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Posts de dezembro 2007

O quase gordo e os dois magros mas não muito

30 de dezembro de 2007 11

Arte ZH
Não me recordo do nome de nenhum dos personagens dessa história, mas lembro deles como se os visse agora e aqui, pisando em cima do carpete azul da Redação. Eram meus colegas de aula, os três. Desentenderam-se por alguma razão na hora do intervalo, dois contra um. O um era grande, quase gordo. Os dois, pequenos e magros, mas não muito. Os dois magros mas não muito é que pediram briga.

— Vamos te pegar lá fora! — arrostavam para o quase gordo, em meio a aula sobre a fórmula de Báskara, menos bê mais ou menos raiz quadrada de bê ao quadrado menos quatro a cê sobre dois a.

O quase gordo não respondia.
— Ele vai levar um pau! Vamos quebrar a cara dele! — ameaçavam.

O quase gordo, nada.

Eram debochados, os dois magros mas não muito, eram insolentes. Ficaram provocando o quase gordo até que a sineta bateu, que naquela época a sineta batia nas escolas. Na saída, o colégio inteiro estava mobilizado para ver a luta. Os dois magros mas não muito caminhavam na frente, gabando-se, jurando o quase gordo, iam transformá-lo em patê, iam fazer a cara dele virar xis-bacon, ninguém saberia a diferença entre o quase gordo e um prato de mondongo, depois da surra que lhe aplicariam, e talicoisa. O quase gordo, mudo, olhando para o bico branco da Conga, arrastando sua melancolia, como diria o Professor Ruy.

O grupo, enfim, chegou a um barranco ao lado do muro que circundava a escola. O quase gordo sentou-se na grama e abraçou os joelhos, sempre mirando o solo, chateado. Os dois magros mas não muito ficaram saltitando em volta, rindo e caçoando, chamando o quase gordo de verdadeiro gordo, de banha, de pança, de baleio, de poltrão, diziam que a mãe dele militava em rendez-vous, que o pai dele não tinha caminhão, essas coisas. O quase gordo cabisbaixo, sem reagir.

Para quem queria ver briga, para quem estava lá pelo espetáculo, era frustrante. Todos em volta começaram a açular o quase gordo, a chamá-lo de covarde, covarde, co-var-de! Um dos magros mas não muito parou diante dele, fincou as mãos na cintura e, olhando para baixo, comentou, entre risos:

— Ele não luta porque são dois contra um. Ele tem medo de nós dois.

Então, o quase gordo finalmente levantou o queixo e olhou para cima, afastou os braços das pernas e, apoiando as mãos na grama, ergueu o corpanzil, murmurando:

— Nem de dois, nem de três.

E a ação começou.

Testemunhei, nos minutos seguintes, uma breve porém eloqüente demonstração da arte do pugilato. O quase gordo tinha os braços mais compridos que os dois magros mas não muito. Graças a isso, mantinha-os a uma distância segura. Eles não podiam se aproximar, senão se transformavam em alvos dos punhos de pedra do quase gordo. Mas, se não se aproximassem, como atingi-lo? Mais: o quase gordo era surpreendentemente ágil para o seu tamanho. Ficava dançando em volta dos dois adversários, pulando de um lado para outro. Quando um se punha ao seu alcance, ele, SOC!, desferia-lhe um murro certeiro. Aí o outro tentava socorrer o amigo e o quase gordo, POW!, mandava mais uma bomba. Em três ou quatro minutos de violência concentrada, sistemática, calculada e feroz, o quase gordo desmontou os dois magros mas não muito peça por peça, como se estivesse exercendo uma atividade profissional, uma tarefa de escritório. Foi isso que me impressionou: a serenidade assassina do quase gordo. Sua técnica de espancamento. A violência transformada em instrumento de ação. A partir daí, passei a me interessar pelo boxe.

Corta.

Em meados deste ano que se escoa, o já saudoso 2007, fui assistir às lutas de boxe no Pan do Rio. Lá estavam os cubanos, exímios pugilistas, e lá estava o Minotouro, irmão do Minotauro, primo irmão do Minotiuro, gêmeos campeões de vale-tudo no Japão. Parecia uma competição animada. Qual o quê!, como diria Chico Buarque. Como é que chamam aquilo de luta? Boxe olímpico, francamente! E nem falo por causa do elmo protetor que os pugilistas usam. Até porque não será o sangue espirrando que haverá de tornar mais atrativo o jogo. Só que, no boxe olímpico, o nocaute está praticamente proibido. Quando um lutador começa a castigar o outro com mais eficácia, o árbitro logo os separa. A vitória é concedida por pontos marcados eletronicamente.

Sem o nocaute, o boxe olímpico torna-se uma competição emasculada. Porque o nocaute é a essência do boxe. O nocaute é o verdadeiro objetivo do boxe. Uma luta sem nocaute, sem o adversário batido cabalmente, inapelavelmente, é como um campeonato de futebol sem decisão. Mas quem admitiria um campeonato de futebol sem decisão? Quem???


*Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora

Postado por David

Túnel do tempo 8

28 de dezembro de 2007 14


Quem pediu essa crônica*, muito propícia, aliás, para esse princípio de verão, quem pediu foi o Henry, leitor de Viamão.


