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Posts de outubro 2008

A bola não cai nunca

22 de outubro de 2008 8

Arte ZH

Aquele negão, a gente o chamava de Negão. Nem sei qual era o nome dele. Para todo mundo era Negão, ponto. Andava sempre descalço. No paralelepípedo quente do verão, na laje gelada do inverno, para o Negão tanto fazia. Caminhava impávido sobre pezões escanchados, do tamanho de cadernos de espiral. O Negão arrastava os pés até pelas rosetas afiadas dos morros do IAPI, imagina no areão, que era onde se dava a maioria das peladinhas. O areão ficava em frente ao Alim Pedro, ao lado do pedestal de pedra no qual devia estar fincada uma estátua de discóbolo. O discóbolo foi roubado por algum amante da arte grega que residia na vila, já contei essa história.

A turma chegava lá para jogar uma pelada, quatro contra quatro. Logo apareciam dois:

– Tem furo?

– Entra um pra cada lado.

Mais um:

– Tem furo?

– Entra nos sem camisa.

Quando a gente via, tinha 19 num time, 20 no outro. O jogo virava um mistifório, uma assuada, como diria o Mendes Ribeiro. Ninguém se entendia, a bola não parava, era canelada e cotovelaço e cascudo para todo lado, uma correria, um gritedo, a poeira do areão levantava do chão e não dava para ver nada do que acontecia. Mas às vezes até se via. Às vezes não jogava tanta gente assim. Numa dessas, o Negão estava jogando.

Aí aconteceu o lance.

Foi uma dividida. A bola quicou entre o Amilton Cavalo e o Negão. O Cavalo foi eqüinamente nela, foi com tudo, quase relinchando. Sei porque ele entrou desse jeito. É que ali adiante, sentadinhas numa elevada do Alim Pedro, como se fosse arquibancada, estavam Alice, Sândi e Débora, três das petúnias mais olorosas da Zona Norte de Porto Alegre. Nunca nenhuma mina ia ver nossos jogos, e naquele dia elas estavam lá, dentro das suas sainhas plissadas, torcendo por nós, emitindo gritinhos, jogando para o alto aqueles bracinhos delgados e macios, aiai... Por que estavam no campo, eis o mistério. Deviam estar voltando do colégio e pararam para se divertir gozando de nós, sabe-se lá. Seja. O certo é que Cavalo só podia entrar feito um animal na bola. Queria levantar a torcida inusitada. Mas o Negão ficou frio. Só esperandinho. Quando o Cavalo saltou sobre a bola, ele fez o seguinte: bateu na bola com aquela sua pata que era um paralelepípedo. Mas bateu com a sola dura do pé, fazendo a bola quicar de novo no chão de areia batida e subir outra vez. E subiu e subiu e subiu, percorrendo a altura do corpo do Cavalo e lhe penteou os cabelos pretos e o Cavalo se esticou todo, uff!, e jogou a cabeça para trás e não adiantou. Levou o balãozinho. O Negão saiu com ela todo pimpão do outro lado, para gáudio das gurias ali adiante. Qualquer pretensão amorosa do Cavalo se esboroou com aquele chapéu humilhante. 

Vou dizer: o Negão jogava num time profissional de hoje, juro que jogava. Bom de bola. Tinha técnica. Ou, pelo menos, ele faria aqueles truques circenses que os jogadores modernos adoram fazer.

Foi o Batista quem chamou a atenção sobre isso, no Bate Bola de domingo passado, na TV Com. O torcedor liga a TV e vê o treino da Seleção Brasileira. Os jogadores estão lá, brincando com a bola. Equilibram a bola na cabeça, no calcanhar, no joelho, na nuca, nos ombros, na orelha, passam a bola um para o outro sempre no ar, aquela bola não cai nunca. Aí o torcedor pensa: na hora do jogo, eles vão fazer aquilo tudo, é impossível um ser humano normal roubar a bola de um artista desses, brasileiro com uma bola no peito, em vez de coração. Mas, em campo, qualquer colombiano vai lá e complica. Como pode? O torcedor fica perplexo, a imprensa critica, o Dunga explica:

– É que eles jogaram com duas linhas de quatro...

O que simplifica a vida: da próxima vez que um técnico anunciar que vai jogar com duas linhas de quatro, os times não precisam nem entrar em campo: é zero a zero, está tudo combinado, um ponto para cada um, não precisa mais incomodação. Agora, se o Negão jogasse na Seleção não seria assim. O Amilton Cavalo que o diga.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

Polêmica, polêmica e mais polêmica

21 de outubro de 2008 74

As aventuras de Jô estão realmente mexendo com a cabeça da turma. Vejam esse novo embate e me digam quem tem razão!

