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Posts de agosto 2008

Túnel

28 de agosto de 2008 19

Pessoal, na segunda-feira eu volto, a todo vapor, ao jornal e ao blog. Por enquanto, vai aí o pedido da Mariana Limeira, de Canoas.

A mulher do Gregório

Quando, certa manhã, acordou de intranqüilos sonhos, Gregório Santos viu-se, no seu leito, deitado ao lado de uma imensa gorda. Era a sua mulher. Ficou chocado.

Não lembrava do instante em que se desencadeara aquela metamorfose. Não percebera que vinha ocorrendo. Recordava, isso sim, de como sua mulher era ao se conhecerem. Não que fosse magricela, não. Mas, pô!, estava tudo em cima, lá. Grande onde tinha de ser grande. Redondinha onde tinha de ser redondinha. Substanciosa, sim. Opulenta, talvez. Gorda, jamais.

Agora, tremia ante àquela… coisa… ocupando dois terços da cama — bolotas de sebo pendendo dos braços e dos culotes. Um pára-choque de banha protegendo a cintura. Três queixos.

Sua mulher. Uma gorda.

Gregório refletiu. Vieram-lhe à mente os jantares que deu para articular sua candidatura à presidência do clube. Durante dois anos, convidou conselheiros para reuniões noturnas em sua casa. Todos compareciam, mesmo os de outras facções. Ninguém perderia as iguarias feitas por sua mulher.

Os bobós de camarão. As bacalhoadas à Gomes de Sá. As rabadas de ovelha com feijão mexido. Os hors-d`oeuvres. Os licores que ela mesma aprontava com suas mãozinhas de fada. As sobremesas, as sobremesas, aaah…

Gregório Santos elegeu-se presidente do clube graças aos manjares celestiais preparados por sua mulher. Só que ela também comia.

Não apenas durante o jantar, em silêncio, ouvindo as articulações tramadas por ele. Também antes, enquanto besuntava acepipes, recheava petiscos, engrossava cremes, flambava guloseimas. De tudo, provava um naco, uma colherada, uma rapa, e suspirava, e estalava a língua, e fechava os olhos, e provava mais um pouquinho, um tantinho só, um nadinha, e outro, e outro, e mais outro.

Assim, engordou lenta e inexoravelmente. Do que Gregório só se dera conta na tal manhã de dor. A partir daí, a vida dele mudou. Sentia-se traído. Casara com uma uvinha, e agora, ao chegar em casa, encontrava uma jaca. Pior: sentia vergonha dela. Depois da descoberta daquela manhã, nunca mais a levara ao bar onde sempre se reunia com os amigos e os dirigentes do clube.

Separaram-se. Gregório Santos passou a namorar a secretária — loira, vinte aninhos, saltitante, matinal. A mulher de Gregório ficou duas semanas trancada em casa, chorando. Passado esse período, que fazer?, ela procurou emprego, foi tratar da vida.

Semanas. Meses. Numa noite azul de sexta, Gregório levou ao bar os empresários de uma multinacional que propunha formar parceria com o clube. Jantavam, tranqüilos, quando ele percebeu que o mais jovem dos empresários esticava um olhar fervente de lascívia para a mesa ao lado.

Gregório virou a cabeça para ver quem era a tal, certamente uma das apetitosas do ambiente, e, Jesus!, era ela! Sua mulher! Sem que ele percebesse, sua mulher havia se transformado numa… numa gostosa! Estava lá, de minissaia, pernas cruzadas, os bicos dos seios quase rompendo a blusa fina, bronzeada como uma primeira-dama, sorrindo para o maldito empresário!

— O-oi — gaguejou Gregório.

Só então ela o encarou.

— És tu, Grégor! Nem tinha te visto… — Fazida! E que negócio era aquele de Grégor?

Os empresários, cutucando Gregório:

— Conhece? Conhece?

Conhecia, sim. Teve de chamá-la para a mesa. Ela sentou-se, cheia de frufrus com os empresários, grudou-lhes beijinhos nas faces. Entre um chope e outro, esbofeteando-o com uma felicidade ofensiva, falou de personal trainers, de dieta de proteínas, e mal dava atenção a Gregório, só olhava para os empresários, só ria para eles.

A alma de Gregório havia se embolado toda numa ponta do intestino grosso. Não contou para os empresários que eles assediavam sua ex-mulher. Ela também não. Ela sequer olhou para ele. Depois de uma hora de aflição, Gregório sentia-se uma barata. Levantou-se, tonto, e foi ao banheiro, lavar o rosto. Ao voltar, ela não estava mais lá. Nem o mais jovem dos empresários.

