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Posts de setembro 2008

Zini e Wianey juntos

30 de setembro de 2008 10

O que aconteceu com Roth? O que acontecerá com Roth? Zini e Wianey contam tudo! Ou pelo menos tentam. Não percam!!!

Assiste aí:

Postado por David

Ligação no meio da tarde

29 de setembro de 2008 60

Reprodução

O Salim Nigri é um dos maiores gremistas dos 105 anos de história do Grêmio. Foi ele quem forjou a frase “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”, pintou-a em azul sobre o branco de uma faixa de pano e levou-a para o campo de jogo em 1946. Lupicínio Rodrigues, lendo-a, a inverteu, “Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”, e assim a incrustou no hino do clube, composto para as festas do cinqüentenário, em 1953.

Por essa época, os olhos do Salim já haviam sido atacados por uma doença incurável que aos poucos foi cegando-o, até mergulhá-lo por completo na escuridão. A luz de Salim, nessse tempo todo, é o Grêmio. Ele passa os dias e as noites ouvindo rádio e imaginando formas de engrandecer o clube.

No domingo, depois do Gre-Nal, pensei de pronto no Salim. Deve estar abalado, calculei. Pois bem. Agora mesmo, 17h10min, o Salim me ligou. Imaginei que iria se lamentar. Nada! Cumprimentou-me transmitindo energia com sua voz grave e recitou um verso composto há mais de 50 anos pelo jornalista Acélio Daudt:

“O Grêmio é igual ao capim teimoso
Se a geada mata no inverno
Na primavera volta mais viçoso”.

Elogiei o Salim pelo seu espírito inquebrantável. E pensei que, se os jogadores do Grêmio soubessem que existem torcedores como ele, talvez até tivessem chance de reagir. Talvez.

Postado por David

Café TVCOM

29 de setembro de 2008 3

Ó, aí vai a mais recente edição do programa do qual participo:

Postado por David

O sonho e o pesadelo

29 de setembro de 2008 38

Zero Hora

O Inter realizou todos os seus sonhos mais caros, ao vencer o Gre-Nal por 4 a 1, ontem à noite, no Beira-Rio: derrotou por goleada um time que ainda não havia levado mais de dois gols num só jogo neste campeonato, subiu três posições na tabela de classificação e desalojou o Grêmio de uma liderança que era sustentada desde julho. O Grêmio foi tão cabalmente batido que já aos 4 minutos do segundo tempo a torcida colorada gritava olé nas arquibancadas, enquanto, no campo, o time tocava a bola por um minuto e meio.

Foram muitos os méritos do Inter na vitória. Todos eles vitaminados pelo conjunto de decisões equivocadas do técnico gremista, Celso Roth. O primeiro erro do treinador foi cometido na escalação. O Grêmio entrou em campo com dois jogadores recuperando-se de lesão: o zagueiro Pereira e o atacante Perea. Por conta disso, Roth destruiu seu próprio sistema defensivo tendo que substituir Pereira aos 10 minutos do primeiro tempo, que saiu de campo mancando.

— Não vai dar — suspirou.

Mais tarde, no intervalo, o técnico acabou por desmontar seu ataque, sacando Perea para colocar o volante William Magrão e mantendo no time o inoperante Marcel.

Um adversário menos competente talvez não se aproveitasse de todas essas más escolhas do treinador, mas o Inter estava atento e concentrado como jamais se viu neste campeonato. Seus melhores talentos funcionaram com mestria, não desperdiçando chances de amassar o rival. Isso que o Grêmio começou atuando com agressividade, marcando no campo do adversário, no estilo que lhe elevou à liderança do Brasileirão. Perea caía pelo lado esquerdo, tentando explorar uma suposta fragilidade de marcação de Ângelo. Só que Ângelo não foi frágil na marcação. Jogou com seriedade e, mesmo que não tivesse brilho, não comprometeu.

