Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de outubro 2008

Jô na Estrada - capítulo 21

31 de outubro de 2008 37

— Ai, meu Deus! — uivou Aninha.

— Aiaiai! — gemeu Jô.

As duas amigas olharam para os lados, apavoradas, procurando uma saída. Obviamente, não havia saída alguma naquele quarto. Jô não podia se atirar da janela, seria suicídio. Se corresse para se esconder no banheiro, ele a veria. Enfrentá-lo? Fora de questão. Disfarçar, dizer que viera visitar Aninha? Não: ele ficaria desconfiado, Jô perderia a chance de salvar a amiga. Que fazer, então???

Os passos de Dob soavam no meio da escadaria. Em segundos ele estaria no quarto.

— Você precisa se esconder! — sussurrou Aninha.

— Aonde???

Jô agachou-se e olhou embaixo da cama. Não cabia ali.

— Aninha! — chamou Dob. Estava mais perto. Cada vez mais perto.

— Jesus Cristo! — disse Jô, levando a mão ao peito, olhando em torno do quarto.

— No guarda-roupa! — cochichou Aninha.

Jô olhou para o guarda-roupas. Era grande. Ela certamente cabia lá dentro. Correu para o móvel. Abriu a porta, tendo o cuidado de não fazer barulho. Entrou. Aninhou-se debaixo dos vestidos que Ana Paula decidira não levar.

— Ai, meu Deus! — cochichou, quando Aninha fechou a porta.

Ficou no escuro. Tentou controlar a respiração ofegante. Fechou os olhos. Procurou ouvir o que acontecia do lado de fora.

Aí, lembrou-se da mala.

A mala estava feita, no meio do quarto. Dob a veria, concluiria que Ana Paula planejava fugir e tudo estaria perdido. Jô tinha que buscar a mala. Daria tempo? Jô vacilou. Devia buscar a mala ou não? Devia ou não devia?

Então, a porta do guarda-roupas se abriu.

Jô prendeu a respiração. E agora???

Mas era Ana Paula, com a mala na mão.

— Esqueci da mala! — falou.

E atirou a mala para dentro do roupeiro. Jô ajeitou a mala. Agarrou-se nela e ficou imóvel, quietinha, torcendo para ser invisível e inaudível. Ouviu a voz de Dob ao longe. Aninha devia ter saído do quarto para recebê-lo. Provavelmente estavam conversando no corredor. Vez em quando, o volume das vozes aumentava. Seria alguma discussão? Estariam brigando? Por que ele havia voltado, afinal? Teria suspeitado de algo? Talvez tivesse ido à pousada, atrás dela, como havia prometido. Neste caso, era certo que descobrira que ela havia fechado a conta. Podia estar atrás dela. Certamente estava atrás dela! Ou não?

De repente, Jô não ouviu mais nada. O que teria acontecido? Esperou…

Esperou…

Continuava imóvel, não fazendo barulho nem com a respiração. O tempo havia parado dentro daquele roupeiro. Jô sentia cãibra na barriga da perna, devido à posição em que ficara. Já havia passado tempo demais, e ela não ouvia mais som algum. Decidiu sair do esconderijo. Respirou fundo. Abriu a porta do roupeiro. Espiou para fora. Nada. Pelo menos no quarto, não havia nada. Saiu, enfim. O coração lhe batia com tamanha força no peito que ela achava que toda a casa ouvia. Deu um passo. Outro. Parou à porta do quarto. Devia sair? Apurou o ouvido… Apurou…

Então, ouviu.

O que ela ouviu???

Saiba loguito, no último capítulo de… Jô na Estrada!!!

Postado por David

Abaixo Machado de Assis!

31 de outubro de 2008 104

Reprodução

Por Deus que o imeil que vou reproduzir abaixo é verdadeiro. Recebi-o dias atrás. É de uma aluna de um colégio particular de Porto Alegre. Ó:

“Olá. Estudo na oitava série. Tenho que fazer um trabalho de português sobre a presença da intertextualidade nos gêneros textuais e um deles são as crônicas. Gostaria de saber se você sabe de alguma crônica que tenhas feito com a presença da intertextualidade (polifonia) que possas me mandar. Desde já agradeço.”

Terminei de ler o imeil e fiquei parado, fitando o vazio. Assim permaneci por, sei lá, três, cinco, 10 minutos. Reli o imeil. “Presença da intertextualidade nos gêneros textuais”. E agora? O que responderia para a pequena aluna em apuros com suas tarefas escolares? Doloroso dilema. Porque, na verdade, o burrão aqui não sabe o que é intertextualidade, quanto mais identificar sua presença nos gêneros textuais, seja lá o que forem eles.

Pior: a menina que me perguntou sobre intertextualidade e polifonia e tudo mais, ela está na oitava série. Quantos anos tem um aluno de oitava série? Quatorze? E já está lidando com a intertextualidade… Quer dizer: sou, realmente, um imbecil.

O problema é que suspeito existirem vários imbecis parecidos comigo. Gente pouco interessada na intertextualidade. Cultivo inclusive a desconfiança de que conhecer os meandros da intertextualidade talvez não seja exatamente útil para a imensa maioria das pessoas, mesmo aquelas que, como eu, ganham a vida escrevendo. Então, alguém aí me diga: por que uma aluna da oitava série está estudando esse troço???

Eis uma reflexão pertinente para um dia como hoje, de abertura da Feira do Livro. A leitura é o alicerce da Educação, todo mundo sabe disso. E todo mundo também sabe que o Brasil é um país que não lê. No Brasil, um livro que vende 2 mil exemplares é best-seller, e o número de todas as livrarias do país não ultrapassa o da cidade de Buenos Aires. Vivemos numa nação em que grande parte dos habitantes não sabe interpretar o sentido de uma frase direta, sujeito, verbo, complemento.

Por que isso? Por causa da intertextualidade. Como podem falar de intertextualidade com alunos de oitava série? Ou de transitivo direto? Por favor! A estrutura do ensino no Brasil é formulada para que os jovens sintam nojo da palavra escrita. Gramática, cruzcredo. O ensino da gramática devia ser vetado pelo menos até os últimos anos do segundo grau. Uma vírgula ou um acentinho, volta e meia, tudo bem, mas não me venham com pronomes oblíquos.

Dêem livros aos alunos. Que eles leiam o tempo todo. Leiam e interpretem, leiam e escrevam. E que os professores corrijam os textos e expliquem por que os corrigiram. Livros! Mas também não me venham com autores que escrevem destarte e outrossim. Não estou falando dos piores do século 19, como o tal Joaquim Manuel de Macedo e sua insuportável Moreninha; estou falando do melhor: Machado de Assis. Não empurrem Machado de Assis para menores de 16 anos, por favor. Se não quiserem lhes dar um Verissimo, que seja o Harry Potter, que seja O Código da Vinci. Não deixem as crianças ficar com raiva de livro!

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 20

30 de outubro de 2008 57

- Jô! – a mulher gritava e socava a porta. – Jô! O que está acontecendo, Jô!

Joana! Decerto viera insistir para que Jô fosse ao bar da Lagoa com a turma e ouviu seus pedidos de socorro. Dob se afastou. Ofegava. Jô ofegava também. Dob recuou dois passos. Jô ajeitou o vestido. Olhou para ele com raiva. Odiava-o. Odiava-o mais do que qualquer outra coisa no mundo.

- Jô! – Joana continuava batendo na porta. – Tudo bem aí, Jô?

Muito calmo, Dob caminhou até a porta. Antes que ele pusesse a mão no trinco, Joana tomou coragem e a abriu. Ao ver Dob, ficou paralisada.

- O que está acontecendo? – perguntou.

Dob não tomou conhecimento dela. Olhou para Jô e rosnou de forma quase inaudível:

- Eu vou voltar.

Saiu, passando por Joana como se ela não existisse. Jô sentou-se na cama, arfante, nervosa, porém decidida. Agora sabia o que fazer. Sabia exatamente o que fazer.

Joana entrou, sentou-se na cama ao lado dela e a abraçou.

- Era você quem estava gritando? — perguntou, agitada. – Quem era aquele? O que estava acontecendo? Você está bem???

- Calma… – pediu Jô, e achou estranho ela pedir calma a alguém, depois do que ocorreu. Era ela, Jô, quem devia ser consolada, mas sentia que não precisava disso. Precisava era agir – Está tudo bem…

- Sério?

- Sério. Mas queria pedir uma coisa.

- O que é?

- Você tem celular?

- Claro.

- Me empresta.

- Empresto, lógico. Está lá no nosso apartamento. Quer agora?

- Se não incomodar…

- Vou buscar.

