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Posts de junho 2008

O ESTRANHO - capítulo 5

30 de junho de 2008 14

E a noite chegou. Antes das 22h, Alice cabeceava de sono. Resistiu mais algum tempo, pouco mais de uma hora. Zonza. Mole. Adormeceu diante da TV.

Despertou às 3h — viu a hora na luz vermelha do relógio do vídeo. Demorou algum tempo até perceber que estava no sofá da sala, com a TV ligada.

Aí, compreendeu: a TV. Desligada! Alguém a desligara. Ele! Só podia ser ele. Ele devia estar por ali, esgueirando-se nas sombras.

Alice apoiou os cotovelos no sofá. Ergueu o tronco. Olhou em volta da sala, tentando enxergar no escuro. Ele estava num canto, com o controle remoto na mão. Aquela cena prosaica, um homem com o controle remoto, a confundiu e, ao mesmo tempo, a aliviou. Um homem que vê TV, que, portanto, se interessa pelos assuntos mundanos da existência, não pode ser assim tão invencível e tão diabólico.

Além disso, por que ele desligara a TV? Alice pensou: você está dormindo com a TV ligada, alguém chega e a desliga. O que significa esse gesto? Que essa pessoa está preocupada com o seu sono. Que não quer acordá-la. Estranho…

O olhar dele não parecia mais tão frio, nem tão ameaçador.

Ele olhou para ela durante alguns instantes. Depositou cuidadosamente o controle numa mesa próxima. E andou. Ladeou o sofá onde Alice estava deitada. Caminhou lenta, mas decididamente, em direção à porta da rua. Abriu-a. Deslizou para fora. Fechou a porta com suavidade. Alice ouviu o ruído da fechadura — ele trancou a porta pelo lado de fora. Ele tinha a chave.

Alice, surpreendentemente, não sentia medo. De alguma forma, sabia que ele não voltaria mais naquela noite. Algo perturbada, porém experimentando uma difusa sensação de segurança, ela cambaleou até o quarto, deitou-se e dormiu.

No dia seguinte, foi para o trabalho esperando vê-lo encostado no ângulo de alguma esquina. Não o viu. Tampouco à noitinha, ao voltar para casa. Mas, de madrugada, outra vez, mais do que ouvir, Alice sentiu a presença do homem em seu apartamento.

Um ruído surdo na sala. Passos leves. A porta do quarto se abrindo.

Ele.

Postado por David

Bolacha Maria

30 de junho de 2008 23

Divulgação

Meu filhinho adora Bolacha Maria. Mas tem que ser um determinado tipo de Bolacha Maria, mais crocante, mais docinha e com a qual ele não engasga. Sei porque o Bernardo gosta daquela bolacha específica. Eu também gostava. Lembro da minha infância, na casa da vó. Durante o café da tarde, ela colocava uma grande caneca de louça na minha frente, cheia de café com leite. Sobre a mesa repousava também um pote de vidro do tamanho de uma leiteira, onde estavam acondicionadas as deliciosas Bolachas Maria. Eu pegava um punhado de bolachas e as partia, uma a uma, e colocava os pedaços no café com leite. Depois, oooh, comia as bolachas com colher. Elas estavam molinhas e quentes, boas demais.

Nunca mais fiz isso, talvez porque as mulheres reprovem com veemência quem come bolacha molhada no café com leite. Mas, uma manhã dessas, vendo o meu filhinho mastigar Bolachas Maria com tanto deleite, resolvi provar de novo aquela iguaria da infância. Procurei o vidro onde estavam as bolachas. Encontrei-o, mas, no fundo do pote, havia apenas uma e tão-somente uma bolacha.

- Só uminha… – lamentei.

- É que esta bolacha, exatamente esta que ele gosta, é muito difícil de encontrar – explicou a Marcinha. – Não existe mais em supermercado algum.

Que fazer? Colhi aquela bolacha solitária do fundo do pote de vidro e levei-a para a mesa, pronto para parti-la e mergulhá-la no café com leite. Mas aí o Bernardo, lá do carrinho dele, me viu com o acepipe na mão e estendeu sua mão gordinha para a bolacha e disse, enfático:

- Abu!

Entendi o que ele queria. Suspirei. Caminhei até ele. Estendi-lhe a bolacha. Tomei meu café com pão vulgar. Mas, naquela mesma noite, localizei um velho armazém de subúrbio em que havia Bolachas Maria, aquelas Bolachas Maria, as ideais, as sequinhas, as docinhas, as que eu e meu filhinho amamos. Localizei o armazém de secos e molhados que as vendia, entrei e falei para a atendente:

- Sabe aquelas Bolachas Maria?

- Que é que tem? – quis saber ela, olhando para a prateleira.

- Quero todas.

- Todas?

- Todas.

Comprei-as. Saí do armazém escondido atrás da montanha de pacotes. Agora está garantido. Eu e o Bernardo teremos Bolacha Maria até o fim do ano. Do próximo ano.

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David

O lado do jogo

30 de junho de 2008 35

Mauro Vieira

– Qual é o lado lento do Inter? – perguntou o técnico Celso Roth aos jogadores do Grêmio durante os treinos preparatórios para o Gre-Nal que terminou empatado em 1 a 1, ontem à noite, no Olímpico.

Referia-se ao lado esquerdo da defesa colorada, onde joga Marcão. Ninguém, no Inter, se ofendeu com a observação. Ao contrário: a julgar pelas providências táticas tomadas por Tite, foi essa frase que o balizou para escalar o time e posicioná-lo em campo. E as medidas de Tite deram certo. O Inter jogou melhor do que o Grêmio, saiu ganhando com um gol do zagueiro Índio, criou mais situações de gol e só não ganhou porque o goleiro Renan cometeu um desatino aos 32 minutos do segundo tempo: ao sair do gol para interceptar um cruzamento de Roger, segurou a bola com firmeza e, em vez de erguer o joelho, como quase sempre fazem os goleiros em lances que tais, deu um chute no baixo ventre de Rodrigo Mendes. Pênalti. Que Roger cobrou e converteu.

