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Mulheres no chão

23 de novembro de 2007 13

Lá estava eu, em Oxford, em meio a todas aquelas universidades vetustas e gramados perfeitos e tudo mais, decidido a descobrir como funcionava a noite da Velha Álbion.

Por sorte, conhecia um inglês, e ele se dispôs a dar uma volta comigo pelo lugar. Saímos a flanar, tranqüilões, dizendo very goods, escolhendo onde beber uma Guinness densa e olorosa. Entramos num pub agitadíssimo, havia grupos de ingleses de pé, amontoados no balcão, alguns sentados em volta das mesas e outros escorados displicentemente nas paredes.

Ouviam roquenrou, bebiam cerveja morna em seus canecões de meio litro e falavam alto. Encontramos uma mesa desocupada, mas não havia cadeiras. Acerquei-me de um grupo de homens e perguntei se podia pegar uma das cadeiras vagas da mesa deles. No escuro e na confusão, achei que tinham consentido. Tomei a cadeira e fui sentar. Meu amigo inglês esperava-me de olhos esbugalhados e boca tremente.

— O que você fez? – perguntou-me, assustado.

Ergui as sobrancelhas.

— Ué, fui pegar uma cadeira.

— Ficou louco? Eles estão bêbados, podiam matar-nos a pancada!

Os 15 minutos seguintes ele dedicou a explicar que, a certa altura da noite, algumas áreas da Inglaterra tornavam-se perigosas. Mais especificamente, 11 horas da noite. É que às 23h os pubs tinham de parar de vender álcool. O que acontecia era espantoso.

No horário fatídico, os garçons de toda a Ilha batiam sinos pendurados atrás dos caixas dos bares, alertando os clientes de que os últimos pedidos de bebida deviam ser feitos. Os clientes se alvoroçavam, levantavam-se e se jogavam por sobre os balcões, clamando por cerveja, cerveja, bier! Saíam abraçados a três, quatro, quantos copos de cerveja conseguissem carregar, e os levavam para as mesas e bebiam e bebiam.

Por volta da meia-noite, o cenário das ruas era o oposto do que se imagina ser a fleuma britânica. Ingleses andando trôpegos, abraçados uns aos outros, gritando, cantando, sentados nos meios-fios com os membros lassos, as cabeças pendentes, vomitando em inglês. E mulheres, muitas mulheres caídas no meio da rua, desmaiadas de tanto beber. Mulheres em geral de minissaias curtíssimas, mesmo quando frio. Mulheres com aquela cara de mulheres inglesas, sabe como é a cara das mulheres inglesas? Pois é. Todas as inglesas têm cara de síndica de edifício, com exceção da Elizabeth Hurley.

Naquela noite de Oxford, fiquei com pena de uma delas e a levantei do chão e a acomodei sob o arco da porta de um prédio. Meu amigo me repreendeu:

— Só estrangeiros erguem mulheres do chão.

E, de fato, logo adiante deparei com outra inglesa estendida na calçada e vi que os ingleses passavam por cima dela cuidadosamente, como se estivessem saltando sobre um cachorro adormecido.

Claro, tudo isso aconteceu antes, quando a Inglaterra ainda era bárbara, quando ainda existia a infame Lei Seca. Hoje, os pubs estão liberados para vender cerveja até de madrugada.

Os ingleses compreenderam que nada impede um homem de beber, se ele quiser. Que mesmo os árabes, proibidos de ingerir álcool, fabricam vinho clandestino e bebem em casa, escondidos, sonhando com o tempo em que ascenderão ao Sétimo Céu e terão direito a 72 virgens e a todo o álcool que puderem entornar. Que os males do álcool não se combatem com leis, mas com educação. E que os crimes do trânsito não são eliminados por toques de recolher, mas por punição.

Os ingleses sabem disso. Os ingleses evoluíram. São inteligentes, os ingleses.

