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Posts de novembro 2007

Cris, a Fera - 17º capítulo

30 de novembro de 2007 29

Eles iam arrancar minha bolsa! Eles iam ver o bastão de eletrochoques e a faca! Eu seria desmascarada! Seria presa! Oh, meu Deus!

O Fetter e o Éverton se aproximavam, o Fetter com as mãos estendidas feito garras, pronto para me agarrar, me arrancar a bolsa, me levar presa à primeira delegacia; o Éverton um passo atrás, com os olhos muito arregalados, pronto para ajudá-lo, um escudeiro subserviente, o desgraçado.

As pessoas em volta gritavam:

— A bolsa! A bolsa!

Eu apertava a bolsa contra o peito e choramingava:

— Não! Não!

Comecei a andar para trás, mas esbarrei em alguém. Ouvi um homem dizer para outro:

— Mas como é gostosa!

Será que nem numa situação extrema os homens esqueciam o sexo? Bando de animais! É isso que eles são! Desprezo os homens.

Eu não tinha saída. Eu não tinha para onde ir. Eles estavam com os braços em cima de mim.

Foi nesse momento, quando tudo parecia perdido, quando tudo era dor e desespero, que chegou a ajuda dos Céus. A Sétima Cavalaria, com o General Custer de espada desembainhada e os cabelos amarelos ao vento. O Batman. O Thor. O Super-Homem. Ou, melhor, o Super Pateta.

Ele: Paulo Germano!

Chegou dentro do carro, com a mão na buzina e o pisca-alerta ligado, afastando os malditos populares que queriam me tirar a bolsa, detendo Éverton e Fetter, gritando:

— Silvia! Silvia! Silviaaaaaaa!

Parou o carro a dois metros de mim. Abriu a porta do carona.

— Silviaaaaa! — gritou, a voz esganiçada de exaltação.

Saltei para dentro do carro. Ele arrancou. Deslizamos pela Padre Chagas abaixo, em completa segurança, deixando o bolo de desocupados lá atrás, olhando-nos, impotentes. Paulo Germano ofegava, atrás do volante.

— Meu Deus, Silvia, o que era aquilo???

Sorri para ele:

— Finalmente você deu uma dentro!

Ele sorriu, agradecido.

— Ainda bem que eu estava seguindo você.

Suspirei.

- Tenho que admitir, e faço isso a muito custo: concordo com você.

Ele estava radiante.

— Para onde vamos agora? — perguntou.

Se lhe dissesse: vamos para o crematório, que quero fazer churrasco de você, ele toparia. Era um banana mesmo. Mas hoje, não. Hoje ele havia sido meu salvador. Hoje eu adorava aquele idiota do Paulo Germano. Não olhei para ele. Olhei para frente, através do pára-brisa, para a rua lá fora. Ronronei:

— Vamos para o seu apartamento.

— Meu apartamento? — ele estava realmente feliz. — Vamos, vamos para o meu apartamento.

Então olhei para ele. Entreabri os lábios. Ciciei:

— Hoje é seu dia de sorte, garoto.

Ele não perdia por esperar.

Uau!
O que acontecerá com Paulo Germano?
O que fará Cris?
Saiba em seguida no próximo capítulo de… Cris, a Fera!!!

Postado por David

Gritos no Centro

30 de novembro de 2007 12

Vinha descendo a Borges, caminhandinho, mão no bolso, olhando as pernas de louça das moças, quando ouvi aquele grito. Grito, não: gritos. Urros entre furiosos e desesperados, urros medonhos de mulher. Vi que uma pequena multidão havia se formado mais ou menos em frente ao Cine Vitória para conferir o que acontecia. Curioso, também rumei para lá.

Trabalhava no Centro, naquela época — adorava trabalhar no Centro. No meio do expediente, se me sentisse entediado, saía para espairecer. Foi o que fiz, naquela tarde. Ia até a Matheus, morder um mil-folhas cremoso com Mirinda gelada, mas não cheguei a entrar na confeitaria — ao ouvir os gritos, desviei para o bolo de gente. Fui me aproximando, afastando cotovelos, cença, cença, até que cheguei à frente da clareira humana, e vi.

Nossa!, era uma mulher de, sei lá, metro e noventa de altura e uns 120 quilos. Gorda, sim, só que, mais do que gorda, grande, forte, braços do tamanho das minhas coxas, coxas da espessura de postes de luz, manoplas de raquete de tênis, pés de zagueiro do Grêmio Bagé, cabeçorra de bola número cinco, boca feito uma cuia de chimarrão, de onde se elevavam os berros de ódio. Era uma negra retinta, tão negra que a pele lhe reluzia.

Havia se jogado ao chão, onde esperneava e se debatia com violência. A cercá-la, oito brigadianos, que hesitavam: deviam se arriscar a imobilizá-la? Ficaram ali, em volta da mulher, atentos, meio agachados, com os braços abertos como se fossem goleiros à espera da cobrança do pênalti. Um deles, decerto o oficial, deu então voz de comando: iam pegá-la! Ficamos tensos, nós na torcida. Os brigadianos saltaram sobre a mulher, os oito em um único movimento, bem treinados como legionários romanos. Mas aí ela se pôs de pé. Ergueu-se em seu imenso corpanzil e emitiu um grito assustador, que trincou o asfalto da avenida e fez murchar os pastéis da confeitaria.

— UAAAAAAAAAAH! — e, num movimento vigoroso de braços e pernas, espalhou brigadianos para todo lado e saiu correndo, correndo, correndo… na minha direção!