Aos 4 minutos, um dos tais talentos do Inter luziu. Alex cobrou falta da intermediária, pelo lado esquerdo, a zaga rebateu e D´Alessandro apanhou o rebote: chutou forte, à meia-altura, fora do alcance de Victor: 1 a 0. O Grêmio não diminuiu o ímpeto. Aos 5, Edinho errou e, ante à pressão dos atacantes do Grêmio dentro da área, Índio corrigiu com dificuldade. Aos 9, Tcheco cobrou falta da direita, Perea cabeceou para o meio da área e Orteman testou a bola no travessão. No rebote, Léo perdeu o gol de dentro da pequena área. Um minuto depois, Pereira saiu para Jean entrar. A defesa do Grêmio desarrumou-se em definitivo. Ainda assim, aos 18, Tcheco apanhou a bola no campo defensivo, pela esquerda, avançou a passadas largas, driblou Guiñazu e, da intermediária, chutou no canto direito de Clemer: 1 a 1.

Depois do empate, aos poucos, o Inter foi reequilibrando o jogo. Aos 28 minutos, o time deu provas concretas da sua absoluta concentração no clássico. Anderson Pico havia tocado com o antebraço na bola no lado esquerdo da defesa, quase no escanteio. Enquanto a defesa do Grêmio formava a barreira, Guiñazu passou para Alex, que entrou na área e chutou forte. A bola passou entre as pernas de Victor.

Aos 40, a desnorteada zaga do Grêmio falhou de novo. D´Alessandro bateu escanteio da direita e Índio entrou à altura da primeira trave, cercado de adversários, para cabecear para dentro do gol. O golpe fatal aconteceu seis minutos depois: D´Alessandro levantou a bola da direita, Nilmar penetrou por trás da zaga e cabeceou para baixo: placar fechado. Para arrematar os dissabores da torcida gremista, Tcheco e Edinho se envolveram numa confusão e foram expulsos. Justamente Tcheco, o melhor do Grêmio; justamente Edinho, o pior do Inter.

No segundo tempo, os erros originais de Roth terminaram por enterrar as mínimas possibilidades do Grêmio. O técnico já tinha aniquilado sua defesa, agora destroçou seu ataque. Marcel não conseguia jogar, como vem acontecendo há várias rodadas. Mas Perea vinha de lesão: Roth tirou-o do time e pôs em seu lugar William Magrão. E o segundo tempo foi todo assim: o Grêmio não tinha forças para atacar; o Inter não queria. O Inter trocava passes, ao Grêmio não restava sequer indignação.

Indignada ficou a torcida, que brigou na arquibancada e saiu do Beira-Rio furiosa, extravasando sua ira quadras adiante, no Estádio Olímpico, para onde até a polícia foi chamada. Combalido por quatro rodadas sem vitória, o Grêmio terá dois jogos no Olímpico para tentar a reabilitação e voltar à liderança. Inflamado por quatro rodadas com vitória, o Inter jogará duas partidas fora de casa, na esperança de alcançar a classificação à Libertadores. É a velha história de sempre, o eterno sobe-e-desce que já dura 99 anos, a própria história do clássico Gre-Nal.

*Texto publicado hoje no caderno de Esportes de Zero Hora.

Postado por David

Luciano Périco na prensa

28 de setembro de 2008 14

O Lucianinho, vocês conhecem, é o repórter da Rádio Gaúcha que passa os jogos na arquibancada, entrevistando torcedores.

Está certo que ele tem 2,05 metros de altura, mas nem por isso precisava falar o que falou. Francamente, Lucianinho.

Assiste aí:

Postado por David

Luiz Zini Pires na prensa

27 de setembro de 2008 3

Todo mundo sabe que o Zini é o maior crítico do Celso Roth da história da crônica esportiva gaúcha, nacional e internacional.

Quarto entrevistado da série Na Prensa, ele disse que, se o Celso Roth não vencer o Gre-Nal deste domingo, continuará sendo apenas um… Celso Roth. Um intransigente, o Zini.

Assiste aí:

Postado por David

Os destaques do Gre-Nal

27 de setembro de 2008 5


1. O grandalhão

Richard Morales está a quatro centímetros de alçar-se a dois metros de altura. A torcida do Grêmio adora centroavantes com quase dois metros de altura.

