— Vou chamar a polícia! — avisou minha secretária, postada atrás da mãe de Suzi.
Ela queria, obviamente, assustar a mulher. Mas a última coisa de que eu precisava naquele momento era da intervenção da polícia. Tentei acalmá-la. Tentei acalmar as duas.
— Não! — gritei.
— Não é necessário. Eu resolvo isso.
A mãe de Suzi me olhava com um sorriso debochado, as mãos à cintura.
— Por favor — disse para ela.
— Por favor — fiz um gesto com as duas mãos espalmadas.
— Sente-se. Vamos esclarecer isso tudo. Vamos conversar...
A secretária continuava parada na soleira da porta. Agora não parecia mais espantada. Parecia tão debochada quanto a mãe de Suzi. Irritei-me com o olhar sardônico da maldita secretária. Por que ainda não a demiti? Isso é algo que alguém tem que me explicar.
— Feche a porta, por favor — disse para a secretária.
A mãe de Suzi já acomodara diante de mim, sentada de pernas cruzadas, a bolsa preta no colo, o mesmo sorriso irônico nos lábios.
— O senhor teve um caso com a minha filha. Uma menina de dezesseis anos — ciciou ela, entre dentes, numa voz sussurrada, acusatória, raivosa.
— Não! Não tive! Juro!
— O senhor a agarrou!
— Nããão! Juro que não!
— O senhor bolinou minha menina!
— Não! Não!
— O senhor a apalpou, a acariciou, a sovou!
— Não! Não! Não!
— O senhor despiu minha filha de dezessseis anos!
— Por Deus! Não! Nãããão!
— O senhor a deixou nua! Nua em pêlo! Nua como ela nasceu! Ela que é tão criança...
— Não, não, nããããããããã...
— O senhor a penetrou!!!
— Aaaaaah, nããããão!!!!!!!
Aquilo era uma tortura. Eu suava. Estava prestes a sair correndo dali. Juntei as mãos. Jurei:
— Pelos meus dois filhos: eu não mantive relações com a sua filha! Não mantive!
— Não?
— Não!
— Então o que o senhor estava fazendo no meu apartamento, sozinho com ela?
Pisquei. Senti-me tonto. Tomei ar. Tentei argumentar:
— Eu... Ah... Eu sei que é difícil de explicar...
— O senhor é casado.
— Eu... Sou...
— A sua mulher sabe que o senhor estava no meu apartamento, de tarde, sozinho com minha filha de dezesseis anos?
— Não! — falei um pouco alto demais aquele não.
— Não — repeti, mais calmo. Suspirei. As coisas não estavam bem paradas. Ela tinha o domínio da situação. Precisava inverter o jogo. Precisava levar a discussão para um caminho mais desimpedido para mim.
— Olha... O que a senhora pretende?
— O que eu pretendo... — ela começou a mexer na bolsa. Estremeci. O que ela tiraria daquela bolsa? Puxaria uma arma?
— O que eu pretendo... — continuava olhando para o interior da bolsa. Senti medo, naquele momento. Muito medo.
Comecei a falar rapidamente, tentando ganhar tempo:
— Olha, a senhora precisa acreditar. Não houve nada entre mim e a sua filha. Nada. Por Deus. Juro. É verdade que fui lá. Admito isso. Mas não fizemos nada. Nada, nada, nada. Nem toquei nela. Nunca encostei um dedinho na sua filha. Garanto que...
Ela puxou algo da bolsa. Algo de metal. Preto. Brilhante. Meu Deus, uma arma??? Aquele meio segundo foi uma eternidade, para mim. Mas não era uma arma. Era um celular. Fiquei um pouco mais calmo. Ela manteve o celular na mão fechada. Fitava-me calmamente.
— Vou dizer o que eu pretendo — falou, afinal.
— O quê? — estava ansioso por terminar aquilo de uma vez.
— O que a senhora quer?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Simples. Quero o que tudo mundo quer.
— O que todo mundo quer? — não estava entendendo muito bem. Seria sexo? É sexo o que todo mundo quer? Ela ficou subitamente séria.
— Quero dinheiro.
Arregalei os olhos. Não era possível. Aquilo não estava acontecendo comigo. Estava sendo chantageado! Conhecia histórias assim. O chantagista, depois que arranca a primeira importância da vítima, não pára mais. Até arruiná-la. Até liquidá-la. Até sugar todo o sangue dela.
E era exatamente o que estava se sucedendo ali, no meu escritório. Senti-me infeliz. Senti-me um otário. E compreendi: era uma armação. Tinha caído numa cilada. Suzi, desgranida, decerto era a décima vez que fazia aquilo! Oh, Deus, o que ia fazer?
O que o advogado Aírton fez? Saiba amanhã, em mais um capítulo de... A Ninfeta!
Postado por David
















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