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Posts de fevereiro 2008

A sogra do Haroldinho - parte II

29 de fevereiro de 2008 12

Ilustração: Bebel

Para o Túnel do Tempo, ainda atendendo ao pedido da Maria Lúcia Pires, de Porto Alegre, aí vai o segundo capítulo do minifolhetim que escrevi na Zero Hora em fevereiro de 1999:


Sexo engraxado. Era do que Amelinha gostava. Por isso ordenou ao mecânico Haroldinho: nada de banho! Pelo menos não antes de encontrá-la, o que aconteceria no dia seguinte. Haroldinho achou estranho, mas obedeceu. Assim, amaram-se violentamente, em meio a gaxetas e calotas, velas e carburadores. E passaram a ter um caso.

Ao cabo de um mês, porém, ele havia se enfarado. Queria se afastar. Foi quando ela contou que… estava grávida! Haroldinho ficou chocado, mas, algum tempo depois, no dia em que ela sugeriu que morassem juntos, ele pensou, pensou e, como estava morando mal, num puxado na oficina, resolveu aceitar. Foi um erro medonho.

Numa manhã abafada de sábado, Haroldinho reuniu seus parcos pertences e mudou-se para a casa de Amelinha. Nunca tinha ido até lá, embora não ficasse longe da oficina. Era sempre Amelinha que o visitava. Mal entrou no lugar, teve vontade de sair correndo. Havia um cheiro de coisa antiga no ar, um odor rançoso e quente. A sala era escura, repleta de pequenas estatuetas e castiçais com velas, algumas delas acesas. Amelinha foi-lhe apresentando as peças.

— Aqui é a cozinha — pequena e escura. — Aqui é o nosso quarto — grande e escuro. — E essa porta aqui — a porta! Naquele instante, ela disse a frase a respeito da porta, aquela que você leu no domingo (ontem, aqui no blog): — Jamais abra essa porta. Entendeu? Jamais!

Haroldinho estremeceu observando a porta pesada e cinza. Muito estranho, aquilo.
— Por quê?
— Porque sim. É só o que te peço: não abre essa porta nunca. Nunca!

Haroldinho achou melhor não perguntar mais nada. Devidamente instalado, sentou-se na sala escura e ligou a televisão. O Ituano jogava contra a Matonense. O Ituano tinha um centroavante muito bom que ele achava que devia ser contratado pelo Inter — Haroldinho era colorado radical. Dos fundamentalistas. Até havia escrito uma carta para a direção do Inter sugerindo a contratação do centroavante do Ituano, mas os homens nem deram bola para ele.

Haroldinho assistiu ao jogo se lamentando, %22como é que eles não vêem que esse guri é craque?%22, enquanto a mulher trabalhava na cozinha. Terminada a partida, bocejou, espreguiçou-se e já ia perguntar pelo jantar quando sentiu uma presença estranha na sala. Sabia que não era a Amelinha — podia vê-la com o canto do olho, perto do fogão. Mas tinha certeza de que havia alguém ali, às suas costas. Teve medo. Não conseguia definir porquê, mas sentia muito medo.

Arrepiou-se do tornozelo à nuca. Virou-se devagar. Olhou por sobre o ombro direito. Então foi o choque. O choque. Haroldinho viu uma coisa horrível, uma pessoa horrível. Uma velha. Magra, encurvada, com um rosto enrugado, um olhar maligno. Ao lado dela, duas crianças. Meninas. Ambas igualmente assustadoras. Haroldinho gritou, aaaah!, e levantou-se de um salto. A velha e as crianças continuaram impassíveis, analisando-o.

— De onde vocês saíram? — perguntou Haroldinho, o coração ribombando.

A velha falou, com uma voz que saiu de algum lugar sinistro e gelado:
— Nós sempre estivemos aqui.
— Quem é a senhora? — ainda estava nervoso.
— É a minha mãe — a resposta partiu de Amelinha, que chegara enxugando-se com um pano de prato.
— Mãe?
— Mãe. Ela mora com a gente. E essas duas são minhas filhas.

Mãe. Filhas. Que história era aquela? Ela nunca contara que tinha mãe e filhas. Nem que moravam com ela. Haroldinho estava perplexo. A velha rosnou algo. Haroldinho não ouviu direito, pareceu-lhe que dissera… %22pangaré%22? Teria sido isso?

Haroldinho não teve tempo de perguntar. A velha deu-lhe as costas e, levando as duas meninas pela mão, abriu a porta cinza e entrou no tal quarto proibido. Haroldinho queria falar algo, protestar, mas apenas ficou ali, de pé, sem entender nada, sem falar nada. Foi um erro. Se tivesse reagido naquele momento, talvez nada do que aconteceu teria acontecido. Mas aconteceu.


O quê? Você saberá amanhã.

Postado por David

Como sofre um carona

29 de fevereiro de 2008 2

HISTÓRIA FALADA

O poder que um motorista tem sobre os passageiros do seu carro…

Veja todas as Histórias Faladas

Quer colocar este vídeo no seu blog?

Clique aqui para pegar o link. E leia as intruções aqui.

Postado por David

Noites de contravenção

29 de fevereiro de 2008 19

Cláudio Ends tinha uma Luger. Aquela pistola alemã. É que Cláudio Ends era alemão. Alemão alemão mesmo, não da colônia. Falava português com sotaque: %22Tuto pom?%22 Não sei como veio parar no Brasil, ele sempre despistava quando roçávamos no assunto. Existia uma crença entre os amigos de que fugira da II Guerra e que aquela Luger fora usada por ele em combates pelo exército do Reich, mas não podia ser – em 1945 Cláudio devia ter uns sete anos.

Enfim, Cláudio Ends atravessou o oceano e, depois de rodar pelo continente, estabeleceu-se em Criciúma. Abriu um restaurante, o Recanto do Fritz, que explodiu em sucesso. Cláudio Ends até já havia vencido concursos culinários, preparava um lombinho à moda russa que seduziria Sharapovas, um purê de batatas tão diáfano que flutuava e uma torta de maçã que a gente comia aos soluços, o que, combinado aos chopes bem tirados, fez-me engordar 26 quilos, já contei essa.

Mas o importante era o que acontecia às segundas-feiras no restaurante do Cláudio. Ele fechava as portas para o público, chamava-nos, a um grupo de amigos, e patrocinava uma noitada de contravenção – jogávamos pôquer no restaurante do Cláudio! A dinheiro, obviamente, que pôquer só tem graça se for a dinheiro.

