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Túnel do Tempo

20 de março de 2008 6

Fraga
O Norton José, de Canoas, pediu uma crônica que escrevi sobre Schopenhauer durante a Copa de 2006 na Alemanha. Segue aí o texto*:


O ensinamento de Schopenhauer

%22Nesta Frankfurt, que sábado testemunhará o duelo entre Brasil e França, viveu o grande Arthur Schopenhauer, filósofo que muito teria a dizer para os brasileiros num momento assim decisivo. Verdade que a filosofia de Schopenhauer não tinha nada do hedonismo típico dos trópicos. Não. Tratava-se de um pessimista.

Tinha seus motivos. Por culpa, naturalmente, da mãe — quase tudo é culpa da mãe. Os problemas começaram em 1805, quando o pai dele se suicidou. Arthur, então com 17 anos, concluiu que a mãe não era isenta de responsabilidade pela tragédia. Principalmente porque ela, ao mudar-se para Weimar a fim de viver como escritora, adotou o amor livre. Arthur odiava vê-la trocando de parceiro a todo momento, o que só reforça a minha tese de que todas as mães têm de ser virgens.

A senhora Schopenhauer tornou-se uma escritora relativamente bem-sucedida na época. Só que Arthur começou a escrever também, e logo uma azeda rivalidade intelectual se instaurou entre eles. Arthur não era fácil, há que se admitir. Um dia, a mãe lhe mandou uma carta definindo-o da seguinte forma:

%22Você é insuportável e incômodo, é muito difícil viver ao seu lado; todas as suas boas qualidades são ofuscadas pelo seu convencimento e tornadas inúteis para o mundo simplesmente porque você não pode conter a sua propensão de achar defeitos nos outros%22.

Conheço uns gaiatos do século 21 que caberiam nessa descrição como se estivessem dentro das próprias cuecas.

***

O auge da disputa entre os dois aconteceu durante uma festa na qual Goethe, ninguém menos do que Goethe, previu à mãe que um dia o filho se tornaria famoso em todo o planeta. Dias depois disso, mãe e filho tiveram uma discussão áspera e ela o empurrou escada abaixo. Ele se levantou, limpou a poeira da roupa, olhou para cima e fez duas previsões: que nunca mais a veria, até que ela morresse; e que a posteridade o consagraria, enquanto ela afundaria no lodo do esquecimento dos tempos.

Ambas as previsões se cumpriram, embora ela ainda tivesse vivido 25 anos.

Isso tudo certamente contribuiu para que Schopenhauer se transformasse num misógino convicto. A opinião que ele desenvolveu a respeito das fêmeas da espécie não era nada favorável.

%22Quando os homens reconhecerem a cilada que há na beleza das mulheres%22, escreveu, %22a absurda comédia da reprodução acabará%22. E vaticinou: %22A evolução da inteligência irá frustrar a vontade de reproduzir-se, e com isso conseguir finalmente a extinção da raça. Nada poderia formar um desfecho mais belo para a insana tragédia da vontade inquieta%22.

Quem lê assim, na superfície rasa de uma folha de jornal, pode achar absurdo o pensamento de Schopenhauer.

É genial.

***

Em sua maior obra, Schopenhauer ensinava que o mundo é vontade. Que o desejo realizado cria um novo desejo, e assim por diante, eternamente. A vontade vive dela própria, porque nada existe além dela, e ela é uma vontade faminta. Logo, a vida é má. Porque tão logo a necessidade e o sofrimento dão uma trégua a um homem, o tédio se lhe aproxima tanto que ele necessariamente exige distração, isto é, mais sofrimento.

Por essa razão, por concluir que o desejo transforma a vida em dor, Schopenhauer dizia que a solução é desafiar a vontade e dizer que o maior de todos os benefícios é a morte. Ou seja: a extinção do desejo é a única maneira de alcançar a felicidade. Budismo em forma sólida!

Claro que uma filosofia tão arrevesada não obteve sucesso popular. Ao que Schopenhauer reagiu com altivez.

— Trabalhos como esse são um espelho — disse. — Se um burro olhar para ele, não se pode esperar que veja um anjo. E:

— Quanto uma cabeça e um livro se chocam e um deles produz um som como se estivesse oco, é sempre o livro?