Joana saiu correndo. Deixou a porta aberta. Jô ficou sentada na cama, admirada com a clareza de seus pensamentos. Como conseguia ser tão lúcida um minuto após quase ter sido estuprada por um maníaco que desfigurava as pessoas com ácido? Ela mesma não se compreendia. Aqueles dias que estava vivendo sozinha, na estrada, contando apenas com ela mesma, enfrentando o desconhecido e desconhecidos, conhecendo pessoas e lugares, aqueles dias mudaram algo nela. Algo importante, que ela não sabia bem ainda o que era, mas sabia que era poderoso. O fato é que, em segundos, havia traçado um plano. Ou talvez essa idéia estivesse subjacente em seu cérebro, e agora, depois do ocorrido, ela tomou a decisão. É, pensou Jô, balançando a cabeça, provavelmente foi assim que aconteceu.

Joana voltou com o celular:

- Ó.

Jô começou a digitar uma mensagem para Aninha:

“Aqui é a Jô. Estou com o celular de uma amiga. Sabe quando o Dob vai sair de casa?”

Enviou. Ficou esperando, sentada no colchão com as pernas cruzadas. Joana, ao seu lado, sentou-se à beira da cama, ouriçada de ansiedade.

- Algum problema?

- Estou tentando ajudar uma amiga. Você vai precisar do celular hoje?

- Claro que não! Estou em férias! Você não vai à Lagoa conosco?

- Não. Preciso ajudar a minha amiga. Posso ficar com o celular por algumas horas?

- Sem problemas.

Um bip anunciou a chegada da resposta de Aninha. Jô conferiu:

“Amanhã de manhã. Perto das 10h”.

Jô mandou outra mensagem:

“Passo aí às dez e meia”.

Voltou-se para Joana:

- Nem vou precisar mais do aparelho.

- Tem certeza? Eu não vou usar mesmo.

- Tenho. Não te preocupa.

Joana saiu prometendo avisar Jô, se Ana Paula enviasse alguma mensagem ou ligasse. Jô se levantou. Tinha coisas a fazer para arrematar seu plano.

Na manhã seguinte, estava pronta. Bagagens feitas e acomodadas no porta-malas. Pousada paga. Carro abastecido. Jô saiu para resolver aquele problema de uma vez.

Às dez e meia, dirigiu pela rua do casarão de Ana Paula. Ia estacionar, mas pensou um pouco e decidiu deixar o carro numa rua lateral, para o caso de Dob aparecer. Caminhou até a casa. Tocou a campainha. Ana Paula abriu a porta. Jô não deu nem bom dia. Foi entrando:

- Vamos arrumar suas coisas.

- Hein?

- Vou tirar você daqui.

- Como assim, Jô?

- Faz o que estou dizendo. Arruma as tuas coisas.

Tomou Ana Paula pela mão e puxou-a em direção à escada.

- Vamos, vamos! – apressou-a.

- Mas, Jô, eu tenho muitas coisas, muitas roupas e…

- Pega só o indispensável. Vou te levar embora daqui.

- Pra onde? Não posso ir pra Porto Alegre.

- Não discute. Sei o que estou fazendo. Vamos!

Subiram a escadaria. Ajudada por Jô, Aninha pegou uma mala do alto do roupeiro, abriu-a e começou a dobrar as roupas na cama.

- Rápido! – apressava-a Jô. – Rápido, pega qualquer coisa. Não dobra, atira dentro da mala. Temos pouco tempo!

- Tem umas roupas que não passo deixar, Jô!

- Não seja boba! Roupa você compra de novo. A sua vida e a do bebê, não.

Mas Aninha não conseguia se apressar. Hesitava entre as roupas e os sapatos que levaria, procurava fotos, documentos, dinheiro. Atrasava-se, enfim. Jô não agüentava mais de ansiedade.

- Vamos logo! — pedia.

- Estou indo!

Finalmente, a amiga fechou a mala.

- Estou pronta – disse, em tom vitorioso.

Jô suspirou:

- Já não era sem tempo.

Jô pegou a alça da mala. Então, ouviram o som de passos no andar de baixo. E uma voz de homem que chamava:

- Ana Paula!

As duas amigas se olharam e ganiram em coro:

- DOB!

E agora? Salvar-se-ão as duas amigas aventureiras? Ou o ácido do bandido as corroerá? Saiba loguinho, no próximo capítulo, que será um dos últimos, senão o último, de… Jô na Estrada!!!

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 19

29 de outubro de 2008 47

- Dob! – exclamou Jô, olhos redondos de espanto.

A malícia desviara o sorriso de Dob para um lado. Os olhos rebrilhavam de lascívia. Ciciou:

- Jô…

E aquele monossílabo, Jô, pela forma como foi pronunciado, já lhe anunciou as intenções. Foi entrando. Caminhava devagar e gingado, diretamente para ela. Jô recuou um passo. O que ele pretendia?

- Jô… – repetiu, e, sem virar-se, fechou com um tapa a porta atrás de si.

Continuou avançando.

- Jô… Jô… – murmurou, como se falar o nome dela lhe desse prazer. Dizia Jô com a boca cheia, como quem diz algo pecaminoso.

Jô sentiu-se intimidada. Era muita ousadia daquele homem entrar assim em seu apartamento, sem ligar antes, sem se anunciar, sem nem dar boa noite. Ele não tinha sido convidado! Entrou e fechou a porta, foi isso que fez. Ora, era ela quem mandava entrar seus convidados, era ela quem fechava a porta de sua casa. Toda aquela confiança masculina a intimidou. Jô continuou recuando, andando para trás.

- O que você quer? Onde está a Aninha?

- Jô… – disse ele novamente, dando mais dois passos.

Não havia mais para onde recuar. Jô estava com as costas grudadas na parede, respirando pesadamente pela boca entreaberta.

- Dob… – o nome dele saiu de seus pulmões com dificuldade. Ela quase não conseguia respirar, de tão ansiosa. – O que você quer aqui?

Ele colou nela. Barriga contra barriga, peito contra peito, coxas contra coxas. Jô sentiu as ondas de calor que ele emitia e seu cheiro de sabonete. Devia ter tomado banho havia pouco. Dob ergueu a mão devagar e, com as costas do indicador e do dedo médio, tocou na pele do seu rosto. Ela virou o rosto para o lado, tentando afastá-lo. Ele não se afastou. Continuou acariciando-a.

- Eu conheço você, Jô… – falava baixinho, sussurrado, e aquilo deixava Jô ainda mais nervosa. - Eu sei o que você quer… A menina que só foi tocada por um único homem, até hoje. A mulher casada, mãe de filhos, bem cuidada… – a mão dele desceu-lhe pelo pescoço. Tocou-lhe nos ombros. – Freqüentadora de academias de ginástica… – agora lhe apertava os braços nus, largados ao longo do corpo. O toque dele foi firme e macio. Jô sentiu um arrepio. – O corpo malhado… – a mão chegava às ilhargas. Jô respirava com dificuldade, não sabia o que falar, não conseguia sequer se mexer. – As carnes tenras… – ele falava baixinho. Aproximou a boca do pescoço de Jô, que tinha vontade de gritar, mas não conseguia. Estava imóvel e paralisada. – Deixou o maridinho em casa para sair em busca de aventuras… – Aninha contou sua história a ele. Quanto ele sabia? Tudo? – Já teve algumas aventuras, Jô? Quantos homens você encontrou no caminho para cá?

- Pára… – Jô conseguiu dizer. – Pára…

Ele a ignorou. Suas mãos fortes erguiam-lhe a barra do vestido até o umbigo, revelando-lhe a calcinha preta, minúscula – Jô não gostava de calcinhas grandes. Dob olhou para baixo e emitiu um silvo:

- Uh… Mas que gostosa…

Jô sentia o corpo dele inteiro pressionando-a contra a parede, imobilizando-a, dominando-a. Sabia que ele era mais forte, que não havia como reagir fisicamente. Se ele quisesse, poderia fazer o que bem entendesse com ela e ninguém poderia impedir. A idéia de ser possuída por um homem que desprezava, antes de repugná-la, a excitava. Porque era o mais vil a que uma mulher poderia chegar apenas pelo prazer carnal. E isso, a carne pela carne, o prazer pelo prazer, sem interferência do sentimento ou da razão, isso era extremamente excitante.

As duas mãos de Dob neste momento suspendiam-lhe o vestido até os ombros e apalpavam seus seios, e o faziam com a segurança de um homem que sabia o que queria e, sobretudo, sabia como queria.

- Oh… – Jô grunhiu, querendo reagir e não querendo ao mesmo tempo.

