeira. Se estivesse sentado ali, Macedo Soares teria sido trespassado pelo balaço.

Meia hora mais tarde, por volta da meia-noite, depois de se darem por satisfeitos com a quebradeira, os soldados retornaram aos caminhões. Nesse instante o local já se encontrava deserto. Poucos metros adiante, os letreiros do Teatro Recreio anunciavam a nova atração da casa, um espetáculo de revista teatral previsto para estrear na noite seguinte, escrito, dirigido e produzido pelo trio Djalma Nunes, Alfredo Breda e Amador Cisneiros. No elenco, aparecia pela primeira vez em letra de forma o nome de um jovem palhaço, trapezista e acrobata de circo chamado Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz, anunciado nos cartazes pelo pseudônimo de Oscarito Brennier. Muito em breve ele ficaria famoso nos palcos e no cinema, fazendo dupla com Grande Otelo e se tornando conhecido apenas pelo apelido de Oscarito.

O espetáculo que marcou a chegada do célebre comediante ao teatro de revista faria um estrepitoso sucesso, embora as colunas especializadas tenham dado pouca atenção ao novato Oscarito Brennier e preferido destacar a atuação da vedete Otília Amorim e das “25 recreio-girls encantadoras” que dançavam de pernas de fora e com plumas na cabeça ao longo dos vinte números musicais da atração. O que ficou mais evidente, porém, foi a inevitável associação entre o título do novo show do Teatro Recreio e o violento atentado contra o Diário Carioca. Para muitos, o nome do espetáculo poderia servir como um recado ao titular do Palácio do Catete, sede do governo federal:

“Calma, Gegê”.

(…)

Às duas da tarde de 4 de março de 1932, um dia após João Neves ter comunicado a Getúlio a demissão coletiva dos gaúchos, quarenta automóveis saíram do Rio de Janeiro em direção a Petrópolis. Todos os carros estavam ocupados por sócios do Clube 3 de Outubro, que à hora da partida posaram altivos e sorridentes para os fotógrafos dos jornais e revistas. No primeiro veículo, ia o interventor do Distrito Federal, Pedro Ernesto. No que seguia imediatamente atrás, o coronel Felipe Moreira Lima, responsável pelo inquérito relativo ao caso do Diário Carioca. Nos automóveis seguintes, acomodavam-se dezenas de oficiais do 1º Regimento de Cavalaria, a guarnição de onde partiram os caminhões com os soldados que depredaram o jornal de Macedo Soares.

Vencido o percurso de cerca de 70 quilômetros até Petrópolis, a caravana entrou na cidade e seguiu direto para os jardins do Rio Negro. Ao desembarcar, o grupo de visitantes se aglomerou diante das escadarias do palácio e voltou os olhos para as duas portas contíguas da fachada, que encontrou fechadas. Durante os cerca de quinze minutos em que os outubristas permaneceram ali, sem que ninguém do cerimonial do governo lhes dispensasse qualquer atenção, chegou-se a imaginar que seriam vítimas de uma desfeita.

“Será que não tem ninguém no palácio?”, indagou Pedro Ernesto, mantendo um ar de estudada descontração, para não perder a pose diante dos fotógrafos.

Mas o temor de que não fossem recebidos em audiência se dissipou quando as portas enfim se abriram e, pondo fim ao suspense, os ajudantes-de-ordens de Getúlio foram recebê-los, para então encaminhá-los ao salão de honra, onde estavam sendo aguardados. “O sr. Getúlio Vargas já estava no salão, à espera dos manifestantes. A recepção que lhes fez foi a mais cordial. Sorrindo, abraçou os primeiros que se aproximavam”, registrou o enviado especial do Correio da Manhã.

Depois dos cumprimentos calorosos de Getúlio, Pedro Ernesto pediu a palavra. Fez um discurso sem meias palavras:

“Excelentíssimo senhor chefe do Governo Provisório, o Clube 3 de Outubro aqui está com o fim de trazer o apoio e a solidariedade ao seu governo”, iniciou. “Esta demonstração é a revelação pública de que estamos certos da ação ditatorial de Vossa Excelência, pautada dentro dos princípios revolucionários, e que Vossa Excelência cada vez mais se revela o ditador de que necessitamos para salvar o nosso país”, prosseguiu. “Chegado o momento em que Vossa Excelência sente a necessidade de atos de força, como nos parece também ter chegado, estamos convictos que os fará e, para tanto, tem o apoio absoluto de todos nós”. Ao final, Pedro Ernesto reforçou: “Apoiaremos, de modo absoluto, o governo de Vossa Excelência, como ditador”.

De imediato, foi febrilmente aplaudido pelos colegas.

(…)

Era a vez de Getúlio Vargas falar, em resposta ao discurso do presidente do 3 de Outubro. Ele deveria ter plena consciência de que suas palavras poderiam determinar os rumos do país dali por diante. Seria a oportunidade para expressar uma recusa cabal ao autoritarismo, aos “atos de força” de que se vangloriava Pedro Ernesto, ou de aderir publicamente à tese de que só mesmo uma ditadura conviria ao país naquele momento de crise do capitalismo mundial.

