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Posts de janeiro 2008

Nova promoção!!!

31 de janeiro de 2008 18

Como meus leitorinhos são muito inteligentes, muitos deles não se limitam a ler; escrevem, também.

E bem!

Quase todos os dias recebo textos de leitores pedindo minha avaliação ou simplesmente minha leitura. Certo. Vou fazer mais. Vou escolher os melhores e publicar no blog todas as semanas.

Mandem seus textos, portanto!

Pode ser crônica, conto, poesia, artigo. Mas não pode ser muito longo! Trinta linhas, no máximo. E, se o leitorinho puder, é legal mandar uma fotinho sua também. Mãos à obra!!!

Postado por David, remando, incansável, pensando num chope

Novíssimo Folhetim!!!

31 de janeiro de 2008 4

Dezenas, talvez centenas, não duvido que milhares de leitorinhos estejam ansiosos pelo novo folhetim. Pois bem. Anuncio a todos que, fundo o Tríduo Momesco, uma flamante história estará no ar.

 

E mais! Muito mais!!! Estaão reservadas duas supresas para os queriiidos leitorinhos!!!

Postado por David, trabalhandão na véspera do Carnaval

Os ódios tantos de Graciliano

30 de janeiro de 2008 11

Arte ZH
Graciliano Ramos odiava.

Odiava paisagens. Havia uma janela ao lado de sua mesa de trabalho, em seu apartamento na Tijuca, mas ele a mantinha sempre fechada – antes fosse uma parede nua, antes fosse um cofre.

Odiava sua terra natal.

Aquilo daria um bom golfo — costumava dizer a respeito da Alagoas onde nasceu na última reta do século 19.

Odiava vanguardistas e modernistas. Considerava-os todos uns homossexuais. Que, aliás, odiava, definindo-os como seres %22perversos e repelentes%22. Volta e meia, Graciliano tinha o desprazer de encontrar certo crítico de artes plásticas na Livraria José Olympio, então incrustada na histórica Rua do Ouvidor, Centro do Rio, ponto de poetas, escritores e intelectuais. O crítico, notório homossexual, estendia-lhe a mão, afetuoso e sorridente. Graciliano o cumprimentava e, ato contínuo, corria para o banheiro, a fim de lavar-se até os cotovelos.

— Não sei onde ele andou pegando — justificava.

Stalinista convicto, Graciliano Ramos nutria vigoroso ódio pelos trotskistas, aos quais desprezava tanto quanto aos nazistas. Mas nem nazistas nem trotskistas mereciam-lhe mais ódio do que a figura gramatical do anacoluto, ele que era dono de texto preciso, militarmente correto, a sentença impecável, sujeito, verbo, complemento e ponto; sujeito, verbo, complemento e ponto.

A tudo isso odiava Graciliano Ramos, e nem de Machado de Assis gostava muito. Chamava-o de %22negro metido a inglês%22. Quer dizer: até do ódio racista se alimentava Graciliano Ramos. Tanto lhe preocupava a cor e a raça que, um dia, perguntou ao primo, o antropólogo Artur Ramos, se Heloísa, sua segunda mulher, era branca. Para seu profundo pesar, o antropólogo disse-lhe que ele estava casado com uma mestiça.

Essas histórias todas a respeito de Graciliano Ramos eu as colhi do excelente livro %22As Obras-Primas Que Poucos Leram%22, organizado por Heloísa Seixas. O texto sobre Graciliano foi escrito por outro alagoano, o poeta Lêdo Ivo, imortal da Academia. Lia o artigo e, ao mesmo tempo em que me divertia com a fluidez do texto de Lêdo Ivo, espantava-me com o caráter de Graciliano. Ou com a falta de. Como pode um homem construir uma obra tão importante como a que ele construiu, autor que foi de %22Vidas Secas%22, %22Angústia%22 e %22Memórias do Cárcere%22, intelectual de peso no país, influente, inteligente, como pode um personagem desse quilate ser de tal forma eivado de maldade e preconceito?

Quase duvidava do testemunho de Lêdo Ivo, até que pensei em certos personagens do futebol. São vitoriosos na mesma medida em que são canalhas. Há tantos assim que quase parece ser a canalhice uma condição para se conquistar a vitória. Mas, felizmente, não é desse jeito que funciona. O sucesso pode vir lado a lado com o bom caráter. Pena que nem sempre. Pena que, no futebol, quase nunca.

*Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora.

Postado por David

O oitavo Rei de Roma

30 de janeiro de 2008 5

Temos duas tevês de tela plana, aqui na Editoria de Esportes. Duas tevezonas, dezenas de polegadas, um luxo. Ontem à tarde, numa delas corria o jogo do Roma, noutra o do Borussia. Então, chegou Paulo Roberto Falcão pisando macio dentro de seus sapatos milaneses e, vendo a maioria da Editoria de frente para a tevê em que se esfalfavam os jogadores do Borussia, reclamou:

- Pô, de costas para o meu Roma!

De pronto, o Mario Marcos premeu o botão da ESPM Brasil no controle remoto e o jogo do Roma reluziu nos dois aparelhos.

Falcão estava sendo espontâneo, estava sendo autêntico, quando protestou em favor do seu Roma. O que prova a grande verdade: que o grande profissional tem de ser, antes de tudo, um grande amador.

*Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do tempo

29 de janeiro de 2008 29

Ilustração: Bebel

Recebi esse imeil da Marília Trindade Ferreira, ó:


%22Olá!

Acho hilária aquela crônica do cafajeste*, que está no livro Mulheres. Costumo citar a definição para minhas amigas quando alguma se envolve com um canalha (e isso sempre acontece!).

Seria um serviço de utilidade pública, se fosse colocada no blog.

Um abraço!
Marília%22


Elas preferem os cafajestes

A gaúcha aquela quer casar com o Maníaco do Parque. O cara está preso, condenado a 250 anos de cadeia e, pô, é o Maníaco do Parque, afinal de contas. Estuprou nove mulheres. Matou sete. E mesmo assim consegue namorada! Mais até: ela o chama de Chico.

— Eu sou a mulher do Chico — admitiu, orgulhosa, depois de ter pedido para fazer visita íntima ao Maníaco.

Visita íntima! Chico!

Claro, isso pode ser visto como uma boa notícia: se o Maníaco, que é o Maníaco, arranja mulher, imagina você, que é ajeitadinho e nem matou ninguém.

Mas não se trata disso. O fato é o seguinte: as mulheres preferem os cafajestes. E o Maníaco, puxa, existe grande probabilidade de ele ser encarado como cafajeste.

O cafajeste desperta na mulher dois instintos básicos: o maternal e o da concorrência com as outras mulheres. O maternal porque, para ela, o cafajeste é um moleque arteiro à espera da disciplina corretiva. O da concorrência porque o cafajeste, em tese, tem muitas mulheres. Logo, se uma delas o conquista, supera todas as outras.

Caso o homem não seja cafajeste, caso seja, digamos, um certinho, a mulher o olha com desprezo. Reclama:
— Ele está me sufocando!

Esse é o meu problema, confesso. As mulheres se aproximam de mim achando que sou cafajeste. Depois que passam um tempo comigo, percebem que não, que sou um sujeito decente, que lhes dou atenção, que repudio a traição. Então se decepcionam. Tento parecer cafajeste sempre, mas a correção, a dignidade, até mesmo a pureza que estão impregnadas em minh%27alma, isso tudo é mais forte, acaba se manifestando. As mulheres, então, balançam a cabeça:

— Tsc tsc, e eu que achei que ele fosse canalha de verdade.

Triste.

Mas assim é o mundo, aprenda: se você quer de fato conquistar uma mulher, asfixie a integridade que existe em você. Por mais difícil e repugnante que pareça, disfarce: tente parecer um canalha. É duro, sei, mas vale a pena. Talvez você um dia chegue a ser tão atraente para elas quanto o Maníaco do Parque.


*Texto publicado em 28/11/2003 em Zero Hora

Postado por David

Concurso de verão - RESULTADO

28 de janeiro de 2008 7

Reprodução
Atenção, silêncio agora!

Reunida no 76º andar de uma das 35 torres que abrigam o setor administrativo do Blog, nossa equipe selecionou os cinco melhores textos enviados por cem (eu disse CEM!) leitorinhos.

Árdua tarefa. Pois bem: ganharam exemplares de A História dos Grenais os autores das melhores frases que elogiaram os dois times, Grêmio e Inter, ao mesmo tempo. Podem buscar seus livros na recepção da Redação de Zero Hora.

