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Posts de abril 2008

Vencedores

30 de abril de 2008 3

Acho que o pessoal que quer ir no Atlântida Festival não estava muito inspirado nesses dias. Como as frases não foram nenhuma explosão de criatividade, o Diretor Administrativo do Blog, Paulo Germano, promoveu um sorteio e os leitorinhos que ganharam os ingressos foram…

Fábio Magalhães dos Santos
e Marcelo Benfica

Os ingressos estarão à disposição deles na recepção da Redação de Zero Hora.

Postado por David

Ela bate nele

30 de abril de 2008 9


SÓ NO BLOG

Tenho um amigo que apanha da mulher. Mas apanha mesmo. Ela bate de mão fechada, tira sangue e tudo mais. A coisa não começou de uma hora para outra. Foi lenta e inexoravelmente. Assim: um dia, durante uma discussão, ela deu um beliscão nele. E ele, em vez de ficar chateado ou brabo, tornou-se mais carinhoso.

Foi como um código para ela.
Um recado.

Na briga seguinte, o beliscão foi mais forte. Ele ficou ainda mais meigo. Fez biquinho. Cara de pocolino. Na terceira discussão, ela deu um tapa no ombro dele. Ele abaixou a cabeça e ganiu feito um cachorrinho. Em algumas semanas, ela já estava dando na cara dele.

Ela batia e o insultava aos berros. O prédio todo ouvia os xingamentos:
— Safado! Sem-vergonha!

Alguns vizinhos até colaboravam:
— Corno!

E ela:
— Isso mesmo: corno!

Meu amigo chegou ao fundo do poço da dignidade.

Um dia, quando o encontrei sentado sozinho num bar, meio bêbado, com um olho roxo, não agüentei mais. Falei:
— Cara, tu tens que deixar essa mulher. Pela tua honra, pela tua saúde mental, pela tua hombridade, pela dignidade do gênero masculino, tu tens que deixar dela! Ela bate em ti, meu!

Então ele ergueu aquele olho roxo, me olhou com uma cara pidona de cachorro vira-lata, e gemeu:
— Mas eu gosto tanto…

E até hoje eles vivem felizes, uma sádica e um masoquista juntos, cada um contente com seu papel.

Postado por David

Imeils

30 de abril de 2008 4

Tem muita gente chateada comigo porque não respondo os imeils.

Eu respondo. Juro! Só que, como há muitos, centenas deles, às vezes não consigo dar conta. Mas vou me corrigir. Prometo.

Vou atualizá-los até o fim da próxima semana!!!

Postado por David

A precisão de Sheryl

30 de abril de 2008 12

Arte ZH
Cada vez que vejo a Sheryl Crow penso a mesma coisa. Sabe quem é: aquela cantora americana, gosto das músicas dela. Pois a Sheryl está preocupadíssima com a natureza, o planeta e talicoisa e, por conta disso, adotou costumes radicais. Entre eles um que revelou em certa entrevista: Sheryl usa apenas uma folhinha de papel higiênico para limpar-se. Um único daqueles quadradinhos menores do que a palma da mão do Clemer.

Essa informação acerca de Sheryl me intriga. Como ela consegue ser tão precisa? Tão… certeira? Então, se ouço a Sheryl cantar ou se a vejo em fotos ou na TV, sempre lembro: um único quadradinho de papel higiênico, um único!!! Tudo o mais sobre Sheryl é secundário para mim, por mais que ela já tenha feito.

É o que vai acontecer com Ronaldo Nazário, a partir de agora. As pessoas olharão para ele e pensarão: ele se regalou com três travestis! Três travestis!

Não tenho o menor preconceito contra travestis ou contra quem se relaciona com travestis. Não vejo nenhum problema, por Deus. Mas Ronaldo, ele que já teve Ronaldinhas e Raicas e Danielas Cicarellis, ele que já ganhou uma Copa do Mundo, que já fez gols às centenas, ele que já fez tanto por tantos, ele, agora, por muito tempo, será lembrado tão-somente por esse episódio.

