Que situação. Lá estavam os três, em volta de uma mesa: Jorge Aírton, sua namorada Anelise e o amigo Edu.
Edu saíra a semana toda com Anelise — a pedido do Jorge Aírton, que queria testá-la. Agora, porém, Jorge Aírton estava arrependido. Achava que havia acontecido algo entre Edu e Anelise. Até pedira para o técnico do Gaivota, o experiente seu Jairo, para falar com Anelise, interceder em seu favor.
Naquela noite de sexta, os três estavam em Capão, tomando sorvetinho, que cerveja não podiam, pois no dia seguinte Edu e Jorge Aírton jogariam pelo Gaivota. Depois de cinco dias, Jorge Aírton reencontrara Anelise. O que não o fazia mais feliz.
Ele, o namorado, ele, o melhor amigo, não conseguia se sentir à vontade com Anelise e Edu. Já os dois se divertiam. Comentavam sobre o filme que viram na terça, o restaurante novo, as aventuras na praia, o concurso de jacarezinho vencido pela Anelise, frescobol. Coisinhas, vocês sabem.
Jorge Aírton sentia-se excluído. O que poderia fazer para participar da conversa? Pensou, pensou, e resolveu fazer uma proposta descontraída, agradável, algo gracioso e apetitoso, do gosto de todos.
— Que tal uma batatinha? — propôs, jovialmente.
Anelise e Edu se olharam por instantes, num silêncio divertido, os dois pares de olhos refulgindo como dois gatos no escuro. Então, Anelise disse, rindo:
— Batatinha! — o Edu, rindo também, repetiu, olhando para a Anelise:
— Batatinha! — em seguida, os dois explodiram em coro:
— As gêmeas peladas! — e caíram em desabalada gargalhada, curvando-se de tanto rir, a Anelise dando tapas na perna do Edu, o Edu segurando o ombro dela. O Jorge Aírton olhava de um para outro, sem entender nada.
— Que é que tem? — perguntava, tentando manter a elegância. — O que disse de engraçado? Só perguntei se vocês queriam batatinha...
À menção da palavra batatinha, eles quase se atiravam ao chão. Repetiam: "Ele pediu batatinha! As gêmeas peladas! Batatinha! As gêmeas peladas!" E riam. Chato, aquilo. Quando pararam de rir, às lágrimas, como o Jorge Aírton ainda insistia, que foi?, que foi?, Anelise falou, fazendo um gesto de desdém com a mão:
— Nada. Tu não entenderias mesmo.
— Coisa nossa — acrescentou o Edu.
Coisa nossa. Que negócio era aquele de "coisa nossa"? Desde quando o Edu tinha coisas com a namorada dele? Coisa nossa, coisa nossa, aquilo não estava certo. Não, não, realmente não estava certo.
A noite foi toda assim. O Edu nem o olhava. Só conversava com a Anelise. Às vezes, temas incompreensíveis para ele, como: "Lembra da tatuíra vesga?" E os dois quaquaquá. O Jorge Aírton, quieto, com um caroço de abacate na garganta.
Na saída do bar, aconteceu algo inquietante. Ao se despedirem, o Edu o encarou friamente, quase com desprezo, e se foi resmungando. Jorge Aírton coçou a cabeça, virou-se para a Anelise. Queria que ficasse com ele. Ela alegou cansaço.
— Além disso, — acrescentou - amanhã vocês têm jogo. Precisam descansar.
— Tudo bem — conformou-se Jorge Aírton. — Mas eu queria saber uma coisa. Só uma coisa: o seu Jairo falou contigo?
Ela levou um susto. Corou.
— Sobre o quê? — perguntou, gaguejante.
— Só responde: falou?
— Falou... — Anelise torcia as mãos.
— Então, tudo bem.
Foram cada um para o seu lado. Jorge Aírton sentia-se mais aliviado. Seu Jairo estava agindo. Talvez até a situação estivesse normal e ele não percebeu. Sim, talvez o entrosamento de Edu e Anelise fosse só amizade e ele, Jorge Aírton, tivesse entendido tudo errado. Claro, era isso. Seu Jairo havia colocado as coisas no seu lugar. Que amigo, o seu Jairo. E que técnico. No dia seguinte, Jorge Aírton pretendia arrasar no jogo do Gaivota.
Pela manhã, ele começou o jogo confiante. Sobretudo porque Anelise não saía do lado do seu Jairo, os dois conversando, animados, no fundo do campo. Seu Jairo estava tão empenhado em conversar com a Anelise que nem orientava o time direito.
O Edu jogava mal. Errava passes. Desperdiçava gols. O que comprometia o rendimento do Jorge Aírton. No meio do jogo, o Jorge Aírton chamou a atenção do amigo:
— Te liga, meu! Não está vendo a bola?
— Não sou eu que sou cego! — respondeu o Edu, agressivo.
Cego? Por que o Edu o chamava de cego? Jorge Aírton estacou na areia, intrigado. Olhou para um lado. Para outro. Para onde estavam Anelise e seu Jairo. Então viu.
Justamente quando a bola tinha sido passada para ele. Deixou a bola sair pela lateral. Os companheiros de time reclamaram. Ele não se importou. Estava paralisado. Traumatizado com a cena que se passava lá longe, sobre um cômoro, testemunhada pelo sol inclemente e por toda a orla. Era um escândalo. E era o seu fim.
Ao ver aquilo, Jorge Aírton sabia que havia sido derrotado. Traído. Liquidado. Pois lá estava ela, Anelise, a sua Anelise, Anelisinha, ao lado do seu Jairo, sorrindo. Aliás, ambos sorriam, encostadinhos.
Ele a abraçava com confiança. E ela, debruçada, com os cabelos cheirosos caindo em catadupas pelas costas dele. Isso mesmo: estava com a cabeça deitada no ombro do seu Jairo. Ternamente. Suavemente. Falando com ele com seu hálito de chocolate branco.
Estava tudo acabado. Era o fim. Anelise havia dado a deitadinha no ombro do seu Jairo!
* Texto publicado em 20/01/1999 em Zero Hora
(quem pediu a republicação foi o Marcelo Câmara, de Arroio do Sal)
Postado por David


"Priscila,






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