— Onde foram? — perguntou ao mais velho. Que respondeu com um riso malicioso:
— O safado foi matar aquela bolona!

Gregório tomou o maior pileque da sua vida. No dia seguinte, foi acordado pelo tefonema do desgranido que saíra com sua mulher:

— A parceria está feita! — exultou o empresário, antes de dizer alô. — Depois dessa noitada, a parceria está feita!

O clube saíra ganhando. Mas a cornice retroativa transformou Gregório num inseto. A todo momento, um de seus amigos ou colegas de diretoria comentava a forma física exemplar de sua mulher, como ela estava bonita, como tinha mudado. No dia em que lhe contaram que ela fora vista no shopping com o craque do time, o Renatinho, Gregório Santos disse o seguinte:

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaah! — um grito tão dolorido e tão primal e tão alto que foi ouvido no estádio do clube rival.

Gregório saiu correndo a pé mesmo, chegou à casa dela, arf, arf, só pulmão e língua, abriu a porta num pontapé, agarrou-se aos tornozelos lisos dela e implorou:

— Me perdoa! Me perdoa!

Ela perdoou. Voltaram. E se passaram os meses. Anos. Gregório estava feliz com sua vida caseira, serena, igual. Sua mulher continuava cozinhando bem. O parceiro do clube era outra multinacional. O time conquistara o campeonato.

Renatinho havia sido vendido para o futebol bósnio. Tudo estava certo. Mas uma manhã, ele acordou de sonhos intranqüilos. Olhou nervoso para o lado, para a sua mulher. Então viu, sob o lençol, um volume imenso, redondo. Gritou, como um dia havia gritado:

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Sua mulher acordou sobressaltada e jogou o travesseiro longe. O travesseiro que estava sobre o ventre dela. O travesseiro, ela sempre dormia agarrada ao travesseiro! Continuava linda. Não exatamente magricela, mas, bem, opulenta.

Gregório nem respondeu quando ela perguntou o que houvera. Apenas virou de lado. Suspirou. E sorriu.

* Texto publicado em 11/03/2000

Postado por David

Túnel do Tempo

26 de agosto de 2008 18

Consegui um tempinho aqui, no caminho de volta ao Brasil, e por isso publicarei essa crônica* que a Renata Renzel, de Porto Alegre, pediu. E também porque quinta-feira tem Gre-Nal.

O Gre-Nal e as coxas

Sabem qual é uma das minhas lembranças mais intensas quando se aproxima um Gre-Nal? Coxas.

É, penso em coxas. Não qualquer coxa, mas uma determinada, específica, morena, lisinha, ah… Já sei, vão me chamar de tarado: até quando o assunto é Gre-Nal esse cara pensa em sexo! Mas, calma, não é bem assim. É que foi um Gre-Nal especial e um par de coxas especiais. Na verdade, minhas primeiras coxas.

Hoje talvez seja difícil de entender, mas naquela época não havia coxas e seios em abundância, como agora. Pelo menos não para nós que tínhamos 12, 13, 14 anos. As relações humanas não eram tão avançadas no subúrbio porto-alegrense aí pelo começo dos anos 70.

O guri precisava arregimentar a coragem de todos os seus ancestrais para se aproximar da menina e propor:

— Quer namorar comigo?

E ela sempre respondia, miseravelmente:

— Vou pensar.

Mas acabava aceitando, e aí começava a trabalhosa negociação do beijo na boca. Oh, Deus, como era difícil conseguir beijar na boca. E, depois de conquistada a boca, quem dispunha da perícia necessária para se deleitar adequadamente com ela? Aquilo de línguas entrelaçadas, entrechoque de dentes, troca de salivas, tudo aquilo funcionava muito bem nas novelas, mas ali, no tête-à-tête, no cara-a-cara, na hora da verdade, por favor, não era tão simples!

Pois eu e essa minha namorada, a das coxas, beijávamo-nos na boca. Eu já havia atingido esse estágio. Língua e tudo. Beijos demorados, olhinho fechado, hmhmhmhmhm e talicoisa. Ela era a morena mais rutilante do IAPI e adjacências. Não vou revelar seu nome porque ela hoje está casada, anda por aí, sabem como é, pode pegar mal. Mas era linda, linda.