"Palhaçada. Agora vai promover a prostituição? Pois é, que mal pode haver nisso? Todo o mal possível. Pelo jeito não existem mais valores aos quais seguir, é inacreditável como tem gente que acha isso normal e que concorda que a Jô deve seguir esse caminho. Imaginem se a Jô fosse, não a esposa — pois, pelo jeito, a maioria não dá bola para esposas —, mas a mãe ou irmã de vocês? Apoiariam também? Achariam lindo? Pelo amor de Deus, como pode haver tanto egoísmo em querer satisfazer apenas o seu próprio prazer? E pagando por ele."
Leandro, de São Leopoldo (RS)

"Acho o Leandro muito radical. Qual é o problema de minha irmã, ou minha mãe, fazerem um programinha? Tudo depende do ponto-de-vista ou da circunstância. Um filósofo já dizia que somos mais produtos de nossa circunstância do que da nossa vontade. Ademais, sexo é uma coisa, amor é outra, bem diferente. Podemos ter amor por alguém e estarmos impossibilitados de fazer sexo com este alguém; podemos fazer sexo com uma pessoa mas não termos amor por ela. Nessa área existem convenções. E convenções se modificam."
Marcelo II, de Porto Alegre (RS)

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 13

21 de outubro de 2008 55

Durante toda a vida, Jô pensara sobre esse assunto. Prostituição. Não que fosse algo que a obcecasse ou que minimamente a preocupasse, nada disso. Tratava-se apenas de uma fantasia recorrente.

Aquilo que Maia falara acerca do desejo animal dos homens, saber que podia ser capaz de despertar instintos tão básicos que um homem a possuiria sem sequer conhecê-la ou conhecer o seu nome, andar por um lugar seminua e ser avaliada pelos machos como uma escrava à venda, para ser tomada e usada de todas as formas, tudo era muito sensual, tudo era muito carnal, fazia-a sentir-se fêmea, mais até do que mulher. Quando alimentava essas fantasias secretas, ela repetia baixinho para si mesma:

— Queria ser uma cadela... Uma cadela...

Mas não passavam de fantasias. Jô nunca sequer cogitara de levá-las em prática. E agora vinha Maia com idéias...

Jô sempre fora comportada, sexualmente falando. Mesmo com o marido. Quando namoravam até cometiam suas loucuras, mas naquela época ela era muito jovem, não conseguia aproveitar todas as suas possibilidades.

Depois, quando ficou mais madura, quando estava preparada para se soltar e voar, o fogo entre eles havia se extinguido, o sexo tornara-se burocrático. Jô se conformava. Concentrava-se nos filhos, na vida familiar, nas saídas com os amigos, nos exercícios na academia, no seu trabalho, nas suas leituras...

Será que Fábio transava com outras? Será que freqüentava prostitutas? Jô tentava não pensar nisso, mas, quando a questão surgia em seu cérebro, convencia-se de que sim. Ele devia ir a boates escusas. Preferia não saber sobre essas intimidades do marido. Preferia não saber sobre sua vida sexual. Desde que ele tomasse seus cuidados, evidentemente.

E ela?... Bem, agora ela estava livre, pelo menos por enquanto, durante a sua aventura na estrada. Podia fazer o que quisesse, como quisesse, quando quisesse. Estava sozinha e livre. Mas aquilo que lhe propunha Maia... Talvez fosse demais. Porque, certas fantasias se perdem, se são realizadas. Certas fantasias só são excitantes enquanto são fantasias. Se deixam de ser fantasias podem nos profanar. Jô não queria cruzar certos limites. Não.

Ou será que deveria? Será que não era seguro? Maia garantia que sim. Ela permaneceria incógnita, num lugar desconhecido, de máscara, o que era ainda mais excitante. Será que deveria? Olhou para a amiga deitada ao lado dela, na rede. Respirou fundo.

— Maia — disse afinal, e a outra se empertigou com alguma dificuldade. — Eu não vou ficar dez dias aqui.

— Por que não? — protestou Maia.

— Calma — tocou no ombro da loira. — Tenho que seguir minha viagem. Vou ficar mais um tempo, depois vou adiante. Mas tem uma coisa: vou passar em São Paulo.

Maia sorriu:

— Vai me visitar?

— Vou.

— Promete?

— Prometo.

— Ai, que maravilha! Aí você vai lá comigo. No meu... trabalho, digo.

— Não sei. Neste caso, não prometo nada. Vou pensar, está bem?

— Mas você vai ficar lá em casa comigo pelo menos alguns dias.

— Isso eu vou.

— Ah, então já está bom.

Maia ergueu o torso e beijou-a no rosto. Depois, aninhou-se contra seu corpo. Jô permitiu que ela se aconchegasse e, com o pé, impulsionou a rede de leve. Ficaram assim, quietas, em silêncio, embalando-se docentemente, ouvindo o bramido do oceano, até que adormeceram.

Jô despertou com as primeiras luzes da manhã. Maia dormira com a cabeça recostada em seu peito, como ela, Jô, às vezes fazia com o marido Fábio. Afastou a cabeça loira da amiga gentilmente, cuidando para não acordá-la. Levantou-se da rede. Espreguiçou-se. Caminhou até a parte da frente da casa.

O mar imenso abria-se diante dela. Jô inalou o ar marinho com vontade. Levantou o queixo para o céu. Olhou para o sol que nascia no horizonte. Pôs os pés descalços na areia. Caminhou alguns metros em direção ao mar que quebrava na areia. A manhã estava quente e fresca ao mesmo tempo.

Então, fez algo que há muito tempo queria fazer, algo com que sonhava desde a adolescência. Tirou toda a roupa e entrou nua no Oceano Atlântico. Pulou uma onda, outra e atirou-se n`água, enfim. Nadou gostosamente. Sentia-se feliz, feliz... Era livre como um bicho. Como um ser humano deve ser.

