Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de maio 2008

Diário do Potter - 8

30 de maio de 2008 5

Mais notícias do L. Potter, nosso correspondente no Primeiro Mundo:

Bacudo em Whistler

E o “loco” da fronteira se foi para a neve. Depois de 29 anos, o moço ensopou “as meia”, porque desavisado é, e se encantou com a branquidão que cega e atrapalha. O local da perda de virgindidade névea foi Whistler, uma vila — ou village, para os chiques — a cerca de duas horas de Vancouver.

Por lá serão as Olimpíadas de Inverno de 2010, com bobsleg e tudo (lembra de Jamaica Abaixo de Zero?).

Mas um bacudo criado no oeste gaúcho, obviamente, não sabe como se preparar pra enfrentar um dia de sol em cima de uma montanha do oeste canadense. Não levou óculos escuros (a neve cega) nem tinha 100 dólares para alugar uma brincadeira tipo snowbording ou esqui. O nêgo véio achou que era fácil meter a mão no gelo e fazer um boneco de neve (tipo aqueles de filmes de Natal numa Nova York branquinha, branquinha).

Roupa especial, para não se molhar? Coisa de fresco. Mas o bacudinho voltou para o chão de verdade com as cuecas molhadas (de gelo) e as meias ensopadas — bueno, isso foi resolvido com 5 dólares canadenses num par novo.

De Whistler, volto com mais de 146 fotografias que traduzem um dia do qual este “loco” que vos escreve jamais esquecerá. Uma dica? Junta dinheiro, meu caro, junta dinheiro e te toca para uma cottage em qualquer cerro branquinho desse planeta.

E leva óculos escuros!


Fotos: L. Potter

Beleza asiática

Quem mora em São Paulo deve estar mais acostumado do que eu. Mas, em Vancouver, a impressão que se tem é de que metade da população é de origem asiática. E as mulheres da Ásia são diferentes. Não é só nos olhos que se nota isso.

Elas são educadas e estendem as duas mãos para pegar qualquer objeto. Baixam levemente a cabeça para agradecer — aliás, agradecem por qualquer coisa. Elas são mais discretas no jeito de ser, mas, nas roupas, dê-lhe minissaias! Dê-lhe vestidinhos micros e pernas de fora!

Elas têm um estilão diferente de se vestir. Gostam de botar peças por cima das outras e, depois, são copiadas pelas ocidentais. Se tu gosta desse tipo de mulher, procure a Yoko Ono de sua vida, meu caro! John Lennon, que poderia ter a ocidental que quisesse, escolheu uma de olhos bem puxadinhos.

Bus em Vancouver

Peguei ônibus durante toda a minha vida universitária — e depois dela também. Foram oito anos, em Porto Alegre, dentro de Ipiranga-PUC, Campus-Ipiranga, Petrópolis-PUC, Cefer, T1, T1-Direta, entre outros. Depois de comprar uma motinho, abandonei o transporte público.

Mas Vancouver, ou melhor, North Vancouver, não me deu outra alternativa que não a 240, linha que me ajuda na cidade.

Os ônibus têm suportes externos para bicicletas e, pagando 99 dólares canadenses por mês, tu te locomove a vontade, a hora em que quiser, quantas vezes quiser, usando qualquer linha (de presente, dá para andar também no Seabus e no SkyTrain). Não existe a figura do cobrador e, pagar na hora, só com moedas e no valor exato — que depende da viagem. Não existe fichinha de bus, entende?

Todo dia, duas vezes, passo pela Lions Gate, ponte que liga o norte ao centro da cidade. A paisagem vale o bom montante que dei ao transporte público canadense. Mas o mais agradável, como dá para ver na foto acima, é a visão que tenho sentado no banquinho de esperar ônibus (que vai passar ali, pode acreditar, no horário prometido pela tabela).

Vancouver apóia e investe em transporte público — um metrô está sendo construído pra ligar Downtown ao aeroporto. Bem diferente de nós, que queremos crescer na vida, comprar uma motinho e se livrar do cada vez mais necessário transporte coletivo.

Postado por David

Mais do Caso Daudt

30 de maio de 2008 20

Ilustração: Editoria de Arte, Banco de Dados

Abaixo, a segunda parte do primeiro capítulo do livro 800 Noites de Junho, que escrevi sobre o Caso Daudt. O assassinato prescreve no próximo dia 4.

A primeira parte publiquei na segunda-feira.


Antônio Dexheimer, o único acusado, em entrevista coletiva  Fotos: Banco de Dados

O Monza cinza. Dexheimer e outros três mil motoristas de Porto Alegre, entre eles o que matou Daudt, dirigiam Monzas cinzas nos idos de 1988. A coincidência valeu-lhe a indesejada prerrogativa de ser tido e havido pela polícia e pela imprensa como o único suspeito do crime.

A reforçar a suspeita, dois indícios vigorosos: a ex-mulher de Dexheimer alimentava uma fragorosa admiração pelo seu colega de Assembléia Legislativa e ele nunca apresentou uma explicação convincente para o que, afinal de contas, estava fazendo durante os 70 minutos que antecederam o homicídio. A história do solitário passeio de carro sempre soou esquisita. Sair rodando sem destino pela cidade vazia, numa noite gelada de sábado, parecia inverossímil.

O que ninguém ficou sabendo nestes 26 meses de litros de tinta gastos e milhares de neurônios queimados na elaboração de teorias policiais, jurídicas e jornalísticas acerca do assassinato de Daudt é que, das 21h às 22h10 de 4 de junho de 1988, Dexheimer estava acompanhado.

Semanas após a interrupção de um casamento de 17 anos com Vera Conceição Mincarone, o deputado exercitava-se caminhando por uma praça perto da casa dos pais quando encontrou uma antiga namorada. Alta, esguia, cabelos castanhos, olhos claros, bonita, a moça logo açulou-lhe o desejo. Nas caminhadas matinais eles recordavam com doçura os tempos do namoro.

Dexheimer morava em Porto Alegre e cursava o segundo ano de Medicina. Os dois eram jovens e descompromissados. As lembranças trouxeram a nostalgia e a nostalgia reacendeu o romance. Só havia um problema: a moça era, e continua, cinco anos depois, casada. Bem casada. Duas filhas, boa casa no bairro Bela Vista, pertinho da dos pais de Dexheimer. O marido, um executivo muito conhecido na Capital.

Nada disso impediu os encontros clandestinos do casal. Horas febris consumiram-se entre os lençóis discretos do Motel Champagne, na subida do Morro da TV. Seus últimos minutos de ardor foram aplacados na noite gelada e dramática de 4 de junho de 1988.

Naquele dia, Dexheimer foi com os pais a um churrasco na casa de seu primo, o coronel do Exército Ítalo Maineri. O almoço não aconteceu em Viamão, como registrou depois a polícia, divulgou a imprensa e julgaram 22 desembargadores. A casa de Ítalo fica no bairro Petrópolis, não muito longe da dos pais de Dexheimer. Ele decidiu ir ao churrasco à última hora, na véspera. Sexta-feira à noite, não sabia se aceitava o convite de Ítalo ou se viajava a Erebango, município próximo à sua base eleitoral, Erechim.

Foi o deputado Cézar Schirmer, também do PMDB, quem lhe fez mudar de idéia. Os dois saíram da Assembléia, à noitinha, e Schirmer, com a sua experiência de deputado no quarto mandato consecutivo, ensinou:

— Dexheimer, base a gente visita no ano da eleição. Antes não adianta nada.

Dexheimer acatou o conselho e, no sábado, foi churrasquear com o primo. Muito churrasco, muita cerveja, a comilança só foi terminar no final da tarde. Dexheimer e os pais chegaram em casa e ele, meio tonto de tanto regalar-se, resolveu dar uma cochilada reparadora.