Vou dizer: o mundo é mau.

Há certo tempo, entrou na Redação uma moça deveras formosa. Andava pelo mundo em cima de pernas compridas, que terminavam em nádegas redondas. Aliás, tornou-se célebre, entre os colegas, pela circunferência de suas nádegas.

- São as nádegas mais redondas que já vi! – dizia sempre um dos gaiatos aqui do Esporte.

- O mundo todo – comparava outro – as nádegas dela são o mundo todo. Redondas como o planeta.

Eram, de fato, bem redondas. Mas bem redondas. Todos só falavam naquelas nádegas redondas, até que um amigo nosso, de outra editoria, entabulou um caso com a dita cuja. Foi algo rápido. Porém intenso. Ao cabo do que, ela o abandonou e ele, ressentido, saiu pelo jornal divulgando os hábitos sexuais da moça. Relatou as preferências dela, inclusive uma que deixou a todos… como direi? Enfeitiçados. Isso: ficamos todos enfeitiçados.

- Então ela gosta disso? – perguntavam-se os colegas de Redação.

E, a partir daquele dia, qualquer um que a encontrava, pensava: %22Ela gosta daquilo, sim, ela gosta daquilo%22. Os talentos profissionais da moça, suas nádegas redondas, suas pernas longas, sua simpatia, nada mais vinha em primeiro lugar. Apenas: %22Ela gosta daquilo%22.

Já disse, o mundo é mau.

*Texto publicado hoje na página 59 de Zero Hora.

Postado por David

Abel, o profissional

30 de abril de 2008 38

O futebol, sempre digo, não passa de um jogo. E, como tal, é uma atividade rasteira e superficial. Em geral, as pessoas envolvidas com o futebol são exatamente assim: rasteiras e superficiais. Mas o futebol é, também, o Brasil que dá certo. O futebol brasileiro funciona, e funciona bem. Os médicos, preparadores físicos, técnicos, jogadores, todos são os melhores do planeta. Disparado.

Mas a competência no futebol brasileiro tem uma fronteira da qual não passa: o vestiário. Foi o que um dia disse o velho técnico Flávio Costa, do Vasco e da Seleção:

- O futebol brasileiro só é profissional da boca do túnel para dentro do campo.

Eis aí uma das mais sólidas constatações que fiz nesses mais de 20 anos que cubro futebol: que os profissionais orgulham-se justamente de ser profissionais. E eles são. Cada vez mais. O emocionalismo, as loucuras, as paixões, tudo o que é excesso fica restrito ao âmbito dos torcedores e dos dirigentes. Que, afinal, não passam de torcedores, também. Os profissionais sabem que dependem da sua atividade para sobreviver. Não a arriscam por um arroubo. E respeitam uns aos outros.

Admiro essa postura dos profissionais do futebol. Por isso, sempre fico decepcionado quando um deles se porta de outra maneira, como ocorreu com o técnico Abel Braga, dias atrás. Segunda-feira, Abel estava sendo criticado por um apresentador de programa de TV de São Paulo e ligou para a emissora a fim de rebater. Em sua defesa, criticou Zero Hora. Insinuou que o jornal %22torce%22 pelo Grêmio e contra o Inter.

Não pretendo defender o jornal. O jornal não precisa da minha defesa. Pretendo examinar a atitude de Abel. Fosse ele um torcedor, eu entenderia. O torcedor é passional. Para o torcedor, o mundo é um Gre-Nal. Mas Abel, não. Abel é um profissional. Jogou e treinou, por exemplo, no Flamengo, no Fluminense e no Vasco. Será que torcia por algum deles? Talvez sim. Supondo que torcesse pelo Fluminense: quando treinava o Flamengo e disputava um Fla-Flu, Abel jogava para perder?

Claro que não. Abel é um profissional.

Será que Abel acredita que um veículo de comunicação, qualquer veículo de algum sucesso, é menos profissional do que ele? Será que Abel acredita que os jornalistas, que dependem do jornalismo (e não do futebol) para viver, são menos profissionais do que ele? Será que acredita, mesmo, que uma empresa arriscaria sua sobrevivência por causa de um clube de futebol?