Foi injusto. Jogando exatamente pelo lado esquerdo, o Inter controlou o clássico quase que do começo ao fim. No primeiro tempo, graças a uma atitude ousada de Tite: ele escalou o jovem Taison, 20 anos, na ponta-esquerda. Taison correspondeu. Jogou com velocidade, partindo para cima dos zagueiros do Grêmio, indo à linha de fundo, tentando o cruzamento ou o chute a gol. O primeiro chute perigoso do jogo foi dele, aos cinco minutos. A bola bateu em Eduardo Costa e foi a escanteio. Aos 12, Taison, de novo, bateu de longe, por cima do travessão. Aos 15, Eduardo Costa cometeu uma falta em Guiñazu justamente no lado esquerdo de ataque. Alex cobrou, Marcão cabeceou para baixo e Victor fez grande defesa. Só que a bola voltou para o meio da área e Índio cabeceou para assinalar 1 a 0.

O Grêmio melhorou um pouco depois de levar o gol. Passou a atacar com mais animação, usando a velocidade do colombiano Perea. A zaga do Inter, porém, mantinha-se atenta como tem que se manter uma zaga em Gre-Nal. Tão atenta e tão eficiente esteve, que os jogadores do Grêmio só chutavam a gol de longe, da intermediária, sem maiores riscos para Renan. Na frente, com espaço para os contra-golpes, Nilmar brilhava. Aos 33, ele só não ampliou porque Pereira esticou o pé e impediu que um de seus chutes fosse a gol.

No segundo tempo, o Grêmio pareceu um pouco mais entusiasmado. Aos 11 segundos, Perea já havia cavado um escanteio. Mas Nilmar continuava perigoso nos contra-ataques e, aos três minutos, não marcou o segundo gol porque Victor fez outra ótima defesa. O Grêmio, curiosamente, continuava insistindo pelo tal lado lento do Inter. E, obviamente, continuava sem conseguir entrar na área.

O Inter conseguia. Aos 16, Alex foi driblando pelo lado… esquerdo, claro, e chutou forte: a bola bateu na rede, pelo lado de fora, a palmo e meio do gol. Aos 20 minutos, Celso Roth chamou Rodrigo Mendes e Rafael Carioca das sombras da reserva. Enquanto os jogadores saltitavam na fronteira da lateral, esperando para entrar em campo, a torcida gremista reclamou das arquibancadas:

- Burro! Burro!

Estavam errados os torcedores. As mudanças de Roth melhoraram o Grêmio. Ambos, Rafael e Rodrigo, jogaram bem. Rafael fez o meio-campo funcionar com mais qualidade, os passes saíam precisos e Roger tinha com quem tabelar. Já Rodrigo deu alguns fortes chutes a gol e fez o ataque se tornar mais agressivo. Do outro lado, Nilmar prosseguia desferindo suas estocadas: aos 23, ele passou para Ramon, que entrara em lugar de Taison. Ramon invadiu a área e chutou no travessão. Aos 32, Rodrigo teve sua participação mais decisiva no clássico: sofreu o pênalti. Renan foi expulso, Clemer entrou no gol. Roger deu a paradinha clássica e deslocou o goleiro, aos 37 minutos: 1 a 1.

O árbitro sinalizou que a partida iria até os 50 minutos. Com um jogador a mais em campo, o Grêmio, supostamente, teria mais chances de chegar à vitória. Mas nem assim o Inter se desarticulou. O Inter ainda tinha a velocidade vertiginosa de Nilmar, ainda tinha uma zaga bem postada, ainda tinha um meio-campo movediço. Aos 49, foi o Inter, não o Grêmio, que desperdiçou uma chance importante: Nilmar voou área adentro e chutou rasteiro. Victor, o competente e frio goleiro do Grêmio, salvou com os pés.

O Grêmio ganhou um ponto. O Inter perdeu dois. O Grêmio subiu para 17 pontos e consolidou-se na segunda posição, abaixo apenas do Flamengo, que tem 19. O Inter está em 14º lugar, nove pontos abaixo. Ainda não venceu fora de casa, ainda não deu tranqüilidade ao seu torcedor, mas demonstrou que pode ser muito mais do que é.

*Texto publicado hoje no caderno de Esportes de Zero Hora

Postado por David

A penicilina e o Gre-Nal

28 de junho de 2008 24

Em 1909, ainda faltavam 20 anos para Alexander Fleming descobrir a penicilina. Não existiam antibióticos, portanto. Morria-se por causa de qualquer gripe, as bactérias eram inimigos invencíveis como Bruce Lee. As pessoas faziam os maiores sacrifícios para evitar a “friagem”, como dizia a minha avó, incluindo-se aí o uso de galochas e ceroulas e a aplicação de escalda-pés.

Muito a Humanidade padeceu até o advento do antibiótico, mas pelo menos uma obra-prima da literatura mundial pode ser creditada ao atraso da medicina: Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O livro é importante como marco do romantismo, e tudo mais, mas você não precisa ler. Digo mais: nem deve. Para o leitor contemporâneo, Os Sofrimentos… é chato. Não que seja difícil, nem nada. Apenas chato. Até por isso, vou revelar o desfecho: Werther, o jovem esse, os sofrimentos dele são de origem amorosa. Um amor impossível e bibibi. O jovem se apaixona por uma bela moçoila chamada Charlotte, que, como todas as belas moçoilas, já está comprometida. Tem um noivo lá. Werther dá em cima dela de todas as formas, mas ela nem aí. Depois de dezenas de páginas se lamuriando, ele sai durante uma tempestade sem capa nem guarda-chuva, resfria-se e, pfiu!, morre. De certa forma, um suicídio. Por amor, suspiraram os românticos do século 18, um século tão sentimental que o romance de Goethe motivou uma onda de suicídios na Europa, o que prova o quanto eram tolinhos os europeus daquela época. Só que, na verdade, não foi de amor que Werther morreu. Foi de gripe.

Hoje em dia seria impossível suicidar-se de gripe. Bastaria uma injeção para salvar o desiludido Werther. Ele se recuperaria, ficaria forte e ativo como um bom alemão comedor de salsicha bock e, seis meses mais tarde, acabaria conhecendo alguém na balada, esqueceria Charlotte e pensaria: e eu quase me matei por causa daquela bisca…

Por essas, esportes ao ar livre não desfrutavam de grande prestígio até o século 20. Não existia isso de praticar esporte para ser saudável. Ninguém saía correndo de calção e tênis por aí, a menos que estivesse fugindo da polícia ou tentando alcançar o bonde. O futebol, assim, surgiu não como um esporte, mas como um jogo. Aliás, é exatamente essa a minha opinião: futebol não é esporte, é um jogo.

