Algumas pessoas bebem hi-fi. Durante algum tempo fui uma delas, admito. Hi-fi. O garçom vai lá, mistura Fanta com vodca, larga uma pedra de gelo no copo, e pronto, dá de beber ao freguês. Repugnante.
Mas não havia opção, na época. Estávamos nos tempos do Plano Cruzado, 1986. Para burlar o congelamento de preços, os empresários faziam desaparecer latas de azeite das prateleiras, bois gordos do campo e, Cristo!, cerveja das geladeiras.
A cerveja tornou-se tão escassa quanto a virtude, os bares só vendiam uma garrafa se, junto com ela, o freguês pedisse uma porção de fritas. Lembro-me das mesas da turma, então: os pratos de batata frita acumulando-se em pilhas de palmo e meio de altura, batatas fritas umas sobre as outras, frias, murchas, pretas, tanta batata frita, mas tanta, que as usávamos como mísseis, atirando-as nos amigos das mesas vizinhas, ou, de preferência, nos inimigos. Caso o cliente não quisesse batata frita, o jeito era pedir hi-fi. Foi assim que ingeri centenas de litros de Fanta, em 1986. Fico pensando como isso pode ter repercutido no meu organismo e, bem, tenho medo.
O fato é que o boicote fez o Plano Cruzado gorar. Mais um plano que adernou, dos tantos urdidos para debelar a inflação. Em 1988, a inflação chegou a 80% ao mês. Os supermercados reajustavam os preços duas vezes ao dia, os salários aumentavam de duas em duas semanas, se você andasse com 10 pilas no bolso, alguém gritava:
- Está louco??? Andar com dinheiro no bolso???
Lugar de dinheiro era no banco, em fundos que rendiam 1% ao dia. Até que surgiu o Plano Real. O Plano Real alcançou o impossível: exterminou a inflação. Hoje, as pessoas não sabem mais como era viver naquele inferno, mas o fato é que, nos anos 80, ninguém acreditava que, um dia, o Brasil pudesse livrar-se de um Mal tão absoluto, tão poderoso, tão diabolicamente flexível. O Plano Real conseguiu tal façanha, algo impensável, algo como o Brasil do século 21 resolver de vez o problema da violência urbana, e fazer isso em dois ou três anos.
Mas o importante, o maior ensinamento do Plano Real é a forma como se construiu sua façanha. O Plano Real foi traçado de acordo com a personalidade do brasileiro. Eis seu grande trunfo. Foi um plano concebido com nuanças psicológicas, com sabedoria e sensibilidade social.
Fosse na Suécia, o Plano Cruzado, com seus fiscais, com a sua Sunab, com o seu viés policialesco, fosse na Suécia o Cruzado teria dado certo. Os suecos aceitariam pacificamente a imposição do congelamento, como aceitaram, por exemplo, uma lei semelhante à nefanda Lei Seca, que alguns ingenuamente propõem para o Rio Grande do Sul. Os suecos aceitariam porque os suecos acreditam no Estado.
Já o Plano Real triunfou por empregar a inteligência, nunca a força. Por imiscuir-se devagar e aos poucos na vida do brasileiro. Primeiro com a URV, que se transformou no indexador único, até que, finalmente, indexou o próprio Real. Assim, no dia em que o Real passou a vigorar, o país inteiro estava sereno e pronto.
Hoje, o Brasil assiste à crise econômica americana de queixo erguido, o Brasil arrosta sua solidez econômica. Mas só porque um dia houve o Plano Real. Só porque, um dia, houve Itamar Franco. Aí está um nome que ninguém cita: Itamar Franco. Um vice obscuro que se alçou ao poder por meio da deposição do presidente eleito, um folclórico, um sujeito esquisito, que usava topete e cortejava foliãs sem calcinha. Esse Itamar Franco meio desasado, sem carisma e sem voto, salvou o Brasil. Por uma única razão: porque compreendeu a alma indulgente, à vezes permissiva e sempre branda do povo brasileiro.
*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.
Postado por David





Entendo que não podemos desprezar o papel do ex-presidente Itamar Franco nesta história, pois afinal de contas, foi no governo dele que foi promovido o Plano Real.
Contudo, as grandes cabeça deste plano foram os economistas Gustavo Franco, Pedro Malan, Winston Fritsch, André Lara Resende e Persio Arida... entre outros. Equipe essa formada com maestria pelo então Ministro da Fazenda FHC, que na minha opinião, foi na frente deste cargo que ele realizou a sua maior contribuição ao país.
O Itamar só estava lá, simplesmente no lugar certo, como o Gabiru. Poderia ser qualquer um... Infelizmente é assim. Quem deveria ser apontado no texto do David não apareceu.
Para quem entende um pouco de economia, na verdade nunca houve inflação REAL de 80% ao mês. Naquela época havia a correção monetária que DESVALORIZAVA a moeda diariamente. Hoje temos inflação REAL pois o câmbio é flutuante. Quem não entende de economia, nunca entenderá isso.
Se hoje tivéssemos inflação REAL de 80% , o país quebraria pois não temos mais o mecanismo da desvalorização diária do dolar.
morreu o itamar?
Nossa, que legal ! excelente texto. Sabe que eu nunca tinha pensado por esse lado, a respeito da Economia ? gostei !
