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Posts de novembro 2008

Pequenos ódios

30 de novembro de 2008 38

O homem precisa de tempo para descobrir as coisas de que não gosta. Não é tão fácil. Normalmente, o sujeito se deixa levar pelos outros. Todo mundo gosta de algo, aí você pensa que gosta também. Não gosta, apenas não refletiu a respeito.

É o que já falei sobre a propaganda. Espanta-me o poder da propaganda. Porque a lógica por trás da propaganda é tão simples que chega a ser simplória. E ainda assim funciona. É surpreendente. Alguém diretamente interessado em se promover, promove-se. Eu sou bom, eu sou bom, eu sou bom. Ora, qualquer pessoa mais ou menos racional deveria desacreditar desta opinião explicitamente suspeita. Só que não. As pessoas acreditam. Compram carros, votam, passam a fumar. Por quê? Porque as pessoas têm necessidade de saber qual é a opinião dos outros sobre sua própria vida. As pessoas só acham que levam uma vida boa quando outras pessoas acham que ela uma vida boa. Alguém diz que é ótimo, por exemplo… acampar. O cara fica repetindo que adora acampar, que acampar faz bem para a saúde, que é divertido acampar e tudo mais. Você ouve isso e vai acampar. Não gostou nem um pouco de acampar, dormiu naquela barraca apertada e abafada, foi picado por mosquitos, não havia banheiro por perto, um inferno. Mas saiu de lá jurando que adorou acampar. Por quê? Porque você quer concordar com as outras pessoas. O ser humano passa a vida buscando a aprovação dos outros seres humanos. Quer fazer parte de um grupo, ainda que seja de um grupo de acampadores.

 

***

Eu mesmo, só há pouco concluí que odeio bar com música ao vivo. A não ser que vá ao bar exclusivamente para ouvir música. Mas não. Quase sempre vou a bares para conversar e, se o bar tem música ao vivo, a música não se torna música: torna-se barulho. Estou lá sentado e sinto que algo está me irritando e não sei o que é. Aí descubro: é a maldita música ao vivo. Aquele cara com um violão, uivando Oswaldo Montenegro. Um tormento. Uma aflição. Uma dor. Mas por muitos anos as pessoas me convidavam:

– Que tal irmos a um bar com música ao vivo hoje?

E eu:

– Música ao vivo! Que alegria!

***

Outra. Shows em estádios e ginásios. Já fui a shows em estádios que tinham de ser bons. Clássicos tipo Eric Clapton. Não foram. Foram chatos. E nunca, nunca, jamais na minha vida, fiquei pulando em frente a um palco. Definitivamente, não sou homem de pular em frente a um palco.

***

Também concluí que tenho sérias restrições a certas atividades praianas. Gosto de ir à praia para:

1. Beliscar piriris e beber cerveja gelada.

2. Jogar bola ou frescobol.

3. Eventualmente caminhar ou nadar.

Só.

Mas as pessoas gostam de ir à praia e ficar lá. Ficam e ficam e ficam na areia por horas, fazendo algo que odeio com todas as forças do meu ser: tomando banho de sol. Elas tomam banho de sol nas costas por meia hora, viram-se e tomam banho de sol de frente por mais meia hora, aí dão meia-volta de novo para tomar mais banho de sol nas costas por nova metade de hora e giram novamente para tomar outro tanto de sol na parte dianteira por outro tanto de hora. Um galeto naquelas televisões de cachorro.

Agora os dias estão cada vez mais quentes. O verão se aproxima. Todos querem se mudar para a Orla. Até vou, desde que não permaneça sob o sol. Odeio banho de sol.