A turma ficou com ciúme quando eu comecei a namorar com ela. Havia um guri, um xarope lá do outro bloco de edifícios, que ficou especialmente furioso. Começou a me provocar. Um dia, vínhamos passando eu e o meu amigo Jorge Barnabé, e ele gritou, cheio de ironia:

— Lá vão o lingüiça e o quase feio!

Paramos.

— Que que tu tá inticando aí, ô, bobalhão? — rosnei.
— Quem é bobalhão?
— Tu!
— Ah, é?
— É! Tu e a tua mãe!

E foi aquela briga.

Depois, eu e o Jorge ficamos em dúvida. Quem seria o lingüiça? Quem seria o quase feio? Os dois éramos magrelas, ambos poderíamos ser tachados de lingüiça. E, honestamente, nenhum de nós ganharia vaga de galã na Globo. Podíamos ser quase feio. Pensei, pensei, e disse:

— Acho que tu é o lingüiça, Jorge.
— Então tu é o quase feio! Quá, quá, quá!

Aquilo me desorientou. Quase feio, não! Mudei de idéia:

— Pensando bem, acho que tu é o quase feio!

E o Jorge, gargalhando, apontando o dedo para o meu peito:

— Lingüiça! Quá, quá, quá!

E eu:

— Não!

Tudo porque o xarope do outro bloco queria namorar com a minha namorada. Mas quem namorava com ela era eu. E beijava na boca. De língua! Se bem que era só. Nada dessas modernidades de seios e coxas, não mesmo. Uma tarde, ela até me testou:

— David, tu ia querer transar comigo?

Disse isso espreguiçando-se toda, cheia de curvas, uma serpente em volta de um tronco. Eu dei um salto de surpresa e alegria:

— Claro que sim! — gritei.

Era uma cilada. Ela respirou fundo, balançou a cabeça e disse, lamentando-se, antes de ir embora em passo marcial, simulando fúria:

— Sabia que não podia confiar em ti!

Tive o maior trabalho, depois, para convencê-la de que eu me referia a uma transa espiritual, elevada, nada da volúpia da carne. Não sei se ela acreditou muito.

Aí chegou o dia do Gre-Nal. Dia, não; noite. Não fui ao estádio. Quando a bola começou a rolar, fomos escutar a transmissão no carro do pai dela, que, aliás, era bem brabo. O carro era um Fusca, ou uma Variant, ou um Corcel, algo do gênero. Verde. Isso é certo: era um carro verde.

Pois bem, sentei no banco do motorista do Corcel verde, liguei o rádio e sintonizei no Ranzolin. Comentários do Ruy e do Lauro, os dois juntos! E bola e bola e bola, e eu abracei a minha namorada. O Grêmio tinha Zequinha, Tarciso e Nenê no ataque, o Inter tinha Falcão, Carpeggiani e Escurinho no meio-campo e a minha namorada usava um short branco curtinho que, ai, deixava ver as bochechas das nádegas dela. Como eu gostava daquele shortinho.

Lembro que foi quando o Ranzolin descrevia uma evolução de Iúra e Cacau até a meia-lua da área do Inter que eu abracei minha namorada pela cintura. Foi uma boa idéia aquela, abraçá-la pela cintura. Assim como, para o Inter, foi muito bom o Figueroa ter parado o ataque do Grêmio com falta.

A cintura dela estava bem cingida pelo meu braço, sentia o calor do seu corpo e a maciez da pele do seu rosto contra a do meu. E o seu cheiro, aquele cheiro moreno e quente… O Escurinho andou cabeceando na área do Picasso e, em resposta, o Grêmio saiu em contra-ataque na velocidade do Tarciso.

O Ranzolin gritava que o Tarciso ia e ia e ia e quem ia era a minha imaginação e a minha mão. Imaginava o Tarciso indo e indo e indo e lá se ia minha mão também pelo shortinho e abaixo dele e o Tarciso dando o passe para o meio da área e a minha mão descendo e o Zequinha pegando a bola e a minha mão ia chegando e o Zequinha ajeitou, eu ajeitei também, ela não falou nada, não fez nada, a defesa do Inter parou e… coxa!

Botei a mão pela primeira vez numa coxa feminina. Cristo. Cristo! Que sensação. Fiquei o resto do jogo ali, sentindo a pele perfeita, de avelã, o músculo rijo, os contornos suaves, e nem acreditava, apenas sorria e tonteava e me sentia desfalecer numa vertigem doce, doce.

Que noite, aquela. Que jogo.