Nadava e boiava, sentia os raios do sol e a água acariciando seu corpo nu, e assim permaneceu durante algum tempo. Quanto, não sabe. Meia hora, talvez? Uma? Quando decidiu sair do mar, a surpresa. Havia um homem parado na praia, de pé, próximo às suas roupas. O homem a observava, era evidente. Quanto tempo devia estar ali? Jô ficou parada, de pé na areia, a nudez coberta pelo mar, indecisa.

E agora? O que acontecerá com nossa heroína nua?
O que você, leitorinha, faria se fosse a Jô? E você, leitorinho, o que faria se fosse o homem que encontrou a beldade nua na água???
Vá respondendo, enquanto aguarda pelo próximo capítulo de Jô na Estrada!

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 12

20 de outubro de 2008 44

Depois de cerveja e fritura, um pouco de sofisticação, afinal. Maia puxou da geladeira uma garrafa de champanhe gelada e um pote de morangos frescos.

Estavam as duas amigas de banho tomado, sentindo as peles macias de cremes hidratantes. Jô vestia um short leve de malha, branco, e uma blusinha azul-clara de alças. Calçava uma rasteirinha que o marido Fábio odiava e ela adorava. Maia metera-se num vestido curto, amarelo, que destacava seu bronzeado, e nada nos pés delgados.

— Adoro andar descalça — justificou.

Sentaram-se frente a frente em redes estendidas na varanda, entre os pilares que sustentavam o telhado e a parede da frente da casa. O calor da noite era aliviado pela brisa que soprava do mar. Maia falava com voz musical, quase infantil. Jô, que tinha a voz um pouco rouca, gostaria de falar daquele jeito. Imaginou que os homens deveriam tremer de paixão só de ouvir Maia falar.

Ouvia-a com atenção, sorvendo pequenos goles de champanhe, mordiscando os morangos. Maia parecia muito sincera. O lugar em que trabalhava, contou, era especial. Não se tratava de uma dessas boates comuns, que são encontradas nas avenidas suspeitas das grandes cidades. Não. Era fechado, privado, exclusivo, freqüentado apenas pela elite de São Paulo, o que significava a elite do país. As meninas eram modelos e jovens atrizes em busca de complementação da renda e mulheres casadas que escapavam durante a tarde à caça de aventuras. Algumas, para preservar a identidade, usavam máscaras.

— Eu nem precisava botar máscara — disse Maia. — Mas botei. Sabe como circulo pelo lugar? Com umas botas de salto alto e cano até aqui — agarrou a coxa com a curva feita pelo polegar e o indicador — um biquíni menor do que estava usando hoje e máscara. Só.

— Uau!

— Ah, e peruca preta.

— Puxa...

— Olha: gosto de ver um homem alucinado por mim. De sentir o desejo dele. Não sei se você entende, Jô: é o desejo pelo desejo. É um homem olhar para o seu corpo e querê-la tanto, e sentir tanto tesão, que paga mil reais para ficar uma hora com você.

— Acho que entendo...

— No começo, confesso que tive medo. Minha amiga dizia que era tranqüilo, que eu podia até escolher o homem com quem ficar. Se não o quisesse, podia dar uma desculpa, dizer que um outro cliente estava me esperando, e fugir. Mesmo assim, eu sentia medo. Podia pegar algum grosseirão, sabe-se lá. Mas até hoje tive sorte. Está certo que escolho: se o sujeito está muito bêbado, por exemplo, eu caio fora. Mas tenho pego homens decentes.

— Sorte mesmo, porque tem muito cafajeste por aí. Muito idiota.

— É que o lugar é muito bom.

— Como foi o primeiro dia?

— Ah, no primeiro dia não usei biquíni. Usei uma minissaia. Estava muito nervosa. Pedi pra minha amiga não sair de perto de mim. Ela foi a minha guia, a minha mestra. Praticamente escolheu o homem com quem eu ia ficar. Um sujeito de uns 45 anos, um empresário, bem vestido, simpático, bonito. Eu tremia quando fomos para o quarto. Mas ele foi legal, me tratou com carinho. Depois, contou que sabia que aquela era a minha primeira noite, minha amiga havia contado para ele. Acabou sendo legal, amiga. Claro, não quero ficar fazendo isso pra sempre, só até completar minhas economias.

Jô mal respirava, ao ouvir a história de sua nova amiga. Não conseguia imaginar que havia um mundo como aquele, de mulheres de nível, inteligentes como Maia, seminuas e mascaradas, entregando-se por algumas centenas de reais. Para ela, as prostitutas eram todas umas pobrezinhas do Interior, que tinham desembarcado na rodoviária sem saber o que fazer na cidade grande.

— Me diz uma coisa... — ficou em dúvida. Será que Maia ia se ofender com a pergunta?... Bom, ela estava sendo tão franca...

— O que é?

— Qual foi a maior quantidade de homens com quem você deitou numa só noite?

Maia não pareceu nem um pouco incomodada com a pergunta.

— Ah, normalmente eu só faço um programa por noite. Mas uma vez fiz três... Menina, fiquei exausta. — Maia apertou os braços contra o corpo. — Você não está com frio?

Realmente, a brisa ficara mais fresca, Jô volta e meia sentia arrepios.

— Estou.

— Espera um minuto.

Maia correu para dentro de casa e voltou com uma colcha. Sentou-se na mesma rede de Jô e cobriu a ambas.

— Agora, sim — sorriu Maia.

— Ficou melhor — concordou Jô, sentindo o calor do corpo da amiga e da colcha.

