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Posts de outubro 2007

O problema do Grêmio

31 de outubro de 2007 49

Estou escrevendo exatamente cinco minutos depois de o Grêmio perder outra fora de casa, desta vez para o Atlético do Paraná, por 2 a 0.

Por que o Grêmio perde fora e ganha em casa? Parece-me óbvio: em casa, a torcida faz o Grêmio se superar. Há mais esforço, mais gana. Fora, o Grêmio tenta jogar o jogo. Tenta racionalizar. O Grêmio não tem time para jogar o jogo.

Tem dois bons zagueiros, um bom volante (Eduardo Costa), outro bom volante que já não tem mais a vitalidade da juventude (Sandro) e dois meias que não são meias; são o que se chama hoje de %22terceiro homem%22. E só.

O Grêmio, fora, teria que jogar com a mesma fúria que o move em casa. Mas como fazer isso sem o grito do torcedor? Difícil. O negócio é tentar fazer um time melhor para o ano que vem.

Postado por David, escrevendo Cris, a Fera

No Orkut

31 de outubro de 2007 17

Reprodução
Vejam só que beleza de comunidade a do meu, do seu, do nosso blog, lá no Orkut.

Quem criou foi o Luis Felipe Tusi — que, aliás, teve um texto seu publicado aqui durante a série A Tara de Dani, em que leitores me ajudavam a escrever a história.

Por enquanto a comunidade tem 540 membros. Entrem lá, leitorinhos, e ajudem a engordar esse número!


Postado por David

Eu quero, sim, a Copa aqui

31 de outubro de 2007 39

Agora todo mundo está dizendo que a realização da Copa por aqui é um absurdo, que não pode ser uma prioridade, que o Brasil não tem dinheiro para isso, que o dinheiro público vai pelo ralo.

Bobagem.

A Copa por aqui só tende a estimular os governos a resolver os nossos velhos problemas. Resumindo: a Copa de 2014 só vai ajudar o Brasil.


Abaixo, meu comentário sobre o assunto:

Postado por David

Meu colega assassino

31 de outubro de 2007 27

Arte ZH
Uma vez, um colega meu matou a mulher. Trabalhávamos na mesma sala, uns quatro metros de carpete a separar a minha mesa da dele. Não posso revelar-lhe o nome, óbvio. Já estava em idade provecta, tinha os cabelos completamente brancos e uma tosse de afogado. Fumava muito e tomava lá uns remédios que lhe davam sono. Vez em quando, olhava para ele, ali no canto da sala, e o via cabeceando, piscando, piscando, até finalmente adormecer. Ressonava profundamente por alguns minutos, recostado à cadeira de trabalho, o queixo fincado no peito. Todos nós, colegas, respeitávamos seu descanso e tentávamos não fazer barulho, falávamos baixo, andávamos na ponta dos pés, fazíamos pst para quem entrasse.

Esse meu colega era bem uns 30 anos mais velho do que a mulher. De repente, por algum motivo, começou a desconfiar que ela o traía. Não sei se era verdade, mas suas suspeitas foram aumentando a cada dia e se agravando de tal forma que se transformaram em obsessão. Meu colega só pensava naquilo. Um sábado qualquer, ele havia bebido um pouco a mais com os amigos durante o mocotó do almoço. Alguém lhe fez uma insinuação ou cochichou uma denúncia, sei lá, e ele decidiu que iria pôr fim ao drama. Saiu marchando para casa, entrou no quarto, abriu uma cômoda e tirou de lá o revólver. Berrava pelo corredor:

- Vagabunda! Vagabunda!

Há quem diga que ela, em vez de refutar, em vez de gritar por sua fidelidade e seu amor, o enfrentou e arrostou, nariz erguido:

- Corno.

E que foi por isso que ele se descontrolou de vez e desferiu o primeiro tiro, atingindo a mulher num ombro ou perna, algum órgão não vital. Aí, sim, ela desesperou. Mesmo atingida, correu para a cozinha, tentando fugir. Ele foi atrás. Ela enfiou-se sob a mesa, ficou com as costas prensadas contra o azulejo da parede, encolhida, sangrando e choramingando. Ele se abaixou, levantou com uma mão a toalha que em dias mais pacíficos o casal usava nos cafés da manhã, e descarregou o revólver.