Por Deus, foi esta a cena dantesca que tinha diante dos meus olhos esbugalhados: uma hipopótama enlouquecida despencando em minha perseguição! Não vacilei: dei meia-volta e corri com todas as forças de meus joelhos e pulmões, sem importar-me com a humilhação de ser visto em fuga pusilânime. Só parei na segurança da Salgado Filho, debaixo do viaduto, onde os espectadores riam convulsivamente e me gozavam:

— Está bem de perna, hein, magrão!

No fim, foi tudo muito divertido. Agora, dias atrás, mais ou menos 25 anos depois, eu ia para a Feira do Livro, tranqüilão, e ouvi gritos. Gritos idênticos! Ou pelo menos pareciam. Vacilei, mas a curiosidade foi maior do que o medo. Parei. Olhei. Felizmente, não era a mesma mulher. Mas passava por ataque semelhante, gritava e se debatia no chão duro. No entanto, ninguém se aproximou. Ficaram todos olhando de longe, desconfiados, nem os brigadianos deram-lhe atenção. Gritando ela estava e gritando ficou, não sei por quanto tempo, porque eu também me afastei, tinha mais o que fazer.

Algo mudou, em 25 anos. O porto-alegrense sente mais medo, não se arrisca mais. É outro cidadão. E, principalmente, é outro o Centro. Está mais selvagem, o Centro, mais bruto, não é mais lugar de passeio; é de passagem.

Que saudade do Centro em que se podia ir para espairecer, em que se podia ir só para ver as pernas de louça das moças, para morder um mil-folhas cremoso, para sorver uma Mirinda gelada, onde simplesmente a gente parava para ver.

Postado por David

Cris, a Fera - 16º capítulo

29 de novembro de 2007 20

Armou-se a confusão. Fetter, na frente do carro, não parava de gritar pela polícia. Éverton, atrás do volante, não se mexia. Só olhava, lívido, e repetia o que é isso?, o que é isso? Fiquei paralisada por alguns instantes, sem ação, em pânico.

— Ela é uma assassina! — berrava o Fetter. — É uma bandida! Uma assaltante! Uma fera!!!

E apontava para mim. Uma pequena multidão havia se formado em volta do carro. Já ouvia murmúrios de chama os brigadianos!, chama os brigadianos!, cadê os brigadianos?

Decidi agir. Olhei para o Éverton.
— Você não faz nada??? — gritei.

Ele piscou. Olhou para mim como se estivesse despertando de um transe.
— Hein? — perguntou.
— Você não faz nada, seu banana??? — repeti, agora mais alto e dei um tapa no braço dele. — Não vê que esse sujeito é um maluco? Um tarado? Ele é apaixonado por mim! Ele me persegue!
— Hein?
— Vai lá! — ordenei. — Desce e faz alguma coisa!!!
— Eu?
— Não, seu idiota! Eu! Você é homem ou o quê??? Uma bisca??? Uma borboleta???
— Eu?…

Enquanto ele se decidia se era um homem ou uma borboleta, reparei que as pessoas estavam ficando cada vez mais excitadas. Olhavam para mim. Apontavam.
— Quem é ela?
— O que ela fez?
— Essa mulher é um perigo! — urrava o Fetter. — Ela tentou me matar!!! Ela é uma fera!!!
— Desce de uma vez! — mandei, dando um soco na perna do Éverton. — Vai lá e encara o sujeito! Seu bosta!

Éverton enfim reagiu ao xingamento. Talvez bosta tivesse sido demais para ele. Desceu. Meio vacilante, foi se aproximando do Fetter.
— Er… — hesitava ele, enquanto Fetter fazia a volta no carro e vinha em sua direção, gesticulando muito, gritando sempre.
— Ela é uma assassina! — dizia, e apontava para mim. — Ela vai tentar matar você também!!!

Vi que o Éverton começava a acreditar nele.
— Matar?… — balbuciou.

Tratava-se de um abobado, sem dúvida.

Desci do carro. A multidão me cercava. Olhei para os lados, procurando uma rota de fuga. Correr, não podia. De que jeito, com aqueles saltos altos? Fui me chegando ao meio-fio, tentando me afastar dos dois homens, que se olhavam, Éverton em dúvida, Fetter furioso.

— Ela é perigosa! — gritava o Fetter. — Abram a bolsa dela! Ela tem uma faca lá dentro! Uma faca! E um troço que dá choque na gente! A bolsa! Abram a bolsa dessa maluca!!!

Abracei-me à minha bolsa, insistivamente. Todos olhavam para mim. Pior: olhavam para minha bolsa.
— A bolsa! — berrava o Fetter. – Abram a bolsa dessa louca!
— A bolsa! — gritou alguém do povo. — Vamos abrir essa bolsa!

Olhei para o Éverton.
— Me ajuda! — pedi.

Ele franziu as sobrancelhas. Um grandessíssimo abobado.
— Vamos abrir a bolsa — propôs, enfim. Se não houver faca nenhuma aí, se não houver nada, não haverá nenhum problema.
— Isso! — concordou o Fetter. — Vamos abrir a bolsa! Vamos abrir a bolsa!
— A bolsa! — pediam os malditos populares. — A bolsa! A bolsa!

Apertei a bolsa em meus braços. Se a abrissem, eu estaria perdida. Que ia fazer? Meu Deus, o que poderia fazer???


O que ela fez?
O que aconteceu?
Você já vai saber. Calma!

Postado por David

Cris, a Fera - 15º capítulo

28 de novembro de 2007 32

Estava dentro do carro, já.

Foi uma surpresa e um susto.

Primeiro a surpresa. Depois o susto.