Ela foi experimentar um biquíni

Ela disse que ia só experimentar um biquíni, bem ligeirinho, e entrou na loja. Fiquei na porta, esperando. O que mais poderia fazer, senão ficar na porta, esperando? Suspirei. Olhei para a calçada do outro lado da rua, para me distrair. Um cachorro preto, desses vira-latas, de tamanho médio, dormia enrodilhado em frente a uma padaria fechada. Não havia nada aberto àquela hora, só a loja de biquínis. Voltei-me novamente para dentro da loja.

As atendentes, umas quatro ou cinco, me olhavam lá do fundo. O que estariam pensando? %22Aí está mais um babaca na porta, esperando a namorada escolher biquíni%22. Acho que riam de mim. Só podiam estar rindo. Também, o cara fica mesmo com jeito de abobado esperando alguém numa porta de loja. Tinha apoiado o peso do corpo no pé direito; troquei para o esquerdo. O cachorro preto do outro lado da rua acordou, piscou uma ou duas vezes, mas não fez menção de se levantar.

A namorada havia sumido. Devia estar no provador. Quanto tempo uma mulher leva para experimentar um ou dois biquínis? Um biquíni é tão pequeno… Tirar os chinelos é rápido, zupt, zupt, dois segundos. As calças? Basta baixar o zíper, abrir um botão, arriar uma perna, depois outra. Digamos, cinco segundos. Mais a blusa, puxada pela cabeça, acomodada com critério no gancho da parede, outros cinco segundos. Total: 17 segundos.

Mas deixemos por 20. Trinta, até. Outros 30 para experimentar um biquíni, 30 se mirando no espelho, mais 30 para outro biquíni e 30 se admirando de novo. Operação completa, contando que ela precisa vestir as calças e a blusa de novo, uns quatro minutos. Arredondando, cinco. É bastante, cinco. Tudo bem, as mulheres são demoradas mesmo, cinco é razoável.

Mas já se haviam passado cinco minutos, quem sabe oito ou nove, o cachorro se erguera preguiçosamente e farejava o ar sem grande interesse. Juntei as mãos às costas num gesto que, lembro, meu avô repetia muito. Depois cruzei os braços diante do peito. Levei as mãos à cintura. Cocei a cabeça. Suspirei outra vez.

Ouvi risadas femininas. Ah, mas aquelas gurias da loja estavam tirando o maior sarro de mim, isso era certo. Muito engraçado, de fato, um imbecil parado na frente de uma loja, sem fazer nada, só observando um cachorro preto na calçada. Aliás, onde é que estava o maldito cachorro preto? Como conseguira sumir tão rapidamente? Bom, talvez não tivesse sido tão rápido — eu devia estar há uns 20 minutos ali. Não queria mais olhar lá para dentro, para aquelas atendentes debochadas, e agora o cachorro se fora. Oh, Cristo.

Ah, salvação: uma mosca acabara de pousar na vidraça da vitrine. Uma mosca gorda, dessas de verão, lerdas. São alvos fáceis, essas moscas obesas de verão, ainda mais se pousam em vidraças. Por que as moscas engordam no verão? Nós humanos engordamos no inverno. Feijoada e tal. Tive ganas de esmagá-la, mas não tinha nada à mão, um jornal, nada.

Um jornal viria a calhar, mesmo de anteontem. Para ler algo. Até a lista telefônica seria bem-vinda naquele momento de tédio absoluto, de minutos pastosos e angustiantes, como se estivesse afundando na areia movediça. Deixei a mosca ali, passeando pelo vidro. A namorada não saía do provador. Quanto tempo? Trinta e cinco minutos? Quarenta? Não era possível que demorasse tanto assim para experimentar um biquinizinho minúsculo.

Foi me dando uma irritação. Uma irritação, uma irritação, uma irritação.

Uma irritação.

Li em algum lugar que, se você está sozinho e se aborrece, então você não é boa companhia nem para você mesmo. Provavelmente sou uma péssima companhia, porque estava mortalmente chateado de estar comigo mesmo. Como eu estava me chateando a mim próprio, Jesus. Por que eu tinha de estar naquele lugar, onde o tempo não passava, onde nada acontecia, onde tudo parou? Quanto tempo fiquei ali? Pareceram horas. Quando ela finalmente surgiu, suspirei de alívio. Era como se eu estivesse saindo do presídio. Mas, para minha surpresa, ela veio de mãos vazias.

— E o biquíni? — perguntei, aflito.

E ela, indo-se da loja:
— Não gostei de nada. Vou procurar outra loja, para ver se encontro algo melhor.

Agora compreendo a angústia do torcedor da Dupla Gre-Nal, esperando contratações que não chegam jamais.


*Texto publicado em 14/12/2005, em Zero Hora

Postado por David

Certa noite de chuva

28 de dezembro de 2007 46

Chovia muito no último dia em que vi meu pai. Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas.

Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses. Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão. Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

- Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir.

Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

- Vou comprar dois de cada! – recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias. Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar. Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial. Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos. Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal. Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda. Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora

Postado por David

Mais da modelo

27 de dezembro de 2007 9


Leitorinhos, aí vai mais uma foto da modelo de um futuro folhetim, essa moça que trabalha aqui na Redação de Zero Hora, para vosso deleite no fim de 2007.