Acordou por volta das 19h30min, tomou um banho, vestiu meias pretas, calças mescladas de preto e cinza, camisa em tom champanhe, o pulôver, o blusão e o mocassim. Desceu a escada, contornou o corrimão à esquerda e caminhou até o gabinete onde está o telefone, nos fundos da casa. Ligou para a casa de Vera e falou com os filhos. Ligou para José Antônio Azevedo, assessor de Daudt. Quis saber qual seria o programa para a noite.

Azevedo respondeu que iria no aniversário de um cunhado chamado Aramis, procurador do Estado. Mentiu. Não havia tal aniversário. Dexheimer pediu os telefones de Daudt. Localizou-o na casa de sua mãe, Regina. Daudt o convidou para jantar no Plaza São Rafael. “Mas ele ia com aquela chata da Beth Corbetta, aí recusei”, conta.

Neste momento, sua mãe, Tonita, ofereceu-lhe um lanche. Com o prato de sanduíche numa mão e o livro “Noites de Amor nas Estepes”, de Henry Konsalik, na outra, sentou na poltrona ao lado da lareira. Não chegou a conhecer o desfecho sequer de uma noite siberiana de amor. O telefone tocou. Era a namorada das caminhadas matinais.

O marido saíra para levar as filhas à apresentação de Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Renato Rocha e Marcelo Bonfá, os integrantes do grupo brasiliense Legião Urbana. O show “Que País é Este?” tinha o início marcado para as 21h30min, no Gigantinho. Ela queria dar uma volta, gastar o sábado solitário. Dexheimer gostou da idéia. Foi para a sala que dá para a frente da casa e esperou.

A moça chegou num Del Rey e estacionou. Dexheimer saiu com o Monza. Ela entrou. Vestia uma calça escura e um casaco comprido de lã cinza. O trajeto percorrido pelo casal foi o mesmo alegado por Dexheimer em seus depoimentos, calculado para terminar antes do fim do show no Gigantinho. Neste encontro, não houve escala no motel, garante ele. Passada uma hora, Dexheimer a deixou onde a apanhou, ela entrou no Del Rey e voltou para o marido e as filhas.

Falaram-se mais duas vezes depois da morte de Daudt. Ela, entre arredia e assustada, assegurava que, se sentisse que o ex-namorado ia ser condenado, iria se apresentar à Justiça. Dexheimer acha que falava a verdade, mas não esconde a mágoa: “Ela falhou comigo”.

Postado por David

Sou contra!

30 de maio de 2008 64

Sou contra a CPI. Qualquer CPI. O instrumento da CPI deveria ser retirado do Legislativo, antes que ela, a CPI, acabe com ele, o Legislativo.

A CPI tinha a sua função e a sua utilidade, até que uma deu mais certo do que se esperava. A do Collor. Quando Collor caiu, década e meia atrás, todos os deputados, senadores e vereadores do Brasil se ouriçaram. Compreenderam que tinham nas mãos uma arma capaz de abater presidentes. Desde então, as CPIs têm se multiplicado como se multiplicam as ratazanas do esgoto. Nenhuma deu resultado. As CPIs não servem para nada.

Para a sociedade, a CPI é inútil por razões óbvias:

1. A apuração a que ela se propõe já foi feita pelo Ministério Público, pelo Judiciário ou pela polícia.

2. O Legislativo não tem instrumentos ou capacidade para fazer diligências tão bem quanto os órgãos de investigação.

3. O Legislativo não tem competência para investigar nem quando investiga a si próprio. Porque, neste caso, falta-lhe independência: ou o investigado é amigo, ou inimigo.

É claro que isso pouco importa aos parlamentares. O que um parlamentar pretende, ao pedir ou ao instalar ou ao participar de uma CPI, não é descobrir algo. Ele sabe que uma CPI não desvenda nada, não esclarece nada. O que o parlamentar pretende é atingir o governo. Qualquer governo, de qualquer partido, não importa. Uma CPI sempre é uma espingarda política da oposição.

Só que nem para isso a CPI serve mais. A presunção de que “os políticos são corruptos” se espargiu pela sociedade e se transformou em conceito. Ninguém se escandaliza com um roubinho eventual, ninguém mais sabe se dez milhões é muito ou pouco, porque, para o cidadão comum, não será surpresa um político roubar. Será surpresa se ele não roubar. Sendo assim, quem se importa com as CPIs que permanentemente rondam os aliados de Yeda e Lula? As pessoas sabem que é tudo encenação, que tudo aquilo não passa de masturbação legislativa.

O Legislativo não trabalha mais para a sociedade brasileira, trabalha em função de si próprio. É a política pela política, a política parnasiana, parasita, tacanha e pobre. O Legislativo brasileiro transformou-se num aleijão por causa da CPI. As grandes questões do país estão dormindo nas gavetas, enquanto os deputados fazem pantomima diante das luzes das TVs. Chega de CPI! Proíbam CPI! Sou contra CPI!

***

Sou contra a gramática. O ensino da. A gramática na escola é uma das causas da estultice que grassa pelo território nacional. Exemplo é a pesquisa divulgada dias atrás sobre leitura no país. Quais são os livros mais importantes para o brasileiro? Em primeiro lugar vem a Bíblia. Não vale — ninguém lê a Bíblia. No máximo, o cristão toma um capítulo aleatório e lê dois parágrafos para se inspirar, sem entender nada. Depois seguem: O Sítio do Pica-pau Amarelo, Chapeuzinho Vermelho, Harry Potter, Pequeno Príncipe e Os Três Porquinhos. Livros infantis.

O que significa isso? Que o brasileiro não lê. E por que não lê? Por causa da gramática.

O particípio. Que me importa o particípio? Não quero saber do particípio, do futuro do presente composto, da fricativa interdental sonora, dos infinitivos todos. Não quero saber. Nem as pobres criancinhas brasileiras, obrigadas a aprender gramática em seus tenros anos. Nos Estados Unidos não se aprende gramática. Aprende-se a ler, a escrever, a interpretar texto. Era o que os professores deviam fazer com as crianças brasileiras: dar-lhes livros, fazer com que escrevessem sobre os livros. Livros contemporâneos, com linguagem moderna e agradável. Nada de Machado de Assis e José de Alencar, por amor de Deus! Gramática, só algumas regrinhas básicas de acentuação e vírgula. Pronto. Chega de gramática. Sou contra a gramática!

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Diário do Potter - 7

29 de maio de 2008 14

Aí vão mais notícias do nosso correspondente do Primeiro Mundo. Edição inspirada.

Prostitutas

Num trabalho absolutamente jornalístico, fui saber como é a vida das prostitutas de Vancouver. Andando pela cidade, só se vê prostitutas numa rua chamada Hastlings (mesma rua dos hemp-pubs, lembra?).

Claro, existem casas do ramo — todas muito caras e, obviamente, desconhecidas por minha pessoa. Essa da foto, peguei perambulando perto de um pub.

Jornalisticamente, fui conversar com ela, morena de olhos azuis, cabelos escuros, panturrilhas magníficas, um andar de fazer qualquer cara virar jornalista só para conversar jornalisticamente com ela.

Pois bem. Alice. Ela só passava por ali para retirar uns dólares canadenses de um caixa eletrônico. Não estava trabalhando naquele exato momento, mas se preparava para o batente, numa festa de ricos em West Vancouver. Por lá, ela discretamente perambularia pela casa, acompanha de algumas amigas, à caça de clientes.

Quanto? Depende. Se eu não fosse jornalista e não estivesse trabalhando, 400 dólares canadenses. Na festa, a partir de 500, e dependendo do cara! Jornalisticamente, achei caro o preço da Alice.


Fotos: L. Potter

Vancouver Beach

Sábado em Vancouver. Sol, quase 30°C e recorde nos termômetro de British Columbia.

O que os branquelos canadenses fazem? Entopem um lugar chamado English Bay. Por lá, heteros e homos se misturam e atiram suas carcaças alvas na grama ou na areia cinza desse pedaço de orla do Pacífico.

Essa prainha fica perto do Centro, dá para ir caminhando, e te coloca num mundo ímpar. Mundo porque tu consegue ver, em poucos metros quadrados, gente da Coréia do Sul, México, Brasil, China, Índia e até gente do Canadá bebendo escondida, porque bebericar álcool pelas ruas canadenses é proibido.

