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Posts de maio 2008

As 10 linhas da Martha

21 de maio de 2008 30

Fraga

Blaise Pascal, que muitas coisas disse, entre elas que o coração tem razões que a própria razão desconhece e que o amor é cego e a amizade fecha os olhos, tudo isso dizia Pascal, e mais: dizia também que nós, seres humanos, temos todos um vazio interior, e o preenchimento desse vazio interior termina se tornando a principal razão da nossa vida.


E não é mesmo? Uns preenchem o vazio interior com o trabalho. Conheci um sujeito que costumava gabar-se:


— Para mim, em primeiro lugar vem a Organização. Em segundo, meu filho.


A Organização era o lugar onde trabalhávamos. Um dia, o cara ganhou um aumento. Ao receber o contracheque, escandalizou-se, deu um soco na mesa e marchou até a sala do patrão. Pediu que lhe diminuíssem o salário. 


No quiero prejudicar la Organización — justificou.


Era meio castelhano.


Outra vez, esse mesmo patrão, um grande gozador, deixou correr pela Organização o boato de que iria demiti-lo. Mentira, claro — só para ver como ele reagia. Pois o cara irrompeu na sala do patrão, espalhando secretária para tudo que é lado, ajoelhou-se em frente à mesa do homem e uivou, mãos postas:


— No! Nooooooo! No quiero derrar la Organización!


***


Há também quem dedique sua existência a essa invenção da literatura, o amor romântico. Alguém dirá que isso é coisa de mulherzinha. Sendo assim, como se explicam as músicas ouvidas pelos caminhoneiros? Todas as músicas ouvidas pelos caminhoneiros são de homens se lamuriando pelo amor perdido.


Aaaaah, jeito triste de teeeer voooocê


Longe dos olhos e dentro do meu coraçã-ã-ão


Me ensina a te esqueceeeeer


Ou venha logo e me tire desta solidããããõ!


E os caminhoneiros não são exatamente pessoinhas delicadas. É que, na falta do sucesso profissional, na falta da fama e da glória, na falta da riqueza e da fortuna, na falta do apreço pelo conhecimento, o amor os preenche.


***


Outros há que se realizam com, quem diria?, o futebol. Não com a prática do dito cujo, mas com a paixão por algum clube. Nas entrevistas que o Lucianinho faz com os torcedores, na Gaúcha, seguidamente ouço algum proclamar:


— O (Grêmio ou Inter, escolha) é tudo na minha vida! Tudo! Tudo!!!


É estranho, bem sei, mas torcedores que tais cometeriam loucuras pela sua paixão. Lamberiam a careca suada do Guiñazu, sentariam nos joelhos do Pereirão, fariam qualquer coisa, se acreditassem que isso beneficiaria seu clube. Normal: o clube transformou-se no centro da personalidade deles.


É assim que ocorrem incidentes como o que abalroou a Martha Medeiros, dias atrás. Depois de o Inter ganhar o Gauchão, a Martha ousou redigir um texto de 10 linhas contando que é colorada, mas não fundamentalista, e que se alegrou com a conquista do time de Vittorio Piffero e bibibi. Para quê! Gremistas fulos enviaram imeils classificando a Martha e toda a descendência dela com todos os adjetivos usualmente empregados pela Geral do Grêmio nas arquibancadas de pedra do Olímpico. A Martha ficou tão chocada que escreveu uma coluna a respeito, queixando-se da grosseria dos torcedores.


É que a Martha não sabia, obviamente, é que esses torcedores não preenchem seu vazio interior com amigos, com a família, com seus amores, com seu trabalho, com seus livros, com os filmes que vêem e as boas comidas que comem, com as viagens que fazem e as músicas que ouvem, com tudo isso junto e equilibrado. Não. Para esses torcedores, o clube de futebol é a sua identidade. Natural que não considerem o rival um adversário, mas um inimigo. Afinal, o rival não ameaça apenas o clube pelo qual torcem. Ameaça a eles próprios. Talvez seja rasteiro, talvez seja doentio, mas é assim que é.



* Texto publicado hoje na página 59 de Zero Hora.

Postado por David

Diário do Potter - 6

20 de maio de 2008 5

A pedidos, vão aí mais notícias do nosso correspondente no Primeiro Mundo:


Fotos: L. Potter


Seabus


Vancouver tem água e ponte por tudo quanto é lado. Por tudo quanto é lado mesmo, de verdade! Duas pontes ligam o norte e o noroeste ao centro da cidade.


E tem um meio de transporte público chamado Seabus — uma espécie de ferry boat lá de Salvador. O interessante é o seguinte: o preço da passagem varia, dependendo do quanto tu andar. Eu, por exemplo: circulo por duas zonas (norte e downtown). Assim, pago 3,75 dólares canadenses — salgado, é verdade.


Porém, também posso andar de ônibus — que, para mim, é até mais prático — quando vou para a escola ou quando volto para casa. Mas a pequena viagem no Seabus é demais! Tu desbrava as águas do Pacifico e, à tardinha, defronta um lindo pôr-do-sol.


Essa coisa de cidade banhada me parece uma vantagem. Rio de Janeiro, Vancouver e — por que não? — Porto Alegre, com o Guaíba, que o digam. 


 


Produtos made in Asia


É absurdo: uma pequena caminhada por Vancouver te transporta para a Ásia. Olhos puxados por todo lado, meninas de saias minúsculas e risadinhas soltas, homens cheios de estilo e todos os tipos de asiáticos que possam existir no planeta.