Sempre me impressionou esse caso. Nem tanto porque eu trabalhava tão perto de um assassino, mas pelo perfil dele: tratava-se de um homem de boa cultura. A cultura e a educação, como se sabe, são antídotos contra a violência. De que forma, então, explicar a reação do meu colega?

Encontro a explicação agora, ao entrar nos estádios de futebol de Porto Alegre e constatar que, cada vez mais, há bestas travestidas de torcedores. Porque, quase sempre, os mais violentos não são os mais pobres e os mais incultos. Esses destruidores do futebol, eles gastam dinheiro em bebida e em drogas, eles vestem camisetas caras, eles têm computadores e acessam a internet, eles combinam suas ações pelo orkut e pintam faixas com dizeres belicosos. Não são despossuídos. Os despossuídos, os trabalhadores, os homens de verdade não têm tempo nem paciência para essas jericadas.

Os violentos, portanto, não são mocinhos que nunca sentaram num banco de colégio. Não. São apenas burros. Eis o que era também meu velho colega, agora o entendo: era instruído, mas era burro. E nada é mais poderoso, e perigoso, do que a burrice.

Texto publicado hoje na página 54 de Zero Hora

Postado por David

Imeils

30 de outubro de 2007 14

Seguinte, pessoal: prometo que vou começar a responder os imeils. Logologo! E que o novo folhetim, Cris, a Fera, está para sair. Já, já.

Postado por David, da Feira

ATENÇÃO, LEITORINHOS!!!

30 de outubro de 2007 18

Seguinte, leitorinhos: para que ficar escrevendo e escrevendo e escrevendo, se a gente pode conversar ao vivo?

Espero vocês lá no Pavilhão de Autógrafos da Feira, às 18h30min. Estarei lançando o Jogo de Damas e Pistoleiros Também Mandam Flores, mas, além de fazer dedicatórias nos livros, também quero falar com vocês e, de repente, talvez, quem sabe, contar como é a Trançada à Iugoslava.

Não faltem!!!

Postado por David, se preparando para ir para a Praça

O melhor técnico de futebol do mundo

30 de outubro de 2007 10

HISTÓRIA FALADA

Ele encheu de tapas a cara de um motoqueiro, matou quatro freiras atropeladas e nunca riu na vida. Mesmo assim, foi o maior técnico de futebol de todos os tempos.


Assistam aí:

Postado por David

Pistoleiros Também Mandam Flores

29 de outubro de 2007 12

Reprodução
Dêem uma boa olhada nessa ilustração.

É a capa do meu livro, Pistoleiros Também Mandam Flores, que lanço nessa terça, dia 30, às 18h30min, na Feira do Livro. Será lançado também o Jogo de Damas, mas o que quero falar agora é da capa.

Observem a ilustração.

Nunca um livro meu teve capa tão bonita. É obra do editor Ivan Pinheiro Machado, da L&PM, que a pintou com suas próprias mãos. Porque o Ivan é editor, mas também é pintor e fotógrafo e arquiteto e goleiro e apreciador do chope da Brahma. Multíplice, o Ivan.


Não é uma beleza de ilustração? Olhem e admirem.

Postado por David

Confissões de Luísa

29 de outubro de 2007 47

Ilustração: Bebel
A cornice é psicológica. Se um homem se sente corno, ele é um corno, e um corno irremediável.

Ex-maridos, por exemplo. Alguns ex-maridos sofrem por ciúme dos novos relacionamentos da ex-mulher. Ora, eles já não são mais maridos; são ex. Quer dizer: não podem mais ser cornificados por aquela mulher. Mas, ainda assim, sentem-se traídos, ficam furiosos, perseguem a ex, rondam o edifício em que ela mora, uivam para a lua quando a vêem com outro, ligam de madrugada balbuciando tchi amo, tchi amo. Em resumo: são cornos de fato, embora não de direito.