Um sorvete pequeno custa quase 5 dólares canadenses, mas a sombra, embora disputada a soco, é de graça. É grátis também a apreciação de um tipo de corpo feminino que nós, brasileiros, não estamos acostumados: o da branquidão plena. As moças refletem o sol! Te ardem os olhos, mas é uma beleza agradável e até mais saudável do que a típica brasileira, concebida sob ardentes banhos de sol em praias, rios e tubos artificiais que geram marquinhas de biquíni pelo corpo.

English Bay é uma praia, mas não dessas em que nos acostumamos e descartar espiga de milho, embalagem de picolé, bagana de cigarro, pedaços de limão e canudinhos que sobram das caipirinhas.

Biquíni e jeans

Mulher é um ser que me agrada, sabe? Porque têm coisas nesse mundo que só um exemplar da espécie pode fazer e, de certo modo, surpreender.

Vancouver, como qualquer lugar do planeta, tem pelo menos 50% da população formada por mulheres. Lindas, feias, gordas, magras, de tudo quanto é cor e credo. Uma cidade cosmopolita, essa Vancouver, e basta perambular por suas agradáveis ruas para provar o que escrevi ali no começo: mulher realmente é uma coisinha muito agradável e cheia de surpresa.

Explico: em dois dias, vi manifestações extremistas e opostas numa mesma região do planeta. Um dia de praia e um dia de montanha. Na praia de Vancouver, tropecei numa moça tomando banho de sol como na foto à esquerda, acima: de tênis, jeans e babylook. Na montanha, sobre a neve, deparei com um cintilante ser esquiando de biquíni, como mostra a outra foto.

Moral da história: só um homem longe do seu estado normal de sanidade quererá discutir relacionamento com um ser da espécie que se banha ao sol com jeans e escorrega de biquíni numa montanha branquinha. Só um louco. Elas estão muitos passos à nossa frente.

Mal educado

Tu é mal educado no trânsito. Tu, brasileiro, não tem educação para pegar um carro e sair por aí. Dirigir é seguir regras, e tu, um baita mal educado, não segue regras.

Lembra do carro que parou ao teu lado na sinaleira? Lembrou, né? E sabe por quê? Porque tu trata ele como um inimigo, ele não pode chegar primeiro. Tu tem que ser o primeiro. A champanha e a loira de roupa justa estão te esperando no pódio imaginário que a tua mente mal educada criou.

Tu trata ruas como pista, trata pedestres como obstáculos, trata ciclistas como lixo e, assim como qualquer governo verde-amarelo, acha que transporte coletivo é “coisa de pobre”.

Tu é mal educado porque, aos 18 anos, sonha com a carteira de motorista (que aliás é cara, e as últimas notícias mostram que não é confiável, em todos os sentidos) para competir, para ganhar, para se banhar no amargo da gigantesca garrafa de espumante europeu.

Tu, motoqueiro, devia saber que não é motoqueiro. Devia saber que é motociclista, que precisa seguir regras claras. Tu, que agora lê esse texto, não precisa embeiçar. Porque, quando pisar numa cidade onde o pedestre é total prioridade e nenhum motorista se sente diminuído por isso, vai saber que trânsito é educação.

E o que nós temos de sobra é a falta dela.

Obs.: na foto, bem à esquerda, observe o carro escuro, com o sinal aberto para ele, esperando todas as pessoas atravessarem a rua para, finalmente, dobrar à direita. Um típico exemplo de um lugar onde o mais importante nas ruas não é a máquina, e sim, o homem.

Postado por David

A boca de Renata

28 de maio de 2008 27

Júlio Cordeiro

Seguinte: estou escrevendo o folhetim que será o maior folhetim da história dos folhetins. Não sei ainda qual será o título, mas sei como é uma das protagonistas.

Para dar um aperitivo aos leitorinhos, envio aí a foto da boca da personagem, Renata.

Ah, e atenção, leitorinhas: Fred também tem seus encantos!

Postado por David

Túnel do Tempo

28 de maio de 2008 9

Ilustração: Rodrigo Rosa

A segunda e última parte do conto que o Luciano Meira, de Estrela, pediu para reler:

Vingança de zagueiro (2)

Você sabe: dois dias antes da grande decisão, o zagueiro Altair entrou no banheiro do vestiário e viu escrito na porta: “Keka uiva”. Keka era a mulher dele! E ela, realmente, uivava nos momentos de prazer. Logo, Alguém estava tendo um caso com a sua Keka. Pior: no dia seguinte, ele entrou outra vez no banheiro, a Casinha Dois, como chamava, e deparou com outra frase: “Eu sei”. Dois jogadores sabiam que Keka uivava! Dois!!!

Altair saiu do banheiro. Olhou em torno do vestiário. Meia dúzia de suspeitos. Devia ser um deles. Mas… e se o traidor tivesse freqüentado o banheiro no dia anterior? Maldição. Maldição! Podia ser qualquer um. Altair ficou nervoso. Precisava pensar.

Saiu andando a esmo, cabeça baixa, falando sozinho. Lembrou de uma tarde em que havia chegado um pouco atrasado ao treino. Deparou com os jogadores sentados em rodinha, no centro do gramado, rindo. Um deles, o centroavante Luís Fernando, era o que mais ria. Gargalhava. E fazia:

— Ouuuuuuuuououououuuuuu…

Imitando um uivo!

No dia do incidente, Altair não deu maior importância. Deviam estar rindo de uma piada qualquer. Mas agora lembrava da expressão deles quando o viram: calaram, ficaram constrangidos. Desgraçados!

Altair deu a volta no estádio. Entrou em campo. Era um treino recreativo. Debilitado pela noite em claro e pela tensão da cornice potencial, ele mal participou, preocupando ainda mais o professor Ferreira. No final, o técnico o chamou a um canto do vestiário.
— O que há, Altair? Está nervoso por causa do jogo de amanhã?
— Não, não, professor. Eu só dormi mal. Amanhã vou estar na ponta dos cascos.
— Tudo bem mesmo, meu zagueirão?

Altair sorriu. Gostava quando o técnico o chamava de meu zagueirão.
— Tudo bem, professor. Estou pensando só na decisão.

Não era verdade. Altair pensava apenas em sua testa. Via-a ornada com uma galharia de alce, como uma paineira desfolhada, tinha a impressão de que todos ao redor percebiam e o acusavam: corno, corno, corno. E riam dele. E caçoavam de Keka. A sua Keka.

Altair precisava descobrir quem mais sabia da traição e quem mais havia usufruído dos prazeres uivadores de Keka. Traçou um plano.

A Casinha Dois era a chave de tudo. Decidiu que, à noite, enquanto todos estivessem dormindo, desceria ao vestiário e ficaria de campana, num canto em que pudesse observar os banheiros, os únicos da concentração. Vigiaria a Casinha Dois. Se alguém escrevesse algo a respeito de Keka… a vingança! Vingança de zagueiro.

À noite, na penumbra do vestiário, lá estava o zagueiro Altair, agachado num canto umbroso, quieto. Esperando. Esperando. Finalmente, alguém desceu ao banheiro. Entrou. Na Casinha Dois!

Quem seria? Altair não conseguira ver direito. Esperou um pouco mais, ansioso. A segunda noite insone. E no dia seguinte havia a decisão. O maior jogo da vida de todos eles. A coroação de um trabalho perfeito do professor Ferreira e do grupo de jogadores. Azar! Ele precisava descobrir.

Então, a porta se abriu. E, sob a réstia de luz do banheiro, lá estava… o professor Ferreira. Será que ele?…

Altair deixou que o técnico subisse de volta aos quartos. Correu à Casinha Dois. Abriu a porta. Havia algo escrito. Algo que fez Altair desmoronar: “Todos sabem”. O professor Ferreira, o seu mentor, o seu mestre, também usufruíra das benesses de Keka. Ele e todo o time!

