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O pai veterano

28 de janeiro de 2008 19

Alguns amigos meus tornaram-se pais recentemente. Ou tornar-se-ão dentro de poucos dias. Uma epidemia, isso. Um andaço, como se diz na Fronteira.
Um deles queixava-se da mulher:

- Ela só chora!

Apartei:

- Sabe que é que é? É que ela passou nove meses com aquele Alien na barriga, crescendo, alimentando-se, movendo-se, chutando. Durante esses nove meses, ela foi a pessoa mais importante do mundo. Todos perguntavam como ela estava a todo momento, todos queriam saber quando ela ia parir, ela não entrava em fila de banco, ela tinha estacionamento especial no supermercado, ela estava iluminada pela concepção, ela tinha desejos e manias e podia chorar ou se lamentar, que para tudo havia justificativa. Ela era a rainha, nesses nove meses. Aí, arrancaram o Alien de dentro dela. E o que restou? Não foi o vazio, ah, não. Foi uma gosma nojenta, uma mistura de sangue com placenta, com tudo que é tipo de meleca que envolve o nenê, da qual ele se alimenta, e que vai saindo do organismo dela em placas escuras, lentamente, custosamente, talvez até dolorosamente. Ela está toda costurada, toda flácida, toda molenga, toda inchada. Ela tem dobras na cintura e os pés do tamanho de pães de um quarto de quilo. E mais: a mulher, agora, já não tem mais vida própria: ela não pode se afastar do nenê, ela não pode parar para tomar banho ou comer decentemente ou sair com os amigos, porque o nenê mama de duas em duas horas e quando não mama faz cocô e, quando não faz cocô, faz xixi, ou tem dor de barriga, ou dor de ouvido, ou simplesmente não dorme. A mulher pensa: minha vida acabou! E é como se fosse isso mesmo!

Quando terminei minha explanação, meu amigo estava de olhos arregalados, boca aberta, lívido. Engoliu em seco. Gaguejou:

- M-meu Deus!

- Pois é, pois é... - disse eu, professoral.

- Coitada da minha mulher - tornou ele.

E eu:

- Pois é.

- Vou para casa - avisou.

- Vou ver como ela está.

Sorri, enquanto ele se afastava. E pensei, satisfeito: ah, toda a sabedoria acumulada por um velho pai como eu...

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David

Comentários (19)

  • Renatinha Porto diz: 28 de janeiro de 2008

    É David. Algumas mulheres não conseguem ler muito bem nas entrelinhas...poucas não percebem que o que fizestes, e muito bem, foi nos elogiar, pois já que sabes de tudo isso que os acomete (a mim ainda não), mesmo assim, entendes e não foges, não se assusta ao se deparar com essa nossa `fragilidade`. É porque realmente tu és especial e literalmente nos conhece por dentro! Estas parcas mulheres não notam, em sua pseudo-ironia, o companheirismo, o real entendimento da nossa situação.Coitadas! Bjs

  • Carlos diz: 29 de janeiro de 2008

    E eu , aqui, sou vô/pai.Ops, só pai. Há priscas . Casal, 28/26 anitos ! Agora, não é verdade, não, homem sofre,tb! E as cesárias? E as moçoilas,ah,tchê, que têm mordomias mis - maternais/afetivas?
    Acontece muito, hein?
    Modernos tempos !

  • Renatinha Porto diz: 28 de janeiro de 2008

    Esqueci de dizer aí embaixo é que você, na verdade, quis dizer: "Marcinha, mesmo assim te amo e te admiro por ter essa força e aguentar passar por essa situação. Estou aqui do teu lado te entendendo sempre!", não foi por aí, David? Beijocas pros três!

  • Pedro diz: 28 de janeiro de 2008

    Nesse final de semana fui a Curitiba, em visita a meu filho, minha nora e dois netos; Débora, com menos de 30 dias, brindou-me com duas "serestas" que embalaram minha insônia até às 3 da madrugada. No domingo pela manhã, tive ganas de trucidar minha amada nora, quando confessou-me que não resistira à vontade e comera uma "feijoadinha". Onde já se viu tamanho atentado contra uma inocente e angelical netinha? às vezes, David, as jovens mães, inexperientes, causam os pesadelos dos bebês.

  • Ana Maria diz: 28 de janeiro de 2008

    Vc pode ter descrito o q se passou ou se passa com a mãe do seu filho. Seu amigo deve ser muito impressionável. Mas, creia, nem todas as mulheres padecem dos males q vc enumera, quando se tornam mães. Fisicamente, então, só as pobrezinhas ou tolinhas...Quem sabe administrar, pelo menos, uma casa, tira isto de letra e ainda se diverte muito. Seja mais alerta! Ñ é possível q vc só conheça mulheres molengas e relaxadas...

  • gustavo p. da silva diz: 3 de fevereiro de 2008

    Caro David:
    Daqui a poucos dias seremos pai/mãe de primeira viagem. Obrigado por compartilhar conosco a tua profunda experiência no assunto. Confessamos que ficamos um pouco assustados com teus relatos mas sabemos que isso não é nada perto do que virá.
    Esperamos contar com teus conselhos e experiência.