E as leitorinhas candidatas a modelo podem mandar suas fotos também. Para o imeil do blog, com uma foto da carteira de identidade junto.



Foto: Júlio Cordeiro

Postado por David

Concurso bimbalhante - parte 2

27 de dezembro de 2007 38

Reprodução


O grande vencedor do livro O Mundo é uma Bola é… JORGE BAUER, com a brilhante frase %22O Natal é um pouco igual a um dia no escritório. Você faz todo o trabalho e um gordo com uma roupa especial adquire todo o crédito.%22

Pode vir à Redação de ZH que o livro estará na portaria, a sua espera.

E agora vamos para o próximo concurso. Um A História dos Grenais para quem descobrir por que, afinal, tem abacaxi em todas as ceias de fim de ano. Textinhos concorrentes nos comentários desse post!

Postado por David

Concurso bimbalhante

26 de dezembro de 2007 62

Reprodução

 

 

Vamos distribuir presentes aos leitorinhos, nessa época de sinos bimbalhantes. Mas não será tão facinho quanto vocês pensam e querem, biltres! Façamos um pequeno e estimulante concurso.

O primeiro prêmio é um livro de crônicas com autores do Brasil inteiro. Os melhores autores! Prestem atenção no time que a Editora Ática reuniu.

Mas prestem atenção mesmo:




 

Armando Nogueira,
Carlos Drummond de Andrade,
Fernando Sabino,
José Roberto Torero,
Lourenço Diaféria,
Luis Fernando Verissimo,
Millôr Fernandes,
Moacyr Scliar,
Paulo Mendes Campos,
Rachel de Queiroz,
Rubem Braga,
Stanislaw Ponte Preta e…
e…
e…
David Coimbra, modestamente.


O título do livro é O Mundo é uma Bola. Subtítulo: Crônicas, futebol e humor.

Foi lançado no ano passado, a propósito da Copa do Mundo. Não é muito conhecido porque pouco circula por livrarias, fica restrito às escolas.

Pois bem, o leitorinho que enviar a melhor frase exatamente sobre esse tempo de sinos bimbalhantes, ganhará o livro. As frases poderão ser mandadas pelos comentários deste post. Certo? Então, como diria Onã: mãos à obra!!!

Postado por David

O bar em que as mulheres vão

26 de dezembro de 2007 6

Arte ZH
As mulheres de Porto Alegre, não quaisquer mulheres, mas as donas das canelas mais lisas, dos cotovelos mais macios, as mulheres com hálito de chocolate branco, essas mulheres eram as que iam no Água na Boca, no fremir dos anos 80. Essa qualidade de mulheres é dotada de uma característica tão espantosa quanto inexplicável – elas se movimentam em grupo, como se fizessem parte de um mesmo e imenso cardume. Um dia, por alguma razão, elas decidem adotar um bar. Então, todas vão àquele bar. De uma noite para outra, o lugar é tomado por matilhas de mulheres cheirosas, caminhando cheias de confiança dentro de suas minissaias minúsculas, sustentadas por seus tornozelos tenros, debaixo de cabelos ondulantes e olorosos.

Por que razão optaram por aquele bar? Ninguém sabe. Não é pela qualidade da comida, nem do som, nem pelo atendimento, muito menos pelo preço. Elas simplesmente resolveram ir para lá. E vão, aos magotes. São mulheres que não se conhecem, a maioria nunca se viu antes, mas vão todas ao mesmo lugar. Aí aquele bar se torna famoso na cidade. Os homens, claro, também vão para lá, e as outras mulheres, as que não são tão graciosas, nem tão doces, nem tão viçosas, igualmente se achegam, só que em menor número, tímidas, desconfiadas, sem conseguir mesa para sentar.

Por determinado período, aquele bar é o bar. Lá, tudo acontece. Lá, tudo se dá. O bar é comentado, sai no jornal, seu dono ganha muito dinheiro. Então, um dia, as gostosas, porque é isso que são, falemos sem eufemismos, elas são gostosas, então um dia as gostosas mudam de idéia. Trocam de bar. Evadem-se do bar antigo e partem para outro, sem motivo, sem lógica. Cansaram. Deu.

Isso acontece rapidamente. Num fim de semana, estão todas enfeitando um bar. No outro, cadê as florzinhas? Sumiram. Para onde foram? Leva semanas para que se descubra seu novo bar, em outro ponto da cidade. Como se comunicaram? Será por telefone? Será que têm um grupo de imeils de gostosas? Uma comunidade no orkut? Será que publicam algum tipo de anúncio em código nos jornais? Alguém um dia precisa desvendar esse mistério.

Nos anos 80, durante longo tempo, o Água na Boca foi esse bar. O Bar Eleito.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

O rei do bar

26 de dezembro de 2007 17

Nos anos 80, Renato Portaluppi era o rei do Água na Boca. Certo dia, na casa da mãe dele, na Zona Sul, Renato contou-me algumas de suas aventuras noturnas ocorridas, justamente, no palco penumbroso do %22Água%22, como os antigos freqüentadores ainda chamam o bar, entre suspiros. Muitas impublicáveis, claro.