Naquele instante, sentado no chão do banheiro, Altair chorou. Mas logo se pôs de pé. Ele era um zagueiro. Zagueiros não choravam. Zagueiros se vingavam. E, no dia seguinte, ele teria de jogar uma decisão. E Altair jogaria. Sim, ele jogaria.

Altair subiu as escadas da concentração destruído.

A cada degrau, uma porção a mais de ódio se depositava no fundo da sua alma. E ele ia ficando cada vez mais amargo. Porém, cada vez mais decidido. Vingar-se-ia de todos eles. Todos eles.

No dia seguinte, o dia da grande decisão, os jogadores estavam tensos. O professor Ferreira parecia mais nervoso do que nunca. Na concentração, eles falavam apenas do jogo, do jogo, do jogo. Só Altair estava calmo. Estranhamente calmo.

Assim calmo, ereto, sobranceiro, Altair pisou no gramado. Antes do árbitro apitar pela primeira vez, ele olhou para as arquibancadas lotadas. Lá também estava Keka. A sua Keka.

O jogo começou. Antes do fim do primeiro tempo, Altair marcou três gols contra. Saiu de campo no intervalo, substituído. Passou na arquibancada, pegou Keka pela mão e foi embora pisando firme. E orgulhoso.

Agora, todos eles sabiam: ninguém, jamais, deve provocar um zagueiro central.

Postado por David

A comida de-li-ci-o-sa

28 de maio de 2008 22

Arte ZH

Aconteceu algo estranho com o meu nenê, ontem. Lá pelo meio da manhã, ele começou a chorar e não parou mais. Meu nenê não é de chorar. Faz cocô, não chora; faz xixi, não chora; bate com seu pequeno nariz na borda da mesinha, não chora também.

Macho, manja?

Mas, ontem, chorava às catadupas. Chorou uma hora inteira e ninguém sabia o que sucedia. Será fome? Providenciaram-lhe bananinha amassada, papinha, ele experimentou um bocado de ambas e refugou. Refugou! Estranho. Esse nenê não é de refugar comida. Sede? Vieram com um suco de alguma coisa, ele bebeu um pouco e prosseguiu com a choradeira, as lágrimas pulando no parquê como pingos de chuva. Quem sabe é um dentinho nascente que está a lhe rasgar a gengiva? Passaram-lhe Nenê Dent. Não adiantou. E agora? Com febre não estava. A garganta também parecia em ótimo estado, rosada como um salmão fresco. O que seria, Cristo???

Aí a Bia, a Superintendente de Administração Doméstica, sugeriu:

- Será que ele não quer leite?

Leite? Hm… Por que não tentar? Assim foi feito. Quando ele viu aquela mamadeirona, uau!, disse assim:

- Abu!

E foi uma festa. Bebeu tudo sofregamente e, logo depois, seu costumeiro bom humor estava de volta, ele ria do mundo atrás de suas bochechas rosadas e gordinhas.

Refleti muito a respeito deste caso caseiro. E concluí que entendo meu filhinho. Sou como ele. Ou melhor: ele é como eu. Quer ver? Tempos atrás, traçava cedilhas e tils, aqui na Redação, e sentia uma fome de gordo. Liguei para a Marcinha:
- Estou sentindo uma fome de gordo, vamos a algum restaurante comer gordamente?

Ela respondeu que não era necessário: na noite anterior havia recebido algumas amigas, o jantar sobrara e agora tinha uma comida de-li-ci-o-sa à disposição. Uma comida deliciosa. Era disso que eu precisava. Era, sim, senhor.

Em meia hora, cheguei em casa. A mesa estava posta, taças de cristal para o vinho, guardanapos de pano e tudo mais. Esfreguei as mãos:

- Agora, a comida de-li-ci-o-sa! Oh, rapaz, como quero uma comida de-li-ci-o-sa nesse momento!

Então, a Marcinha fez aterrissar na minha frente os seguintes pratos: musse de atum, quiche e alface. Comi em cinco minutos e fiquei esperando, a perna batendo de impaciência. A Marcinha me olhou:

- Que foi?

- Ué, estou esperando a comida de-li-ci-o-sa.

- Mas é essa!

- Qual?

Ela apontou para o musse e a alface e o quiche:

- Essa!

Abri a boca, pasmado. Cara, meu deu um mau humor, mas um mau humor… Nunca fico de mau humor, mas, se estou com fome e me prometem uma comida de-li-ci-o-sa e me servem musse de atum e alface e quiche, aí, por Deus, aí fico de mau humor. Transformo-me em um tigre com dor de dente.

Não falei nada, não reclamei, mas a Marcinha percebeu. Começou a chorar:

- Não gostou da comida de-li-ci-o-saaaaaa…

Não consegui mentir:

- É que pra mim isso não é comida, beibe.

Exatamente como meu filhinho: bananinha amassada, papinha, sopa, suquinho, nada disso para ele é comida. Comida, para ele, é leite! Ele não se contenta com qualquer coisa. Só se satisfaz com leite. Leite, entenderam! Leite!

O Flamengo também é como meu nenê e como o pai dele. O Flamengo ousa, busca grandes jogadores e, na sua torcida, vê-se uma faixa estendida, como se viu no jogo de sábado:

“Brasileiro é obrigação”.

Obrigação! O Campeonato Brasileiro! Nada desses paliativos como classificação para Libertadores ou Sul-Americana ou não cair para a Série B. O Flamengo quer o título. A taça. O leite!

Enquanto isso, diz-se que, no Beira-Rio, não existe pressão. Lá, o time pode perder à vontade que ninguém reclama. Uma pena. Porque, como bem sabe o meu nenê, quem não chora, não mama.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

27 de maio de 2008 14

Ilustração: Rodrigo Rosa

O Luciano Meira, de Estrela, pediu para reler um conto bem bacana que escrevi em 2001, publicado em dois capítulos no jornal.

Vingança de zagueiro (1)

Faltavam dois dias para a decisão. O zagueiro Altair chegou ao clube correndo. Estava aflito.

Entrou direto no banheiro. Trancou-se no segundo dos três boxes. Casinha Dois, como chamava. Sua preferida. Sentou-se. Sorriu. Alívio…

Aí viu.

Bem à sua frente, em caligrafia irregular, escrita na porta com esferográfica azul, a frase terrível:

“Keka uiva.”

Pô. PÔ!!! Keka era a SUA mulher. O nome dela não devia estar ali, profanado em uma vulgar porta de banheiro de vestiário. Tudo bem, os caras escreviam bobagens nas portas de banheiros, isso era normal. Fiz melequices com a Carlinha, transei com a Betânia dentro do roupeiro, a Vânia é uma… essas coisas.

O próprio Altair já escrevera os maiores despautérios em portas e paredes de banheiros, inclusive reproduzira aquele poeminha clássico desses ambientes:

“Que coisa mais nojenta,
Que coisa mais imunda…”

O resto é impublicável.

Ou então aquela poesia imortal do Juca Chaves:

“Oh, dama por quem me aflijo,
Eu vos peço: consintais
Que…”

Melhor não ir adiante.

Enfim, besteiras são escritas nas portas de banheiros. Mas agora estavam falando da mulher DELE. O que por si só já era desagradável. Porém, o inquietante, o realmente grave, era a afirmação.

Keka uiva.

Não era um xingamento — Keka é vagabunda. Não era uma bazófia — transei com Keka. Nem mesmo um elogio indecoroso — Keka é gostosona. Nada disso. Era apenas uma informação, sem entrar em juízo de valor, sem considerações e, por isso mesmo, com todo o substantivo peso da informação.

Keka uiva.

Como ele sabia, esse pichador de portas de banheiro? Sim, porque Keka… bem, Keka uivava. No auge do prazer, no momento do gozo, uivava como uma loba com TPM. Ouuuuououououuuuu… Na primeira vez, Altair ficou espantado. Que era aquilo? Era normal? Depois, se acostumou. Só se preocupava um pouco com os vizinhos, se o namoro ocorria tarde da noite. De resto, tudo bem. Até queria que ela uivasse. Se não houvesse uivo retumbante, não houve desfrute.