Claro que não. Abel é um profissional.

Nesses 12 anos em que sou editor de esportes de Zero Hora, não lembro de outro profissional do futebol que tenha feito declarações similares. Por isso, não fico irritado com o que disse Abel, um técnico campeão do mundo, ilustrado, experiente, um profissional, enfim. Fico, só, decepcionado.

*Texto publicado hoje na página 59 de Zero Hora.

Postado por David

Diário do Potter

29 de abril de 2008 17

O L. Potter está no Canadá. Uns dizem que ele está fazendo curso de inglês, outros que a missão dele é mais… digamos… sofisticada. Sabe-se lá.

Seja como for, o Potter topou ser o correspondente do blog no Primeiro Mundo. Vai mandar textos e fotos com comentários com o que vê lá. Aí vão os primeiros!



Foto: L. Potter

Caixinha de jornal

Quanto tempo uma Zero Hora duraria num baú desses (foto acima) no centro de Porto Alegre? Quando um guasca como eu sai do Alegrete e depara com uma coisas dessas, ele, o guasca, fica meio assustado.

Quando teus amigos viajados gritavam %22Primeiro Mundo é outra coisa…%22, garanto que tu ficava com raiva por estarem se exibindo e meio que pensava %22esse negócio de Primeiro Mundo é coisa de primeiro capítulo da novela das 8 (ou das 9?), em que um casal do elenco sempre tá em Paris, Veneza, Roma etc%22. Mas não é, rapaz!

No Canadá, tua bicicleta dorme do lado de fora e, por incrível que pareça, tu bota 1,25 dólar canadense no baú e, tcharans!, cai nas tuas mãos o melhor jornal de Vancouver, The Globe and Mail.

Como diziam os exibidos viajados, coisa de Primeiro Mundo…



Foto: L. Potter

Pedinte canadense

Andando distraído, olhando as vitrines com roupas sem preços, deparo com um pedaço da América do Sul.

Uma pedinte, no chão, fazendo o que fazem pelo Brasil em cada esquina, sinaleira, saída de restaurante: pedindo trocados. Os canandenses fazem como a maioria de nós: passam reto, ignoram. A pedinte, sorridente, não liga.

Cinco minutos observando, algumas moedas arrecadadas, ela olha pra mim e pergunta, em inglês: %22 Daonde tu é?%22 Respondo que do Brasil. Ela brinca: %22Engraçado, só brasileiros ficam me olhando.%22

Penso eu: olhamos porque não acreditamos que uma coisa tão brasileira, pedintes, também existe em Vancouver — que, segundo o The Economist, é uma das três melhores cidades do mundo pra se viver.

Postado por David

O gol do Ju

29 de abril de 2008 6

JOGADA COMENTADA

Como eu já havia falado por aqui, Jogada Comentada é uma seção de zerohora.com. Vez em quando, o Wianey comenta um lance de jogo, noutras vezes, o Diogo Olivier, noutras esse seu escravo.

No primeiro jogo da final do Gauchão, falei sobre o gol do Juventude:


Postado por David

Atlântida Festival

29 de abril de 2008 48

Como esse é um blog família, acatei os pedidos de alguns leitorinhos e não promoverei mais o concurso sobre fantasias sexuais mais criativas. Quem escrevesse a mais interessante ganharia convite para o Atlântida Festival, lembram?

Então, agora os convites irão para quem postar a frase mais interessante sobre o Pretinho Básico, aqui, neste post

São dois convites! Mexam-se!!!

Postado por David, de casa, tomando um mate

Desembargador

28 de abril de 2008 57

Arquivo Pessoal


 

 

Esse que está olhando muito sério para os leitorinhos, com suas bolitas pretas, é o meu filhinho Bernardo.

Por essa foto vocês podem ver como ele, de fato, já tem um jeitão de desembargador.

Tem só oito meses, mas, creiam, já faz sucesso com as mulheres.