Ele continuava falando sussurrado no ouvido dela:

- Algum homem já a tocou assim? – e beliscou suavemente seus mamilos. – O maridinho em casa, ele continua tendo desejo por esse corpo perfeito? Esse corpo cheio de fogo? – uma das mãos desceu-lhe pela barriga. – Eu sei o que você quer, Jô… Jô… Jô… Eu sei o que todas vocês mulheres querem… – e a mão invadiu-lhe a calcinha.

- Não… – pediu Jô, chorosa.

- Primeiro, vocês querem emprenhar… – a mão a explorava. - Hmmm… – ele comentou, ao tocar suas intimidades – parece que você está gostando mesmo disso tudo. Está gostando… Riu um pequeno riso de luxúria e continuou fazendo o que fazia. – Depois de emprenhar como vacas – prosseguiu – vocês criam os filhos por algum tempo, mas aí chega um momento em que se cansam. “A minha vida está tão igual” – disse, com voz de falsete. – “Queria uma aventura, algo diferente na minha vida…” – e retornando à voz normal: – É isso que você está buscando, Jô. Jô, Jô, Jô… Uma aventura… – Jô arquejava, seu corpo ondulava de prazer e, ao mesmo tempo, para tentar se livrar do domínio dele.

- Não… – ela pedia. – Não… Por favor, não… Oh… Ah… Não… Por favor…

Então, ele a beijou. Enfiou a língua entre os lábios de Jô. Explorou seus dentes com habilidade e ela se entregou e não se entregou, e queria e não queria, e precisava gritar e sair correndo, mas não conseguia, e o quarto girava e o mundo girava e tudo estava confuso, e Jô aos poucos foi cedendo, até que ele gemeu:

- Vagabunda!

Foi um gemido debochado e desrespeitoso, um gemido que a rebaixava e a reduzia. Foi como ela levasse um choque. Não era vagabunda. Não era! Era uma mulher casada, tinha uma família! Era melhor do que aquele canalha! Lembrou-se de Fábio e dos filhos, de sua casa e de quem era aquele homem em cima dela: um assassino cruel de mulheres e bebês, um traficante barato, um mau caráter, um desgraçado.

- Desgraçado! – gritou, e seu grito assustou Dob, que parou de tocá-la por um instante.

- Desgraçado! – repetiu, debatendo-se, tentando se livrar.

E ele se enfureceu:

- Vagabunda! -repetiu, agora com raiva. – Vagabunda! – e segurou seus dois braços com firmeza, presos às costas.

Jô estava imobilizada. Ele era muito mais forte. Ela não tinha como se defender. Uma agonia de desespero tomou conta dela.

- Socorro! – gritou, com toda a força que pôde. – Socorro!

Dob tapou sua boca com a mão. Não havia mais nada a fazer. Ela seria violada.

Então, Jô ouviu um grito. Seu próprio nome:

- Jô? Jô? Jô???

Quem gritou? Jô foi salva? Ou se entregou ao bandido? Saiba logo, no próximo capítulo de… Jô na Estrada!!!

Postado por David

O curso de datilografia

29 de outubro de 2008 38

Ricardo Chaves, Banco de Dados

Houve época em que as pessoas faziam curso de datilografia. Com máquina de escrever, e tudo mais. Tratava-se de algo até meio obrigatório, o curso de datilografia. Nos anúncios de emprego sempre ficava sublinhada a exigência do curso. Sem curso, melhor nem se candidatar. Então, fi-lo. Não porque qui-lo; por ser indispensável.

A professora era uma freira de uns 125 anos de idade. Andava por entre as mesas muito sisuda dentro daquela roupa preta, sempre ressaltando a importância da datilografia para o futuro de uma pessoa. Rosnava que a datilografia era fundamental para qualquer profissão, do presidente da República ao gari, que nenhum ser humano podia ser feliz sem a datilografia, que, se não aprendêssemos a datilografar, nunca conseguiríamos emprego em lugar algum.

– Nunca! – sublinhava, com voz roufenha. – Nunca! Nunca! Nuuuuncaaaaa!

Acho até que dava uma risada de filme de terror. Ou pelo menos eu imaginava que dava. Ela estava sempre em cima da gente, insistindo para que usássemos os 10 dedos para datilografar, para que não olhássemos para o teclado. Um dia, cobriu as teclas com fita isolante. Foi horrível.

– Mostrem do que são capazes! – urrou.

Aquilo tudo me deixava nervoso. Imaginava-me morando sob os viadutos da cidade, andrajoso, pedindo esmolas, desempregado pela eternidade, porque não datilografava. Considerava a datilografia nada mais do que uma atividade manual, era revoltante que fosse tão importante. Mas todo mundo dizia que era. As pessoas comparavam o número de palavras que batiam à máquina por minuto e contavam histórias datilográficas. Uma secretária de dedos velocíssimos e precisos ganhava um salário nababesco do Banco do Brasil; o tio de alguém datilografava apenas com os indicadores, mas com tanta rapidez que saía fumaça da máquina. Os lentos eram alvo de chacota, chamados pejorativamente de “catadores de milho”. Oh, eu sentia muito medo de ser considerado um reles catador de milho. Por qualquer razão, vinha um e me perguntava se já sabia datilografar. Eu gaguejava na resposta. A verdade é que decorei aquilo do a-essedê, efegê; cecedilha-elecá, jotagá. Tinha pesadelos com essa maldita seqüência. Mas, confesso, ainda não sabia datilografar direito. Que situação, que tormento.

Aí consegui emprego no escritório da JH Santos, uma loja de departamentos.

– Sabe datilografar? – perguntou-me o chefe, na entrevista.

Eu:

– Claro! Tenho curso!

Decidi que na hora daria um jeito. A hora surgiu já no primeiro dia. Vieram-me com, segundo eles, um documento importantíssimo:

– Bate aí. E sem erros!

E lá estava eu, em frente à Remingtona, com aquele documento importantíssimo nas mãos. Lembrei-me da freira. A-essedê-efegê, cecedilhaelecá-jotagá. Meu futuro estava em jogo. E agora? Comecei a bater à máquina. Na primeira linha, perdi o b. Fiquei procurando. Onde havia se metido o bê? Que rebeldia era aquela? Percebi que os colegas estavam me olhando. Me deu uma angústia. Será que achariam que era um catador de milho? Será que devia deixar o bê para mais tarde? Encontrei-o, enfim. Mas cometi um erro logo após teclá-lo. Foi o primeiro de muitos. Em seguida, cometi outro. E outro. E outro. E mais outro. Cristo! Nenhum Errorex poderia me salvar. Fiquei vermelho. Suava. As pernas estavam bambas, parecia que tinha maionese em lugar dos ossos. O chefe foi conferir o trabalho. Deu uma espiada sobre meu ombro. Torceu o nariz:

– Tu não disseste que era datilógrafo?

Puxou o papel da máquina. Temi ser demitido no ato, mas ele resolveu ser condescendente.

– Melhor desistir. Vou achar outro serviço pra ti. Um que não precise bater à máquina.

Aquilo me encheu de vergonha. O opróbrio!, pensei. A desgraça! Como poderia olhar nos olhos dos meus amigos, depois de fracasso tão rotundo? Levantei-me de um salto.

– Não! – gritei. – Me deixa tentar de novo! Datilografarei! Por Deus que datilografarei!

O chefe vacilou, com o documento importantíssimo entre o indicador e o polegar, mas, depois de pensar um pouco, devolveu-o para mim. Bati mais três vezes. Na quarta, saiu perfeito. Entreguei-o vitorioso para o chefe, que fez um arram de aprovação e se foi para o seu gabinete com o papel imaculado na mão. Naquele dia, tornei-me um datilógrafo. Não hesitava mais. Não catava milho. Confiança, era disso que precisava. O mesmo que precisa qualquer time de futebol. A confiança que só vem com a vitória. É por isso que vitórias se somam a vitórias. É por isso que, mesmo jogando mal, o importante é vencer, como fez o Grêmio na última rodada e como terá de fazer hoje: vencer de qualquer forma.

Sei que o Grêmio poderá vencer hoje, ainda que quase nunca vença o Cruzeiro no Mineirão. Exatamente porque o Grêmio está mais confiante do que o Cruzeiro. O que não sei é como eles fazem hoje, todos esses jovens e até crianças que passam o dia sobre teclados de computador. Hoje não há mais freiras dando cursos de datilografia. Hoje nem existe mais datilografia. Como eles aprendem? Sozinhos??? Isso quer dizer que eu não precisava fazer curso de datilografia??? Que aqueles dias de aflição foram em vão??? Que nem nas freiras se pode confiar??? Quanto sofrimento desperdiçado, meu Deus!

*Texto publicado hoje na página 58 de Zero Hora.