Já alguns maridos, em pleno exercício marital, são traídos com método e entusiasmo pela esposa, sabem que são traídos, sabem que a vizinhança inteira sabe que eles são traídos e, no entanto, levam a coisa na esportiva. Não se importam, ou simulam ignorância a respeito da traição, ou até incentivam os namoricos inocentes da ilustríssima.

O meu caso foi especialíssimo. Meu marido não era corno, pensava ser, e nunca foi capaz de sequer investigar suas suspeitas. Continuou com a cabeça atormentada pelas guampas que ele mesmo havia afixado.

Verdade que não estava mais apaixonada por Rudi. Nosso casamento havia esfriado, passava por uma fase morna. Mas não cogitava traí-lo. Bem, não vou negar que o assédio daquele Clóvis me deixou envaidecida. Clóvis é um homem bonito, de corpo bem proporcionado e… tenho de confessar algo que, suspeito, os homens nem desconfiam: ele tem uma bunda linda

É: mulheres adoram bunda de homem. Eu, mais do que bíceps, mais do que peitoral, sou louca por uma bundinha arrogante. E Clóvis tinha uma bunda que, puxa vida, não sei se devo dizer isso… Bom, como estou contando tudo mesmo, vou dizer: adoraria dar uma mordida na bunda dele. Pronto. Disse.

Por isso, o assédio dele me deixou curiosa. Não interessada: curiosa. Até onde um homem daquele tipo iria por mim? Que loucuras estaria disposto a cometer?

Preciso revelar outra coisa, já que esse é o momento das revelações: aquela espécie de homem, o cafajeste, o conquistador, me deixa excitada. Porque o sexo é o centro da vida daquele homem. Bem, talvez seja de todos os homens, mas nem todos realizam suas inclinações.

Alguns só pensam, alguns só falam, mas os que são como Clóvis pensam, falam e agem. Esse gênero de homem deixa uma mulher intrigada. Do que ele é capaz na cama? O que as outras mulheres vêem nele? E mais: se as outras souberem que eu o conquistei, como se sentirão? Com inveja? Com raiva? Como é bom deixar as outras mulheres com inveja e com raiva.

Assim, permiti que Clóvis tentasse me ganhar. O que não era de forma alguma ruim. Não se trata de um homem desagradável, de jeito nenhum. Tem uma boa conversa e, principalmente, me faz rir. Isso é muito importante: o homem tem de me fazer rir. E eu ria, ao conversar com Clóvis, como ria. Nossas conversas por telefone duravam horas, eu me sentia renovada, me sentia desejada, uma mulher precisa se sentir desejada.

No começo, os telefonemas de Clóvis eram muito educados. Galanteadores, mas educados. Aos poucos, ele foi ficando mais ousado. Dizia as coisas que gostaria de fazer comigo, coisas loucas, como a tal trançada à iugoslava, oh, que loucura a trançada à iugoslava… Aí, reconheço, eu… ah, eu amava ouvir aquilo. Era como se estivesse sendo possuída por ele sem precisar me arriscar, sem me incomodar, sem ter que passar por toda a incomodação de ter um caso. Gostava daqueles telefonemas. Faziam-me bem.

É lógico que percebia a mudança no comportamento de Rudi, mas, ora, por que ele não falou algo? Por que não me perguntou? Por que não se aproximou de mim? Por que não tentou me reconquistar, por que não me deu flores e não me levou para jantar? Francamente, os homens são bobos, às vezes. Ou, melhor: quase sempre são.

Nada ia acontecer, juro. Aí Rudi sumiu. Acordei na manhã daquele feriado e ele não estava em casa. Primeiro, fiquei furiosa. Depois, preocupada. Aquilo nunca tinha acontecido. Liguei para o celular dele várias vezes. Fora da área de serviço. Perto do meio-dia, não sabia mais o que fazer. Liguei para o Clóvis, e ele prontamente acudiu. Em 20 minutos, batia na minha porta, solícito, atencioso. Ele foi um amor. Correu para todo lado comigo.