Postado por David

O velho IAPI

28 de abril de 2008 29

O Foto Nick, que fica lá na Brasiliano de Moraes, cedeu-me algumas antiqüíssimas imagens do IAPI. São tesouros dos anos 40 e 50 que agoro partilho com os leitorinhos.



Fotos: Acervo Foto Nick

Essa primeira é uma vista aérea do bairro, ainda em formação. À esquerda, vê-se a ponta do Estádio Alim Pedro, onde eu dava meus lançamentos de 50 metros, às vezes até 60, onde vi o lateral-direito Cabral quebrar pernas em três pedaços, onde o Canarinho jamais perdia jogo, onde uma vez o Edu Brittes bateu tanto num dos nossos inimigos neguinhos da Frei Caneca que tirou ranho e sangue do nariz dele, onde a Karen foi vista na carona na Mobilete do Bira, causando escândalo entre as gurias do bairro, já que a fama do Bira era de que ele apalpava os seios de todas as gurias que subiam na Mobilete dele, onde havia uma moquinha na qual os adeptos da canabis guardavam as trouxinhas de erva deles, onde aconteciam desfiles das escolas de samba com o alto-falante anunciando: %22Carnaval é aqui, é na Vila do IAPI!%22



Dentro do Cadillac 1947 está ninguém menos do que o presidente Getúlio Vargas, o homem que planejou o Brasil. E planejou o IAPI também. Getúlio trouxe o Cadillac do Rio para vir a Porto Alegre, contemplar a obra que fora levantada por inspiração sua. A avenida por onde transcorre o desfile é a Brasiliano de Moraes, porta de entrada do IAPI, esse bairro que é a Liverpool de Porto Alegre!



Eis a entrada do IAPI, a Avenida Brasiliano de Moraes. O edifício do lado direito é onde fica a Foto Nick, do autor dessas fotos. Note o bonde elétrico à direita e o ônibus estilo anos 50 à esquerda. Os bondes elétricos seriam uma boa solução para o trânsito e a poluição, mas e aí como ficariam os lucros das empresas fabricantes de carros e ônibus?



Um desses dois de branco é o engenheiro Edmundo Gardolinski, autor do projeto do IAPI. Acho que o da direita. Edmundo Gardolinski já foi nome de uma escolinha no bairro, onde vou votar. Saindo da foto, à direita, um dos carrões dos anos 30 ou 40. Acho que 40. O descampado ao fundo é nada mais nada menos do que o que seria o Estádio Alim Pedro, ali onde dava aqueles lançamentos de 60 metros e… Vocês sabem.

Postado por David

Eu acredito é na rapaziada

28 de abril de 2008 20

Umas nove da noite e eu ainda escrevendinho na Redação. Toca o telefone. É a Marcinha, empolgadíssima:
— Sabe o que é que ele fez indagorinha? — pergunta, sem nem dizer alô.

Sei quem é %22ele%22. O Bernardo, evidentemente. Até porque também falo assim. Chego em casa e pergunto:
— Ele já está dormindo?

Ou então:
— Acho que ele está chorando.

Ou ainda:
— Ele já comeu?

Ele.

Por isso, quando ela falou ele, me entusiasmei também:
— O quê? O que foi que ele fez???

E a Marcinha contou que estava cantarolando a música de abertura da novela, aquela do Gonzaguinha, %22Eu acredito é na rapaziaaaadaaa%22, e o Bernardo, sentadinho no sofá da sala, virou-se todo e olhou para a TV, interessado, os olhões pretos muito arregalados.

Eu:
— É mesmo?!

Ela:
— Foi!
— Que maravilha!

Depois de desligar o telefone, relatei para todos, aqui no Esporte, a nova façanha do meu filhinho. A turma me escutou pacientemente, alguns até perguntaram detalhes, amigos compreensivos que são.