E os campeões são os seguintes:


%22Mas não basta pra voltar pra Primeira ser forte, aguerrido ou Náutico / Se não for imortal como o Grêmio, continua rebaixado / Mostremos nossa Tríplice Coroa, nosso orgulho Internacional / Sirvam nossas campanhas de modelo a toda Terra, de modelo a toda Terra / Sirvam nossas campanhas de modelo a toda Terra%22

Marcelo Rocha, de Gravataí


%22Porto Alegre, cidade privilegiada, dois campeões do mundo. Um diz que é da Fifa, outro diz que é o primeiro — mas de que importa? O importante é que são dois times guerreiros!%22

Frederico Machado, de Porto Alegre


%22Meu pai nasceu gremista bugre, minha mãe nasceu prenda colorada. Um bom exemplo de que se pode ter paz nas duas arquibancadas.%22

Cristiano Pinheiro Machado, de Porto Alegre


%22Ao lado de um grande clube há sempre um grande rival.%22

Sérgio Augusto da Rosa Montardo, Blumenau (SC)


%22Meu Inter é gigante, é eterno, é por quem nutro amor incondicional. E se ele é grande, bom, é porque vive à sombra de outro. É esta outra máquina de vencer que desafia nosso brio, que nos motiva à peleia — e que nos faz cada dia maior. É bem provável que, não fosse o Grêmio, seríamos um clube pequeno e comum.%22

Mário Bordin, de Porto Alegre


Postado por David

A trágica primeira transa do Amilton Cavalo

28 de janeiro de 2008 7

HISTÓRIA FALADA

Era conhecido como Cavalo por causa do tamanho do seu… do seu, ahn, bem… do seu instrumento, digamos assim.

Quando fez sexo pela primeira vez na vida, a turma inventou que a tal menina tinha gonorréia. Coitado do Amilton…


Assiste aí:

Postado por David

O pai veterano

28 de janeiro de 2008 19

Alguns amigos meus tornaram-se pais recentemente. Ou tornar-se-ão dentro de poucos dias. Uma epidemia, isso. Um andaço, como se diz na Fronteira.
Um deles queixava-se da mulher:

- Ela só chora!

Apartei:

- Sabe que é que é? É que ela passou nove meses com aquele Alien na barriga, crescendo, alimentando-se, movendo-se, chutando. Durante esses nove meses, ela foi a pessoa mais importante do mundo. Todos perguntavam como ela estava a todo momento, todos queriam saber quando ela ia parir, ela não entrava em fila de banco, ela tinha estacionamento especial no supermercado, ela estava iluminada pela concepção, ela tinha desejos e manias e podia chorar ou se lamentar, que para tudo havia justificativa. Ela era a rainha, nesses nove meses. Aí, arrancaram o Alien de dentro dela. E o que restou? Não foi o vazio, ah, não. Foi uma gosma nojenta, uma mistura de sangue com placenta, com tudo que é tipo de meleca que envolve o nenê, da qual ele se alimenta, e que vai saindo do organismo dela em placas escuras, lentamente, custosamente, talvez até dolorosamente. Ela está toda costurada, toda flácida, toda molenga, toda inchada. Ela tem dobras na cintura e os pés do tamanho de pães de um quarto de quilo. E mais: a mulher, agora, já não tem mais vida própria: ela não pode se afastar do nenê, ela não pode parar para tomar banho ou comer decentemente ou sair com os amigos, porque o nenê mama de duas em duas horas e quando não mama faz cocô e, quando não faz cocô, faz xixi, ou tem dor de barriga, ou dor de ouvido, ou simplesmente não dorme. A mulher pensa: minha vida acabou! E é como se fosse isso mesmo!

Quando terminei minha explanação, meu amigo estava de olhos arregalados, boca aberta, lívido. Engoliu em seco. Gaguejou:

- M-meu Deus!

- Pois é, pois é… – disse eu, professoral.

- Coitada da minha mulher – tornou ele.

E eu:

- Pois é.

- Vou para casa – avisou.

- Vou ver como ela está.

