
A cornice é psicológica. Se um homem se sente corno, ele é um corno, e um corno irremediável.
Ex-maridos, por exemplo. Alguns ex-maridos sofrem por ciúme dos novos relacionamentos da ex-mulher. Ora, eles já não são mais maridos; são ex. Quer dizer: não podem mais ser cornificados por aquela mulher. Mas, ainda assim, sentem-se traídos, ficam furiosos, perseguem a ex, rondam o edifício em que ela mora, uivam para a lua quando a vêem com outro, ligam de madrugada balbuciando tchi amo, tchi amo. Em resumo: são cornos de fato, embora não de direito.
Já alguns maridos, em pleno exercício marital, são traídos com método e entusiasmo pela esposa, sabem que são traídos, sabem que a vizinhança inteira sabe que eles são traídos e, no entanto, levam a coisa na esportiva. Não se importam, ou simulam ignorância a respeito da traição, ou até incentivam os namoricos inocentes da ilustríssima.
O meu caso foi especialíssimo. Meu marido não era corno, pensava ser, e nunca foi capaz de sequer investigar suas suspeitas. Continuou com a cabeça atormentada pelas guampas que ele mesmo havia afixado.
Verdade que não estava mais apaixonada por Rudi. Nosso casamento havia esfriado, passava por uma fase morna. Mas não cogitava traí-lo. Bem, não vou negar que o assédio daquele Clóvis me deixou envaidecida. Clóvis é um homem bonito, de corpo bem proporcionado e... tenho de confessar algo que, suspeito, os homens nem desconfiam: ele tem uma bunda linda
É: mulheres adoram bunda de homem. Eu, mais do que bíceps, mais do que peitoral, sou louca por uma bundinha arrogante. E Clóvis tinha uma bunda que, puxa vida, não sei se devo dizer isso... Bom, como estou contando tudo mesmo, vou dizer: adoraria dar uma mordida na bunda dele. Pronto. Disse.
Por isso, o assédio dele me deixou curiosa. Não interessada: curiosa. Até onde um homem daquele tipo iria por mim? Que loucuras estaria disposto a cometer?
Preciso revelar outra coisa, já que esse é o momento das revelações: aquela espécie de homem, o cafajeste, o conquistador, me deixa excitada. Porque o sexo é o centro da vida daquele homem. Bem, talvez seja de todos os homens, mas nem todos realizam suas inclinações.
Alguns só pensam, alguns só falam, mas os que são como Clóvis pensam, falam e agem. Esse gênero de homem deixa uma mulher intrigada. Do que ele é capaz na cama? O que as outras mulheres vêem nele? E mais: se as outras souberem que eu o conquistei, como se sentirão? Com inveja? Com raiva? Como é bom deixar as outras mulheres com inveja e com raiva.
Assim, permiti que Clóvis tentasse me ganhar. O que não era de forma alguma ruim. Não se trata de um homem desagradável, de jeito nenhum. Tem uma boa conversa e, principalmente, me faz rir. Isso é muito importante: o homem tem de me fazer rir. E eu ria, ao conversar com Clóvis, como ria. Nossas conversas por telefone duravam horas, eu me sentia renovada, me sentia desejada, uma mulher precisa se sentir desejada.
No começo, os telefonemas de Clóvis eram muito educados. Galanteadores, mas educados. Aos poucos, ele foi ficando mais ousado. Dizia as coisas que gostaria de fazer comigo, coisas loucas, como a tal trançada à iugoslava, oh, que loucura a trançada à iugoslava... Aí, reconheço, eu... ah, eu amava ouvir aquilo. Era como se estivesse sendo possuída por ele sem precisar me arriscar, sem me incomodar, sem ter que passar por toda a incomodação de ter um caso. Gostava daqueles telefonemas. Faziam-me bem.