Assim, a informação era verdadeira. Havia uivo. O problema continuava sendo: como o maldito sabia??? Altair nunca contara esse pormenor da vida íntima deles para ninguém. Até porque os homens não são de revelar esse gênero de detalhes aos amigos. Ao contrário das mulheres. Elas dizem tudo umas às outras — hábitos do parceiro, humores, centimetragens. Tudo. Homens, não.

Muito menos Altair. Ele era zagueiro e, todos sabem, o bom zagueiro deve ser discreto.

Altair era discreto.

Então como o desgraçado sabiaaaaa???

Altair começou a suar, na Casinha Dois. Um deles, um de seus colegas jogadores havia cometido sexo com Keka. Poderia ser qualquer um. Todos a conheciam. Volta e meia Keka aparecia no clube, e eles saíam juntos. Ela era amiga de cada um dos titulares e reservas. Até dos juniores.

Maldição.

Altair saiu da Casinha Dois angustiado. Que hora para acontecer uma tragédia daquelas, dois dias antes da grande decisão, dois dias antes do jogo da vida dele. Do jogo da vida de todos eles. O time nunca chegara tão longe, aquela era a primeira final da história do clube.

Altair caminhou taciturno para o treino. Estudava o rosto dos demais jogadores. Quem seria capaz de… daquilo? Foi o pior treino da sua vida. Justamente no último coletivo da semana. O técnico, o professor Ferreira, perguntou o que estava acontecendo com ele, por favor, Altair, não vá ficar doente às vésperas da final. Ele só rosnou. Zagueiros rosnam.

Enquanto ia para casa, Altair pensava nos colegas. Quantos freqüentavam a Casinha Dois? Quem poderia ter entrado ali com uma caneta? Qual deles era mais próximo de Keka? Em que oportunidade o miserável a… ouvira uivar?

Chegou em casa de cara amarrada. Keka estava mais carinhosa que nunca, cheia de djlébis lébis. Mas ele não queria nem saber. Olhava para ela com raiva. Tinha vontade de berrar: “Vagabunda! Traidora! Safada! Uivadora desavergonhada!” Mas não disse nada.

Até porque Keka parecia ainda mais linda. Olhar para seu rosto de querubim e pensar nela como uma traidora, isso dava a ela um ar selvagem. Keka infiel — a idéia de alguma forma o excitava. Mas também o enfurecia! Deitou-se na cama em silêncio, decidido a descobrir, de qualquer jeito, com quem ela andava uivando fora do matrimônio.

Passou a noite de olhos bem abertos, fitando uma manchinha no lustre. Keka, ao seu lado, suspirou, conformada. Ele devia estar preocupado com a decisão do campeonato, pensou. E dormiu um sono de freira. O que deixou Altair ainda mais irritado. Como ela podia dormir tão tranqüila tendo, no fundo da consciência, o estigma negro da traição? Altair estava furioso, Altair era um homem sério. Um zagueiro.

Zagueiros se vingam.

Nas horas insones, resolveu o que faria. Marcaria uma festa com todos os jogadores, na sua casa, e os observaria. Em algum momento eles se trairiam, a uivadora e o pichador de portas de banheiro. Aí, vingança! Uma vingança exemplar. De zagueiro central.

Pela manhã, foi cedo para o clube. Havia poucos jogadores no vestiário. Altair tirou a roupa. Começou a vestir-se para o treino. Então olhou para o banheiro. Talvez devesse apagar aquela inscrição. Riscá-la. Raspá-la com a chave. Foi até lá. Entrou. Fechou a porta. Sentou-se sobre a tampa do vaso.

Viu.

Logo abaixo do “Keka uiva”.

Caligrafia diferente.

Caneta diferente.

Frase igualmente curta e horrenda: “Eu sei”.

Alguém sabia que Keka uivava. Um outro alguém. Quer dizer: não apenas um, mas DOIS jogadores haviam se cevado nas carnes tenras da sua Keka. E agora estavam espalhando para o time inteiro! Oh, Deus! O que ele faria? Sim, pois faria. E fez!

O quê? Você saberá amanhã. Até lá.

Postado por David

O Caso Daudt

26 de maio de 2008 36

José Antônio Daudt, o assassinado, e Antônio Dexheimer, o acusado/Banco de Dados

Agora, no próximo 4 de junho, o assassinato do jornalista e deputado estadual José Antônio Daudt completará 20 anos. Isso significa que o caso prescreverá perante a Justiça. Ninguém mais poderá ser condenado pelo crime, mesmo que venha a público e confesse a autoria do homicídio.

Houve apenas um acusado naquele caso, o também deputado Antônio Dexheimer, médico cardiologista em Erechim. Dois anos depois do assassinato, Dexheimer foi julgado e absolvido por 14 dos 21 desembargadores que julgaram o caso no Pleno do Tribunal de Justiça.

Em 1993, escrevi um livro a respeito. É o relato de tudo o que ocorreu sob o ponto de vista do acusado. Uma reportagem escrita a partir do ângulo de um dos protagonistas da história.

O livro está esgotado, eu mesmo só tenho um exemplar. Mas vou publicar o primeiro capítulo, nem que seja para os leitorinhos avaliarem como o degas aqui escrevia há uma década e meia.

Há 70 minutos cruciais na vida do ex-deputado Antônio Dexheimer. Um hiato entre as 21h e as 22h10min da noite fria e nevoenta de 4 de junho de 1988.

Durante mais de cinco anos Dexheimer sustentou que, às 21h, tirou o seu Monza cinza, placas LA-5297, da garagem da casa dos pais, na Praça Bela Vista, 26, comprou dois maços do encorpado cigarro Minister no Posto Figueroa, esquina com a Bordini, e esticou o passeio solitário numa lenta ronda de uma hora pelas ruas semidesertas de Porto Alegre.

Aquecido por um pulôver de lã bege, um blusão de tom marrom, pelo ar-condicionado do carro e pela fumaça dos Minister, mal estremeceu devido à baixíssima temperatura que espargiu, naquela madrugada, uma camada de neve de 16 centímetros de altura ao longo das ruas escuras de São José dos Ausentes, e matou dois homens, um a 40 quilômetros de distância, em Novo Hamburgo, outro encontrado de manhã, encolhido e duro, num canto do Estádio Vermelhão da Serra, em Passo Fundo.

O mocassim preto do pé direito de Dexheimer fez uma pressão suave no acelerador e o Monza desceu até a Ramiro Barcelos. De lá, ingressou na Avenida Independência, àquela época livre para os veículos particulares que vinham dos bairros. Na Independência, à direita, o Cinema Um exibia “Ritmo Quente – Dirty Dancing”.

Dexheimer não reparou nos cartazes do filme, alcançou o Centro e trespassou-o até a Borges de Medeiros, rodando calmamente sob o histórico Viaduto Otávio Rocha. Avistou o riacho poluído que recheia a Ipiranga. E o Monza seguiu comendo o asfalto da avenida, passou pela redação vazia da Zero Hora, Palácio da Polícia, campus da PUC e quebrou a Ipiranga à esquerda na Cristiano Fischer.

O bico do Monza apontou para cima, para a Protásio Alves, e levou Dexheimer a uma paralela da Nilo Peçanha, a Rua Desembargador Alves Nogueira, onde ele possui um terreno. A marcha do carro diminuiu. Após uma olhada distraída no terreno, o Monza deslizou de volta à residência de dois pisos de seus pais.

Dexheimer garante ter chegado às 22h8min. Explica o detalhe britânico dos oito minutos pelo fato de ter visto as luzes da casa acesas. Seus pais, Werner e Tonita, septuagenários, não costumam ficar acordados tão tarde. O que fez Dexheimer olhar o relógio e estranhar: “Ué, visita a esta hora?” De fato, lá estavam Marcos e Maria Alice Arcoverde, casal de Caxias do Sul que deu uma leve e, depois se verificaria, providencial trincada na rotina de Werner e Tonita.

