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Posts de julho 2008

A deitadinha no ombro - último capítulo

31 de julho de 2008 22

Ilustração: Fraga

Que situação. Lá estavam os três, em volta de uma mesa: Jorge Aírton, sua namorada Anelise e o amigo Edu.

Edu saíra a semana toda com Anelise — a pedido do Jorge Aírton, que queria testá-la. Agora, porém, Jorge Aírton estava arrependido. Achava que havia acontecido algo entre Edu e Anelise. Até pedira para o técnico do Gaivota, o experiente seu Jairo, para falar com Anelise, interceder em seu favor.

Naquela noite de sexta, os três estavam em Capão, tomando sorvetinho, que cerveja não podiam, pois no dia seguinte Edu e Jorge Aírton jogariam pelo Gaivota. Depois de cinco dias, Jorge Aírton reencontrara Anelise. O que não o fazia mais feliz.

Ele, o namorado, ele, o melhor amigo, não conseguia se sentir à vontade com Anelise e Edu. Já os dois se divertiam. Comentavam sobre o filme que viram na terça, o restaurante novo, as aventuras na praia, o concurso de jacarezinho vencido pela Anelise, frescobol. Coisinhas, vocês sabem.

Jorge Aírton sentia-se excluído. O que poderia fazer para participar da conversa? Pensou, pensou, e resolveu fazer uma proposta descontraída, agradável, algo gracioso e apetitoso, do gosto de todos.

— Que tal uma batatinha? — propôs, jovialmente.

Anelise e Edu se olharam por instantes, num silêncio divertido, os dois pares de olhos refulgindo como dois gatos no escuro. Então, Anelise disse, rindo:

— Batatinha! — o Edu, rindo também, repetiu, olhando para a Anelise:
— Batatinha! — em seguida, os dois explodiram em coro:
— As gêmeas peladas! — e caíram em desabalada gargalhada, curvando-se de tanto rir, a Anelise dando tapas na perna do Edu, o Edu segurando o ombro dela. O Jorge Aírton olhava de um para outro, sem entender nada.
— Que é que tem? — perguntava, tentando manter a elegância. — O que disse de engraçado? Só perguntei se vocês queriam batatinha…

À menção da palavra batatinha, eles quase se atiravam ao chão. Repetiam: “Ele pediu batatinha! As gêmeas peladas! Batatinha! As gêmeas peladas!” E riam. Chato, aquilo. Quando pararam de rir, às lágrimas, como o Jorge Aírton ainda insistia, que foi?, que foi?, Anelise falou, fazendo um gesto de desdém com a mão:

— Nada. Tu não entenderias mesmo.
— Coisa nossa — acrescentou o Edu.

Coisa nossa. Que negócio era aquele de “coisa nossa”? Desde quando o Edu tinha coisas com a namorada dele? Coisa nossa, coisa nossa, aquilo não estava certo. Não, não, realmente não estava certo.

A noite foi toda assim. O Edu nem o olhava. Só conversava com a Anelise. Às vezes, temas incompreensíveis para ele, como: “Lembra da tatuíra vesga?” E os dois quaquaquá. O Jorge Aírton, quieto, com um caroço de abacate na garganta.

Na saída do bar, aconteceu algo inquietante. Ao se despedirem, o Edu o encarou friamente, quase com desprezo, e se foi resmungando. Jorge Aírton coçou a cabeça, virou-se para a Anelise. Queria que ficasse com ele. Ela alegou cansaço.

— Além disso, — acrescentou – amanhã vocês têm jogo. Precisam descansar.
— Tudo bem — conformou-se Jorge Aírton. — Mas eu queria saber uma coisa. Só uma coisa: o seu Jairo falou contigo?

Ela levou um susto. Corou.

— Sobre o quê? — perguntou, gaguejante.
— Só responde: falou?
— Falou… — Anelise torcia as mãos.
— Então, tudo bem.

Foram cada um para o seu lado. Jorge Aírton sentia-se mais aliviado. Seu Jairo estava agindo. Talvez até a situação estivesse normal e ele não percebeu. Sim, talvez o entrosamento de Edu e Anelise fosse só amizade e ele, Jorge Aírton, tivesse entendido tudo errado. Claro, era isso. Seu Jairo havia colocado as coisas no seu lugar. Que amigo, o seu Jairo. E que técnico. No dia seguinte, Jorge Aírton pretendia arrasar no jogo do Gaivota.

Pela manhã, ele começou o jogo confiante. Sobretudo porque Anelise não saía do lado do seu Jairo, os dois conversando, animados, no fundo do campo. Seu Jairo estava tão empenhado em conversar com a Anelise que nem orientava o time direito.

O Edu jogava mal. Errava passes. Desperdiçava gols. O que comprometia o rendimento do Jorge Aírton. No meio do jogo, o Jorge Aírton chamou a atenção do amigo:

— Te liga, meu! Não está vendo a bola?
— Não sou eu que sou cego! — respondeu o Edu, agressivo.

Cego? Por que o Edu o chamava de cego? Jorge Aírton estacou na areia, intrigado. Olhou para um lado. Para outro. Para onde estavam Anelise e seu Jairo. Então viu.

Justamente quando a bola tinha sido passada para ele. Deixou a bola sair pela lateral. Os companheiros de time reclamaram. Ele não se importou. Estava paralisado. Traumatizado com a cena que se passava lá longe, sobre um cômoro, testemunhada pelo sol inclemente e por toda a orla. Era um escândalo. E era o seu fim.

Ao ver aquilo, Jorge Aírton sabia que havia sido derrotado. Traído. Liquidado. Pois lá estava ela, Anelise, a sua Anelise, Anelisinha, ao lado do seu Jairo, sorrindo. Aliás, ambos sorriam, encostadinhos.

Ele a abraçava com confiança. E ela, debruçada, com os cabelos cheirosos caindo em catadupas pelas costas dele. Isso mesmo: estava com a cabeça deitada no ombro do seu Jairo. Ternamente. Suavemente. Falando com ele com seu hálito de chocolate branco.

Estava tudo acabado. Era o fim. Anelise havia dado a deitadinha no ombro do seu Jairo!

* Texto publicado em 20/01/1999 em Zero Hora
(quem pediu a republicação foi o Marcelo Câmara, de Arroio do Sal)

Postado por David

"Me chama de Euclides"

31 de julho de 2008 11

HISTÓRIA FALADA

Troço chato, o que essa mina dizia para o meu amigo falar…

Assiste aí:

Postado por David

A deitadinha no ombro - capítulo 3

30 de julho de 2008 20

Algo havia acontecido. Isso era certo. Jorge Aírton estava muitíssimo desconfiado. Desde que havia pedido ao seu melhor amigo, o Edu, para que ele assediasse a sua namorada, a Anelise, a fim de testar a fidelidade dela, os dois, Anelise e Edu, estavam muito estranhos. Muito estranhos.

Quanta dor. O Jorge Aírton em Porto Alegre, sofrendo, e o seu melhor amigo e a sua namorada na orla, se divertindo. Quando falavam com ele, ao telefone, eram sempre reticentes, vagos. Por que estariam assim? Jorge Aírton se recusava a acreditar que ela já tivesse cedido. Mas, se ela cedeu, será que o amigo Edu acabou gostando? Será que… aconteceu? Não! Ele não podia nem pensar nisso!

O problema é que, durante toda a semana, o comportamento dela foi o mesmo. Dispersiva. Sempre com uma desculpa para desligar antes do fim da conversa, geralmente porque precisava se arrumar para sair. Com o Edu. Sempre com o Edu. Na verdade, só um dia pareceu animada ao telefone. Foi lá pela quarta-feira, quando comentou:

— Muito boa essa tua idéia de pedir ao Edu que me fizesse companhia durante a semana. Estava me sentindo sozinha mesmo.

Então o Edu dissera que a idéia tinha partido dele. Por quê? Curioso. E por que ela estava tão distante? Dúvidas… quantas dúvidas. Quando falava com o Edu, não conseguia dirimi-las. Perguntava, ansioso, pelo comportamento da Anelise, como ela vinha reagindo, e o amigo:

— Não aconteceu nada. Ela gosta de ti. Lembra da deitadinha?