Embalaram-se em silêncio por alguns segundos, ouvindo o barulho do mar.

— Estava pensando... — Maia falou, afinal.

— Quê?...

— Estava olhando para você na praia.

— Que é que tem?

— Você é muito bonita.

— Obrigada.

— Sabe... Você se daria bem lá em São Paulo.

Jô se aprumou.

— Como assim?

— Na casa em que eu trabalho.

— Você diz... Eu... fazer programa?

— Claro! Por que não? A gente faz essas coisas de graça. Por que não cobrar?

Jô abriu a boca, pasmada. Imaginou-se caminhando por um lugar mal iluminado, vestida só de lingerie e saltos altos, entregando-se a um desconhecido. Seria capaz de tal loucura?

— Não quer tentar? — insistia Maia. — Só por uma noite! Que mal tem? Ninguém vai reconhecê-la, você pode usar uma peruca loira e uma máscara. E lentes de contato azuis! Vai ser divertido, Jô!

E agora? O que responderá Jô???
Tornar-se-á ela uma mulher da vida? Uma mulher-dama? Uma cortesã?
Saiba logo, no próximo capítulo de Jô na Estrada!

Postado por David

Os radialistas

18 de outubro de 2008 12


Fui editor-chefe de uma rádio de Santa Catarina, em priscas eras. Num sábado de manhã, a emissora quase vazia, uma atração qualquer caiu por algum motivo e abriu-se um rombo de meia hora na programação. SACRAMENTO! E agora? Corri para a redação a fim de encontrar alguém a quem dar o microfone, enquanto o operador ficou enfileirando comerciais. Nos corredores, deparei com um velho radialista. Dante Bragatto Netto. Magro, moreno, usava o cabelo tipo mullet. Manja mullet? Aquele rabo do Roberto Carlos e do Chitãozinho. Ou do Xororó, não sei. Seja. O cabelo do Dante era assim. Nem era velho. Uns 45 anos, talvez menos. Sua antigüidade era do rádio. Fazia futebol, apresentava programas populares e tudo mais. Naquela manhã, sorvia cafezinho em um copo plástico e charlava com a telefonista, escorado na guarda da porta.

– Dante! – Chamei. – Seguinte, meu: vai pra praça entrevistar alguém, contar o que está acontecendo lá, falar qualquer coisa, que vou te chamar do estúdio, está bem?

Ele largou o copinho de café sobre a mesa da telefonista.

– Qualquer coisa? – perguntou. – Por quanto tempo?

– Qualquer coisa. Por meia hora – e para consolá-lo, tentei argumentar: – Sei que é difícil, é trabalho duro, mas é que a programação...

– Meia hora... – ele me interrompeu. Não estava me ouvindo. Olhava para cima, sorrindo, sonhador. – Meia hora só para mim! – exclamou, afinal. E dando-me as costas: – Estou indo já!

E se foi, faceiro porque ia poder falar sozinho durante 30 minutos.

 

***

É o que me encanta nos radialistas. A energia que têm. O Alexandre Fetter, por exemplo. Você ouve o Fetter anunciando:

– E agora a rapaziada do Pretinho Básico.

Não tem nada de especial nesta frase. O rapaziada bem que lhe crava um acento juvenil, mas, de resto, trata-se de uma sentença trivial. Nem verbo tem. Mas o Fetter lhe dá uma entonação pulsante de significado:

– E agora a rrrrrrrapaziada do Pretchinho Báááááásicooooo!!!

O sujeito pensa: eu preciso ouvir o Pretinho Básico! E ouve.

É por isso que o Fetter, nos seus tempos de solteiro, em que era livre como uma cotovia, quando podia fazer o que bem entendesse e como entendesse, sem dar satisfações a ninguém, quando as madrugadas eram feéricas e as manhãs ignoradas, quando tudo era festa e prazeres, é por isso que nestes tempos o Fetter seduzia mulheres às catadupas. Bastava-lhe emprestar certa inflexão à voz e as fêmeas de pernas mais longas e macias e nádegas mais empinadas e seios mais rijos e bocas mais carnudas caíam-lhe sobre os joelhos chamando-o de paizinho. Hoje, tudo acabou. Hoje o Fetter é casado, bem casado, totalmente casado, um dos caras mais casados que já conheci, e, o realmente relevante, feliz.

***

Mas me referia à energia e à verve dos radialistas. Agora referir-me-ei à contundência deles. Alguns têm a capacidade de transformar o microfone em aguilhão. O Macedão, da Gaúcha, quando o assunto é pedregoso, paro tudo para ouvi-lo. Sei que será incisivo e preciso como um bisturi.

O Nando Gross, meu amigo e colega de Bate Bola, é de estilo semelhante. Por conta disso, dias atrás ele protagonizou um dos grandes momentos do rádio. Participou de uma entrevista com o tal procurador do STJD, Paulo Schmitt. O Nando foi cercando o procurador, acuando-o, prensando-o, até que o procurador começou a espirrar. Das tantas preciosidades que disse, duas foram gemas raras. Uma: o procurador se confessou grato por toda a vida ao ex-presidente do STJD, Luiz Zveiter, por ele o ter levado para o tribunal. O que causa estranheza é o seguinte: por que tamanha gratidão? Por que é tão bom trabalhar no STJD? E, se é tão importante assim ser integrante do STJD, isso não torna o integrante suscetível à pressão? Hmm...