Um outro carro emergiu das sombras da rua e, com grande alarido de pneus e freios, nos fechou. Ficou atravessado no asfalto, o bico virado para o cordão da calçada. A princípio, pensei que fosse um assalto. Mas não podia, nenhum ladrão faz tamanho escândalo para assaltar. Éverton, as costas grudadas no banco do motorista, os olhos arregalados, o pânico deformando-lhe o rosto, balbuciava:

— O que é isso? O que é isso?

Esforcei-me para manter a calma. Tentei raciocinar. Havia um homem dentro do carro que nos bloqueava a saída. Achei que fosse Paulo Germano, o idiota, o imbecil, o sacripanta, o beleguim, a besta, o taipa, o jeca, o sevandija, o biltre, o pelintra, o estúpido do Paulo Germano. Todos esses adjetivos cruzaram pelo meu cérebro, no momento em que supus ser o Paulo Germano, e estava disposta a cobri-lo com eles, assim que estivéssemos frente a frente.

Mas, ao observar melhor, notei que o carro não era dele. O que, antes de me tranqüilizar, deixou-me ainda mais nervosa. Paulo Germano era meu cachorrinho, era obediente, era submisso. Com o Paulo Germano poderia fazer o que bem entendesse, poderia transformá-lo em meu servo. Mandaria, e ele obedeceria. Seria um inconveniente, é claro, mas não passaria disso. Livrar-me-ia dele, e pronto. Talvez estragasse meus planos de liquidar o tal Éverton, mas não acarretaria maiores problemas para mim. Agora, se fosse qualquer outra pessoa, não podia esperar nada de positivo. Ao contrário: podia esperar o pior.

Quem poderia ser?
A polícia, que me descobriu?
Um detetive particular, que anda me seguindo?
A mulher desse Éverton?
Não… não se tratava de mulher. Era um homem que estava dentro do outro carro. E o homem, finalmente, abriu a porta do lado do motorista e colocou o corpo para fora. Éverton, ao meu lado, não largava a direção, não se mexia, apenas repetia:

— O que é isso? O que é isso?

Fiquei com raiva dele. Ódio, até. Não passava de um covarde. Um poltrão. Por que não reagia? Por que não descia e encarava o outro?

O outro… Finalmente o reconheci. E, ao reconhecê-lo, fiquei ainda mais assustada. Ele desceu e postou-se em frente à Mercedez. Apontou o indicador para mim, diretamente para mim, e berrou, acusador:

— Essa mulher é uma fera!

Éverton continuava a tartamudear:

— Que é isso? Que é isso?

— Essa mulher é uma assassina! — gritou o outro.

— Que é isso?

Será que o desgraçado não sabia dizer outra coisa?

— Prendam essa mulher! Chamem a polícia!!! Polícia! Polícia!

O Fetter.

Era o maldito Fetter! Será que andava me procurando pela noite? Será que passou e me reconheceu?

Eu não sabia. Só sabia que ele estava furioso, que gritava, e gritava tanto que começou a chamar a atenção. As pessoas saíam dos bares para ver o que estava acontecendo.

— Ela é uma assassina! — berrava o Fetter. — Prendam essa mulher! Polícia! Polícia! Políciaaaaa!!!

Fiquei imóvel no banco do carona. Éverton olhou para mim, apavorado. Eu estava perdida. Meu Deus, eu estava perdida!

Será que estava mesmo?
Será?
Saiba daqui a pouco, no próximo capítulo de… Cris, a Fera!

Postado por David

A herança do rei

28 de novembro de 2007 7


Francisco Rufino de Souza Lobato era o nome do camareiro real encarregado de aliviar sexualmente o rei Dom João VI. Não se tratava de sacanagem propriamente dita, não vá pensar mal do nosso primeiro soberano, filho da nossa primeira soberana, Maria I, a Rainha Louca, pai do nosso segundo soberano, Dom Pedro I, avô do nosso último soberano, Dom Pedro II.

Na verdade, tudo até acontecia de forma bastante pudica e reservada entre o rei e seu dedicado fâmulo. É que Dom João enfrentava problemas nessa área íntima. A mulher dele, a princesa espanhola Carlota Joaquina, era baixa, magra, manca e tinha bigode. Não bastasse a aparência desestimulante, vivia maquinando para derrubar o marido. Tentou cinco golpes de estado, fracassou em todos. Mesmo assim, geraram nove filhos, embora os historiadores duvidem da paternidade dos cinco últimos.

Seja. O certo é que Dom João e Carlota Joaquina se separaram antes ainda de vir para o Brasil. Separaram-se de fato, não de direito. Permaneciam juntos, como um harmônico casal real, durante as cerimônias públicas, mas, em Portugal, viviam em castelos diferentes, depois atravessaram o Atlântico em navios diferentes e, no Rio de Janeiro, moravam em bairros diferentes.

Ao que se sabe, Dom João VI não se entusiasmava com a possibilidade de angariar amantes como alternativa a uma vida matrimonial fracassada. Bem ao contrário de seu filho e sucessor. Dom Pedro I também teve uma vida matrimonial malsucedida, mas reagiu a ela. E como!

Ano passado, estive em Viena e fui visitar o palácio de Maria Tereza da Áustria, a mãe de Leopoldina. Essa Leopoldina viria a ser a primeira imperatriz do Brasil, ao casar-se com Dom Pedro. No giro pelo castelo, passamos por um retrato de Dona Leopoldina. A austríaca que nos guiava apontou para o quadro, falou brevemente de Leopoldina e, a seguir, começou a desancar Dom Pedro. Tratava-se de homem violento, disse a guia. Um bruto. Um selvagem. Era dado a acessos de fúria e, num deles, matou a infeliz Leopoldina a pontapés.