Vancouver, após o crescimento dos Tigres Asiáticos, mais China e Japão, cresceu junto. É relativamente fácil atravessar o Pacífico e morar ou abrir um negócio no oeste canadense. Os governos ajudam, e o efeito é tu topar com orientais em cada esquina — e nas salas de aula, que têm micro-computadores com traduções dos idiomas asiáticos para o inglês.


Na foto à esquerda, meus colegas Ryota, Kevin e Kid (o primeiro do Japão e, os outros dois, da Coréia do Sul. Uma curiosidade: eles ganham nomes ocidentais quando vêm estudar por aqui - para facilitar o entendimento).


Consolidando o império asiático em Vancouver, como mostra a foto à direita, prateleiras ostentam dezenas de produtos com aqueles belos caracteres orientais (te anima a comprar?). 


 


Olimpíadas de Inverno em 2010


Ainda nao fui a Whistler, a estação de esqui que receberá as Olimpíadas de Inverno de 2010 — coisa que a gente só acompanha por TV a cabo, e olhe lá.


Tudo é muito lindo em Whistler, dizem: montanhas de neve, gente esquiando, roupas coloridas, óculos caríssimos etc. Por isso o Canadá receberá os Jogos e, como mostra a foto, a contagem regressiva já começou. No comércio, vários produtos promocionais — camisetas, bonés, moletons, mantas, canetas,... — são vendidos a preços salgados.


Whistler fica a uma hora e meia de Vancouver. A estrada para lá está sendo duplicada, e a população já vive as Olimpíadas de Inverno de 2010 — bem diferente de uns secadores brasileiros, que não gostam de Pan-Americanos, Copas do Mundo e competições que deixam marcas positivas para o resto da vida de muita gente e de muita cidade.

Postado por David

Túnel do Tempo

19 de maio de 2008 15


A Janete, de Sapucaia do Sul, pediu para eu republicar no Túnel do Tempo essa crônica* que leva o nome dela. Ó:



Janete


Elias olhou para a cinturinha de Janete e pensou, admirado: é o talo da maçã! Pela primeira vez, a via de biquíni. O firme redondo das nádegas, as pernas longas e sólidas... Janete, quem diria?


No cimento de Porto Alegre, à paisana, boiando dentro de suas calças largas, Janete tinha a sensualidade de uma máquina de lavar roupa. Usava óculos de aros grossos, o cabelo sempre preso, só falava em trabalho. Mas afundando os pequenos pés brancos na areia quente de Atlântida, com o corpo enfim desvelado, Janete mostrava o que ninguém poderia suspeitar. O talo da maçã! Elias não se conteve.


Deixou a palavra explodir nos molares:
— Gostosa!
— Que é isso, Elias?!?


Ele, que era um mulherengo convicto, um pândego incansável, não se comoveu com o embaraço dela.
— Como tu é boa!
— Elias! Pára com isso já e já!


Não adiantou. A partir daquele dia, Elias foi tomando cada vez maiores liberdades com Janete. Os outros amigos, todos colegas de trabalho, achavam muito engraçado. Quando haviam combinado de alugar a casa em Atlântida sequer desconfiavam que Janete, recatada feito uma irmã carmelita, quereria ir junto. Mas ela quis. Foi. E agora isso. O verão prometia ser divertidíssimo.
Elias estava adorando. Passava os dias lhe dizendo... coisas.
— Sabe o que vou fazer contigo? — e relacionava as safadezas mais melequentas que os tímpanos imaculados de Janete já tinham ouvido.


Ela apenas protestava:
— Pára, Elias!


Os outros riam. Os ataques de Elias se tornavam mais insinuantes sempre que ela vestia o biquíni. Não se limitava mais a falar. Apertava-lhe os braços, beijava-lhe as omoplatas, rosnava em sua nuca. Janete se esquivava e protestava, sem graça.
— Pára...


Todos riam dos apuros de Janete. Ninguém mais do que o gozador do Elias:
— Essa mina é muito engraçada!


Acuada, Janete desistiu dos biquínis. Agora vestia apenas shorts sisudos e saias que lhe roçavam as rótulas. Desistiu de ir à praia, temendo açular a lubricidade de Elias. Preferia ficar jogando canastra com alguma amiga.


Até que, um dia, os amigos saíram aos pulos com suas raquetes de frescobol, Janete pensava estar sozinha em casa, mas não estava. Elias também ficara. Ela abriu a porta do quarto, distraída, cantarolando baba, beibe, beibe, baba, e, ao botar o pé no corredor, quase abalroou Elias.


— Oh! — Janete se assustou. Deu dois passos para trás. Entrou outra vez no quarto, de costas. Elias a seguiu. Fechou a porta com o calcanhar, sorrindo, malicioso. Olhou-a dos pés macios aos cabelos encaracolados. Sentiu a saliva se lhe acumulando nos carrinhos.
— É hoje, Janete — disse, voz roufenha, os caninos à mostra.


Ela não respondeu. Ele repetiu:
— É hoje!


E se aproximou dela, esperando que recuasse, apavorada, para o fundo do quarto. Mas Janete não recuou. Continuou paradinha, de pé. Talvez por estar em pânico, calculou ele. Elias levou as mãos até as ilhargas de Janete. Ela usava um vestido leve, que lhe caía aos tornozelos. Elias agarrou o vestido com as duas mãos, uma em cada perna. Começou a puxá-lo. Janete se manteve impávida, calma, olhando para Elias como se estivessem conversando sobre a cotação do dólar.


O vestido foi subindo. As canelas lisas de Janete apareceram. Elias pensou: é agora que ela vai gritar.


Não.


