A gente brigava toda semana, lá no IAPI. Briga com inimigo e com amigo também. Quem não brigasse ficava malvisto. Era bichola. O meu grande amigo Amilton Cavalo, eu o conheci brigando com ele. Vinha do colégio com minha pastinha debaixo do braço, tranqüilão com trema, e vi que ali adiante uma turma jogava bolinha de gude. Era um cardume de guris, o gude estava cheio e faiscante. Resolvi passar por perto para conferir como estava o joguinho. Caminhava e olhava para o jogo, até que ouvi um grito:
— Ei! Qual é a tua, rapá?
Parecia ser comigo. Parei. Um guri moreno, mais ou menos do meu tamanho, encarava-me com as mãos na cintura, desafiador. Apontei para o meu próprio peito:
— Eu?
— Tu mesmo! Por que tu fez isso?
— Isso o quê, véio?
— Tu chutou a minha joga!
— Não chutei !@$%*$@!&* de joga nenhuma!
— Chutou, sua bichola!
— Bichola é o teu pai!
— Meu pai é do Alegrete!
— Bichola do Alegrete!
Em um segundo, rolávamos pelo areão da ruazinha, levantando poeira do chão e gritaria da gurizada, que nos cercou para fazer torcida. Soco zunindo para cá, soco zunindo para lá, de repente consegui gravateá-lo. Prendi-o fortemente pelo pescoço. Ele esperneava que nem um polvo com coceira, mas eu sabia que não conseguiria se libertar. Estava sufocando-o. Aí ele:
— Uf! Tudo bem! Uf! Me larga! Tu ganhou! Uf!
Soltei-o, satisfeito com meu desempenho de lutador. Ele se levantou, espanando o pó do calção e, quando me distraí, PAM!, acertou-me um soco na ponta do queixo. Traiçoeiro, esse Amilton Cavalo. Mesmo assim nos tornamos amigos para toda vida, e me orgulho de que, agora, o filho dele leva o meu nome.
***
O importante nem era vencer a briga. O importante era brigar. Todos respeitavam os bons brigadores. Eu não era bom de briga. Bons eram os gêmeos Renato e Ronaldo. Já contei deles? Vou contar. Iguaizinhos fisicamente, só que inconfundíveis, porque, de espírito, não havia ninguém mais diferente do que um do outro. Renato, colorado, pacífico, nunca brigou com ninguém. Ronaldo, gremista, invocado, brigava sempre que desafiado, e o fazia com técnica de profissional. Certa feita, vi quatro sujeitos discutirem com o Ronaldo em um bar. Quatro. Pois ele destruiu os quatro e o bar junto, cadeira, mesa, garrafa de bebida, tudo. Outra vez, um incauto o provocou na mesma ruazinha em que briguei com o Amilton. O Ronaldo transformou a cara dele em xis-bacon com ovo. Lutava com os punhos cerrados, à altura dos ombros, saltitando feito um pugilista cubano, compenetrado, sério, dono de uma calma assassina. Anunciava:
— Agora no nariz!
E, BAM, um foguete no nariz do coitado.
— Agora no olho!
BOF!, bomba no olho.
Era bonito de vê-lo brigando, aquele Ronaldo. Era bonito ver uma boa briga, brigada com os punhos e o cérebro. É por isso que gosto de boxe. É por isso que dá pena de ver a situação do boxe hoje, o Hollyfield lutando contra o tal gigante russo por uns trocados. Que tristeza.
***
Hoje, a luta das massas é o vale-tudo. Luta de bárbaros. Reflexo desses tempos bárbaros, é evidente. Naquela época, não. Naquela época lutava-se como se lutava no velho boxe de Tyson e Ali e Foreman: com os punhos e nada mais. Mesmo nas vilas, mesmo os pirralhos, mesmo as brigas de rua. Lembro de outra: um gordo lá do colégio arrumou confusão com dois colegas de aula. Os carinhas não eram pequenos, embora também não fossem grandes. O gordo, sim: mais do que gordo, grande. Na saída da aula, os dois acossaram o gordo. A gurizada do colégio cercou os três, esperando pelas emoções da briga. O gordo não quis saber. Sentou-se num barranquinho, abraçou os joelhos e lá ficou, de cabeça baixa. Os dois o rodeavam e o ofendiam. Ele nada. Todo mundo em volta, caçoando do gordo. Ele nem erguer os olhos erguia. Aí um dos guris bravateou:
— Ele não briga porque estamos de dois.
Ao que o gordo levantou a cabeça e rosnou:
— Nem de dois, nem de três.
E se ergueu e foi para cima. Gingava, aquele gordo, bailava feito um Travolta, e cada manotaço que desferia era um tiro de bazuca. Os guris não conseguiam ver seus punhos; sentiam-nos, só. Um massacre. O boxe legítimo. Que nem nas ruas nem nos ringues existe mais.
* Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.
Postado por Davud





todos os domingos com a camisa do Itapeva, no IAPI.
Miores detalhes, e so perguntar n Alim Pedro.