Os homens ficávamos reunidos numa saleta, fumando, bebendo e jogando. As mulheres em outra, assistindo TV. No meio da noite, o jogo era interrompido, os casais voltavam a se formar numa terceira sala e Cláudio servia-nos uma refeição suntuosa – até hoje suspiro ao lembrar de certo rahmschnitzel de quatro dedos de altura… Concluído o jantar, os homens voltávamos para a saleta e o jogo recomeçava feroz, para só terminar na última curva da madrugada.

Muitas segundas-feiras saí daquelas tertúlias com o salário desfalcado, mas também já houve de ter ganho o suficiente para me empanzinar de hackepeters durante toda a semana. De uma forma ou de outra, o que sempre pensava depois da jogatina era o mesmo: por que o jogo é proibido no Brasil?

Afinal, eu jogava, meus amigos jogavam, conheço dezenas de pessoas que jogam, todos adultos, sensatos, cumpridores de seus deveres, pagadores de impostos. Qual é o problema? Há quem vá à bancarrota em cassinos? O que é que tem? Esses se arruinarão com os cavalos lerdos do hipódromo, com as mariposas das boates escusas, no frêmito da bolsa de valores. E os bingos? Existe maior hipocrisia do que proibir bingos? Aquelas senhoras septuagenárias que vão aos bingos, alguém pode afirmar que não lhes cabe o direito de dissipar o dinheiro da aposentadoria, se quiserem? E por que um homem adulto, maduro, que já bebeu as cervejas que poderiam ser bebidas, já beijou as mulheres que poderiam ser beijadas, já dirigiu carros, já leu jornais, já passou noites em claro e teve dias sonolentos, por que um homem não pode gastar todo o seu parco salário numa máquina caça-níqueis, se isso lhe aprouver?

As investidas da polícia contra o jogo ilegal, francamente, não passam de desperdício de energia e recursos. Até porque proibição do jogo é que fomenta a criminalidade, assim como a proibição das drogas financia a bandidagem. Mas por aqui é assim: a solução não é educar; é proibir. E proibir quase sempre é fácil. Só que quase nunca funciona.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Bach!

28 de fevereiro de 2008 6

EFE
Vejam essa notícia de zerohora.com. Olhem bem para a cara do compositor. Lembra alguém?

Isso mesmo! O Wianey Carlet! Impressionante, o Wianey já foi Bach!!!

Postado por David

A Sogra do Haroldinho - parte I

28 de fevereiro de 2008 8

Paulo Franken, Banco de Dados
A Maria Lúcia Pires, de Porto Alegre, pediu para o Túnel do Tempo um minifolhetim que escrevi na Zero Hora em fevereiro de 1999. Vou publicar um capítulo por dia, como fiz à época. Aí vai o primeiro:


Lá estava o Haroldinho, numa casa sombria, diante de uma porta cinza, para a qual sua mulher apontava e advertia:
— Jamais abra essa porta. Entendeu? Jamais!

Como havia se metido naquela situação? Bem, tudo começou com Amelinha.

Amelinha. Não era uma mulher que merecesse uma segunda olhada. Mas também não servia para feia, não, isso não. Era… comum.

O Haroldinho só se interessou por ela porque ela se interessou por ele. É como quase sempre acontece — a mulher se interessa pelo homem, e o homem: opa!, ali tem uma chance. E acaba se interessando pela mulher.

Quando a Amelinha apareceu com aquele seu Chevette com a caixa de câmbio avariada na oficina mecânica do Haroldinho, ele não viu nada de diferente nela — até porque não havia nada de diferente mesmo. Mas ela lhe lançou uns olhares de caldo de cereja e o Haroldinho ficou todo excitado.

Fazia tempo que uma mulher não o olhava daquele jeito. Uns três meses, pelo menos. Desde que tinha se separado da sua antiga mulher. Aliás, depois da separação, nada mais dera certo para o Haroldinho. Nem a sua velha jogada, a jogadinha na ponta-esquerda do Huracán, o time lá do IAPI.

Justamente a velha jogada que nunca falhava: o Haroldinho, pequeninho que era, subia na bola com o pé direito. Isso mesmo: subia! E, de cima dela, girava o corpo, iludia o adversário e chutava em gol, de qualquer ângulo, surpreendendo sempre o goleiro. Nem essa jogada dava certo Na última partida, o treinador colocou o Haroldinho no banco. Que humilhação!

Na oficina também havia problemas. Os clientes escasseavam e, com eles, escasseava o dinheiro. Para economizar, passou a morar na oficina mesmo, num puxado nos fundos.

Por isso, no momento em que a Amelinha apareceu e lambuzou-o com o olhar, o Haroldinho pensou que sua sorte estava mudando. E de fato estava. Só que não da forma como ele esperava. Ah, não. Naquela época, porém, o Haroldinho nem desconfiava do que lhe aconteceria. Pobre Haroldinho.

Convidou-a para sair. Ela aceitou. E Haroldinho pensou, falando para o seu macaco hidráulico como se fosse o melhor amigo:
— As coisas estão melhorando mesmo, rapaz!

No dia marcado, levou uma hora se lavando, esfregando-se com sabonete de mecânico, tirando a graxa do meio das unhas. Ela ficou de encontrá-lo na oficina. Haroldinho ficou esperando-a todo perfumado, cabelo com gel, sua melhor camisa — uma listradinha. Mas, quando ela chegou, pareceu decepcionada. Disse, como que lamentando:
— Tu estás todo limpo…

Haroldinho analisou-se, olhou para a camisa listradinha, para as calças.
— Não gostou?
— Tudo bem — disse ela, puxando-o para o Chevette. — Vamos lá.

Foram. Para um rodízio de pizzas. No fim da noite, ao retornarem para a oficina, ele perguntou se ela queria entrar. Ela respondeu:
— Entro amanhã. Às 10 da noite. Mas quero que tu prometas uma coisa…
— O quê? — o Haroldinho estava desconfiado.
— Que tu não vais te lavar.
— Hein? — Haroldinho começava a cogitar se a mulher não seria maluca.
— Promete.
— Tá bom. Prometo.
— Então, até amanhã.

