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Gritos no Centro

30 de novembro de 2007 12

Vinha descendo a Borges, caminhandinho, mão no bolso, olhando as pernas de louça das moças, quando ouvi aquele grito. Grito, não: gritos. Urros entre furiosos e desesperados, urros medonhos de mulher. Vi que uma pequena multidão havia se formado mais ou menos em frente ao Cine Vitória para conferir o que acontecia. Curioso, também rumei para lá.

Trabalhava no Centro, naquela época — adorava trabalhar no Centro. No meio do expediente, se me sentisse entediado, saía para espairecer. Foi o que fiz, naquela tarde. Ia até a Matheus, morder um mil-folhas cremoso com Mirinda gelada, mas não cheguei a entrar na confeitaria — ao ouvir os gritos, desviei para o bolo de gente. Fui me aproximando, afastando cotovelos, cença, cença, até que cheguei à frente da clareira humana, e vi.

Nossa!, era uma mulher de, sei lá, metro e noventa de altura e uns 120 quilos. Gorda, sim, só que, mais do que gorda, grande, forte, braços do tamanho das minhas coxas, coxas da espessura de postes de luz, manoplas de raquete de tênis, pés de zagueiro do Grêmio Bagé, cabeçorra de bola número cinco, boca feito uma cuia de chimarrão, de onde se elevavam os berros de ódio. Era uma negra retinta, tão negra que a pele lhe reluzia.

Havia se jogado ao chão, onde esperneava e se debatia com violência. A cercá-la, oito brigadianos, que hesitavam: deviam se arriscar a imobilizá-la? Ficaram ali, em volta da mulher, atentos, meio agachados, com os braços abertos como se fossem goleiros à espera da cobrança do pênalti. Um deles, decerto o oficial, deu então voz de comando: iam pegá-la! Ficamos tensos, nós na torcida. Os brigadianos saltaram sobre a mulher, os oito em um único movimento, bem treinados como legionários romanos. Mas aí ela se pôs de pé. Ergueu-se em seu imenso corpanzil e emitiu um grito assustador, que trincou o asfalto da avenida e fez murchar os pastéis da confeitaria.

— UAAAAAAAAAAH! — e, num movimento vigoroso de braços e pernas, espalhou brigadianos para todo lado e saiu correndo, correndo, correndo… na minha direção!

Por Deus, foi esta a cena dantesca que tinha diante dos meus olhos esbugalhados: uma hipopótama enlouquecida despencando em minha perseguição! Não vacilei: dei meia-volta e corri com todas as forças de meus joelhos e pulmões, sem importar-me com a humilhação de ser visto em fuga pusilânime. Só parei na segurança da Salgado Filho, debaixo do viaduto, onde os espectadores riam convulsivamente e me gozavam:

— Está bem de perna, hein, magrão!

No fim, foi tudo muito divertido. Agora, dias atrás, mais ou menos 25 anos depois, eu ia para a Feira do Livro, tranqüilão, e ouvi gritos. Gritos idênticos! Ou pelo menos pareciam. Vacilei, mas a curiosidade foi maior do que o medo. Parei. Olhei. Felizmente, não era a mesma mulher. Mas passava por ataque semelhante, gritava e se debatia no chão duro. No entanto, ninguém se aproximou. Ficaram todos olhando de longe, desconfiados, nem os brigadianos deram-lhe atenção. Gritando ela estava e gritando ficou, não sei por quanto tempo, porque eu também me afastei, tinha mais o que fazer.

Algo mudou, em 25 anos. O porto-alegrense sente mais medo, não se arrisca mais. É outro cidadão. E, principalmente, é outro o Centro. Está mais selvagem, o Centro, mais bruto, não é mais lugar de passeio; é de passagem.

Que saudade do Centro em que se podia ir para espairecer, em que se podia ir só para ver as pernas de louça das moças, para morder um mil-folhas cremoso, para sorver uma Mirinda gelada, onde simplesmente a gente parava para ver.

Postado por David

Comentários (12)

  • papito diz: 30 de novembro de 2007

    mto bom!!!
    =D

  • henrique diz: 30 de novembro de 2007

    “Está mais selvagem, o Centro, mais bruto, não é mais lugar de passeio; é de passagem.”

    Simples e clara.

  • Marcelo Cabana diz: 30 de novembro de 2007

    Cara…, mesmo assim o Centro tem seu valor; o Mercado Público; a UFRGS; O Coliseu; A bancas de revista… o minuano no inverno e o ventinho do verão

  • Deborah diz: 30 de novembro de 2007

    Pois é… “MULHERÃO”, seja lá do tipo que for, sempre assusta os moçoilos…
    Terrível viver nesse mundo atual, né ? Temos medo até da própria sombra. Brrr…
    Beijo. bom fim de semana.

  • Cristina Feldman da Costa diz: 30 de novembro de 2007

    Muito bom o texto David, assim como todos que tenho lido seus.
    Parabéns!

  • MÁRIO BORDIN diz: 30 de novembro de 2007

    “pés de zagueiro do Grêmio Bagé, cabeçorra de bola número cinco, boca feito uma cuia de chimarrão”….”emitiu um grito assustador, que trincou o asfalto da avenida e fez murchar os pastéis da confeitaria”….kkkkkk!hehehehe!

  • Josias diz: 30 de novembro de 2007

    …e de repente surge o Paulo Germano e salva a Cris!
    não ne?

  • George diz: 30 de novembro de 2007

    Belo relato e excelente constatação.

    Só um pitaco, David: é Bagé, apenas Bagé, ou Grêmio Esportivo Bagé, na versão “nome completo”.

    Grêmio Bagé seria algo como “São Paulo Clube” ou “Sport Internacional”.

  • Darlan do Nascimento diz: 30 de novembro de 2007

    Centro de POA…sou muito novo para saber se um dia foi bom….mas sei…que ainda contiva seu charme.

  • Denise diz: 2 de dezembro de 2007

    Sempre qdo estou caminhando no Centro daqui de Joinville e me estresso, consolo-me lembrando de como era o Centrão de Porto – aquele inferno, calorão, bolsa agarrada bem firme para prevenir os assaltos, etc. Mas lendo a crônica agora, lembrei-me do mil-folhas que minha mãe tanto gostava, da pizzaria que o pai me levava na Salgado Filh

  • Luiz Fernando diz: 30 de novembro de 2007

    Bah… Outros tempos, outra velocidade. Tinha tempo para conversar com as pessoas, conhecidas ou não. Tomar uma “vaca-preta” ou uma Grapette. Putz… Mudou muito. Mas ficou mais moderno…

  • Osvaldo Alencar diz: 6 de dezembro de 2007

    Se vc sente saudades do que foi o centro de POA há 45 anos, imagine eu, que vivi aí até 1960… E, pior, não vejo a querida Porto Alegre há mais de 30.
    Mas lembro bem, do Cine Vitória. Também de uma confeitaria na esquina da Riachuelo com a Borges, onde eu também estraçalhava mil-folhas, só que acompanhado de um Crush !
    Passeios de deslumbre pela Rua da Praia, pela Borges de Medeiros até o “fim” (naquele tempo o aterro não havia começado).
    Vc é o cara mais feliz do mundo. Ainda mora aí.

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