***

Mas tem o seguinte: topo ir à praia e ficar por horas estendido na areia como uma tatuíra, topo sentar num bar com música ao vivo e ouvir, cruzcredo, Djavan a noite inteira, vou a um estádio e fico de pé, na grama, assistindo à alguma cantora baiana, faço tudo isso, desde que não tenha que ouvir uma discussão entre um gremista e um colorado. Nenhuma discussão, nem em debate de rádio ou TV. Não suporto mais bate-boca entre gremista e colorado, algo cada vez mais freqüente no Rio Grande do Sul, cada vez acirrado e cada vez mais maçante. São insuportáveis essas discussões. Aceito outras chatices para me livrar delas. Agora, ir a um show do Oswaldo Montenegro, isso também não. Tudo tem seu limite.

*Texto publicado na página 58 de Zero Hora dominical

Postado por David

Festaaaaaa!

28 de novembro de 2008 31

Pessoal, vai sair a festa!!! Daqui a pouco digo o dia. Será no dezembrão!!!

Postado por David

Pobres coitados

28 de novembro de 2008 110

O brasileiro é um coitadinho. Eis a característica que unifica um povo tão diverso. Porque o brasileiro pode ser qualquer um: pode ser alto ou baixo ou de altura mediana, pode ser loiro ou negro ou mulato ou moreno, pode ser turco, japonês, alemão, africano. O brasileiro pode ter qualquer aparência, e não é por outro motivo que o passaporte brasileiro é o mais cobiçado pelos escroques internacionais. Mas todo brasileiro se sente um coitado. Todo brasileiro se acha injustiçado. Os chefes dos brasileiros são incompetentes e os perseguem. Os policiais os oprimem. Os governos são ainda piores: extorquem empresários e trabalhadores, e se esquecem do povo.

Ah, o povo. O brasileiro sempre fala no povo como uma gigantesca e impalpável entidade subalterna a outra entidade não tão gigantesca, mas igualmente impalpável: a malévola “Eles”. “Eles” se aproveitam da ingenuidade do povo, “Eles” são corruptos, “Eles” é que estragam um país tão rico e belo, “Eles” não sabem aproveitar as qualidades dessa gente inzoneira, feliz e criativa.

Quem são Eles?

Os governantes, os chefes, as autoridades. A responsabilidade é toda deles.

O brasileiro ganha mal? A culpa é do patrão que o explora. Mora mal? Por causa do Estado, que não financia a Habitação. As filas, a violência urbana, a sujeira das cidades, a carestia — Eles são culpados. A razão do problema nunca está no brasileiro, está fora dele.

Agora mesmo, milhares de brasileiros foram vitimados pelas enchentes em Santa Catarina, e parece que neste caso não dá para atribuir a culpa a ninguém, senão à Natureza inclemente. Aí, como reagiram alguns brasileiros à tragédia que martiriza seus semelhantes? Comerciantes aumentaram os preços dos alimentos e da água potável — li que um litro de água chega a ser vendido a R$ 14. Flagelados não abandonam suas casas com medo de que sejam arrombadas. Depósitos de mercadorias estão sendo atacados. Vi fotos de gente levando produtos de saque pela rua dentro dos próprios carrinhos dos supermercados. Não eram alimentos. Eram TVs de tela plana, eletrodomésticos e bebidas alcoólicas. Uma farra. Para arrematar a festa, os caminhões que tombam nas estradas são saqueados pelas comunidades lindeiras às rodovias e pelos outros motoristas.

É o brasileiro que faz tudo isso. Não são os chefes, nem os patrões, nem os governantes que estão espoliando flagelados, roubando motoristas acidentados ou invadindo casas, supermercados e depósitos. Não são “Eles”. É o brasileiro. O povo. Por sua conta e iniciativa, sem que ninguém ordene ou o obrigue.

O que são essas pessoas que saqueiam caminhões tombados ou casas abandonadas?

Não são oportunistas. São ladrões vulgares.

O que são os homens que aumentam o preço da água potável que saciará a sede dos flagelados?

Exploradores cruéis.