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 18

28 de outubro de 2008 55

No dia seguinte, Jô não encontrou Ana Paula. Tentou; não conseguiu. Ligou dezenas de vezes para o celular dela, deixou recados. Ela simplesmente não atendia. O que teria acontecido? Jô passou o dia na Praia Brava, dourando-se ao sol, deitada na areia, em frente ao Bar do Pirata. Provou ostras frescas e camarões ao bafo, bebeu densos sucos de açaí e caipirinhas capitosas, mas nada lhe dava prazer. Só pensava na amiga em apuros. De hora em hora, levantava-se, caminhava até o telefone público mais próximo e ligava. Ana Paula não atendia, uma agonia.

À noite, Jô tomou do carro e passou em frente ao casarão em que Ana Paula vivia com Dob. Deu a volta na quadra algumas vezes, sem coragem de parar e bater à porta. As janelas estavam iluminadas, havia gente em casa, tudo parecia tranqüilo. Muito estranho. Em certo momento, Jô estacionou em frente à mansão e ficou observando-a. Passaram-se alguns minutos, até que a cortina de uma janela do andar de baixo foi afastada. Jô aprumou-se ao volante. Percebeu o vulto de um homem na janela, olhando diretamente para ela. Dob! Uma corrente elétrica percorreu sua espinha dorsal. Jô ligou a ignição do carro, engatou a primeira, a segunda e voltou para o condomínio em que se hospedara. Passou mais uma noite inquieta.

No dia seguinte, decidiu que ficaria à beira da piscina da pousada. Talvez Ana Paula aparecesse… Continuou ligando para ela, do telefone da administração do condomínio. Nada.

Neste dia, pelo menos teve mais distração. Durante toda a manhã, um grupo de amigos dividia a piscina com ela. Cinco mulheres e quatro homens muito ruidosos e alegres. Também eram de Porto Alegre e estavam passando as férias juntos na Praia Brava. Uma das mulheres acabou fazendo amizade com Jô. Chamava-se Joana. Ao se apresentarem, ambas riram e comentaram em coro:

- Duas Jôs!

Era quase uma menina, uns 20 anos de idade, muito viva e sorridente. Convidou Jô para participar do churrasco com os amigos e ela aceitou. Tratava-se de uma turma muito alegre. Os homens jogavam futebol juntos havia mais de uma década, eram mais velhos do que as mulheres. Eles andavam na faixa dos 40 anos, elas na dos 20. Bebiam muito, riam muito, sua alegria fez Jô se animar um pouco. Mas não o suficiente para esquecer-se do drama de Ana Paula, que continuava sem dar notícias.

À noite, Jô resolveu agir. Iria à casa de Aninha. Precisava apenas de uma justificativa para bater à porta assim, sem se avisar. Pensou, pensou, até que deu um tapa na própria testa:

- O pata negra!

Era isso! Comprara uma porção de presunto para dar à amiga e ainda não o fizera! Dob era de Florianópolis, decerto sabia o valor de um pata negra legítimo, do Box 32. Ficaria encantado com a visita.

Jô tomou banho, enfiou-se em um pretinho básico curto, calçou sandálias também pretas e rumou para a mansão. Ao premer a campainha da porta da frente, seu coração ribombava no pescoço. Por que sentia-se tão nervosa? Bem, a verdade é que ela nunca antes tinha conhecido um homicida cruel, que torturava pessoas com ácido sulfúrico. Havia certo motivo para nervosismo.

O próprio Dob abriu a porta. Calçava tênis de corrida, vestia jeans claro e camiseta branca, uma combinação muito simples, mas que funcionava. Ressaltava-lhe a beleza máscula, o corpo longilíneo e musculoso e um bronzeado que provavelmente era eterno. Jô abriu a boca. Antes que falasse, Dob estendeu-lhe a mão e um sorriso cheio de luz:

- A amiga da Aninha! Jô, não é?

Jô ficou desconcertada com a simpatia do outro. Esperava encontrar uma fera maligna e maliciosa. Deu-lhe a mão. Suada. Jô sentiu vergonha: ele provavelmente pensaria que ela estava muito nervosa por encontrá-lo. Bom, ela estava nervosa, mas o suor nas mãos não era devido a isso. Sentiu vontade de explicar:

- Sempre suo nas mãos, viu?

Mas se calou. O toque dele era firme e macio. Será que passava creme?

- Entra — convidou, amistoso. — Vou chamar a Aninha.

Jô entrou. Notou que ainda não abrira a boca, e tartamudeou:

- Eu comprei um pata negra no Box 32, e vim trazê-lo para a Aninha… para vocês… e…

- Um pata negra! — exclamou Dob, coruscante de alegria. — Que maravilha! Tomou o presunto das mãos de Jô. Vamos comê-lo agora mesmo com uma cervejinha bem gelada! — e se foi para dentro da casa, repetindo: – senta, senta… — apontando para um sofá grande e branco no meio da sala e chamando: – Aninha, tua amiga de Porto Alegre está aqui!

Em um minuto, Ana Paula apareceu. Desceu a escadaria que levava ao segundo andar atrás do barrigão de grávida. Sorriu-lhe debilmente ao chegar à sala. Abraçaram-se.

- Tudo bem? — perguntou Jô, tentando adivinhar algum traço de preocupação no rosto da amiga.

- Tudo — Aninha falava num fio de voz. Estava próxima da exaustão. O que teria acontecido naqueles dias em que não se viram?

- A Jô comprou um pata negra pra nós! — festejou Dob. — Vou buscar uma cervejinha para mim e para ela e um suco pra ti — anunciou, e girou os calcanhares, rumo à cozinha.

Jô e Ana Paula sentaram-se no sofá da sala. Quando Dob se afastou, Jô cochichou:

- O que houve??? Você sumiu! Não atende telefone! Faz dois dias!

- Ai, amiga, ele ficou desconfiado quando nos viu chegando juntas. Me encheu de perguntas sobre você… — Ana Paula falava com pausas, como se estivesse perturbada. – Passou esses dois dias em casa. Encontrava desculpas para não sairmos. Trouxe os comparsas dele para cá, ficaram falando dos negócios deles. Falava todo tempo ao telefone. Está tramando algo, tenho certeza. O ambiente está tenso, Jô… Por isso achei melhor não atender o telefone. Não quero envolvê-la neste caso perigoso. Ele está suspeitando de alguma coisa, sei lá…

- Mas não tem nada pra suspeitar! E você tem que me envolver. Nós somos amigas!

- É perigoso! Ele…

Ana Paula não completou a frase. Dob veio da cozinha com uma bandeja nas mãos. Sorria como se fosse o marido perfeito. Sentou-se numa poltrona em frente a elas. Serviu cerveja e suco, distribuiu facas, garfos, pratinhos e guardanapos. Ao espetar o garfo no pata negra, estalou os lábios:

- Que delícia!

Começaram a comer e a conversar. Ele era simpático e envolvente. Quando falava, olhava diretamente nos olhos de Jô. Parecia que Ana Paula não estava na sala. Jô sentia-se incomodada com aquela deferência toda. Dob lhe fazia perguntas, contava-lhe histórias. A impressão é de estava tentando conquistá-la. Fosse em outra situação, Jô se sentiria muito lisonjeada. Dob era um homem bonito, tinha boa conversa, vivia bem. Mas ela sabia quem ele era, e ele vivia com sua amiga, e ela estava grávida dele. Por que ele agia daquela maneira, então?

O olhar intenso de Dob, fincado nela, explorando-a, analisando-a, tentando desvendá-la, aquele olhar lhe tirava a paz. Por que ele não parava com aquilo?

Durante mais de uma hora, Dob só se afastou da sala para buscar mais bebidas, num tempo curto demais para que elas conversassem com tranqüilidade. Jô acabou dizendo que tinha de ir embora para encontrar uns amigos. O que, de certa forma, era verdade: seus novos amigos da piscina a convidaram para ir a um bar na Lagoa. Sairiam bem mais tarde, mas Jô não tencionava aceitar o convite. Permaneceria em casa naquela noite, pensando em como ajudar Ana Paula. Não tinha disposição para baladas. Dob insistiu para que ela ficasse, mas ela se despediu com um beijo no rosto da amiga, um novo aperto na mão forte e macia dele, e partiu. Voltou para a pousada e deitou-se na cama. Decidiu ler um livro que trouxera de Porto Alegre: “Contos Completos“, do Sérgio Faraco. Suas tantas aventuras dos últimos dias impediam a leitura. Abriu na página em que dormia o marcador. Começou a ler:

“A mãe não quis que o menino fosse à escola e, durante o dia, não o deixou sair ao pátio. Nem era preciso proibir, ele estava abatido, quieto.”