Janete ainda estava tranqüila. Os joelhos redondos vieram a seguir. Elias, sem parar de recolher o vestido, achou que provavelmente ela lhe esbofetearia.


Nada disso. Janete sequer se mexia. Apenas respirava e observava


A primeira curva das coxas de Janete surgiu, brilhante. O coração de Elias batia com força. O que estava acontecendo? Por que ela não protestava? A saia subia ainda mais. Outro palmo de coxa. Janete imóvel. Elias sentiu o suor frio lhe brotando das frontes. O vestido subindo, subindo, ali estava o amarelo da calcinha, a calcinha minúscula, um paninho de nada. Elias arregalou os olhos. O que era aquilo? Cadê o pavor de Janete? Cadê o medo? Olhou para os olhos dela — reluziam, um meio sorriso lhe cintilava no rosto.


Elias largou o vestido. Recuou. Bateu com as costas na porta.
— Janete!


Ela avançou. Colou nele. Elias sentia seu hálito de baunilha.
— Tu disseste que era hoje! — ronronou ela.
— Janete!
— Tu disseste que ia fazer coisas comigo!


Esfregava-se nele, agora. Apavorado, Elias conseguiu driblar o ataque de suas mãos sequiosas. Atirou-se para o lado, escorregou, quase caiu.
— Tu disseste que ia sugar meus mamilos róseos! Suga! — e num golpe Janete rasgou a blusa.


Rasgou! Os seios, blop, blop, saltaram para o ar exterior, enfim livres. Desta vez, Elias caiu, com o susto. Começou a se arrastar de costas, fugindo daqueles mamilos realmente róseos, intumescidos, belicosos.
— Janete! — berrava Elias. — Que é isso, Janete!
— Tu disseste que ia passar a língua por cada centímetro do meu corpo em fogo! — continuou ela, avançando sempre. — Agora passa! — e pulou fora do vestido, e num átimo já estava sem calcinha. Janete ali, nua, e Elias com a garganta fechada, com vontade de chorar, prensado contra a parede.
— É HOJE! — urrou ela.


E Elias finalmente se equilibrou, levantou-se de um salto e, ágil, alcançou a porta, abriu e saiu correndo, gritando:
— Não, Janete! Nããão!


Janete ainda correu atrás de Elias por alguns metros, nua, os seios balouçantes, mas ele tomara grande distância, não havia como pegá-lo. Depois daquele dia, os biquínis de Janete diminuíram consideravelmente. Até um de crochê ela usava. Elias passou a fugir dela, mas ela o perseguia, abordava-o, dizia... coisas para ele. Grudava os lábios carnudos em sua orelha e murmurava:
— Sabe o que é que eu vou fazer contigo?


Elias reclamava:
— Pára, Janete!


Os outros riam, contentes. O verão estava sendo realmente divertidíssimo.



*Texto publicado em 05/01/2003

Postado por David

Pai do Sant`Ana

19 de maio de 2008 14

Paulo Franken, Banco de Dados

Um nenê precisa de muita atenção.


Fico pensando: por que essa necessidade? Por que ele quer alguém por perto? Não é para trocar uma idéia, dar uma conversada. Ele não conversa. Tenho me esforçado para ensiná-lo a dizer papai, até acho que ele disse "babá" dia desses, mas duvido que saiba o que significa. No máximo, fala abu:


— Abu, abu, abu...


O que será abu em língua de nenê?


Verdade que não posso me queixar. Sei de nenês que só dormem na cama dos pais, convertendo-se em eficiente anticoncepcional. A China deveria empregar esse método. Mas o Bernardo, não. O Bernardo fica no quarto dele, sem problemas. Só que logo depois de adormecer ele dá uma miada. Vou correndo ao quarto dele, ele abre os olhos, me vê, fecha-os e dorme de novo, para só acordar de manhã cedo. Por que deu a choradinha? Para conferir se tem alguém nas imediações, obviamente.


Meu nenê está sempre reivindicando atenção.


Será que vai ser assim quando crescer? Algumas pessoas que conheço têm essa característica. O Paulo Sant`Ana é um. O Sant`Ana detesta quando não é o centro das atenções. Dia desses, fomos ao bar do Atílio, o Jazz Café, e um outro amigo nosso, o Nestor Hein, sentou-se bem em frente ao Sant`Ana. Acontece que o Nestor estava rouco naquela noite. Muito rouco, não conseguiria nem dizer abu. O Sant`Ana protestou:


— Como é que senta um mudo na minha frente!!!


Argumentei:


— Mas, Sant`Ana, esse é o interlocutor perfeito pra ti: ele só vai te ouvir!


O Sant`Ana balançou a cabeça:


— Quero que meu interlocutor não fale porque não quer, não porque não possa!


O Sant`Ana devia ser como o Bernardo, quando pequeno. O que me preocupa. Gosto muito do Sant`Ana, mas não queria que ele fosse meu filho!



*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora

Postado por David

O assassino, o corpo putrefato e o cavalo

18 de maio de 2008 9

Sempre que a polícia prende um assassino cruento e interroga o assassino cruento, o delegado comenta:

- Estou chocado. Em 20 anos de carreira, nunca vi alguém tão frio.

Sempre, sempre. Mas não é possível que todos os assassinos sejam frios. Um dia um delegado ainda vai declarar:

- O assassino é muito emotivo, muito sensível. Chora a todo momento. Estou com pena dele.

Da mesma forma, todos os corpos estão em adiantado estado de decomposição. Jamais ouvi ou li uma notícia sobre um corpo encontrado em atrasado estado de decomposição. Imagino o delegado declarando, até com certa satisfação:

- O corpo estava fresquinho quando o encontramos. Estava em muito bom estado, realmente. Em 20 anos de carreira, não havia visto ainda um corpo tão bem conservado.