Mas a minha opinião não interessa. O que interessa é que, em Porto Alegre, o futebol surgiu não como uma prática esportiva, e sim como uma brincadeira. Uma curiosidade a respeito: sabe-se o dia exato em que o futebol foi introduzido em Porto Alegre: 7 de setembro de 1903. Até essa data, ninguém jogava futebol na cidade. O que havia era uma bola, uma única bola de couro que o paulista Cândido Dias ganhara de presente de seus primos de São Paulo. Esta bola, a primeira bola de futebol a quicar em solo porto-alegrense, Cândido Dias e seus amigos a usavam para brincar durante os piqueniques de domingo. Piquenique era moda, então. Os jovens se reuniam nas inúmeras áreas bucólicas da cidade, comiam acepipes, bebiam vinho, cerveja e refrescos e faziam brincadeirinhas inocentes, entre elas um atirar a bola para o outro, coisa mais amorosa.

Depois do feriado da Independência, as brincadeiras tornaram-se sérias. Naquele dia, o S.C. Rio Grande, clube fundado três anos antes, veio a Porto Alegre para fazer uma apresentação. Apresentação mesmo, um show, não uma partida. Jogaram Rio Grande versus Rio Grande. Todo mundo era do Rio Grande. Cândido Dias e seus amigos e mais centenas de outros porto-alegrenses foram ver o espetáculo. No meio do jogo, tragédia: a bola furou. Não havia esse luxo de bola reserva. E agora? Que fazer? Bem, Cândido Dias estava com a sua bola paulista debaixo do braço. Disse que a emprestaria para que o jogo histórico fosse concluído. Com uma condição: que os rio-grandinos os ensinassem a jogar futebol.

Pacto feito, pacto cumprido. Oito dias depois, dois clubes de futebol foram fundados na cidade: o Grêmio e o Fuss-Ball. Ah, e aí está a palavra-chave: “clube”. A prática de fundar clubes sociais foi trazida para o Estado pelos imigrantes alemães. Ainda hoje, os grandes clubes que aí estão foram fundados por alemães ou seus descendentes entre o fim do século 19 e o começo do 20: o Juvenil, a Sogipa, o União, que se chamava (fale sem dar torcicolo na língua): “Ruder Verein Freudechaft”!

Clubes, entende? Constituídos para reunir as pessoas, não para a prática esportiva. Os fundadores geralmente já eram amigos. Natural, pois, que os sócios se permitissem aceitar ou não novos sócios. Aquilo de bola preta e bola branca. O Grêmio, quando tinha seis anos, vetou alguns novos sócios. Porque eram paulistas e estavam havia pouco na cidade, e porque eram garotos de apenas 17, 18 anos de idade. Os garotos, inconformados com a bola preta recebida, decidiram fundar eles mesmos o seu clube. E o fizeram. E assim nasceu o Inter.

Toda essa história, iniciada lá com a penicilina, conto-a para falar das origens do futebol em Porto Alegre e no Brasil. O futebol, por aqui, não apareceu por causa do futebol, nem por causa do esporte. Nasceu por causa do clube. Da associação. Por isso, o clube é o centro do futebol no Brasil. Por isso, torcidas como a do Grêmio e a do Inter sentem mais apreço por seus clubes do que por jogadores ou pelo jogo. Por isso, o Gre-Nal pouco tem a ver com o futebol. Tem a ver com a paixão, com a cidade, com as gerações de porto-alegrenses e gaúchos que o fizeram. Que o transformaram no maior jogo do mundo.

Texto publicado na página 36 de Zero Hora dominical

Postado por David

O ESTRANHO - capítulo 4

27 de junho de 2008 10

Júlio Cordeiro, Banco de Dados

Alice atirou-se no tapete da sala e lá permaneceu por quase uma hora, recuperando a respiração e a calma.

Pensou. Arrastou-se até o telefone. Ligou para Ana. Pediria à amiga que dormisse com ela, naquela noite. Mas Ana não estava. Devia ter saído com o namorado.

Não havia mais ninguém a quem pedir ajuda. Alice nunca fora exatamente popular. Não era como Ana Luisa. Ah, não. Ana era desinibida, alegre, atraía os homens como se ressumasse a promessas. Alice, não. Não gostava de sair ou dançar ou ir a bares e, era-lhe difícil confessar, tinha vergonha do próprio corpo. Achava-se gordinha.

Argeu, o antigo namorado, se irritava porque ela só fazia sexo com as luzes apagadas. Foi um dos motivos da separação. Argeu já tinha arranjado outra, nem telefonava mais. E se ela ligasse para a polícia… O que a polícia poderia fazer? Não, não. O jeito era crer na eficiência da fechadura nova.

Alice jantou sozinha. Sempre jantava sozinha. Sempre sanduíche. Assistiu a um pouco de TV. Resolveu ler na cama. Deitou-se, folheou a revista e então lembrou do homem abrindo a porta. Sentiu calafrios. Decidiu tentar dormir. Surpreendentemente, o sono lhe veio em pouco tempo. Não teve sonhos. Dormiu profundamente.

Até que, no meio da madrugada, um ruído a despertou. Algo no quarto. E o medo voltou. De olhos fechados, deitada de bruços, Alice começou a tremer.

Ele estava lá. Ela sentia. Podia ouvir sua respiração.

Alice não queria abrir os olhos. Não queria virar-se e olhar. Mas também estava curiosa. Abriu os olhos. Virou-se.

Ele estava lá. Parado no meio do quarto. Observando-a. Os olhos malévolos brilhando no escuro. Como havia entrado? O que desejava? O que faria? Alice estava à sua mercê. Ele continuou parado, imóvel, por mais alguns segundos.

Moveu-se, enfim. Deu as costas a Alice. Saiu do quarto. Fechou a porta. E se foi.

Alice ficou deitada, fitando a porta, sem dormir. Assim permaneceu, até de manhã. Chegou a pensar em sair, em trabalhar, mas tinha medo de que ele estivesse no corredor do edifício, esperando-a. Ou que o encontrasse na esquina, como na noite anterior.