Não são coitadinhos. São mesquinhos, gananciosos e desprezíveis. São grosseiros, velhacos e baixos. São a ralé. A escória da raça humana. São grande parte do povo brasileiro.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

27 de novembro de 2008 24

Reprodução

Atendendo ao pedido da Anderlisa Machado Boeira, aí vai mais uma para o Túnel do Tempo:

Mil toalhas

O Eric Clapton está para se apresentar em Porto Alegre, e fico pensando: quantas toalhas ele vai pedir?

Porque os cantores adoram toalha. Chegam a um lugar e exigem 200, 300, já vi quererem até mil toalhas por dia. O que eles fazem com tanta toalha? É muita umidade. Um cara tem que se molhar demais para usar 200 toalhas em um único dia.

Uma vez, li no jornal que o Steve Wonder exigiu 60 toalhas pretas para cantar em algum lugar. Pô, o Steve Wonder é cego! Como ele saberia que as toalhas dele são pretas? Fosse eu o fornecedor de toalhas do Steve Wonder, colocaria uma marronzinha no meio das pretas. Duvido que, na hora de se secar, ele reclamasse:

— Não uso! Não é preta!

Ou será que tem alguém para avisar:

— Essa não, Steve! Essa é marrom!

Estranho.

Há coisas que não se explicam mesmo.

Para onde vão as colherinhas perdidas? Quem fica com os pés de meia que se extraviam de seus pares? Em que lugar se reúnem os guarda-chuvas esquecidos?

As colherinhas, suspeito que elas se enfiem pelos ralos das pias e desabem cano abaixo. O leito do Guaíba deve estar coberto por bilhões de colherinhas que desfalcaram as coleções de talheres dos porto-alegrenses nesses mais de 200 anos de história, algo que vai dar o que pensar aos arqueólogos pósteros.

Quanto aos guarda-chuvas e os pés de meia, não faço idéia de onde possam estar todos os que se foram e jamais voltaram.

Muito estranho.

Mas o maior mistério mesmo é a razão por que Luiz Felipe convoca o Cris para a Seleção. Por que será?

Muito, muito estranho.

***

Há também figuras conhecidas, pessoas pelo destino das quais tenho grande curiosidade, permanentemente insatisfeita. Como:

A Gina, o que é feito dela? Sabe a Gina, dos Palitos Gina? Uma loira de franja lisa e reta, como que aparada a régua, cujo retrato aparece desenhado nas embalagens dos Palitos Gina.

Sabe? Essa mesma.

Então, o que é feito da Gina? Na embalagem dos palitos está escrito: “Desde 1947″. Pela ilustração, a Gina deveria ter uns 20 anos, no dia em que seu retrato foi pintado. Ou seja: agora, provavelmente contará com mais de 70. Estará viva? Como será ela atualmente?

E quem foi Gina? Filha do dono da fábrica de palitos? A mulher que ele amou? Talvez haja uma comovente história de amor por detrás daquela pueril caixinha de papelão. Talvez uma história trágica. Sei lá.

Acho que jamais saberei algo sobre Gina.

Tampouco sobre o Pé-de-Valsa. Garanto que você não sabe quem foi o Pé-de-Valsa. Eu, que pesquisei sobre o futebol gaúcho, sei. Pé-de-Valsa era um mascote do Grêmio, um menino loirinho que aparecia em todas as fotos posadas do time durante os anos 40. De repente, o Pé-de-Valsa sumiu das fotos. Deve ter crescido, imagino. Fica mal um barbado, de vinte e tantos anos de idade, posando como mascote.

Onde andará o Pé-de-Valsa? Por certo, deverá ser encontrado nas cadeiras do Olímpico, um senhor de idade provecta, gremistão inveterado, emocionando-se à entrada do time em campo, ante a visão dos novos meninos mascotes com suas camisas tricolores.

E o Um Dois Três de Oliveira Quatro? Lembra dele? O coitado foi batizado Um Dois Três de Oliveira Quatro, tornou-se famoso por isso e depois nunca mais se soube do seu paradeiro. Tenho curiosidade de saber como chamam o Um Dois Três de Oliveira Quatro. De Um? De Um Dois? De Um Dois Três?