O Jorge Aírton lembrava. Como iria esquecer? Era seu único consolo. Graças à deitadinha que a Anelise dera em seu ombro, soubera que ela o amava. Sim, a deitadinha era a prova. A deitadinha suave. Macia. De travesseiro de penas. Ela o amava, ela o amava. Ou não?

Os dois, Edu e Anelise, não poderiam estar tendo um caso em segredo? Poderiam. É, poderiam. Jorge Aírton reconheceu: estava arrependido daquilo tudo. Maldita a hora em que resolveu testar a Anelise! Era bem feito para ele. Para que tanta desconfiança?

Bem, mas o fato é que agora tudo poderia ter ido por terra mesmo. Com o pedido, talvez ele tenha apertado algum botão camuflado na alma daqueles dois, talvez tenha acionado o mecanismo que desencadeou a paixão entre eles. Que desgraça! Sua amada e seu melhor amigo. Quer dizer: uma vaca e um judas! Uma serpente e um traidor! Desgraçados!

Ele tinha de reagir. Na quinta-feira, concluiu que só havia uma coisa a fazer. Seu Jairo. O Jorge Aírton ia ligar para o seu Jairo e pedir ajuda. Sim, era a pessoa certa a quem clamar por socorro. Definitivamente. Seu Jairo era o técnico do Gaivota. Um homem maduro. Experiente. Pequenas rugas de expressão nos cantos dos olhos, restos de antigos sorrisos. Prata nos cabelos.

Talvez fosse aquilo que chamavam de aparência veneranda. Sim, sim, era o que ele possuía. Aparência veneranda. Seu Jairo conhecia tudo de estratégias de futebol e mulheres. Dois ou três volantes? Convidar aquela ruiva para sair ou não? Eram perguntas para as quais o seu Jairo sempre tinha resposta.

E, como ele estava na praia, perto daqueles dois cães infiéis, teria chance de falar com eles. E seu Jairo conhecia a ambos, Edu e Anelise. Se falasse com ela, a convenceria de que o certo era continuar com ele, Jorge Aírton. Que ela não deveria trocar algo sólido, antigo, por uma aposta, por uma dúvida.

Ligou para o seu Jairo. Contou tudo. Tudinho. Como havia pedido para o Edu, assediar a Anelise. Como eles mudaram depois que saíram juntos pela primeira vez. Suas dúvidas. Suas desconfianças. Sua dor. Tudo. Seu Jairo ouviu em silêncio compenetrado, fazendo “arrã” de vez em quando. Quando o Jorge Aírton terminou, sentiu que seu Jairo balançava a cabeça do outro lado da linha. Achou até ter ouvido: “Tsc, tsc”.

— O senhor disse tsc, tsc? — perguntou, aflito.
— Um grande erro, rapaz — limitou-se a falar o seu Jairo, com sua voz de comercial da Bozzanno. — Você cometeu um grande erro…

Jorge Aírton engoliu em seco.

— O senhor pode me ajudar? Pode falar com ela? Ver o que está acontecendo? Dizer para ela que ela deve ficar comigo?
— Vou tentar, rapaz. Vou tentar.
— Sério? Puxa, muito obrigado, seu Jairo. Muito obrigado mesmo!

E ficou repetindo muito obrigado, muito obrigado, enquanto o seu Jairo só dizia:

— Fique tranqüilo, rapaz. Fique tranqüilo.

De fato, o Jorge Aírton estava mais tranqüilo. Ainda mais que no dia seguinte, sexta-feira, iria para Capão e os encontraria, Anelise e Edu. Então, o seu Jairo já deveria ter conversado com eles, já teria colocado tudo no seu lugar. Os três sairiam, ele, Edu e Anelise, e tudo voltaria a ser como antes. Isso. Tudo como antes.

Realmente, na sexta-feira, em Capão, os três saíram. Só que as coisas não aconteceram como o Jorge Aírton havia planejado. Não. O que aconteceu você vai saber amanhã, o último dia da saga da deitadinha no ombro.

* Texto publicado em 19/01/1999 em Zero Hora
(quem pediu a republicação foi o Marcelo Câmara, de Arroio do Sal)

Postado por David

Quero requintes de crueldade!

30 de julho de 2008 482

Meu filhinho foi mordido por um cachorro. Um desses cachorros de madame, manja? Pequeno, pouco maior do que um gato, branco, cheio de frufrus, cachorro de apartamento. Um rato peludo, na verdade, pertencente à sub-raça dos cachorros. Mas ainda assim um bicho com dentes e garras e tudo mais.

Mordeu meu filhinho no rosto. Fiquei furioso. Bem sei que as crianças se machucam e tal. Mas isso acontece quando a criança tem dois anos de idade, está na escolinha e leva um uppercut de um colega, ou se esborracha no chão enquanto está brincando, ou puxa o rabo de um vira-lata e o vira-lata lhe dá uma dentada.

Agora, se o nenê tem 11 meses de idade, se nem caminhar caminha, se está num apartamento, cercado de adultos, então esse gênero de acidentes não pode acontecer. Não pode. É proibido.

Mas aconteceu.

Logo, fiquei furioso. Ainda estou. Cada uma dessas vírgulas está sendo pendurada com ódio, de cada cedilha balança o ressentimento. Imagino como se sente um pai que tem o filho atacado por um pitbull. Porque uma criança ser atacada por um pitbull também não pode, também é proibido. Por várias razões.

Uma delas é que esse pitbull não existia na natureza. Foi enxerto. Outra é que, uma vez que inventaram esse bicho e ele provou ser uma fera perigosa, deveria ser apartado do convívio com seres humanos. Cidade não é lugar para animais selvagens, como pitbulls e torcedores de futebol que vão ao jogo para brigar. Por isso, sou pela eliminação sumária de todos os pitbulls. Pena de morte. Paredón.

No caso dos pitbulls, reivindico uma ação da Justiça. Da legislação. Algo racional. A sociedade deveria impedir a convivência entre humanos e feras, e pronto. No caso do rato peludo que mordeu meu filhinho, não sou racional, nem posso ser, nem quero.

Alimenta-me, aí, o baixo sentimento da vingança. Gostaria de eliminá-lo lentamente, com requintes de crueldade. Algo como uma tortura chinesa chamada Morte das Mil Maneiras. É muito engenhoso. O verdugo chinês fazia assim: pegava um pote de porcelana, os chineses são muito bons em porcelana, e nele colocava mil papeizinhos. Em cada papel estava escrito o nome de algum órgão do corpo humano, como olho direito, unha do dedo mínimo esquerdo ou cérebro. Só uma pequena minoria era composta por órgãos vitais, como o coração.

Bem. Ante o olhar aterrado da vítima, o carrasco ia ao pote e tomava um papel aleatoriamente. Se pegasse o tal olho direito, ficaria uma hora trabalhando nele, remoendo-o com pinças, furando-o com ferros, queimando-o com brasas. O suplício podia levar dias ou semanas ou até meses, o torturado ficava torcendo para que fosse sorteado com um órgão fatal.

Tive ganas de empregar esse sutil método oriental com aquele cachorro, ao ver meu nenê com o rosto sangrando e as marcas de uma dentada a meio centímetro do seu olhinho. Os donos do cachorro que me desculpem, eles são boas pessoas e amam o bicho como se fosse membro da família, mas não é nada pessoal – teria idênticas intenções com qualquer cachorro que atacasse meu filhinho.

Neste momento, ao descrever isso, até me acalmo um pouco, o ódio se me esvai pelas pontas dos dedos. Só que, nas horas seguintes ao ataque do rato peludo, mal conseguia controlar a raiva.