Será que era louca? Será? O Haroldinho foi dormir encasquetado. No dia seguinte, fuçou em bobinas, trocou velas, arrancou radiadores, rolou pneus. Uma hora antes do encontro, ansiava por um banho. Mas resistiu à vontade. Se ela o queria sujo, o teria sujo. Às 22h em ponto, ela apareceu. De minissaia. Uma mulher, quando veste uma minissaia num encontro, nunca o faz em vão. Não mesmo.

Pois Amelinha estava ali, no meio da oficina, de minissaia. Boas pernas. O Haroldinho estava um pouco constragido. Sentia-se mal assim, preto de graxa. Amelinha o examinou de alto a baixo. Seus olhos brilharam. Ela passou a língua nos lábios. Aí começou a fazer aquilo. Coisa mais estranha, aquilo. O Haroldinho nunca imaginaria que ela faria aquilo. Mas ela fez.


Só que vamos falar sobre aquilo amanhã, na segunda parte da história da sogra do Haroldinho.

Postado por David

Leitor-Cronista - Ineficiência das privadas

28 de fevereiro de 2008 73

Reprodução
Dando seqüência ao Concurso Leitor-Cronista, vai aí o curioso texto do Maurício Lacerda Savaris.

Lembrando que, de hoje até o fim de março, vou publicar um texto dos leitores por dia. O texto que receber mais comentários positivos de leitores ganhará o concurso e, seu autor, cinco livros autografados deste que vos blogueia.


Ineficiência das privadas

Esses dias aconteceu um acidente comigo muito embaraçoso que me fez pensar em uma coisa: incrível como as privadas são mal feitas. Claro que sem elas, da forma que são, seria muito pior. Mas quem inventou e quem aprovou o projeto avaliou muito mal a idéia.

E quem inventou foi o Sir John Harrington, no século XVI, que era afilhado da rainha Elizabeth I. Talvez por ser afilhado dela que esse projeto foi tão aceito. Mas porque estou falando isso?

Porque quando uma pessoa do sexo masculino vai ao banheiro urinar, mesmo com tampa da privada levantada, alguns respingos se escapam para fora. Por isso sou a favor que o homem faça xixi sempre sentado como as mulheres. Contudo, em alguns banheiros masculinos a possibilidade de sentar é zero, então essa não é uma solução.

Muito pior do que isso é quando o problema é o nº2. Quando não é xixi, o risco de respingar água suja é muito grande. É muito nojento.

E eu admito que comigo esse respingo tem uma mira incrível! Sempre acerta em cheio! É muito desagradável. Se eu fosse avaliar, eu reprovaria na hora esse projeto dessas privadas que é usado até hoje. São 2 problemas críticos.

Algum designer, engenheiro ou alguém sem muito o que fazer poderia criar um novo projeto e tentar resolver esses problemas. E depois, apresentar para as fábricas para que fosse implementado o projeto. Comigo aconteceu um acidente que demonstra o tamanho do problema.

Enquanto esse erro de muitos anos não é resolvido, a solução bem %22a la gambiarra%22 é pegar algumas folhas de papel e cobrir o fundo. 

O fundo da privada. Tapar toda a água. Funciona! A água não respinga! No entanto, o risco de entupir é enorme. E foi o que aconteceu comigo. Entupi a privada do trabalho. E no meu trabalho só tem um banheiro com uma privada e quando eu estava saindo apavorado com toda aquela água quase transbordando entrou um colega e viu que fui eu pelo tempo que levei e também pelo som da descarga. Fui obrigado a me entregar.

E então tentei explicar que eu era inocente e que a culpa não era minha. Dai quando falei para o meu chefe que o culpado era o afilhado da rainha Elizabeth I, vocês acreditam que ninguém acreditou? Ficaram rindo de mim no começo e depois levei uma baita bronca! Ainda ouço as vezes alguém largar uma piada dizendo que o culpado dos problemas é o neto da rainha Elizabeth. É triste.

Então, a partir de hoje, se você entupir alguma privada, você já sabe de quem é a culpa. É do afilhado mimado da Elizabeth! Um tal de um Sir John que recebeu aprovação de uma invenção mal feita de privada. Se duvidarem, manda para eles por e-mail o meu texto que assim eles podem acabar acreditando.

Aqui eles acreditaram e eu consegui ser parcialmente absolvido da culpa. Como pena, apenas tive que pagar o serviço da desentupidora.

Ah! Mas eu não sou bobo de ficar pagando pelo erro dos outros! Guardei a nota fiscal e quando eu encontrar pessoalmente os herdeiros da rainha vou mostrar a nota e recuperar o meu dinheiro! Comigo não sir John! Comigo não!


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Postado por David

Leitor-Cronista - CONCURSO

27 de fevereiro de 2008 63

Atenção leitorinhos que escrevinham: vamos fazer um pequeno concurso.

De hoje até o fim de março, vou publicar um texto dos leitores por dia. Um por dia! O texto que receber mais comentários positivos de leitores ganhará o concurso e, seu autor, cinco livros autografados deste que vos blogueia.

Os textos já enviados estão concorrendo!!!

***

E para começar…

Cara, adorei esses poemas da Fabiana Kelbert. Simplesmente adorei! Ela sabe das coisas. Que vocês acham?


   Teu Papel: Mulher

Há dias em que acordo
Virada
Do avesso
Toda fragilidade
Antes coberta
Aparece agora
Feito ferida
Aberta
Choro
Por nada
Por tudo
Por bem
Por mal
E penso:
Será normal?
Então lembro:
Hormonal.


A toda mocinha

a toda mocinha
que já acreditou
que precisa de casinha
vestido branco
e bolo assando
na cozinha,
venho dar o meu recado.
nunca é tarde
pra sacar da vida
o verdadeiro significado:
deves ter em ti
teu mais forte aliado.
Teus livros, teus amigos
Tuas vontades, teus pecados.
Deves esperar o amor,
Curtindo o sol, deitada na relva.
Sem jamais esquecer:
é a leoa quem caça
sozinha
na selva.


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Postado por David

A terrível pergunta do lateral Cabral

27 de fevereiro de 2008 9

Arte ZH
Era difícil não olhar para a mulher do Cabral. Morena jambo, voluptuosa, com uma malícia esverdeada reluzindo no olhar.

Milena.