Ligou para o trabalho, disse estar doente. Passou o dia em casa, conferindo se a porta estava trancada, temendo encontrá-lo em cada peça, preocupando-se com a chegada da noite.

Postado por David

O Pequeno Príncipe

27 de junho de 2008 35

Todos os dias, mas todos os dias mesmo, sem faltar um, a Redação de Zero Hora é visitada por misses. Ou rainhas. Rainha do Nabo, Rainha do Aipim, há muitos tubérculos necessitando de rainhas neste Estado gigante da agricultura. Elas vêm sempre em trio, a rainha ladeada por suas duas princesas. Excluindo sábados e domingos, são 15 rainhas ou princesas por semana, 60 por mês, 720 por ano. Muita realeza. Mas mesmo sendo tantas, todas sabem de verdades que os legisladores brasileiros desconhecem. Por quê? Porque leram O Pequeno Príncipe, as misses têm o hábito de ler O Pequeno Príncipe. Se os deputados também o tivessem, lembrariam de um trecho célebre no qual o principezinho encontra o rei de um minúsculo planeta. Tratava-se de um monarca absoluto, que fazia questão fechada de que suas ordens fossem obedecidas. Como não havia mais ninguém no planeta, o principezinho perguntou sobre o que o rei reinava. Ele respondeu que sobre tudo, o seu planeta, as estrelas, tudo.

- E as estrelas vos obedecem? – indagou o principezinho.

- Sem dúvida. Obedecem prontamente. Eu não tolero indisciplina.

Encantado com tamanho poder, o Pequeno Príncipe pediu para ver um pôr-do-sol. Ao que o rei observou:

- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem, ele ou eu, estaria errado?

- Vós – respondeu com firmeza o principezinho.

- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar – replicou o rei. – A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.

- E meu pôr-do-sol? – lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.

- Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.

- Quando serão? – indagou o principezinho.

- Hem? – respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. – Será lá por volta de por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.

As misses, as rainhas, as princesas, o rei do Pequeno Príncipe, todos sabem que uma ordem impossível de ser cumprida… não será cumprida! Caso da Lei Seca, ora promulgada. A aplicação de tal lei é plausível e até recomendável nas estradas, mas nas cidades se torna ficção. São incontáveis as chances de uma pessoa ser denunciada pelo bafômetro com os rígidos limites impostos, desde o mamão papaia com cassis e o bombom com licor à única taça de champanha consumida no brinde durante uma recepção, passando pela saída não planejada com a colega de trabalho. Se a polícia quiser encher ainda mais os presídios, basta colocar viaturas a circular por Porto Alegre todas as noites a partir da uma da madrugada. Duas, 3 mil pessoas serão encarceradas por dia. E nem isso fará com que a lei seja observada. Até porque a maioria das pessoas que bebe não se embriaga. São essas as pessoas, as mais sensatas, que vão desafiar a legislação. Uma pena, porque eis aí uma lei bem-intencionada. Foram tantas as boas intenções dos que a escreveram, que exageraram. A lei perderá a credibilidade. E, ao invés de irmos para frente, iremos para trás. Só porque os parlamentares não leram O Pequeno Príncipe, só porque não sabem que a autoridade repousa sobre a razão.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

26 de junho de 2008 14


Essa crônica* foi o Oscar Ricola, de Gravataí, quem pediu para reler.

A amaciadora
do Raimundão

O Raimundão tinha dois metros de altura. Digo tinha porque não sei onde ele anda hoje. Pode ter crescido, sei lá. Mas tinha dois metros. E era fortão, quase gordo. E falava grosso. E levava um 38 na capanga. E, ainda por cima, usava bigode.

Não havia nada, naqueles dois metros por um e meio, que fosse delicadeza. Sensibilidade não era o forte do Raimundão.

Jogava de goleiro no nosso time de futsal, o Raios Duplos FC. Bom goleiro. Espaçoso. Mas fazia sucesso mesmo como arma secreta. Assim: estávamos perdendo, joguinho dureza, um de nós ia para o gol e o Raimundão puxava uma luva com os dentes, a outra com a mão livre, e ia rosnando para a linha.

Ficava lá na frente, perto da área inimiga. Alguém do time tomava a bola e não precisava nem levantar a cabeça, já mandava para o ponto onde o Raimundão devia estar: a marca do pênalti. E ele sempre estava lá, eterno como um mamute congelado.

E, se dominava a bola, ou se simplesmente conseguia ajustá-la diante do bico do tênis, mais ou menos em posição de chute, eiba!, o Raimundão chutava. Chutava tudo: a bola pesada, o adversário, o juiz, o parquê solto, o cachorro que passava por perto. Chutava com a perna em chicote, sem se importar com o que estivesse na frente, o pezão subindo feito um aríete a jato, uma bicanca assassina que fazia a bola zunir e apitar, zvuóóóóóó, e, em seguida, cataplan!, ela lascava um tijolo da parede detrás do gol, ou entortava a trave, ou nocauteava o goleiro, ou, o que esperávamos, furava a rede. Gol do Raios Duplos!

Ninguém se arriscava a dividir uma bola com o Raimundão. Os que se arriscaram, o que sobrou deles se arrependeu. Raimundão jamais sentiu piedade, Raimundão nunca se compadeceu. Não era daqueles grandões mansos. Não. Raimundão se irritava com facilidade. E, quando se irritava, a cara do objeto de irritação geralmente virava algo parecido com um quilo de miojo lamen à bolonhesa.

Outra: não gostava de ser contrariado. Se alguém tentava ponderar:
— Mas, Raimundão, eu acho que isso não está certo, eu acho que…
— O QUÊ??? TU ESTÁ DIZENDO QUE EU NÃO ESTOU CERTO???
— N-não, Raimundão, não é nada disso, nada disso, tu me compreendeu mal, é que…
— O QUÊ??? TU ESTÁ DIZENDO QUE EU SOU BURRO???

Um problema, um problema. O mais saudável era concordar com o Raimundão. Por exemplo, o Raimundão era gremista. Vez em quando, ele escolhia um, que sabia ser colorado, levantava-o pela gola e berrava:
— TU É GREMISTA OU NÃO É???