Ligamos para a polícia, para os hospitais, para o necrotério, para os colegas do Rudi, para todo mundo. Ninguém sabia nada dele. À noite, Clóvis teve a idéia brilhante: foi até a empresa e falou com o vigia, um tal de… Paralelepípedo, talvez? Lajota? Paredão? Algo assim. Um cara grande. Foi esse Lajota quem disse que Rudi tinha viajado para Pinhal.

Liguei para um amigo que morava lá, o Aírton, um advogado, e pedi para que fosse até nossa casa, ver se o Rudi tinha aparecido. Ele foi e voltou dizendo que não havia nem sinal do Rudi por lá. Lembrei que o tal Paredão havia dito que Rudi saiu com uma mala, na véspera do feriado. Vasculhei as gavetas dele e descobri que faltavam roupas. A conclusão era óbvia: Rudi tinha ido embora.

Fui assolada por uma seqüência de sentimentos ruins, passando da tristeza para o ódio e do ódio para a necessidade de vingança. Nesse momento, já tarde da noite, Clóvis estava comigo, sentado ao meu lado, no sofá da minha casa. Ele me abraçou, e me deixei abraçar; ele me beijou, e me deixei beijar; ele tirou minha roupa, peça por peça, e ajudei-o a tirar.

Fiquei nua no sofá da sala. Nuinha. Nunca tinha estado tão nua na vida. Clóvis, ainda vestido, foi gentil comigo. Fez-me sentar, nua, no colo dele. Bebeu minhas lágrimas de fúria e frustração e ressentimento, alisou meu corpo, meu corpo todo, todinho. E depois… Oh, depois foi a vez da trançada à iugoslava. Delícia, delícia, que mulher resiste à trançada à iugoslava?

Fizemos amor durante toda aquela madrugada. Pela manhã, Clóvis pediu um café para nós dois, me fez um carinho e, depois, me envolveu em seus braços. E começamos tudo de novo e de novo e de novo. Parávamos apenas para comer, ir ao banheiro, tomar um banho e, às vezes, dar uma dormidinha. Foram dias loucos. Os dias mais loucos da minha vida. Ao cabo deles, aconteceu aquela tragédia: Clóvis foi preso.

Como eu ia ficar sem a trançada à iugoslava? Clóvis despertou a fêmea que existia em mim. Não que tivesse me apaixonado por ele, mas fiquei como que viciada em sexo. Num sexo intenso, num sexo pleno. Sentia-me como deve se sentir um homem. Sentia que o sexo era o centro da minha existência. Queria fazer sexo por diversão. Pelo prazer. Um sexo parnasiano. Um sexo com o fim em si mesmo.

Agora estou assim, procurando um Homem pela cidade. Tenho andado pela Cidade Baixa, pela Calçada da Fama, pelos bares, pelas boates. Já levei dezenas de homens para a minha cama, mas nenhum deles me satisfez. Será que vou encontrar alguém que me dê o que preciso? Tornei-me uma caçadora, uma predadora, uma devoradora de homens. Hoje à noite, estarei nas ruas outra vez.

Quem sabe encontro você? Quem sabe?

Postado por David

Lançamento

29 de outubro de 2007 4

Os leitorinhos estão perguntando se vai ter cobertura para a chuva durante o lançamento do livro, amanhã. Mas é claro!!! Espero todos lá na Feira, às 18h30. Não faltem!!! Ah, e agora estou terminando a história de Luísa. Aguardem que falta pouco!!!

Postado por David, escrevendinho sobre a Luísa, a loira

Tiuquetiuquetiuque

29 de outubro de 2007 19

Por que é que as pessoas fazem tiuquetiuquetiuque para os nenês? Nunca entendi isso. Não tem sentido fazer tiuquetiuquetiuque. Um adulto parece meio abobado agindo assim. Durante muito tempo, via alguém fazendo tiuquetiuquetiuque e imaginava o que o nenê devia estar pensando sobre aquela pessoa.

Então isso é um adulto?
É assim que vou ficar quando crescer?
Quero voltar para as trevas úmidas das entranhas da minha mãe!!!

Algumas mulheres não fazem tiuquetiuquetiuque, mas falam com o bebê como se fosse o bebê falando com elas, usando voz de falsete, miada:
— Aaaah, aguoooora eu quero cuooolo, não quieeero mais ficar nesse berço chaaaato…
— Devolve o meu biiiiico!
— Estou com fuome, mamããããe!