Quem a via, dizia: Milena peca. Ou pecará. Tinha todo o jeito de quem podia pecar, e talvez até pecasse, só que Cabral jamais se afastava dela. Nem quando ia jogar, que Cabral era profissional da várzea. Profissional mesmo, 400 reais por jogo, o maior salário amador da cidade.

Mas quem pagava não se arrependia: Cabral garantia segurança absoluta na lateral-direita, Cabral dizia-se, e era, à prova de ponta. Ninguém sabia como, porque era lento, era tosco, não dava em bola. Só era forte, só isso, mas pontas serelepes passam por laterais fortes, até humilham laterais fortes. Menos Cabral. Cabral nunca havia sido driblado por atacante algum.

Assim transcorreu sua carreira varziana, no entanto bem remunerada, até que um dia, o Cabral já veterano, meio gordo, mais lento do que jamais fora, coube ao time dele, o Canarinho, enfrentar o nosso, o bravo Huracán. Um clássico iapiano. O Canarinho sempre ganhava.

Daquela vez, contudo, o Jorge Barnabé jogava na ponta do Huracán. Chamavam-no Barnabé pela semelhança com um obscuro detetive de TV, Barnaby Jones. Nunca ninguém assistiu a um único capítulo de Barnaby Jones, no Brasil, exceto o goleiro Languiça, que foi quem grudou o apelido no Barnabé.

Barnabé era magro, alto e, o ponto importante, muito rápido. Sempre vencia os laterais, qualquer lateral. Por isso, o Huracán apostava na velocidade do Barnabé para obter sua primeira vitória sobre o Canarinho. Não seria um veterano, sobejamente conhecido por sua lentidão, que pararia o Barnabé. Ah, não.

Assim, todas as estratégias do Huracán passavam pela rapidez do Barnabé e, durante toda a semana, ele prometeu que ganharia o jogo. Atropelaria o Cabral e ganharia o jogo!

No domingo de manhã, lá estavam todos no Alim Pedro. O Barnabé de um lado, saltitando, explodindo de energia; o Cabral de outro, forte, ameaçador, mas de movimentos lerdos como um paquiderme.

No alambrado, agarrada à tela de arame, ela, Milena, sedutora dentro de seu shortinho mínimo. Quando Cabral estava virado para outro canto do estádio, todos olhavam para Milena. Quando ele se voltava, todos disfarçavam.

Era visível a diferença entre o Barnabé e o Cabral, sentíamos nas travas das chuteiras que o Barnabé voaria o jogo inteiro área adentro, sem que Cabral sequer o achasse para fazer falta nele. Estava na mão — o Huracán venceria, enfim.

Mas não foi o que aconteceu.

Não foi. Antes do jogo, o Cabral aproximou-se mansamente do Barnabé e disse algo para ele. Falou baixinho, ninguém ouviu, mas alguns flagraram o constrangimento do Barnabé. O Barnabé gaguejava:
— Eu? N-nada… Ju-juro… Na-nada…

O Cabral, então, levantou uma sobrancelha e indagou:
— Nada?…

E o Barnabé ficou ainda mais embaraçado. Enrubesceu, uma gota de suor rolou de sua testa e umedeceu a grama.
— Não! — protestou ele. — Não é nada disso! Claro que acho, sim, acho, mas não é nada disso que tu… que você… que o senhor… eu na verdade… eu… eu… com todo o respeito… tenho muito respeito… eu…

Ao que, o Cabral interrompeu.
— Sei — disse somente, e deu-lhe as costas, voltando para sua metade de campo.

Depois daquele diálogo insólito, o Barnabé teve a pior atuação da sua vida. Não foi uma só vez à linha de fundo, não passou nem perto do Cabral, a lateral direita do Canarinho foi um terreno intocado durante 90 minutos, e o Huracán perdeu de novo. Terminado o jogo, claro, fomos no Barnabé. Queríamos saber o que o Cabral dissera para ele.

— Não disse nada — respondeu o Barnabé. — Ele só fez uma pergunta.
— Uma pergunta? Que pergunta???

E o Barnabé contou que o Cabral olhou fixamente em seus olhos, um olhar duro de pedra, e perguntou:
— O que tu achas da minha mulher?

E o Barnabé olhou para Milena pendurada no alambrado, Milena deleitável e robusta, Milena de shortinho, Milena para quem era impossível não olhar e de quem era impensável não pensar nada, e o Barnabé queria muito responder, queria muito dizer o que sentia, queria gritar: 
— Ela peca! Ela tem que pecar!

Mas ao mesmo tempo não podia, e sofreu tanto por aquilo tudo, tanto, tanto, que soube, de pronto, que não jogaria nada, que estava irremediavelmente perturbado, que não conseguiria se concentrar na bola, que a tarde estava acabada para ele. Foi o que se deu, e o Cabral continuou imbatível, continuou à prova de ponta.

Continuou merecendo o maior salário amador da cidade, 400 reais por jogo.


*Texto publicado hoje na página 42 de Zero Hora

Postado por David

Túnel do Tempo

26 de fevereiro de 2008 8


Aí vai o pedido do Jader Farina, o qual atendo logo abaixo.


%22Boa noite tchê… teve uma das tuas crônicas que quando li me mijei de rir, foi uma das laranjas. Pelo que me recordo tu contou que foi pra praia com a tua turma, e vcs só tinham laranjas pra comer e num acesso de raiva tu tocou uma no mar. Se puder publicar ela novamente, agradeço.%22


A laranja de umbigo

A vida praiana é superestimada.

Tenho convicção disso desde o ocorrido com a laranja de umbigo do Sérgio Baixinho. Naquela época, quando chegava o verão, as mulheres iam para a orla e nós ficávamos no IAPI. Era estranho. A orla repleta de gurias e caras da 24 de Outubro, e a gente comendo melancia em Porto Alegre. Mas que bá.

Então, nossa grande meta, logo que janeiro aparecia na curva, era passar pelo menos alguns dias na orla. Mais precisamente em Quintão, onde veraneava um fagueiro grupo de meninas do bairro, destacando-se uma loirinha que me fazia flutuar com seus olhares esverdeados.

Inventamos na vila que iríamos em excursão com o Huracán, o nosso time. A dupla Gre-Nal não excursionava para a Europa todos os anos, em pré-temporada? Pois o Huracán iria excursionar para a orla a fim de desafiar os times praianos daqueles fru-frus da 24 de Outubro.