Tinha raiva de todo o mundo animal, dos grandes elefantes aos pequeninos protozoários, do Pluto e do Pateta, tinha raiva dos defensores dos animais, dos donos de bichos de estimação, das pet shops, dos veterinários, dos zoológicos, das vegetarianas, dos anões, fiquei com raiva de uma mulher que dirigia um maldito carro verde a 20 por hora, trancando todo o trânsito, e também de um sujeito que cortou a minha frente com uma caminhonete preta, amaldiçoei cada pessoa que me perguntou amigavelmente se já estou de malas prontas para viajar para a China, que vou para a China, e pensei que minha maldição poderia cair sobre todos os um bilhão e trezentos milhões de chineses e ainda sobre mais um bilhão de indianos e, quem sabe, sobre outro tanto de ianques, russos, europeus e sul-americanos, sentia ódio das serpentes rastejantes e das aves do céu, dos mamíferos, dos anfíbios, dos répteis e das alfaces, de tudo, tudo, aí aquele torcedor me ligou. Não disse alô nem nada. Foi ralhando:

— Olha aqui, ó: a cobertura de vocês está muito colorada.

E foi deitando falação sobre a quantidade de páginas que se dá ao Inter em comparação com as do Grêmio e bibibi. Tentei explicar que o Inter tinha feito contratações importantes e tal, mas ele não se convencia.

— Muito colorada! — repetia. — Como sempre: muito colorada!

Nada que eu dissesse lhe convenceria. Normalmente, eu anotaria a queixa e lhe daria algum consolo falando da próxima grande cobertura do Grêmio. Mas estava irritado, queria dar um soco em alguém. Perdi a paciência. Porém, não toda. Não fui grosseiro, odeio grosseria. Usei da ironia.

— Sabe o que é? — falei. — É que aqui só tem colorado. Mais até: é uma condição para entrar nessa editoria. Tem que ser colorado, senão não é contratado.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois baixou o tom de voz:

— Não é isso. Não estou dizendo que vocês são colorados…
— Meu senhor — respondi, com urbanidade, sem perder a firmeza. — O senhor disse que a nossa cobertura é muito colorada. Então, ou uma coisa ou outra: ou nós somos todos colorados, e somos mal-intencionados, ou somos incompetentes, e temos que ser demitidos. Qual das duas? 
— Não… não… 
— Tentei argumentar com o senhor, disse que a causa desse aparente desequilíbrio é a seqüência de grandes contratações do Inter, mas o senhor não concordou com meu argumento. 
— Bom, talvez seja isso mesmo… 
— O senhor acha? 
— Acho. 
— Obrigado.
— Não tem de quê.

Despedimo-nos com cumprimentos afetuosos. Cara, às vezes, um pouco de raiva faz bem.

* Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora

Postado por David

A deitadinha no ombro - capítulo 2

29 de julho de 2008 9

Ilustração: Rodrigo Rosa

Lembram do que contei ontem? O Edu aceitou o estranho pedido do seu melhor amigo, Jorge Aírton. Iria, portanto, assediar a namorada dele, do Jorge Aírton, a fim de testar a fidelidade dela. 

No fim da tarde de domingo, o Jorge Aírton voltou para Porto Alegre. Naquela noite mesmo, conforme o combinado, o Edu convidou a Anelise para sair. Cineminha. Jantinha. Talicoisa. A Anelise gostou da idéia. Não tinha nada para fazer mesmo… Uma boa, uma boa.

A 142 quilômetros de distância, o Jorge Aírton queimava de ansiedade. Mal dormiu naquela noite. No dia seguinte, nem bem levantou da cama já ligou para o celular da Anelise: “Telefônica, celular, informa…” Droga, ela devia estar dormindo. Teriam ficado acordados até tarde? Ligou para o do Edu: “Telefônica…” Droga.

Continuou ligando durante toda a manhã. Nada. Meio-dia. Nada. Jorge Aírton nem almoçou direito, tamanha a sua angústia. À tarde, não conseguia se concentrar no trabalho. Só ligava, ligava, ligava, e nada de nenhum dos dois atender.

Ao voltar para casa, à noite, discutiu na sinaleira da Mostardeiro com o motorista de um Gol. Estava nervoso. Ao chegar no seu edifício, ouviu o telefone tocando. Subiu as escadas correndo. Abriu a porta. Quando atendeu, a ligação caiu. Seria ela? Devia ser.

Ligou para ela. “Telefônica, celular…” Mas que droga! Ligou para o Edu. Nada. Zero. Uma droga. Era isso que era: uma droga. Finalmente, às 22h, depois de 90 tentativas, o Jorge Aírton ouviu o tão esperado sinal do telefone chamando.

— Anelise! — berrou, quando ela disse alô.
— Ahn? Quem fala?
— Quem fala? Como quem fala? Sou eu! O Airtinho!
— Ah. Oi — ela não parecia entusiasmada.
— Oi! — Jorge Aírton percebeu que ainda gritava. Tentou se controlar. — Oi. Estava com saudade…
— É?… — por que ela não disse que estava com saudade também?
— É. Tudo bem por aí?
— Tudo. Olha, Aírton, eu vou ter que desligar. Tenho de me arrumar para sair, tá?

Aquilo pegou o Jorge Aírton de surpresa. Ela nunca fora tão lacônica. E por que o chamara de Aírton? Ela sempre o chamava de Airtinho… O que estaria acontecendo?

— Ahn… — o Jorge Aírton não conseguia raciocinar. — Então tá…

Desligaram. Jorge Aírton coçou a cabeça, intrigado. O que teria acontecido na noite anterior? Será quê?… Será que ela tinha capitulado à primeira investida do Edu? Sua resistência seria assim tão frágil? Cachorra!

Mas, não, não era possível. Ela o amava, era evidente que o amava. Senão não teria dado aquela deitadinha no ombro dele, aquela deitadinha amorosa de gato que acabou de comer atum. O Jorge Aírton sempre lembrava da deitadinha, a tão terna deitadinha, prova do amor da Anelise.

Além disso, ela não iria se entregar na primeira vez. O Edu teria que insistir um pouco mais. E insistiria, claro, mesmo que não quisesse. Aliás, era certo que o Edu não ia querer, que o Jorge Aírton teria de insistir muito, teria de apelar pela amizade entre eles.

Afinal, não poderia confiar em ninguém mais, só no seu melhor amigo. Só o seu amigaço poderia assediar sua namorada para fazer aquele teste definitivo. Só ele. Só o Edu. Então, mesmo que o Edu se negasse, mesmo que resistisse, Jorge Aírton iria argumentar até que ele aceitasse sair com a Anelise de novo. Ligou para o amigo. Grande amigo, aquele Edu. Desta vez, o Edu atendeu.

— Ô, Edu, amigão, meu irmão, parceiro, tudo bem? É o Jorge.
— Ah. Oi. Tudo bem — o Edu parecia um pouco distraído.
— E aí?
— Ahn? — bem distraído, até.
— Como foi ontem?
— Ontem? — muito distraído.
— Com a Anelise, meu! Vocês não saíram?
— Ah, sim. Saímos… — singularmente distraído.
— E aí?
— Tudo bem.
— Como assim, tudo bem? Tu deste em cima dela? — o Jorge Aírton começava a se exasperar.
— Dei, sim, claro. Como tu pediste.
— E ela? E ela?

O Edu pareceu hesitar alguns instantes. Em seguida falou, voz sussurrada:

— Nada. Não deu a mínima.
— Ah… — Jorge Aírton refletiu por meia dúzia de segundos. — Mas foi só a primeira vez. Continua insistindo, certo? — o Jorge Aírton, prevendo que o Edu, o amigão Edu, ia se rebelar contra o pedido, que nunca mais quereria sair com a Anelise, que iria dizer não, não e não, prevendo isso o Jorge Aírton já se preparava para fazer uma longa argumentação. Não precisou. A resposta do Edu foi rápida e até entusiasmada:

— Tudo bem, pode deixar — agora o Edu não parecia mais distraído. Havia despertado repentinamente. — Pode deixar, pode deixar — e ficou repetindo: — Pode deixar, eu faço isso pra ti. Hoje mesmo. Pode deixar.

Algo havia acontecido. O Jorge Aírton tinha certeza disso. Algo havia acontecido. Mas o quê? O quê? O Jorge Aírton tinha de fazer alguma coisa. E fez. Mas isso só vou contar amanhã.