Isso sempre me irritou. Eu, agora, com o meu filho no colo, tento desenvolver um relacionamento digno com ele. Como sei que ele será desembargador, puxo conversas sisudas. Sobre a CPMF, a licença pedida pelo Renan Calheiros, essas coisas. Só que, dias atrás, aconteceu algo pelo qual não esperava.

Trazia o Bernardo no colo, falávamos sobre a abordagem que o Cesare Cantu faz da Alta Idade Média, quando ele olhou bem para mim com aqueles olhões arregalados dele, e a boquinha dele foi se contraindo, e seus lábios se puxando para cima, e ele me lançou um sorrisão e, junto com o sorrisão, saiu da pequena garganta dele a maior gargalhada que ele deu até agora, uma gargalhada tão gostosa, tão sonora, tão limpa e doce, que sorri e fiz aaaah e, sem que percebesse, sem que pensasse nisso, sem que pudesse resistir, fiz:
— Tiuquetiuquetiuque…

E de novo, mexendo no queixinho dele:
— Tiuquetiuquetiuque…

E mais uma vez, beliscando-lhe as bochechas gordas:
— Tiuquetiuquetiuque…

É isso. Transformei-me num maldito fazedor de tiuquetiuquetiuques.



Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de ZH

Postado por David

Minha primeira vez

28 de outubro de 2007 16

Ilustração: Fraga
Qual foi a primeira vez que você entrou em um estádio de futebol?

A minha primeira vez foi num Gre-Nal noturno, no Olímpico. Não lembro qual foi o resultado do jogo, não lembro de um único lance em campo. Lembro da sensação que me assaltou quando escalei o último degrau da escadaria que levava às arquibancadas, conduzido pela mão do meu avô.

No topo da escadaria, o estádio abriu-se para mim. As luzes poderosas dos refletores, o verde impecável do gramado, as cores fortes das bandeiras e das camisetas, o rugir da torcida, aquilo tudo bateu-me nos olhos e no peito como uma lufada de ar quente, uma explosão matizada e ruidosa que me deixou sem fala por algum tempo. Foi belo e emocionante, foi como se eu fosse engolido por uma pintura de um mestre impressionista.

Gostaria de ser um Gilmar Fraga para reproduzir aquela cena com um pincel.

Passaram-se décadas até eu experimentar algo semelhante outra vez. Aconteceu só no ano passado, na Copa da Alemanha. Dois estádios me deixaram embasbacados, o que, olha, não é fácil — já trabalhei em grandes estádios do mundo, de Maracanã e Mineirão ao de Yokohama, passando por Santiago Bernabéu, Nou Camp, Estádio dos Príncipes, de Paris, e outros e outros e mais outros. Mas nenhum deles é como o Allianz Arena, de Munique, por fora, ou como o Olímpico, de Berlim, por dentro.

O Allianz Arena é uma nave espacial de cores cambiantes, pousada numa paisagem de filme de ficção científica: imensos cata-ventos de usinas eólicas girando numa planície sem fim. A impressão que se tem é que o estádio está prestes a decolar para Alfa Centauri, a fim de resgatar a família Robinson.

O Olímpico de Berlim é assombroso em sua imponência e em seu significado histórico. Foi construído para a Olimpíada de 1936 por um dos arquitetos favoritos de Hitler. Ainda é decorado por algumas esculturas encomendadas pelo ditador, possantes atletas de pedra dura atirando dardos, cavalgando, correndo, saltando. Ao se acomodar numa das cadeiras das arquibancadas, você se sente como se estivesse numa catedral. Nenhum dos estádios que já vi é tão grandioso, tão magnificente e tão solene quanto o Olímpico de Berlim.

Será que conseguiríamos aprontar algo semelhante para a Copa de 2014? A arena do Grêmio transformada em um estádio arrojado como o Allianz de Munique, o Beira-Rio reformado mantendo e valorizando a sua grandeza, por que não?