E assim tem sido. O jeito que ele ergue a mãozinha para o alto, como nos quadros medievos do Menino Jesus, a forma como se lambuza todo quando come feijão, a posição em que fica no berço ao dormir, o único dentinho que tem na boca e, mais ainda, os bracinhos que me estende para pegá-lo no colo e o sorriso que me dá de manhã, esses gestos singelos, comezinhos e até bobos são capazes de me deixar alegre e orgulhoso.

Como pode? Como posso ser, eu mesmo, tão singelo, comezinho e até bobo? Talvez seja porque as coisas boas da vida sejam exatamente assim, singelas, comezinhas e até bobas.


*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora

Postado por David

Uma Arma na Bolsa - ÚLTIMO CAPÍTULO

25 de abril de 2008 51

Júlio Cordeiro

Letícia tomou a tesoura das mãos de Mari. Fábio não conseguia tirar os olhos daquela tesoura.

— Seguinte — começou ela, andando de um lado para outro no quarto, abrindo e fechando a tesoura, fazendo um ruído seco e apavorante, nec, nec. — Vou dizer agora o que vai acontecer com você.

Nec. Nec.

A respiração de Fábio tornara-se pesada. Fitava Letícia com olhos de cachorro pidão. Seu destino estava nas mãos dela. Ela podia fazer o que bem entendesse com ele. Era uma sensação miserável aquela, a de que seu futuro dependia de outra pessoa.

— Como já disse: nós planejamos tudo — nenecnec — Tudinho. O nosso encontro no bar. O assalto. Esse teatrinho que fizemos agora, ameaçando cortar o seu pequenino pênis — NEC! — Ou estraçalhar o seu sombrio ânus.

Mari expeliu uma breve gargalhada sardônica. Fábio sentiu seu pênis diminuir ainda mais, quando ela o mencionou. Que história era aquela de pequenino pênis? Seu pênis não era pequenino. Dezessete centímetros em posição de sentido.

— Todo o nosso plano deu certo — continuou Letícia. — E vai continuar dando certo — Nec, nec, nec. — Você vai se dar mal, rapaz.

Agora, o que diminuía em Fábio era o seu coração. Aquela frase, %22você vai se dar mal%22, pendia como uma espada sobre sua cabeça. O que elas pretendiam?

— Nós planejamos essa vingança durante muito tempo – nec – O que você fez com a minha irmã, fez porque é um filhinho de papai arrogante. Pois bem. O que seria o pior para um filhinho de papai arrogante? Ou, por outro lado: o que seria o pior para o filhinho de papai e para o papai?

Ela o encarou como se esperasse resposta. Continuava manejando a tesoura, nec, nec, nec, nec. Fábio tentava raciocinar. Não sabia o que era pior para ele e para o seu pai.

— O seu pai é advogado — ela foi em frente. — Você é advogado. Você não pode ter problemas com a lei, não é mesmo?

Amarrado, amordaçado, pelado, suado, Fábio estremeceu. Anteviu o que o esperava.

— Não sei se você sabe, advogado: — prosseguiu a loira — essas lojas de conveniência são dotadas de câmeras. Nunca viu aquele cartaz: %22Sorria, você está sendo filmado%22?

Fábio arregalou ainda mais os olhos. Queria chorar. Letícia riu. Abriu e fechou a tesoura com mais velocidade, necnecnecnecnecnecnec!

— Pois é. Você foi filmado, sabia? Toda aquela sua atuação no posto.
— Não disse que é um idiota? — emendou Mari.
— É mesmo. Um idiota. Agora, caro advogado, nós vamos embora daqui. Vamos levar o dinheiro que você roubou e vamos deixá-lo deitadinho, amarradinho, peladinho. Logo, logo, o pessoal do motel vai entrar no quarto e descobri-lo. Claro que eles vão chamar a polícia, até porque você vai estar nu e sem dinheiro. E a polícia vai comparar o seu rostinho com o que viu na fita do posto. Aliás, o seu rostinho já deve ter aparecido em todos os telejornais, uma hora dessas. Você deve ficar contente: vai sair dessa com os testículos e o ânus inteiros, mas uma coisa lhe prometo — e Letícia aproximou-se dele mais uma vez, a tesoura na mão, nec, nec. — Prometo que, se nos encontrarmos de novo — abriu e fechou a tesoura, NEC! — você vai sair sem tico.