* Texto publicado em 23/12/2000 em Zero Hora

Postado por David

Jovem e bela freira se rebela contra o celibato

25 de agosto de 2008 18

Estamos indo embora. Partiremos na quarta-feira e levaremos dois dias até o Brasil. Uma longa viagem, pois. De despedida do Império do Meio vou deixar um presente para os leitorinhos do blog, e só para os leitorinhos do blog.

É um poema, nada menos do que genial, escrito por uma freira budista há alguns séculos. Uma jovem de 16 anos de idade, obviamente linda, cheia de espírito e personalidade. Demonstra de forma espetacular a inteligência, a inconformidade e a vontade da mulher chinesa.

Usufruam cada linha:

Sou apenas uma jovem monja que não tem mais de dezesseis anos.
Rasparam minha pobre cabeça desde a mais tenra idade.
Meu pai de tanto amar os sutras budistas.
Minha mãe de tanto aos monges budistas obedecer.

Dia e noite, noite e dia, sem cessar,
Eu queimo incenso e rezo pelos outros.
Ai! Só porque nasci uma pobre criança doentia
Mandaram-me sumir no fundo de um mosteiro.

“Amitabha! Amitabha!”,
Vivo eu incessantemente a repetir.
Ai! Quanto estou cansada do rufar dos tambores
E do tilintar das campainhas!

Cansada do sussurrar das preces e das melopéias e das ladainhas;
Dos cochichos e lamentos das orações ininteligíveis;
Dos clamores e clangores das intermináveis cantorias;
Do balbuciar e do murmurar dos monótonos salmos.

“Prajnaparamita, Mayura-sutra, Saddharmapundarika”
Oh, como eu vos odeio a todos!
Enquanto a boca murmura: “Mitabha”,
Intimamente eu suspiro: “Ai, meu prazer!”

Enquanto a voz entoa: “Saparah”,
Grita meu coração: “O tempo voa!”
Enquanto os lábios modulam: “Tarata”,
Minha alma insiste: “Foge para longe!”

Ah, se eu pudesse dar apenas um passeio,
Só um passeio, ah, se eu pudesse dar!”
(Neste ponto do poema, a monja caminha até a Galeria dos Quinhentos Lohans, os santos budistas, e esta parte da poesia é ainda mais genial em sensualidade e revolta)

Ei-los! Cá estão eles, os Lohans.
Que turma de toleirões concupiscentes!
que olhares deitam eles para mim!
E cada qual que seja mais barbado!

Reparai no que comprime os joelhos trêmulos.
Seus lábios só balbuciam o nome meu.
E o outro que pousa a face sobre a mão,
Não pensa em ninguém mais senão em mim.

E aquele que tem uns olhos sonhadores.
Que outra heroína há nos seus sonhos senão eu?
Por que será, porém, que o vestido de estamenha
É o que vem por último?

Com seu infernal e satânico sorriso,
Seu rugidor e mirabolante riso
Rindo só para mim?
Rindo só para mim, sim, eu sei por que:

Depois de apagada a beleza e morta a mocidade,
Quem ousará desposar uma ovelha envelhecida?
Quem desejará desposar um casulo engelhado,
Depois de morta a beleza e a juventude perdida?

Oh, tu que sustenta o dragão:
És um cínico!
E tu que empunhas uma flor:
Não passas de um escarninho!

E tu, belo gigante de longos cílios,
Que te mostras tão apiedado,
É de mim que te apiedas desde já,
Daquilo em que eu me tornarei depois de minha beleza perdida.

Ai, esses candelabros nos altares
Não irão iluminar o meu quarto de noiva jamais!
Nem este longos turíbulos de suave incenso,
Servirão para a minha festa nupcial.

Nem os coxins e as esteiras de bambu
Poderão servir-me de colcha ou travesseiro.
Oh, Deus, de onde me vem esse ardente e sufocante anseio?
Esse rábido, estranho, extraterreno anseio, de onde me virá?

Quero rasgar todas as minhas vestes monacais!
Quero queimar todos os budistas sutras!
Quero afogar um por um os peixes de madeira
E abandonar para sempre este covil de abutres!

Oh, tamnbores e campainhas
E sinos
E ladainhas
Tudo eu abandonarei!

Todas as intermináveis e exasperantes rezarinas!
Depressa descerei das alturas deste monte
E irei em busca do mais jovem e do mais belo amante.

E ainda que ele me despreze,
Me expulse
Me dê pancada,
Prefiro isso a decorar feitiçarias!

“Mita, prajna, para!”
Não nasci para fingir de santa!