* Texto publicado em 18/01/1999 em Zero Hora
(quem pediu a republicação foi o Marcelo Câmara, de Arroio do Sal)

Postado por David

Túnel do Tempo

28 de julho de 2008 19

Banco de Dados

Não deixarei de atender ao pedido* da Maria Isabel de Lima, de Porto Alegre:

A orelha estuprada

Às vezes um homem tem de simplesmente dizer:

— Não!

De fato, às vezes é fundamental dizer não. Língua na orelha, por exemplo. Odeio língua na orelha. Não gosto de introduzir minha língua na orelha de ninguém e não gosto de ter minha orelha penetrada pela língua de quem quer que seja. Não gostaria nem que a língua da Uma Thurman se imiscuísse na minha orelha.

Aquela coisa viscosa, quente e molhada serpenteando pelo pavilhão auditivo, rastejando pelo labirinto, lambuzando o tímpano — quem há de gostar disso? Está certo, sei que há gosto para tudo, até para calça de caçar marrecão no banhado. Mas eu não. Definitivamente, não.

Uma vez, estava eu aos afagos com uma namorada d`antanho quando ela, motivada sabe-se lá por qual inspiração, resolveu enfiar a língua dela na minha indefesa orelha direita. Mal senti a ponta daquele naco de carne vermelha salivada no meu lóbulo e dei um salto.

Ela percebeu a minha reação, não podia deixar de perceber, mas, surpreendentemente, não recuou. Ao contrário, embrenhou com maior convicção a língua por entre as curvas do meu pavilhão auricular.

Debatia-me, tentava me livrar, só que ela havia me prensado contra o canto da poltrona e me segurava fortemente com os dois braços. Eu estava imobilizado, sentindo grande ansiedade. Além disso, não queria ser grosseiro, levantar-me com brusquidão ou berrar:

— Tira essa língua nojenta daí!

Não. Não podia fazer isso. Mas manifestava como podia meu desconforto grunhindo, afastando os braços de polvo dela, protestando com alguma timidez. A cada segundo, porém, ela insistia ainda mais com aquela língua de enguia esfomeada. Por quê?, pensava eu, angustiado. Por que ela continuava a violar a minha orelha sem ligar para meu desespero? Seria uma sádica? Uma tarada por orelhas? Descobri a resposta quando ela falou assim:

— Nham!

Nham? Como assim, nham?

Entendi tudo. Ela achava que eu estava protestando contra a linguada auricular porque aquilo me excitava além do controle. Ela achava que aquele era o meu ponto fraco. O que, evidentemente, a excitava também.

Quer dizer: quanto mais eu me debatesse, mais ela acharia que estava excitado. Não havia saída. Não tinha nada a fazer. Apenas fiquei ali, sentado, imóvel, submisso e assustado como uma bandeirante no baile de Carnaval do Scala, sentindo minha orelha ser estuprada sistematicamente, enquanto ela gemia com cada vez mais energia:

— Nham! Nham! Nham! Nhaaaaaammm!

Troço chato.

O fato é que nada daquilo aconteceria se eu fosse determinado e dissesse uma única palavra com um ponto de exclamação no final:

— Não!

Era o que devia ter dito. É o que devemos dizer muitas vezes, sem pejo, sem hesitação. Devemos dizer:

Não! Nós não queremos Zé Alcino, Zé Afonso ou Rodrigo Gral no ataque do Grêmio. Não! Nós não queremos mais aumentos de impostos. Também não queremos juros escorchantes. Não queremos o Pinochet fora da cadeia.

Não queremos cortes nos orçamentos da educação e da saúde. E não queremos fazer festa com campeonato de futebol de areia! Positivamente, não! Não! Agora, pensando bem, se a Uma Thurman quiser, até pode dar uma linguadinha na minha orelha.

* Texto publicado em 12/01/99 em Zero Hora

Postado por David

A deitadinha no ombro - capítulo 1

28 de julho de 2008 9

(A pedido do Marcelo Câmara, de Arroio do Sal, publicarei a partir de hoje um conto de quatro capítulos que escrevi em 1999, como interino do Paulo Sant`Ana.)

***

Foi um pedido estranho. Muito estranho. Tanto que, ao ouvi-lo, o Edu não acreditou. Disse, apenas:

— Quê? — e ficou de boca aberta.

Era, de fato, um pedido estranho. Ainda mais vindo de quem veio, o Jorge Aírton, amigão do Edu. Mais do que amigo, um irmão. Estavam sempre juntos, o Jorge Aírton e o Edu, e até quando jogavam bola, no time do Gaivota, faziam dupla.

Eram como Larry e Bodinho, Paulo Nunes e Jardel, química e biologia, bolinho de bacalhau e cerveja. Uma dupla que saía tabelando do meio campo e irrompia gol adentro tocando bola de pé em pé, tonteando os adversários, levantando poeira, queimando a grama. Ou a areia. Pois agora, no verão, Edu e Jorge Aírton jogavam no Gaivota Praiano, de Capão da Canoa.

Edu e Jorge Aírton. Jorge Aírton e Edu. Sempre juntos. Amigões. Por isso o Edu estranhou quando o Jorge Aírton pediu:

— Quero que tu dê em cima da minha namorada.
— Quê? — e o Edu com um ó desenhado na boca.
— Não te agrada, a Anelise?

Ora, ora, que pergunta. A Anelise agradava a todos. Era uma mulher de superlativos. Todos eles rijos. Todos eles serpeantes. Palavra adequada para descrevê-la essa, serpeante. Porque aquela era uma mulher pululante de côncavos e convexos, vales e montanhas.

E quando dançava, nossa!, era uma enguia com coceira. Vinha gente de outras praias para ver a Anelise dançar. Até de Torres. Até do Cassino. Anelise. Uma enguia com coceira.

Então, não era que a Anelise não agradasse ao Edu. Agradava, agradava. Mas eles eram amigos, pô! O Edu olhava para a Anelise como se ela fosse uma irmãzinha, uma noviça. Mesmo assim, o Jorge Aírton insistia. Queria que o Edu a assediasse.

— Mas por quê? — desesperou-se o Edu. — Ficaste louco?

Não, o Jorge Aírton não estava louco. Estava com ciúmes. A Anelise era uma mulher especial. Tez morena. Lábios voluptuosos. O sol no sorriso.

Nos últimos dias, Jorge Aírton se sentia inseguro. Na verdade, na verdade, nunca se sentira completamente seguro. Desde sempre, as iniciativas partiam dele. A Anelise lhe parecia às vezes indiferente, às vezes no máximo satisfeita por ser cortejada.

Jorge Aírton só passara a ter certeza de que havia algum sentimento entre eles no dia em que ela deitou a cabeça no seu ombro. Um gesto singelo. Mas eloqüente. Eles já estavam razoavelmente envolvidos, já haviam trocado carícias. Só que sem ternura. Até a deitadinha no ombro.

Aquela deitadinha no ombro, sim, foi terna, carinhosa, havia sentimento naquela deitadinha no ombro. Estavam lado a lado, no bar, e ela recostou a cabeça no ombro dele, carinhosamente, ronronando, quase fazendo miau. O Jorge Aírton ficou sentindo a maciez dos cabelos castanhos roçando-lhe o rosto, o cheiro de chocolate branco que saía dos lábios polpudos, e teve certeza: ela gosta de mim. Tudo começou a partir daquele instante.

Agora, gostar dele não queria dizer exclusividade. Por isso a insegurança do Jorge Aírton. Por isso o pedido estranho. Jorge Aírton queria que o Edu convidasse a Anelise para sair. Ela ia aceitar, claro, os dois eram amigos.

Além disso, o Jorge Aírton teria de voltar para Porto Alegre. Eles só tornariam a se encontrar no outro final de semana, quando os dois amigos, Jorge Aírton e Edu, jogariam pelo Gaivota. E a Anelise estaria na torcida, como sempre, batendo palminhas, incentivando:

— Vai, Airtinho! Vai! — Chamava-o assim: Airtinho. Que amor.

Então, a idéia era o Edu sair com ela e assediá-la.

