
Letícia tomou a tesoura das mãos de Mari. Fábio não conseguia tirar os olhos daquela tesoura.
— Seguinte — começou ela, andando de um lado para outro no quarto, abrindo e fechando a tesoura, fazendo um ruído seco e apavorante, nec, nec. — Vou dizer agora o que vai acontecer com você.
Nec. Nec.
A respiração de Fábio tornara-se pesada. Fitava Letícia com olhos de cachorro pidão. Seu destino estava nas mãos dela. Ela podia fazer o que bem entendesse com ele. Era uma sensação miserável aquela, a de que seu futuro dependia de outra pessoa.
— Como já disse: nós planejamos tudo — nenecnec — Tudinho. O nosso encontro no bar. O assalto. Esse teatrinho que fizemos agora, ameaçando cortar o seu pequenino pênis — NEC! — Ou estraçalhar o seu sombrio ânus.
Mari expeliu uma breve gargalhada sardônica. Fábio sentiu seu pênis diminuir ainda mais, quando ela o mencionou. Que história era aquela de pequenino pênis? Seu pênis não era pequenino. Dezessete centímetros em posição de sentido.
— Todo o nosso plano deu certo — continuou Letícia. — E vai continuar dando certo — Nec, nec, nec. — Você vai se dar mal, rapaz.
Agora, o que diminuía em Fábio era o seu coração. Aquela frase, %22você vai se dar mal%22, pendia como uma espada sobre sua cabeça. O que elas pretendiam?
— Nós planejamos essa vingança durante muito tempo - nec - O que você fez com a minha irmã, fez porque é um filhinho de papai arrogante. Pois bem. O que seria o pior para um filhinho de papai arrogante? Ou, por outro lado: o que seria o pior para o filhinho de papai e para o papai?
Ela o encarou como se esperasse resposta. Continuava manejando a tesoura, nec, nec, nec, nec. Fábio tentava raciocinar. Não sabia o que era pior para ele e para o seu pai.
— O seu pai é advogado — ela foi em frente. — Você é advogado. Você não pode ter problemas com a lei, não é mesmo?
Amarrado, amordaçado, pelado, suado, Fábio estremeceu. Anteviu o que o esperava.
— Não sei se você sabe, advogado: — prosseguiu a loira — essas lojas de conveniência são dotadas de câmeras. Nunca viu aquele cartaz: %22Sorria, você está sendo filmado%22?
Fábio arregalou ainda mais os olhos. Queria chorar. Letícia riu. Abriu e fechou a tesoura com mais velocidade, necnecnecnecnecnecnec!
— Pois é. Você foi filmado, sabia? Toda aquela sua atuação no posto.
— Não disse que é um idiota? — emendou Mari.
— É mesmo. Um idiota. Agora, caro advogado, nós vamos embora daqui. Vamos levar o dinheiro que você roubou e vamos deixá-lo deitadinho, amarradinho, peladinho. Logo, logo, o pessoal do motel vai entrar no quarto e descobri-lo. Claro que eles vão chamar a polícia, até porque você vai estar nu e sem dinheiro. E a polícia vai comparar o seu rostinho com o que viu na fita do posto. Aliás, o seu rostinho já deve ter aparecido em todos os telejornais, uma hora dessas. Você deve ficar contente: vai sair dessa com os testículos e o ânus inteiros, mas uma coisa lhe prometo — e Letícia aproximou-se dele mais uma vez, a tesoura na mão, nec, nec. — Prometo que, se nos encontrarmos de novo — abriu e fechou a tesoura, NEC! — você vai sair sem tico.
Dito isso, ergueu a tesoura fechada acima da cabeça, segurando-a com as duas mãos. Ajoelhou-se na cama e, num golpe seco, olhando para seu pênis, vibrou o golpe. Fábio urrou:
— MNIIIIIIIIIIIIIIIIIh!!!
E a tesoura ficou cravada no colchão, entre as pernas abertas de Fábio, a um palmo de seu saco escrotal, que, numa hora dessas, estava do tamanho de uma ervilha.
— Vamos, Mari? — chamou Letícia, rindo.
Levantou-se da cama, deu-lhe as costas e saiu caminhando. Mari foi atrás, gargalhando como uma bruxa de filme. As duas irmãs desceram até a garagem do quarto ao lado, onde o carro de Mari estava estacionado. Letícia sentou-se ao volante. Engatou a primeira marcha. A segunda. À saída, estendeu um maço de notas de reais para o atendente.
— Lembra do que combinamos — disse. — Você não viu direito o rosto da mulher que estava com ele.
— Podeixar!
— Deixa ele amarrado mais uma duas ou três horas, pode ser?
— Claro. Até mais.
— Quatro horas, então.
— Quatro horas.
O portão se abriu. O carro arrancou. Na rua, Mari suspirou:
— Foi tão legal...
— Foi... Sabe, estava pensando...
— No quê?
— A gente podia fazer isso mais vezes.
— Viver disso?
— Viver disso, por que não? Não seria divertido?
— Ah, seria... Quem sabe até eu podia fazer um cortezinho no próximo cara.
— Por que não?
— Ah, vai ser divertido.
— Vai. Vai ser muito divertido!
No quarto do motel, amarrado, amordaçado, nu e humilhado, Fábio ouvia o ruído do carro a se distanciar.
THE END
Postado por David
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