Uma, mais leve, aconteceu com uma loirinha que era uma daquelas loirinhas. Mas era uma loirinha! Meiga, doce, quase diáfana. E com namorado. Loirinhas que tais sempre estão com namorados. Aquela loirinha tinha um namorado grandão e tudo mais, só que não parava de olhar para o Renato. Até que o Renato fez um gesto de cabeça para ela e ela o seguiu para os fundos do bar. Lá, entregaram-se a alguns minutos de travessuras, que acabaram em feroz felação, ao cabo da qual, Renato sussurrou-lhe ao ouvido:

— Agora, quero que tu voltes ao bar e beije teu namorado na boca.

Ela obedeceu.
Renato era o Rei do Água, de fato.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

O Rei do Rio

26 de dezembro de 2007 12

Alguém classificará Renato como um cafajeste. Não é. Trata-se de uma das melhores pessoas dentre as poucas boas pessoas que encontrei no futebol. Belíssimo caráter, um homem leal, em quem se pode confiar. E foi um dos maiores jogadores que já fincaram os cravos da chuteira nas gramas verdes dos campos do Brasil. Renato tinha força, habilidade e velocidade, concluía com precisão, sabia deslocar-se e procurar o espaço certo para o arremate. Mais: ele entendia o jogo. Sabia como proceder diante da adversidade.

Dias atrás, a TV reproduziu uma das grandes partidas das tantas grandes partidas das quais Renato foi, mais do que participante, protagonista. O Fla-Flu decisivo do campeonato carioca de 1995. Ao Flamengo de Romário bastava o empate. O Fluminense de Renato precisava vencer. Durante a semana, os dois haviam se desafiado. Queriam ver quem era o melhor.

Renato venceu. Marcou um gol com o pé esquerdo e outro de barriga, nos 3 a 2 do Flu. Transformou-se de Rei do Água em Rei do Rio. Mas o que queria falar era não dos gols, e sim de um lance específico do jogo. Uma cobrança de falta. Branco, então no Flamengo, estava em fase resplandecente, egresso da conquista do Tetracampeonato do Mundo, nos Estados Unidos. Numa falta cobrada antes dessa a qual me refiro, Branco acertou um pataço no travessão. A falta seguinte era ainda mais próxima, ainda mais perigosa. Branco recuou a fim de tomar distância para o chute. Renato, que estava postado ao lado da barreira, correu e parou a um metro de Branco, entre ele e a bola. Não infringiu a lei. Ficara à distância correta da bola, legalmente falando. Mas irritou Branco de tal forma que o desconcentrou. A cobrança saiu torta, chocha, como nunca saía uma cobrança de Branco.

O repórter que entrevistava Renato perguntou se aquela era uma manha típica de decisão. Renato concordou, e arrematou discorrendo sobre como o jogador diferenciado cresce numa final. E é isso mesmo. A decisão, a final, o jogo de exceção é que dá a verdadeira medida de quem é quem no futebol. Só uma decisão para separar os heróis dos farsantes. Pena que o maior campeonato do Brasil não tenha decisão. Pena que seja um campeonato feito para os farsantes.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Postado por David

Entrevista de emprego

25 de dezembro de 2007 13

Eu estava duro, durango, duralino, eu estava desempregado, e eu estava em São Jerônimo. Havia passado toda a minha vida sem ir a São Jerônimo e agora estava em São Jerônimo, quem diria? Queria trabalhar num jornal de lá, não lembro qual – fui a São Jerônimo para a entrevista de emprego. Fazia calor de levantar fumaça do asfalto. Já no ônibus, um ônibus de linha, lotado, encardido, que parecia ter alguma peça solta, ou várias peças soltas, ou todo ele estava solto, o gênero de ônibus que o meu amigo Jorge Barnabé chamaria de humilhante, pois já no humilhante sentia-me de um jeito estranho. Nem sabia de que jeito me sentia, sabia que era estranho.

Imagino que nem todas as ruas de São Jerônimo sejam empoeiradas, mas as ruas pelas quais andei eram. Muito. A poeira pairava no ar, eu respirava poeira, e a poeira grudava-se no meu corpo e no meu rosto, misturada ao suor, transformando-se numa pasta escura e suja. Quando cheguei ao jornal onde pretendia trabalhar, a secretária, uma loirinha de minissaia beeem curtinha, com umas pernas compridas cruzadas e o pezinho balançante, e um olhar azul completamente desinteressado do mundo, essa loirinha olhou para mim bocejando, perguntou o que eu queria e, quando respondi que era candidato à vaga de repórter, ela fez rá:

- Rá.

Uma risadinha. Por que ela deu aquela risadinha? Não entendi, não entendia nada naquele dia, nem como me sentia, mas, cinco minutos depois, a loirinha apontou para o editor-chefe, sentado três mesas adiante, no fundo da sala, e, passados mais 30 segundos, encontrava-me diante do tal editor-chefe. Bem. Ele me olhou como se compreendesse como me sentia, embora eu mesmo não soubesse direito. Era um sujeito de uns 35 anos, magro, alto, cabelo castanho. Sentava-se displicentemente atrás de uma escrivaninha, fazendo girar a cadeira de rodinhas para a direita, para a esquerda, para a direita, para a esquerda.