Que saída senão entoar, ufanisticamente, embora quase sem voz:
— A-até a p-pé nós iremos…

Um grosso, o Raimundão. Sensibilidade não era o forte dele mesmo.

Até o dia em que apareceu a Lívia. Tão branquinha, a Lívia, que chegava a ser, realmente, lívida, azuladinha. Lívia era pequena, quebradiça, frágil como uma esperança na madrugada. Qualquer ponto de exclamação regava de lágrimas seus olhos redondos. Qualquer proparoxítona corava-lhe as maçãs do rosto.

Lívia e sua vozinha de gorjeio.
Lívia, que por pouco não se evanescia.
Lívia.

Pois Lívia um dia conheceu Raimundão, e Raimundão se encantou por Lívia. E todos se espantaram: Raimundão e Lívia? Nada mais estranho, nada menos igual. Mas talvez desse certo. Opostos atraídos, e talicoisa. Quem sabe Lívia não humanizasse o Raimundão?

Lívia acabou se transformando numa esperança de todos. Porque o clima sempre era tenso com o Raimundão por perto. Claro, a torcida maior vinha dos adversários do Raios Duplos. Achavam que Lívia seria capaz de suavizar o Raimundão inclusive nas quadras. Nós, não. Tínhamos a convicção de que ele amansaria, sim, mas só na hora da cervejinha, depois do jogo.

Uma noite, aconteceu: pela primeira vez, Raimundão levou Lívia para assistir a uma partida. Verdade que o Raios Duplos venceu sem dificuldades, o Raimundão nem precisou sair do gol, mas todos acreditamos que a tranqüilidade dele durante o jogo ocorrera devido à presença diáfana de Lívia no lado de fora da quadra.

Toda aquela paz fez-nos ir sorridentes para o churrasquinho. Muita alegria, muita descontração, muita cervejinha. Talvez até demais, porque, num dado instante, Alfredinho, o ala do adversário, resolveu falar mal do ponta-direita Tarciso, do Grêmio. Por favor! Todos sabiam que o Raimundão não admitia que se falasse mal do Tarciso. Foi o que ele disse. Trovejou, na verdade:
— Não gosto que falem mal do Tarciso!

Lívia sorriu seu sorrisinho pálido:
— Caaalma, Mundinho…

Mundinho? As coisas tinham mudado, realmente.

Sentindo-se protegido pelo poder amaciador dela, Alfredinho insistiu:
— Não joga nada, esse Tarciso. Nada!

O Raimundão repetiu, o vozeirão lhe saindo dentre os molares:
— Não fala mal do Flecha Negra! — chamava o Tarciso de Flecha Negra, a maior manifestação de carinho já feita pelo Raimundão.

Ficamos em silêncio tenso. Muito tenso. Tensão de fazer o salsichão entortar no espeto. De fazer borbulhar a cerveja na garrafa. Lívia tocou com seus dedinhos de palito no braço retesado do Raimundão:
— Caaalma, Mundinho…

Raimundão não olhava para ela. Só encarava o Alfredinho. Que continuava burramente alegre. Disse, rindo:
— Esse Tarcisinho se borra de medo do Figueroa.

Para quê! Raimundão se levantou de um salto, e já voaram mesa e banco e um espeto se cravou lá adiante e os copos se estilhaçaram e as picanhas atapetaram o chão. Alfredinho não esperava pela reação furibunda dele, ficou paralisado. Raimundão suspendeu-o pelas têmporas, ia esmigalhar sua cabeça, apertar até que seus olhos saltassem das órbitas ou arrancar seu gogó a dentadas, mas Lívia veio de lá da sua candura e com seu corpinho de criança se interpôs entre Raimundão e o horrorizado Alfredinho e pediu, pela última vez:
— Caaalma, Mundinho…

Ao que Raimundão finalmente olhou para ela. Abaixou-se até ficar no nível dos olhos de corsa da pobrezinha e, sem soltar o Alfredinho, berrou, e seu hálito azedo fez esvoaçarem os cabelinhos finos da Lívia:
— CALA ESSA BOCA E SOME DAQUI, SENÃO TU TAMBÉM VAI PRO PAU!!!

Assim terminou aquele ensaio de romance, assim Lívia se foi para jamais ser vista outra vez, e assim concluímos que sensibilidade, de fato, não era o forte do nosso goleiro Raimundão.

*Texto publicado em 11/12/1999 em Zero Hora

Postado por David

O ESTRANHO - capítulo 3

26 de junho de 2008 12

Marcos Nagelstein, Banco de Dados

Não fez nada. Ficou o resto da noite sentada no sofá, acordada, olhando para a porta da rua, acuada, com a faca de cozinha ao seu lado, sentindo medo. Apenas sentindo medo.

A luz do dia trouxe a Alice um pouco mais de segurança. Mas o medo não a abandonou. Sentia-se desprotegida. Sentia raiva e pavor. No trabalho, os colegas perceberam que ela não estava bem. Foi com certa dificuldade que ela contou para Ana Luisa, sua melhor amiga:
— Um homem entrou no meu apartamento, esta noite.

Quando contou a história à amiga, não conseguiu evitar as lágrimas. Ana tentou consolá-la:
— Calma, Alice. Calma… Quem sabe procuramos a polícia?
— E dizer o quê? O que eles podem fazer?
— É… — Ana pensava. — Mas você pelo menos deveria trocar a fechadura da porta.
— Deveria — concordou Alice. — Já pensei nisso. Mas, sabe, algo me diz que nem isso vai adiantar. Tenho a sensação de que aquele homem pode entrar na minha casa quando ele quiser. Algo me diz que ele tem poder sobre mim.

Ana estremeceu. Também ela sentiu medo.

Naquele mesmo dia, Alice trocou a fechadura da porta. Instalou uma cheia de aparatos.
— Essa é difícil de ser arrombada — garantiu o chaveiro. — Não é qualquer um que abre essa fechadura.

Não foi o suficiente para ela sentir-se segura. Alice dormiu, sim, mas sua noite foi sobressaltada por pesadelos breves, verossímeis e, sobretudo, assustadores.

