Essa crônica* foi o Oscar Ricola, de Gravataí, quem pediu para reler.
A amaciadora
do Raimundão
O Raimundão tinha dois metros de altura. Digo tinha porque não sei onde ele anda hoje. Pode ter crescido, sei lá. Mas tinha dois metros. E era fortão, quase gordo. E falava grosso. E levava um 38 na capanga. E, ainda por cima, usava bigode.
Não havia nada, naqueles dois metros por um e meio, que fosse delicadeza. Sensibilidade não era o forte do Raimundão.
Jogava de goleiro no nosso time de futsal, o Raios Duplos FC. Bom goleiro. Espaçoso. Mas fazia sucesso mesmo como arma secreta. Assim: estávamos perdendo, joguinho dureza, um de nós ia para o gol e o Raimundão puxava uma luva com os dentes, a outra com a mão livre, e ia rosnando para a linha.
Ficava lá na frente, perto da área inimiga. Alguém do time tomava a bola e não precisava nem levantar a cabeça, já mandava para o ponto onde o Raimundão devia estar: a marca do pênalti. E ele sempre estava lá, eterno como um mamute congelado.
E, se dominava a bola, ou se simplesmente conseguia ajustá-la diante do bico do tênis, mais ou menos em posição de chute, eiba!, o Raimundão chutava. Chutava tudo: a bola pesada, o adversário, o juiz, o parquê solto, o cachorro que passava por perto. Chutava com a perna em chicote, sem se importar com o que estivesse na frente, o pezão subindo feito um aríete a jato, uma bicanca assassina que fazia a bola zunir e apitar, zvuóóóóóó, e, em seguida, cataplan!, ela lascava um tijolo da parede detrás do gol, ou entortava a trave, ou nocauteava o goleiro, ou, o que esperávamos, furava a rede. Gol do Raios Duplos!
Ninguém se arriscava a dividir uma bola com o Raimundão. Os que se arriscaram, o que sobrou deles se arrependeu. Raimundão jamais sentiu piedade, Raimundão nunca se compadeceu. Não era daqueles grandões mansos. Não. Raimundão se irritava com facilidade. E, quando se irritava, a cara do objeto de irritação geralmente virava algo parecido com um quilo de miojo lamen à bolonhesa.
Outra: não gostava de ser contrariado. Se alguém tentava ponderar:
— Mas, Raimundão, eu acho que isso não está certo, eu acho que...
— O QUÊ??? TU ESTÁ DIZENDO QUE EU NÃO ESTOU CERTO???
— N-não, Raimundão, não é nada disso, nada disso, tu me compreendeu mal, é que...
— O QUÊ??? TU ESTÁ DIZENDO QUE EU SOU BURRO???
Um problema, um problema. O mais saudável era concordar com o Raimundão. Por exemplo, o Raimundão era gremista. Vez em quando, ele escolhia um, que sabia ser colorado, levantava-o pela gola e berrava:
— TU É GREMISTA OU NÃO É???
Que saída senão entoar, ufanisticamente, embora quase sem voz:
— A-até a p-pé nós iremos...
Um grosso, o Raimundão. Sensibilidade não era o forte dele mesmo.
Até o dia em que apareceu a Lívia. Tão branquinha, a Lívia, que chegava a ser, realmente, lívida, azuladinha. Lívia era pequena, quebradiça, frágil como uma esperança na madrugada. Qualquer ponto de exclamação regava de lágrimas seus olhos redondos. Qualquer proparoxítona corava-lhe as maçãs do rosto.
Lívia e sua vozinha de gorjeio.
Lívia, que por pouco não se evanescia.
Lívia.
Pois Lívia um dia conheceu Raimundão, e Raimundão se encantou por Lívia. E todos se espantaram: Raimundão e Lívia? Nada mais estranho, nada menos igual. Mas talvez desse certo. Opostos atraídos, e talicoisa. Quem sabe Lívia não humanizasse o Raimundão?
Lívia acabou se transformando numa esperança de todos. Porque o clima sempre era tenso com o Raimundão por perto. Claro, a torcida maior vinha dos adversários do Raios Duplos. Achavam que Lívia seria capaz de suavizar o Raimundão inclusive nas quadras. Nós, não. Tínhamos a convicção de que ele amansaria, sim, mas só na hora da cervejinha, depois do jogo.
Uma noite, aconteceu: pela primeira vez, Raimundão levou Lívia para assistir a uma partida. Verdade que o Raios Duplos venceu sem dificuldades, o Raimundão nem precisou sair do gol, mas todos acreditamos que a tranqüilidade dele durante o jogo ocorrera devido à presença diáfana de Lívia no lado de fora da quadra.
Toda aquela paz fez-nos ir sorridentes para o churrasquinho. Muita alegria, muita descontração, muita cervejinha. Talvez até demais, porque, num dado instante, Alfredinho, o ala do adversário, resolveu falar mal do ponta-direita Tarciso, do Grêmio. Por favor! Todos sabiam que o Raimundão não admitia que se falasse mal do Tarciso. Foi o que ele disse. Trovejou, na verdade:
— Não gosto que falem mal do Tarciso!
Lívia sorriu seu sorrisinho pálido:
— Caaalma, Mundinho...
Mundinho? As coisas tinham mudado, realmente.
Sentindo-se protegido pelo poder amaciador dela, Alfredinho insistiu:
— Não joga nada, esse Tarciso. Nada!
O Raimundão repetiu, o vozeirão lhe saindo dentre os molares:
— Não fala mal do Flecha Negra! — chamava o Tarciso de Flecha Negra, a maior manifestação de carinho já feita pelo Raimundão.
Ficamos em silêncio tenso. Muito tenso. Tensão de fazer o salsichão entortar no espeto. De fazer borbulhar a cerveja na garrafa. Lívia tocou com seus dedinhos de palito no braço retesado do Raimundão:
— Caaalma, Mundinho...
Raimundão não olhava para ela. Só encarava o Alfredinho. Que continuava burramente alegre. Disse, rindo:
— Esse Tarcisinho se borra de medo do Figueroa.
Para quê! Raimundão se levantou de um salto, e já voaram mesa e banco e um espeto se cravou lá adiante e os copos se estilhaçaram e as picanhas atapetaram o chão. Alfredinho não esperava pela reação furibunda dele, ficou paralisado. Raimundão suspendeu-o pelas têmporas, ia esmigalhar sua cabeça, apertar até que seus olhos saltassem das órbitas ou arrancar seu gogó a dentadas, mas Lívia veio de lá da sua candura e com seu corpinho de criança se interpôs entre Raimundão e o horrorizado Alfredinho e pediu, pela última vez:
— Caaalma, Mundinho...
Ao que Raimundão finalmente olhou para ela. Abaixou-se até ficar no nível dos olhos de corsa da pobrezinha e, sem soltar o Alfredinho, berrou, e seu hálito azedo fez esvoaçarem os cabelinhos finos da Lívia:
— CALA ESSA BOCA E SOME DAQUI, SENÃO TU TAMBÉM VAI PRO PAU!!!
Assim terminou aquele ensaio de romance, assim Lívia se foi para jamais ser vista outra vez, e assim concluímos que sensibilidade, de fato, não era o forte do nosso goleiro Raimundão.
*Texto publicado em 11/12/1999 em Zero Hora
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