Agora, passa longe dessas químicas gasosas e cheias de corante "naturalmente artificial". Chega dessas orgias da juventude ! Agora você é um pai de família ! Bom fim de semana. Beijãozão.
Duas passagens da economia brasileira são muito fortes na minha memória da infância: a primeira era que, apesar de guardar a mesada, nunca conseguia comprar o objeto de desejo, pois ele sempre dobrava de preço. Ou outro foi o dia de implantação do Plano Real. Estava na casa da minha melhor amiga e me lembro como se fosse hoje. Agora não me pergunte o porquê.
Ótimo texto! Parabéns, é bom pra esquecidos lembrar quem foi Itamar Franco.
Aí David,
Vim morar nos EUA em 90 e portanto já estou aqui fazem 18 anos. Vim pra cá 2 dias antes do Collor ser presidente e me lembro bem da situação do país, com inflação a 80%/mês. Como saí do Brasil, aquele jeito de viver foi o que ficou na minha memória, o engraçado é a maioria das pessoas com quem converso daí nem se lembra mais nisso. A vida continua. Os meus sobrinhos então, nem sabe o que é dinheiro perder o valor. Bom, saudades do Brasil, mas não daqueles dias!
Abraços,
Alex
MUITO BOM TEXTO, DIRIA O SEGUINTE:
"O ITAMAR CRIOU,O FHC CONSEGUIU MANTEVE BEM NO PRIMEIRO MANDATO E ALGUMA FALTA DE INTERESSE NO SEGUNDO E O LULA ESTA MANTENDO EM TODO O SEU GOVERNO(POR ENQUANTO).
O BRASIL REALMENTE ALCANÇOU OUTRO PATAMAR ECONOMICO.
POUCAS PESSOAS TEM A CORAGEM DE FALAR DE QUEM REALMENTE CRIOU O PLANO REAL, OU SEJA, ITAMAR FRANCO, DAQUI A 200 ANOS VÃO FALAR NOS LIVROS DE HISTÓRIA ASSIM: E NO GOVERNO DO ENTÃO PRESIDENTE ITAMAR FRANCO FOI CRIADO...
Gostei David, é assim que se faz o bom jornalismo, sem partidarismo. Sou geração da inflação alta, estupidamente alta, nem gosto de comentar, pois me dá arepios de me lembrar as maquininhas no super, inté dava briga entre o consumidor e o remarcador, tiravamos da mão dêle o produto antes q aplicasse o novo selo. Serve de lembrança p/essa gente do gov. de hoje(pt) que se apresenta como pai do REAL(que não época da criação dele foi até o STF contra). Segue Lulla esse caminho traçado antes.
Olhaí, realmente nunca me ocorreria que o Plano Real é fruto daquela cabeça iluminada e brilhante que é o... Itamar Franco? Meu bom David, tu não acha que tem alguma coisa errada aí, não? Será que tu não tá chorando no túmulo errado?
Lembro-me dos anos 80 e de nefastos planos econômicos. Era criança, mas lembro.
Quando íamos ao supermercado,na época do plano cruzado meu irmão, então um pia de três anos e eu com oito, brincávamos de casinha nas prateleiras vazias do mercado!
Apesar da crise, que nos privou de tomarmos alguns refris, porque eram caríssimos(o que por um lado foi bom, sou uma adulta magra), foi uma ótima época.
O Itamar tinha um grande ministro. FHC. Ele devolveu a estabilidade.
Naquele cargo o FHC usou todo seu brilhantismo, para mais tarde entrar para história como um dos melhores presidentes que o Brasil já teve, apesar de seu governo.
O que seria do Itamar, sem FHC? O que seria do Plano Real, sem Lula? Ao contrário de Fogaça, Lula corrigiu o que estava errado e manteve o que estava bem. Gostei do comentário sobre desvalorização e inflação real. No entanto, o que importa para o consumidor é quanto o seu salário pode pagar no decorrer do mês.
O plano real foi uma revolução que estabilizou a economia do país,criando as bases para o país crescer,e alavancou o PSDB de Fernando Henrique,o ministro do real,que de uma sigla mediana e regionalizada(governava o Ceará com Ciro Gomes) ,transformou-se em um partido forte e respeitado no país,lembro da euforia instalada no país entre 1995-1996,entre os ministros de Itamar estavam entre outros a governadora Yeda Crusius.
BOA REFLEXÃO, É BOM QUE SE REFRESQUE A MEMÓRIA DOAS DESMEMORIADOS QUE SOMENTE CRITICAM OS QUE PASSARAM ANTES DELES, MAS TEMOS QUE TER CUIDADO JA QUE HA QUEM SE QUE POSTAR COMO PAI DA CRIANÇA, E SABEMOS QUE OS INCOMPETENTES QUE NADA SABEM FAZER OU CRITICAM OU SE CREDITAM FATOS QUE NÃO LHES PERTENCEM.
Gostei muito da crônica, bem interessante a reflexão. Também lembro-me das épocas difícieis, pois até as crianças ficavam anciosas com a inflação e a falta de alimentos em tempos de congelamento. Não vi como choro, mas alguém que tem coragem de falar bem de alguma "maestria" na política brasileira.
Arrostando solidez é? Por sorte - e apenas por sorte - o governo americano está lúcido e o FED atuou na hora certa. O resto é tudo "bullshit". Um viva a Fernando Henrique Cardoso! Hurra!