Pegamos a nossa bola de couro número 5 quase nova, pegamos o brioso fardamento do Huracán, enfiamos tudo nas mochilas e fomos para a freeway pedir carona, que ninguém tinha dinheiro para ônibus. Foi o nosso primeiro erro. Você, que não é tanso, sabe perfeitamente que não se chega a Quintão pela freeway. Só que nós éramos tansos.

Sábado, bem cedinho, lá estávamos, um time inteiro à beira da estrada, dedão apontando para o Atlântico. Em duplas, porque com mais de dois é impossível conseguir carona. Marcamos encontro em Tramandaí, na Emancipação. Até o meio-dia, chegaram todas as duplas. Agora, Quintão!

Como se vai mesmo a Quintão? É perto. Perto onde? Alguém raciocinou, surpreendentemente: é tudo orla mesmo, logo, se formos margeando o oceano, em breve chegaremos a Quintão. Vamos pela arelha da pralha? Vamos! Arelha da pralha, arelha da pralha!

Fomos.

No fim da tarde, parecíamos aqueles caras perdidos no deserto, nos arrastando pela areia estuante, vergando sob o peso das mochilas. Paramos, suando, bufando. Será que aquilo era Quintão? Vamos perguntar para aquele praiano que vem lá de sunga.
— Ei, isso aqui é Quintão?
— Quintão??? Aqui é Presidente!

Presidente? Que lugar era aquele, Presidente? Quintão ficava muito longe?
— Pô! — admirou-se o praiano de sunga. — Quintão fica lá para trás!

Para trás???

Estávamos caminhando para o lado oposto. Mistérios da orla. Decidimos ficar ali mesmo. A noite já chegava e nós em Presidente, sem comida, sem dinheiro, sem jogo de futebol e sem as gurias. Pelo menos tínhamos duas barraquinhas para dormir.

Começamos a armar as barracas. Então, constatamos que o Fernando havia esquecido as estacas de uma delas. Maldição! O Fernando levou alguns cascudos, enquanto tentávamos armar a barraca com pedras e pedaços de pau. Não deu certo. Alguns cogitaram de dormir na areia mesmo, sob o céu azul-escuro. Quisperança!

Com a noite, passou a fazer um frio canadalesco. Não dava para sair da barraca, da única e pequena barraca de que dispúnhamos. Ficamos a noite toda enfiados na barraca, pinicando com a areia, sujos, fétidos, esfomeados, resmungões.

Um de nós, justamente o Sérgio Baixinho, o da laranja de umbigo, tinha um radinho a pilha. Dele nos valemos para tentar descobrir as horas. Se fosse mais de cinco da manhã, metade de nós iria para fora, desafiar o frio. O Sérgio ficou escutando, o radinho colado ao ouvido. O som saía baixinho, chiado, só ele ouvia. %22Ó: tá dando uma do Benito de Paula… Seria muito bom, seria muito legaaaal…%22 Nós na expectativa. %22Ó: tá no fim. O cara tá falando%22. Tensão, tensão. %22Vai dizer as horas!%22 Angústia. %22Meia-noite e oito%22.

Meia-noite e oito, meu!

Foi uma noite realmente, realmente comprida. Pela manhã, estávamos tortos e famélicos. Foi então que surgiu a laranja de umbigo. Não uma; várias delas. Um grupo de praianos se compadeceu do nosso estado lamentável e nos presenteou com uma dúzia de enormes, reluzentes e suculentas laranjas de umbigo, as mais atraentes laranjas de umbigo da minha vida.

Devoramos aquelas laranjas ao mesmo tempo que desmontávamos a barraca, ansiosos para voltar ao recôndito do cimento armado de Porto Alegre.

Foi quando aconteceu. Meu amigo Sérgio Baixinho, meu grande amigo, apesar de seu pequeno tamanho, é daqueles caras que chupa laranja. Ele não descasca a fruta — corta um tampão e a suga. Coisa que eu desconhecia. Pois ele cortou o tampo da laranja de umbigo lá dele, sentiu o primeiro gostinho refrescante e doce do sumo e pensou: vou deixar minha laranja para depois que desarmarmos a barraca, aí vou chupá-la descansado, olhando para o mar… E depositou a laranja sobre uma pedra. Coisa que eu também desconhecia.

Nós naquela atividade, felizes pelas laranjas que acabáramos de devorar, de repente olho para baixo e vejo aquela laranja sem um pedaço, parecendo meio emurchecida e me deu uma vontade de pegar aquela laranja e atirá-la com toda a força no mar. Não sei por que tive aquela vontade, era só desejo de jogar algo longe, na água, podia ser uma pedra, podia ser um disco long play ou um gato morto, mas era a laranja de umbigo do meu amigão Sérgio Baixinho.

Peguei a laranja. O Sérgio Baixinho viu e pensou: será que esse cara quer comer a minha laranja? Não chegou a protestar. Não deu tempo. Joguei o braço para trás, apoiei-me num só pé, o Sérgio Baixinho percebeu que eu ia arremessar a laranja dele ao mar, arregalou os olhos, começou a sacudir os braços, desesperado, mas não falou nada, e eu não o via, e fiz pontaria, e ele se agitava, e minha mão veio lá detrás, lá detrás, e o Sérgio:
— Nãããããããããããããããõoooooo!

Um grito de dor. Da mais profunda dor.

Tarde demais. Eu já havia, miseravelmente, lançado a laranja de umbigo do meu amigão Sérgio Baixinho na terceira onda da rebentação da praia de Presidente. Fiz isso com meu amigão. Que triste. A vida praiana é superestimada, de fato.


*Texto publicado em 10/01/2001 em Zero Hora

Postado por David

Leitor-cronista - 4ª edição

25 de fevereiro de 2008 16

Belo texto, o do Juliano Filipe Rigatti. Ele se forma em Jornalismo no próximo dia primeiro. Parabéns, velho, e sucesso!


O sorriso do Jeison

Só pra ver como a vida é feita de detalhes. E de bons conselhos. Depois de sete anos e meio e de muitos passos dados, março próximo é o mês da minha formatura em Jornalismo. Em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Formatura essa que começou a acontecer mais ou menos um ano atrás.

