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Túnel do Tempo

21 de abril de 2008 9

Júlio Cordeiro, Banco de Dados

%22Boa noite, David!

Gostaria de perguntar se é você o autor de uma crônica em que o protagonista tomava chimarrão com uma turma de %22desconhecidos%22, com medo de que a bomba trancasse. Acredito que era uma época em que você estava substituindo o colunista Sant%27Ana!

Caso seja você o autor da crônica, é possível publicá-la em seu blog? Eu ficaria muito feliz com a mencionda publicação. Caso não seja você o autor, é possível ao menos dar-me uma luz sobre como posso encontrá-la?

Obrigado pela atenção!

Um forte abraço,
Jorge Paulo Bonalume
Farroupilha - RS%22

***

Encontramos a crônica que você procurava, Jorge, de 1999. E o autor sou eu, sim. Aí está:


Que doçura, que nada!

O mate doce. Que coisa, o mate doce. O Rio Grande se levanta contra a doçura no chimarrão, algo que, do Mampituba para cima, poucos compreenderiam. Afinal, teoricamente o chimarrão é uma bebida tão prosaica, pois não? Houvesse um manual de instruções ensinando como matear, ele seria curto e seco como um drible do Denílson. Materiais: chaleira, cuia e bomba. Ingredientes: erva e água quente. E deu. Barbada, certo? Errado.

A água, por exemplo. Um amigo meu, do Alegrete, sempre grita, quando alguém deixa a água do chimarrão ferver:
— Deixaste queimar a água, imbecil!

Eu mesmo fico lá, vigiando a chaleira para evitar que ferva, mas, para ser sincero, duvido que a água fervida mude de gosto. Talvez queime a erva, com isso concordo. Agora, mudar de gosto, não. Ah, não.

Outra: a cevada. Historicamente, formaram-se duas escolas de cevada: a da água quente e a da água fria. Ainda não decidi a qual vou aderir.

Assim como as discussões acerca do morrinho. Muitos não admitem fazer o morrinho com prato. Dizem que é coisa de bicha que não quer sujar a mão. Já os adeptos do prato invocam razões estéticas: o morrinho feito com prato fica harmônico, retinho, lindo, lindo. E a colocação da bomba, então? Há anos me pergunto: devo ou não tapar o bocal ao introduzi-la no morrinho? O que é o certo, afinal? Alguém precisa me dizer.

Mas o pior é quando se está numa roda estranha. Um dia, fazendo matéria no interiorzão do Estado, parei num desses bolichos de campanha. Era uma vendinha levantada sobre uma coxilha, com réstias de cebola e salames italianos pendendo do teto. Entrei. Sentados em barris, esparramados pelos cantos, três índios velhos de chinelas e bigodes, recostados tranqüilamente, proseando sem pressa. Atrás do balcão, o bodegueiro gordo e sorridente, que me recebeu com um boas-tardes luminoso.

— Uma de canha! — pedi, caprichando no acento do %22de%22 e dando um soco no balcão.

Ele me serviu. Fiquei ali, ouvindo a conversa mansa deles. Foi quando um me estendeu a cuia:
— Vai no mate? — perguntou, de dentro das bombachas. Sorri, satisfeito. Era um claro sinal de amizade. O gaudério estava me convidando para entrar na roda de chimarrão deles. Apanhei a cuia. Com a mão direita. Sempre com a mão direita! Levei a bomba aos lábios. Então aconteceu.

Entupiu.

A bomba entupiu. Fazia força, sugava com toda a potência dos meus pulmões, com todo o vigor das minhas bochechas, e nada. Comecei a suar. Sabia que aquilo era grave. Eu, um magrinho da cidade, ia para a campanha para entupir a bomba dos verdadeiros gaúchos. Era um fiasco. Uma tragédia. Eles me encaravam com alguma curiosidade. Eu estava demorando demais. Daqui a pouco um poderia dizer:
— Conheço um burro que morreu com a cuia na mão...

Jesus! O que faria? Era uma vergonha. O opróbrio. A desonra do IAPI, de toda a Capital e Região Metropolitana. Porque o chimarrão é a ligação mais íntima que os habitantes do Rio Grande do Sul mantêm com o gauchismo. Visivelmente, o que diferencia um gaúcho de um paulista consultor de empresas é a cuia.