Postado por David, de Pequim

O deserto da morte

25 de agosto de 2008 6

Kevin Frayer, AP

O deserto de Taklimakan traz a morte desde o nome. Taklimakan significa “aqueles que entram já não saem”. É um dos lugares mais inóspitos da Terra, localizado na China ocidental. Nem essa advertência impediu o arqueólogo britânico Sir Aurel Stein de penetrar no Taklimakan no começo do século 20 e lá descobrir o mais antigo livro da civilização, o Sutra-Diamante, emparedado por 1,2 mil anos num mosteiro budista. Hoje o Sutra-Diamante reluz no Museu Britânico, a 10 mil quilômetros do Império do Meio, mas continua sendo um atestado da criatividade milenar dos chineses.

Foram os chineses que inventaram o papel com o qual são feitos os livros. No ano 105 da Era Cristã, Tsai Lun informou ao imperador que conseguira confeccionar um material leve e barato para receber a tinta, que, aliás, também havia sido inventada pelos chineses. O papel pioneiro era feito de casca de árvore, cânhamo e trapos. O imperador deu títulos e honorários a Tsai Lun, mas conta a História que um dia ele se envolveu numa intriga com a imperatriz. A História não esclarece que tipo de intriga, mas não duvido que Tsai tenha dado em cima da imperatriz, porque o imperador ficou furioso e mandou prendê-lo. Ante à desgraça iminente, Tsai foi para casa, tomou um banho demorado, vestiu sua melhor roupa e ingeriu veneno mortal.

A despeito do infausto destino de Tsai, o que importa é que cabe aos chineses a glória de ter inventado a tinta, o papel e, esse sim, o maior invento da história humana, o tipo móvel. Os chineses imprimiam livros pelo menos 500 anos antes de Guttemberg.

Os chineses também são responsáveis por outra criação que, sem ela, o mundo definitivamente não seria o mesmo: o macarrão. Claro que os italianos aperfeiçoaram divinamente essa invenção, temperando-a com densos molhos de tomate, carbonara ou matriciana, salpicando-a com fresco queijo parmesão, servindo-a com tintos capitosos, mas a primazia é dos chineses.

Graças ao infeliz Tsai, os chineses puderam inventar também o papel-moeda. Muito prático, porém, com esse instrumento, os governos podiam fabricar dinheiro e, fabricando dinheiro, inventaram a inflação.

Agora, o invento do qual eles realmente se valeram com maestria e sem economia, nas cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, foi a pólvora. Estou aqui entre as 42 mil toneladas de aço do Ninho do Pássaro, vendo o céu negro de Pequim ser iluminado por 2.547 canhões de luz e uma tempestade de fogos de artifício (foto). Os fogos se espalham em chafariz , caem em cascata, embasbacam os 91 mil espectadores do grande estádio. Não há dúvida: os chineses aprenderam algo na poeira dos séculos.

*Texto publicado hoje no caderno Pequim 2008 de Zero Hora.

Postado por David, de Pequim

Meio chato

25 de agosto de 2008 1

A impressão que tive, aqui de cima das arquibancadas, é que os atletas ficaram um pouco entediados com tanta acrobacia e dança e cantoria chinesa na cerimônia de encerramento. Alguns deitaram-se no chão do estádio, outros sentaram-se e esperaram, esperaram… Talvez a solenidade tenha sido longa demais.

*Texto publicado hoje no caderno Pequim 2008 de Zero Hora.

Postado por David, de Pequim

Nós, os Davids

25 de agosto de 2008 9

Greg Baker, AP

Jantei com meu xará David Beckham (foto) na véspera do encerramento dos Jogos. Quer dizer: no mesmo restaurante em que ele jantava. Dois Davids no mesmo ambiente. Muito prestígio para o lugar. Mas outro dia conto essa história.

*Texto publicado hoje no caderno Pequim 2008 de Zero Hora.

Postado por David, de Pequim

A chama e as mulheres

25 de agosto de 2008 7

Vendo a chama olímpica se apagar lentamente, penso na única coisa em que poderia pensar neste momento.

Nas mulheres.

Porque, segundo os velhos e bons gregos, elas só estão aí, com suas pernas macias de creme Nívea e ombros luzidios do sol dos trópicos, graças a esse mesmo fogo que se extinguiu diante dos meus olhos, no alto do Ninho do Pássaro.