Me admiro tu,um cara do esporte falar uma m... dessas do vale-tudo(MMA),nome que nem exixte mais.Um esporte incrível...te informa melhor antes de escrever sobre o q nao sabe,faz o seguinte..pede pro Sergio Boaz te dar umas dicas. ABS...
David, um super Natal pra ti e família! Li muitas coisas tuas esse ano e adorei. Gostei de sair abraçada contigo numa foto da tua festa... bela lembrança. Beijos, paz e saúde.
Por isso que eu gosto de ler David , as suas histórias se confundem com as nossas , talvez por isso leio tanto seu blog , só não entendo como ele conseguiu conciliar os estudos com o bar da faculdade ??!!! ,pois ele sabe de tudo o que ocorre no balcão na mesma proporção e um mestre em narrar fatos mostrar sua opinião, este é David !!!!!
ô David, algumas vezes você tem de ser mais explicito nas tuas crônicas, ou colocar uma NOTA DE RODAPÉ,afinal,acho que o leitor GERALDO DE SOUZA está equivocado em sua análise do texto,pois não é uma incitação à violência.O que o leitor escreve,quanto à necessidade de se "impor para o MACHO SE AFIRMAR",só se for no caso dele.Não que eu nunca tenha brigado (apanhado/batido),mas hoje vejo que isso apenas demonstrava uma boçalidade sem tamanho. É a máxima "VIOLÊNCIA SÓ GERA MAIS VIOLÊNCIA"
Já até pulei de para-quedas, mas nada se compara a adrenalina de uma briga de muleque.
feliz natal david
Aí David, tu és o papai noel do hagah esse ano, hein?! Parabéns.
Abração e bom natal (primeiro do Bernardo, futuro desembargador).
Tú é maluco veio!!!!!!!!!!!!!!
Cara eu sinto saudade de uma boa briga! Tem umas que são inesquecíveis! Tem as que apanhamos e as que fugimos. Odeio lembrar das que fugi, hoje fico pensando no que poderia ter feito, onde bater, mas isso só me deixa mais triste por ver a merda que fiz em fugir. Mas adorava dar umas "mãozadas", mas claro, sempre quando provocado. Torcia sempre por uma provocação.
hoje não vai ter o episódio de boa gente?
nada mais emocionante que os amigos gritando do lado "meeeeeee, eu não deixava", "vai apanhar feio" etc etc
David, pela primeira vez irei contra uma opinião tua. O vale-tudo não é uma luta de bárbaros, pois ali estão duas pessoas com técnica, que treinaram para isso. Você acha que duas pessoas batendo em uma é algo normal? Quem nunca brigou na saida do colégio ou no futebol, quando era criança, é uma bichola! Abraço David
BOA GENTE !
LOGO DAVI !
Feliz Natal prá ti e tua família!
E, ainda mais pra nós - gaúchos -, a parte legal é a da provocação, pré-briga. Na qual os amigos cercam e a cada provocação surgia o `baaaaah`, `baaaah`... só para o sangue subir ainda mais.
abraço
David,lembrei dos tempos de guri no colégio, nos campinhos de futebol. Resolvíamos nossas diferenças nestas briguinhas e no outro dia estava tudo bem. Hoje em dia se a molecada resolve fazer o mesmo, os pais são chamados na escola, a criança é encaminhada para psicóloga, e paradoxalmente a violência está bem maior.
Um Feliz Natal para ti e tua família e um 2009 muito divertido. E que tu escrevas um pouco mais sobre o nosso time, o Campeão do Mundo FIFA e pare de fingir que é gremista
Abraço.
FELIZ NATAL PARA VC DAVID!
Bah. David, dá orgulho de ler a tua crônica. É isso ai mesmo, essa necessidade da gurizada se impor, conquistar o seu espaço é muito importante para o macho se afirmar. E eu estou contigo, é muito civilizado uma boa briga de porradas, a punho. É muito mais decente do que essa bandalheira que se assiste nos jornais. Se os homens que se sentissem prejudicados pudessem resolver no punho os seus prejuízos e ofensas, sem essa pretensa civilidade, muita fraude seria evitada, tenho certeza.
Se tem uma coisa contra a qual vc nunca brigou é com as palavras. Belo texto como sempre. Feliz Natal.
FELIZ NATAL DAVID, TUDO DE BOM PRA TI E PRA TUA FAMILIA.
Bah, essa briga tu já contou em outro post, que por sinal é um dos teus melhores, a briga do `quase gordo` contra os `dois magros mas não muito`. Muito bom o texto de hoje. Parabéns.
O Vale-Tudo(mundialmente conhecido como MMA) é o esporte que mais cresce a cada ano. Os brazucas dominam o UFC.
O MMA é o que exige mais dedicação dos atletas. Em relação a briga do gordo, são os mais quietos e tímidos, aqueles que ninguém aposta neles, que surpreendem e saiem "vitoriosos" destas brigas de colégio.
É que enquanto aqueles que caçoam não possuem uma razão interior p/ aquilo, a vítima guarda cada ofensa na memória e põe em cada soco uma resposta para o sujeito que o insultou.
bah david, texto bem levinho pra um natal.. cheio de amor.. rsrs
bom, feliz natal pra ti, boas festas
abraco