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Posts de dezembro 2008

Boa gente - último capítulo

30 de dezembro de 2008 32

O homem estava sentado atrás de uma grande escrivaninha. Fitava-me, impassível, com seus olhos amendoados e frios, as mãos pequenas pousadas no tampo da mesa. Aquelas mãos de golpes de caratê.

Vestia um terno preto, gravata preta e camisa branca. Não sorria. Será que algum dia aquele japonês sorriu? Japoneses sorriem?

A sala era enorme, repleta de livros. Parece que japonês lê muito… Lancei rapidamente o olhar por sobre os ombros e vi alguns sofás e poltronas atrás de mim. Alguns quadros nas paredes. Quadros caros, provavelmente.

— O senhor e a minha filha são chantagistas — disse o japonês.
— Eu…
— Cale-se.

Calei-me.

— Vocês são chantagistas. Estas fotos — sacou de um envelope pardo cópias das fotos que eu e Itsuko tiramos fazendo… bem, você sabe, tudo. Espalhou-as pela mesa. — O senhor é o companheiro da minha filha nessas fotos — continuou.

— Eu??? Eu…
— Cale-se! — repetiu.

Calei-me.

— Aqui há outras fotos — prosseguiu, e puxou de outro envelope pardo mais um punhado de fotos. Estiquei o pescoço. Vi que eram as fotos que os japoneses tinham tirado de mim havia pouco. Eu peladão. Engoli em seco.

— Veja a semelhança dos dois homens — falou o japonês.

Éramos mesmo semelhantes, eu e eu, nas duas situações. Não havia como negar que eu me parecia muito comigo mesmo, até quando nu. O fato de o meu rosto não aparecer no primeiro grupo de fotos não impedia que fosse reconhecido quando feita a comparação com as fotos do outro grupo.

— O senhor sabe o que vou fazer com essas fotos? — perguntou o japonês. Sua voz era calma, porém decidida. Um homem sério. Definitivamente.

— Er… — comecei.
— É uma pergunta retórica! Cale a boca. O senhor não fala aqui!

Engoli em seco de novo. E de novo me calei.

— Estou pensando em mandar essas fotos para o seu irmão…

Arregalei os olhos. Cara, não queria que meu irmão soubesse que me refocilei, me espadanei e chafurdei com a mulher dele. Não queria mesmo, tudo menos isso.

— Por favor, eu…
— Cale-se! O senhor só vai abrir a boca quando eu mandar!

Quando era para me mandar calar a boca, sua voz assumia um tom de aço de espada samurai. Balancei a cabeça, em assentimento. Estava nas mãos do japonês. Aquelas mãos de uma raça milenar, mãos de homens que lutavam kung-fu e construíam rádios de pilha e comandavam lavanderias.

— Eu poderia levar essas fotos à polícia — continuou, muito calmo, sem tirar as mãos assassinas da mesa. — Mas seria um escândalo, meus clientes e fornecedores seriam informados do caso, e não quero que isso aconteça.

Concordei em silêncio que isso não deveria acontecer. Ele foi em frente:

— Poderia também eliminar o senhor… fisicamente, digo — arregalei os olhos, não gostava da idéia de ser eliminado fisicamente. — Mas acho que não vale o esforço. O senhor é um pusilânime. Um inseto — sim, sentia-me um inseto. E estava até gostando de me sentir assim — Prefiro, portanto, mostrar as fotos para o seu irmão e contar tudo o que aconteceu. O senhor decerto que perderá a sua boa vida e se criará um clima tenso na família. Talvez até seu irmão tente matá-lo, nunca se sabe do que um homem traído é capaz. A maioria dos homens, sobretudo os latinos, preza muito essa coisa de fidelidade matrimonial.

Fechei os olhos e respirei fundo, pensando no Senhor: Deus! Deus! Me ajude! Senhor Jesus Cristo, minha Nossa Senhora, socorro!

— O problema — prosseguiu, depois de uma breve pausa. — É que não quero que minha filhinha se separe — suspirei. O matrimônio é uma coisa boa, definitivamente. Talvez a coisa se resolvesse em termos razoáveis. — Não quero… Então, vou lhe dar uma chance, senhor chantagista. O senhor quer mais uma chance?