Foi o seguinte: os homens não conheciam o fogo. Era uma exclusividade dos deuses. Eles, os homens, não podiam cozinhar! Quer dizer: nada de churrasco, um horror. O titã Prometeu, que devia gostar de uma picanha bem passada, sabia onde estava o fogo. Roubou-o como se fosse um brasileiro e deu aos homens. Zeus, o chefe dos deuses, ficou irritadíssimo, pegou Prometeu, amarrou-o a uma rocha e mandou que um abutre lhe comesse um pedaço do fígado todos os dias. Durante a noite, o fígado se regenerava, e aí no dia seguinte o abutre tinha mais comida. Por Deus que algo parecido já aconteceu com o meu fígado…

Mas Zeus resolveu vingar-se também de todos os homens. Nós. E, para tanto, ordenou que um de seus deuses subalternos fizesse…a primeira mulher!!! Pandora, chamava-se, e era linda como uma Isinbayeva. Zeus deu uma caixa a ela, e dentro dessa caixa havia todos os males do mundo, inclusive as músicas de Natal da Simone. Tudo por causa desse fogo aí. Tem mais é que se extinguir mesmo.

*Texto publicado hoje no caderno Pequim 2008 de Zero Hora.

Postado por David, de Pequim

Poesia de adeus

25 de agosto de 2008 3

Como estamos nos despedindo da China e esta é a última edição do caderno, deixo para vocês uma antiga poesia chinesa intitulada “Adeus a um Amigo”:

Com uma linha azul de montanhas ao norte das muralhas,

E a leste da cidade uma curva branca de água,

Aqui é preciso que me deixes e que navegues embora

Como uma planta aquática de raízes soltas centenas de milhas…

Hei de pensar em você numa nuvem flutuante;

Assim, ao pôr do sol, pensa em mim.

Agitamos as mãos para dizer adeus

E meu cavalo relincha várias vezes.

*Texto publicado hoje no caderno Pequim 2008 de Zero Hora.

Postado por David, de Pequim

Por que os chineses são como são

23 de agosto de 2008 5


Os brasileiros que cobrem a Olimpíada não compreendem o porquê de os chineses serem tão orgulhosos de seu governo, mesmo vivendo sob ditadura.

Tem explicação.

No século 11, por exemplo, havia o déspota Zhou, da dinastia Shang. Se alguém se rebelasse contra o seu poder, Zhou não vacilava. O rebelde desaparecia e só era visto de novo quando bem morto, seu corpo mutilado exposto nas ruas da cidade. Outro hábito que tornou Zhou célebre foi o de encher sua piscina particular com vinho. Entendo Zhou. Meu sonho era de, um dia, ver uma piscina cheia com toda a cerveja que já bebi na vida.

Já o imperador Sui Yangdi, do século 7, gostava de mulheres, de beber e vivia na opulência. Devia ser divertido o imperador Sui. Seu chamado “barco dos prazeres” era remado por belas moças presas com fitas de seda. Achei muito estimulante isso de belas moças presas com fitas de seda.

Aliás, a seda pode ter diversos significados na velha e boa China. Em 1858, um nobre chinês estava na Europa, negociando tratados com as potências estrangeiras – Inglaterra, França e Estados Unidos. Sabedor do resultado das negociações, o imperador não ficou feliz e enviou um arco de seda ao embaixador. Ao recebê-lo, o nobre estremeceu: queria dizer que, naquele momento, ele tinha autorização para se suicidar com ajuda dos servos. O embaixador acatou a sugestão imperial.

Acerca de suicídios: o Partido Comunista simplesmente os proibia para os seus militantes, na época de Mao. Se o integrante do partido descumprisse o interdito, seus familiares sobreviventes é que sofriam: carregavam o rótulo de parentes do traidor pelo resto da vida e não conseguiam mais cargos públicos, problema sério numa economia estatizada, como era a chinesa então.

Também tem a história do imperador Hongwu. Um homem perigoso, aquele imperador. Na verdade, chamava-se Zhu Yuanzhang, mas ele mesmo adotou o nome de Hongwu, que significa “extenso poder militar”. Existem retratos pintados de Hongwu, e eles não são agradáveis de se ver. Sua feiúra era cantada em toda a extensão da Grande Muralha. Seus contemporâneos diziam que tinha “olhos de fênix, mandíbulas de dragão e sardas espalhadas por todo o rosto”. Sardas espalhadas por todo o rosto sou capaz de imaginar, mas alguém aí por favor me diga como seriam esses olhos de fênix e as mandíbulas de dragão.