Sorri, enquanto ele se afastava. E pensei, satisfeito: ah, toda a sabedoria acumulada por um velho pai como eu…

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David

Uma história de traição

28 de janeiro de 2008 9

Arte ZH
A namorada de um amigo meu, o pezinho dela é número 35. O que é uma sorte para ele, vocês sabem como são as mulheres que calçam 35, ah, claro que vocês sabem…

Trata-se de um homem bem-sucedido, o meu amigo. Ganha um bem fornido salário a cada dia 5, e sabe como usufruí-lo no restante do mês. É dono de gosto requintado, aprecia vinhos finos, fuma charutos olorosos, dirige carros rápidos e mora numa suntuosa cobertura, com piscina, salão de jogos e tevezona de tela plana.

Ocorre que, não faz muito, ele resolveu reformar a cobertura. Em meio às obras, aconteceu de o meu amigo envolver-se com outra mulher que não sua namorada de pé 35. O pudico leitor, nesse momento, deve estar escandalizado: %22Um adúltero!%22 Sim, também me escandalizei, ao saber da história, e o admoestei severamente, mas, que fazer?, há pessoas assim no mundo…

Desta forma, mesmo sem minha aprovação, meu amigo conduziu a moça para sua cobertura e… oh!, fez amor com ela. Horas depois de o ato lascivo ter sido consumado, porém, a namorada traída foi visitá-lo. A Outra já tinha ido embora, não restavam nem os eflúvios do pecado, meu amigo sentia-se seguro, ao recebê-la. No entanto, a namorada chegou, entrou na cobertura e, antes mesmo de dizer oi, benzinho, berrou:

- Mas o que é que é isso???

- Isso o quê? – quis saber meu amigo, já olhando para os lados, temendo ter deixado alguma prova à vista.

- Pegadas! – exclamou a namorada.

- Pegadas???

Pegadas, de fato. A Outra havia deixado pegadas no pó gerado pelas obras de reforma do apartamento e a namorada, uma autêntica discípula do detetive Columbo, descobriu. Meu amigo, aflito, tentou a saída clássica:

- Ora, Tiutiuquinha, essas pegadas são tuas!

Ao que ela lhe desferiu a estocada fatal:

- Não são! Essas pegadas são de alguém que tem o pé menor do que o meu!!!

E, realmente, a Outra tinha pé ainda menor do que o da namorada. A Outra, pequeninha, jeitosinha, de nádegas empinadinhas e seios… bem, o que interessa é que a Outra calçava 33.

Meu amigo alarmou-se ao constatar que a namorada estava com a razão, que as pegadas da Outra eram mesmo uma coisinha delicadinha e pequeninha e… enfim, ele ficou nervoso. Mas reagiu rapidamente. A namorada já rosnava de fúria, já parecia pronta para tomar alguma atitude violenta, quando meu amigo, sem perder o sangue frio, fazendo luzir um sorriso plácido sob o nariz adunco, explicou:

- Aaaah, Tiutiuquinha, isso é coisa do anão.

A namorada piscou, perplexa:

- Anão?

- É – confirmou ele. – Foi o anão.

- Que anão???

- Simples, Tiutiuquinha, simples: é que a empresa que está fazendo essa reforma no meu apartamento é muito profissional…

- E o que é que tem isso???

- Já explico. Olha ali em cima. Aquele andaime.

Ela olhou.

- É preciso fazer obras naquele vão – prosseguiu meu imaginoso amigo. – E, como você está vendo, o espaço é muito pequeno! Então, eles têm um anão para fazer esse tipo de serviço. E foi isso: o anão veio aqui, subiu no andaime e fez o trabalho que só um anão poderia fazer!

A namorada ficou olhando-o, boquiaberta. E acreditou!

Eu cá tenho uma explicação para a credulidade dela. Deu-se graças à criatividade dele. Uma justificativa assim colorida comove o ouvinte, mesmo que seja inverossímil, ou até por isso. Ao contrário das justificativas dos treinadores para as más atuações dos seus times. Abel, por exemplo, atirou a responsabilidade pelo fraco desempenho do Inter contra o Veranópolis no vento. Que desculpinha! Ninguém levou a sério. Melhor seria se Abel tivesse culpado o anão. Eu, a partir de agora, sempre vou colocar a culpa no anão!

*Texto publicado ontem na página 51 de Zero Hora.