Existe consolo maior para escritores sem leitores?

Com tais pensamentos a lhe incendiar o espírito, Schopenhauer só podia se transformar, além de misógino, em misantropo (vá procurar no dicionário!). Era um desconfiado. Mantinha seus cachimbos trancados à chave, jamais entregava o pescoço à navalha do barbeiro e dormia com uma pistola carregada sob o travesseiro. Suas noites eram atormentadas por pesadelos medonhos e seus dias afligidos por qualquer som mais alto do que o gorjeio do pintassilgo.

— Há muito que sou de opinião de que o volume de barulho que qualquer pessoa pode suportar está na proporção inversa de sua capacidade mental — disse um dia, e eu quase concordo com ele.

***

O único companheiro fiel do filósofo foi um poodle chamado de Atma (do brâmane, Alma do Mundo). A turma de gozadores de Frankfurt chamava o cachorro de %22SchopenhauerJúnior%22.

Desde que saiu da casa da mãe, Schopenhauer viveu numa pensão, e desta pensão jamais se mudou. Jantava sempre no %22Englisher Hof %22 e tinha um hábito curioso: ao sentar-se, colocava uma moeda ao lado do prato e prometia que ia dá-la aos mendigos na primeira vez que os oficiais ingleses que lá jantavam não falassem de cavalos, mulheres e cachorros.

Estranho e genial Schopenhauer. Mas o que ele tem mesmo a nos ensinar? A extinção do desejo, evidentemente. Se não nos angustiarmos com a vontade de ser campeões do mundo, não haveremos de sofrer, se não o formos. Tendo do lado oposto Zidane, Riquelme, Podolski e Beckham, não custa prevenir.%22


* Texto publicado em 29/06/2006 em Zero Hora

Postado por David

Comentários (6)

  • Luis Felipe Tusi diz: 20 de março de 2008

    David, mandei um email para o blog com uma crônica que escrevi sobre uma sensacional história que aconteceu com o Fonseca, o maior mulherengo que eu já conheci. Ele era casado, se envolveu com a Vanessinha que, por Deus nosso Senhor, calçava 35 e era sedenta por sexo.
    Se tiver um tempo (após dar o leitinho de soja para o Bernardo) dá uma lida nela.
    Forte abraço!

  • Luis Felipe Tusi diz: 20 de março de 2008

    David, mandei um email para o blog com uma crônica que escrevi sobre uma sensacional história que aconteceu com o Fonseca, o maior mulherengo que eu já conheci. Ele era casado, se envolveu com a Vanessinha que, por Deus nosso Senhor, calçava 35 e era sedenta por sexo.
    Se tiver um tempo (após dar o leitinho de soja para o Bernardo) dá uma lida nela.
    Forte abraço!

  • Deborah diz: 22 de março de 2008

    Pois é... é a tal "roda da vida": insatisfação - desejo - ilusão - satisfação momentânea - mais insatisfação - mais desejo - mais ilusão - mais satisfação momentânea... e assim por diante.
    Suprirmir o desejo, acho "meio impossível", mas controlá-lo e encontrar novas formas prá sua satisfação podem ser bons caminhos.
    Mas que mãe mais filha da... essa do Schopenhauer !!! menos mal que ele optou pela Filosofia; poderia ter sido mais um serial killer.
    Beijo grande !

  • Marcelo Oliveira diz: 21 de março de 2008

    Misturar Schopenhauer e Zidane foi uma sacada genial. Acrescento que o conhecimento é uma forma de sofrimento, pois a sede de saber por vezes nos leva a descobertas desagradáveis, sem contar que quanto mais cultura uma pessoa tem, menor seu âmbito de interação social.

  • Marcelo diz: 21 de março de 2008

    Schopenhauer é genial. Os melhores filósofos são os pessimistas. No pessimismo há melhor preparo existencial para o futuro: a gente pensa que vai dar errado e se prepara para que não dê errado. O otimismo vai meio no ôba-ôba, tipo o Brasil que, faz 60 anos, os otimistas dizem que é o país do futuro. O otimismo é a principal arma demagógica dos políticos em geral, especialmente dos políticos brasileiros.

  • leonardo prado diz: 24 de março de 2008

    MESTRE. OS DOIS.

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