
Para o Túnel do Tempo, ainda atendendo ao pedido da Maria Lúcia Pires, de Porto Alegre, aí vai o segundo capítulo do minifolhetim que escrevi na Zero Hora em fevereiro de 1999:
Sexo engraxado. Era do que Amelinha gostava. Por isso ordenou ao mecânico Haroldinho: nada de banho! Pelo menos não antes de encontrá-la, o que aconteceria no dia seguinte. Haroldinho achou estranho, mas obedeceu. Assim, amaram-se violentamente, em meio a gaxetas e calotas, velas e carburadores. E passaram a ter um caso.
Ao cabo de um mês, porém, ele havia se enfarado. Queria se afastar. Foi quando ela contou que... estava grávida! Haroldinho ficou chocado, mas, algum tempo depois, no dia em que ela sugeriu que morassem juntos, ele pensou, pensou e, como estava morando mal, num puxado na oficina, resolveu aceitar. Foi um erro medonho.
Numa manhã abafada de sábado, Haroldinho reuniu seus parcos pertences e mudou-se para a casa de Amelinha. Nunca tinha ido até lá, embora não ficasse longe da oficina. Era sempre Amelinha que o visitava. Mal entrou no lugar, teve vontade de sair correndo. Havia um cheiro de coisa antiga no ar, um odor rançoso e quente. A sala era escura, repleta de pequenas estatuetas e castiçais com velas, algumas delas acesas. Amelinha foi-lhe apresentando as peças.
— Aqui é a cozinha — pequena e escura. — Aqui é o nosso quarto — grande e escuro. — E essa porta aqui — a porta! Naquele instante, ela disse a frase a respeito da porta, aquela que você leu no domingo (ontem, aqui no blog): — Jamais abra essa porta. Entendeu? Jamais!
Haroldinho estremeceu observando a porta pesada e cinza. Muito estranho, aquilo.
— Por quê?
— Porque sim. É só o que te peço: não abre essa porta nunca. Nunca!
Haroldinho achou melhor não perguntar mais nada. Devidamente instalado, sentou-se na sala escura e ligou a televisão. O Ituano jogava contra a Matonense. O Ituano tinha um centroavante muito bom que ele achava que devia ser contratado pelo Inter — Haroldinho era colorado radical. Dos fundamentalistas. Até havia escrito uma carta para a direção do Inter sugerindo a contratação do centroavante do Ituano, mas os homens nem deram bola para ele.
Haroldinho assistiu ao jogo se lamentando, %22como é que eles não vêem que esse guri é craque?%22, enquanto a mulher trabalhava na cozinha. Terminada a partida, bocejou, espreguiçou-se e já ia perguntar pelo jantar quando sentiu uma presença estranha na sala. Sabia que não era a Amelinha — podia vê-la com o canto do olho, perto do fogão. Mas tinha certeza de que havia alguém ali, às suas costas. Teve medo. Não conseguia definir porquê, mas sentia muito medo.
Arrepiou-se do tornozelo à nuca. Virou-se devagar. Olhou por sobre o ombro direito. Então foi o choque. O choque. Haroldinho viu uma coisa horrível, uma pessoa horrível. Uma velha. Magra, encurvada, com um rosto enrugado, um olhar maligno. Ao lado dela, duas crianças. Meninas. Ambas igualmente assustadoras. Haroldinho gritou, aaaah!, e levantou-se de um salto. A velha e as crianças continuaram impassíveis, analisando-o.
— De onde vocês saíram? — perguntou Haroldinho, o coração ribombando.
A velha falou, com uma voz que saiu de algum lugar sinistro e gelado:
— Nós sempre estivemos aqui.
— Quem é a senhora? — ainda estava nervoso.
— É a minha mãe — a resposta partiu de Amelinha, que chegara enxugando-se com um pano de prato.
— Mãe?
— Mãe. Ela mora com a gente. E essas duas são minhas filhas.
Mãe. Filhas. Que história era aquela? Ela nunca contara que tinha mãe e filhas. Nem que moravam com ela. Haroldinho estava perplexo. A velha rosnou algo. Haroldinho não ouviu direito, pareceu-lhe que dissera... %22pangaré%22? Teria sido isso?
Haroldinho não teve tempo de perguntar. A velha deu-lhe as costas e, levando as duas meninas pela mão, abriu a porta cinza e entrou no tal quarto proibido. Haroldinho queria falar algo, protestar, mas apenas ficou ali, de pé, sem entender nada, sem falar nada. Foi um erro. Se tivesse reagido naquele momento, talvez nada do que aconteceu teria acontecido. Mas aconteceu.
O quê? Você saberá amanhã.
Postado por David













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