Não cheguei ao ponto de me alçar em ardores patrióticos a fim defender o proclamador da nossa independência, mas fiquei em dúvida. Terá Dom Pedro realmente assassinado Dona Leopoldina? Preciso pesquisar.

Mas voltando a Dom João. Sabe-se apenas de uma única amante sua, da qual se destrinçou antes de emigrar para o Brasil. Uma só. Tão contido, para a época, que beirava o escândalo. Suponho que, por ser um preguiçoso militante, Dom João talvez achasse que amantes davam muito trabalho. No que tinha toda razão — um relacionamento com uma mulher não é tão-somente um relacionamento; é um empreendimento, algo cheio de conseqüências imprevisíveis e, geralmente, dispendiosas.

Assim, Dom João dispensava as mulheres. Preferia o camareiro Rufino, que o masturbava com devoção na alcova real, sendo promovido inúmeras vezes por seus competentes serviços.

Tais pormenores acerca de Dom João eu os li no ótimo %221808%22, de Laurentino Gomes, que descreve um rei com pernas e nádegas extraordinariamente gordas, lábio inferior pendente e vontade fraca. Dom João tinha medo de caranguejos e trovoadas, jamais tomava banho e usava sempre a mesma roupa, cheia de bolsos nos quais guardava pequenos frangos desossados fritos na manteiga, que ele devorava ciosamente entre as refeições. Falava de si mesmo na terceira pessoa. %22Sua Majestade quer comer%22. %22Sua Majestade está com sono%22. Hábito de reis, como Pelé demonstrou mais tarde.

Foi esse monarca quase boçal que enganou ninguém menos do que Napoleão, em 1807. Napoleão exigia que Portugal rompesse com a Inglaterra e participasse do bloqueio continental. Dom João prometeu que romperia. Não rompeu. Foi postergando a ação, enquanto se preparava para fugir para o Brasil. Fugiu, deixando Napoleão a suspirar:

— Foi o único que me enganou.

Poucos entendem como Dom João VI conseguiu essa proeza. Acontece que as qualidades que Dom João empregou nela são também os seus defeitos. Que transmitiu aos brasileiros, como uma herança de sangue. Nossa elogiável tolerância, nosso detestável desleixo. Com seus predicados, o brasileiro se concede toda criatividade e forja gênios da bola. Com suas deformidades, deixamos que parte de um estádio desabe por falta de conservação.

Tudo culpa de Dom João VI. Tudo graças a ele.


Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora

Postado por David

Cris, a Fera - 14º capítulo

27 de novembro de 2007 33

Não podia mais adiar minha próxima execução. Por vários motivos. Tinha necessidade de agir. Como uma drogada em crise de abstinência, ansiava por experimentar mais uma vez aquela sensação de poder. Queria ver um homem morrendo aos meus pés. Queria subjugá-lo.

Verdade que subjugava a meu talante aquele pelintra do Paulo Germano, e isso, de alguma forma, fazia-me sentir bem. Era uma delícia humilhá-lo. Era excitante ver como podia reduzir um homem a algo menos do que um cão. Mas eu queria mais. Queria saber que podia acabar com a vida de um homem. O mesmo homem que se achava capaz de me violar saberia que eu era capaz de eliminá-lo desse Vale de Lágrimas.

Oh, como isso era bom!
Mas havia outra razão.
O dinheiro!

O vil metal.

Meu dinheiro estava acabando e simplesmente não sabia mais como pagaria o aluguel no mês seguinte. Decidi que de terça-feira não passaria.

Na terça à noite, vesti-me para matar. Minha minissaia não era uma minissaia; era um cinto. Minha blusa era leve. Diáfana, diriam os parnasianos. Não vesti sutiã. Não havia nada entre a pele dos meus seios e o tecido macio da blusa. Calcei sandálias de salto alto, com tiras trançadas até as canelas. Soltei os cabelos. Saí.

Perto da Calçada da Fama, ouvi um homem falar entre dentes, da janela de um carro:
— Deliciosa…

Era como me sentia. Deliciosa. Experimentava a brisa suave envolvendo minhas coxas nuas, meus braços, minhas ilhargas, e me excitava. Um leve formigamento nas virilhas me fazia ondular com muito mais manemolência. Os bicos dos meus seios estavam tão duros que me doíam.

Nessas condições, não precisei esperar muito. Os homens percebiam-me como se fossem cachorros cercando uma cadela no cio. Em quinze minutos, minha futura vítima falava ao meu lado. Falava e falava e se jactava e dizia que sabia muito e que era o bom. Eu sorria, como se estivesse muito encantada.

Era um otário perfeito. Chamava-se Éverton e se dava ares de rico. Esperava mesmo que fosse rico, para poder reabastecer minha conta bancária.
— Vamos ao meu apartamento? — ele convidava. — Moro sozinho numa casa em um condomínio da Zona Sul. Você vai adorar minha casa.
— Não sei… — vacilava, recostando-me na cadeira, passando a mão displicentemente pela toalha da mesa do bar.
— Podemos tomar umas champanhotas… — dizia.

Como os homens são previsíveis, meu Deus!

Depois de alguns minutos de fingimento, topei. Dei para ele a mesma desculpa que havia dado aos outros: disse que era casada, que ninguém nos poderia ver saindo juntos, que ele devia sair cinco minutos antes e me esperar na esquina.

Método. Eu estava adquirindo método. Fizemos o combinado. Ele saiu. Saí quinze minutos depois — resolvi atrasar-me para deixá-lo ainda mais ansioso.
Ondulei até a esquina. Ele estava lá, nervoso, caminhando de um lado para outro em frente ao carro, uma Mercedez negra.