Uma vez, um cavalo foi encontrado com três patas, lá em Pelotas, parece que foi em Pelotas. O cavalo estava morto, naturalmente, e o matador, por algum motivo, levou-lhe uma das patas embora. O delegado chamado para investigar o caso, declarou, desolado:

- Em 30 anos de carreira, nunca tinha visto um cavalo com três patas.

A notícia saiu na Zero Hora.

Juro.

Cada um com suas perplexidades. Eu, em 25 anos de profissão, por Deus, nunca tinha visto uma competição nacional tão afeita a um time como a Copa do Brasil deste ano para o Inter. A Copa do Brasil ofereceu-se ao Inter. E o Inter, butz, vacilou.

*Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.

Postado por David

Escândalo no jantar

18 de maio de 2008 3

Noite dessas, fui a um jantar com o pessoal da natação. Sempre digo que é a Escolinha de Natação O Patinho Feliz. Mas não é. O pessoal lá é profissional, são da Raiasul, fazem triatlo e tudo mais.

Bem. O fato é que, assim que entrei na sala onde estavam todos, levei um choque. Fiquei pasmado, olhando para eles sem acreditar no que via.

Eles estavam vestidos!

Nunca os tinha visto com roupa. No máximo, sunga para os homens e maiô para as mulheres. E touca, claro. Aliás, essa foi minha primeira surpresa. Todo aquele cabelo... Alguns até têm franja. Mas o mais escandaloso foi a roupa. Ele estavam dentro de calças e sapatos, havia gente de blusão e houve quem se enrolasse em mantas.

Fiquei envergonhado ao vê-los, e notei que eles também ficaram. Era muito agressivo ver aquela turma tão vestida. Levou algum tempo para nos acostumarmos com a nossa nova condição.

É a relatividade da moral. Se Fernandão usasse hoje o calçãozinho que Falcão usava na Copa de 82, a turma diria:

- Hmmm, que calçãozinho...

Os pudores mudam. Não duvido que, no futuro, ninguém se escandalize por um centroavante sair com travestis. Não duvido que as pessoas preocupem-se com os gols do centroavante, em vez de ligar para suas preferências sexuais. Acredito no futuro.

*Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.

Postado por David

A bola na avenida

18 de maio de 2008 6

Recebi o seguinte imeil, a respeito de uma coluna que escrevi semana passada:

%22Senhor David! Tio David!

Como queiras.

Eu me chamo Giovanni Zanco Gaiatto, tenho 11 anos e sou um dos meninos que jogava bola no Colégio Maria Imaculada, sobre o qual o senhor escreveu, lembra? Aquele texto da bola que caiu na avenida. Foi o meu amigo, ele deu um %22bago%22, que nem o senhor diz, e a bola caiu no outro lado do muro. A vó e o moço que estavam na rua não tinham muita vontade de nos devolver a bola. Queriam acabar com o nosso jogo. Mas o senhor entendeu o nosso drama. Sua reportagem fez sucesso na sala de aula e nós, é claro, nos sentimos o máximo. Os colegas diziam que nós éramos famosos. Senhor David! Sou esportista e da paz. Jogo na escolinha do Flamengo, porém sou gremista de coração e tenho muitos amigos colorados. Logo, logo você vai jogar com seu filho Bernardo, não vai?

Um abraço.

Giovanni%22.

Gostei muito do imeil do Giovanni, sobretudo porque ele, aos 11 anos, já é %22da paz%22. Só tem o seguinte, ô, Giovanni: tio, não!

*Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

16 de maio de 2008 18


Atendendo ao pedido da Adriana Brandão, áí vai mais uma para o Túnel do Tempo:


A mulher burra

Quando Cátia atirou o valete na mesa, Alexandre explodiu:
— Mas tu é burra mesmo!

Cátia ficou com um ó de espanto nos lábios vermelhos. Alexandre prosseguiu, insensível:
— Não está vendo que eles vão fechar uma canastra? Uma canastra limpa!

Jogavam em duplas. Chovera durante o fim de semana, confinando os dois casais em casa, em Rainha do Mar. O jeito foi passar o tempo com campeonatos de canastra. Alexandre & Cátia versus Leonardo & Dani. As derrotas sucessivas irritavam Alexandre. Sua paciência com a esposa foi se evaporando a cada cartada. Cátia fazia uma jogada e ele dava um tapa na testa:

— Putz! Não viu este nosso jogo de espadas?
— Ah, é mesmo... — ela se desculpava, levando o indicador à boca.

Passadas algumas horas, as críticas azedaram.
— Tu comprou o oito de ouros e não descartou! Não acredito!

Rodadas depois, ele disse a palavra. Burra. Cátia sentiu-se insultada até a mais escura esquina da alma. Algo dentro dela se trincou naquele instante — ninguém que ama trata o ser amado dessa forma. Burra, não. Burra é demais.

O jogo continuava, a palavra %22burra%22 ainda pairava sobre a mesa, como uma espada pendente, quando Leonardo sentiu o toque de um pé na sua canela direita. Estremeceu. Não parecia um toque casual. De fato, não era. O pé seguiu roçando na sua canela. Roçando com vontade. Com volúpia. A espinha de Leonardo enrijeceu. Aquele pé... só podia ser o pé... de Cátia!