Jô também estava abatida com tudo o que vinha acontecendo. Como poderia salvar sua amiga? Como? Foi em frente com a leitura, sem conseguir se concentrar na história narrada com mestria por Faraco. Tinha de ler duas vezes, três, e ainda assim não prestava atenção no conto. A folhas tantas, adormeceu. Experimentou um sono leve, não soube quanto tempo dormiu. Acordou com batidas na porta. Devia ser Joana, insistindo para que ela fosse ao bar da Lagoa. Levantou-se, estremunhada, e arrastou-se para a porta do apartamento. Abriu-a.

Levou um choque.

Era Dob.

Putzgrilla!!! O que o assassino quer com nossa heroína???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Jô na Estrada!

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 17

27 de outubro de 2008 22

Divulgação

Não eram dois os filhos de Dob, mas três, com três mulheres diferentes. Na noite em que conheceu Ana Paula ele mentiu por saber que três filhos e três ex-mulheres assustam qualquer eventual pretendente. Havia ainda um quarto filho e uma quarta ex-mulher, mas, quando a criança nasceu, submeteu-a ao teste de DNA. Normal, no caso dele. Dob não confiava em mulher alguma. Não confiava em ninguém. Não tinha amigos, apenas sócios e ajudantes. E, naquele caso, suas suspeitas se confirmaram. Descobriu que o filho não era dele. E agiu. O nenê e a mãe desapareceram. Havia quem jurasse que o nenê não foi eliminado, até porque Dob repetiu várias vezes que ele “não tinha culpa nenhuma”. Outros falavam em um fim caridoso, como um estrangulamento rápido ou sufocamento, algo simples assim.

Com a mulher não houve piedade. Usou o ácido que tanto apreciava. Rezava a lenda que a agonia dela foi lenta, que Dob começou corroendo-lhe as partes pudendas, repetindo, enquanto a torturava:

- Você tinha fogo aí? Tinha fogo? Agora tem de verdade!

A mulher revelou a identidade do pai, que também não foi poupado e também conheceu o gosto do ácido. Dois assassinatos, no mínimo. Ele se transformava mesmo em um dobermann, quando provocado.

Era o que deixava Ana Paula desesperada.

- Porque o filho não é dele, Jô! – explicou, com lágrimas nos olhos, tirando um ó consternado da boca da amiga.

O verdadeiro pai era um colega de agência. Um tipo sedutor que passava os dias assediando-a. Aninha gostava de ser alvo das atenções dele, mas levava a coisa na brincadeira. O que acontecia entre eles era divertido, era engraçado e, de certa forma, inocente. Mais provocação do que sexo.

Uma noite, estavam os dois atrás de um balcão da agência, ela de pé, ele sentado. O chefe chegou e, do outro lado do balcão, começou a lhes passar instruções.

E aconteceu o inesperado.

Ana Paula, que usava um vestido verde até os joelhos, sentiu a mão do colega na sua perna, à altura da sua canela lisa. De início, aprumou-se de susto. Que ousadia! Tentou raciocinar. O que devia fazer? Denunciá-lo seria um exagero. Sabia que ele estava sendo apenas inconseqüente, como de hábito, e não queria motivar sua demissão. Afinal, eram amigos. Podia simplesmente afastar-se com jeito, sem que o chefe percebesse o que estava acontecendo atrás do balcão. Mas não foi o que fez. Resolveu permitir aquele ataque-surpresa, para descobrir até onde ele iria. E ele foi. A mão arteira foi subindo joelho acima, por entre a parte interna de suas coxas, até chegar à calcinha. Que ele habilmente afastou a fim de poder manipulá-la. Ana Paula ficou excitada como raras vezes na vida. Quando o chefe se despediu e saiu, entregou-se ali mesmo, no chão do escritório, onde experimentou uma inédita sucessão de orgasmos. Parecia que estava no cio, e estava mesmo. Naquela noite, Ana Paula engravidou. Não contou nada para o colega de escritório, até porque impediu que o caso fosse adiante. Ele bem que tentava, mas, depois daquela noite, ela se afastou irremediavelmente. Agora, grávida, ela só esperava pelo momento terrível em que seria descoberta por Dob.

- Vou ter que fazer o exame, Jô – concluiu, a voz embargada. – E ele vai fazer aquilo comigo.

Começou a soluçar:

- Calma – Jô pedia, agarrando sua mão. – Calma…

Mas como Ana Paula ficaria calma? Jô não sabia o que lhe dizer. Queria ajudá-la, mas de que forma???

- Você não pode voltar para Porto Alegre? – sugeriu.

- Ele sabe onde meus pais moram. Iria atrás de mim, e seria pior para eles.

- Amiga… – balbuciou Jô. – Vamos pensar numa saída… – mas sabia que não havia saída alguma.

Naquele instante, o celular de Ana Paula tocou. Ela emitiu um gemido de pavor:

- É ele!

Atendeu. Jô acompanhou a conversa ouvindo um único lado do diálogo. Aninha falava olhando para baixo, para o tampo da mesa, com a voz tensa porém audível.

- Oi, amor…

-…

- Estou no Pirata, com uma amiga.

-…

- Uma amiga de Porto Alegre, você não conhece.

-…

- Jô. É. Você não conhece, já disse. Minha amiga da faculdade.

-…

- Não.

-…

- Não…

-…

- Já estou indo, amor. Já vou já.

Desligou. Por pouco não saiu correndo.

- Temos de ir – apressou-se. – Me deixa em casa?

Pagaram a conta e saíram às pressas.

- Ai, Aninha… – Jô ia dizendo, no caminho, enquanto dirigia. – O que podemos fazer?

- Nada. Estou perdida. A não ser que consiga fugir deste teste. Como vou fazer pra fugir desse teste?

- Vamos pensar em algo! Vamos pensar em algo!

- Por favor, Jô. Você sempre foi tão inteligente… Me ajuda a achar um jeito de escapar desse teste!

- Vou ajudar. Juro!

O carro estacionou na frente da casa de Ana Paula.

- Não vou convidá-la para entrar – avisou Aninha. – Não seria bom.

- Não tem problema… Olha, eu vou continuar aqui. Vou ver se consigo um apartamento naquela pousada em que fica o Guga, na beira da praia. Vamos conversar amanhã, certo?

- Vamos – baliu Aninha, abrindo a porta do carro. – Vamos…

E saiu, desanimada. Caminhou devagar, com as pernas ligeiramente abertas, carregando a barriga com dificuldade. Agora, parecia mais grávida do que quando saíram. Ainda não tinha tocado no trinco e a porta da frente se abriu. Um homem surgiu do lado de dentro da casa. Dob. Um sujeito atraente, sem dúvida. Jô entendia por que a amiga se interessara por ele. Dob falou algo com Ana Paula, e ela entrou. Da porta entreaberta, ele lançou um olhar agudo, que atingiu Jô em cheio. Aquele olhar a perturbou, por algum motivo que ela não sabia precisar. Ele fez menção de sair de casa e encaminhar-se na direção dela, mas Jô engatou a primeira e foi embora, quase em fuga. Rodou até a pousada, pensando naquele olhar. Conseguiu um apartamento, instalou-se e de lá não saiu mais, naquele dia. Dormiu mal. Sonhou com Dob, com seu olhar afiado.

Era como olhar para o próprio rosto do Mal. Ou será que ficara impressionada com a história contada por Ana Paula? Por que tinha ficado tão incomodada com um mero olhar? Oh, que situação horrível em que se metera sua amiga… Jô tinha de fazer algo para ajudar Aninha. Mas o quê??? O quê???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Jô na Estrada!

Postado por David

Loucuras de Jô!

27 de outubro de 2008 21

Como há muitos leitorinhos ansiosos, vou postar agora uma antecipação do próximo capítulo das aventuras de nossa heroína. O capítulo inteiro publicarei em seguida. Por quanto, divirtam-se com esse aperitivo:

“Estavam os dois atrás do balcão, ele sentado, ela de pé, conversando com o chefe. Ela usava um vestido verde até os joelhos.

De repente, sentiu a mão do colega na sua perna, à altura da sua canela lisa. De início, aprumou-se de susto. Que ousadia! Tentou raciocinar. O que devia fazer? Denunciá-lo seria um exagero. Sabia que ele estava sendo apenas inconseqüente, como de hábito, e não queria motivar sua demissão. Afinal, eram amigos. Podia simplesmente afastar-se com jeito, sem que o chefe percebesse o que estava acontecendo atrás do balcão. Mas não foi o que fez.

Resolveu permitir aquele ataque-surpresa, para descobrir até onde ele iria. E ele foi. A mão arteira foi subindo joelho acima, por entre a parte interna de suas coxas, até chegar à calcinha. Que ele habilmente afastou a fim de poder manipulá-la. Ela ficou excitada como raras vezes na vida. Quando o chefe se despediu e saiu, entregou-se ali mesmo, no chão do escritório, onde experimentou uma inédita sucessão de orgasmos.”