“Recebo a demonstração de solidariedade que me trazeis, e bem compreendendo seu alcance e significação”, iniciou Getúlio. “Sois a vibrante mocidade civil e militar que não quer ver a revolução se afundar no atoleiro das transigências, dos acordos, das acomodações entre os falsos pregoeiros da democracia”.

Os aplausos dos representantes do Clube 3 de Outubro foram entusiásticos. Diante daquela vigorosa saudação, não poderia haver mais dúvidas de que ali estava o líder que exigiam, “o ditador que salvaria o Brasil”. Getúlio prosseguiu, para arrancar mais palmas e aclamação dos outubristas:

“Sob a aparência do apelo à constituinte e defesa duma autonomia que sempre violaram, muitos procuram apenas voltar ao antigo mandonismo e pleiteiam a posse dos cargos para a montagem da máquina eleitoral, veículo indispensável à sua ascensão”.

Pedro Ernesto e seus companheiros exultaram. Estavam ouvindo exatamente o que queriam. Não haviam ido a Petrópolis à toa. Getúlio, tudo indicava, pensava como eles: o sistema eleitoral era uma farsa; a democracia representativa, um estorvo; as manifestações em prol da constituinte, mera fachada para politiqueiros saudosos. A cada frase de Getúlio Vargas, os outubristas se derramavam em novos e acalorados aplausos. Os vivas, porém, foram mais comedidos quando Getúlio seguiu adiante:

“A volta do país ao regime constitucional virá, terá de vir, está na lógica dos acontecimentos. Essa volta processar-se-á, porém, orientada pelo governo revolucionário, com a colaboração direta do povo e não em obediência à vontade exclusivista dos políticos”.

A ressalva de que o regime constitucional viria, mais cedo ou mais tarde, não agradou a alguns dos presentes. Entretanto, desde que isso fosse encarado como uma simples possibilidade, uma perspectiva lançada em direção a um futuro hipotético, nada tinham a opor. Os aplausos só se tornaram realmente mais chochos quando, ao final, Getúlio sentenciou:

“O que não posso é concordar com a prática de violências de quaisquer origens, pois a ninguém é lícito fazer justiça pelas próprias mãos sem com isso diminuir a autoridade do governo e o prestígio da revolução”.

Os outubristas se entreolharam. O que significava aquilo? Eles realmente estavam sendo repreendidos pelo atentado ao Diário Carioca?

De que lado estava, afinal de contas, o senhor Getúlio Vargas?

Artista que não acaba mais

28 de março de 2012 0

É muito difícil aquilatar a obra de um artista do porte de Millôr Fernandes (1924 — 2012). O mais seguro é dizer o que Millôr não fez.

Millôr não fez TV. Oportunidades, com certeza, não lhe faltaram. Estreou profissionalmente na revista O Cruzeiro, da cadeia Diários Associados, de Assis Chateaubriand, responsável pela primeira emissora de TV do Brasil, a Tupi, criada em 1950. Muitos ases do humor brasileiro emigraram do rádio para a TV — Chico Anysio, Max Nunes, Haroldo Barbosa, Manoel de Nóbrega. Outros, como Jô Soares, saíram dos palcos para a telinha. Até mesmo Sérgio Porto, também conhecido como Stanislaw Ponte Preta, chegou a fazer TV (Lalau era tão tímido, lembra seu amigo Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, que no início se apresentava de costas para a câmera). Millôr permaneceu distante desse veículo, que desprezava. Na cronologia biográfica postada em seu site, escreve sobre o auge, em 1950, da seção Pif-paf, em O Cruzeiro: “Na redação, entrevista para o rádio, uma espécie de televisão da época, muito melhor, porque sem imagem”.

Millôr não fez música. Caetano Veloso, um de seus muitos desafetos, nunca o perdoou pela sátira ácida a que foi submetido nas páginas do Pasquim ao voltar do exílio, no início dos anos 1970. Em célebre entrevista nos anos 1980, disse ter ouvido de Jaguar algo mais ou menos assim: “Não é que o Millôr odeie você. Ele odeia música”. Com Chico Buarque, a briga chegou às vias de fato. Em entrevista, Millôr disse que o autor de O Que Será era alguém a quem não “confiaria o cachorro para passear”. Uma noite, num bar do Rio, o tempo fechou entre Chico e Millôr. Integrantes da primeira redação do Pasquim acreditam que, nos dois casos, o motivo da incompatibilidade não era político nem estético, mas atendia pelo nome de Tarso de Castro — jornalista gaúcho, fundador do Pasquim e, não por coincidência, amigo de toda vida de Caetano e Chico. Millôr e Tarso travaram um duelo pesado pelo controle do Pasquim depois da “gripe”, como ficou conhecido o episódio em que a maioria da equipe do jornal foi presa no final de 1970 e início de 1971. Mas é difícil acreditar que Millôr odiasse música. Em 1967, ele chegou a se apresentar em um show (como “ator”, é verdade) ao lado de ninguém menos que Elizeth Cardoso e Zimbo Trio.