Fiquei olhando-o, tentando adivinhar se aquela era outra pergunta retórica. Ele percebeu o meu dilema. Suspirou:

— Pode falar.
— Quero! Quero!
— Pois bem. O senhor é um homem de sorte. Como notei que não tem escrúpulos e é um cafajeste…
— Ei, eu sou boa gente! — protestei.

Ele riu.

— Como notei que é um canalha, um cafajeste e um safado, sem moral e sem escrúpulos, que é capaz de trair o próprio irmão e fazer chantagem barata com a mulher dele — disse, sorrindo, e sentindo prazer ao dizer aquilo tudo. Torci o nariz. Não me achava um canalha. — Como o senhor é tudo isso — completou — vou lhe dar servicinhos deste nível.

— Servicinhos?
— É. Coisas que o senhor poderá fazer. Que estão à sua altura.
— Que tipo de coisas?

— O senhor saberá com o tempo. Amanhã ou depois de amanhã eu terei um trabalho para o senhor. O senhor me prestará esses favores digamos… por um ano. Vai receber por isso, claro. E até mais do que merece. E seu irmão não saberá nada do que houve entre o senhor e a minha filha. Vai sair lucrando. Parabéns.

— Eu…
— Agora o senhor está dispensado. Aguarde um contato meu. Até mais.

Olhei para ele perplexo. Ele ergueu a cabeça e um japonês de terno surgiu de algum lugar, abriu a porta para mim e ficou me encarando significativamente. Saí da sala, saí do prédio em que se situava o escritório dele, um edifício de paredes espelhadas na Avenida Carlos Gomes. Caminhei desconcertado pela rua, sem saber o que pensar. Fiz uma rápida avaliação do que havia me ocorrido nos últimos dias. Um balanço. Ó:

Transei com uma mulher linda e sedutora. Ponto positivo.

Mas era a mulher do meu irmão. Ponto negativo.

Não ganhei vinte milhões, o que era ruim, mas também não fui preso, não me esvaí em fezes na rodoviária, nem fui sodomizado por 50 japoneses ou 50 negrões e tampouco faleci assassinado, e, para arrematar, meu irmão não descobrira nada. Tudo isso, se não era exatamente bom, também não era ruim.

Bem, eu também arranjara um emprego compulsório, me tornara uma espécie de escravo remunerado de um japonês mafioso. Isso não parecia nada bom.

Mas, no geral, não havia muitas perdas. Podia me dar por satisfeito. Decidi que, depois daquela aventura, não iria mais me meter em confusão. Nunca mais mulheres casadas, nunca mais contravenções, nunca mais nada fora da lei.

A não ser que o japonês me pedisse, claro.

Ainda tinha um ano de escravidão.

Tomei um táxi para ir para casa, não muito longe de onde estava. Cheguei ao prédio pensando que aquela Itsuko é que fora a causa da minha desgraça. Ela e seus planos mirabolantes. Quase me fizera perder tudo o que amealhara na vida, cruzcredo. Itsuko nunca mais, jurei para mim mesmo. A mulher do meu irmão, nunca mais. Não sou um cafajeste. Definitivamente.

No elevador, subindo até a minha cobertura, repetia essa frase para mim, mentalmente: não sou um cafajeste; a mulher do meu irmão, nunca mais! Nunca mais!

Curiosamente, a porta do apartamento estava encostada. Será que os japoneses tiveram esse cuidado antes de me levar com eles?

Estranho.

Afastei a porta e entrei. Caminhei alguns passos e senti que havia algo fora do lugar. Alguém estava lá! Vi um vulto acomodado no sofá da sala. Pensei em me virar e sair correndo dali, mas a pessoa percebeu que eu chegara e se levantou. Quase caí para trás: Itsuko!

— Você! — gritei.

Ela estava dentro de um vestidinho curto e justo. Muito curto. Minúsculo, até. Muito justo. Sufocante, inclusive. Como é que meu irmão permitia que sua mulher saísse por aí vestida daquele jeito? Realmente, Itsuko sabia provocar um homem. Mas a mim, não mais. De jeito nenhum. Estava vacinado contra japonesas sedutoras.

— Você quase acabou com a minha vida! — gritei, apontando um indicador trêmulo para ela.

Ela sorriu.