Foi a mão do acaso que empurrou Marcos e Maria Alice para a casa da Praça Bela Vista. Haviam descido a serra para um fim de semana cultural em Porto Alegre. Assistiram a dois filmes e, à noite, decidiram ver uma peça no Teatro da OSPA. Mas a programação do teatro fora cancelada. Decepcionados, Marcos e Maria Alice tomaram um táxi na Independência e subiram para a residência de Fernando Dexheimer, irmão do deputado, que mora algumas quadras abaixo da casa dos pais.

Viram as luzes da casa de Fernando acesas e dispensaram o táxi. Nova decepção. Fernando saíra com a família. O casal de Caxias caminhou até a grande caixa d`água em frente à praça e entrou na residência dos pais de Fernando e Antônio.

No escorrer deste naco de tempo, um outro Monza cinza, que por um par de anos muita gente jurou ser o de Dexheimer, estava estacionado na rua Quintino Bocaiúva, quase esquina com a Marquês do Herval. No banco do motorista, um homem de barba grisalha e rala, sem bigodes, de jaqueta de couro preta e calças brancas, esperava.

O Monza cinza e seu misterioso tripulante foram vistos desde às 20h30min naquela esquina. Aparentemente tranqüilo, o homem ficou lá, fumando, até depois das 22h15min. Mais precisamente, até o momento em que o jornalista e deputado estadual José Antônio Daudt passou com o seu carro, também um Monza, Quintino acima e guardou-o no Posto Shell, distante cerca de 20 metros.

Daudt apanhou o revólver que repousava dentro do coldre, sobre o console, praticamente ao mesmo tempo que o homem de barba grisalha jogou o braço por cima do banco dianteiro do carro e tirou uma imponente espingarda calibre 12, de dois canos, debaixo de uma camisa branca, no banco traseiro. Enquanto Daudt atravessava a rua o desconhecido o observava, atento.

Continuou atento ao ver o deputado abrir o portão de ferro que ainda hoje protege o Edifício Cristine, onde morava. Daudt puxou da caixa de correspondência a edição dominical do jornal Zero Hora e, de costas, bateu o portão, sem fechá-lo. Nem bem o aço da fechadura beijou a grade e um turbilhão de balins de chumbo, num estrondo, explodiu de um dos canos da 12, vergastou as folhas das dracenas na calçada e fez saltar uma fatia do gradil.

Daudt virou-se, surpreso, e, com o revólver na mão direita, ele, que era canhoto, esboçou uma reação. Antes de colocar-se em posição de tiro a 12 vomitou outra chuva de balins que rasgaram-lhe o pulmão esquerdo, dilacerando-lhe a veia cava superior, o tronco da artéria pulmonar e o miocárdio do ventrículo esquerdo. Daudt cambaleou, olhou para cima, como que para a janela do primeiro andar, e gritou:

— Socorro! Socorro, eu sou o Daudt!

Caiu de costas sem ver o Monza cinza arrancar velozmente em direção à 24 de Outubro.

Publicarei em breve a segunda metade do primeiro capítulo.


Fotos: Banco de Dados

Postado por David

A volúpia do sangue

26 de maio de 2008 14

Domingo passado, pouco antes do meio-dia, olhei para a Marcinha e falei:

- Sabe o que vou fazer? O que vou fazer nesse exato instante?

Ela levantou uma sobrancelha de dúvida. Não, ela não sabia.

- Pois lhe direi, garota – prossegui. – Vou pegar aquele telefone ali e ligar para a Santo Antônio agora mesmo e vou pedir um entrecot de quatro dedos de altura. Exigirei o maior entrecot da cidade aqui, nesta casa, em menos de uma hora. Sim, é isso que farei.

- Com quatro dedos de altura? – disse ela, e reparei vogais de incredulidade em sua voz. Ao que, sublinhei:

- Não aceitarei um entrecot com menos de quatro dedos de altura, garota.

Ela fez um muxoxo. Algumas mulheres fazem muxoxo.

Liguei para a churrascaria. Nem bem 50 minutos se transcorreram e chegou aquele entrecot com quatro dedos de altura, nadando em molho sangrento, um entrecot tão grande que desbordava do prato e teve de ser instalado em uma saladeira.

- Que tal, garota? – perguntei para a Marcinha. E ela:

- Oié!

- Agora observe, beibe.

Tomei de uma faquinha uruguaia de churrasco que ganhei de aniversário, fiz uma incisão profunda na carne e retirei um naco do tamanho de um telefone celular dos grandes, com uma nesga de gordura na ponta. Em seguida, ofereci-o ao Bernardo:

- Toma, guri.

Era a primeira vez que ele tinha nas mãos uma carne de churrasco. Já sugou bifes, lógico, mas bifes sem tempero, sem gordura, sem graça, sem alma. Agora, não. Agora, o Bernardo fazia seu ingresso no mundo adulto da gastronomia.

Tratou-se de algo único para ele, bem sei. Começou a chupar o sumo daquele bifão e fazer uh, uh:

- Uh, uh, uh!

O caldo do bife escorria-lhe alegremente pelo pequeno queixo e pelo babeiro onde está escrito “eu amo mamãe”. Seus dois únicos dentinhos roçavam na carne, tentando dilacerá-la. Em vão: ali estava um entrecot de quatro dedos de altura. Quando a Marcinha retirou-lhe o naco das mãos para virar para a parte ainda não abocanhada, o Bernardo protestou: gritou feito um bezerro, chorou a ponto de as lágrimas espirrarem em chafariz e só se aquietou quando o bife lhe foi devolvido.

- Que côsa! – admirou-se a Marcinha.

- É o sangue – expliquei. – A volúpia do sangue, beibe!

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David

No tempo em que os homens eram homens

25 de maio de 2008 1

Quando o chumbo quente do Colt 44 de Pat Garrett varou-lhe o coração, o “desperado” Billy the Kid somava 21 assassinatos, um para cada ano da sua vida. Com a exceção de mexicanos e índios, claro, que os pioneiros americanos não eram de contar índio e mexicano abatido.

Pat Garrett usava uma estrela de prata no peito, tinha 1m95cm de altura, ombros largos, um rifle Winchester na mão e dois 44 pendentes da cintura.

Leia o texto completo na coluna de ZH Dominical

Postado por David Coimbra

The Kid

23 de maio de 2008 8

Billy the Kid/Reprodução

Para o domingão, escrevi um pequeno texto sobre Billy the Kid e seu assassino Pat Garrett. Cito o livro escrito por Pat sobre Billy. O matador contando a história da sua vítima.

Nesse livro, o que há de melhor é a introdução escrita pelo Eduardo Bueno, o famigerado Peninha. Reproduzo aí uma parte do texto do Peninha para vocês verem que beleza. Aproveitem:

Paixão e Mortes
de Billy the Kid

Billy don`t it make ya feel so low-down
To be hunted by the man who was your friend?*

O encontro estava marcado para a hora do nascer da lua.

Quando o cavalo deslizou pela ribanceira, derrubando moitas e arbustos retorcidos, os primeiros raios de um luar amarelado refletiam-se na correnteza serena do rio Pecos como os pedaços de um espelho partido. O homem que usava a estrela desmontou, caminhou pela areia areia branca da margem e olhou ao redor. Cactos lançavam uma estranha sombra ao solo. O vento cálido do verão soprava de montanhas distantes.

O homem tinha as espáduas largas e vestia um traje negro. Era alto, quase 1,95m. Dois revólveres Colt 44 lhe pendiam da cintura. O rifle Winchester estava na bainha da sela. Seus olhos brilhavam insondáveis acima do bigode de “matador” _ naqueles dias, a maioria dos xerifes e pistoleiros do Oeste ostentavam um bigode caído, que justificava o apelido.