Enfim. Hongwu foi um imperador importante, a despeito de sua aparência. Fundou a Dinastia Ming, que quer dizer “brilhante”. Essa dinastia durou 300 anos, do século 14 ao 17. Foi um período de estabilidade na China, a ponto de o número de habitantes do país duplicar de 80 para 160 milhões, quase a população atual do Brasil.

O problema com Hongwu é que ele era paranóico e agressivo, duas características que, quando reunidas na mesma personalidade, tornam-se explosivas. Uma vez, o imperador descobriu que um ministro conspirava contra ele. Mandou decapitá-lo e, por garantia, também a todos os membros próximos ou distantes da sua família. O total de execuções chegou a 40 mil, o que mostra que esse ministro tinha família grande. Quando desconfiava de alguém, Hongwu valia-se deste eficiente método da decapitação. O número de oficiais e funcionários públicos que ele mandou decepar chegou a 100 mil. E ainda assim a população chinesa aumentava, veja como são prolíferos os chineses.

Para as faltas menos graves, Hongwu bolou um engenhoso sistema de punições por meio de espancamento com varas de bambu. Funcionava assim: o infeliz condenado era agarrado por mãos e pés. Suas nádegas nuas eram fustigadas com a tal vara de bambu, enquanto um auxiliar do carrasco, que ganhava só para fazer isso, contava em voz alta:

– Uma bastonada com vara de bambu!

– Duas bastonadas com vara de bambu!

– Três bastonadas com vara de bambu!

Era chato. A pele das nádegas rachava e infeccionava. Muitas vezes a vítima morria. Muito chato.

Hongwu era centralizador, defeito de inúmeros chefes inseguros. Aboliu vários cargos de ministros e assumiu suas funções. Conta a história chinesa que o imperador examinava 1,6 mil despachos em oito dias, numa média de 200 documentos em 10 horas de trabalho diário. Ou seja: cada documento merecia três minutos da atenção de Hongwu, mais ou menos a carga de trabalho de alguns juízes de direito no Brasil.

Essas histórias todas, quem queria contá-las era Sima Qian, o maior historiador da antiga China, filho de outro grande historiador, Sima Tan. Como seu pai, Qian era astrólogo da corte e tinha acesso irrestrito à grande biblioteca imperial. Por conta de tais facilidades, pôs-se a escrever a história da China. O imperador resolveu conferir como andava o trabalho e descobriu que o historiador queria… contar a verdade!

Mandou castrá-lo, o que é ainda mais chato do que ter as nádegas espancadas com varas de bambu.

Como se pode ver, autoridades chinesas não costumam tolerar oposição ou desobediência. Em 5 mil anos de história, porém, nunca a China respirou tanta liberdade. Os chineses podem estudar, ler livros estrangeiros, ver filmes e seriados de TV, viajar e enriquecer à vontade, que muitos enriquecem. O dinheiro está libertando os chineses. Por que iriam se importar com pormenores como o direito de escolher e criticar seus governantes?


            *Texto publicado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora dominical. 

Postado por David

Bandeira proibida

23 de agosto de 2008 13

Um animado casal de gaúchos estendeu uma bandeira do Inter nas arquibancadas do Estádio dos Trabalhadores durante a final do futebol feminino.

Não por muito tempo.

Policiais chineses sisudos, porém gentis, acercaram-se deles e informaram que apenas as bandeiras dos países participantes dos jogos são permitidas nos locais de competição. Não, os policiais não eram gremistas. É que, como eles obviamente não sabiam do que se tratava a bandeira, ela poderia ser alguma forma de protesto político. O PCC jamais afrouxa a vigilância nessas questões espinhosas.

                    
                 *Texto publicado sábado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora.

Postado por David

Os pés das chinesas

23 de agosto de 2008 4

Desde que os nacionalistas de Chiang Kai-shek tomaram o poder, no começo do século 20, os pais chineses não enfaixam mais os pés das meninas, felizmente para as meninas. Li relatos horrendos a respeito de guriazinhas que passaram a vida sentindo dores quase insuportáveis, tudo para satisfazer um não admitido fetiche sexual masculino chinês. Os pés, amarrados para trás com faixas bem apertadas, ficavam deformados, transformavam-se em garras de oito centímetros de comprimento, os chamados “pés de lótus”. Esse costume teve início na corte do século 11. A menina que não tivesse os pés enfaixados era considerada uma camponesa grosseira e dificilmente conseguiria um bom casamento. Por 800 anos, as mulheres da China sofreram por causa desta tradição.