É tão grande a gana e a disputa entre Grêmio e Inter, que acredito. A Copa de 2014 pode fazer com que a dupla Gre-Nal levante em Porto Alegre os dois mais belos estádios do Brasil.


Texto publicado hoje na página 59 de Zero Hora

Postado por David

Ainda sobre as Vejas

26 de outubro de 2007 20

Para os leitores tirarem suas próprias conclusões sobre a diferença entre as duas matérias da Revista Veja sobre Che Guevara, aí estão os links para as reportagens.

> Aqui, a matéria de 1997

> E aqui, a reportagem deste ano

Postado por David

Um pequeno visitante na redação de ZH

26 de outubro de 2007 46

Este é o meu garoto, em visita à Redação. Levei-o para ver a turma e me ajudar a escrever para os leitorinhos.

Ele está avaliando sobre qual teoria do Direito vai discorrer.

Aguardem pelos textos do Bernardo!

Postado por David

As Vejas que vi

26 de outubro de 2007 66

Reprodução
Eis aí duas capas da Revista Veja sobre o mesmo assunto: Che Guevara. Há 10 anos entre elas. A primeira, publicada em 1997, foi feita a partir de uma matéria escrita por Dorrit Harazim, talvez a repórter de maior prestígio no Brasil. Dorrit viajou à Bolívia, onde foi assassinado o Che, e voltou com um texto descritivo, sustentado por cartapácios de documentos e pelo menos uma dezena de entrevistas. O título: %22O Triunfo final de Che%22. Dorrit não faz uma apologia do guerrilheiro. Limita-se a investigar as ocorrências de seus últimos dias e tenta explicar como ele se transformou em mito. %22Che Guevara tinha tudo para se tornar imortal%22, escreveu. %22Era bonito, destemido e morreu jovem, defendendo conceitos igualmente jovens, como a solidariedade e a justiça social%22.

O texto de 2007 tem como título %22Che: Há 40 anos morria o homem e nascia a farsa%22. Não é uma reportagem; é um grande artigo. Os autores não saíram para fazer a matéria e retornaram com a convicção de que Che foi um monstro. Não. Eles partiram da convicção de que Che foi um monstro para escrever a matéria. O texto se propõe a convencer o leitor da tese da revista. A Veja de hoje descreveu o Che desta forma: %22Com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível%22.

E agora? Em qual Veja devo acreditar? Sei a resposta: na de há 10 anos. Não porque a atual desmoraliza Che Guevara. Pouco me importa Che Guevara. Importa-me a Veja. Criei-me lendo essa revista, leio-a desde o tempo em que ela balizava o jornalismo brasileiro. Acontecia algo grave durante a semana, como, sei lá, a crise do Senado, e eu ia entender na Veja. Mas, por algum motivo, a Veja mudou. Não falo de Diogo Mainardi e outros colunistas. Esses estão emitindo opinião, e fazem-no com competência e graça. Posso até não concordar com o que escrevem, mas não preciso concordar com um colunista para gostar dele. Falo do jornalismo da Veja, da carne da revista.

Alguém dirá que nada na imprensa brasileira é confiável. Não é assim. Há veículos que tentam exercer um jornalismo honesto, sobretudo os grandes jornais. A Folha de S. Paulo, com sua independência feroz, chega a se tornar mal-humorada. O Estadão é tão comedido, que volta e meia vira empedernido. O Globo procura com tal ânsia a qualidade, que não raro roça o fútil. E a Zero Hora debate-se a tal ponto pela eqüidistância, que às vezes resulta sem sal. Nenhum desses jornais aparenta certezas ideológicas tão arraigadas que os levem a qualificar alguém como %22desprezível%22. Contam o que está acontecendo de acordo com sua forma peculiar de contar, fiéis inclusive aos seus defeitos. A Veja, não. A Veja parece preocupada mais em provar seu ponto de vista do que em contar o que está acontecendo. Como, então, posso ter certeza de que a cobertura da crise no Senado não estava eivada por alguma segunda intenção, como dá a entender a edição reservada ao Che? Um problema que eu, velho leitor da Veja, não consigo resolver.

Texto publicado hoje na página 3 de ZH

Postado por David