- Então, sua idéia é trabalhar aqui, não é? – disse-me, de uma forma entre irônica e agressiva. Não entendi porque ele estava sendo entre irônico e agressivo. Em todo caso, respondi da melhor maneira que me ocorreu:

- É…

- Trabalhar aqui, ahn? – brincava com uma caneta Bic, passando-a de um dedo para outro da mão direita. Escorou-se na cadeira. Levantou uma sobrancelha. E falou em tom ainda mais alto: – Trabalhar aqui! É isso, ahn, rapaz?! Trabalhar aqui! Pois bem! Você sabe o que é isso aqui? Sabe o que é isso aqui???

E agora? Seria uma pergunta retórica? Esperei que concluísse a frase, mas ele não disse mais nada. Ficou me olhando. Provavelmente esperava a resposta. Ouvi a loirinha fazer, lá na frente:

- Rá.

Vacilei. Depois arrisquei:

- Um jornal?

Ele saltou da cadeira:

- Uma redação de jornal, rapaz! Isso aqui é uma redação de jornal! RE-DA-ÇÃO de jornal. E você quer trabalhar aqui: numa redação de jornal!!! É isso, não é??? Uma redação de jornal!!!

Cristo! O que eu deveria responder? Procurei em todos os escaninhos do meu cérebro por algo inteligente a falar. Não encontrei. Nunca encontro, quando procuro essas coisas no meu cérebro. Encompridei o olhar para a loirinha. Ela continuava com as belas pernas cruzadas, o pezinho 36 balançando, observando a cena. Decidi colar uma expressão de inteligência no rosto. É uma expressão de inteligência que tenho aí.

- Uma redação de jornal. Entendo… – balbuciei, sacudindo a cabeça, como se tivesse compreendido alguma importante revelação que ele tivesse feito.

Ele me encarou por alguns segundos, aprumou-se na cadeira e:

- Muito bem! Nós entraremos em contato com você, rapaz! – em seguida, abaixou a cabeça e anotou algo em um pedaço de papel, e ficou lá, anotando. A entrevista havia acabado.

Antes de sair do jornal, ouvi a loirinha dizer:

- Rá.

Saí sem entender exatamente o que havia acontecido. Que conversa era aquela de redação de jornal? Re-da-ção de jornal? Por que ele não me fizera nenhuma pergunta convencional de empregador? O que eu havia dito de errado? E aquela loirinha? Qual era a daquela loirinha? Tinha certeza de que não conseguiria o emprego, como não consegui. Nunca mais voltei a São Jerônimo, não faço idéia de como são suas ruas hoje. E o mais aflitivo: não sabia nem como me sentia. Hoje sei: duro, durango, duralino, desempregado, eu era um Corinthians na segunda divisão. Era isso que eu era: um rebaixado. A gente passa por fases de rebaixamento, na vida. Mas a gente sobe para a primeira, disso o corintiano pode ter certeza: um dia, a gente sobe.

Texto publicado na página 58 da Zero Hora de domingo

Postado por David

Nenês mordidos

25 de dezembro de 2007 5

Os nenês são indefesos, todo mundo sabe que são. Se eles são bem novinhos, tipo quatro meses e pouco, como o meu filhinho, eles não andam, não falam, nem sequer agarrar as coisas direito eles agarram. Eles só ficam lá, deitados, olhando para tudo com seus olhões de bolita, rindo do mundo. Mas eles têm suas defesas. São instrumentos dos quais a Natureza os dotou para que pudessem sobreviver nesse Vale de Lágrimas e levar essa história toda adiante, por alguma razão. Essas defesas são, mais especificamente, duas:

1. Eles choram estridentemente, é impossível ficar indiferente ao choro dos nenês. Quanto menor um ser humano, mais alto ele chora.

2. E eles são bonitinhos.

Aí está. Eles são bonitinhos, redondinhos, os pezinhos dos nenês são como bisnaguinhas Seven Boys, suas barrigas jamais passaram por abdominais, suas bochechas são rosadas e fofas, todos gostam de apertar nenês e, mais, todos gostam de mordê-los. Por isso, ninguém faz mal aos nenês. Impossível fazer mal a uma criatura tão bonitinha, mas tão, que chega a ser apetitosa.

Agora, dias atrás, um amigo disse-me algo que julguei preocupante, a esse respeito.

- A gente olha para um nenezinho e tem vontade de comê-lo a dentadas, não é mesmo? – perguntou-me ele.

E eu, sorrindo, embevecido, lembrando do meu menininho:

- É. Isso mesmo. A gente tem vontade de comê-los a dentadas!

E o meu amigo:

- Depois que eles crescem, a gente se arrepende de não ter feito isso!

Desde então, tenho observado o meu nenê com alguma aflição. Transformar-se-á, aquele anjinho, num demônio adolescente, anguloso, espinhudo, de voz cambiante? Sentirei, daqui a alguns anos, uma vontade homicida de mordê-lo? Não sei. Em todo caso, tenho lhe dado uma mordidinhas, de vez em quando.