Richard Morales é uruguaio. A torcida do Grêmio é meio uruguaia e, segundo o Peninha, também meio inglesa, meio alemã e meio argentina, se é que algo pode ter tantos meios.

Desde que pisou no gramado do Olímpico, levantou o queixo pronunciado e viu o cemitério na colina, Richard Morales range os dentes para falar da sua ânsia de jogar dentro da camisa do Grêmio.

O que mais precisaria para que os gremistas passassem a sonhar com Richard Morales no time, enfiando dois gols por partida?

Óbvio: Richard Morales em ação.

Bem. Na única tarde em que esteve em campo, 13 mínimos minutos contra o Atlético no Paraná, Richard Morales tocou na bola quatro vezes, pelo que contei. Uma parede bem-sucedida nas cercanias da meia-lua, um começo de arrancada arrematado com passe lateral, e os gremistas de olhos arregalados diante da TV. De repente, Morales recebe a bola em meio ao cipoal típico da fronteira da grande área, enquadra o corpanzil e chuta. Seu primeiro chute no Grêmio. A bola sai veloz, rente à grama, a palmo e meio do poste, e os gremistas sorriem e balançam a cabeça. Mas foi com um quarto lance, logo depois ou pouco antes deste, que Morales extraiu suspiros de esperança do torcedor. Foi um cruzamento levantado da direita, a bola viajava muito alta para um homem de parcos 180 centímetros de altura. Morales saltou para alcançá-la. Conseguiu. Testou-a para o meio da área, à procura de um atacante que viesse de trás a fim de empurrá-la para o gol. Não apareceu ninguém, o jogo terminou zero a zero, mas pude ver gremistas congratulando-se e os ouvi a comentar sobre este lance nos dias subseqüentes. Porque, de fato, aquela é uma bola traiçoeira para o zagueiro. O defensor espera que o centroavante tente cabecear para o gol, não está preparado para uma bola que cai mansa às suas costas, à feição para o adversário que vem ávido da retaguarda.

Morales não estará em campo, e sim no banco do Grêmio, neste domingo, mas estará também nos melhores planos do torcedor. Talvez ele nem entre em campo, mas o promovo desde já a destaque do Gre-Nal.

2. O rapidinho

O guepardo é o animal mais veloz sobre a superfície da Terra. Alcança as gazelas esquálidas, as lebres ligeiras, os roedores esquivos e os devora a todos. Isso graças às suas longas pernas e ao seu corpo aerodinâmico, capaz de atingir 110 quilômetros por hora, mais do que muito Fuca.

Só há um ser caminhante que o guepardo não pegaria na corrida:

Nilmar.

Sobretudo se, em frente a eles, estivesse uma bola.

Nilmar é da estirpe dos grandes velocistas do futebol brasileiro: Euler, o Filho do Vento; Tarciso, o Flecha Negra; e um colorado ilustre: Sapiranga.

Em 1961, Sapiranga ganhou um campeonato sozinho. O Grêmio tinha um time melhor e era pentacampeão. O Inter não tinha muito mais além de Sapiranga.

Era o que bastava.

Sapiranga enfrentou um marcador feroz, Ortunho, lateral-esquerdo que, em cada dividida, divertia-se ao ver a que distância conseguia atirar o ponteiro-direito adversário, que desabava na poeira todo troncho e disforme, feito o Recruta Zero depois de apanhar do Sargento Tainha. Sapiranga saía dos Gre-Nais mostrando as lascas que a chuteira afiada de Ortunho havia arrancado das suas canelas. Mas Sapiranga era tão rápido, tão rápido, que, mesmo vigiado de perto pelo inclemente Ortunho, vez ou outra escafedia-se rumo à linha de fundo e fazia o cruzamento ou o chute de viés. Foi assim que o Inter venceu um dos campeonatos mais importantes da sua história. Porque, se não o vencesse, o Grêmio empilharia 13 títulos seguidos, algo tão assombroso que nem sei como se chama alguém que ganha 13 títulos seguidos.

Pois Nilmar é como Sapiranga. Sozinho, ele está construindo a campanha do Inter neste Brasileirão. Também o promovo a destaque do Gre-Nal antes de o Gre-Nal começar.