Sim, a mulher de Alexandre o assediava. Jesusmariajosé! Alexandre era um bom amigo, conheciam-se desde o colégio, mas sua mulher... bem, Leonardo tinha de reconhecer que ela também era muito boa. Deliciosa. Nos fins de semana em Rainha do Mar, ela usava biquínis pequeninhos, um quase nada de roupas, e Leonardo sentia palpitações. Que mulher, essa Cátia, com suas pernas longas, seus lábios de gomo de bergamota, seus seios opulentos. Que mulher! No entanto, Alexandre era seu amigo, e mulher de amigo dele, para ele, era gordo.

Leonardo sentia-se um canalha por ficar excitado com aquele roçar de dedão na canela. Pensou em tirar a perna para o lado. Mas não conseguia. Cátia, Cátia, que mulher! Outros sinais vieram. Cátia lhe remetia olhares em brasa. Sorria um sorriso de viés. Leonardo, nervoso, não prestava mais atenção ao jogo.

— Tua vez! — avisou-lhe Dani.
— Ah...

Dani. Será que percebeu? Não. Que nada. Cátia vinha sendo discreta, embora não parasse de se esfregar nele. Que nervosismo, Senhor!

Finalmente, o jogo terminou. Foram jantar. À mesa, Cátia espetou o bico de seus seios no ombro dele, ao lhe servir a salada de batata. Leonardo suava.

Uma hora mais tarde, recolheram-se. Quartos contíguos. Leonardo não conseguia dormir, óbvio. Ficou deitado de costas, o arregalado do olhar cravado no teto escuro. %22Sou um cafajeste%22, se torturava. %22Não sou amigo%22. Não pensava em Dani, que ressonava ao lado, e sim em Alexandre, o velho companheiro. %22Não sou amigo, não sou amigo%22.

INHÉÉÉÉÉÉ...

Era a porta, que se abria. Leonardo levou um susto, mas continuou engessado pelo lençol. Só seus olhos se moveram, em direção ao trinco. Um facho de luz baça entrou pela fresta que se formou. Logo, um braço nu. Uma perna de mulher. Ela. Cátia.

Leonardo começou a tremer. Ela fez um gesto com o queixo e saiu, deixando a porta encostada. Chamava-o. Leonardo, em pânico, conferiu se Dani ainda dormia. Sim, dormia, fazendo barulhos esquisitos. Leonardo levantou-se, as pernas bambas. Saiu do quarto sem bater a porta. Ninguém no corredor. Caminhou até a sala. Nada. Onde ela estaria?

Na cozinha.

Vestia um baby-doll diminuto. Transparente como a verdade. O coração de Leonardo batia nas têmporas. Ele se aproximou. Notou que ela escondia algo às costas, na pia. Um pote. O sorvete de flocos! Cátia enfiou a mão no sorvete e, PLAF!, lambuzou o peito de Leonardo. Passou a lambê-lo, emitindo ruídos como: mnnnnnã!, mnnnnnã! Leonardo sacudia a cabeça de um lado para outro. Queria dizer algo. Queria gritar. Não sabia bem como agir naquele momento, estava destreinado pelos anos de rotina no casamento. Apelou para sua cultura filmográfica:

— Ou iés! Ou iés!
— Mnnnnnnnã! Mnnnnnnã!
— Ou iés! Ou iés!
— AAAAAAAAAAAAAAAAH!!!

Aaaaaaah? Um grito? Um grito! Dani!

De pé, na entrada da cozinha, a mulher de Leonardo não parava de gritar aaaaaaaaaaaaaah!!! Até que Alexandre chegou, só de cuecas e carpins, para ver o que acontecia.


Leonardo e Cátia decidiram se casar. Nunca mais viram os outros dois — Alexandre mudou-se para o Paraguai, onde foi trabalhar no comércio de veículos; Dani virou vegetariana e síndica de edifício. Leonardo passou muito tempo sem sequer pensar naquele fim de semana que mudou sua vida. Até que, quatro anos depois, ele e Cátia foram passar o Carnaval na mesma casa em Rainha do Mar e com eles foi outro casal, a loira Letícia e seu marido Daniel, um designer gráfico. Chovia na terça-feira gorda e Leonardo sorriu quando Cátia deu a idéia:

— Que tal um campeonatinho de canastra?

A lembrança daquele antigo final de semana voltou, límpida. Mas, com o correr da jogatina, ele logo se esqueceu. Jogavam em duplas de casais e, por Deus!, eles estavam perdendo por causa de Cátia. Como ela jogava mal. A princípio, Leonardo sorriu de suas falhas infantis. Em algumas horas, porém, a irritação tomou conta dele. Não era possível que uma mulher fosse tão imbecil!

Leonardo esforçava-se, construía canastras, montava trincas, preparava os jogos, mas ela só ajudava a outra dupla. O jogo seguia renhido, Leonardo suando com o esforço, estavam prestes a vencer, e ela descartou um dois. Um coringa! Não! Um coringa! Aí o insulto saiu sozinho da boca de Leonardo, espremendo-se entre seus molares, as vogais rasgadas pelos caninos:

— Que mulher idiota!

Antes mesmo de terminar de falar, já havia se arrependido. Mas era tarde. Cátia estava nitidamente ofendida. Ela enrubesceu. Apertou as cartas entre o indicador e o polegar. E aquele fim de semana de quatro anos atrás voltou a borbulhar no cérebro de Leonardo. Ele olhou para Cátia. Ia falar algo. Então, o designer Daniel estremeceu do outro lado da mesa.