Texto publicado no caderno Meu Filho da Zero Hora de segunda-feira

Postado por David

O dia em que Papai Noel morreu

21 de dezembro de 2007 13

HISTÓRIA FALADA

Uma tragédia que traumatizou duas mil criancinhas. Horrorizadas, elas assistiram à agonia do velho.


Assista, mas tente não chorar:

Postado por Rosane

Monstrinhos de celular

21 de dezembro de 2007 43

Numa dessas tardes abrasadoras de fim de ano, tempos atrás, fui palestrar aos alunos da Escola Estadual Cândido de Godói, na zona norte da capital de todos os gaúchos. Já ao entrar, reparei que a escola era muito limpa e bem organizada, tudo em seu lugar, tudo rebrilhando como talheres de hotel.

As professoras levaram-me para um auditório onde 300 adolescentes e seus hormônios formigantes me esperavam. Ou talvez fossem 400. Não duvido que chegassem a 500. Enfim, lá estava eu, de microfone em punho, olhando perplexo para aquele lago de adolescentes que gritavam, pulavam, uivavam e se esganavam com a fúria e a energia de mil bisontes com dor de dente. Como detê-los? Como aquietá-los? Era evidente que eu não conseguiria nem abrir a boca. Lancei um olhar de aflição para os professores, sentados atrás de mim, como se lhes pedisse socorro. Pareciam estranhamente tranqüilos. Pareciam estar acostumados com a situação.

Então, do meio deles ergueu-se uma mulher, que, vim a saber depois, era a diretora Marlise Wienandts. Ela caminhou serenamente até a frente do palco e parou, olhando a assistência. E, sem que emitisse um único som, sem que gesticulasse, sem nem piscar, calou a todos. Em um segundo, ninguém mais falava. Em 10, ela me apresentou. Em meia hora, quedava-me encantado com a atenção, o interesse e a inteligência dos alunos.

Descobri mais tarde que a condução firme dessa diretora transformou a Cândido de Godói em uma espécie de modelo de escola. Uma das professoras, hoje aposentada, falou-me do prazer que sentia em trabalhar lá. Tanto que, quando havia uma tarefa extra a executar, fazia-a na escola mesmo, adiando o momento de voltar para casa.

Naquela tarde, saí do colégio pensando que educadores como a diretora Marlise eram heróis do Brasil. Agora, semana passada, pensei nela outra vez. Por causa da lei que a Assembléia aprovou, proibindo os telefones celulares em salas de aula. Como a diretora Marlise deve estar envergonhada, ao tomar conhecimento dessa lei.

Deve ter concluído, com razão, que a mera cogitação de se votar uma lei que tal é o atestado de incompetência dos professores do Rio Grande do Sul. Se o professor não conquistou autoridade para dizer como o aluno precisa se comportar em sala de aula, que credibilidade terá para convencê-lo da utilidade da Fórmula de Báskara? É esse tipo de professor que vai bater sineta em frente ao Palácio Piratini, pedindo aumento?

A vergonha que essa proposta de lei significa para o magistério só se equivale à que representa para a própria Assembléia Legislativa. Os deputados gaúchos legislando sobre uma norma de sala de aula! Qual será o próximo projeto? A proibição da cola? A regulamentação do espancamento de professores? O estabelecimento das regras do Três-Dentro-Três-Fora que se joga na hora do recreio?

Agora, o opróbrio definitivo recai sobre as famílias gaúchas, estufas de monstrinhos que, hoje, só se comportam em aula sob a sombra dos cassetetes da Brigada, e que, amanhã, estarão desviando, falsificando, forjando, roubando.

São esses os pais gaúchos, e os deputados gaúchos, e os educadores gaúchos. É esse o Rio Grande do Sul.


Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora

Postado por David

Menção honrosa

20 de dezembro de 2007 60

Arquivo pessoal

Para meu regozijo, mencionaram-me honrosamente no Prêmio Ari de Jornalismo, ontem à noite. Divido aqui, com os leitores do Blog, a crônica que me rendeu a distinção.


Nasceu o Bernardo

Você está tranqüilão no seu trabalho, são 22h15min de sexta-feira, você já está pensando nos chopes que hão de vir, está pensando naquelas iscas de lombinho de porco, numa noite aprazível com os amigos na Calçada da Fama, quando toca o telefone e a voz de mulher grita do outro lado da linha:
— Rompeu a bolsa!

WOLFREMBAER!!!, é o que você berra, enquanto joga o telefone para cima e sai correndo, atropelando a mulher da limpeza.

Foi o que aconteceu comigo na sexta, dia 17. Atirei o telefone para cima, dei o grito de wolfrembaer, que é o que a gente deve gritar em momentos que tais, e voei para fora da Redação, passando por cima da Dona Filistéia. Em um minuto estava dentro do carro, zunindo pelas ruas do Menino Deus, entrando na contramão, espalhando azulzinho para tudo que é lado. Em dois minutos, bufava na sala de casa. A Marcinha:
— Já?

Eu:
— BAMO!