Millôr, até prova em contrário, não fez cinema. Se cultivava alguma preferência nesse terreno, pouco fica revelado em seus escritos — talvez preferisse ouvir o que seu amigo Ivan Lessa tinha a dizer sobre o assunto. A fala de um personagem de Computa, Computador, Computa dá uma pista sobre o que ia pela cabeça do autor: “Sim, irmãos e patrícios, nossa mediocridade está seriamente ameaçada pelos progressistas ateus que pretendem nos esmagar com sua personalidade individual. Estamos seriamente infiltrados em nossa medíocre intimidade. Querem acabar com nossos medíocres programas de televisão. Com o Festival da Canção. Com o sinteco, o cinema novo e o cinema velho”. Não se furtava, porém, a dar seu testemunho sempre que procurado, fosse sobre o Pasquim ou sobre amigos, como pode ser constatado, entre outros, no documentário A Mochila do Mascate (2006), de Gabriela Greeb, sobre Gianni Ratto.

Descontadas essas três artes, Millôr foi exímio em todo o resto. Cronista, poeta, contista, dramaturgo, roteirista de espetáculos, tradutor, colunista, criador e administrador de jornais, artista gráfico, ilustrador, chargista, escritor sem estilo, jornalista sem fins lucrativos, guru do Meyer, inofensivo à camada de ozônio, ofensivo à burritsia (como ele próprio apelidou “nossa elite política”, lembrando que os russos do século 19 chamavam sua elite intelectual de “inteligentsia”) — Millôr era artista que não acabava mais.

Millôr não fez TV, música e cinema. Pior para esses três.

Patrulhas do gosto

24 de março de 2012 0

Em artigo publicado no Cultura deste sábado, a professora de comunicação da Unisinos Adriana Amaral analisa a expressão de preferências artísticas e culturais nas redes sociais. Assista ao comentário de Adriana em vídeo:

A literatura do Rio Grande do Sul segundo Regina Zilberman

17 de março de 2012 0

Em vídeo, jornalistas de Zero Hora leem trechos do livro A Literatura no Rio Grande do Sul, de Regina Zilberman, professora e pesquisadora entrevistada no Cultura deste sábado (17/03) na série Visões do Rio Grande. A obra ganhará terceira edição este ano.

12 de março de 2012 0

Para lembrar

um prazer


SANDRA SIMON

Você já se sentiu inteligente, feliz, levitando numa atmosfera de finesse? Nós, que estávamos na Palavraria no fim da tarde de sábado, nos sentimos inteligentes, finíssimos e, sobretudo, felizes. Reunidos para ouvir a leitura de poemas e prosas de Paulo Neves traduzidos para o francês por Nicole Pegeron, descobrimos nosso amigo (por tímido, a antítese do orador) num à vontade quase faceiro. Apresentou-nos Nicole, a professora que surpreendeu-o ao enviar-lhe, um dia, a tradução dos poemas de viagem, espera. Fascinante surpresa, que resultou na tradução do livro inteiro (os 40 poemas e os escritos), numa colaboração em que o tradutor de francês para o português dialogava com a tradutora de português para o francês.
À entrada, como numa missa, recebíamos em folhinhas a seleta de originais e traduções que seriam lidos e comentados em seguida. Comentários do poeta sobre a inspiração na origem de um poema, sobre um sonho, uma memória, e também finas observações sobre os achados da tradução, as sutilezas, a palavra perfeita que sofistica o verso em francês com uma aliteração, um duplo sentido, um capricho da língua.
Paulo, num microfone. No microfone ao lado, Nicole, discretíssima. Paulo lê o poema Um velho. Ao fim, Nicole respira e pronuncia: “Un vieux”. “Dans une bicoque de bois / un vieux s’appuie à la fenêtre / et regarde, peut-être, le soir venir.” Ficamos em estado de suspensão diante daquela voz, daquela melodia, daquela antiimpostação. La lectrice, Nicole é la lecrtice que se revela diante de nós. As pessoas se perguntam onde ela vive – na França, aqui? –, e alguém conta que ela está morando aqui, e que é uma história de amor. Tanto mais lindo…
Uma hora imersos no prazer daquelas vozes, na beleza daqueles poemas, no prazer e na beleza da língua francesa. E, de repente, parece quase óbvio: o poeta sonhou um sonho reverso. Os poemas surgiam em francês, num sonho. Só depois foram passados ao português pelo poeta desperto, em amnésia.
E, ao fim, saímos da Palavraria lotada para o calor da noite que cai e estamos um pouco inebriados de sofisticação, um pouco mais inteligentes e muito felizes.