É lógico que percebia a mudança no comportamento de Rudi, mas, ora, por que ele não falou algo? Por que não me perguntou? Por que não se aproximou de mim? Por que não tentou me reconquistar, por que não me deu flores e não me levou para jantar? Francamente, os homens são bobos, às vezes. Ou, melhor: quase sempre são.
Nada ia acontecer, juro. Aí Rudi sumiu. Acordei na manhã daquele feriado e ele não estava em casa. Primeiro, fiquei furiosa. Depois, preocupada. Aquilo nunca tinha acontecido. Liguei para o celular dele várias vezes. Fora da área de serviço. Perto do meio-dia, não sabia mais o que fazer. Liguei para o Clóvis, e ele prontamente acudiu. Em 20 minutos, batia na minha porta, solícito, atencioso. Ele foi um amor. Correu para todo lado comigo.
Ligamos para a polícia, para os hospitais, para o necrotério, para os colegas do Rudi, para todo mundo. Ninguém sabia nada dele. À noite, Clóvis teve a idéia brilhante: foi até a empresa e falou com o vigia, um tal de... Paralelepípedo, talvez? Lajota? Paredão? Algo assim. Um cara grande. Foi esse Lajota quem disse que Rudi tinha viajado para Pinhal.
Liguei para um amigo que morava lá, o Aírton, um advogado, e pedi para que fosse até nossa casa, ver se o Rudi tinha aparecido. Ele foi e voltou dizendo que não havia nem sinal do Rudi por lá. Lembrei que o tal Paredão havia dito que Rudi saiu com uma mala, na véspera do feriado. Vasculhei as gavetas dele e descobri que faltavam roupas. A conclusão era óbvia: Rudi tinha ido embora.
Fui assolada por uma seqüência de sentimentos ruins, passando da tristeza para o ódio e do ódio para a necessidade de vingança. Nesse momento, já tarde da noite, Clóvis estava comigo, sentado ao meu lado, no sofá da minha casa. Ele me abraçou, e me deixei abraçar; ele me beijou, e me deixei beijar; ele tirou minha roupa, peça por peça, e ajudei-o a tirar.
Fiquei nua no sofá da sala. Nuinha. Nunca tinha estado tão nua na vida. Clóvis, ainda vestido, foi gentil comigo. Fez-me sentar, nua, no colo dele. Bebeu minhas lágrimas de fúria e frustração e ressentimento, alisou meu corpo, meu corpo todo, todinho. E depois... Oh, depois foi a vez da trançada à iugoslava. Delícia, delícia, que mulher resiste à trançada à iugoslava?
Fizemos amor durante toda aquela madrugada. Pela manhã, Clóvis pediu um café para nós dois, me fez um carinho e, depois, me envolveu em seus braços. E começamos tudo de novo e de novo e de novo. Parávamos apenas para comer, ir ao banheiro, tomar um banho e, às vezes, dar uma dormidinha. Foram dias loucos. Os dias mais loucos da minha vida. Ao cabo deles, aconteceu aquela tragédia: Clóvis foi preso.
Como eu ia ficar sem a trançada à iugoslava? Clóvis despertou a fêmea que existia em mim. Não que tivesse me apaixonado por ele, mas fiquei como que viciada em sexo. Num sexo intenso, num sexo pleno. Sentia-me como deve se sentir um homem. Sentia que o sexo era o centro da minha existência. Queria fazer sexo por diversão. Pelo prazer. Um sexo parnasiano. Um sexo com o fim em si mesmo.
Agora estou assim, procurando um Homem pela cidade. Tenho andado pela Cidade Baixa, pela Calçada da Fama, pelos bares, pelas boates. Já levei dezenas de homens para a minha cama, mas nenhum deles me satisfez. Será que vou encontrar alguém que me dê o que preciso? Tornei-me uma caçadora, uma predadora, uma devoradora de homens. Hoje à noite, estarei nas ruas outra vez.
Quem sabe encontro você? Quem sabe?
Postado por David
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