— Tudo bem, Um Dois Três?

Ou será apenas Oliveira?

Por onde andarão eles todos, a Gina, o Pé-de-Valsa e o Um? Será que estarão escondidos no mesmo lugar esconso em que se homiziaram os bons zagueiros da Seleção? Se assim for, nunca mais os encontraremos. Que saudades de Um, de Gina, de Pé-de-Valsa, que saudades dos bons zagueiros da Seleção.

Que estranho, isso tudo. Muito estranho.

* Texto publicado em 03/10/2001 em Zero Hora

Postado por David

Tia Beatriz

27 de novembro de 2008 9

Ilustração: Rodrigo Rosa, Banco de Dados

Recebi uma correspondência do leitor Clóvis Colleto que acho importante dividir com vocês. Abaixo:

“David, neste e-mail talvez não exponha uma história das mais alegres, mas um legado da minha família que gostaria de compartilhar.

A razão de dividir esta história contigo é fruto de discussões sobre tuas colunas com uma tia minha, de nome Beatriz. Ela, neste momento, encontra-se em coma, às vésperas de morrer de câncer, doença que faz parte dos últimos 10 anos de sua vida. Felizmente, não é este o foco ao qual pretendo me ater. Gostaria é de falar dos grandes ensinamentos dela.

Antes de tudo, devo apresentá-la. Tia Beatriz é uma senhora de 74 anos, esperta, alegre, muito inteligente e sempre nutriu uma fé inabalável em Deus — era tanta que se tornou freira ainda jovem.

Era uma freira das mais devotas, sequer O condenou por tanto sofrimento, como eu certamente faria. O mais importante, no entanto, é que ela não era aquela Irmã pragmática, não falava da religião como solução para tudo. Adorava contar piada, incentivava os jovens a aproveitar a vida, torcia muito pelo Grêmio e secava o Inter, conversava sobre sexo naturalmente, e acreditava fielmente que uma boa refeição é sempre acompanhada de vinho da colônia.

Irmã Bia, como era conhecida pelas colegas, passou os últimos anos ensinando que reclamar de miudezas é coisa de gente chata, gente dependente de notícia ruim de jornal e televisão para ter assunto durante o dia. Ela reconhecia as mazelas do mundo, mas defendia que deveríamos enfrentá-las com leveza, até com bom humor. E como discordar de alguém que encarou uma doença, das mais desgraçadas do mundo, rindo, sem reclamar de dor?

Seu destino é certo, aproxima-se velozmente, mas só o que me vem à cabeça são os ensinamentos dela, alguns citados em colunas tuas e muito discutidos entre mim e ela nos almoços dominicais da família Colletto: a importância dos amigos, da família, de comer, sair, jogar bola, ler, viajar, rir, ou seja, viver, aproveitando o melhor da vida.

À minha querida tia, a gringona dos abraços apertados, agradeço pelo exemplo. A ti, David, agradeço pela manifestação do teu talento através da escrita. Sem tuas colunas, minha postura com relação a todo o contexto seria bem diferente.”

Postado por David

Concurso japa

26 de novembro de 2008 70

Reproduções

O próximo folhetim, vocês sabem, terá como protagonista uma descendente de japoneses. Itsuko, o nominho dela.

Pois em referência a Itsuko — e já que o João Fernando, que ganhou um exemplar de Cris, a Fera, disse que não poderá vir buscá-lo — levarei a leilão agora mais dois livros de autoria do degas aqui.

 A melhor frase sobre Japão, japoneses ou japonesas ganha um Cris, a Fera.
 A segunda melhor frase sobre Japão, japoneses ou japonesas ganha um Mulheres.

Textinhos nos comentários deste post. Mãos à obra!