— Se ela te der bola, já sei que não posso confiar nela, a safada. Se não der, aí tudo bem, tudo maravilha — explicava o Jorge Aírton.
— Nunca! — reagia o Edu. — Não posso fazer isso.

O Jorge Aírton pegava-o pelo braço. Argumentava, dramático, cheio de exclamações:

— Só posso pedir isso para um amigo de verdade! Só! Só! Se tu és meu amigo, faz isso! Se tu és meu amigo, acaba com essa minha dúvida!

O Edu acabou cedendo. Sob protesto, mas cedeu. E assim começa essa história de dor e dor e dor. Que continua amanhã.

* Texto publicado em 17/01/1999 em Zero Hora

Postado por David

Escadas e celulares

28 de julho de 2008 10

Banco de Dados ZH

Não sei o que é que as companhias telefônicas fizeram, deve ser alguma propaganda subliminar, sei lá, mas nenês adoram celular. Não é só o meu, vários pais já me contaram que seus pequenos filhos são alucinados por celular. Com um detalhe: o telefone tem que funcionar, não pode ser de brinquedo. O Bernardo ganhou um celular falso, mas quem diz que isso o satisfez? Nada! Ele quer celular de verdade! Tudo bem, vez em quando deixo ele brincar com o meu celular. Só que agora ele exagerou. Agora o Bernardo só aceita brincar com blackberry!

Francamente, essa nova geração é escrava da tecnologia. 

Tem uma escada lá em casa, ligando a sala ao segundo piso. Até pouco tempo atrás, o Bernardo seguido engatinhava até a base do primeiro degrau e ficava olhando para cima, sonhador. Algumas vezes ele ensaiava escalar aquele degrau, mas não conseguia. Ainda era muito pequeno – o Bernardo, não o degrau. Então, ele desistia e ia brincar com um telefone celular.

Semana passada, tudo mudou.

Cheguei à noite e percebi que havia um brilho diferente em seus olhos negros. Ele estava no chão, sentado, com as pernas esticadas. Fitou a escada com firmeza, pôs-se de quatro e foi. E foi e foi e foi. Mas foi! Engatinhou velozmente até o primeiro degrau e não parou. Apoiou as mãozinhas gordas na base, levantou uma perna, fez uh, uh, e, Nossa Senhora!, galgou o degrau. Corri até ele, a fim de apará-lo em caso de queda. Mas ele não caiu. Fez uh, uh, e subiu o segundo. Eu atrás. Ele não me deu bola. Foi em frente, fazendo uh, uh, e subindo outro e outro e mais outro, até chegar lá em cima!

Eu pulava, de braços para o alto, cantando o tema do Ayrton Senna, tan-tan-tan, tan-tan-tan!

Ele, na segurança do segundo piso, sentou-se novamente, as perninhas de novo estendidas, e, olhando muito sério para a minha comemoração, comentou, apenas:

- Uh!

E se foi, de gatinhas, para brincar com outro celular.

Trata-se de um modesto. Sim, senhor. Um modesto.

*Texto publicado hoje no caderno Meu Filho de Zero Hora.

Postado por David

Uma noite realmente estranha...

26 de julho de 2008 15

Estava me sentindo meio estranho aquela noite. Sentia-me como um lateral-esquerdo reserva – você sabe como se sente um lateral-esquerdo reserva, daqueles que não pegam nem banco. Era sexta-feira. Na verdade, sábado: duas da madrugada. E eu ainda trabalhando, mas já saindo do jornal, já quase na rua. Não fazia exatamente frio, nem exatamente calor. Não queria ir para casa – estava muito agitado para dormir. Bem, havia uma festa de aniversário de um amigo meu, se é que àquela hora a festa ainda acontecia. Decidi arriscar, não tinha nada a perder. Fui.

Por volta das duas e meia, descia a pequena escadaria do Bogart, um velho bar da cidade. Chegando à pista, uau!, a vida é boa! A festa pulsava, todo mundo bebendo, dançando e rindo. Hoje, pessoas que bebem, dançam e riem às duas e meia da madrugada podem ser processadas e encarceradas e fritadas na cadeira elétrica, os tempos são outros. Mas, na época, ir a um bar e beber com os amigos não era considerado pecado nem nada. Então, finquei um cotovelo no balcão e gritei para o garçom:

- Taberneiro! Preciso de algo que contenha elevado percentual alcoólico e que seja tão gelado quanto o coração das mulheres!

Era assim que eu pedia um drinque, meeen.

Fui para o bolor. Cumprimentei um e outro e talicoisa, até que a vi. Cara, ela estava lá. Aquela morena. Fazia tempo que suspirava pelos olhos verdes daquela morena e agora ela estava lá. Mas, puxa vida, ela nunca havia me dado bola. Do tipo de mulher que está numa rodinha com você e você conta uma historinha legal e todo mundo ri, menos ela, ela nem olhar direito para você olha. Além do mais, eu estava me sentindo um lateral-esquerdo reserva. Quer dizer: não tinha muita chance. Mas, ainda assim, fui até lá, eu e o meu copo de vodca. Parei ao lado dela e:

- Aiam?

Ela:

- Oiiiiii…

Um oi cheio de is. Fiquei todo animado. Pensei: cara, neste momento, preciso dizer algo engraçado. Sabia que, se dissesse algo engraçado e ela risse, tudo podia dar certo. Disse lá. E ela riu, cara! Mó emoção. Passei a me sentir um centroavante goleador. Enchi-me de confiança. E comecei com aquela conversinha, aquele chalalá, bibibi e bibibi, e ela só rindinho, que alegria. Realmente, eu era o senhor da grande área, o artilheiro, o matador, o camisa 9! Em uma hora, sabe onde estávamos, eu e a morena? Em meu próprio apartamento, sentados em meu próprio sofá, nossas próprias línguas entrelaçadas, as respirações misturadas, o mundo é bom.

Eu era o centroavante, eu estava me sentindo realmente bem, e eu queria aquela mulher, mas, oh, ela só repetia que sexo não, não na primeira vez, que da primeira vez iríamos apenas namorar, trocar carinhos, nos conhecer. Achei que ela não estivesse falando a sério, achei que, no meio do caminho, ela fosse mudar de idéia, mas qual o quê! Eu só podia tocá-la do pescoço para cima. Continuamos ali, completamente vestidos, só nos beijando e beijando e beijando sem parar. Perto do amanhecer encontrava-me exausto. Beijo demais para um homem. Sim, chega uma hora que um homem não suporta mais tantos beijos. Percebi que a coisa não evoluiria e desisti. Se ela não quer, tudo bem. Não vamos forçar. Deixemos para outra oportunidade. Afastei-me um pouco e perguntei:

- Não está com soninho, amor?

- Não! – ela pulou sobre mim outra vez. – Quero beijos! Beijos, beijos, beijos!

E veio com aquela boca e todos aqueles braços e todo aquele mel, mnnnn, mnnnn, ismaque, ismaque. Cara, a mulher me apertava, me enlaçava com braços de aço, eu tentava me desvencilhar com jeito, como se estivesse retribuindo as carícias e tal, mas não conseguia. Ela me apertava e me beijava e não deixava de me apertar e me apertava ainda mais e cada vez mais e eu gnnnnn!, gnnnnnn!, e ela continuava me beijando e me apertando e fui sufocando e foi me dando uma angústia, uma angústia, uma angústia, parecia que não ia conseguir sair nunca mais daquela areia movediça feita de braços de borracha e lábios sugadores e fui ficando com falta de ar e com aperto no peito e vontade de gritar e gritei, saltando do sofá:

- WOLFREMBAER!!!

Cara, a mina ficou ofendida. Foi-se embora furiosa que nem um pitbull e nunca, mas nunca mais me deu nem tchuns. Fiquei sozinho vendo o amanhecer. Um pedaço de mim estava aliviado, mas o outro, que droga, o outro sentia-se como um lateral-esquerdo reserva. Daqueles que não pegam nem banco.

*Texto publicado na Zero Hora dominical.

Postado por David Coimbra

Túnel do Tempo

25 de julho de 2008 9

Banco de Dados

A Mariana Salem pediu para reler essa crônica* aqui. É verdadeira essa história, por Deus que é!