*Texto publicado em 27/01/2002 em Zero Hora

Postado por David

O livro, a frase

16 de maio de 2008 38

Tenho um velho livro, Maravilhas do Conto Francês, que é velho mesmo. A encadernação original nem existe mais, o livro foi reencapado em pano, num tecido axadrezado que bem daria um kilt escocês. Há contos que, como promete o título, são maravilhosos. De Stendhal, Balzac, Mérimée, Maupassant, Verlaine e outros de igual quilate. Não sei se o comprei em um sebo, se ganhei de presente, não sei como foi parar em minhas mãos, mas sei que o possuo há tempo. Li as histórias com prazer. Na última página da última delas, de Tristan Bernard, encontrei uma dedicatória:

%22Lelê: Só queria te desejar felicidades em tudo que tu desejas alcançar. Seja pouco ou muito, o importante é que pra ti seja muito. E não te esquece da gente quando estiveres no Louvre. Até. Beto. Julho de 1961%22.

Embora tenha lido o livro há pelo menos 20 anos, nunca esqueci da dedicatória. Porque, sei lá, imaginava a Lelê em Paris, com aquele mesmo livro debaixo do braço, zanzando pelo Louvre, pensando no Beto que a esperava no ultramar. Tinha sua história, aquele livro. Havia emoções impressas em suas páginas, e não só as que os autores tentavam transmitir.

Ontem, lidava na minha pequena biblioteca e, sem qualquer razão consciente, tomei o livro de uma estante e reli a dedicatória. Enquanto o fazia, senti que havia algo preso sob a capa de pano. Uma saliência que talvez até tivesse percebido antes, mas que só agora se soltara. Era como se fosse um cartão ou um bilhete. Fiquei aceso de curiosidade. Fiz à faca uma pequena incisão no tecido e empurrei o papelzinho para fora.

Era uma foto.

Uma daquelas fotos antigas, do tamanho de uma caixa de fósforos, com as bordas recortadas em ziguezague. Duas pessoas estavam retratadas, um homem e uma mulher. Posavam lado a lado em uma praia que não consegui identificar. Ela vestia um maiô que poderia remontar aos anos 50, tudo ficava pudicamente coberto por aquele maiô. Ele usava um calção que lhe subia ao umbigo. Ambos olhavam sorridentes para a câmera, os braços pendentes ao longo do corpo, relaxados. A foto, tão antiga quanto o livro, estava escurecida, desgastada, mal divisei os rostos deles e a paisagem que lhes fazia moldura.

Intrigado, pensei no motivo pelo qual alguém esconderia uma foto dentro de uma capa de livro.

Então, a virei.

No verso, alguém escreveu a lápis uma frase em letra de fôrma, sem ponto final. Uma frase de letras apagadas, como se fosse desenhada sem convicção. A seguinte:

%22Eu era feliz%22.

Foi como se levasse um soco no peito. Eu era feliz. Quem teria escrito a frase? O Beto? A Lelê? Ou algum outro antigo dono do livro? Eu era feliz. Significava que, quando a frase havia sido escrita, a felicidade já se fora. E a felicidade, óbvio, existia na época em que o flagrante na praia fora colhido. E a reunião dos dois personagens da foto é que era a causa da felicidade. Assim, tornava-se lógico que a razão da infelicidade era a separação dos dois.

O que aconteceu? Um deles morreu? Romperam?

Mais: por que a parcela sobrevivente do casal costurou a foto sob a capa do livro? Por que aquele livro em especial? As possibilidades têm rondado o meu cérebro, desde então. Quem diria que, num livro escrito por tantos mestres, a melhor história seria a do seu leitor?

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Diário do Potter - 5

15 de maio de 2008 5

O L. Potter, nosso correspondente alegretense no Primeiro Mundo, se assustou com alguns lugares que conheceu lá em Vancouver, no Canadá. Olha aí:



Foto: L. Potter

Like Amsterdam

Vancouver é liberal.

Tanto quanto Amsterdam?

Não sei. Nunca fui para a Holanda. Mas fui conferir um lugar cujo amigos mais liberais me cantaram a pedra: as coffee hemps canadenses.

É simples: ali, tranqüilamente, o cara usufrui de maconha e/ou assemelhados com amigos. O lugar é uma espécie de pub, mas é também um comércio de centenas de itens %22marihuanenses%22.

O cheiro? Nada muito forte. O público? Gente de terno ou moletom ou saia ou dreadlocks ou loiras com as maçãs do rosto vermelhas. Deixaram tirar fotos e, obviamente, pediram: %22nada de pictures de pessoas, certinho?%22 Claro, respeitei. Mas, mesmo assim, duas queridas canadenses, ao saberem que o fotógrafo era brasileiro, posaram para uma foto e perguntaram: %22as latas, aquelas do litoral tupiniquim, ainda existem?%22

Dei um sorriso, falei que vai rolar um filme sobre isso e que, provavelmente, tudo havia sido queimado (pela polícia e, claro, por usuários).

Se eu consumi algo lá? Claro! Um suporte para fazer cubos de gelo com o formato da folha que várias pessoas, aqui no Canadá, plantam em casa.



Foto: L. Potter

Imax

Já ouviu falar? Tela gigantesca, som absurdo, quase 180 graus de cinema. Um espetáculo!

Pois bem, existe um desses em Vancouver. À beira do Pacífico. E por uma daquelas sortes absurdas — que nunca te acompanham na Mega-Sena (alguém conhece um ganhador?) — está em cartaz o documentário The Rolling Stones Shine a Light, dirigido pelo Scorcese. Está no Brasil também - na verdade, acho até que já saiu das telas, já deve estar sendo prensado em DVDs.

O diretor gravou um show dos Stones em Nova York, mostrou um pouco da preparação de tudo e catou umas entrevistas antigas dos velhinhos.