Mas o melhor foi quando o procurador falou do Brasileirão de 2005, quando o Inter foi prejudicado pela anulação de 11 jogos do campeonato. Segundo o procurador, foi bom para o Inter ter perdido aquele Brasileiro, porque no ano seguinte o time foi campeão do mundo. Ora, se um fato tem relação com outro, qual foi a causa da conquista mundial do Inter? Foi Deus quem compensou uma injustiça com um prêmio maior? É isso que o procurador está dizendo? Que ele tem informações sobre os desígnios Dele? Do Senhor? Não pode ser. O poder do STJD é imenso, mas duvido que chegue a essas altíssimas esferas. Então, por que a derrota de 2005 originou a vitória de 2006? O Inter foi beneficiado pela Fifa e pela Sul-Americana? A Libertadores e o Mundial foram roubados? É isso que o procurador quis dizer???

Foi bonito ter ouvido o procurador assim espremido. Façanha que tal só mesmo por obra da energia, da verve, da contundência de quem nasceu para ser radialista.

 

*Texto publicado na edição dominical de Zero Hora.

Postado por David

Mais polêmica!!!

17 de outubro de 2008 143

Esse folhetim está rendendo discussão mesmo. O leitorinho Rafael, em resumo, disse que as mulheres nasceram para ser traídas e os homens para trair. As mulheres protestaram. Ele respondeu:

"Desculpa, meninas. Apenas emiti minha opinião. Gosto da ingenuidade de vocês justamente por ela nos proporcionar diversões com meus amigos. Sei que vocês não gostam disso que eu falei, mas mulher não nasceu para trair, e sim para ser traída. Não sou só eu que digo isso, todos os homens concordam comigo. Deixem a gente trair, que vocês serão melhor tratadas por nós. Beijos!! Parabéns pelo seu trabalho, David."

Agora pergunto para homens e mulheres: o Rafael pode ter alguma razão no que diz?

Postado por David

Jô na Estrada - capítulo 11

17 de outubro de 2008 22

A mão de Maia era macia. Acariciava com gentileza infinita a mão suada de Jô. Isso a irritava, à Jô: o suor somado ao toque. Era um problema que tinha. Suava com abundância em mãos e pés, e quase que só em mãos e pés.

Quando alguém queria apertar-lhe a mão em cumprimento, Jô se agastava de leve, tentava esquivar-se, trocar o cumprimento por um abraço, um beijo, um toque no ombro, tudo para que a outra mão sentisse o seu suor. Maia parecia não sentir. Premia-lhe a mão com suavidade e sorria com seus dentes resplandecentes sem falar o que pretendia propor e o que desejava confessar.

Jô puxou a mão à guisa de agarrar o copo de cerveja. Bebeu um gole. Estava definitivamente tonta.

— O que você quer falar? — perguntou.

Maia empertigou-se. Grudou as costas no encosto da cadeira.

— Em primeiro lugar, a proposta.

Jô abriu mais os olhos, curiosa.

— É o seguinte: eu aluguei uma casinha aqui na beira da praia. Estou sozinha ali por dez dias e tenho mais dez já pagos. Que tal passarmos esses dez juntas?

Jô ficou em dúvida. Não achava ruim a idéia de dividir uma casa com ela, mas será que havia alguma conotação sexual na proposta? Não tinha nada contra gays, mas ela não era uma, não mesmo. Gostava de homem, embora até então houvesse experimentado apenas um deles.

Maia parecia uma boa pessoa e também parecia ser de confiança, mas, ora, Jô havia bebido, sua capacidade de julgamento estava afetada. Além disso, recém tinham se conhecido, sabe-se lá o que a outra poderia ser ou querer. Decidiu dar-se mais um tempo para se decidir. O tempo de ouvir a confissão a que Maia se referia.

— O que você queria confessar?

— A confissão... — Maia sorriu. Suspirou. — Bom. Como já disse, sou carioca. Algum tempo atrás uma amiga minha arranjou trabalho em São Paulo. Nas férias, ela voltou ao Rio e nós nos encontramos. Ela estava ótima, com carro novo, havia dado entrada em um apartamento e vestia roupas lindas. Disse que ganhava muito bem. Estranhei, porque ela não tinha nenhuma profissão. Aí ela me contou o que fazia.

Jô pressentiu o que viria a seguir.

— Ela era prostituta? — arriscou.

Maia abriu ainda mais o sorriso.

— De luxo.

Jô piscou. Começava a entender a coisa. Ela, Maia, devia ter sido convidada pela amiga para fazer o mesmo, e aceitara.

— E você também é — acrescentou.

— Sou — disse Maia, sem vacilar. — Ela me convenceu a experimentar. "A gente fica com esses caras de graça, por que não receber pra isso?", perguntou. Achei que era um raciocínio interessante e topei ir lá uma vez. Acabei ficando. E aí? Agora você não vai aceitar o meu convite e dividir a casa comigo?

Jô bebeu mais um gole. Ela realmente não condenava Maia, não achava ruim o que ela fazia. Ao contrário: interessou-se pela história da outra. Queria saber mais.

— Você está enganada — falou. — Vamos para a sua casa. Vou adorar ouvir as suas histórias.

— Ai, que maravilha! — Maia tomou sua mão mais uma vez, para desagrado de Jô. — Vamos, então! Temos muito a conversar!

— Vamos!