Era uma noite quente de fevereiro. O nome do cara é Jeison. Falar do cara é falar do sorriso do cara. É sério. Ele é do tipo simpático, sabe? Cumprimenta todos, e a todos mostra seu sorriso. Sorriso alegre, cheio de dentes brancos, espontâneo. De quem gosta da vida. O que mudava sempre era o cabelo do Jeison. Nuns semestres, bem curto. Noutros, comprido. Até lembrava um samurai.

Eu já conhecia o Jeison de outras cadeiras lá da Unisinos. Isso porque nunca se estuda sempre com os mesmos. Cursamos duas disciplinas juntos? Três? Se muito. Jeison e eu só éramos próximos na lista da chamada. Não fomos nunca amigos. Sempre que os professores o chamavam, pouco antes de mim, eu já o tinha visto: sorriso largo, falando com outros ao redor, lá estava o Jeison, o cara que seria decisivo pra minha formatura.

Como quase sempre, naquele dia o caminho pelo qual atravessava a região metropolitana de Porto Alegre tinha sido longo demais. Eu estava atrasado pra aula. Saía sempre às 18h30min do trabalho e quase nunca chegava a tempo pra aula. Atrasado e esgotado. O dia em frente ao computador e o trem lotado acabavam com minha disposição.

Procurei no celular a anotação do local onde ficava a sala da aula daquele dia. Sala cheia e porta fechada. Saco. Atrairia a atenção de todos. Uma merda prum tímido como eu. Mas uma merda necessária. Abri a porta. Olhinhos todos vieram em minha direção. Escureceu-se quase tudo. Tinha uma cadeira vaga, iluminada. Sentei e tudo clareou. Ao meu lado, o Jeison. E ele foi logo sorrindo quando sentei e disse a ele opa, beleza? Beleza, ele respondeu. Sorrindo.

A aula ia chata quando Jeison puxou assunto.
— E aí, que cadeiras mais tá fazendo?
— Essa e mais três. Nunca mais. Três é o meu limite.
— Bah, pior. Pra mim também — e sorriu. — Te forma quando?
— Sem ser no próximo, no outro. 2007… — pensei. — 2007 dois — disse eu.
— Bah, legal, eu também — sorriu o Jeison. — Já tá fazendo o Projeto?
— Não, não. Vou deixar pra fazer só o Projeto e o TCC no último. Muita coisa pra agora.
— Ahn…

Pela primeira vez, o sorriso sumiu da cara do Jeison, que disparou:
— Mas,cara, tem que fazer o Projeto antes. Senão não dá. Tem que ser antes.
— Mas, não… sério? Por quê? Agora nem dá… nem tenho mais dias livres. E nem grana.
— Troca por essa de hoje, ué — resolveu o Jeison. — Faz essa depois.
— Será? — franzi a testa toda.
— Claro, cara. Olha, tem que fazer o Projeto agora pra poder te formar em 2007 dois. É sério.

Vi pelo semblante do Jeison que era sério.
— Bah, vou lá na Central agora. Será q tem vaga ainda? — consultei o Jeison.
— Vai logo, meu.
— Cara, tu salvou minha formatura — brinquei, levantando.

Até hoje, sempre que vejo o Jeison agradeço pelo toque e digo, às brincas, que ele salvou minha formatura. A última dessas foi no dia em que a turma tirou as fotos para o convite. Lá na Unisinos. O Jeison, sabe o que o Jeison fez? Só sorriu.


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Postado por David

Horror na Cidade Grande - ÚLTIMO CAPÍTULO

25 de fevereiro de 2008 45


Minha primeira impressão foi de que um carro havia batido na traseira do meu. Olhei por sobre o ombro, por cima do banco, através do vidro traseiro. Nada. Nenhum carro na escuridão da rua. Estranhei. Resolvi descer para averiguar. Dei a volta no carro e…

… Meu Deus! O susto que levei!

A cena com a qual deparei encheu-me de apreensão e alívio ao mesmo tempo. Alívio porque, enfim, achei o que procurava! Ele estava lá… ela… a loira… o travesti. Estava vestida da mesma forma que a vira da última vez. Seja: parcamente vestida.
— Você está viva! — exclamei. — Que bom!

Mas ela não parecia tão contente quanto eu. Tinha um tijolo nas mãos e me encarava com fúria.
— É ele! — gritou. — É o caipira que tentou me matar!

Em um segundo, entendi o que acontecera: o travesti me reconheceu, ou reconheceu o carro, e atirou algo contra ele, provocando o estrondo de segundos atrás. Olhei em volta. Perto da traseira, dormia o paralelepípedo que ele havia arremessado, fazendo um razoável estrago na lataria.

Calculei que gastaria um bom dinheiro com chapeação. Mas, naquele momento, os gastos com a oficina mecânica eram irrelevantes. Havia um travesti furioso diante de mim, armado com um tijolo de bom tamanho, gritando para toda a vizinhança que eu tentei matá-lo.
— Não tentei te matar — argumentei. — Eu só… Ei!

Ele ergueu o tijolo com as duas mãos, rilhou os dentes e veio em minha direção. Suas intenções eram péssimas. Eram as piores. Ia atirar o tijolo em mim!
— É ele!!! — gritou outra vez. — O assassino!!!

E arremessou o tijolo. Passou longe da minha cabeça, mas acertou o carro novamente. Em cheio no vidro traseiro, que rachou.
— Ei! — repeti. — Que é isso???
— É ele!!! — berrou de novo, e uns três ou quatro travestis foram se aproximando, seminus, belicosos, perguntando-se:
— É ele? É ele?
Foi ele quem tentou me matar!!! — urrou a loira, apontando para mim.
— Eu? Eu não! — disse. — Eu só tentei me defender, eu… Ei!

Os travestis avançavam. Alguns estiletes saltaram das mãos deles.
— Ei! – repeti, recuando. — Ei!

E eles pularam sobre mim. Uns cinco travestis de minissaia, de calcinha, de biquíni, de peitos siliconados, gritando, ameaçadores:
— Pega! Pega!

Iam me furar, iam me matar! Nessa situação premente, fiz o que tinha de fazer. O que qualquer homem faria, se estivesse em meu lugar: corri. Saí desabalado pela rua escura, com os travestis atrás de mim, berrando:
— Pega! Pega!