Ele estivera nas expedições punitivas contra os comanches e caçara búfalos nas planícies do sul od Texas. Era uma cavaleiro ousado, hábil com o laço. Atirava com precisão milimétrica — meses antes, havia cortado as amarras de dois cavalos para impedir uma fuga, atirando de longe. Não raro atravessava a noite jogando pôquer ou monte. Quando não estava no campo, gostava de trajar roupas vistosas. Fora sempre um mão aberta, mas poucos não o temiam.

Minutos depois que desmontara, seu delegado, John W. Poe, chegou a galope ao local combinado — uma pequena penínsulo, La Punta de la Glorietta, na margem do ardente Pecos. E vinha sem novidade alguma: em Fort Sumner, o lugarejo a quatro milhas dali, não havia sinais do assassino que buscavam. Mais uma vez os informantes estavam errados. A caçada humana prosseguiria.

Os dois homens então partiram. Poucas milhas além, pararam para acampar ao lado de velhas ruínas mexicanas, sob os restos de um pomar. Desencilharam os cavalos ao redor da pequena fogueira e, enquanto bebiam café quente e forte, ouviram vozes vindas do outro lado daqueles muros ruídos.

Era a noite de 14 de junho de 1881. O homem alto e forte, Patrick Floyd Garrett, trinta e um anos, xerife do condado de Lincoln, Novo México, finalmente iria encontrar e matar seu antigo companheiro de aventuras e noitadas. William H. Bonney, vinte e um anos, conhecido como Billy the Kid — o mais temido e sanguinário desperado do Sudoeste dos Estados Unidos cuja cabeça estava a prêmio há mais de dois anos.

Pat Garrett e Billy the Kid conheceram-se em 1878 nas ruas poeirentas e saloons mexicanos de Fort Sumner, o entreposto militar construído às pressas, em 1862, para assegurar a remoção dos Navajo de suas terras, em Bosque Redondo, quase na fronteira entre o Novo México e o Texas. Ambos eram bons atiradores, bons bebedores e constantes jogadors de pôquer e de monte. Ambos gostavam de emoções fortes, noites sob as estreas, mulheres, caçadas e tiroteios. A amizade parece ter sido instantânea.

Billy aparecera em Fort Sumner em 1877, deixando atrás de si um passado nebuloso. Garrett, nascido a 5 de junho de 1850 no Alabama, chegou logo a seguir , mas era homem bem conhecido e que em breve se tornaria amigo dos principais pecuaristas do condado de lincoln. Criado em Louisiana, arranjara seu primeiro emprego em 1869, como peão em Lancaster condado de Dallas, no centro do Texas. Lá, trabalhou para um criador de gado cujo rebanho marcado se espalhava até Red River, por umas boas cem milhas quase até a fronteira com Oklahoma, no Norte. Seis anos depois, já estava adestrado nas artes de cavalgar, laçar, atirar e matar.

De 1875 a 1877, Garrett tornou-se caçador de búfalos nas cercanias do antigo Fort Grifftin e nas planícies do sul do Texas. É próvavel que nesta mesma época tenha participado também de uma das expedições punitivas contra os comanches, que então atacavam amargamente revoltados com a matança de búfalos em seu território de caça de inverno.

Nos primeiros meses de 1878, Pat chegou ao valo do Pecos, onde trabalhou em vários ranchos como arrebanhador de cavalos e vaqueiro. Deve ter conhecido teh Kid quase de imediato, principalmente se, de fato, houver trabalhado também como bartender no saloon de Beaver Smith, em Fort Sumner, como querem alguns pesquisadores. De qualquer modo, Garrett garante ter escutado “em narrativas desconexas” muito sobre os primeiros (e, depois, mitológicos) anos de vida de Billy, relembrados pelo próprio, “ao pé das fogueiras, nas trilhas, nos campos e em muitas plazas diferentes”, durante as inúmeras andanças destes dois homens pelas vastidões áridas do Novo México.

Em janeiro de 1880, porém, Pat casou-se com Polinaria Guitierrez e no outono do mesmo ano foi eleito xerife do condado de Lincoln, numa chapa oposicionista apoiada por John Chisum, conhecido como o “Rei do Gado do Novo México”, por George Curry, que mais tarde seria governador, e por outros líderes locais. Contava também com a simpatia de muitos hispano-americanos, já que mantinha boa relação com o povo de sua mulher. A primeira missão que lhe caiu sobre os ombros era pesada: capturar Billy the Kid.

* “Billy, mas o que te deixa mais deprimido / não é ser caçado pelo homem que era teu amigo?” (Bob Dylan, 1973)

Postado por David

O bom do dinheiro

23 de maio de 2008 24

Não é que odiássemos os publicitários, nós jornalistas. Apenas os desprezávamos, eles e aqueles rabinhos-de-cavalo deles. Tínhamos muito claro onde se homiziava o nosso maior inimigo: nas salas refrigeradas do Departamento Comercial. Natural: nós jornalistas, o que nos movia eram os princípios, a luta contra as injustiças, a defesa dos oprimidos. Em suma, a Verdade, com vê em caixa alta. Os publicitários? O que eles queriam era o vil metal, e para isso tentariam nos comprar, nos corromper. Mas nós não estávamos à venda, rapaz! Isso é que não!

Com esses olhos que já viram a imponência do Duomo de Milão e a delicadeza dos pés da Letícia Birkheuer, vi mais de um jornal ser arrastado às franjas da bancarrota graças a alguns dos nossos elevados ideais. Mas isso foi no passado. Hoje, os jornalistas compreenderam que só farão bom jornalismo se existir jornal, e o jornal será tão independente quanto mais forte for.

Era uma disputa ingênua e inútil, Redação versus Comercial. Semelhante a que se verifica hoje entre os ambientalistas e os desenvolvimentistas. Se é verdade que o desenvolvimento desbragado ergue inviabilidades como São Paulo, também é verdade que nunca na história deste país, como gosta de dizer o Lula, houve tantas chances de crescimento. O Brasil dispõe de uma indústria flexível, uma agropecuária diversificada e uma democracia estável, condições que nem os outros Bric, Rússia, Índia e China, possuem. Falta infra-estrutura — material e humana. Faltam estradas e energia, falta educação e mão-de-obra qualificada. O governo federal, enfim, trabalha para fornecer essa infra-estrutura, a economia internacional está favorável, tudo parece dar certo, aí o ambientalismo fundamentalista se instaura no coração do Estado como força solapadora. Há 149 projetos do PAC enredados na burocracia do Ministério do Meio Ambiente. Se é assim, que se vá Marina Silva. E deixe a Dilma trabalhar.

***

O ambientalista inteligente sabe que o melhor instrumento de preservação da natureza é o dinheiro. Com dinheiro é possível montar um sistema de vigilância competente na Amazônia. Com dinheiro, as grandes cidades podem fazer sistemas de transporte seguros e qualificados. Londres, com seus pounds, cavou uma eficiente rede de metrô e, na superfície, o carro paga pedágio. Não é muito mais sensato do que a proibição em rodízio da circulação de carros imposta em São Paulo? Dinheiro e competência, é assim que se faz.

Corpus?

Em 2006, quando cheguei à Suíça para cobrir a preparação da Seleção para a Copa, era feriado. Perguntei por quê. Corpus Christi, informaram.

Certo.

Na semana seguinte, havia outro feriado. Quis saber qual era. Eles: Corpus Christi. Respondi que não podia ser, que na semana anterior é que era Corpus Christi. Argumentaram que existiam dois: um para os católicos, outro para os protestantes.

Tudo bem.

Mas, transcorrida mais uma semana, fui para a Alemanha, e era feriado.

— Qual feriado? — perguntei.

E o alemão lá:

— Corpus Christi.

Eles gostam muito de Corpus Christi, esses europeus.

***

Ontem, saí a indagar por que fazíamos feriado, o que exatamente estávamos comemorando. Diziam-me: o corpo de Cristo. Como assim? Simplesmente festejamos o corpo? Ninguém sabia direito.