Postado por David

A visita da ex

26 de novembro de 2008 12

HISTÓRIA FALADA

A nova namorada está lá, peladona no quarto, quando o interfone tocou.

Assiste aí:

Veja todas as Histórias Faladas

Postado por David

Quanto vale um bigode

26 de novembro de 2008 5

Ilustração: Fraga

Ofendi uma mulher por causa do bigode, certa feita. O episódio valeu-me alguns ensinamentos acerca da vida, das pessoas, dos leitores e do momento da Dupla Gre-Nal. Mas foi sério. Por Deus. Aconteceu assim:

Um dia o Cássio, da portaria aqui do prédio da Zero, deixou crescer o bigode. Cheguei ao jornal, olhei para o Cássio e comentei:

— Bigode?

Ele me enviou um sorriso sardônico, cheio de significados duplos e até alguns triplos, balançou a cabeça devagar, cofiou o dito cujo e respondeu:

— Rá!

Entendi o que ele queria dizer. Era:

“Sim, deixei crescer o bigode porque o bigode trata-se de um símbolo atávico de masculinidade e, sendo assim, atrai as fêmeas da espécie, o que fará com que eu tenha maior chance de sucesso amoroso e, desta forma, seja mais feliz, porque, como Freud já ensinou, tudo na vida é casa, comida e sexo”.

Agora: embora tenha compreendido em sua plenitude o rá do Cássio, não concordava com ele. Porque, pelo que tenho observado das mulheres contemporâneas, elas desaprovam o uso do bigode. Algumas até o desprezam, considerando-o ridículo, ultrapassado e cosquento. Naquele mesmo dia, escrevi a respeito. Disse que o bigode não tinha mais lugar sob as narinas do século 21. E, no dia seguinte, recebi aquele imeil fulo. Indignado, até. Pensei que fosse brincadeira, que ninguém, sobretudo uma mulher, se enfureceria comigo por eu ter falado mal do bigode. Mas não: ela estava revoltada mesmo. Realmente a ofendi com minhas críticas ao bigode. Pedi desculpas, garanti que não era minha intenção agredir ninguém ao menoscabar o bigode, que, afinal, não passa de simples adereço peludo do rosto do homem. Não adiantou. Ela jurou que jamais me perdoaria.

Bem. Os meses se passaram, o Cássio tirou o bigode, a vida seguiu seu rumo inexorável. Dias atrás, recebi outro imeil daquela paladina dos bigodes assacados. Relembrou o episódio e reafirmou seu ódio eterno por mim. Por coincidência, no mesmo dia o Cássio… apareceu de bigode! Mas desta vez contive-me. Lembrei da defesa feroz do bigode empreendida pela leitora e resolvi observar o que mudava na vida do Cássio com mais pêlos no rosto. E não é que mudou?!? As mulheres assumiram outro comportamento com ele. Tornaram-se mais lânguidas e atenciosas. Eu passava pela portaria e sempre via alguma delas liqüefazendo-se ao pedir o crachá para o Cássio. Então, olhava-o de soslaio e ele me olhava de esguelha e de novo cofiava o bigode e repetia:

— Rá!

Outra vez aquele rá. Mas tem o seguinte: tenho certeza de que não é o bigode em si a razão do sucesso do Cássio. É a confiança que ele exala tendo cabelos sobre os lábios. As mulheres sentem que ali está um homem seguro e se aproximam dele por isso. Se ele é tão seguro, deve haver algum motivo, entende? O princípio da publicidade. Se você repete que é bom, é bom, é bom, provavelmente seja. As pessoas acreditam na publicidade, o que é muito surpreendente.

O contrário também vale. O homem afoito, as mulheres pressentem sua ansiedade e correm dele.