Postado por David

Café TVCOM

27 de outubro de 2008 2

Confira o programa Café TVCOM exibido no último final de semana:

Postado por David

Rangidos e canais

25 de outubro de 2008 18

Tenho uma botina que eu gosto. Uma botina marrom de couro de algo que, suspeito, seja búfalo. Semana passada, calcei essa botina e saí, tranqüilão. Quando ia chegando ao jornal, percebi que minha botina rangia. Inhec, inhec. Chato. Cada passo um inhec. Achei que ia parar de ranger com o passar do dia, mas não. Pisava no chão, ela gemia. Aquilo foi me incomodando. Parecia que todas as pessoas me olhavam, quando caminhava. Alguns talvez rissem. Malditos. Assim, rangi o dia inteiro, irritantemente.

No dia seguinte, calcei outra botina. E não é que ela rangia também! Rangi até a noite com a segunda botina. Não conseguia me concentrar, quando caminhava. Cheguei a dizer para algumas pessoas:

– Desculpa, viu? É a botina.

Elas me olhavam perplexas.

Aquela rangeção toda, francamente. No terceiro dia, coloquei um tênis. Que rangia! Por Deus!

Cheguei à conclusão de que estou rangendo.

É isso, e é triste: eu ranjo.

Dias depois de constatar meu ranger, aconteceu o seguinte com a minha pessoa: dor de dente. É importante deixar claro que não pode eu ter dor de dente. É proibido. Em primeiro lugar, porque ter dor de dente é um troço muito chinelo. Não é coisa de um cara sofisticado como eu. Em segundo, porque é injustiça. Escovo os dentes depois de cada cafezinho. Isso significa no mínimo uma dúzia de escovações diárias. Então, é absurdo eu ter dor de dente.

Mas tive.

Durante cinco dias, sofri com uma latejante dor no lado direito da boca. Não tinha cárie, não tinha nada aparente. O que é que tinha? Algo solerte e misterioso, difícil de ser descoberto: problema de canal. Como uma pessoa pode prevenir problema de canal? Aí é que está: ao que saiba, não pode. O que me conduz à pergunta: por que um ser humano tem problema de canal, se ele não cometeu nada de errado para tê-lo? Que circunstância ou entidade decidem que ele terá problema de canal? E um ser humano que, além de ter problema de canal, range, o que há com ele? Sim, por que algo deve haver!

Nos estertores da dor e do rangimento, concluí que só podia estar sendo perseguido pelo Senhor. Afinal, quem ou o que mais teria poder para infligir-me aquele Mal? Ou: males. Evidente que era Ele. “O que fiz?”, perguntava eu, olhos postos no firmamento. “Acaso tenho cometido pecados?” Bem, talvez até cometa algum, vez em quando, mas, pô, canal??? Rangimento??? Não é justo!

Assim fiquei pensando, até entregar-me às mãos competentes de uma equipe de dentistas que me salvaram da dor. Aí tudo mudou. Tornei-me racional outra vez. Percebi que estava me comportando como aqueles jogadores que fazem um gol e atiram os braços para o alto e o atribuem ao Senhor. Compreendi que Ele deve ter outros problemas com os quais lidar, como a fome na África, por exemplo. O meu dente e as vitórias futebolísticas muito provavelmente estão fora das preocupações divinas. É assim: sem as dores e sem as paixões, o que prevalece é a inteligência. Com a inteligência, tudo é mais sereno, tudo é mais fácil. Tudo é explicável. Menos o meu rangimento. Por que, por todas as maravilhas da ortopedia, continuo a ranger.

O que resta ao Grêmio

O que mais se perde, com a derrota, nem são os pontos na tabela: são as certezas. E tudo fica gelatinoso e esfumaçado, num time sem certezas. O Grêmio perdeu as suas, com os reveses do segundo turno. Mas algumas restaram. Quais?

1. A estrutura do meio-campo. Celso Roth não pode, de jeito algum, mexer no tripé Rafael Carioca, William Magrão e Tcheco, nesta ordem inamovível.

2. Os três zagueiros, quaisquer que sejam.

3. Reinaldo. É o melhor atacante do Grêmio.

Acrescente-se Felipe Mattioni na lateral-direita, o que sobra? Talvez Souza na ala esquerda, por que não? E não é de se descartar Douglas Costa no ataque. Ele não é como Roger, um meia enfiador de bola, que precisa jogar na intermediária; nem como Souza, um armador. Não. Douglas Costa tem drible e chute. Pode jogar na frente.

Há 10 anos, Roth lançou Ronaldinho; agora lançará Douglas Costa. Já é um currículo.

*Texto publicado da edição dominical de Zero Hora de 25/10/2008.

Postado por David Coimbra

Jô na Estrada - capítulo 16

24 de outubro de 2008 40

Em voz baixa, olhando para os lados, desconfiada, cheia de pausas e reticências, Ana Paula começou a contar o que se passava com ela. Ao mudar-se para Florianópolis, de fato, ela havia arrumado emprego em uma agência de publicidade. Freqüentava festas, conhecia pessoas. Uma delas, Dob.

— Por que Dob? — perguntou, assim que um amigo o apresentou.

Ele não respondeu. Riu. Mudou de assunto. Mais tarde, ela descobriria com horror a razão do apelido. Naquele momento, o que lhe interessava era que Dob era um tipo atraente e, o melhor, interessante. Um homem de uns 40 anos, com algo de grisalho nas têmporas, magro mas com musculatura definida, cerca de um metro e oitenta de altura, sorridente e com uma luz selvagem no olhar castanho.

Dob vestia jeans importado e camisa branca para fora das calças. Calçava botinas e, no pulso, amarrara um relógio que devia ser mais caro do que o carro que Ana Paula dirigia pela Ilha. Disse ser empresário, dono de uma revenda de automóveis. Separado. Dois filhos. Passou a festa conversando com ela, conseguindo o que de melhor um homem pode conseguir com uma mulher, quando quer conquistá-la: fazendo-a rir.

No fim da noite, convidou-a para uma taça de champanhe em seu apartamento nos altos da Beira-Mar Norte. Aninha topou, por que não toparia? Ali estava um homem aparentemente confiável. Não um garotão: um homem de verdade. Ao entrar no apartamento e afundar os saltos dos escarpins no tapete de quatro dedos de altura da sala, Aninha abriu a boca, e abriu-a ainda mais, e continuou abrindo-a até exclamar:

— Noooossa…

Pela beleza da decoração da sala, sim, mas sobretudo pela vista. Os janelões escancaravam o mar que rugia mansinho, as pontes que ligavam a Ilha de Santa Catarina ao continente, a avenida iluminada que margeava a praia. Aninha sentiu-se bem naquele ambiente. Sentiu-se viva. Quando se voltou para comentar a beleza da paisagem, encontrou Dob parado, sorrindo, com uma taça de champanhe em cada mão.

Brindaram. Beberam de pé, admirando a natureza privilegiada de Florianópolis. Assim que ela experimentou o último gole, Dob retirou-lhe a taça e a beijou com intensidade. Em dois minutos, ele explorava seu pescoço, fazendo-a retorcer-se de prazer. Em cinco, sua blusa aterrissara no tapete. Em dez, os polegares e os indicadores dele pinçavam as alças de sua calcinha. Em quinze, ela própria fora alçada nua para seus braços fortes, e ele a carregou através do corredor até o quarto, e a depositou com carinho sobre o colchão, e a possuiu com violenta gentileza. Aninha acordou nua e saciada. Tomaram café olhando para o mar e, a partir daquele dia, não se desgrudaram mais.

Parecia perfeito, até que Aninha começou a descobrir quem na verdade ele era. Dob era um homem perigoso. O homem mais perigoso que ela já conhecera. A começar pelo apelido. Dob vinha de dobermann. Porque ele havia se tornado famoso por sua ferocidade.

Seus pais pertenciam à classe média-alta. Dob passara a infância e a juventude rodando de ano e sendo expulso de colégios particulares. Lutava jiu-jítsu e adorava experimentar novas técnicas de luta nos colegas de escola. Um dia, um garoto ousou assediar sua namorada. Não passava de um surfistinha de certa celebridade na escola. Dob esperou que ele saísse da aula. Arrastou-o para um terreno baldio. Surrou-o até que quase desfalecesse. Então, calçou uma soqueira de aço e anunciou:

— Tu é bonitinho, não é? Agora não vai ser mais.

E, sistematicamente, quebrou-lhe doze dentes, o nariz e o maxilar. Realmente, o garoto deixou de ser bonitinho.