    Gustavo e Adriana

  • Camila diz: 28 de janeiro de 2008

    cara tu eh d+!!!!
    nem minha avó q teve 10 filhos conseguiria descrever tão brilhantemente este momento d transição!!!
    Parabéns...(tua esposa eh muito sortuda d ter do lado um marido compreensivo assim!!!)
    bjos a familia

  • Daiane Vargas diz: 29 de janeiro de 2008

    Que amor David!
    Ahhh que maravilhoso seria se todas as mulheres mães tivessem o privilégio de ter um esposo que compreendesse essa etapa complicada e doce da vida de uma mulher.
    Lindo isso.
    bj

  • Aline diz: 28 de janeiro de 2008

    Querido, amado e idolatrado Davi,

    A descrição de uma puérpera foi perfeita! Algumas ficam com menos pelancas e menos pontos de sutura, é verdade, tato que alguma "mãezinhas" sentiram-se ofendidas. Nada de ofensa... O puerpério, por definição, é um período de 45 dias de "terror" no qual somos juridicamente perdoadas, inclusive pelo assassinato do rebento. Mas, enquanto tivermos do nosso lado um Homem capaz de compreender nossas "pelancas" e depressões, certamente a dupla mãe e filho sai ilesa

  • Gabriela Mazza diz: 28 de janeiro de 2008

    Pois é David, esse é uma pequena mostra da nossa "nada mole vida"! Mas na verdade tudo isso é minúsculo perto daquela sensação de maternidade. A dor de estar costurada some quando a gente olha aquele pezinho igual ao nosso. A barriga de "gelatina" vira nada quando reconhecemos um ar familiar naquele suspiro durante o sono. E aquelas olheiras intermináveis da maratona de dorme-acorda-mama-faz-cocô...ah isso é bem melhor do que esperar ouvir o barulho da chave na porta, daqui a 15 anos!!!

  • SILVIA diz: 28 de janeiro de 2008

    Davi. Meu 2º filho nasceu no dia 16/8/2007, portanto, pertinho do teu Bernardo. O que passaste c a Marcinha eu senti na pele.
    O vazio, a dor, a mescla de sentimentos e sensações, a felicidade incondicional misturada com a sensação da perda da barriga. Depois passa e eu olho com saudade o pós-parto.
    O saldo sempre é positivo.
    A propósito, essa semana darei um bife p o Fernando chupar.
    Um abraço
    Silvia

  • Juliana diz: 29 de janeiro de 2008

    Ah bom.. eu sempre tive medo de ter filho porq sempre pensei exatamente como você descreveu! e todos me dizem.. ah que bobagem, é lindo! agora, lendo seu texto, tenho certeza que sempre estive certa! pensei q fosse a única que pensava assim sem nem ter passado por isso ainda! medo..
    mas o texto está perfeito, como sempre :)

  • Silvia Neto Pinheiro diz: 28 de janeiro de 2008

    Oi David, te acho um cara bacana,que faz comentários com bastante coerência; mas desta vez falando sobre a maternidade e a consepção, te superou na grosseria e frieza, pelo jeito a paternidade não foi legal pra ti.Teu comentário passou a déia de que dar a luz é um ato rotesco,e que acaba com a mulher. Mas é um ato divino, onde a mulher é co-autora de uma obra divina.Merecendo o minimo respeito, pensa um pouco mais antes de escrever bobagem,ou falar coisas tão desagradaveis a um suposto amigo!!!

  • Angela diz: 8 de fevereiro de 2008

    Li hj, dia 8/2 este texto maravilhoso, escrito, publicado no dia 28/01...coincidentemente no dia em que nasceu minha 3ª netinha....
    Tenho 51 anos, 4 filhos, 3 netinhas lindas...Adorei tua maneira de colocar as coisas...claro, cada mulher pode ter diferente reação ao parto, mas percebi a clara intenção de fazer com que os MARIDOS/pais entendam o que se passa com a mulher neste momento. Vou enviar para meus genros(2) e meu filho, o pai da bebe RN.
    Parabéns.

  • Deborah diz: 28 de janeiro de 2008

    Velho, sábio e experiente pai: você tem razão ! mas esqueceu de comentar o quanto é gratificante, delicioso, maravilhoso, divino, sublime (etc etc etc) cuidar do aliensinho mais lindo do mundo, depois que ele sai da nossa barriga. Beijos de uma velha e sábia mãe.

  • roni souza diz: 28 de janeiro de 2008

    caro David, espero que continues relatando as "verdades" que resumem a maravilha de ser "pai" e/ou "mãe". São coisas maravilhosas que tem sem dúvidas suas recompensas mas quando começmos a refletir (coisa tu és mestre em fazer) a coiza vai ficando braba!
    Tenho 53 anos e quatro, isso mesmo quatro filhos, minha experiencia é muito boa, pena que não tenha a tua capacidade litaráia para relatá-la.
    A medida que eles vão crescendo a coisa vai piorando... os problemas mudam de dimensão. sorte!!!

  • Denise Beatriz Fontana Bechuetti diz: 28 de janeiro de 2008

    Parabéns pela tua descrição do pós parto, nem se tu fosses mulher descreverias tão bem. Mas enquanto abrimos a porta do quarto e ele está ali quietinho dormindo ,não é nada! O difícil é quando temos que esperar a balada terminar.

  • Diléa diz: 28 de janeiro de 2008

    Lindo, David!
    Muito bom ler essas tuas palavras.
    Parabéns, pai veterano! E um beijo no Bernardo!

  • Luiz Fernando diz: 28 de janeiro de 2008

    Putz... o cara é um poço de experiência na função de pai.. Entende tudo de mulher na gravidez, no parto e depois dele.. São dias e dias na lida paterna... Brincadeiras à parte, parabéns pela definição da mulher pós-parto.

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