Eis o segredo do bigode: mesmo estando fora de moda, confere personalidade a quem o usa com convicção, casos clássicos de Rivellino e Olívio Dutra. A personalidade é atraente, a personalidade faz toda a diferença. Pessoas têm que ter personalidade, assim como cidades e times de futebol e jornais e tudo mais. Os times da Dupla de 2008 não têm personalidade. Abatem-se com qualquer revés. Lembro de times da Dupla que tinham personalidade. Porque tinham jogadores como um Figueroa, que ensinava:

— Vitórias não se merecem; se conquistam.

Ou um Oberdan, que em 1977 prometeu:

— Neste time ninguém vai chorar quando formos campeões.

Personalidade. Não se tem só com bigode, mas, se o bigode ajudar, por que não?

* Texto publicado hoje na página 59 de Zero Hora.

Postado por David

Túnel do Tempo

24 de novembro de 2008 31

O leitorinho Renan Azevedo disse que se emocionou com esse texto* e pediu para relê-lo. Aí vai, Renan:

O netinho

Ninguém entendeu por que Gonzalo desistiu da herança da avó e largou o bom emprego que tinha e sumiu da cidade, sem destino, andarilho vagabundo.

Eu entendi.

Verdade que não se tratava de herança importante, nenhuma fortuna, mas os outros netos lutaram feito hienas famintas por ela. E, de todos, Gonzalo era quem tinha mais direito. Sobretudo ao apartamento. Gonzalo morou naquele apartamento a vida toda, ele e a avó, só os dois.

A mãe, depois de separada, não podia sustentar os três filhos, então, mal Gonzalo nasceu, foi deixado aos cuidados da avó. Que não reclamou. Ao contrário, Gonzalo tornou-se a razão da sua vida. Fazia tudo por ele. Como geralmente acontece com os avós, ela o amava com uma doçura jamais dedicada a um filho. Gonzalo cresceu em meio aos mimos da avó, tinha chazinho quente quando adoecia, tinha comidinhas especiais todos os dias. Dela, ele merecia tudo, embora tudo que ela pudesse dar não fosse muito.

A avó vivia da pensão de viúva que recebia de um montepio. Com aquele dinheirinho contado, sustentou o neto, pagou-lhe a faculdade e, mesmo depois de ele estar trabalhando, comprava-lhe meias de lã para o inverno e biscoitos recheados para o lanche da tarde.

Conheci a velhinha. Era gordinha e pequena, em tudo redonda. Uma avó de história em quadrinhos, uma perfeita Dona Benta, sempre sorrindo atrás dos óculos, sempre mexendo uma panela na cozinha, especialista em quitutes e histórias do tempo em que as moças coravam e os moços faziam mesuras.

Gonzalo gostava dela, claro que gostava, mas nunca chegou a ser um neto afetuoso. Recebia os carinhos da velha com a indiferença típica da juventude. Convertido em um espigado rapagão, continuava vivendo com a avó, e ela continuava a cumular-lhe de atenções, apesar de já estar bastante doente.

Volta e meia, o ar lhe faltava e ela se sentia nas vascas da morte, os pulmões ameaçando explodir. Decidiu precaver-se. Temendo um dia ter de internar-se com urgência no hospital, passou a economizar para pagar o médico. Todos os meses, retirava um naco da pensão, fazia um canudinho com um atílio e guardava num compartimento que havia na parte de cima do roupeiro.

Gonzalo não prestava muita atenção nos males da avó. Não tinha tempo. Trabalhava de dia, estudava de noite e nos finais de semana ia para a casa da namorada. Não percebia que a velhinha piorava a cada semana. Uma noite, ela estava especialmente mal, e nem assim Gonzalo reparou. Chegou em casa perto da meia-noite, cansado e de mau humor.

A velhinha ouviu o barulho na fechadura da porta, levantou-se com alguma dificuldade, arrastou-se até a cozinha e preparou um jantar quente para o neto. Levou o prato fumegante e um copo de suco de laranja até o quarto, onde ele dormia de roupa e tudo, as costas apoiadas na cabeceira da cama. Acordou-o com um beijo. Ele abriu os olhos, viu a comida e, sem dizer palavra, tomou o prato e começou a comer. Ela sorriu e lhe deu boa-noite. Gonzalo nem respondeu. Estava mastigando.