Numa dessas entrevistas, o repórter, com deboche nos lábios, pergunta para Mick Jagger, ainda gurizão, se ele acha que ainda estará tocando aos 60 anos. O futuro pai de Lucas — filho da Luciana — responde com serenidade e certeza: %22Óbvio.%22

O efeito do Imax te coloca no teatro nova-iorquino. Bela experiência — exceto para um garoto que dormiu durante todo o filme (roncou em Satisfaction).

A propósito: Porto Alegre terá seu Imax naquele novo shopping da Zona Sul? Alguém confirma?



Foto: L. Potter

A Biblioteca Pública de Vancouver

Lugar excepcional! Andares e mais andares de livros, vidros, mesas e cadeiras, com ambiente wi-fi, banheiros límpidos e uma arquitetura que, de forma primordial, facilita a leitura: o prédio é quase todo transparente.

Essa é a biblioteca municipal de Vancouver. Em qualquer hora do dia, muita gente lendo, pesquisando, lendo, estudando, usando laptop com internet liberada, lendo, lendo e mais lendo.

Dizem que Vancouver é a cidade que mais lê no Canadá. Deve ser mesmo, basta passear pela biblioteca para concordar. No térreo — uma área pseudo-externa (com ar-condicionado e paredes envidraçadas) —, têm bares, sorveteria e café.

Ah!, a biblioteca serve para outra coisa também: os moradores de rua de Vancouver ficam por ali. Dormindo nas cadeiras, se protegendo do gélido ar e, claro, lendo.

Postado por David

O PG

15 de maio de 2008 15

Cáren Baldo
Muita gente pergunta quem é Pegê, também chamado Paulo Germano, o diretor do blog.

Aí está um flagrante do PG em ação, sambando com uma mulata em trajes sumários (a mulata, felizmente), durante um casamento em Porto Alegre.

Testemunhas garantem que PG, como dançarino, é... bem... malemolente.

Postado por David

Lúcida Lúcia

14 de maio de 2008 39

Ainda sobre o texto de hoje, que grande debate tem rendido. A discussão sobre Gerald Thomas et caterva eu já esperava.

Mas explodiu mais uma que, para mim, foi surpreendente: colorados irritados por acharem que critiquei o Abel! Acerca disso, a leitora Lúcia Souza d%27Aquino, de Porto Alegre, enviou um imeil do qual muito gostei. O seguinte:


%22Oi, David, tudo bom? Sou tua fã e colorada fanática.

E esse não é um e-mail pra te criticar ou para perguntar teu time. Esse é mais um desabafo. Sério, é muito chato essa gente toda te criticando porque não usas uma faixa na testa dizendo %22SOU GREMISTA%22, ou por seres gremista. Eu não sei o que esperam de ti.

És um ótimo comentarista, um escritor fascinante, e tudo isso se torna de segundo plano porque tem gente que insiste em te fazer admitir que és gremista!

Eu li a reportagem dizendo que tiveste que admitir que és gremista, e isso INCRIVELMENTE não faz a menor diferença. Estranho, não?! Não!!! Eu gosto do David escritor, comentarista, cronista. O resto todo não faz a menor diferença.

Exigir que tu dê esse tipo de satisfação não só é invasivo, como ridículo. É o mesmo que perguntar algo do tipo %22já traíste a Marcinha?%22, %22já mataste alguém?%22... São respostas que não farão diferença na vida de quem lê, e só servirão — se servirem — para fornecer elementos para alguém não gostar de ti ou te criticar.

Eu, no teu lugar, ficaria irritadíssima com esses pseudo-fãs para quem faz toda a diferença o time para o qual tu torces.

Enfim, só me enfureci lendo os comentários do post sobre o Gerald Thomas e decidi desabafar. Desculpe qualquer coisa.

Beijos!%22

Postado por David

Ganha em dólar para falar mal do real

14 de maio de 2008 14

Mauro Vieira
O Alexandre Bach, editor-chefe do Diário Gaúcho, enviou um imeil sobre o texto que publiquei hoje, em Zero Hora. Gostei do que ele escreveu e divido com vocês.

Ah, quando ele fala que %22socializamos nossa nudez%22 é porque nadamos no mesmo clube, não vão pensar coisinhas! Aí vai:


%22Se no momento em que socializamos nossa nudez, na segunda pela manhã, tu tivesse me avisado que irias assistir ao Gerald Thomas, eu teria impedido que tu perdesse o teu tempo.

Este cara é daqueles que ganham em dólar para falar mal do real. Quando morrer, não vai deixar nenhum legado. Só passou pela vida. Mais nada.

Há algum tempo, fui assitir em Porto Alegre %22Carmem com Filtro%22, uma de suas obras-primas. Não entendi nada, o que é normal, devido a minha limitação intelectual. No jantar, mais tarde, percebi que todos os meus amigos que me acompanharam ao teatro (e estes com um nível intelectual bem melhor do que o meu!!) também não entenderam nada. Fui dormir tranqüilo, abraçado com a minha ignorância.

Alguns dias depois, li uma entrevista dele para a Folha ou Estadão, não lembro. Perguntado sobre os símbolos e signos da peça, disse mais ou menos assim: na peça nada tem sentido, não me preocupo em passar mensagem alguma, coloco as coisas na peça porque gosto, mesmo que não combinem, não tenho nenhum compromisso em passar algo pro público, e que ele se dane!!

Bom, se ele não gosta de mim, por que vou gostar dele? Na mesma época, talvez lembre, ele estava no %22auge%22 da intelectualidade brasileira pois namorava a Fernanda Torres. Reza a lenda que por sua alentadora anatomia sexual.