                                    * Texto publicado na página 55 de Zero Hora dominical

Postado por David

Wianey Carlet na prensa

27 de setembro de 2008 6

Quando começamos a série Na Prensa, a idéia era que os comentaristas falassem sobre o Gre-Nal de domingo. Mas o Wianey parecia mais interessado em discorrer sobre as panturrilhas do zagueiro Índio…

Depois do Nando Gross e do Paulo Sant`Ana, o Wia é a terceira vítima da série Na Prensa.

Assiste aí:

Postado por David

Paulo Sant`Ana na prensa

26 de setembro de 2008 41

Por conta do Gre-Nal de domingo, vocês sabem, estou fazendo para o blog uma série de entrevistas com comentaristas da firma. E vocês sabem, também, que o primeiro vídeo foi aquele em que o Nando Gross — embora ele diga, agora, que “não foi bem isso” — admite que acredita na vitória do Inter. 

Pois o segundo vídeo da série Na Prensa é com o Paulo Sant`Ana. Embora seja um dos mais célebres gremistas do Estado, adivinhem o que ele disse?

— Se tu não achas o Internacional melhor do que o Grêmio, és um idiota!

É um pessimista, o Sant`Ana.

Assiste aí:

Postado por David

Burra boa

26 de setembro de 2008 16

Em 1986, o ministro Dilson Funaro lançou o Plano Cruzado, com congelamento de preços e tudo mais. As pessoas saíam à rua para delatar comerciantes que remarcassem seus produtos. Eram os fiscais do Sarney.

Um sujeito de Curitiba ficou famoso por um discurso que pronunciou dentro de um supermercado, fechando-o em nome do povo brasileiro e bibibi.

Em três meses, o Plano Cruzado começou a vazar. Em seis, virou geleca. Por quê? Era rigoroso demais. A inflação só foi debelada pelo Plano Real, com a macia URV, que acostumou lentamente a população à mudança.

Aí está: o brasileiro, mesmo que esteja clamando por autoridade, que está, não reage bem ao autoritarismo — nem quando o apóia! Eu já tinha dito isso, já tinha dito que a Lei Seca não funcionaria precisamente por este motivo.

Não funcionou. Não funcionará. Porque é uma lei boa, porém burra.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora

Postado por David

Caído na calçada

26 de setembro de 2008 55

Ontem saí de casa mais cedo do que o normal e a temperatura era amena de primavera e o dia estava amarelo e azul e do som do meu carro se evolava o rock suave da Itapema e eu me sentia realmente bem. Estacionei numa rua quase bucólica do Menino Deus e vi que ali perto um catador de papel puxava sua carrocinha sem pressa.

Era magro e alto, devia andar nas franjas dos 50 anos e tinha a pele luzidia de tão negra. Ao seu lado saltitava um menino de, calculei, uns quatro anos de idade, talvez menos. Devia ser o filho dele, porque o observava com um olhar quente de admiração, como se aquele homem fosse o seu herói. Bem. Ao menos foi o que julguei, certeza não podia ter.

Já ia me afastar quando, por entre as grades da cerca de uma creche próxima, voou um brinquedo de plástico. Um desses robôs cheios de luzes e vozes, que se transformam em nave espacial e prédio de apartamentos, adorado pelas crianças de hoje em dia. Algum garoto devia ter atirado o brinquedo para cima por engano, ou fora uma gracinha sem graça de um amigo.

O menino que era dono do brinquedo colou o rosto na grade como se fosse um presidiário, angustiado. O filho do catador de papel correu até a calçada, colheu o robô do chão e não vacilou um segundo: retornou faceiro para junto do pai, o brinquedo na mão, feito um troféu. Olhei para o menino atrás da cerca. Estranhamente, ele não falou nada, não gritou, nem reclamou. Ficou apenas olhando seu brinquedo se afastar na mão do outro, os olhos muito arregalados, a boca aberta de aflição.