Dito isso, ergueu a tesoura fechada acima da cabeça, segurando-a com as duas mãos. Ajoelhou-se na cama e, num golpe seco, olhando para seu pênis, vibrou o golpe. Fábio urrou:
— MNIIIIIIIIIIIIIIIIIh!!!

E a tesoura ficou cravada no colchão, entre as pernas abertas de Fábio, a um palmo de seu saco escrotal, que, numa hora dessas, estava do tamanho de uma ervilha.
— Vamos, Mari? — chamou Letícia, rindo.

Levantou-se da cama, deu-lhe as costas e saiu caminhando. Mari foi atrás, gargalhando como uma bruxa de filme. As duas irmãs desceram até a garagem do quarto ao lado, onde o carro de Mari estava estacionado. Letícia sentou-se ao volante. Engatou a primeira marcha. A segunda. À saída, estendeu um maço de notas de reais para o atendente.

— Lembra do que combinamos — disse. — Você não viu direito o rosto da mulher que estava com ele.
— Podeixar!
— Deixa ele amarrado mais uma duas ou três horas, pode ser?
— Claro. Até mais.
— Quatro horas, então.
— Quatro horas.

O portão se abriu. O carro arrancou. Na rua, Mari suspirou:
— Foi tão legal…
— Foi… Sabe, estava pensando…
— No quê?
— A gente podia fazer isso mais vezes.
— Viver disso?
— Viver disso, por que não? Não seria divertido?
— Ah, seria… Quem sabe até eu podia fazer um cortezinho no próximo cara.
— Por que não?
— Ah, vai ser divertido.
— Vai. Vai ser muito divertido!

No quarto do motel, amarrado, amordaçado, nu e humilhado, Fábio ouvia o ruído do carro a se distanciar.


THE END

Postado por David

Dentro de um barril

25 de abril de 2008 19

Meu bisavô atravessou o Atlântico dentro de um barril. O barril estava sobre um navio, bem entendido. Fugia do serviço militar alemão, veio clandestino. Uma menina de cinco anos, caçula de outra família de imigrantes alemães, foi encarregada de alimentá-lo. Todos os dias, a menina batia no barril, ele saía e ela lhe alcançava um prato de comida fumegante.

Assim foi a viagem inteira. Ao chegar no Brasil, a família da menina saltou numa cidade, meu bisavô em outra. Uma década se passou, os alemães aqui estabelecidos organizaram suas vidas. Nesse tempo todo, meu bisavô não mais encontrou a família que o havia ajudado. Conheceu uma moça, começaram a namorar, noivaram e, pouco antes do casamento, fizeram a descoberta espetacular: ela era a menina que o alimentava a cada dia na viagem para a América.

Dois dos meus bisavós eram alemães, portanto. Outros dois, franceses. Do meu avô francês lembro que o chamava de Vô Chorão, porque sempre chorava ao nos ver. E comia pétalas de rosas na salada! Coisa de francês.

Claro, tem os Coimbra também, esses egressos do Alegrete e, obviamente, descendentes de portugueses.

Levando em conta as origens de todos esses bisavós, julgava-me brasileiro típico. De uns tempos para cá, não mais. De uns tempos para cá, ouço os entusiastas da Nação Ianomâmi repetirem que os verdadeiros brasileiros são os índios, que os donos da terra são os índios, que nós, europeus, tomamos o Brasil dos índios. Será que um dia também serei brasileiro? Ou terei de fazer o caminho de volta do meu bisavô para descobrir, afinal, de onde sou?

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Meio ridículos

25 de abril de 2008 14

Todo patriota é meio ridículo. Aquela coisa de bandeiras e marchas e hinos, francamente. Tudo invenção dos franceses. Criaram o nacionalismo em 1789 e depois tiveram de se haver com kaisers e führers.