Sorriu ao me ver. Quase esfregou as mãos de satisfação. Rebolei um pouco mais. Ele suspirou. Estava pronto. Prontinho. Eu adoraria degolar aquele canalha.
— Vamos? — abriu a porta da Mercedez.
— Vamos.

Ia subindo no carro, quando aquilo aconteceu. Uma desgraça. Uma verdadeira desgraça.


O que aconteceu?
O quê???
Saiba amanhã cedo, em mais um capítulo de… Cris, a Fera!!!

Postado por David

Aguardem!

27 de novembro de 2007 8

Leitorinhos, em alguns instantes, mais um capítulo do intrigante e empolgante folhetim Cris, a Fera!!!!!

Postado por David

Espancado pela mulher

27 de novembro de 2007 3

HISTÓRIA FALADA

Como o meu amigo começou a apanhar da mulher.


Assiste aí:

Postado por David

Cris, a Fera - 13º capítulo

26 de novembro de 2007 38

Seria fácil matar aquele verme do Paulo Germano. Subi à cobertura pensando em uma forma de aliviar a Terra da sua existência. Ele era um cachorrinho, faria o que eu mandasse. Se lhe dissesse para ficar quieto e fechar os olhos, obedeceria. Poderia aplicar-lhe um bom choque, um choque que lhe fritasse os gorgomilos, para, em seguida, abrir-lhe a garganta com calma e método. Ah, isso seria uma delícia…

— Quer uma champanhe? — ofereceu, sorrindo.

— Desta vez tem champanhe! Nunca mais vou deixar minha geladeira sem champanhe.

Suspirei, enfarada. Por que não beber uma champanhota antes de liquidá-lo?

— Uma champanhe, então. Espero que não seja nacional.

— Não é, não é! É Clicot!

Levantei uma sobrancelha. Espreguicei-me:

— Aaaah…

— Está cansada? — perguntou, trazendo as taças.

— Tensa, talvez — ergui e abaixei os ombros.

— Quer uma massagem? Fiz um curso de massagista, uma vez.

Refleti por alguns segundos. Era uma boa pedida, uma massagenzinha. Aquilo me deu idéias. Poderia me divertir mais um pouco com o biltre do Paulo Germano. Olhei nos olhos dele.

— Presta bem atenção no que vou te dizer — falei, dedo em riste.

— Presta bem atenção!

— Estou prestando!

— Muito bem. Fica aí quieto, entendeu?

— Entendi!

— Só olhando. Entendeu?

— Entendi, entendi.

Comecei a abrir minha blusa. Comecei de baixo para cima. Um botão. Outro botão. Meu umbigo ficou de fora. Eu havia colocado um piercing e achava que ficara muito bem com aquele piercing. Muito bem, realmente. Minha barriga estava bem durinha. Oitocentos abdominais por dia. Abri o terceiro botão.

Olhei para o Paulo Germano. Ele fitava minha barriga com os olhos arregalados e a boca aberta. Em um segundo, a baba escorreria-lhe peito abaixo. Mais um botão se foi. Minha blusa estava completamente aberta. Fiz um movimento de ombros. A blusa escorreu por meus braços. Fiquei só de sutiã.

A respiração do Paulo Germano tornara-se pesada. Levei as mãos às costas. Clic. Desafivelei o sutiã. Paulo Germano mexeu-se no sofá, como se estivesse desconfortável. Notei que seus olhos haviam ficado marejados. Tirei o sutiã. Meus seios saltaram para o ar livre, nus. Seios rijos, bem sei. Seios de que me orgulho. A situação me excitara. Meus mamilos se intumesceram. Paulo Germano ganiu baixinho.

— Presta atenção — disse-lhe, em tom de mando.

Ele levantou o olhar dos meus seios e fitou-me os olhos.

— An?

— Presta atenção! Está vendo essa gargantilha? — levei a mão ao pescoço.

— Es-estou.

Baixei a mão até a cintura.

— Está vendo esse cinto?

— S-sim…

— Vou ficar nua da gargantilha ao cinto. É só da gargantilha ao cinto que você pode me tocar. Entendeu?

— Entendi, entendi — ele suava.

— Não pode me tocar nem acima, nem abaixo. Compreendeu?

— Compreendi, compreendi — ele tremia.

— Pode começar a massagem — ordenei.

Ele veio até mim, vacilante. Assim ficamos o resto da noite. Enquanto Paulo Germano me tocava, pensei que era sensato não matá-lo ainda, porque o porteiro do edifício do Fetter me viu saindo com ele, e outras pessoas podiam ter-nos visto. Isto é: o ideal seria esperar alguns dias para executá-lo. Quem sabe semanas…

Tenho de admitir que gostei da forma como ele me tocou. Com devoção, com paixão e, ao mesmo tempo, com suprema delicadeza. A certa altura, começou a chorar.

— Te amo! — dizia, entre lágrimas.

— Te amo! — e aquilo me enfarava, mas também me dava certo prazer.

Voltei para casa já quase de manhã. Antes de sair do carro, olhei-o muito séria.

— Eu te ligo, entendeu?

— Entendi, entendi…

— Entendeu?!? Não quero você me seguindo por aí.

— Entendi! Juro.

— Muito bem.

Abri a porta do carro. Antes de sair, saquei o sutiã da bolsa e entreguei-o ao Paulo Germano. Ele ficou com os olhos marejados outra vez.

— Oh… — grasnou.

— Oh…

Saí pensando que teria de pegar minha próxima vítima durante a semana. Teria de ser logo, teria de ser na segunda ou na terça-feira. Meu dinheiro estava acabando e minha vontade de agir só aumentava. Cris, a Fera, ansiava por matar!