Aquela noite, a velhinha não dormiu. A falta de ar a sufocava angustiantemente. Pela manhã, chegou a pensar em não preparar o café para o neto. Nunca, em 20 anos, deixara de lhe fazer café. Não queria decepcioná-lo, não nesses dias em que ele trabalhava e estudava tanto. Levou 10 minutos para erguer-se da cama, arrastou-se pelo corredor e foi para a cozinha. Quando Gonzalo saiu do banho, o café estava na mesa. Mas a velhinha se sentia arrasada. Pediu:

— Meu amor, não vai trabalhar hoje. Fica um pouco com a vó…

Gonzalo riu:

— Ih, não dá. Estou cheio de trabalho.
— Só um pouquinho. Liga pra eles…
— Não dá, vó. Não dá. Até estou atrasado. Tchau. Fui.

Foi. Saiu sem nem escovar os dentes. Voltou às onze da noite, cansado, como sempre. Encontrou a avó caída num canto do quarto, no chão, ao lado do banquinho no qual ela subia para alcançar o topo do roupeiro. Na mão direita, a trouxinha de dinheiro que ela guardara para pagar o hospital. Morrera sozinha, sufocada, decerto pensando no neto, decerto chamando por ele.

Depois do enterro, os irmãos disseram que Gonzalo podia continuar morando no apartamento. Ele não quis. Foi embora, ninguém sabe para onde. Largou tudo, ninguém sabe por que. Eu sei.

* Texto publicado em 27/07/2007 no caderno Donna de Zero Hora

Postado por David

Café TVCOM

24 de novembro de 2008 5

Para quem perdeu o Café TVCOM deste sábado, aí vai o programa na íntegra:

Postado por David

Novo folhetim

24 de novembro de 2008 6

Os leitorinhos andam perguntando sobre o novo folhetim. Quero informá-los que já está saindo. O primeiro capítulo já será publicado.

Vou adiantar o nome de uma das personagens, uma descendente de japoneses: Itsuko.

Mais detalhes a seguir!

Postado por David, remando na bela manhã de sol

Quando eu tinha 12 anos

22 de novembro de 2008 38

Não sou muito diferente do que era quando tinha 12 anos. Quando tinha 12 anos, queria mesmo era me divertir. Exatamente como hoje. Não havia ninguém de quem realmente não gostasse, quando tinha 12 anos, e hoje também não há. Amava as meninas, quando tinha 12 anos, e hoje ainda as amo, e naquela época, bem como agora, sentia genuíno prazer em estar com amigos, em comer, jogar bola, ir ao cinema, ler, escrever e rir e rir.

Quando tinha 12 anos, o futebol me enfeitiçava tanto quanto as pernas das alunas do Becker, que faziam aula de educação física dentro de shortinhos mínimos, no campo do Alim Pedro. As paredes do meu quarto eram tapadas de pôsteres de times. Colei pôsteres até no teto. Lia tudo sobre a história do futebol. Aprendi sobre clubes extintos e façanhas de antigos jogadores. O Lagreca, garanto que você não sabe do Lagreca, primeiro técnico da Seleção. Nem de Baltazar, o Cabecinha de Ouro. Nem do supertime que um dia montou o Aymoré de São Leopoldo.