Postado por David

As línguas de Guimarães

28 de janeiro de 2008 0

Uma vez, há muito, muito tempo, Guimarães Rosa foi dar uma entrevista e, ao discorrer sobre as línguas que dominava, disse:

%22Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo. Leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado). Entendo alguns dialetos alemães. Estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês. Bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal.%22

Um cara, para fazer tudo isso que Guimarães Rosa fazia, evidentemente não pode ver TV nem se dedicar muito às mulheres, que são atividades que demandam tempo. E, o mais importante, não haverá de depender só do esforço. Não. Talento é indispensável. Vocação. Já contei, por exemplo, a história de uma senhora aqui de Porto Alegre mesmo, que, ao completar 60 anos de idade, suspirou:

- Como é bom completar sessenta anos! Agora não preciso mais fazer inglês nem sexo!

É que, realmente, para fazer inglês e sexo é necessário algum esforço, e essa senhora deve ser uma vítima da preguiça. E da genética. Sem propensão, qualquer atividade fica mais difícil. É o que digo a respeito de atacantes. Só com esforço, atacante nenhum prospera. Há que se ter talento, nem que seja para empurrar a bola para baixo da trave, e nada mais. Prestem atenção, dirigentes: zagueiro se faz com treino e suor; atacante, não!

*Texto publicado ontem na página 51 da Zero Hora.

Postado por David

Túnel do tempo again

25 de janeiro de 2008 10

Adriana Franciosi

O Eduardo Nunes, aqui do jornal, quando descobriu a seção %22Túnel do tempo%22 ficou eufórico:
— Bota aquela do ex-gordo*, bota aquela do ex-gordo!

Tá bom, Eduardo, tá bom.


Os magros mentem

Esse é um tempo de magros. Dias atrás, encontrei o meu amigo Leo Gerchmann na cerimônia de entrega do Prêmio ARI de reportagem. A cônjuge dele, a talentosa Dione Kuhn, foi duplamente premiada: recebeu o ARI pela sua matéria sobre os 40 anos da Campanha da Legalidade e… está grávida! O Leo vai ser pai. O que significa que serei tio. Cumprimentei o Leo, taptap, e de repente lhe disse:

— Pô, tu está mais magro.

O rosto do Leo resplandeceu como se ele tivesse uma lanterna pendurada no queixo. Sorriu seu melhor sorriso, um sorriso de 28 dentes. Baixou os olhos para a barriga e a apalpou.

— Acha mesmo? — perguntou-me, incrédulo.

Eu:
— Acho, ué.

O Leo inflou o peito:
— Muito obrigado!

Obrigado, agora vê. Digo para um sujeito que ele está magro e ele me agradece. Ou seja: magreza é elogio. Quer agradar alguém? Diga:
— Você é uma pessoa magra.

Quer conquistar uma mulher?
— Para mim, você é a pessoa mais magra desse mundo. Nunca existiu uma pessoa tão magra como você, na minha vida.

Quer lhe dar votos de bom Ano-Novo?
— Desejo muita magreza para você em 2002.

Não era assim, antes. Minha avó vivia comentando:
— Encontrei o Tibúrcio, ontem. Está gooordo, boniiito. — Desse jeito, com três ós e três is. Eu podia imaginar o Tibúrcio, redondinho, vermelho e sorridente, a prosperidade de calça de tergal e suspensórios.

Só que tem o seguinte: os magros mentem. Não todos os magros, verdade, mas os ex-gordos. Você pecha com um amigo que era gordo, e se surpreende — o cara está que é só pelanca, de tão magricela. Espanto:
— Nooossa, que regimão, ahn? O que você deixou de comer?

Aí, sabe o que ele diz? Que come de tudo! Jura que não deixou de comer nem carnes, nem doces, nem massas, nem mesmo torféis cremosos por fora e crocantes por dentro, como os que tem no Lilliput.

— É que tenho feito muito exercício — se exibe o ex-gordo.

CONVERSA! O ex-gordo está sofrendo, está passando a alface e chicória e água mineral. Sem gás. Pobre ex-gordo, tudo o que ele queria era um medalhão de picanha gorda, uma panela de feijoada, uma barra de chocolate, um bombom com licor, um quindão, que ex-gordo adora doce.

Por que, então, ele mente? Deixa que respondo: por vergonha. O ex-gordo tem vergonha do preço que paga para satisfazer a própria vaidade. A vaidade só é explícita quando é barata.