Devia ter perguntado na Alemanha.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

22 de maio de 2008 8

Tenho publicado uma série de túneis do tempo nos últimos dias, vocês viram. Mas não é que eu esteja vadiando, pelo contrário. É que há dias escrevo o melhor folhetim da história dos folhetins, que publicarei aqui no blog. É meu foco. E já tenho vários capítulos prontos, adianto.

Bom. Esse Túnel do Tempo foi o Ricardo Freitas, de Porto Alegre, quem pediu.

Daniela no Carnaval

Daniela. Linda e reservada. Discreta. Queria namorar com ela. Estou falando em namorar, não em sexo casual, algumas noites de loucuras e prazeres inenarráveis. Compromisso, manja? Andar de mãos dadas pelo shopping. Cinema. Sorvete. Essas coisas. 

Mas, claro, ela nunca havia me olhado duas vezes seguidas. Tinha lá um namorado. Dizia que gostava dele. Ele, lógico, era uma besta. Por que as mulheres bonitas e interessantes namoram bestas?

Bem, tudo ia normal, Daniela com sua besta, eu sozinho. Até chegar o Carnaval. Decidi ficar em Porto Alegre — ia trabalhar. À noite, fui assistir aos desfiles das escolas de samba. Fui apenas porque não tinha nada mais empolgante para fazer. Estava lá, meio entediado, pensando que talvez fosse melhor ter ficado em casa vendo Telecine Action, quando Daniela fez sua aparição. Foi isso que aconteceu — foi uma aparição. Ela estava no alto de um carro, era destaque da escola. Usava roupas sumárias, faiscantes, sambava equilibrada em um escarpim sem fim e abria os braços, como se saudasse o povo, os seus súditos. Era uma rainha. Isso que ela era: uma rainha.

Segui-a com os olhos, enfeitiçado. Ali, na arquibancada, decidi que precisava vê-la na dispersão. Não sabia bem o que ia fazer ou dizer, tinha vontade de me atirar aos pés dela, abraçar suas canelas macias e gritar, rouco de paixão:

— Minha rainha! Minha rainha!

Bem, talvez fizesse isso mesmo.

Rumei para a dispersão. Caminhava sofregamente, desviando das pessoas, batendo nelas, quase correndo. Cheguei lá, mas a princípio não a encontrei. Uma confusão de gente se pechando e rindo, as pessoas riem no Carnaval. Olhei, procurei, já estava desistindo, quando senti sua presença às minhas costas.

Virei-me, ansioso. Ela! Imponente. Soberana. Uma rainha. Abri a boca, ia falar algo, mas fiquei indeciso. Ela, ao contrário, deu um passo na minha direção. Ficou tão perto que eu podia sentir-lhe o cheiro doce do hidratante. Nívea, acho.

— Meu namorado viajou para Florianópolis — sussurrou ela, com uma voz tão meiga que me doeu o pâncreas. — Estou furiosa e quero companhia. Quer ser minha companhia hoje?

Não acreditei. Será possível? Será que fui lambido pela língua de fogo do Espírito Santo? Balbuciei:

— Arran — queria dizer algo mais inteligente do que arran, mas não consegui. Mesmo assim, ela entendeu:

— Então vamos.

Tomou-me a mão. Conduziu-me até o carro. No caminho, eu ia pensando: não é possível, vai acontecer algo, não tenho tanta sorte assim. Chegamos ao apartamento dela. Eu desconfiado, sentindo o coração bater no gogó.

Ela enfiou a chave na fechadura. Fiquei olhando a mãozinha girar a chave. Unhas redondas e curtas. Não gosto de mulher com unhas compridas. Uma volta para a esquerda. Duas. Ela sorriu para mim um sorriso de dentes pequenos. Bons dentes. Quem será seu dentista? Escolheu outra chave do chaveiro, uma maior, parecia uma daquelas espigas de milho nanicas, como eles fazem aquelas espigas? A porta se abriu com ruído. Ela sorriu de novo. Estava me viciando no sorriso dela.

Entramos.

— Vou buscar uma champanha — ela disse, armada com outro dos seus sorrisos perigosos.

Ofereci-me para abrir. Tive alguma dificuldade. É preciso ter polegares fortes para abrir champanhes. Consegui, afinal: POC!

Brindamos. Bebemos. Ela ficou bem perto de mim. Eu ofegava. Ela se aproximou mais. Mais.

Corta.

Não vou descrever todas as coisas maravilhosas que aconteceram naquele apartamento. Só revelo que acordei enrodilhado no corpo nu de Daniela e que essa é uma sensação que jamais esquecerei.

O Carnaval terminou e não encontrei Daniela outra vez. Dias depois, estava sentado no Lilliput, bebericando um chope cremoso com os amigos, e aconteceu. Lá vinha ela pela calçada. Estava com o namorado. O tal que tinha ido para Santa Catarina.

Caminhavam de mãos dadas. Mais do que mãos dadas, dedos entrelaçados. Prendi a respiração. Ela me viu. Veio na minha direção, puxando o namorado. Veio. Veio. A dois metros de mim, sorriu um sorriso arrancado do mesmo lote que me hipnotizou no Carnaval.

— Tudo bem? — cumprimentou-me.

— Tudo…

O namorado me olhou, desinteressado. Continuaram caminhando. Desapareceram na esquina da Padre Chagas. Compreendi que havia sido o instrumento da vingança de Daniela. Eu fora escolhido por ela para castigar o namorado.

Talvez devesse ficar feliz. Talvez. Mas, depois de conhecer Daniela, ter provado das delícias de estar com Daniela, como ia viver sem ela? Diga: como?

 
*Texto publicado em 23/02/2003 em Zero Hora

Postado por David

Túnel do Tempo

21 de maio de 2008 4

Emerson Souza, Banco de Dados - 07/09/2006

A Juliana Maciel, que é gaúcha mas mora em São Paulo, pediu para reler essa crônica:

O cavalo Desnudo

Os criadores de cavalos de corrida, imagino-os homens pouco afeitos a divagações poéticas, homens acostumados à lida bruta com animais, homens práticos, sem tempo para subjetividades literárias. Certo.

Então como se explica um sujeito desses dar ao seu cavalo o nome de Soldado Lindo? Foi um dos cavalos que correu no Cristal, essa semana. Soldado Lindo. Seria uma homenagem prestada a algum soldado que o proprietário do bicho conheceu? Um soldado… lindo? E devia de fato ser um soldado muito bonito, a ponto de assim comover o criador, que coisa.

Um adversário do Soldado Lindo no primeiro páreo de quinta passada: Desnudo. Tão delicado esse nome, Desnudo. Suavemente sensual, até. Um digno concorrente do Soldado Lindo.

No décimo-primeiro páreo houve outra disputa interessante. De éguas, suponho: a Zetta Jones enfrentou a Mocréia. Imagino que a Zetta tenha vencido. Ao menos torci por ela.

No quinto páreo, quem se apresentou foi um cavalo chamado Incrédulo. Imagino um potro de olhos arregalados, balançando a cabeça para a esquerda e para a direita, sem compreender bem aquela atividade de estrebarias e ferraduras. Pobre Incrédulo.

Lisonjeiro também deve ter recebido esse nome devido à personalidade. Mas como um cavalo pode ser lisonjeiro? O Farid Germano Filho, por exemplo, é sempre muito lisonjeiro. Trata-se de uma pessoa gentil, o Farid. Mas o Farid fala. Um cavalo, como um cavalo faria lisonja? Curioso.

Compreendo mais os nomes dados em função da própria atividade do cavalo. Nomes que exaltem sua competência, como Valete de Ouro, que por sinal venceu o quinto páreo. Ou Boa de Briga, On Glory, La Espoleta, ou até Ke Talento e Ki Story, embora esses dois últimos pareçam nome de sorvete.

Tem também o Fantastic Lover, certamente um garanhão. Mas o que eu mais apreciaria ganhar de presente é o La Dentex, porque deve, de fato, dispensar exame odontológico. Enfim, o estranho e surpreendente mundo animal. Preciso freqüentar mais o Jockey.

*Texto publicado em 08/08/2004 em Zero Hora

Postado por David