Nem carecia tanta pressa, como constatei em seguida. A coisa foi demorada. Quase cinco horas de tentativa de parto normal, contrações e lenta dilatação e eu ali, assistindo, pensando no que todos me dizem: que o nascimento do primeiro filho da gente é a maior emoção do mundo. Mas não sentia emoção nenhuma. O que sentia é que o pai é um inútil nessa situação. A mulher forcejando, os médicos trabalhando e o pai… olhando. Pensei em buscar cafezinho para alguém ou contar alguma piada, mas ninguém queria café e não havia clima para piada, nem para a piada da borracha. Então tentei me encaixar em um canto em que não atrapalhasse. Fiquei ali, quietinho, respirando.

Eles resolveram fazer cesariana. Foi tudo muito rápido. Em cinco minutos, lá estava eu, atrás de um lençol verde, ouvindo o ruído do bisturi cortando a carne, tzif!, tzif! Cristo!

Mais alguns minutos e:
— Aí vem ele! Aí vem ele!

Veio! Só que em silêncio. Não teve aquela coisa de ele ser posto chorando no peito da mãe, a mãe chorando também, aquela cena que a gente vê nos filmes. Levaram-no para outra sala. Fui atrás, filosofando: ué? E lá, naquela sala, envelheci uns cinco anos em cinco minutos. Porque foi esse o tempo que ele levou para respirar: cinco minutos! Que me pareceram meia hora. É normal, disse-me a médica, mas, pô, como é que eu ia saber disso???

Cinco minutos inteiros… E o gurizinho imóvel e azul.

Por toda essa aflição, não senti, na hora do parto, a tal maior emoção. Senti só alívio. Também não senti nenhuma emoção especial nas horas seguintes. Todo mundo indo ver o nenê, o nenê olhando para aquela azáfama com uns olhões arregalados, a pediatra advertindo:
— Ele está agitado. Vai ser uma noite dura.

Eu com medo, muito medo, e assinando alguns cheques. Descobri ser essa a função do pai nesses primeiros dias de vida da criança. Na verdade, duas funções: assinatura de cheques e serviço de encomendas.

— Busca lá um algodão quadradinho e um alquinho?
— Me traz um bauru?
— Aproveita e compra umas revistas.

Eu obedecia. À noite, as piores previsões da médica se cumpriram. O nenê chorava e chorava. Quando não chorava, gritava. Quando não gritava, berrava. Quando não berrava, uivava. Mas o pior era quando urrava. Compreendi que a Natureza é sábia: os nenês têm essa voz estridente para que os pais os ouçam de qualquer lugar em que estejam. E os pais os ouvem, como os ouvem.

O que fazer para acalmá-lo? Nenês de um dia de vida são como torcedores de futebol ou crentes religiosos: não são suscetíveis a argumentos racionais. Nada o convencia a parar. Nem as atenciosas enfermeiras do Mãe de Deus, que são realmente atenciosas. E horas e horas de choro, e eu pensando naquela história da emoção, a grande emoção de ter um filho. Que falácia! Que mentira! Me enganaram!

Às cinco e meia da madrugada, a mãe dele começou a chorar também. Um chorava ali, outro chorava aqui, eu tentando manter a calma, mas já certo de que me haviam engrupido: não existia a tal maior emoção do mundo. Só existia dor.

Então, às cinco e quarenta e cinco, quando tudo parecia perdido, eu o tomei nos braços. Comecei a embalá-lo. E lembrei de uma música do Dorival Caymmi que o Roberto Carlos gravou nos anos 70 e que a Adriana Calcanhoto cantou na abertura do Pan. Uma música que dizia com precisão exatamente o que estava acontecendo. E eu a cantei para o meu menino:

%22É tão tarde, a manhã já vem
Todos dormem, a noite também
Só eu velo por você, meu bem
Dorme, anjo, o boi pega neném
Lá no céu deixam de cantar
Os anjinhos foram se deitar
Mamãezinha precisa descansar
Dorme, anjinho, papai vai lhe ninar:
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega esse menino que tem medo de careta%22.

E ele começou a piscar os olhinhos e começou a se acalmar e me olhando sempre e sempre adormeceu nos meus braços, e nos meus braços dormiu por quatro horas e nessas quatro horas fiquei olhando para ele, tão pequeninho, tão frágil, tão sereno, e aí, aí sim, aí eu senti, senti, senti, senti, cara, aquela emoção.

Postado por David

João Antônio e a sinuca

19 de dezembro de 2007 7

Gilberto Tadday, Banco de Dados
Dois dos melhores contos já escritos na literatura brasileira em todos os tempos são de autoria de João Antônio. Falo de %22Malagueta, Perus e Bacanaço%22 e %22Meninão do Caixote%22. Para quem não leu, só posso dizer o seguinte: que inveja! Gostaria de não tê-los lido, para fazê-lo pela primeira vez.

Conheci João Antônio quando trabalhava na Sulina, nos anos 80. Num próximo post, falarei dele. Antes disso, quero reproduzir aqui um texto dele de sua época como repórter da Revista Realidade. Um texto que escreveu justamente sobre o tema dos dois contos que citei no primeiro parágrafo: o universo do jogo de sinuca.

João Antônio descreve alguns dos tipos que existiam nos salões paulistanos do seu tempo. Ó:


As três armas

O malandro, o malandrinho, o malandreco. Não é apenas inflexão de gíria. São três pesos e valores distintos.