Na manhã seguinte, sentia-se melhor. Começou mesmo a duvidar de ter visto o homem. Talvez fosse uma alucinação… A idéia a consolava. Com o passar das horas, foi acreditando cada vez mais nela. Com o endosso de Ana Luisa:
— Claro que foi alucinação. Só pode ter sido isso…

À noite, ao sair do trabalho, o medo se dissipara quase que totalmente. No caminho de volta para casa, Alice ia olhando as vitrines, tentando pensar em outra coisa.

Morava a poucas quadras, dez minutos a pé.

Nos primeiros cem metros, porém, Alice passou a sentir uma emoção estranha.

Sentia-se… observada… isso. Alguém a vigiava. Alice olhou para trás, olhou para os lados, nervosa, mas não viu ninguém suspeito. Estugou o passo. A cada metro a impressão tornava-se mais forte — alguém a seguia, ela sabia disso, sabia disso, sabia!

Continuou caminhando velozmente, quase correndo, alerta. No meio da quadra, deu o golpe: girou nos próprios calcanhares e viu. Viu! O vulto de um humem mergulhando no retângulo de luz de uma porta, certamente depois de perceber-se flagrado. Alice ficou observando. Era um bar. Refletiu. Devia ir adiante?

Devia arriscar-se e investigar? Levou a mão ao queixo. Pensou um pouco. Que risco correria ao defrontar-se com seu inimigo num bar, cheio de gente?

Ia lá. Ia! Foi, marchando, decidida. Sua raiva crescia à medida que se aproximava do bar. O desgraçado ia ver! O maldito desgraçado estuprador bandido arrombador invasor de apartamentos!

Alice não entrou no bar: irrompeu. Com tanta fúria que chamou a atenção dos poucos fregueses que bebiam cerveja e cachaça nas mesinhas de fórmica. Era um bar pequeno, um boteco típico. Não havia mais do que uma dúzia de homens espalhados pelo lugar, alguns sozinhos, outros em duplas. Vagabundos que passavam o dia bebendo, operários que tomavam um traguinho antes de ir para casa. Nenhum deles era o homem que haiva entrado no apartamento de Alice, na noite anterior.

Ela se sentiu intimidada pelos olhares dos homens. Recuou. Sua raiva e sua decisão subiram ao rosto, transformadas em vergonha. Enrubesceram-na. Alice gaguejou um pedido de desculpas. Saiu. Seu passo agora era menos confiante. Hesitava. Será que o homem havia se escondido no banheiro? Devia voltar e…

Então, o horror.

Do outro lado da rua, na esquina, sob a penumbra de uma árvore, o homem a observava. Alice estremeceu. Parou. Ficou olhando para ele. Ele para ela. Diretamente. Fixamente. Malignamente.

Então, ele sorriu. E seu sorriso foi uma das cenas mais horrendas que Alice testemunhou na vida. Era um sorriso sádico, de quem antegozava as torpezas que cometeria. Alice gemeu. Começou a chorar baixinho. E correu.

Correu desesperada, chorando e ganindo, sem olhar para trás. Só parou de correr ao se ver em casa, com a porta bem trancada pela fechadura nova.

Postado por David

O ESTRANHO - capítulo 2

25 de junho de 2008 10

Fernando Gomes, Banco de Dados

Enfim, ela tomou uma decisão. Teria de se levantar. Teria de sair do quarto. Ver o que estava acontecendo. A resolução, em vez de acalmá-la, a deixou em pânico. Começou a tremer. A choramingar baixinho. Afastou a colcha.

Colocou os pés no chão. Firmou as pernas com dificuldade. Levantou-se. Respirou fundo. Do ar lhe veio a força para dar um grito rouco:
— Quem está aí???

Silêncio.

Alice caminhou, vacilante. Levou a mão à maçaneta. Abriu a porta. O corredor escuro, estreito, estendia-se à sua frente. Sem tirar os olhos da parede do fundo, Alice tateou a esmo, até encontrar o interruptor. Acendeu a luz. Deu um passo. Apoiando-se nas paredes, chegou até o banheiro.

Escancarou a porta de supetão. Acionou o interruptor. O banheiro se iluminou. Nada.

Chorando sempre, ela gritava:
— Quem está aí? Quem está aí?

Silêncio.

Alice arrastou-se até a cozinha. Felizmente, o interruptor ficava perto da porta. A luz inundou a peça. Nada. Ninguém.

Um pouco mais confiante, ela correu para a sala. Luz. Ninguém. Alice suspirou, sentindo-se um pouco melhor. Testou a porta da rua. Fechada! Mas… como?… Como o homem havia entrado? O apartamento ficava no oitavo andar, pelas janelas seria impossível…

Estaria ele escondido na área de serviço? A idéia fez o pavor embolar-se como um gato no estômago de Alice. Sentiu-se tonta. Pensou em abrir a porta e correr, em busca de ajuda. Mas, ao mesmo tempo, ela tinha de saber. Tinha de ver se ele estava lá.

Alice tentava raciocinar. Tentava se acalmar. Tragou o ar pelo nariz e pela boca, com força. Parou de chorar. Destrancou a porta da rua. Deixou-a entreaberta. Em seguida, caminhou de volta à cozinha com toda a coragem que lhe foi possível reunir. Parou à entrada.

Olhou a porta de correr da pequena área de serviço. Avançou. No caminho, armou-se com uma grande faca de churrasco. Deu três passos em direção à área. Parou.
— Desgraçado! — berrou, enquanto abria a porta da área. — Desgraçado!

Mas berrava para ninguém. Só havia ela no apartamento. Ela estava sozinha novamente. Para onde fora o homem? O que queria? Ele voltaria? Como entrara? Alice deveria chamar a polícia? O que fazer?

Postado por David

A casa vermelha e o homem azul

25 de junho de 2008 8

Na Aparício Borges, mais ou menos à altura do número 1.200, havia uma casa vermelha.

Toda vermelha.

Vermelhas eram as janelas e as portas, vermelhas eram as paredes e as telhas do telhado, vermelhas eram as cortinas que vedavam a luz, o soalho onde se pisava e o teto sobre as cabeças. A casa era vermelha por dentro e por fora.

Era a casa de um colorado.