O grupo de perseguidores aumentava a cada segundo. Quando dobrei a esquina, à direita, pelo menos 10 travestis estavam em meu encalço, chamando-me de tudo, xingando minha mãe, prometendo retalhar-me com seus estiletes e canivetes. Eu tinha uma vantagem: não usava saltos altos. Ao chegar à Farrapos, porém, notei que uns dois travestis haviam tirado os sapatos para tentar me alcançar. Corriam descalços, muito decididos, prontos para me trucidar. Não seria páreo para eles. Cristo, como ia sair daquela???

Outro problema eram os travestis que surgiam à minha frente, os braços abertos como se fossem goleiros antes do pênalti, fazendo menção de me segurar. Eu os evitava, driblava-os com o corpo e corria, corria, corria. Olhava para os lados, procurando por algum policial, algum brigadiano, algum lugar em que pudesse me refugiar.

Ao mesmo tempo, pensava no meu carro, abandonado na outra rua. Será que havia trancado a porta, ao sair? Achava que não. A chave do carro estava na minha mão, apertava-a com força, pensando que precisava alcançá-lo antes que algum aventureiro o fizesse. O carro seria a minha salvação, se estivesse intocado. Se não estivesse, se tivessem entrado nele, eu estava perdido.

Ainda correndo, tracei um plano: daria a volta na quadra. Chegaria ao meu carro pelo outro lado e escaparia daquele lugar, daquela cidade, e nunca mais voltaria!

Corri, corri muito. Dobrei a esquina à direita mais uma vez. Já estava ficando cansado. A distância entre os perseguidores diminuía. Berravam, furiosos:
— Pega! Assassino! Pega!

Consegui, enfim, entrar na rua em que deixara o meu carro. Avistei-o a uns 50 metros. Um vulto o rondava. Um travesti, provavelmente. Ou uma prostituta, sei lá. Cinqüenta metros podem ser o infinito, quando você está sendo perseguido por uma dúzia de travestis ansiosos para fatiá-lo a estilete e a unhada. Ao alcançar o carro, arfava, bufava, resfolgava, quase morria. O travesti, ou prostituta, sei lá, parou na minha frente e abriu os braços, querendo deter-me.
— Sai! — gritei, com toda a raiva que acumulara nas últimas horas. — SAI!!!

E ele, para minha surpresa, saiu. Deu dois pulinhos assustados para o lado e postou-se a alguns metros do carro, receoso. Eu devia estar mesmo com uma aparência ameaçadora.

Abri a porta do carro (não a havia trancado!), sentei-me atrás do volante e arranquei. Ouvi os gritos atrás de mim, ouvi o ruído de pedras se chocando contra a carroceria e contra os vidros, imaginei que o carro devia estar todo amassado, mas não me importei. Fui embora daquele lugar maldito decidido a voltar para minha cidade sem demora. Fecharia a conta do hotel, pegaria a estrada e iria embora!

Realmente, meia hora depois, estava na estrada, voltando para Cachoeira do Sul, para a minha cidade, para a Capital do Arroz! Durante a viagem, ia pensando na minha mulher, nas minhas filhas, na minha cidade e prometendo para mim mesmo: nunca mais! Porto Alegre, nunca mais!

Assim fui, repetindo sempre, baixinho porém decidido, nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais, como se fosse uma oração, um mantra. Ao chegar em casa, no começo da madrugada, recebi, não sem alguma emoção, o abraço carinhoso da minha mulher.

— O que aconteceu, querido? — perguntou-me ela, ao saudar-me à porta de casa.

Suspirei:
— Tanta coisa… Depois eu conto…
— Nem dormi, de tanta preocupação. Fiquei esperando…
Que bom, amor. Que bom te ver.
— Quer um cafezinho? — ofereceu-me, sorrindo.

Sorri de volta:
— Quero, sim.

Ah, era bom estar em casa, era bom tomar um café tranqüilamente no recôndito do lar, na segurança da minha cidade, em companhia da minha família. Sentamos à mesa da cozinha.
— E as meninas? — perguntei.
— Dormindo.
Estou com saudades delas.
— E elas de você.

Enquanto sorvia o café delicioso preparado por minha mulher, sentado à mesa da cozinha, ouvia sua voz macia. Ela me falava do quanto havia se preocupado, falava do que fizera durante o tempo em que eu estivera ausente, falava, falava, e era como se estivesse cantando para mim.

No entanto, conhecia-a bem. Notei que queria falar algo importante. Que estava ansiosa. Sorri, encorajando-a. Até porque não poderia falar das minhas desventuras porto-alegrenses com ela. Como contar que tentara fazer sexo com uma prostituta, por exemplo?

Teria de, no máximo, dizer que as marcas no carro haviam sido feitas por assaltantes que me atacaram em alguma sinaleira, que eu conseguira fugir e que eles reagiram atirando pedras no carro. E as marcas de unhadas no meu peito e nas minhas costas?… Teria de encontrar uma boa desculpa. Agora, o melhor seria ouvi-la. Saber que pequeno problema, que drama comezinho a afligia.
— Você quer me falar algo? — perguntei.

Ela sorriu:
— Você me conhece mesmo…

Estendi a mão por cima da mesa e tomei a dela:
— Fala, meu amor. Fala…
— Bom… É que estava pensando nas nossas meninas — explicou. — Pensando muito seriamente.
— Sim, meu amor?
— Pensando no futuro delas…
— Sim?…
— Aqui elas estão muito isoladas de tudo, longe de bons colégios, das universidades. Aqui o mercado de trabalho é muito pequeno…

Estremeci, adivinhando o rumo da conversa:
— S-sim?…
— Por isso, acho que nós temos que nos mudar para…

Levantei-me, a xícara de café na mão, prevendo o que ela ia dizer, não querendo acreditar no que ela ia dizer e, ao mesmo tempo, rezando para que ela não dissesse o que eu sabia que ela ia dizer. Mas ela disse. Disse:
— … Porto Alegre. Quero me mudar para Porto Alegre!

Ao ouvir o nome daquela cidade, minhas mãos começaram a tremer, minhas pernas afrouxaram, meus olhos se encheram d%27água, e chorei.

Sim. Sim. Eu chorei.


THE END

Postado por David

Horror na Cidade Grande - última ilustra

25 de fevereiro de 2008 16


Eis a ilustração do último capítulo de… Horror na Cidade Grande! Enquanto o texto não fica pronto, admirem a arte do Godinho!