O malandro é bom, o ponta firme, o cobra, o que barbariza, a força, o taco, o muito considerado, o porreta. Em geral autônomo, joga o jogo com o seu dinheiro e se bate com certa dignidade, fala pouco (%22falar muito é pra doutor%22), sua pisada é macia, respeita adversário, e quando fala, sua palavra vale. Capricha no vestir, mas capricha a seu modo, o que significa que é espalhafatoso e que se veste rigidamente dentro do conceito ambiente de elegância: sempre de terno, a cor preta é infalível, abusa dos tecidos brilhantes, chuveiro luzindo num dedo da mão esquerda, mãos manicuradas, sapatos invariavelmente muito polidos, barba feita, os cabelos alinhados.

O seu tipo de vaidade no trajar empata redondamente com o dos investigadores. Não é fácil distinguir o malandro do policial. Vestido, o malandro é um rótulo, reconhecível pela evidência. No joguinho respeita toda a ética. Não desacata o que é de lei, dificilmente discute o preestabelecido em termos de sinuca — paga a estia, gratificação de dez por cento que o ganhador dá ao perdedor, paga todas as despesas da mesa e tem a característica maior de saber fazer parceiro, tratando jeitosamente o perdedor. Trabalha o trouxa, deixando-lhe sempre a ilusão de que haverá, no futuro, uma possibilidade de desforra. Toma-lha o dinheiro e aumenta-lhe o vício.

O malandrinho, falso malandro, se diz professor da manha, do enruste, do desacato e das mil e uma presepadas, habilidades torpes e picardias. No fundo, não passa de um grande cultor de gíria, isto sim. Veste à esportiva, gosta dos sapatos da moda, dispensa gravata e paletó, capricha nos blusões modernos e extravagantes, seu penteado também acompanha o figurino. É chamado menino. Antes do nome: menino José, menino Ponta Grossa, menino Paiçandu… Falando é uma força colorida, pitoresca, um dos valores do nosso folclore urbano, de macios rebolados e gingas jeitosas. Sua fala não confere com os fatos.

Pois é na mesa, com um taco na mão, uma tensão na cabeça e o dinheiro ardendo nas apostas, que se sabe até onde um jogador é bom. E aí, o bichinho se encabula, tropeça, dá-lhe uma onda de azar, fica torcendo com o corpo magro e pedindo com os olhos sombreados para as bolas caírem. Um fabricado. Perde o alegre rebolado e se apresenta como é, na realidade. Um trouxa enfeitado, um verboso que faz coisas bonitas com a gíria e que seria talvez um excelente camelô, se tivesse um objetivo na vida e desenvolvesse uma personalidade. Jamais um jogador.

Ao malandro falta canalhice. Ao malandrinho falta maturidade. Mas o malandreco é o puro, o verdadeiro picardo — é aquele que carrega todas as chaves para tirar friamente, medicamente, as vantagens, e este nome lhe fica bem. Usa pouca gíria, suas roupas são comuns e, às vezes, se veste como otário. Seu sapato não brilha, o corte de cabelo é comum, não manicura as mãos, não tem camisas bonitas, seu paletó é meio cambaio, barba por fazer e, quando fala, diz coisas aparentemente sem intenção.

Ele não é um taco, no que a expressão envolve como demonstração de habilidade, brilhos e proezas, mas é um defensivo excelente e tem a paciência de uma formiga. É o homem que agüenta xingos, pragas, resmungos. Prefere tratar todos por %22senhor%22. Mas é o malandreco o jogador que sai invariavelmente com dinheiro do salão. É frio e calculista no trabalho, todos os seus atos são dissimulados. Às vezes, perde dias e noites seguidas e ilude todo o salão. É que está cevando a turma e, chegado o momento maduro, apresenta a verdadeira força de seu jogo, estraçalhando todos os tacos de um salão, deixando tudo de pernas para o ar e levando o dinheiro. É o malandreco.

O malandro adora jogar. O malandrinho gostaria muito, no fundo da alma, de jogar bem, e isso o realizaria na vida. O malandreco detesta o jogo, sente nojo da mesa, do giz, do taco, da poeira, das caras, das falas. Se não tiver esse ódio será malandreco, mas se o tiver, será um perigo. Nunca se verá tamanha falta de paixão e não haverá ninguém nem nada mais frio na sinuca do que ele.

Malandro, malandrinho ou malandreco, figuras incoerentes do ponto de vista do rendimento de suas malandragens, têm inteira consciência dos fundamentos do joguinho. Um jogador não bebe, um profissional não deve beber nem mesmo café puro, deve manter uma vida sexual bastante ajuizada para que as mãos não tremam na tacada — e isto informa também que, quem se dá ao joguinho como profissão, não pode ser um bom cáften.

Tudo isso, entretanto, não significa que os tacos não tenham suas minas, seus conluios noutros jogos ou que se dediquem, por exemplo, a bater carteiras ou a queimar o pé, vez ou outra, ou seja a tomar um porre. Mas têm perfeita lucidez de que joga bem aquele que conserva vista boa, punho firme e cabeça fresca, livre de preocupações. O jogador ideal seria um frio, bem próximo ao que é, já realizado, o malandreco.

Postado por David