O umbigo da tia Beatriz

Não resta a menor dúvida: o destaque do verão é o umbigo. Não os grotescos e cabeludos umbigos dos homens, mas os umbigos de seda das mulheres. Nesta temporada, elas resolveram exibi-los corajosamente, mesmo longe do litoral.

Basta dar uma voltinha pela Rua da Praia para encontrá-los em todos os matizes, nas mais variadas conformações e espessuras. Há umbigos enxutos e umbigos rechonchudos, umbigos rasgados e umbigos de bolota, umbigos bronzeados e umbigos desbotados, umbigos lustrosos e umbigos com funflas, que, como o Verissimo já ensinou, é a sujeirinha do umbigo.

Há muito, muito tempo, minha tia Beatriz revoltou-se com o seu umbigo. Não se sabe bem o que houve entre eles, mas deve ter sido grave, porque um dia ela procurou um cirurgião, levantou a blusa e ordenou: “Tira“.

O médico tentou argumentar, disse que o umbigo dela não tinha nada de errado, que era um bom umbigo, simpático até, mas não adiantou. Tia Beatriz estava decidida. Deitou na mesa de operações sorrindo e, ao levantar, seu umbigo jazia numa cesta de lixo vulgar. Tia Beatriz saiu toda pimpona de barriga lisa.

Tudo foi bem, enquanto a falta de umbigo da tia Beatriz permaneceu no recesso do lar — sim, porque, naquela época, os umbigos não eram expostos ao julgamento público como hoje. Mas o verão chegou.

Tia Beatriz foi à praia e, ansiosa por mostrar a novidade ao mundo, enfiou-se valentemente num biquíni. Era um biquíni pequeno. Se houvesse umbigo, não haveria como escondê-lo. Logo, era inevitável que a ausência dele também fosse notada.

Totalmente sem umbigo, tia Beatriz caminhou serpenteante rumo ao mar. Em seu primeiro passeio pelas franjas do Atlântico, os banhistas notaram que havia algo de estranho naquele veraneio. Em pouco tempo, a falta de umbigo da tia Beatriz foi constatada. A notícia varreu a praia como o Nordestão.

Tia Beatriz virou atração no litoral. As pessoas a cercavam na areia para ver — ou melhor, não ver — seu umbigo. As criancinhas a apontavam na rua. Era a mulher sem umbigo.

No Carnaval, tia Beatriz não ousou se fantasiar de odalisca. Estava envergonhada por não ter mais umbigo. Até tentou reavê-lo, consultou especialistas, mas era tarde. Ficou sem umbigo para sempre.

Hoje, com esta orgia de umbigos ao vento, com certeza ela anda nostálgica, olhando para a barriga já sem a textura da juventude, e suspirando de saudade do umbigo perdido.

***

Embora a coluna seja dedicada aos umbigos de verão, não é possível esquecer uma importante notícia publicada recentemente. Ela ratifica o raciocínio desenvolvido pelo Cyro Silveira Martins Fº neste mesmo espaço, sobre a injustiça que as mulheres cometem ao tachar alguns homens de galinhas.

Pois bem, os médicos descobriram que o hormônio masculino testosterona incita os homens à infidelidade. É isso mesmo: os homens, na juventude, estão transbordando de testosterona, o que os torna inquietos e faz com que não se contentem com uma única mulher.

Com o tempo, porém, os níveis de testosterona no organismo vão diminuindo e os homens se aquietam. Nas mulheres se dá o processo inverso. As conjunções hormonais fazem com que a placidez juvenil vá se incendiando até se transformar em furor na maturidade. É a prova científica da Idade da Loba.

Portanto, namorada, noiva ou esposa, seja compreensiva. Quando um homem cometer uma infidelidade, perdoe. A culpa não é dele. É da testosterona, este hormônio maligno que pulula em seu corpo, impelindo-o de forma irreprimível ao pecado.

Feche os olhos e relegue suas pequenas e desimportantes aventuras extraconjugais. A compensação virá com o passar inexorável dos anos.

Porque, quando a testosterona dele tiver entanguido e ele passar os dias escarrapachado no sofá como um gato gordo, com uma lata de cerveja morna na mão, assistindo a XV de Piracicaba x Mogi Mirim, seus hormônios é que estarão titilando e a senhora sairá pelo mundo lampeira como um destaque de escola de samba, em busca de testosteronas melhores.

* Texto publicado em 07/02/1996 (como interino de Paulo Sant`Ana)

Postado por David

A morte

25 de julho de 2008 13

Arte sobre a foto de Genaro Joner

Todas as catedrais com suas cruzes que se elevam ao céu, todos os dólares de todas as igrejas evangélicas, todo implacável zelo muçulmano, tudo isso só existe porque existe a morte.

Prova é Dragan Dabic. Este, quando não tinha barba nem prendia o cabelo com passador, chamava-se Radovan Karadzic, presidia a Sérvia e era conhecido como “o carniceiro de Sarajevo”. Como Karadzic, ele foi responsável pelo que é considerado o maior massacre da Europa desde a Segunda Guerra, com 8 mil pessoas executadas.

Mas Karadzic caiu e havia 12 anos era caçado pela Otan. Nesse tempo, transformou-se em Dragan Dabic e assim enganou a Europa. Só que a mudança não se limitou à barba e ao penteado novos. Como Dabic ele vestiu outra personalidade. Tornou-se médico alternativo. Usava a homeopatia, a acupuntura e a macrobiótica para curar de autismo a impotência. Pregava:

- Somos seres energéticos. As funções do nosso corpo são causadas pela energia de uma fonte superior, cósmica, orgânica, quântica, o Espírito Santo…

Dragan Dabic gozava de tanto prestígio que dava palestras em Belgrado, escrevia para uma revista intitulada “Vida Saudável” e apresentava-se sob o florido lema de “sempre se pode ajudar”. Em 2005, lançou um livro de poesias de cujas páginas brotavam suspiros. Era um bonzinho, Dragan Dabic. Justo ele, o carniceiro de Sarajevo.

Alguém poderá argumentar que, nesses tempos materialistas, as pessoas precisam acreditar em algo que seja impalpável. Mas não. Sempre houve impostores místicos por aí. O monge Rasputin foi um Dragan Dabic melhorado. Bem melhorado – Rasputin chegou a comandar o império russo no começo do século 20. Indiretamente, claro. Rasputin mandava por intermédio da tzarina Alexandra. O filhinho dela, Alexei, era hemofílico. Um dia, o principezinho, de três anos, sofreu uma queda enquanto brincava. Foi o que bastou para que seu corpo se intumescesse com inchaços azulados. O menino gritava de dor noite adentro e nenhum médico o curava. Alexandra, in extremis, decidiu aceitar a sugestão de uma duquesa e mandou chamar o monge. Rasputin foi infiltrado no palácio. À meia-noite, ajoelhou-se ao pé da cama do menino, fez com as mãos embrutecidas o sinal da cruz na testa do enfermo e, com voz trovejante, advertiu aos assustados pais, a tzarina Alexandra e o tzar Nicolau II:

- Acreditem no meu poder e seu filho viverá!

De manhã, Alexei saltitava lampeiro por São Petersburgo. É óbvio que Alexandra entregou a alma a Rasputin. Qualquer mãe entregaria. Mas Rasputin era polêmico até no nome – em russo, “dissoluto”. Ele de fato pregava a dissolução como cura, desde que a pessoa, depois do pecado, se arrependesse. Por essas, mas sobretudo por sua influência no governo, despertou ciúmes na corte. Um dos príncipes tramou sua morte. Convidou-o para uma festa e ofereceu-lhe vinho e bombons envenenados. Ante o olhar incrédulo do príncipe, Rasputin comeu todos os bombons e bebeu todo o vinho, quantidade de veneno suficiente para abater um pelotão de cossacos. Como continuasse saudável como um sharapovo, o príncipe atirou nele. Rasputin levantou-se e saiu correndo pela casa. O príncipe e seus asseclas tomaram de bastões e o espancaram até que ficasse inerte. Por fim, o atiraram no Rio Neva. Quando o corpo foi encontrado, havia água nos pulmões, o que quer dizer que o monge ainda vivia, quando o jogaram no rio! Rasputin enfeitiçou os russos até o fim.