Postado por David

Comentários (13)

  • Henry diz: 23 de novembro de 2007

    A solideriedade com as mulheres bebadas de mini-saias jogadas no meio da rua é algo de comover…

  • Deborah diz: 23 de novembro de 2007

    Aiaiai, Velho Mundo… Saudades dos tempos do Rei Arthur, quando cavaleiros não precisavam ser cavalheiros, podiam ser naturalmente bárbaros. Mas, tá aí: que os males do mundo possam ser combatidos com punição educativa ! do contrário, não tem porquê.
    Beijaço !

  • Luis Felipe Tusi diz: 23 de novembro de 2007

    Perfeito David, bem que o nosso secretário de segurança poderia ler esta tua crônica hoje. A intenção de impor a Lei Seca no nosso Estado é algo fora da realidade.
    Um abraço.

  • Marcelo cabana diz: 23 de novembro de 2007

    Te puxou hoje em Tio Davi… Vetusta, assim com as palavras que emprega frequentemente, depois disso me resta flanar por esta Porto Alegre… claro, assim que estiver lasso de tanto trabalhar nesta sexta-feira.

  • Yuri diz: 23 de novembro de 2007

    Bravo!!! No entanto, o texto não deixa de encerrar uma contradição. Opõe-se ao recrudescimento do controle do já gigante Estado à sociedade. Ao contrário do que expuseste em outras oportunidades sobre privatizações de telefone e quando falaste no texto sobre o cartório,no nascimento do desembargador

  • PAPITO diz: 23 de novembro de 2007

    “Mulheres com aquela cara de mulheres inglesas, sabe como é a cara das mulheres inglesas? Pois é. Todas as inglesas têm cara de síndica de edifício, com exceção da Elizabeth Hurley.”

    AUHAUHAUHAUHAUAHUAHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUAHUAHUAH
    GENIAL!

  • Miguel Moura diz: 23 de novembro de 2007

    Cara! Até que enfim alguém disse alguma coisa… o problema não é vender bebida nesta ou naquela hora e sim quem ingere e quanto ingere. Fala-se em proibir o comércio em alguns horários… primeiro, tem gente que só pode sair para se divertir, confraternizar… e beber – porque não? – durante a madrugada.

    Agora, tenho pra mim que quem realmente mata gente, briga pela rua, bate na mulher e bate de carro não são os que saem pra espairecer depois de chegar do trabalho, descansar um pouco, depois da janta com a família… mas sim os que bebem no horário que deveriam estar trabalhando, no horário que deveriam estar com a família… pra estes não importa o horário, importa é o efeito do Alcool, e que seja duradouro… peramanente talvez!

  • Antônio Rosa diz: 23 de novembro de 2007

    Falou tudo, David!!! Concordo 100%…sempre estas cabecinhas pequenas e atrasadas querendo controlar os problemas com soluções absurdas!

  • Ismael diz: 23 de novembro de 2007

    Como é bacana dizer as coisas sem dizê-las. Admiro isso.

  • giovani diz: 23 de novembro de 2007

    afinal, eles consentiram? ficaram brabos?

  • Luiz Fernando diz: 23 de novembro de 2007

    Beleza.Perfeito.Falou e disse.Educação e respeito.Quando estes que bebem as garrafas tiverem a consciência dos danos que podem causar a si e aos outros, teremos “bons bebuns”.Não bebo, mas a turma bebe e no final da noite eu estou com as chaves de cinco ou seis carros.Educação funciona melhor que lei seca

  • THIAGO diz: 23 de novembro de 2007

    O problema é que quando a educação não existe, e pra tu conseguir botar ordem na casa, somente com a educação é complicado. Como em tudo na vida, os justos pagam pelos pecadores. Qual a única maneira de tu forçar alguém a obedecer a uma lei, caso ele não tenha educação suficiente para cumpri-la?

  • THIAGO diz: 23 de novembro de 2007

    Somente ameaçando a pessoa de alguma maneira, seja com multas ou com ameaça de prisão, e por ai vai. Concordo que a educação é o melhor caminho, mas isso leva tempo para se conseguir, e é necessário uma medida que traga resultados rápidos

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