O problema com o patriota é que ele avalia o mundo e as pessoas através de critérios geográficos. Se mora na Rua Botafogo, a Rua Botafogo tem mais flores, mais sabores e mais amores; se se muda para a Borges, nunca houve no mundo paralelepípedos mais formosos que os da Borges.

Mas o patriota não pode ser considerado totalmente ridículo porque parte de seus sentimentos são altruístas – ele quer o bem dos seus, afinal.

Todo idealista também é meio ridículo. Sobretudo o idealista de esquerda. Até porque o idealista de direita não pode ser classificado exatamente como idealista; ele é muitas vezes um cínico e sempre um prático. O de esquerda, não. O de esquerda em geral começa sua trajetória acreditando que, com suas idéias, mudará o mundo para melhor. Altruísmo igual ao do patriota, e que, igualmente, faz dele apenas meio ridículo, não um ridículo absoluto.

Já o problema com o idealista é que, como o patriota, ele analisa o mundo e as pessoas por um único viés – o do seu ideal. A opinião de um idealista de esquerda sobre qualquer assunto, em qualquer lugar, jamais se altera: está sempre à esquerda.

Por exemplo: os movimentos de Chávez na Venezuela e de Evo Morales na Bolívia são incondicionalmente aplaudidos por idealistas de esquerda. Todos os movimentos, sem exceção. E agora, na recente eleição do presidente do Paraguai, há quem festeje a renegociação do Tratado de Itaipu. Quer dizer: em nome de uma proposta supostamente de esquerda, o idealista repudia até aquele sentimento altruísta que faz do patriota só meio ridículo, não ridículo inteiro. E assim ele, o idealista, alcança a plenitude: transforma-se num ridículo completo.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Uma Arma na Bolsa - penúltimo capítulo

24 de abril de 2008 33

Júlio Cordeiro
— Abre as pernas dele! — ordenou a morena, dentes rilhados, tesoura na mão.

Não havia dúvida: ela queria castrá-lo. Jesusmariajosé!!!

Fábio começou a espernear com violência, a chutar o ar, a jogar o torso para cima, para baixo, para os lados. Não ia permitir que o capassem sem resistência. Enquanto lutava, gania:
— Mnnnnnn! Mnnnnnnnn!

Um uivo fino de agonia saía de sua garganta:
— Iiiiiiiiiih! Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiih!
— Como é que vou segurá-lo? — especulou Letícia, pulando do colchão, pondo-se de pé. — Ele não pára!
— Pega a fita isolante — sugeriu Mari. — Daqui a pouco ele cansa.

Ela tinha razão. Amordaçado e algemado, Fábio logo perdeu a resistência. Deixou-se cair no colchão, ofegante, e então elas saltaram sobre ele. Letícia agarrou-lhe a perna direita, Mari a esquerda. Passaram fita isolante em seus tornozelos e prenderam-lhe as pernas à cama até com alguma facilidade, embora ele tentasse lutar.
— Vamos amarrar a cintura dele também — disse Mari.

E foi o que fizeram. Passaram a fita isolante por baixo da cama e o prenderam ao colchão. Fábio estava completamente imobilizado, um bicho.
— Acabou a fita isolante — comentou Letícia, casualmente, de pé, as mãos à cintura.
— Não tem problema — rosnou Mari. — Já posso fazer o que quero com ele assim.

A morena olhou sorrindo para Fábio. Seus olhos faiscavam de maldade, mas o que mais faiscava era a tesoura em suas mãos.
— Vou capar o desgraçado — informou.

Fábio começou a gemer:
— Nnnnnnnnnnn! Nnnnnnnnnnn!
— Vou capar — repetiu ela, ajoelhando-se no colchão novamente.

Fábio agora chorava. As lágrimas molhavam-lhe o rosto, quase o afogavam. Queria implorar, queria pedir perdão, queria negociar com elas, mas nem isso podia, amarrado e amordaçado como estava.

— VOU CAPAAAAAR!!! — berrou a bruxa, e tomou nas mãos seu membro flácido e encolhido, e abriu a tesoura, e assestou-a na base do membro, e ia acioná-la, e Fábio uivava:
— Mnnniiiiiiiiii! Mnnnnnnniiiiiiih!