Muito orgulhoso, o filhinho do catador de papéis mostrou o brinquedo ao pai. O pai olhou. E fez parar a carrocinha. Largou-a encostada ao meio-fio. Levou a mão calosa à cabeça do filho. E se agachou até que os olhos de ambos ficassem no mesmo nível.

A essa altura, eu, estacado no canteiro da rua, não conseguia me mover. Queria ver o desfecho da cena. O pai começou a falar com o menino. Falava devagar, com o olhar grave, mas não parecia nervoso. Explicava algo com paciência e seriedade. O menino abaixou a cabeça, envergonhado, e o pai ergueu-lhe o queixo com os nós do dedo indicador. Falou mais uma ou duas frases, até que o filho balançou a cabeça em concordância.

A seguir, o menino saiu correndo em direção à creche. Parou na grade, em frente ao outro garoto. Esticou o braço. E, em silêncio, devolveu-lhe o brinquedo. Voltou correndo para o pai, que lhe enviou um sorriso e levantou a carrocinha outra vez. Seguiram em frente, o pai forcejando, o filho ao lado, agora não saltitante, mas pensativo, concentrado.

Então, tive certeza: aquele olhar com que o menino observara o pai era mesmo de admiração, ele era de fato o seu herói.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora

Postado por David

Nando Gross na prensa

26 de setembro de 2008 31

Leitorinhos! Em virtude do Gre-Nal de domingo, a tchurma do zerohora.com propôs que eu fizesse uma série de entrevistas com comentaristas esportivos da firma.

Pois o Nando Gross, que abre a série Na Prensa, afirmou com todas as letras — depois de uma pequena insistência, claro — QUE O INTER GANHARÁ O GRE-NAL. E isso é só o começo.

Assistam, aqui embaixo, à entrevista com o Nando:

Postado por David

Túnel dos bons!

24 de setembro de 2008 18

Ó, lá vai a segunda parte da história sobre Mariano e Laurona, um conto que o Mauro Belo, de Bento Gonçalves, pediu para reler:

A Laurona – parte final

Mariano nem acreditava: estava num prostíbulo infecto. Logo ele, o capitão do time, um exemplo para os outros jogadores, um líder respeitado, e mais: um homem religioso, ex-coroinha, leitor de salmos, um católico praticante, que se benzia ao passar diante de uma igreja, que comungava, se confessava, rezava pais nossos e aves Marias diariamente. E o principal: Mariano prezava muito sua esposa, Nair. Chamava-a de Pituchinha, tinha-lhe carinho e admiração. Nair, a mãe dos seus filhos, dona de casa zelosa, companheira exemplar.

E agora ele havia perdido Nair! Sim, sua Pituchinha arrumara as malas e fora embora. Tudo por causa de uma infâmia! Andavam dizendo que o tinham visto com uma certa Laurona, mulher daquela abominável casa de tolerância, aquele bordel desprezível onde ele se encontrava agora. Ligaram para Pituchinha, envenenaram-na com calúnias.

E repórteres já falavam dele, asseverando tê-lo visto com essa Laurona, e conselheiros do clube o alertavam para que largasse da Laurona. Um inferno. Queriam acabar com ele, os sacripantas, os biltres, os cachorros sarnentos!

Por isso Mariano estava ali, sentado à mesa de um alcouce sujo — para falar com a tal Laurona e descobrir o que se passava. Todos pareciam conhecê-lo — o guardador de carros, o porteiro, o garçom Alfredo. Tratavam-no com intimidade. Sentaram-no a uma mesa que diziam ser “a de sempre”, perto da pista. O garçom Alfredo lhe trouxe o que apregoou como “o de todas as noites”, uísque. Sem gelo. E Mariano só bebia leite. Sem espuma. Que barbaridade.

Mariano olhou o entorno. Mulheres seminuas se enroscavam em pilares de metal como serpentes lascivas. Outras requebravam feito Salomés sobre pequenos pedestais — o que os colegas devassos chamavam vulgarmente de “queijinho”, que asco! Homens decadentes bebiam e riam como gomorritas. O sexo a soldo adejava pelo ambiente, com seu cheiro repugnante de queijo ralado. Mariano sentia engulhos. Então o garçom Alfredo se aproximou, sorrindo maliciosamente. Abaixou-se até seu ouvido direito. Sussurrou:

— Ela vem vindo, seu Mariano.