Quanto tinha 12 anos, o Brasil armou uma Seleção poderosa para jogar a Copa da Alemanha. Não havia mais Pelé, e Clodoaldo se machucou, mas havia a patada atômica de Rivellino, e Jairzinho, o Furacão de 70, que agora jogava debaixo de um vulcânico cabelo black-power, e Paulo César Lima com sua técnica superior e seus cabelos acaju, e Luizão Pereira, que saía jogando de queixo erguido e passo largo, e Marinho Chagas com suas melenas loiras e, no gol, Emerson Leão, de quem as mulheres diziam ser dono das mais belas pernas do Brasil. Parecia impossível existir time melhor do que este. Existiam dois. A Holanda de Cruyff e a Alemanha de Beckembauer. O Brasil perdeu para um futebol diferente, avançado, desconcertante. Uma revolução de chuteiras acontecera em silêncio na Europa durante quatro anos. Agora era o futebol-força, o futebol total. E nós rebolando abaixo da Linha do Equador… Depois daquela Copa, passamos a sentir a desagradável impressão de que nunca mais uma seleção latina ganharia o caneco.

O Brasil não foi minha única decepção em 1974. Participei de um concurso de desenhos promovido pela Abril Cultural. Aos concorrentes pedia-se que fizessem desenhos sobre a Copa, claro. Tomei do meu flamante “Manual do Zé Carioca”, que comprei com meu próprio dinheiro, ganho com a venda de picolés de Ki-Suco, e me inspirei nos personagens, principalmente o próprio Zé Carioca e seu amigo Nestor, fundadores e craques do Vila Xurupita Futebol Clube. Analisei meus desenhos e os considerei dignos de um dos prêmios, mas, semanas depois de os ter enviado, recebi uma carta da editora comunicando-me que meus trabalhos tinham causado acirrado debate entre os julgadores, cumprimentando-me pelo meu talento, incentivando-me a ir em frente, mas lamentando: eu não ganhara nada. Não gostei daquilo. Nunca mais desenhei. Sorte dos leitores, que agora contam com as ilustrações do Fraga nesta página.

No futebol, prossegui. Desde os 12 anos venho freqüentando os estádios, sobretudo Olímpico e Beira-Rio. Vi Gre-Nais em que metade da arquibancada era azul e a outra metade vermelha. Era um jogo diferente, especial. Gostava de pensar que fosse único. Vi mudar a forma de torcer no Rio Grande do Sul. Essa torcida do Grêmio, a Geral, representou uma inovação no futebol gaúcho que talvez só tenha ocorrido quando Vicente Rao passou a organizar a torcida do Inter nos anos 40. A Geral do Grêmio mudou o jeito de torcer no Rio Grande do Sul e no Brasil, impressiona gente que vem de outros Estados e não tenho a menor dúvida de que é responsável pela maioria das vitórias do Grêmio nos últimos anos. Mais: a Geral do Grêmio é um fenômeno social que ainda não foi bem estudado. É um erro nosso, dos jornalistas gaúchos: não ressaltamos suficientemente essa torcida. Fosse torcida carioca, brilharia a cada semana no Jornal Nacional.

Sou um admirador da Geral do Grêmio e espero que ela cresça e continue movimentando os estádios. Mas, para que isso aconteça, a própria Geral terá de expelir de seu corpo os tumores que a estão empestando. Os violentos, os arruaceiros, os que se aproveitam da torcida para ganhar dinheiro vil, esses têm de ser banidos. Porque uma torcida como essa, que transforma o estádio num organismo vivo, tem de ser pura. Tem de ser parnasiana: torcer por torcer. Pela alegria do futebol. Para se divertir. Como se todos na arquibancada tivessem 12 anos de idade.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical

Postado por David

Rio Antigo 11

21 de novembro de 2008 0

Henry Chamberlain

11. O Mercado, onde escravas de ganho vendem comes e bebes.

* Leia neste post sobre o que trata esta série

Postado por David

Rio Antigo 10

21 de novembro de 2008 1

Henry Chamberlain

10. A procissão do Espírito Santo. Menos agitada do que um desfile de escola de samba, mas igualmente animada.

* Leia neste post sobre o que trata esta série

Postado por David

Rio Antigo 9

21 de novembro de 2008 2

Henry Chamberlain

9. O Lazareto, onde os leprosos eram recolhidos para evitar o contágio dos saudáveis.

* Leia neste post sobre o que trata esta série

Postado por David