Estava curioso para observar os pés das chinesas. Afinal, calculei, se os chineses são feito Paulos Sant’Anas e apreciam pés pequenos e delicados, as chinesas devem se empenhar para satisfazê-los, tanto quanto as brasileiras não medem esforços para ressaltar o que os brasileiros mais gostam, ou seja: o derrière, a região glútea, o traseiro, a famosa bunda.

Assim, por interesse jornalístico, observei com atenção os pés das chinesas. E, olha, não são diferentes dos das brasileiras. Há pés pequeninos tamanho 35, dos quais poder-se-ia confeccionar meigos chaveiros, mas também há os standard 36 e 37 e até os tipo Gisele Bündchen, bitola 39. A calçá-los vi de um tudo, das abomináveis rasteirinhas aos elegantes escarpins. As chinesas, ou pelo menos as pequinesas, têm pés definitivamente internacionais.

Um poema do começo da dinastia Song, do poeta político Su Shi, que viveu de 1036 a 1101, exalta beldades de pés enfaixados. Mas reconhece sua dor:

Ungida com fragrância, ela tem passos de lótus;
Ainda que sempre triste, caminha com rápida leveza.
Ela dança como o vento, sem deixar vestígios
Outra furtiva, mas alegre, veste-se ao estilo do palácio,
Mas sente tal sofrimento ao andar!
Olha para eles na palma de sua mão, de tão incrível pequeneza que
Desafiam a descrição.

                   

                * Texto publicado sábado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora.

Postado por David

Professores de português

23 de agosto de 2008 0


Um mercado de trabalho em ascensão, na China, é o de professor de português. Entre os 17 milhões de habitantes de Pequim há apenas cem chineses que falam português, e o interesse pela língua de Camões e Wianey Carlet é grande. Portanto, se você quiser ganhar um bom dinheiro, venha para a China dar aulas de português. Lógico: antes é melhor aprender mandarim, o que talvez dê um certo trabalho.

        
                 *Texto publicado sábado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora.

Postado por David

Sopa imobiliária

23 de agosto de 2008 1

Os chineses gostam muito disso de Ninho de Pássaro. Além do belo estádio que construíram para sediar as provas de atletismo e a final do futebol, eles COMEM ninhos de pássaro. Por Deus! Sopa de ninho de pássaro é um prato muito apreciado por aqui. Imagino que deva ser bem irritante para os pássaros locais: eles passam o maior trabalho para fazer um ninho e, quanto finalmente fica pronto para morar, um chinês vai lá e transforma a casa deles em sopa. Chato.

 

                * Texto publicado sábado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora.

Postado por David

Falso chinês

23 de agosto de 2008 1

O repórter Eduardo Ohata, da Folha de S. Paulo, é de descendência japonesa, como o nome indica. E, como a maioria dos brasileiros de descendência japonesa, ele tem aparência de oriental, olhos amendoados, cabelos negros e tudo mais. Pode ser facilmente confundido com um chinês, portanto. Ou com um japonês legítimo, um vietnamita, um coreano…

É claro que seus colegas de jornal não iam deixar passar essa chance de fazer sacanagem. Espalharam que ele é o intérprete da Folha na Olimpíada, o que tem sido um tormento para Ohata.

– A toda hora vem um chinês falar comigo em mandarim – suspirou o repórter, depois de ser abordado por Li, o bravo intérprete do Castiel, do Diário Catarinense.


                 *Texto publicado sábado no Caderno de Pequim 2008 da Zero Hora.

Postado por David

Os três-tudo

23 de agosto de 2008 2

As equipes japonesas, de quaisquer esportes, em quaisquer ginásios ou estádios, jamais têm o apoio da torcida chinesa. No futebol feminino, já contei isso, o time do Japão chegou a ser vaiado maciçamente durante jogo contra a Alemanha.

Tamanha antipatia tem seus motivos. O Japão invadiu a China em meio à Segunda Guerra. Em 1940, depois de uma vitória das forças do PCC contra o exército invasor, os comandantes japoneses lançaram a campanha dos três-tudo: “mate tudo, queime tudo, saqueie tudo”. Os soldados obedeceram, como sói acontecer com soldados japoneses. Vilas inteiras foram dizimadas, milhares de chinesas foram estupradas, até hoje há remanescentes que relatam os horrores cometidos pelos japoneses naquela campanha.

Mas, bem, jogador de bola não tem nada a ver com isso.

                                              * Texto publicado sábado no caderno de Pequim.

Postado por David