Ela! Só podia ser a infausta Laurona. Mariano quis confirmar:

— Laurona?

O garçom Alfredo abriu ainda mais o sorriso:

— Quem mais?

E se afastou. Mariano ficou sentado, nervoso. Furioso, melhor dizendo. Ia conhecer a Laurona, afinal. Ia dizer umas verdades para aquela depravada, ia xingá-la, repreendê-la, passar-lhe um sermão, ia… Foi quando uma mulher surgiu de uma porta no canto da boate.

Uma mulher… suntuosa. Linda. E, puxa, grande em todos os lugares onde devia ser grande. Uma mulher maiúscula, mas proporcionada como se tivesse sido esculpida. Caminhava serpenteando e sorrindo, e serpenteando e sorrindo veio em direção a Mariano, olhando nos seus olhos, e seu olhar era de fogo. Laurona!

Mariano não conseguia falar. Estava paralisado. Emocionado, diante daquela beleza agressiva. Sorrindo sempre, ela sentou ao seu lado. Cruzou as pernas, e Mariano viu uma nesga do Paraíso. Jogou o braço direito por sobre seu ombro, e Mariano sentiu seu cheiro doce e, ao senti-lo, uma dor fina lhe aguilhoou o peito.

E ela escorregou suavemente para perto dele, e ele encostou seu ombro e seu braço e sua coxa e seu joelho nos dela, e ela o enlaçou com firmeza e aproximou seu rosto do dele e seus lábios carnudos procuraram os dele e sua língua quente e úmida entrou na sua boca e roçou-lhe os dentes e acariciou sua língua e Mariano sentiu que ia desfalecer e ela parecia que lhe ia devorar e o peito de Mariano pulsava e sua garganta pulsava e ele todo pulsava e por pouco não desmaiou quando ela enfim o largou e desmanchando o sorriso olhou de novo nos olhos dele e sentenciou:

— Tu não és o Mariano.

Mariano precisou de alguns segundos para se recompor.

— Sou — disse, afinal, ofegante, limpando o suor da testa.

E ela:

— Não és.

Mariano não falou mais nada. Levou a mão ao bolso de trás das calças e sacou a carteira de documentos. Apresentou-os à Laurona. Que os examinou, um a um, e a cada foto que via numa carteirinha olhava de volta, incrédula, para o rosto de Mariano, como um guarda de fronteira. Devolveu-os, finalmente, a Mariano, e comentou, boquiaberta:

— Vocês são muito parecidos…

— Um sósia! — concluiu Mariano — Quem é esse cara? — perguntou, segurando-lhe os ombros.

— Apareceu há algumas semanas. Disse que era o Mariano jogador de futebol, o capitão do time — respondeu ela, ainda perplexa. — Vem aqui quase todos os dias, nós saímos sempre e ele me promete presentes… — agora parecia decepcionada. — Presentes caros… Eu acreditei, ele dizia que era jogador, que ganhava muito bem, mas acho que nunca vai me dar nada, já que ele não é jogador, não é?

— Não! — Mariano recuperara a indignação. — Eu sou! Eu sou o verdadeiro Mariano! — olhou profundamente nos olhos profundos dela. — Eu! — repetiu. — E… — antes de completar a frase, tudo veio à sua cabeça. Tudo: sua respeitosa esposa Nair, seus filhos, sua casa, seu grupo de estudos bíblicos, os colegas jogadores que liderava com tanta proficiência, tudo. Enquanto pensava nisso, na sua vida correta e séria, Mariano fitava os olhos da Laurona e os lábios da Laurona e seus seios fartos e suas pernas pétreas. Completou a frase: — … e eu posso, sim, eu posso te dar tudo o que ele prometeu.

Laurona sorriu.

— Tu? — murmurou, tão-somente.

— Eu.

Então ela riu e seu riso era um rumorejo macio, vindo do fundo da garganta.

— Tu — repetiu.