Uau! O que será que aconteceu na casa de Maia? Saiba loguinho, no próximo capítulo de... Jô na Estrada!

Postado por David

Compaixão

17 de outubro de 2008 34

Contaram-me a história do Seu João, dias atrás, e desde então tenho pensado no que ouvi. Conheci o seu João. Trabalhava como zelador de um prédio em que morei, há alguns anos. Um homem de uns 60 anos, quieto e cordial. Vivia sozinho no apartamento que o condomínio lhe havia cedido. Seu João não tinha família, nem amigos fora do edifício. Estava sempre lá, dia e noite, de segunda a segunda.

Um dia, a síndica decidiu que o prédio não precisava mais de um zelador fixo e o demitiu. De um golpe, seu João ficou sem o trabalho, sem a casa em que morava e, provavelmente, sem todas as pessoas com quem travava relações minimamente amistosas. Comunicado da demissão e do despejo, seu João recolheu-se no fim da tarde ao pequeno apartamento que teria de deixar em determinado prazo. De lá não mais saiu. Naquela noite, ele morreu do coração. 

É claro que a síndica não tem culpa alguma pela morte do seu João, e é claro que ela devia ter sólidas razões para demiti-lo. O que me espantou foi como reagiram algumas pessoas quando lhes contei a história e disse-lhes qual era a minha conclusão. Supus que a demissão provavelmente foi abrupta e imaginei se o condomínio não poderia ter feito uma proposta intermediária ao velho zelador. Bem. Essas pessoas a que me refiro acharam que a síndica não teria de fazer nenhuma concessão ao seu João. Que, se ela concluísse, como concluiu, que a demissão devia ser sumária, tinha de demiti-lo sumariamente, como demitiu.

Repito: não estou criticando ou julgando a síndica, até porque ela pode muito bem ter procedido da maneira como eu considerava correta. Estou criticando e julgando a reação dessas pessoas, que, inclusive, nem foram tantas assim; foram duas. É que esse tipo de reação representa uma postura bastante característica do nosso tempo.

Representa a falta de compaixão.

Nos casos de demissão isso é ainda mais flagrante. Não são poucos os chefes, chefetes, executivos e administradores que conheço que se orgulham de demitir gente. Empinam o nariz e suspiram:

– Às vezes é preciso ser duro.

– Fiz o que devia ser feito.

E quando alguém sofre um acidente ou se dá mal por algum motivo o que mais se ouve é:

– Também... Ele mereceu!

As pessoas sempre encontram justificativa para não ter compaixão. 

Na sessão de autógrafos dos meus livros Cris, a Fera e Meu Guri, terça-feira, uma leitora se aproximou e disse algo que me enterneceu:

– Eu percebo que tu és uma pessoa boa.

Não que eu seja tão sensível a elogios, nem que concorde com a gentil leitora, mas não conheço nada mais belo para se dizer a alguém.

Você é uma boa pessoa. É o mesmo que dizer que essa pessoa tem compaixão. Gostaria de realmente ter compaixão. Gostaria de que realmente houvesse mais compaixão por ai.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do tempo

16 de outubro de 2008 17

Catarina de Médicis: ela inventou a calcinha/Reprodução

Recebi esse imeil da Catarina Wey, e atendo abaixo o pedido dela. O texto é da época em que o meu filhinho, o Bernardo, estava para nascer. Minha dúvida era sobre qual nome ele receberia. Ó:

"David querido,

Leio seu blog todos os dias e quero fazer um pedido para o Túnel de Tempo, para aumentar minha auto-estima. Queria que você colocasse no blog o texto sobre as Catarinas importantes da história.

Hoje no trabalho um dos vendedores da "firma" veio falar comigo e me perguntou se o meu nome era Catarina mesmo, se eu não tinha outro nome. Respondi que não, que esse era mesmo meu nome, e então ele respondeu: "É, minha mãe também tem um nome feio assim: Leonina."

Fiquei muito braba, mas nem respondi. Na hora me lembrei de que meu namorado, uma vez, me comentou sobre um texto seu falando sobre as Catarinas. Pode colocar ele no blog pra eu ficar melhor? Adoro meu nome, muitas vezes recebi elogios por causa dele, mas de vez em quando acontecem coisinhas desse tipo."

Nomes de homem

Cara, escolher nome de filho homem é difícil. De mulher é um açucrinha, existe muito nome bonito de mulher por aí. Inclusive tinha já pensado em Catarina, gosto de algumas Catarinas da História.

A primeira, Catarina de Médicis, inventou a calcinha, o que é, realmente, uma contribuição decisiva para a felicidade da raça humana. A segunda, Catarina, a Grande, foi grande mesmo: superou até a indiferença do marido, o czar Pedro, tipo meio distraído em questões sexuais. Catarina aplicou-lhe um passa-pé, tornou-se a imperatriz da Rússia e governou com muita autoridade durante 30 anos.

Seria Catarina, pois, se fosse menina. Mas será menino. Deu na ecografia. Apesar de isso de ecografia ser como religião — é preciso ter fé. A médica mostra ali uma figura disforme e diz:

— Isso aqui é o baço. E isso é o fígado. E ali está o coração.

Você olha e balança a cabeça:

— É mesmo, bem direitinho!

Mas está dizendo aquilo só para não parecer uma besta que não entende nada de gestações. Na verdade, as figuras são todas iguais. Se ela mostrasse um rim e dissesse que era uma vesícula, você também concordaria:

— É verdade! Que perfeição! Que ciência!