E chorava, como chorava.

Ela já estava prestes a decepá-lo, quando Letícia segurou sua mão:
— Acho melhor não cortar.

Fábio olhou para ela, agradecido. Queria beijar-lhe os pés.
— Por que não? — a morena olhou para a irmã, ainda com o membro de Fábio entre os dedos.
— Muita sangüeira…
— Mmmmmm! Mmmmmmm!
— Será?
— Mnnnnnnn!
— É. Não gosto dessas coisas muito melequentas. Por que não fazemos algo mais divertido com ele?
— Mnnnn…
— Como o quê?
— Mn..
— Tipo empalá-lo.
— Hein?
— MNNNNNNNNNNNNN!!!!
— Isso. A gente pode pegar algum objeto, sei lá — Letícia olhou pelo quarto, como se procurasse algo. Fábio seguiu o olhar dela, aflito. — Uma garrafa de cerveja, por exemplo — apontou para o frigobar. — Fábio arregalou os olhos. — A gente pode pegar uma garrafinha daquelas, long neck mesmo — prosseguiu a loira — e… — assobiou fino, fazendo com o braço um gesto de quem enfia algo em algum lugar.
— Enfiar uma garrafa de cerveja nele? — perguntou a morena.
— MMMMMMMNIIIIIIIIIIIH!!!
— Isso. Não é uma boa?
— HMPFMNICKIIIIIIII!!!
— Acho que é — concordou Mari, soltando, enfim, o traumatizado membro de Fábio, erguendo-se do colchão e caminhando em direção ao frigobar.

Fábio estava dividido. Entre aliviado porque elas não o mutilariam e apavorado ao ver Mari se aproximar com a garrafinha de cerveja. O pânico o dominou. Jesus Cristo, elas o dilacerariam!!! O arrebentariam! Começou a gemer mais forte.
— Mnnnnn! Mnnnnnnnn! MNNNNIIIHHH!!!

Mari se aproximava cada vez mais com a garrafa na mão, cada vez mais. Fábio, desesperado, sentia que o coração estava prestes a estourar.
— Mnnnnnnnnnnnnn! Mnnnnnnnnnnn!
— Vamos ter que cortar a fita da cintura dele — concluiu Letícia.
— Mniiiiiiiiiiiiiiii!
— Cortamos — Mari tomou a tesoura outra vez.
— Mmmmmmmmmmmm!
— Ah, é muito trabalho.
— Mnnnnnnnn!
— É mesmo. Então vamos deixar para outro dia.
— Mn…
— Está bem.
— M…

Fábio suspirou de alívio. Sentia-se tonto, zonzo, sentia-se a ponto de desmaiar. As duas malucas estavam paradas de pé, uma de cada lado da cama. Observavam-no com as mãos à cintura. Mari ainda tinha a tesoura e a garrafa nas mãos. Quedaram-se assim por alguns segundos e, de repente, se entreolharam e começaram a rir. A gargalhar. Riam, riam, curvavam-se de tanto rir. Letícia sentou-se na cama e dava tapas no colchão.

— Que maravilha! — dizia, entre gargalhadas. — Que maravilha!

Mari também sentou-se na cama. Chorava de tanto rir.
— Foi sensacional, mana!
— gritava. — Sensacional!!!

Fábio compreendeu: era tudo um jogo. Elas haviam ensaiado aquela tortura. Decerto o livrariam, iriam embora satisfeitas com a peça que pregaram nele. Quase sorriu debaixo da mordaça.

— Nós não vamos castrá-lo nem empalá-lo — comunicou Letícia, limpando com a mão as lágrimas de riso que lhe escorriam pelo rosto. Foi como uma carícia. Como se estivesse fazendo amor com ele.
— Mas temos uma última surpresinha para você — completou Mari.


Fábio estremeceu. O que planejavam agora? O quê???
Saiba amanhã, no último capítulo de… UMA ARMA NA BOLSA!

Postado por David