E ele, puxando-a para perto:

— Eu. O verdadeiro Mariano.

E ela, encostando o rosto afogueado no rosto dele:

— Tu. O meu Mariano.

* Texto publicado em 21/10/1999 em Zero Hora

Postado por David

Já vai, já vai!

24 de setembro de 2008 1

Estou recebendo dezenas de imeils me pedindo para publicar a parte final da história de Mariano e Laurona. Só mais uns minutos, leitorinhos, e vocês desvendarão o mistério desta trama!

Postado por David

Como é bom não precisar comer rolmops

24 de setembro de 2008 17

Para escrever meu livro “Jogo de Damas” tive de reler alguns clássicos. Todos grandes livros, grandes autores. Normalmente, consideraria isso perda de tempo – há tantos livros que ainda não li, por que ler um duas vezes?

Terminou sendo bom demais. Era como se os estivesse lendo pela primeira vez, e, de certa forma, foi o que aconteceu. Lido de novo, o livro parecia outro livro.

A partir desta experiência, criei uma nova categoria de leitura: livros que merecem ser relidos. Entre esses há um que é dos melhores que já tive debaixo das sobrancelhas – “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer. Este Shirer foi correspondente do Chicago Tribune em Berlim de 1926 a 1941. Teve acesso direto a todos os personagens importantes do III Reich, inclusive, e principalmente, Adolf Hitler. Terminada a guerra, examinou 485 toneladas de documentos secretos dos nazistas, apreendidos pelo exército americano. Disso resultou esta obra fundamental para o Ocidente. Fundamental; não é exagero. São quatro tomos de texto escorreito e informações preciosas sobre talvez o período mais dramático da história humana.

No terceiro volume, Shirer aborda um episódio tão decisivo quanto misterioso da guerra: a Retirada de Dunquerque. Deu-se em maio de 1940. Até então, o exército alemão era invencível. Por meio da guerra-relâmpago, bateu inimigo atrás de inimigo, até defrontar-se com o maior deles, a Força Expedicionária Britânica, reforçada por divisões dos exércitos francês e belga. E também a estes os alemães venceram, até encurralá-los em Dunquerque. Os Aliados ficaram prensados. As Divisões Panzer avançavam, amassando tudo o que tivesse vida e que se interpusesse em seu caminho, enquanto o mar rugia às suas costas. Não havia saída. O exército britânico seria destroçado e, hoje, todos nós seríamos loiros de olhos azuis e comeríamos, argh, rolmops.

Então, algo aconteceu. O exército alemão simplesmente deteve o seu avanço. Pararam ao alcance da vista dos Aliados. Que começaram a bater em retirada pelo mar, desesperados. Fugiam em navios, botes, veleiros, bóias, tudo que flutuasse e pudesse levá-los a salvo para a Velha Álbion. As populações civis dos países Aliados ajudavam enviando todos os tipos de barcos para salvar seus soldados. A previsão de Churchill e dos generais britânicos era de, com sorte, conseguir evacuar 45 mil homens. No total, 340 mil escaparam do inimigo, que levou dois dias para se mexer. Chegaram à Inglaterra combalidos, estropiados, traumatizados, mas cientes de que poderiam lutar outra vez. Como lutaram.

Por que o exército alemão parou? Por muito tempo o mundo tentou decifrar esse enigma. Shirer solveu-o em seu livro. Na página 169, conta o seguinte:

“Goering ofereceu-se a Hitler para empreender o restante da luta, nessa grande batalha de cerco, somente com a Luftwaffe, eliminando-se assim o risco de se terem que utilizar as valiosas formações de Panzers. Fez essa proposta por uma razão que caracterizava a falta de escrúpulos e a ambição de Goering. Queria assegurar para a sua força aérea, após as operações até então surpreendentemente fáceis para o exército, o ato final e decisivo na grande batalha e, assim, conquistar a glória da vitória perante o mundo inteiro”.

A vaidade.

Foi a vaidade de Goering que nos livrou de ter que usar aquele bigodinho de mosca do Führer e andar marchando por aí em passo de ganso.

A vaidade é poderosa.

*Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.

Postado por David