Por que tamanho fascínio? Por que tanto poder para uma impostura? Por causa da morte. As pessoas apelam para o místico quando sofrem. É por isso que um povo é tanto mais crente quanto menos desenvolvido for. É certo que o progresso e a ciência diminuem, cada vez mais, a dor. Talvez algum dia a eliminem por completo. Mas a morte, isso também é certo, a morte jamais eliminarão. E, assim, sempre existirá um Rasputin, sempre existirá um Dragan Dabic, e monges e papas e sacerdotes e curandeiros e afins.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Garantidos na festa

24 de julho de 2008 10

Ó, mais seis confirmados para a Festa do Blog. Eu e o Pegê já estamos pensando em tudo: vai ser uma festança de marcar época!

Agora, atentem para a criatividade do texto de apresentação do belo casal abaixo:


Fotos: Arquivo pessoal

GARANTIDOS NA FESTA – capítulo 1

Em uma tarde ensolarada de um sábado qualquer, Luciano — estudante de engenharia mecânica e leitor assíduo do Blog do David — visitou sua namorada Letícia, bela moça de olhos azuis, estudante de engenharia ambiental e amante da leitura.

— Lu, tu já enviou o e-mail pro David com o perfil? — perguntou Letícia ao namorado, após recebê-lo com um caloroso beijo.
— Poutz!!! — lamentou Luciano batendo com a mão na testa.
— Bah!!! — disse Letícia — Eu que queria tanto ir a essa festa… A gente podia tentar enviar um perfil meio diferente, né?
— Hmmm — respondeu Luciano ao coçar o queixo, com cara de pensativo e tentando colocar sua critividade para trabalhar, até que… — Vem!!! — disse ele, puxando Letícia pelo braço, correndo para dentro de casa.

E lá se foi o casal para frente do computador, e ali ficaram entre beijos, palavras e risadas. Criaram o perfil, montaram o e-mail e o enviaram. Ficaram na expectativa, na torcida de ver o perfil publicado no blog.

Será que os dois serão escolhidos??? Será??? Descubra no próximo post de… GARANTIDOS NA FESTA!!!

Luciano Zambenedetti
Letícia Molin

 

“Conheci teu trabalho há pouco tempo (desde 2004) através de um colega de trabalho. Do blog sou leitora há um mês. Adimiro muito a maneira como você descreve um personagem, consigo imaginar com todos os detalhes.

Me chamo Daisy, tenho 23 anos, sou enfermeira, GREMISTA e curto um bom rock `n` roll. Quero muito ir à festa para te conhecer e fazer novos amigos. Abraço ao pai do Bernardo.

Daisy Matos

 

 

 
“Priscila,

Este é meu nome e acho que não poderia ser diferente… A idade pouco importa, pois sou mulher, sou menina, sou moleca sem perder da mente as responsabilidades e os projetos do futuro.

Leonina de gênio forte, mas sempre com o sorriso no rosto, sorrir pra vida é comigo mesmo, ainda que a vida em alguns momentos não me sorria de volta. Mas que tristeza que nada, quero sorrir para as pessoas, dançar o quanto eu puder, de preferência um forrozinho bem pegado, e abraçar os amigos, pois sem eles minha vida perde o brilho.

Priscila A. Sanches
 

 

“Olá, David e Pegê.

Sou um dos teus milhares leitorinhos assíduos há alguns tantos anos, apesar da pouca idade (risos), interiorano de Cruz Alta, praticante de yoga, natação, todas as formas de futebol (assisto, comento, jogo, narro, torço), gremista e apreciador de mulheres bronzeadas de pernas torneadas.

Meu nome é Roger, enfermeiro, 21 anos e ansioso com o seu convite para a bombástica e delirante festinha.

Um abraço,

Roger Flores Ceccon

 

“Luciano, 27 anos, publicitário. Fã do David desde que o David não era o David, morador da fronteira oeste do IAPI e um pouco tímido — acho que dá para ver, pela foto (abaixo). Quero ir à festa porque vai ser “open bar”. Como assim? Tem que pagar?

Luciano Costa

 

Postado por David

Os chineses

23 de julho de 2008 23

Pois estou indo a Pequim cobrir a Olimpíada para o jornal. Embarco no dia 3.

E para o especial do zh.com sobre os Jogos, que entrou ontem no ar, gravei esse videozinho falando do, digamos, excêntrico povo chinês que me aguarda.

Postado por David

Túnel do tempo

23 de julho de 2008 14

Sharon Stone, pensando no Wianey/Divulgação, Banco de Dados

Ó, essa* quem pediu foi o Marcelo de Oliveira, de Porto Alegre:

O amor e o jogo
de canastra

Diga rápido: o que o jogo de canastra tem a ver com o amor? Diga, diga. Não sabe? É fácil. Nada. Jogo de canastra nada tem a ver com o amor. Mas jogar canastra com a pessoa amada é melhor, ah é. Ela anuncia, voz de moranguinho com nata: 

— Morzinhoooo, bati — e se debruça sobre as cartas para lhe pespegar uma bicotinha na ponta do nariz.

— Bateu, momosinha? — ele aproveita para dar uma mordiscada no lóbulo da orelha dela. — Que lindo! Que lindo! Momosinha bateuzinho!

Não faça argh. O amor é assim.

Sexo é como jogo de canastra: nada tem a ver com o amor, mas praticá-lo com a pessoa amada é melhor. Desde que se sinta desejo por ela, a pessoa amada, essa. Exato. Porque desejo, sim, tem a ver com sexo. Desejo. Amor não.

Amor é tolerância. Respeito. Intimidade. Conheço muitos homens que continuam amando suas parceiras apesar de não sentirem mais atração sexual por elas.

É como funciona, não se enganem. Não deprecia mulher alguma. Peguemos, por exemplo, a Sharon Stone. E alguma figura pública porto-alegrense. Vejamos, vejamos… o Wianey Carlet.

Ela, a Sharon, pode vir a Porto Alegre um dia. Pode, ora. Sei lá, vem fazer um comercial de sandália. Que seja. Na entrevista coletiva, Sharon debruça os olhos azuis nos cabelos escarlates do Wianey, e se encanta. Que man! Que man!

Evidente está que o exemplo só vale se se pensar em um Wianey solteiro, desimpedido. Pois bem, o Wianey é solteiro e não é bobo, vai lá, besunta a Sharon com o charme dele, discorre sobre os jogadores que jogam sem a bola, sobre os malefícios da Lei Pelé e a conquista. Começam a namorar. Ela volta para os Estados Unidos, mas os dois se correspondem, telefonam.

Chega um dia em que a Sharon não agüenta mais a distância, decide largar tudo e se mudar para o Brasil. Para Porto Alegre. Para a casa do Wianey Carlet. Os primeiros dias são loucos, ferozes. Melequentos. Wianey e Sharon não se largam.

Mas aí vem o Carnaval e o Wianey quer desfilar na Figueirinha. De fato, ele desfila. Sharon fica emburrada em casa, assistindo aos desfiles pela tevê. Quando Wianey volta para casa, ela só fala por monossílabos. Wianey suspira, agastado:

— Que mulher geniosa!

Dias depois, os amigos da Rádio Gaúcha convidam Wianey para jogar futebol. Ele aceita. Liga para Sharon avisando. Ela fica furiosa, xinga-o, chora. Reclama que ele prefere correr atrás de uma bola com um bando de barbados do que ficar com ela. Wianey vai jogar mesmo assim. Mas não consegue se concentrar. Está irritado.

Pronto. É o começo. Em pouco tempo, Wianey já está inventando desculpas para sair com os amigos, volta para casa de madrugada, bêbado, Sharon fica furiosa, não fala com ele dois dias, um saco essa Sharon.

É o fim. O que ligava Wianey a Sharon era o sexo, eles não construíram nada mais sólido, nada que resistisse aos efeitos corrosivos da convivência.