Compreendeu? É por isso que os jogadores de futebol pintam cabelo, fazem bronzeamento artificial, usam gargantilha. Compreendeu? Vaidade. Mas vaidade barata.


*Texto publicado em 22/12/2001 em Zero Hora

Postado por David

O salvador do Brasil

25 de janeiro de 2008 18

Algumas pessoas bebem hi-fi. Durante algum tempo fui uma delas, admito. Hi-fi. O garçom vai lá, mistura Fanta com vodca, larga uma pedra de gelo no copo, e pronto, dá de beber ao freguês. Repugnante.

Mas não havia opção, na época. Estávamos nos tempos do Plano Cruzado, 1986. Para burlar o congelamento de preços, os empresários faziam desaparecer latas de azeite das prateleiras, bois gordos do campo e, Cristo!, cerveja das geladeiras.

A cerveja tornou-se tão escassa quanto a virtude, os bares só vendiam uma garrafa se, junto com ela, o freguês pedisse uma porção de fritas. Lembro-me das mesas da turma, então: os pratos de batata frita acumulando-se em pilhas de palmo e meio de altura, batatas fritas umas sobre as outras, frias, murchas, pretas, tanta batata frita, mas tanta, que as usávamos como mísseis, atirando-as nos amigos das mesas vizinhas, ou, de preferência, nos inimigos. Caso o cliente não quisesse batata frita, o jeito era pedir hi-fi. Foi assim que ingeri centenas de litros de Fanta, em 1986. Fico pensando como isso pode ter repercutido no meu organismo e, bem, tenho medo.

O fato é que o boicote fez o Plano Cruzado gorar. Mais um plano que adernou, dos tantos urdidos para debelar a inflação. Em 1988, a inflação chegou a 80% ao mês. Os supermercados reajustavam os preços duas vezes ao dia, os salários aumentavam de duas em duas semanas, se você andasse com 10 pilas no bolso, alguém gritava:

- Está louco??? Andar com dinheiro no bolso???

Lugar de dinheiro era no banco, em fundos que rendiam 1% ao dia. Até que surgiu o Plano Real. O Plano Real alcançou o impossível: exterminou a inflação. Hoje, as pessoas não sabem mais como era viver naquele inferno, mas o fato é que, nos anos 80, ninguém acreditava que, um dia, o Brasil pudesse livrar-se de um Mal tão absoluto, tão poderoso, tão diabolicamente flexível. O Plano Real conseguiu tal façanha, algo impensável, algo como o Brasil do século 21 resolver de vez o problema da violência urbana, e fazer isso em dois ou três anos.

Mas o importante, o maior ensinamento do Plano Real é a forma como se construiu sua façanha. O Plano Real foi traçado de acordo com a personalidade do brasileiro. Eis seu grande trunfo. Foi um plano concebido com nuanças psicológicas, com sabedoria e sensibilidade social.

Fosse na Suécia, o Plano Cruzado, com seus fiscais, com a sua Sunab, com o seu viés policialesco, fosse na Suécia o Cruzado teria dado certo. Os suecos aceitariam pacificamente a imposição do congelamento, como aceitaram, por exemplo, uma lei semelhante à nefanda Lei Seca, que alguns ingenuamente propõem para o Rio Grande do Sul. Os suecos aceitariam porque os suecos acreditam no Estado.

o Plano Real triunfou por empregar a inteligência, nunca a força. Por imiscuir-se devagar e aos poucos na vida do brasileiro. Primeiro com a URV, que se transformou no indexador único, até que, finalmente, indexou o próprio Real. Assim, no dia em que o Real passou a vigorar, o país inteiro estava sereno e pronto.

Hoje, o Brasil assiste à crise econômica americana de queixo erguido, o Brasil arrosta sua solidez econômica. Mas só porque um dia houve o Plano Real. Só porque, um dia, houve Itamar Franco. Aí está um nome que ninguém cita: Itamar Franco. Um vice obscuro que se alçou ao poder por meio da deposição do presidente eleito, um folclórico, um sujeito esquisito, que usava topete e cortejava foliãs sem calcinha. Esse Itamar Franco meio desasado, sem carisma e sem voto, salvou o Brasil. Por uma única razão: porque compreendeu a alma indulgente, à vezes permissiva e sempre branda do povo brasileiro.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

NOVO FOLHETIM

24 de janeiro de 2008 5

Leitorinhos: o novo folhetim está em gestação. Logologo, o primeiro capítulo estará saindo-me da ponta dos dedos. O título é… ainda não sei qual será o título.