Então, a médica disse que é menino e eu acredito. O que leva ao problema do nome. Pensei no nome do meu pai, um nome alegretense. Nome de macho: Gaudêncio. Não foi bem aceito. Corri grave risco de separação, se insistisse. Quanta incompreensão. Gaudêncio. Um nome tão viril. Tem até aquela linda música gaudéria, Gaudêncio Sete Luas.

Além disso, os homens gostam de botar nos filhos os nomes de seus pais. Ou nomes que combinam com os nomes dos pais. Conheço um Aníbal, por exemplo, que é filho de um Asdrúbal. Perfeito! Aníbal e Asdrúbal Barca foram irmãos cartagineses que derrotaram Roma em várias batalhas nas Guerras Púnicas, no século 3 a.C.

Esse Aníbal brasileiro do século 21, quando teve um filho, queria pôr nele o nome de Amílcar. Mais perfeito ainda! Porque Amílcar era o pai de Aníbal e Asdrúbal. Agora, pergunto: você acha que a mulher do Aníbal deixou que o neto de Asdrúbal se chamasse Amílcar? Não deixou. Insensibilidade histórica.

Da mesma forma, de nada valeram meus argumentos musicais, masculinos e regionalistas. Gaudêncio foi terminantemente vetado, para decepção de um casal de alegretenses amigos meus, o seu Hormain e a dona Oraides.

Aí decidi que batizaria o menino com o nome do meu filósofo preferido, Baruch de Espinosa. Não colocaria o Espinosa, claro. Só Baruch. Baruch Coimbra. Mas alguém observou que ele teria dificuldades com telefonemas:

— Alô? Quem fala?
— Baruch.
— Saúde.

Assim, não sei como chamar o menino. Alguém aí tem uma idéia criativa?

* Texto publicado em 16/03/2007 em Zero Hora

Postado por David

Jô e Maia

16 de outubro de 2008 5

Cartos leitorinhos:

O capítulo em que Maia revela segredos a Jô está dando algum trabalho. Aguardem que logo será publicado!

Postado por David, ainda em trânsito

Jô censurada

16 de outubro de 2008 91

Muitos homens têm enviado imeils pedindo que mude o destino libertário de Jô, com medo de que a história dê idéias de infidelidade às suas mulheres, namoradas, noivas e quejandos.

Respondam-me, leitorinhas: vocês estão com ganas de traição só por ler as aventuras de Jô? Dirimam esta dúvida!

Postado por David, em trânsito

Jô na Estrada - capítulo 10

15 de outubro de 2008 37

Ilustração: Xico Gonçalves, Banco de Dados

Praia da Gamboa.

Jô lembrou-se de que ela e Fábio tinham passado alguns dias nessa prainha, antes de casar. Foi um tempo louco. Fábio a possuía com uma fome naqueles dias, com uma sofreguidão, um desejo que a enlouquecia. Todo aquele ímpeto foi arrefecendo com o tempo. Depois dos filhos, passavam semanas, até meses sem fazer sexo. O que havia acontecido? Será que era assim com todo mundo?

Enquanto dirigia seu Fiesta branco, Jô tentava recordar-se da última vez que tiveram uma noite vagamente parecida com aquelas doidices que haviam cometido na Gamboa. Nunca mais...

O som de um rap americano adejava do rádio do carro. Jô odiava rap. Mudou de estação. Reconheceu de pronto a voz macia do Nei Lisboa.

"Todas as bobagens que já disse dariam pra encher um caminhão, mesmo assim encontro no caminho milhares mais otários do que eu..."

Jô suspirou. Também ela vivia dizendo bobagens e também ela conhecia milhares de otários que a superavam em estultice. Decidiu que iria para a Gamboa. Aquela praia tinha uma energia... Ela não sabia exatamente o que era, mas sentia algo poderoso naquela praia.

Rodou mais alguns quilômetros e dobrou à direita. Devia ir para uma pousada? Ou alugar uma casa? Melhor: não faria nem uma coisa, nem outra. Pelo menos não imediatamente. Queria aproveitar o dia, primeiro.

Ao chegar à Gamboa, estacionou numa ruazinha calma, tirou o biquíni da mala e trocou-se no carro. Foi direto para a praia. Sentiu a areia quente sob os pés e ondulou direto para a água. Precisava tomar um banho de mar. Atirou-se n`água e nadou em paralelo com a areia da praia. Como era bom. Oh, aquilo era a felicidade...

À altura de um pequeno quiosque, Jô saiu da água e, feliz e ofegante, caminhou pela areia até o balcão. Além da atendente, uma senhora baixa, de cabelos grisalhos, havia apenas mais uma pessoa no lugar: uma mulher. Jô pensou que nunca tinha visto um bar com só mulheres. Sempre havia homens nos bares.

A outra era uma loira longilínea, mais alta do que Jô. Devia ter perto de metro e oitenta. Muito bonita. Magra. Talvez uma modelo. Vestia uma camiseta branca sobre o biquíni e sorvia caipirinha por um canudo de plástico. Estava sentada à frente de uma tosca mesinha de madeira, as longas pernas cruzadas para o lado, os pés delgados abanando.

— Uma cerveja bem gelada — pediu Jô no balcão, e só o fato de ter feito aquele pedido tipicamente masculino fez com que se sentisse livre.