Mataria?
Hein?
Saiba em breve, no próximo capítulo de… Cris, a Fera!

Postado por David

A dura vida do colunista

26 de novembro de 2007 47


Reuni 15 frases imortais proferidas por brasileiros em todos os tempos — gosto de listas. Colhi-as a meu critério, decerto esquecendo de dezenas tão radiosas quanto. Se você quiser, mande as suas preferidas, que mais tarde publico.

Ou não.

Deu trabalho, não vá pensar que foi facinho, que estava com preguiça de escrever, que fazia calor durante a tarde e que eu tinha vontade de tomar umas Paulaners geladas com lombinho de porco no Jazz Café, e que peguei as frases dos outros emprestadas.

Não, não pense isso. Teve pesquisa nisso, teve reflexão. Tudo para fechar com um diamante em forma de verbo, lapidado por um dos nossos contemporâneos luminares. Ei-las, as nossas jóias:

%22Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas%22

(Gregório de Matos e Guerra, o %22Boca do Inferno%22, baiano do século 17. Conheci uma moça lá no IAPI que também era chamada de Boca do Inferno)

%22Saio da vida para entrar na história%22

(Getúlio Vargas, pouco antes de rasgar o lado esquerdo do peito do seu pijama listrado com o aço de uma bala calibre .32, em agosto de 1954)

%22Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro%22

(Nelson Rodrigues, maior frasista da pátria)

%22Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria%22

(Machado de Assis, pingando o ponto final em %22Memórias Póstumas de Brás Cubas%22)

%22Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei%22

(Lupicínio Rodrigues, negando-se a reatar com Mercedes, a %22Carioca%22, que o traíra com seu melhor amigo. Para desancar a Carioca, Lupi ainda compôs %22Nervos de Aço%22 e %22Vingança%22. Raras vezes um par de chifres fez tão bem à música brasileira)

%22Buenas e me espalho; nos pequenos dou de prancha, e nos grandes dou de talho!%22

(Capitão Rodrigo, o personagem que todo gaúcho de bombachas acha que é, criação do grande Erico Verissimo em %22O Tempo e o Vento%22, um dos livros que inventaram o Rio Grande)

%22Não tão depressa que pareça covardia, nem tão devagar que pareça afronta%22

(Senador Pinheiro Machado, orientando seu motorista sobre como se afastar de uma manifestação contrária. Pinheiro Machado também recomendava que todo homem usasse cuecas de seda, para estar vestido dignamente, caso a morte o surpreendesse. A morte o surpreendeu — Pinheiro Machado foi assassinado à traição. Vestia cuecas de seda)

%22Que seja infinito, enquanto dure%22

(Vinícius de Morais, no %22Soneto da Fidelidade%22, apesar de Vinícius provavelmente ter se inspirado em Henri de Régnier, poeta francês que disse, no começo do século 20: %22O amor é eterno enquanto dura%22. Esse francês foi autor de outra frase muito boa: %22As mulheres só se lembram de homens que as fizeram rir, e os homens só se lembram das mulheres que os fizeram chorar%22. Sábio, Henri. Mas, enfim, com Vinicius aquela frase do amor eterno ficou mais bonita, então ela é de Vinicius)

%22Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que nas mulheres fica melhor%22

(Millôr Fernandes)

%22Lateral a gente não compra, lateral a gente faz em casa%22

(Oswaldo Rolla, o Foguinho, um dos inventores do futebol gaúcho, demonstrando que um time de futebol tem a sua hierarquia)

%22Estou numa fase em que, se eu comprar um circo, o anão cresce%22

(Adroaldo Guerra Filho)

%22Não levo ninguém a sério o bastante para odiá-lo%22

(Paulo Francis, provando que Francis, na verdade, só era ácido na verve. Na alma, era uma doçura)

%22Se alguma vez você pensar em mim, não se esqueça de lembrar que eu nunca lhe esqueci%22

(Roberto Carlos, o Rei, não o lateral-esquerdo amarelão)

%22Se tu me amasses e se eu te amasse, como te amaria!%22

(Essa frase genial não é de um brasileiro, é do poeta francês Paul Géraldy, mas foi Guilherme de Almeida quem a traduziu, e o fez muito bem, e além disso eu adoro essa frase, e a coluna é minha, por isso a acrescento à lista)

%22No futebol, ganha quem marcar um gol a mais%22

(Dunga)


Texto publicado na Zero Hora de domingo

Postado por David

Cris, a Fera - 12º capítulo

23 de novembro de 2007 30

— SILVIAAAAAAA! SILVIAAAAAA! TE AMO, SILVIAAAAAA!

O idiota não parava de berrar, lá embaixo. Tinha de agir de uma vez. Debrucei-me um pouco mais sobre o Fetter. Espetei a faca na garganta dele com um pouco mais de força. Vi a mancha avermelhada que se formou em seu pescoço.
— Casado, é? — rosnei.

Ele começou a se debater. Estava se recuperando visivelmente. Abriu a boca. Gemeu:
— Nããããããã…

Estava prestes a reagir. Ah, como queria executá-lo… Mas é claro que, se o fizesse, o imbecil do Paulo Germano ia me associar ao crime. Além disso, a essa altura, com o escândalo que ele estava promovendo, muita gente já devia estar acordada no prédio, não duvido que alguns estivessem nas janelas, seria impossível sair sem ser vista. Suspirei. Não seria daquela vez que liquidaria com o Fetter.

Estiquei a mão até minha bolsa e de lá tirei o bastão. Apliquei-lhe outro choque nos flancos, ele saltou, teve uma convulsão e, agora sim, desmaiou.

Respirei fundo. Que pena, que pena. Estava tão perto de transformar esse tipo em mais um dos meus suínos…
— SILVIAAAAAAAAAA!!!