Aos 20 anos, Dob ingressou no mundo das drogas. Primeiro como consumidor, depois como fornecedor. Descobriu que nascera para fazer isso. Eventuais concorrentes ou maus pagadores logo entendiam porque ele era um dobermann. Ninguém sabia quantos homens tinham desaparecido sob o patrocínio de Dob, mas todos conheciam sua marca: ácido. Dob sentia prazer quase sexual ao desfigurar o rosto de um desafeto.

Todas essas informações Ana Paula foi colhendo ao longo de meses, tempo em que ficou envolvida demais com Dob. Mesmo assim, cogitava de largá-lo. Mas não levava adiante a intenção por um único e sólido motivo: medo. Dob vivia repetindo, como uma ameaça:

— Nenhuma mulher me abandona. Nenhuma!

Ela entendia o que aquela frase significava. Mas planejava deixá-lo aos poucos, sem dor. Até que engravidou. Só que sua gravidez não era tão simples. Ao contrário: era muito, muitíssimo complicada. Era a razão de seu medo. Um medo que tinha razão de ser.

Por quê? O que deixava Ana Paula tão apavorada???
Saiba logo, no próximo capítulo de Jô na Estrada!

Postado por David

O doce sangue do outro

24 de outubro de 2008 66

O velório de Eloá/Reprodução, Globonews

Brasileiro adora um velório. Lógico, velórios são importantes, psicologicamente falando. Pois a história da vida de um homem é a história das suas perdas e, sobretudo, de como ele lida com elas.

No caso de uma morte, de resto uma perda bastante definitiva, o velório serve para que os vivos se acostumem com o (em geral) infausto ocorrido. É por isso que as pessoas devem passar pelo caixão e olhar para o morto. Para que sua mente registre: ele não fala mais, não se mexe, não respira; ele está morto. E não é por outro motivo que o homem pré-histórico já realizava funerais. A sabedoria ancestral.

Faz-se essa liturgia quando da morte de um ente querido. Um amigo. Um familiar. Ou um personagem público muito admirado. Vide os funerais de Aírton Senna, de Getúlio Vargas e de Tancredo Neves que mobilizaram o Brasil, ou o de Lady Di, que comoveu o planeta via satélite, ou o de Lincoln, que cruzou os Estados Unidos em cima do aço de trilhos de trem.

Certo. Mas como se explica 30 mil pessoas comparecerem ao sepultamento de uma desconhecida, como aquela menina que foi assassinada pelo namorado em São Paulo dias atrás? Aí a distorção nacional. O brasileiro tornou-se um consumidor de tragédias. Nada a ver com o gosto pela crônica policial, pelo mistério, nada disso. Eu mesmo sou um entusiasta da Editoria de Polícia, onde muito trabalhei, e com deleite. Porque, sempre digo, não existe nada mais humano do que um assassinato, e todo assassinato tem uma história interessante. Pode ser uma briga de bar — conte o dia em que a vítima acordou para morrer e que o assassino acordou para matar e, pronto, você tem uma bela página.

Mas o acompanhamento ansioso do enterro de uma vítima ou o consumo sôfrego de certas minúcias da tragédia, como se tem visto, isso foge do fascínio pelo mistério. E a volúpia pela desgraça alheia é tamanha que até o jornal televisivo mais respeitado do país, o Jornal Nacional, entrega-se à tentação de explorá-la. O que me decepciona, eu que sempre fui, e sou, admirador do Jornal Nacional. Há quem justifique que tal se dá devido à luta pela audiência medida minuto a minuto. Mas ainda acredito no jornalismo. Ainda creio que, a médio e longo prazo, o jornalismo sério tem mais audiência do que a apelação.

Enfim. A verdade é que os telejornais estão atendendo a um apelo do consumidor e o que me interessa aqui é saber por que o brasileiro se transformou nesse vampiro de controle remoto. Digo por quê: por causa do vazio. O sujeito atravessa seus dias num emprego monótono e as noites no cárcere de um apartamento de dois quartos dividido com a mulher e os três filhos, ele não sai de casa com medo da violência e não tem dinheiro para viajar, nem ler ele lê porque ninguém o ensinou a gostar de livros, e o pior: ele vive em algum lugar selvagem e árido como São Paulo. Quer dizer: a vida dele não tem sentido.

Assim, quando esse triste brasileiro encontra motivo para uma emoção poderosa e inofensiva, ele, de alguma forma, se realiza. Donde, 30 mil pessoas no enterro da menina desconhecida do subúrbio, uma multidão cevando suas próprias emoções rasteiras tirando fotos do caixão com seus celulares luminosos, chorando, escabelando-se, se desesperando. Vivendo, finalmente. As tragédias de telejornal são a salvação espiritual do brasileiro medíocre.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 15

23 de outubro de 2008 36

Sentada numa cabine telefônica no centro de Floripa, Jô estendeu sobre a mesinha à sua frente o pedaço de papel em que escrevera o número do telefone de Ana Paula. Esperava que a amiga ficasse entusiasmada ao ouvi-la. Mas não. Não foi alegria que percebeu na voz de Ana Paula, mas tensão.

— Jô… Onde você está, Jô?

Jô não entendeu a pergunta. Acabara de dizer que chegara à cidade.

— Aqui em Floripa, Aninha.

— Você… Está sozinha?

Ana Paula falava sussurrado, como se não quisesse que lhe ouvissem.

— Sim, sozinha. Lembra que contei que pensava em fazer essa viagem? Pois é o que estou fazendo!

Fazia pelo menos dois anos que Jô e Ana Paula não se viam pessoalmente, mas volta e meia falavam-se por telefone. Eram amigas de faculdade. Jô fizera jornalismo, Ana Paula publicidade. Saíam juntas, trocavam confissões.

Ana Paula era uma maluquete divertida, engraçada, sempre envolvida com homens, todos eles homens errados. Jô se divertia com as histórias dela, às vezes a apoiava, às vezes a censurava de leve, sem jamais levar as loucuras de Aninha a sério, porque na verdade não eram sérias, eram apenas inconseqüências. A amizade das duas se solidificou com os anos e não se abalou nem quando Ana Paula decidiu mudar-se para Florianópolis.

— Para fazer o quê? — perguntou Jô, já que a amiga só arrumava empregos subalternos de recepcionista ou secretária.

— Sei lá. Só sei que quero morar perto do mar.

Ana Paula mudou-se e, pelo que contava nas ligações, havia arranjado emprego numa agência de publicidade. Foi só para ela que Jô havia revelado seus planos de sair pelo país sozinha. Em Ana Paula confiava. E agora ela a recebia daquela forma. Muito estranho. Foi o que Jô lhe disse:

— Você está estanha…

Então lembrou que fazia pelo menos seis meses que não falava com ela. O que acontecera neste período? A voz de Aninha veio rouca e doentia do outro lado da linha:

— Jô… Você pode vir aqui?

— Claro! É para isso que estou ligando.

Ana Paula, sempre com a voz murmurada, forneceu-lhe o endereço na Praia Brava, no Norte da Ilha. Jô desligou. Ficou alguns segundos sentada, pensando, tentando entender o que se passava. Suspirou, enfim. Tirou o fone do gancho outra vez. Ligou para casa.

Sabia que Fábio não estaria lá àquela hora, mas os filhos sim. Sentia-se ansiosa. Como eles reagiriam? Jô havia dado poucas explicações a eles quando foi embora. Disse apenas que precisava de umas férias, de ficar sozinha por um tempo, e partiu. Para sua surpresa, Pedro mostrou-se ressentido e Alice a apoiou.

— Você não vai voltar mais, mãe? — choramingou o menino.

— Claro que vou, filho. É só um tempo de férias!

— Volta logo, mãnhê…

Alice, ao contrário, estava empolgada com a aventura materna:

— Queria estar contigo, mãe!

— Da próxima vez nós vamos juntas!

Antes de se despedir, Jô perguntou pelo marido. Alice garantiu que ele estava bem.

— Fica tranqüila, mãe. Aqui está tudo em ordem.

Era madura, a sua menina. Jô desligou o telefone sentindo-se em paz. Como amava seus filhos! Antes de rumar para o Norte da Ilha, para a Praia Brava, passou no Mercado Público. Queria ir a um lugar que conhecera havia algum tempo, o Box 32.

Ainda não era hora de beber chopes, mas Jô comprou um generoso naco de presunto pata negra. Tratava-se de um presunto especial. O porco passava a vida sendo alimentado com castanhas. Só comia castanhas. O resultado é que a carne ficava com um sabor de castanhas, uma delícia! Quando Fernando Henrique era presidente, provou uma porção de pata negra em sua visita ao Box 32 de Floripa. Gostou tanto, elogiou tanto o prato, que o proprietário do bar o presenteou com um pernil inteiro, embalado em papel alumínio. Fernando Henrique continuou seu roteiro pela Ilha e, na hora de embarcar de volta a Brasília, ia colocando o pé no avião, quando perguntou:

— Onde está o meu pernil?