Não é por outro motivo que o Pampa luta contra o mate doce. Porque o chimarrão foi o que restou. Tantas guerras e revoluções, tantas gineteadas, tanto rodar de boleadeiras, e ficamos com o chimarrão. Por isso o culto ao hábito de matear. Por isso toda a sofisticação. Todas as normas. Todas as regras. Regras que eu estava quebrando. Tradições jogadas pela coxilha. Era o desespero.

Já estava com os dentes doloridos de tanto forcejar na bomba, pensando em jogar a cuia para cima e sair correndo, quando se deu o milagre. Desentupiu. Sabe-se lá por que bendita razão, desentupiu. Ri sozinho. Gargalhei, para espanto dos gaudérios. Sorvi o mate com gosto. Enchi a boca do líquido quente e amargo e ouvi o salvador ronco final. Estava tudo bem. Sim, sim, estava tudo bem. Suspirei e devolvi a cuia alegremente. Com a mão direita, claro. Sempre com a mão direita!


*Texto publicado em 16/01/1999 em Zero Hora

Postado por David

Comentários (9)

  • Carnicelli diz: 21 de abril de 2008

    P R O T E S T O ! ! !
    Mas que história é esta : paulista consultor de empresas ???
    Pois saiba o amigo, que me considero um "Paulucho ", título aliás concedido por amigos gaudérios ddos Pampas ! Paulista com coração gaúcho !
    Sei me comportar na roda de mate, manejo muito bem minha faca de churrasco, conheço o melhor churrasco da capital ( aquele da rodoviária ), e por aí vai!
    Ah....sou consultor das seguintes empresas : TELET E CRT !!!
    Abraços Gaudérios

  • dirceu diz: 22 de abril de 2008

    Com o estadio lotado, porque nao passar pela Tv, ninguem assite aos jogos de Rio e Sao Paulo. Eu nao entendo, todo mundo sabe que TV aberta no Brasil da mais gtran que a fechada.

  • Marcelo Sperling diz: 22 de abril de 2008

    Bah, te escapaste bem dessa!

  • Alfredo Bonessi diz: 21 de abril de 2008

    No meu tempo era assim,lá pelos 1967. Costumava-se dar guarida , abrigo, a quem chegasse em frente de uma casa, a qualquer hora do dia ou da noite e pedisse pouso."ohhhhh de casa ! tem quero pouso!" - dessa e se aprochegue ! - respondia o dono da casa. E o visitante descia do cavalo e recebia chimarrão e comida por aquela noite e saia no outro dia cedinho, ao nascer do sol.Agradecia e não pagava nada.De posse da chaleira e da cuia, qualquer um que pedisse um mate ganhava.Ainda é assim ?

  • João Carlos diz: 22 de abril de 2008

    Sou goiano e vim para Sul tem pouco tempo. Fiquei admirado com paixão dos Gauchos pelo seu estado e pela sua cultura. Com certeza eu hoje sou viciado em Chimarrão e é uma coisa que não tem como não viciar.

  • João Regis Oliveira diz: 21 de abril de 2008

    Olá David Coimbra

    Eu e minha esposa somos teus leitores e admiradores há muiito tempo. Raros os escritores em geral e jornalistas em particular que escrevem tão bem em forma e conteúdo.Muito poucos ou, em nossos dias nenhum, tem o equilíbrio nos variados conteúdos que enfrentas.MAIS AINDA, SEM PERDER A SIMPLICIDADE E UMA BOA DOSE DE HUMOR.ISTO NÓS VEMOS MESMO NOS TEMAS MUITO SÉRIOS.....É COISA RARA
    DIGNA DE UM VOLTAIRE.SERIA BOM UMA PUBLICAÇÃO DE TUDO EM LIVRO hEIN?! hEIN?!... OBRIGADO.

  • Paulo Pitameia diz: 21 de abril de 2008

    Que evolução; como te soltastes de 99 para cá teus textos melhoram a cada ano Parabens!!!!!

  • José de Alencar Souza da Silva diz: 22 de abril de 2008

    Rio Grande,Rio Grande,viva a nossa gente honesta e trabalhadora,essência da nação brasileira,cutivamos todas as esperanças de que haja um futuro melhor e teremos nossos sonhos realizados.

  • Júlio Luiz Morosini Filho diz: 28 de abril de 2008

    Continuo com meus hábitos gaudérios. Não dispenso o chimarrão e vibro e sofro pelo meu INTER !
    Um abraço

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