Pus-me de pé num salto. Mas como aquele Paulo Germano era taipa!!! Teria de cuidar dele o quanto antes. Corri para a janela, puxei a cortina e coloquei meio corpo para fora.

Ele não estava olhando para aquela janela. Não estava olhando para nenhuma em especial. Gritava na esperança de ser ouvido por mim, simplesmente. Não sabia em que andar ou apartamento eu estava. Assim que me viu, abriu um sorriso, estendeu-me os braços como se estivesse orando, e repetiu, choroso:
— Silvia-a-a-a-a…
— Cala essa boca! — mandei.

Dei-lhe as costas e me preparei para sair do apartamento. Antes de ir embora, dei uma olhada no Fetter. Estaria vivo? Lembrei-me do caso de um sujeito que a polícia matou com um eletrochoque num aeroporto de um desses civilizados países do primeiro mundo. Olhei bem para ele. Respirava e até começava a se mexer. Menos mal.
— SILVIAAAAAAAAA!!!!!

Jesus Cristo, mas que idiota! Corri para fora do apartamento, desci pelas escadas, não teria paciência de esperar pelo elevador. Encontrei o porteiro do edifício espiando pela porta, assustadíssimo, falando em um celular:
— Mesmo que vocês estejam sem viatura é preciso mandar alguém aqui agora! O cara é um louco! Não pára de gritar por uma Silvia e não mora Silvia nenhuma aqui.

Passei por ele zunindo. Saí do edifício.
— Silvia! — exclamou Paulo Germano, ao me ver.
— Quer calar essa boca? — ralhei.
— Silvia! — e atirou-se à calçada, de joelhos. Agarrou meus tornozelos, repetindo:
— Te amo, te amo, te amo…

E beijava meus pés.
— Fica quieto! Onde está seu carro?
— Ali, ali — apontou para a esquina.
— Vamos! Vamos embora de uma vez.
— Para onde vamos?
— Seu irmãozinho está em casa?
— Não. Ele voltou para o Interior.
— Vamos para lá, então!
— Oh, Deus! Obrigado, Silvia, obrigado!
— O que você estava fazendo aqui embaixo? — perguntei, enquanto entrávamos no carro.
— Tinha de falar com você! Não suportei quando vi você entrando no prédio com aquele sujeito. Quem é ele? É seu marido?
— Não te interessa! — o carro arrancou. — Como você me viu aqui?
— Não saí mais da frente do seu prédio. Eu precisava ver você de novo. Tinha de dizer o que senti quando ficamos juntos. Fiquei o tempo todo esperando você sair. Por que você botou essa peruca morena?

Olhei para ele. Mas era um estúpido mesmo.
— Não te interessa — disse.
— Você é tão linda com seu cabelo natural, loiro…
— Cala essa boca, idiota!
— É que eu…
— Cala a boca!!!

Ele se calou. Seguimos o resto do trajeto em silêncio. Fui planejando o que fazer, sentindo os volumes do bastão de eletrochoque e da faca em minha bolsa. Desgraçado daquele Paulo Germano. Mal sabia que estava levando uma fera para casa. Mal sabia o que lhe aconteceria!


O que aconteceria?
Hein???
Saiba logo, logo, em mais um capítulo de… Cris, a Fera!!!

Postado por David, vendo o sol da sexta-feira

O maior corno do mundo

23 de novembro de 2007 12

HISTÓRIA FALADA

Meu amigo, coitado, esse meu amigo era o maior corno de todos os tempos. Ok, talvez perdesse para o imperador Cláudio, de Roma — como bem lembrou o leitor Henry —, traído mais de uma centena de vezes pela depravada Messalina.

Mas de sete namoradas que esse meu amigo teve, todas as sete o traíram. O pior é que a culpa, de certa forma, era dele próprio, por Deus que era.


Assiste aí:

Postado por David

Mulheres no chão

23 de novembro de 2007 13

Lá estava eu, em Oxford, em meio a todas aquelas universidades vetustas e gramados perfeitos e tudo mais, decidido a descobrir como funcionava a noite da Velha Álbion.

Por sorte, conhecia um inglês, e ele se dispôs a dar uma volta comigo pelo lugar. Saímos a flanar, tranqüilões, dizendo very goods, escolhendo onde beber uma Guinness densa e olorosa. Entramos num pub agitadíssimo, havia grupos de ingleses de pé, amontoados no balcão, alguns sentados em volta das mesas e outros escorados displicentemente nas paredes.

Ouviam roquenrou, bebiam cerveja morna em seus canecões de meio litro e falavam alto. Encontramos uma mesa desocupada, mas não havia cadeiras. Acerquei-me de um grupo de homens e perguntei se podia pegar uma das cadeiras vagas da mesa deles. No escuro e na confusão, achei que tinham consentido. Tomei a cadeira e fui sentar. Meu amigo inglês esperava-me de olhos esbugalhados e boca tremente.

— O que você fez? – perguntou-me, assustado.

Ergui as sobrancelhas.

— Ué, fui pegar uma cadeira.

— Ficou louco? Eles estão bêbados, podiam matar-nos a pancada!

Os 15 minutos seguintes ele dedicou a explicar que, a certa altura da noite, algumas áreas da Inglaterra tornavam-se perigosas. Mais especificamente, 11 horas da noite. É que às 23h os pubs tinham de parar de vender álcool. O que acontecia era espantoso.