Postado por David

A cara do pai

25 de fevereiro de 2008 13

Aprendi algumas coisas, em seis meses de pai. Em primeiro lugar, descobri que nenês são, definitivamente, criaturas úmidas. Estão sempre babando e, quando não estão babando, estão vomitando. Bem, claro, às vezes eles não estão babando nem vomitando, mas aí estarão urinando. O meu, já o vi babar, vomitar e urinar, tudo ao mesmo tempo. Múltiplas funções.

Também aprendi que os paninhos são muito importantes. O Bernardo tem um paninho de dormir. Só dorme se está abraçado naquele paninho e, se não tiver paninho, não dorme. Todas as vezes que falei do paninho para outros pais e mães, eles me disseram que os filhos deles também têm paninhos de estimação e não os largam por nada. Logo, os nenês, por algum motivo, adoram paninhos.

Finalmente, aprendi sobre as mães. Sobre o quanto elas são generosas. É que o filho, qualquer filho, nem bem nasceu, está todo enrugado, todo torto do parto, e a mãe, qualquer mãe, diz:

- É a cara do pai…

Depois, o nenê cresce um pouco, fica todo redondinho, a maior cara de nenê, sem nenhuma semelhança com adultos, e a mãe continua:

- A cara do pai…

Por que isso? É atávico. Vem do tempo em que a legítima paternidade era o maior drama masculino, depois da impotência. A mãe, ela tem certeza de que o filho é dela: o bichinho saiu DE DENTRO dela. O pai, que certeza poderia ter, num tempo em que não existia exame de DNA? Só a parecença. Assim, até hoje as mães continuam sublinhando a semelhança entre seus filhos e os pais, para que o homem, afinal, tenha alguma participação naquilo tudo, mesmo que o filho não seja em nada parecido com o pai. Elas, docemente, iludem os pais, vários pais.

Menos eu. Porque o Bernardo, garanto, ele é a minha cara!

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por qqq

Último capítulo

24 de fevereiro de 2008 14

Seguinte: o próximo capítulo de Horror na Cidade Grande, será  O ÚLTIMO CAPÍTULO!!!

Postado por David, trabalhandão no domingão

A volta da pantalona

24 de fevereiro de 2008 11

Fraga
Eu tinha uma pantalona cor-de-rosa, uma vez. Sentia o maior orgulho daquela pantalona cor-de-rosa. Porque vivíamos numa época de pantalonas. Lembro de um diálogo de dois caras mais velhos, no portão da frente do colégio. Um deles dizia:

— Tenho uma pantalona que é bem apertada aqui na coxa e, quando chega ao joelho, se abre até ficar desse tamanhão — e mostrava as duas mãos abertas, os dedos em cê, formando uma circunferência do tamanho de um Long Play.

O outro se admirava:

— Ela arrasta no chão?

— Arrasta.

— Massa!

Minha pantalona não era tão massa, mas fazia certo sucesso nas reuniões dançantes, sobretudo quando a usava com uma camisa amarela que tinha, com golas que desabavam pelos ombros abaixo, a camisa obviamente aberta quase até o umbigo e, no peito, um medalhão à la Rei Roberto. Nos pés, um Bamba branco que usei até rasgar de puído. A maior elegância.

Atualmente, esse figurino causaria espécie, bem sei. Só que tem o seguinte: a pantalona já voltou! Há poucos anos, as mulheres usaram pantalona novamente, lembram? Sabe por quê? Porque tudo volta.

Por isso asseguro: o ponta também voltará. O velho ponta driblador, que ia à linha de fundo e mandava um cruzamento perfeito para dentro da área, o ponta demolidor de defesas. Pontas como Edu, do Santos, o driblador mais irresistível do futebol brasileiro, ou o pequeno argentino Ortiz, que o Grêmio comprou por muito e que dava um drible em cima de um parquê, ou como o velho Valdomiro, que não driblava, jogava a bola na frente, corria e cruzava na cabeça de Escurinho.

Tenho certeza que o ponta voltará. Será o fim dos alas, essa excrescência tática, e a volta do ponta agudo e decisivo. Será a glória. Como glorioso era usar uma vistosa pantalona cor-de-rosa.

Abaixo a moela!

Eu odeio moela. Sempre que posso, falo mal da moela. Várias vezes escrevi artigos candentes contra a moela. Lembro do meu amigo Ricardo Carle, que adorava moela. Ele ia ao Jazz Café, sentava-se e pedia:

— Moela.

Eu:

— Blergue!

Ele insistia:

— Moela!

Aí vinha aquele prato de moela e eu:

— Que nojo!

Não adiantava. O Ricardo comia moela ainda assim, deliciava-se com moela. Eis a verdade: por mais que lance vitupérios contra a moela, jamais consegui fazer com que um único apreciador da moela desistisse de comer moela. Com o que concluo que esta história de formador de opinião é balela (rima com moela!). As pessoas só concordam com uma opinião quando é a mesma que a delas. Até porque existe um supermercado de opiniões, hoje em dia. Há opiniões sendo exibidas em rádios, TVs, jornais e internet, opiniões sendo dadas por pesquisas interativas, opiniões bradadas por taxistas, porteiros, médicos, designers. Cada um escolhe a opinião com a qual quiser concordar.

No entanto, em área alguma fervem tantas opiniões como no futebol. Há tantos programas esportivos, tantos comentários, tantas opiniões, que nenhuma é de fato importante. Portanto, posso afirmar que sou contra o campeonato de pontos corridos, que o Gauchão deveria durar no máximo um mês e que os clubes brasileiros deveriam se insurgir contra a CBF e a Fifa, esses vampiros a serviço dos piratas europeus. Posso dizer isso tudo, não fará diferença. Só concordará comigo quem já tiver essa opinião.

Zagueirão

Esse zagueiro do São Luís, Dirlei. Não joga a segunda partida contra o Inter, levou o terceiro amarelo, mas, no primeiro jogo, impressionou. Num lance dentro da área do São Luís, nada menos do que três atacantes do Inter o assediavam, arfavam atrás dele, ansiosos pela bola, e Dirlei, serenamente, arrastou a bola para o lado esquerdo, saiu jogando de queixo levantado e sem pressa, e com tranqüilidade, e com autoridade, quase bocejando. Fez algo parecido em mais três ou quatro lances, e ainda tirou de cabeça, e salvou gol, e limpou a área. Dirlei. Foi um jogo só, mas, ó: aí está um zagueiro.

* Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora

Postado por David