Hoje, ao ler o teu texto, eu juntei tudo: ora, este cara famoso para os intelectuais, que adora ganhar em dólar, morar nos Estados Unidos de mulheres peitudas, não se preocupa com enredo e tem pau grande, tá no ramo errado. Devia se dedicar ao filme pornô. Seria mais útil pra humanidade.%22

Postado por David

Que pena do Gerald Thomas!

14 de maio de 2008 35

Arte ZH
A tradição diz que o Eclesiastes não era outro senão o próprio Rei Salomão, classificado pela Bíblia como %22o homem mais inteligente do mundo%22. Se foram de fato a mesma pessoa, Salomão merecia a fama. Os textos do Eclesiastes formam um belo sistema filosófico, sustentado pelo pilar de uma frase genial:

%22Vaidade das vaidades, tudo é vaidade debaixo do sol%22.

E é.

A vaidade escorre pelas frestas de praticamente todas as ações do homem. Mas alguns exageram. Alguns são campeões. Segunda-feira à noite, tive a preciosa oportunidade de ver um deles exibir os efeitos da sua vaidade em público. Testemunhei, eu e mais mil e tantos sortudos, no que a vaidade pode transformar um ser humano.

Gerald Thomas. Eis o homem, como diria Pilatos. Apresentou-se no Fronteiras do Pensamento, ele e seu colega diretor de teatro Fernando Arrabal. E foi precisamente aí, nessa relação de iguais, que se originou o show da noite. Natural: ninguém é rival de um dessemelhante. São os vizinhos que se tornam inimigos de morte.

A quizília rebentou no dia anterior, durante a entrevista coletiva, por uma dessas questões que costumam mesmo gerar conflitos viscerais. No jardim de infância. É que os dois disputavam quem havia sido mais íntimo do autor irlandês Samuel Beckett. Não assisti à coletiva, mas imagino os dois brigandinho:

- O Beckett gostava mais de mim!

- Não! De mim!

- De mim! De mim! De mim!

- Demimdemimdemimdemim!

- Lalalalalalá! - Com as mãos tapando as orelhas. - Não tô ouviiiindo!

Esses meninos, sabe como é.

Por conta disso, desistiram do debate para o qual foram pagos para participar. Preferiram fazer palestras em separado. Arrabal falou primeiro. Fiquei espantado ao ouvir seu discurso. Por duas razões:

1. Como é que um homem pretensamente inteligente, com mais de 70 anos de idade, com bom conceito profissional em parte do planeta, consegue falar tanto sem dizer nada??? Arrabal só fez gracinhas, quase todas sem graça. Mas a reação do público foi a seguinte, e é a segunda razão do meu espanto:

2. O público adorou! Algumas pessoas aplaudiram-no de pé. Houve quem suspirasse, quando ele anunciou o fim da palestra.

Hoje, em retrospectiva, até compreendo o que se deu: Arrabal foi vazio, foi superficial, foi até simplório, mas foi simpático. Esforçou-se para agradar. E agradou. As pessoas sorriam para ele, da platéia.

Foi isso que abalou Gerald Thomas. Seu desafeto fizera sucesso. E agora? Ele teria de fazer sucesso também. Ao pisar no palco da reitoria, Gerald Thomas tresandava sua insegurança. Verdade que tentou. Apelou para a estratégia do inimigo. Esforçou-se para ser gracioso.

Não conseguiu.

Gerald Thomas não é gracioso.

Para atacar Arrabal, projetou no telão uma foto em que estava numa mesa de bar com Beckett, tomando café. Era a prova de que Beckett era mais amiguinho dele do que do rival espanhol.

- Estão vendo aquela mão direita? Eu apertei aquela mão - jurou, orgulhoso.

Ninguém se impressionou. As pessoas começaram a se retirar da platéia. Saíam aos magotes, acintosamente. Confesso que naquele momento me deu certa pena do Gerald. Mas o Gerald não faz o tipo comiserativo. Em seguida, reagiu. Voltou à sua velha característica de polemista agressivo, algo que quase sempre funciona. Desta vez, não. O Gerald não estava preparado para o improviso. Não se comportou como contestador, comportou-se como tolo: ele, um judeu, era contra a existência do Estado de Israel; ele, que havia cinco minutos acompanhava embevecido a uma projeção de filmes de suas próprias peças, pregava que o teatro falira, que quer fazer outra coisa na vida, ajudar a uma ONG, algo assim.

In extremis, não tendo realmente o que dizer, o Gerald socorreu-se do público. Pediu para que nós, a plebe ignara, fizéssemos perguntas. Alguém concordou, formulou uma questão, o Gerald não gostou, disse que não ia responder. Desesperado, encerrou o programa, marchou para fora do palco. Sob vaias. Ontem, escreveu em seu blog um texto apressado, cheio de erros ortográficos, pedindo desculpas. Coitado do Gerald, sucumbiu à própria vaidade.

É assim: alguns não suportam o sucesso. Isso um Gerald, um ser enfatuado de seu cosmopolitismo, da sua cultura, da sua relação com Beckett. Imagine um rasteiro, oco, limitado, insosso, insípido e inodoro técnico de futebol.

*Texto publciado hoje na página 49 de Zero Hora.

Postado por David

O banho da velha

13 de maio de 2008 6

HISTÓRIA FALADA

A partir de hoje, vou contar também histórias enviadas pelos leitorinhos. 

A de hoje é do Luís Pedroso, que namorava uma gata que morava com a avó. Ele achou que se daria bem quando a velha anunciou que iria tomar banho...



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Postado por David