Os assessores haviam esquecido o presente no Box 32. O presidente empacou. Disse que o avião só levantaria vôo com o pernil dentro. Os assessores tiveram de atravessar meia ilha e ir até o Centro para buscá-lo. Desde que soube dessa história, Jô passou a gostar ainda mais do pata negra. Comprou um bom pedaço para dá-lo de presente a Ana Paula.

Dirigiu mansamente até o Norte da Ilha. Ao chegar à Praia Brava, se espantou: o endereço que Ana Paula lhe fornecera era uma mansão. Não esperava por tamanha ostentação. Aquela casa não podia ser resultado do salário de uma agência. A não ser que ela fosse a dona!

Por um momento, Jô achou que um mordomo ou uma governanta fossem abrir a porta, mas quem apareceu foi a própria Ana Paula. Jô olhou para a amiga parada à soleira da porta e se espantou:

— Mas, Aninha… Você está… grávida?

A amiga estava grávida, mas sua aparência não era nada boa. Olheiras lilases lhe marcavam os olhos negros, o cabelo, também negro, caía-lhe espetado e cheio de pontas sobre os ombros. O rosto de Ana Paula, antes sempre tão vivaz e iluminado, agora tinha a pele seca, murcha e lívida. Aninha ficou parada à porta por alguns segundos, sem reação, até que falou, enfim. Na verdade, balbuciou:

— Jô…

— Aninha.

— Vamos sair daqui!

E caminhou para fora de casa, batendo a porta atrás dela.

— Aonde vamos? — Jô estava confusa.

— A um bar aqui perto. Onde está seu carro?

— Ali — Jô apontou para o carro branco estacionado em frente à casa.

— Vamos! — ordenou Ana Paula, quase correndo até o carro.

Entraram no carro e Jô, obedecendo às ordens de Ana Paula, dirigiu até o Bar do Pirata, à beira da praia. Sentaram-se a uma mesinha na areia. Jô pediu uma porção de torpedinhos de siri e uma capirinha.

— Cerveja para mim — pediu Ana Paula.

— Você não devia beber — disse Jô.

— Não importa — Ana Paula falava com uma ansiedade, com uma pressa, com uma angústia que angustiava Jô.

— O que está acontecendo? — Jô quis saber.

Ana Paula olhou para os lados antes de responder, como se temesse ser ouvida por alguém.

— Eu estou em perigo — falou, finalmente, debruçando-se sobre a mesa.

— Perigo?

— Perigo de morte! Eu e meu bebê podemos morrer… Assassinados…

E agora? Em que nova aventura Jô está se metendo? Saiba logo, no próximo capítulo de… Jô na Estrada!

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 14

22 de outubro de 2008 62

O primeiro passo foi o mais difícil. O primeiro passo sempre é o mais difícil. É assim que é: há que se tomar uma decisão, qualquer decisão, para ir-se em frente. Decisão tomada, Jô caminhou sem vacilar.

Enquanto avançava, seu corpo nu ia se desvelando para quem estivesse na praia. Quem, no caso, era um só. Aquele homem parado a metro e meio das roupas que ela deixara rojadas na areia. Os seios rijos de Jô já estavam à mostra, os bicos dos mamilos duros de frio. Gostava de seus seios, embora não fossem grandes. Eram empinados e macios. O marido brincava que cabiam à perfeição dentro da mão dele em concha. Agora era a barriga pétrea de Jô que surgia da água, seu umbigo pequeno, as curvas suaves de suas ancas.

Em seguida, o púbis quase sem pêlos, as coxas bem torneadas, as pernas compridas. A nudez de Jô ofereceu-se em toda a sua suntuosidade na areia. Ela marchava rumo às roupas. Ereta, decidida, sem medo do homem que a observava boquiaberto. Era um tipo escuro, barrigudo, de trinta e poucos anos. Estava sem camisa e descalço, com uma bermuda que lhe caía abaixo dos joelhos. No rosto levava uma expressão aparvalhada. Jô sentiu desprezo automático por ele. Não tenho medo de você, dizia para si mesma. Não tenho medo de nada!

Não sabia exatamente o que ia fazer, não tinha traçado planos ao dar o primeiro passo para fora d`água. Só sabia que não iria se intimidar com a presença do sujeito.

Então, algo aconteceu.

Um sorriso.

Dos beiços moles do homem brotou um sorriso de malícia. De deboche. Ele estava se divertindo com a cena. Aquilo a irritou. Jô rilhou os dentes e, a uns dez metros de distância, gritou com raiva:

— O que é que foi???

O homem levou as mãos à cintura, hesitante. Mas o sorriso débil continuava lá.

— O que foi??? — repetiu Jô, aos berros, avançando sempre.

Ele recuou um passo.

Jô sentia ódio daquele idiota. Por que ela não podia ter um momento só para ela? Por que não podia nadar nua numa praia deserta sem que um tarado imbecil ficasse olhando provocativamente? Achava que ela era uma vagabunda? Não! Ela não era uma vagabunda! Ela era apenas livre, era isso que ela queria ser e era isso que era! Sem que algum estúpido de bermudas lhe dissesse o que fazer, como fazer e quando fazer. Ela era livre, entende? Livre!

— Seu tarado! — gritou Jô, com fúria, correndo em direção a ele. — Tarado desgraçado!

O homem, surpreso com a reação dela, deu meia-volta e, primeiro, começou a andar, olhando por sobre os ombros. Como Jô continuasse gritando e avançando para ele, o homem desatou a correr.

— Maluca! — gritou, em fuga. — Maluca!

E desapareceu nos cômoros de areia. Ofegante, Jô parou sua corrida, colheu as roupas da areia e, ainda nua, voltou para casa. Maia a recebeu na varanda, de pé, com um pano de prato nas mãos.

— Que gritaria é essa? — perguntou, mais curiosa do que assustada.

— Um idiota. Botei ele pra correr — disse Jô, passando ao lado dela, nua, com as roupas na mão, rumando para dentro de casa.

— Fiz café para nós — gritou Maia.

— Ótimo — respondeu Jô, sem se virar. — Estou morta de fome.

Minutos depois, à mesa do café, Jô contou o ocorrido na praia. Maia divertiu-se muito com a reação da amiga.

— Essa viagem está fazendo você virar uma mulher perigosa — comentou.

— É verdade — concordou Jô, orgulhosa. — Sou uma mulher perigosa.

Passaram todo aquele dia na praia, bronzeando-se, bebericando caipirinha de vodca, conversando, tomando banho de mar. À noite, Maia cozinhou. Preparou uma delicada salada de camarões e abriu um vinho rosé gelado. De sobremesa, petit gateau. Terminado o jantar, Jô anunciou:

— Vou seguir viagem amanhã de manhã.

— Oh…

— Mas nós vamos nos reencontrar.

— Promete?

— Prometo. Vou passar em Floripa. Lá mora uma velha amiga minha, dos tempos de faculdade. Ana Paula. Uma louca, você tinha que conhecê-la. Vou ligar quando chegar lá. Acho que ela vai gostar da surpresa.

— Queria tanto que você ficasse…

— Nos vemos em São Paulo. Juro.

— Tá bom…

Conversaram durante toda a madrugada, sentadas na cama de casal do quarto. Adormeceram, enfim, e, como no dia anterior, acordaram aos primeiros raios de sol. Jô tomou banho, enfiou-se num vestidinho floreado e calçou All Stars brancos. Arrumou suas coisas. Colocou a mochila no carro. Maia caminhou até a varanda. Usava uma camiseta branca sobre a calcinha mínima. Estava descalça.

— Jô — chamou.

Jô foi até ela. Por algum motivo, o que Maia fez não a surpreendeu. A loira, mais alta do que ela, a enlaçou com os braços longos, puxou-a docemente e beijou-a na boca. Jô permitiu que a amiga enfiasse a língua entre seus dentes, sentiu-lhe a maciez dos lábios, uma maciez que um homem não podia ter, sentiu-lhe o cheiro de fêmea e o toque de pele contra pele. O beijo a excitou levemente. Quando se despegaram, Jô desceu os degraus do alpendre e entrou no carro.

— Nos vemos em São Paulo — gritou.

— Vou te esperar — respondeu a loira.

E Jô foi em frente, para mais uma etapa da sua aventura. Que você conhecerá em seguida, no próximo capítulo de… Jô na Estrada!

Postado por David

Jô!

22 de outubro de 2008 10

Em dois minutos, mais um excitante e emocionante capítulo de Jô na Estrada!!!

Dois minutos!
No máximo três.
Não passa de quatro.

Juro.

Postado por David, pingando o ponto final no capítulo de Jô