O futebol poderia ajudar as pessoas a compreender essas coisas. No futebol existe o amor com todos os seus ingredientes — respeito, intimidade, tolerância. E o desejo. Mas os dois, desejo e amor, são sabiamente apartados. Nem sempre foi assim. Só é agora, depois da ação didática da realidade.

Reparem no que aconteceu sábado passado e o que está acontecendo neste. Sábado passado, Gamarra veio jogar contra o Inter e a torcida gritou, no Beira-Rio:

— Ado, ado, ado, Gamarra é colorado.

Desconsiderando a rima rasteira, foi uma bonita homenagem ao jogador. Depois, no fim do segundo tempo, Gamarra marcou um gol no Inter. Mas comemorou-o sobriamente, como se estivesse constrangido. Típico caso de amor.

Gamarra está lá, refestelando-se com o Corinthians, mas a torcida colorada sabe que ele precisa fazer isso, que é o melhor para ele. A torcida respeita Gamarra e tolera até aquilo que poderia ser considerado, mas não é, infidelidade — a marcação de um gol contra o Inter.

Já Gamarra, conhecendo intimamente a torcida colorada, conteve-se na comemoração de seu gol. Por respeito.

Hoje a torcida do Grêmio está recebendo Luiz Felipe, Arce e Paulo Nunes, e o sentimento é o mesmo. Os três estão vivendo um affaire pleno de volúpia com o Palmeiras. Selvageria sob os lençóis.

Mas os gremistas sabem que é só um affaire. Sobretudo nos casos de Luiz Felipe e Arce. Paulo Nunes, suspeito que seja demasiado fútil para angariar sob as costelas algo como respeito, tolerância e intimidade; enfim, amor. Porém, é só uma suspeita e, como todas as suspeitas, pode ser injusta.

O importante é que as pessoas conseguem manter relações civilizadas no futebol. Conseguem racionalizar seus sentimentos. Pelo menos nesse estágio.

Hoje a torcida do Grêmio vai olhar para Felipão, Arce e Paulo Nunes, vai lembrar dos momentos felizes que passaram juntos, dos anos dourados, e vai suspirar como a moça que, ao revirar as gavetas, encontra uma fotografia dela e de seu ex-amor dançando, talvez um bolero, ambos felizes, ele parecendo dizer:

— Te amo, Maria.

Então, a torcida do Grêmio, como a moça, vai sentir vontade de ter de novo seus ex-jogadores, pois a moça, como a torcida do Grêmio, quereria ligar para seu antigo amor, provavelmente fizesse confissões na secretária-eletrônica, iria querer beijá-lo outra vez, mas, os antigos amores, a moça sabe, a torcida do Grêmio sabe, seus beijos nunca mais, seus beijos nunca mais.

* Texto publicado em 29/08/1998 em Zero Hora

Postado por David

O bordel das prostitutas virgens

23 de julho de 2008 16

Em Ulsan existe o bordel das prostitutas virgens.

Juro, prostitutas virgens.

Fica na Coréia do Sul isso. Estive lá por 21 dias a fim de cobrir o Brasil na Copa do Mundo de 2002. Vinte e um dias em Ulsan. Um dos lugares mais aborrecidos do mundo. A cidade nem é pequena nem nada, tem o tamanho de Porto Alegre. Mas trata-se de uma cidade industrial e, como toda cidade industrial, é cinzenta, poluída e triste. Um desses locais em que as pessoas só pensam em trabalhar. Nada de diversão, nada que não seja prático e monetário, só dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Cedo da noite, a cidade fechava. Não havia mais nada para se fazer. Terminava minhas matérias invariavelmente depois da meia-noite, aqueles ulsanenses todos dormindo, eu querendo sair para comer um filé de três dedos de altura e tirar a poeira da garganta com uma cerveja gelada, mas quem diz que encontrava algum bom bar ou restaurante abertos? De jeito nenhum. Caminhava pelas ruas e via tão-somente desolação. Imagino que na época, em Ulsan, eles passavam pela mesma onda moralista que passamos hoje no Brasil.

Um repórter carioca dizia que Ulsan era como enterro de pobre em dia de chuva, e era. Foi esse repórter carioca que descobriu o bordel das prostitutas virgens. Um bar chamado Seven, cheio de russas. As russas, como se sabe, são belíssimas. Sharapovas e Kournikovas são encontradas aos cardumes em cada beco sujo de Moscou. Então, lá estavam todas aquelas russas dentro de minissaias sumárias, caminhando sobre saltos vertiginosos de botas que lhes escalavam joelhos acima, até as fronteiras das coxas macias. Podia fazer frio que as russas se vestiam do mesmo jeito… despojado. Não eram freqüentadoras – trabalhavam lá. O lugar não era muito grande. Havia umas 15 mesinhas circulares, cantinhos escuros, música eletrônica, garçons e seguranças coreanos que deviam lutar kung fu. Quer dizer: a aparência toda era de um bordel. Ou “boate de encontros”, como se diz lá em Erebango. Porém, as mulheres estavam proibidas de fazer sexo. O repórter carioca se revoltou. Como assim??? Pode tudo, menos sexo??? Isso mesmo, elas podiam dançar com o cliente, conversar com ele, beijá-lo e acariciá-lo até que ele ganisse de angústia, mas, se chegasse ao sexo, poderiam ser expulsas da Coréia. Donde, o lugar ficou conhecido por toda a imprensa internacional como o bordel das prostitutas virgens.

Essas russas, foi uma surpresa o que aconteceu com elas mais tarde e que vou relatar em seguida. Suponho que estivessem lá como uma concessão do governo coreano aos estrangeiros que visitariam o país durante a Copa do Mundo. A Coréia do Sul é uma democracia capitalista, mas o Estado jamais se omite. Foram ações do Estado, conjugadas com a disciplina do povo, que transformaram a Coréia, arrancaram-na da miséria e a instalaram em confortáveis níveis de desenvolvimento. Ações voltadas para um único setor: a Educação. Visitei famílias comuns de coreanos, fui as suas casas e constatei que os pais dão à educação de seus filhos o status de primeiríssima prioridade. O mesmo aconteceu com vários países hoje com bom padrão de desenvolvimento, como Vietnã, China, Cingapura e Japão, sem citar os ocidentais.

Na Coréia, todo o ensino básico e secundário é gratuito e todas as crianças são obrigadas a ir à escola. Em compensação, o terceiro grau é pago, mas, mesmo assim, oito de cada 10 coreanos vão para a universidade.

Os pais coreanos não se limitam a pôr os filhos no colégio. Financiam-lhes cursos de inglês, de informática, de balé, de história, de piano, de tudo o que lhes puder complementar a educação. Quando os índices das escolas saem, os coreanos festejam como se fossem vitórias de seus times de futebol. E foi isso que um pai coreano me disse:

- Vocês, brasileiros, vibram com o futebol; nós com a educação.

O que me faz lembrar de uma frase do centroavante francês Thierry Henry sobre o virtuosismo dos jogadores brasileiros:

- Os brasileiros são bons de bola porque seus filhos, em vez de estar na escola, estão jogando futebol.

Muito certo. Uma frase de centroavante. Fico pensando que nós, tratando com seriedade o ensino básico e o médio, poderíamos construir uma sociedade desenvolvida e mais justa, como a Coréia, mas sem a chatice de um lugar como Ulsan, feio, cinza e triste, um lugar que mantém intocadas até mesmo as lindas russas do insólito bar Seven. Se bem que, ao que demonstram os indícios, as russas não ficaram tão intocadas assim. Um dia, eu e mais alguns amigos repórteres do Riosãopaulo estávamos entrando no hotel da Seleção e quem vemos saindo, risonhas e buliçosas? As russas! O repórter carioca as abordou, indignado:

- O que vocês estão fazendo aqui???

E a mais bela delas, uma loira de pernas sem fim e olhos de mel, respondeu, sorrindo:

- Visitamos os jogadores de vocês.

No dia seguinte, só saíram notícias negativas a respeito da Seleção.

*Texto publicado na página 50 de Zero Hora. 

Postado por David