— É pra já — disse a atendente, dirigindo-se para o freezer.

Jô virou-se de costas para o balcão. Notou que a loira a observava. Seus olhares se cruzaram. A loira sorriu um sorriso cheio de dentes brancos como o seu Fiesta. Jô retribuiu o sorriso.

— Gosta de camarão frito? — perguntou a loira, apontando para um prato de camarões sobre a mesa.

— Gosto.

— Quer sentar? — a loira puxou uma cadeira.

Jô vacilou. Será que havia algo de sexual naquela abordagem? Uma mulher tão bonita como aquela loira... Tão... feminina... Não podia. Ela estava apenas sendo amistosa. Mas, ao mesmo tempo, Jô sentia em alguma parte da alma certa tensão sexual emitida por ela. O que devia fazer? Devia aceitar o convite?

Aceitou.

Tomou sua garrafa de cerveja e seu copo e sentou-se com a outra.

Começaram a conversar e não pararam mais. Em uma hora, eram como as amigas mais íntimas. Como se se conhecessem desde a infância. Continuaram bebendo e petiscando tarde afora. Trocaram suas histórias. Jô contou tudo a ela. Sua aventura solitária, sua vida de mãe de família, as loucuras dos últimos dias. Sentia por Maia, esse o seu nome, sentia por ela uma proximidade inédita. Nunca ficara tão à vontade com alguém que recém conhecera.

Maia era carioca, mas morava em São Paulo. Tinha 27 anos e parecia uma mulher livre, livre, livre como Jô gostaria de ser. A noite começara a cair atrás dos morros que circundavam a prainha, quando Maia tomou a mão de Jô e sussurrou:

— Tenho uma confissão e uma proposta a fazer.

Jô empertigou-se na cadeira. O que ela queria falar? Seria algo que pudesse atrapalhar aquela amizade que começava?

Saiba logo, no próximo capítulo de... Jô na Estrada!

Postado por David

Atenção!

15 de outubro de 2008 0

Em minutos, mais um empolgante capítulo inédito de Jô na Estrada!!!

Postado por David, da Redação, tomando um expresso

Sempre tem o mas

15 de outubro de 2008 48

O mas é que é importante, neste caso: mas se o Grêmio tivesse perdido o Gre-Nal por 1 a 0, nada do que aconteceu depois aconteceria. Uma derrota simples não causaria ruptura. O time não mudaria em seis posições, os jovens Felipe Matttioni e Douglas Costa não seriam escalados, Morales e Thiego continuariam no banco e o Grêmio não se recuperaria, como se recuperou.

Ironia: se o Grêmio for campeão, será graças à goleada no Gre-Nal.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

Tomates e ovos fritos

15 de outubro de 2008 17

Arte ZH

Lembro de uma vez em que eu cobria uma viagem do Criciúma pelo Brasil. Trabalhava no Diário Catarinense. Estávamos, eu e o grande fotógrafo Ezequiel Passos, em Belo Horizonte, onde o Tigre ia pegar o Atlético Mineiro. Timaço, o Atlético. Tinha Toninho Cerezo, Nelinho, João Leite e outros de igual quilate. No dia do jogo, flagrei uma discussão de dois jogadores com o médico do clube.

– Eu quero com semente! – pedia o jogador, meio choroso.

– Com semente, não! – o médico batia o pé.

– Eu gosto de frito! – reivindicava o outro jogador.

– Frito, não! – negou o médico.

Quando os jogadores se foram, perguntei ao médico que era aquilo, afinal. O médico contou que havia vetado o ovo frito e a semente do tomate nas refeições dos atletas. A semente do tomate, segundo ele, não é boa para a digestão. Não sabia disso. Já o ovo frito, isso todo mundo sabe, médicos odeiam ovo frito, embora um ovo frito com gema mole e clara dura, ah, esse ovo, posto sobre um pequeno monturo de arroz branco... Pensando melhor, não apenas um ovo, nem mesmo dois, mas três ovos fritos, eles todos deitados sobre o tal monturo de arroz sequinho e fumegante, se a gente toma o garfo e fere delicadamente as gemas dos ditos cujos, elas, as gemas, derramar-se-ão lânguidas sobre o morro branco do arroz e aí há que se misturar tudo com critério e então levar uma garfada à boca e oooh, que delícia.

Vou dizer uma coisa que fiz agora mesmo, enquanto estava pingando uma exclamação no fim do último parágrafo. Fiz o seguinte: levantei a cabeça aqui na Redação e disse para a turma:

– Caras, preciso comer um arroz com ovo frito neste momento!

E ninguém soube me informar onde, afinal, eu poderia comer um arroz com ovo frito em Porto Alegre durante um entardecer de primavera.

Mas o que queria dizer ao contar essa história é que, por mais que aprecie um ovo frito e um tomate com todas as suas sementes, espantei-me com a reação mimada dos jogadores do Criciúma naquele dia d´antanho.

Eis o busílis: os jogadores de futebol, que há poucas décadas não tinham nem preparador físico e técnico à disposição, transformaram-se em bibelôs com alimentação controlada como a os cavalos do prado, que só aceitam primeira classe e hotel cinco estrelas e que mal sabem assinar um cheque. São quebradiços, os jogadores do século 21. Por isso, colocar dois deles voltando de lesão numa partida como o Gre-Nal é tão arriscado. Mas...

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David