Aguardem!

Postado por David, escrevendinho ao lado de duas modelos

Concurso de verão

24 de janeiro de 2008 101

Reprodução

 


 

Seguinte: vou radicalizar.

Vou dar não um, nem dois, mas CINCO livros A História dos Grenais para os leitores que escreverem as frases mais criativas que (atenção!) elogiem os dois times, Grêmio e Inter, ao mesmo tempo!!!

Mexam-se!!!

Postado por David

No meio das Farc

23 de janeiro de 2008 8


A pedido dos leitorinhos, publico as matérias e a coluna* que escrevi depois de subir as montanhas dos andes e entrevistar os guerrilheiros das Farc. Esse material ganhou os prêmios ARI e Direitos Humanos de 2001.

A coluna está aí embaixo. As reportagens, nos links no no pé deste post.


Santo Olívio e a guerrilha

O comandante guerrilheiro estava furioso. Fitou-me com os olhos em chispas, apertava o cano da metralhadora com a mão e repetia, aos gritos esganiçados:
— Espiones de la dea!

Aquilo me confundia ainda mais. Tentava raciocinar, consultava o meu arquivo mental das sutilezas da língua espanhola: o que seria %22de la dea%22?

Ele continuava a me acusar de espionagem, cada vez mais agressivo. Os outros guerrilheiros observavam com interesse, esperando o desfecho, cada um com seu fuzil. Então compreendi: o comandante se referia ao DEA, o Departamento Antidrogas dos Estados Unidos.

— Aqui nunca vieram jornalistas, só espiões do DEA! — repetia, berrando.

Nos ferramos, pensei. Esse cara vai nos fuzilar aqui mesmo. Ou, na melhor das hipóteses, nos seqüestrar.

Podia fazer uma coisa ou outra sem dificuldades. Eu, o fotógrafo José Doval e nosso amigo William Loaiza nos encontrávamos num lugar em que nada mais existe a não ser as Farc e os simpatizantes das Farc. Santa Lucia, 4 mil metros Andes acima, é chamada, na Colômbia, de %22O Santuário da Guerrilha%22.

E como havíamos lutado para chegar até lá. No domingo anterior, já tínhamos tentado localizar guerrilheiros. Contatei com o William, que é repórter do El Tiempo em Tuluá, cidadezinha a 100 quilômetros de Cali, e ele, com a típica gentileza colombiana, nos acompanhou o dia inteiro, desde o alvorecer até o fim da tarde, pelos pequenos povoados das montanhas. Falei com muita gente, colhi ótimas histórias, mas não encontrei um guerrilheirinho, sequer.

No dia seguinte, madrugamos de novo para ir a Manizales. Dividimos com a equipe da Gaúcha, a japonesa Kiomi, também jornalista, e o Wellington Campos, da Itatiaia, um microônibus, coisa que em espanhol é chamada por um nome impublicável no Brasil. Como explicarei, para não afetar suscetibilidades? Bem, você sabe que ônibus, na língua de Cervantes, se pronuncia %22buce%22. Logo, um ônibus pequeno é… Isso mesmo: vagina.

Pois entramos na vagina logo de madrugada e não paramos de fazer trocadilhos. Que aquela vagina estava suja, que era apertada demais, que estava com um cheiro azedo, que não agüentávamos mais ficar dentro da vagina. Assim por diante. Até que uma hora o Wellington percebeu que o nosso motorista colombiano ficara chateado: que tanto os brasileiros reclamavam da sua vagina?

O Marco Antônio Pereira contava piadas que nos faziam soluçar de rir, o Sérgio Guimarães obrigou a Kiomi a falar em japonês o nome de todos os órgãos genitais possíveis e até alguns impossíveis, o que ela fez obedientemente, mas rubra de timidez oriental. Estávamos contentes, prontos para conhecer uma nova cidade e ver outra bela vitória do Brasil.

CORTA!