No jardim da casa vermelha, o proprietário colorado mandou plantar um imponente mastro, e neste mastro, todos os dias, ele hasteava a rubra bandeira do Inter. Quando saía, o colorado ia lá e arriava a bandeira, a bandeira servia como referência para quem o conhecia e pretendia visitá-lo. A pessoa chegava e olhava para o mastro. Se houvesse bandeira, o colorado estava em casa; se não houvesse, ele tinha saído. Hoje em dia o mastro serviria como aviso para arrombadores e ladrões, mas estamos falando dos anos 60, década dos Beatles, do DKW, das Calças Topeka e das cidades seguras.

A casa vermelha era famosa na capital de todos os gaúchos.

Só que um dia tornou-se verde.

O proprietário, ele mesmo, tomou um galão de tinta, vários galões de tinta, e foi lá e pintou as paredes, o telhado, os quartos, tudo, de verde.

Por quê? Por causa do Foguinho.

É que Foguinho, o Oswaldo Rolla, havia sido contratado pelo Inter. Foi um abalo para as duas torcidas do Rio Grande. Os gremistas, chocados: Foguinho no Inter??? Não podia, Foguinho era como se fosse o próprio Grêmio. Entrou no clube nos anos 20. Vestia a camisa listrada número 10, e o fazia por amor: jamais aceitou receber um vintém, um cruzeiro, nada.

— Não jogo no Grêmio por dinheiro — dizia, o queixo de John Wayne erguido bem alto.

Mesmo assim, trabalhava como um profissional. Ao contrário dos outros jogadores da época, Foguinho treinava todos os dias. Como precisava exercer a profissão de alfaiate para se sustentar, treinava à noite, às vezes sozinho, às vezes com seu velho amigo Eurico Lara, o goleiro que Lupicínio Rodrigues incrustou na letra do Hino do Grêmio. A fim de permitir que Foguinho treinasse, o Grêmio instalou no Fortim da Baixada uma novidade: um conjunto de refletores. Assim, a Baixada foi o primeiro estádio do Rio Grande do Sul com sistema de iluminação. Graças a Foguinho.

Foguinho jogou a vida inteira no Grêmio e foi herói de um dos mais importantes Gre-Nais da história, o Gre-Nal Farroupilha, em comemoração ao centenário da Revolução Farrapa, em 1935. Era um homem de lealdades eternas. Uma manhã, enquanto o entrevistava em seu apartamento na Senhor dos Passos, ele puxou de um armário algumas caixas de papelão. Estavam cheias até a boca de fotos e recortes de jornal. Uma das fotos era do ex-deputado e ex-presidente do Cruzeiro, Antônio Pinheiro Machado, pai dos meus amigos Ivan e José Antônio. Foguinho segurou a pequena foto com a mão direita e, sem tirar os olhos dela, sentenciou:

— Este foi o maior homem que já conheci.

Silenciei, em respeito. Foguinho havia conhecido muitos grandes homens, em sua longa vida.

Outro dia, ele pescou das mesmas caixas de papelão uma foto de Luiz Carvalho, ex-presidente do Grêmio e centroavante do time em que Foguinho brilhava na meia-esquerda.

— Luiz Carvalho foi um grande amigo meu — disse. E concluiu, num suspiro:

— Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Foguinho estava entranhado no Grêmio, fazia parte das vísceras do Grêmio. Nos anos 50, consagrou-se como o maior técnico da história do clube e, mais, como o fundador da escola gaúcha de jogar futebol. Com ele, o Grêmio só ganhava. O ciclo de vitórias só foi interrompido quando Foguinho brigou com um dirigente e acabou saindo do clube para treinar, justamente, o time do seu grande amigo Pinheiro Machado, o Cruzeiro. Isso se deu em 1961. Quando o Cruzeiro derrotou o Grêmio, permitindo ao Inter a retomada da hegemonia, Foguinho, sentado no banco do adversário do time do seu coração, chorou.

Foi esse homem que o Inter contratou em 1968. Donde, compreende-se a revolta do colorado da Aparício Borges. A curta passagem de Foguinho pelo Inter encerrou-se, claro, num Gre-Nal. O Grêmio goleou por 4 a 0, com atuações de luxo de Alcindo e Volmir. No dia seguinte, os jornais publicaram uma foto desoladora de Foguinho: ele sentado só no banco de reservas, o olhar perdido dos vencidos, o chão coberto de laranjas que lhe tinham sido atiradas pelos colorados.

É óbvio que Tite não tem com o Grêmio a mesma identificação que tinha Foguinho. Mas sua contratação pelo Inter foi polêmica exatamente porque muitos colorados, inclusive alguns dirigentes, o consideram gremista. É este o grande obstáculo a ser superado por Tite no Inter: a desconfiança da torcida. Ter um Gre-Nal já na sua terceira partida pelo clube é uma espada e lhe pende sobre a cabeça. Mas, ora, também pode ser sua redenção. Ou dos que o criticam. Aliás, o colorado da Aparício, depois que Foguinho saiu do Inter, voltou a pintar a casa de vermelho.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

O ESTRANHO - capítulo 1

24 de junho de 2008 22

Reprodução

Naquela noite, Alice conheceu o medo absoluto. Estava sozinha em casa, na cama, recostada em dois travesseiros. Lia uma revista à luz suave do abajur.

Sentia-se confortável. Então, ouviu um ruído vindo da porta do quarto.

Levantou os olhos da página colorida, devagar. E viu…

O trinco se movia! O coração de Alice começou a bater forte. Um calor invadiu-lhe o peito, fechou-lhe a garganta. O trinco não podia se mover! Não devia! Ela vivia sozinha, não havia ninguém no apartamento.

Quer dizer: não era para haver alguém no apartamento. Só que ali estava o trinco, abaixando… sendo abaixado! Alguém estava abrindo a porta! Quem?… Ninguém tinha a chave do apartamento de Alice, ela não tinha nenhum parente morando na cidade e havia trancado bem a porta, ao entrar. Quem?…

O olhar de Alice estava grudado na porta, no trinco. A revista jazia sobre a colcha. Seus punhos, cerrados com força, apoiavam-se no colchão. A cerviz ereta, rija, transformava o corpo numa tábua. Alice era toda tensão.

Seria o vento que abria a porta? Não, ventos não acionam trincos. Era alguém… Quem? O que poderia querer?