No horário fatídico, os garçons de toda a Ilha batiam sinos pendurados atrás dos caixas dos bares, alertando os clientes de que os últimos pedidos de bebida deviam ser feitos. Os clientes se alvoroçavam, levantavam-se e se jogavam por sobre os balcões, clamando por cerveja, cerveja, bier! Saíam abraçados a três, quatro, quantos copos de cerveja conseguissem carregar, e os levavam para as mesas e bebiam e bebiam.

Por volta da meia-noite, o cenário das ruas era o oposto do que se imagina ser a fleuma britânica. Ingleses andando trôpegos, abraçados uns aos outros, gritando, cantando, sentados nos meios-fios com os membros lassos, as cabeças pendentes, vomitando em inglês. E mulheres, muitas mulheres caídas no meio da rua, desmaiadas de tanto beber. Mulheres em geral de minissaias curtíssimas, mesmo quando frio. Mulheres com aquela cara de mulheres inglesas, sabe como é a cara das mulheres inglesas? Pois é. Todas as inglesas têm cara de síndica de edifício, com exceção da Elizabeth Hurley.

Naquela noite de Oxford, fiquei com pena de uma delas e a levantei do chão e a acomodei sob o arco da porta de um prédio. Meu amigo me repreendeu:

— Só estrangeiros erguem mulheres do chão.

E, de fato, logo adiante deparei com outra inglesa estendida na calçada e vi que os ingleses passavam por cima dela cuidadosamente, como se estivessem saltando sobre um cachorro adormecido.

Claro, tudo isso aconteceu antes, quando a Inglaterra ainda era bárbara, quando ainda existia a infame Lei Seca. Hoje, os pubs estão liberados para vender cerveja até de madrugada.

Os ingleses compreenderam que nada impede um homem de beber, se ele quiser. Que mesmo os árabes, proibidos de ingerir álcool, fabricam vinho clandestino e bebem em casa, escondidos, sonhando com o tempo em que ascenderão ao Sétimo Céu e terão direito a 72 virgens e a todo o álcool que puderem entornar. Que os males do álcool não se combatem com leis, mas com educação. E que os crimes do trânsito não são eliminados por toques de recolher, mas por punição.

Os ingleses sabem disso. Os ingleses evoluíram. São inteligentes, os ingleses.

Postado por David

Cris, a Fera - 11º capítulo

22 de novembro de 2007 27

— SILVIA!!!

Estremeci ao ouvir esse grito.

— SILVIAAAAAAA!!!! — gritou uma desesperada voz homem, ainda mais alto.

De onde gritavam? Quem gritava? Seria comigo? Seria alguém chamando pela loira Silvia que eu encarnara um dia antes? Levantei o queixo, apurei os ouvidos. A faca ainda estava encostada na garganta do tal Fetter, ele ainda me fitava com olhos aterrorizados, a boca aberta, a baba branca escorrendo-lhe dos lábios.

— SILVIAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!

O desgraçado estava se esgoelando lá embaixo. Só podia ser aquele Paulo Germano. Só podia! Mas será que era comigo mesmo? E se fosse outra… E se houvesse uma Silvia entre os vizinhos?

— SIIIILVIAAAAAAA!!!!!! SOU EU, SIIIILVIAAAAA!!!! TE AMO, SILVIAAAAAA!!!

Maldito! Se continuasse com aquele escândalo, acordaria o prédio inteiro! Iam chamar a polícia. Eu estaria perdida. Levantei-me. O que devia fazer?

Caminhei de um lado para outro da sala, com a faquinha na mão. Deixei o Fetter estendido no sofá, esqueci-me dele por um momento.

— SILVIAAAAA! SOU EU!!! POR FAVOR, SILVIAAAAA, VEM FALAR COMIIIGOOOO!!!

Corri para a janela. Devia olhar? Devia me expor? Mas, se ele continuasse com aquela gritaria, seria pior. Eu seria descoberta. Puxei a cortina. Espiei.

Era ele! O idiota do Paulo Germano, parado lá embaixo, na rua, olhando para cima, gritando com as mãos em concha na boca, estremecendo o edifício inteiro aos berros de Silvia, Silvia, Silvia. Teria me seguido? Mas como? Além disso, eu não estava com a peruca loira… Será que me reconheceu mesmo assim? Será que ficou de campana na frente do meu prédio, esperando que saísse, e depois me seguiu? Mas que besta!

O que eu deveria fazer? E o Fetter, caído no chão? Logo, logo, estaria recomposto, ia se botar sobre mim, talvez me agredisse. Talvez chamasse a polícia. Eu seria presa. Poderiam ligar-me ao outro crime. Deus! O que eu deveria fazer? Tinha de agir rápido. Tinha de tomar decisões. Resolvi dar cabo do Fetter primeiro. Girei nos calcanhares e olhei para ele. Começava a se mexer. Eu precisava fazer logo o que deveria ser feito.

— SIIIILVIAAAAA!!! TE AMO, SILVIAAAAAA!!!!

Deus do céu, como eu queria abrir a garganta daquele Paulo Germano. Abri-la de orelha a orelha! Mas, antes, precisava dar um jeito no Fetter. Marchei na direção dele, com a faca na mão. Ele começou a se debater e a ganir. Estava se recuperando. Eu sabia o que devia fazer. E ia fazer! Apertei o cabo da faca. Debrucei-me sobre o Fetter. Ele conseguiu gemer:

— Nãããõ… nããããõ…

Sorri. Antes de agir, repeti:

— Você não é boa pessoa.


O que ela fez?
Saiba logo, logo, já que, talvez, eu disse apenas talvez, outro capítulo seja postado antes do que você pensa!!!

Postado por David

Folhetim

22 de novembro de 2007 6

Em alguns minutos, mais um empolgante capítulo de… Cris, a Fera!!!

Postado por David, escrevendão na Redação