A volta foi algo melancólica. Paramos num restaurante para comer um bife e beber uma cachaça colombiana, subimos de novo na vagina e passamos a reclamar amargamente da Seleção. Só paramos quando a Kiomi começou a cantar suavemente em japonês. Oh, aquilo nos amoleceu a alma. A música japonesa é uma carícia.

Ida e volta na vagina, foram 24 horas. Extenuante, mas eu ainda não tinha o meu guerrilheiro. Tomei um banho, dormi uma hora, chamei o Doval e fomos outra vez para a Cordilheira Central dos Andes.

Começamos a subir. Não por uma estrada, mas por um caminho de areia e pedra escavado na montanha, um paredão vertical de um lado, o abismo negro do outro, a selva fechada em volta. Fomos cruzando pelos lugarejos assolados pela guerra, falando com pessoas, reunindo histórias, mas sem encontrar os guerrilheiros.

Naquela selva, cerca de 400 corpos estão enterrados, vítimas da guerra da Colômbia. Olhávamos em volta, desconfiados, continuávamos a subir, e nada da guerrilha.

À noite, depois de 10 horas de viagem, chegamos a um lugarejo chamado Barragán, um ermo amedrontado pelos guerrilheiros e pelos paramilitares. Em Barragán, a guerrilha determinou toque de recolher — depois das 18h, ninguém sai às ruas. Estávamos a 3.300 metros de altitude, tínhamos passado por 15 montanhas, e ainda sem guerrilheiros.

Era preciso ir a um último povoado, Santa Lucia. Vamos?! Fomos. Tocamos o carro pela montanha, mas, no meio do caminho, havia uma pedra. Ou várias. O tanque de gasolina furou. Olhamos sob o carro, à luz da lanterna, e vimos a gasolina chover do tanque. Era imperioso voltar já. Ou ficaríamos perdidos no meio da montanha, no escuro absoluto, no frio, sujeitos sabe lá a que perigos. Despencamos morro abaixo. Mirávamos o mostrador de gasolina, que batia no fundo, e para frente, até onde os faróis iluminavam, ansiosos para divisar o povoado e a salvação.

Parece coisa de filme. No primeiro metro do lugarejo, o carro morreu. Juan Carlos, o nosso motorista, suspirou:
— Diós mio!

O Doval soltou um palavrão.

Só que em Barragán não existe mecânico, nem solda, nem gasolina, nem lugar onde um forasteiro possa passar a noite. Batíamos nas casas, pedindo ajuda. Os moradores não abriam as portas ou, se as abriam, mal falavam conosco, assustados que estão com a guerra. Até que lembrei da Santa Madre Igreja Católica. Conseguimos alguns catres e passamos a noite fria pensando no que estaria reservado para nós. Ninguém dormiu direito. De madrugada, eu, o Doval e o William nos empoleiramos num caminhão de leite e tocamos para Santa Lucia. Queríamos os guerrilheiros.

Achamos.

E agora o comandante nos acusava ferozmente de sermos espiões, gritando e apertando o cano da maldita metralhadora. Que fazer? Arrisquei um lance. Engatei meu espanhol e mandei ver:

— Comandante, eu venho de um Estado que é governado pelo Partido dos Trabalhadores, um partido de esquerda no Brasil. Em setembro do ano passado, o meu governador recebeu um representante das Farc, e este representante foi tratado como chefe de Estado. Como embaixador. Desde então, o povo do meu Estado passou a se interessar muito pela situação da Colômbia, da qual ninguém sabia nada. Por isso estou aqui, para contar o que acontece com o povo da Colômbia.

Encerrei o discurso de fronte erguida. O comandante olhou nos meus olhos. Largou a metralhadora. Apoiou o cotovelo na porta da caminhonete. Disse:
— O que você quer perguntar?

Olhei para o céu sobre os Andes. Roguei: bendito seja, Santo Olívio Dutra. Na volta ainda tivemos mais confusões, mas eu tinha meus guerrilheiros. Leia amanhã (abaixo, nos quatro links sob este texto) o resultado dessa história toda, por favor. Deu um trabalhão pra fazer.


*Texto publicado em 28/07/2001

Reportagem sobre as Farc – parte 2

Reportagem sobre as Farc – parte 3

Reportagem sobre as Farc – parte 1

Reportagem sobre as Farc – parte 4

Postado por David