A porta foi se abrindo. Lentamente. Lentamente. Uma pequena fresta surgiu, nada mais do que um ou dois centímetros. O suficiente, porém, para Alice perceber que a porta estava sendo aberta por uma mão.

De homem.

Sem dúvida, mão de homem. Nodosa. Grande. Uma mão que ela não conhecia.

Alice abriu a boca. Queria gritar. Mas só conseguiu gemer. Sua voz saiu mole, quase um sussurro:

— Quem… está aí?

O homem não respondeu. Continuou empurrando a porta vagarosamente. Era alto, ela podia perceber. Muito alto. Uns dois metros, talvez. A porta foi-se abrindo. Um pouco mais… Um pouco mais…

O homem colocou parte do corpo para dentro do quarto. Continuou com a manzorra na maçaneta. Vestia uma roupa escura, talvez preta. Tinha cabelos pretos revoltos. E seu olhar… Alice nunca vira um olhar como aquele. Teve a impressão de que o próprio Mal lhe fluía dos olhos. O homem a fitava firmemente. Furiosamente. Olhava-a sem piscar, sem se mexer, sem nada falar.

Que amolecia seus ossos. Ficaram assim, os dois, encarando-se em silêncio por sabe-se lá quanto tempo. Muito tempo, para Alice. Um tempo quase insuportável. Até que o homem afinal se moveu. Ainda vagarosamente puxou a porta. Fechou-a. Soltou o trinco.

Alice continuou fitando a porta, muda, paralisada e apavorada. O que o homem estaria planejando? O que estaria fazendo agora? Por qual parte da casa andaria? Alice não sabia o que fazer. Devia levantar-se, abrir a porta do quarto, enfrentar o desconhecido? Será que não era exatamente isso que ele queria?

Ficou durante muito tempo na cama, imóvel, tentando ouvir algum ruído vindo do restante da casa. Mas nada. Nada.

Postado por David

Novo folhetim

24 de junho de 2008 14

Tempos atrás, publiquei uma pequena novela num livro, A Cantada Infalível, que inclusive está para ser relançado pela L&PM. É uma história que não foi publicada em jornal. Vou fazer dela uma pequeno folhetim que começa hoje, certos?

Postado por David

A boneca inflável

23 de junho de 2008 10

HISTÓRIA FALADA

Uma história de amor verdadeira. E muito triste.

Assiste aí:

Postado por David

O misterioso Caso Kliemann

23 de junho de 2008 22

Deputado Euclides Kliemann/Banco de Dados

SÓ NO BLOG

Há 46 anos, em 21 de junho de 1962, foi perpetrado um dos mais misteriosos casos de assassinato da história policial do Rio Grande do Sul.

Foi o chamado “Caso Kliemann”.

Euclides Kliemann elegera-se deputado pela região de Santa Cruz. Era casado com uma mulher belíssima, que tinha nome de mulher belíssima: Margit. O casal morava numa mansão do número 406 da Rua Barão de Santo Ângelo, no coração do Moinhos de Vento.

No final daquela tarde fria do inverno porto-alegrense, o deputado visitava amigos numa casa próxima. Ao chegar, disse que em breve Margit se reuniria a eles. Como ela demorava a aparecer, Euclides avisou que voltaria à mansão da Barão de Santo Ângelo para buscá-la. Ao entrar na mansão, deparou com o corpo de Margit ao pé da escada, com a cabeça despedaçada. O deputado sentiu-se mal, teve uma crise de choro e vomitou.

Durante as investigações, a polícia apurou que Margit havia sido atacada no segundo andar da mansão. Acossada, tentou fugir do assassino, que saiu em sua perseguição, desferindo-lhe diversos golpes com um objeto contundente. Margit despencou escada abaixo, ou foi empurrada. Morreu a poucos metros da porta de entrada.

Como usualmente acontece em casos que tais, o marido terminou sendo apontado como suspeito de ter cometido o assassinato.

Um ano e dois meses depois do crime, ele concedia entrevista a uma rádio de Santa Cruz, quando o estúdio foi invadido por um vereador que era seu inimigo e o acusava de ser o autor do homicídio. O vereador matou Kliemann com um tiro à queima-roupa ali mesmo.

Como o Caso Daudt, o Caso Kliemann se passou no Moinhos de Vento. Como o Caso Daudt, envolveu um deputado. Como o Caso Daudt, terminou sem solução.

Alguém ainda terá de escrever o livro definitivo sobre o Caso Kliemann.

Postado por David

Dez coisas na frente do nenê

23 de junho de 2008 15

Um nenê de 10 meses de idade é assim: você o coloca sentadinho em frente a um balcão e, nesse balcão, espalha:

1. O mordedor de plástico que fica cheio de água gelada e que ele adora morder com seus dois únicos dentinhos que lhe cresceram na parte de baixo da boca e que fazem com que ele fique babando o tempo todo.

2. Bolacha Maria, a sua bolacha preferida e que não engasga.

3. A revista Superinteressante do pai, no caso o degas aqui, revista essa que é só o nenê pôr os olhos nela para agarrá-la e rasgar suas páginas e dilacerá-las e empapá-las de baba e amassá-la toda.

4. Uma mamadeira bem cheia de leite quentinho e delicioso e apetitoso.

5. O telefone celular de brinquedo que, quando o nenê aperta suas teclas, toca uma musiquinha que parece a do lacre azul do cachorrinho dos caminhões de gás, e o nenê vive apertando aquelas teclas, e aperta, e aperta sem parar, irritando seu torturado pai.

6. Um prato de feijão com massa ou de cáqui esmagado ou banana sem semente amassadinha com mamão, iguarias pelas quais ele suspira logo que as avista.

7. A bola de borracha que ele vive atirando nas coisas, fazendo supor que, no futuro, será um jogador profissional de nilcon.

8. O cachorrinho de pelúcia movido a pilha que anda e late e do qual o nenê tinha certo medo no início, mas no qual agora ele aprecia dar porrada, como se fosse para mostrar quem manda.

9. O paninho.

10. Uma faca.

Coloque tudo isso diante do nenê. O que ele vai pegar? Hm?

A resposta é:

A faca.

Sempre a faca.

Por que os nenês são assim???

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David