— Calma, Dan.
— Como calma??? Como…
— Calma. Esse plano deu errado, mas tenho outras idéias aqui — e bateu com a ponta do dedo delicado na testa lisa.
— Idéias?
— Ótimas idéias.
— Ótimas?
— Ótimas. E você vai me ajudar a pô-las em prática.
— Eu?
— Você.
— Olha, Itsuko, eu — não consegui ir em frente. Ela sentou-se no sofá e abriu as pernas. Abriu bem. E, cara, puxa vida, ela não usava nada por baixo daquele vestido justo e curto. Sorriu. E ordenou:
— Late.
— Hein?
— Late!
— Itsuko, olha, eu decidi que definitivamente…

— LATE!!!

Suspirei. Caí de quatro no chão. E comecei:
— Auuuuuu! Auauauauauauauuuuuu!

Não tive como resistir. Não sou um cafajeste. Mas também não sou de ferro. Definitivamente. Definitivamente!!!

FIM

Postado por David

Café TVCOM

29 de dezembro de 2008 4

Para quem perdeu o programa neste sábado, aí vai a íntegra do Café TVCOM:

Postado por David

Boa Gente - penúltimo capítulo

29 de dezembro de 2008 7

Ali estava eu, pelado como uma Luana Piovani, dentro de uma sala vazia, à mercê de 50 japoneses estupradores, e foram eles que invadiram o lugar, todos vestidos de terno e gravata, levando nas mãos câmeras fotográficas. Na verdade, só dois japoneses carregavam câmeras fotográficas. Outros quatro tinham mãos vazias, mas eram mãos ameaçadoras. Karatê, pensei. Kung-Fu. Jiu-Jitsu. Essas coisas. Aquelas mãos japonesas deviam ser capazes de quebrar tijolos, imagina o que não fariam com delicados ossos humanos. Recuei, assustado. Os japoneses me cercaram.

— Que é isso? — perguntei. — Quequé isso???

Não responderam. Começaram a me fotografar com aquelas suas câmeras japonesas.

— Ei! — gritei, erguendo a mão à altura dos olhos, protegendo-os da explosão dos flashes.

Eles não falavam. Apenas fotografavam. Clic, clic, clic, clic, clic. Eu só protestando:

— Ei! Ei!

Mas não ousava fazer mais nada além disso. As expressões duras dos quatro japoneses sem máquina fotográfica bastavam para dissuadir qualquer reação. Que mais podia fazer? Obedeci. Eles mandavam:

— Vira!

E eu, pensando que agora seria desvirginado, que agora seis japoneses tarados iam transformar meu esfíncter num couve-flor, que fazer? Virava. Mas não me defloravam. Nem sequer me tocavam. Só clicavam e clicavam e clicavam.

— Deita!

Eu: aiaiai, é agora, Jesus Cristo, vai doer. Mas eles só fotografavam.

— Vira do outro lado!

Eu obedecia. Fui fotografado por todos os ângulos durante uns 15 minutos. Depois do que, um dos japoneses saiu e voltou com as minhas roupas.

— Veste! — mandou.

Vesti, apressado, calculando que pelo menos da curra me safara.

O japonês então atirou o capuz preto no chão. O mesmo capuz que eles haviam enfiado na minha cabeça quando me pegaram.

— Coloca!

Estremeci. Fiquei olhando para o capuz sem reagir. Ele repetiu, agora com mais ênfase, de dentes rilhados:

— Co! Lo! Ca!!!

Notei a expressão feroz no rosto do japonês. Ele parecia ter muita vontade de me espancar. Provavelmente sentiria enorme prazer fazendo isso. Coloquei o capuz, feito um carneiro encaminhando-se para o sacrifício. Respirava fundo e com rapidez, lembrando-me daquelas cenas de condenados à morte no cadalfaso — o sujeito em frente à forca ou ao pelotão de fuzilamento, o rosto coberto por um capuz igual ao que eu estava usando, a respiração pesada fazendo o pano do capuz ir e vir boca adentro. A minha respiração também estava pesada, eu também me sentia no patíbulo. Era o que eu era: um condenado.

Dois deles agarraram-me pelos braços e me puxaram.

— Não tira o capuz! — um mandou, e eu estava decidido a obedecer.

Às cegas, conduzido pelos japoneses, fui retirado do lugar. Entrei de novo no elevador e, em seguida, fui enfiado em um carro. O carro partiu. Rodou alguns minutos. Parou. Puxaram-me para fora, levaram-me para outro elevador e conduziram-me pela mão até outra sala. Posicionaram-me na sala. Senti mãos pressionando meus ombros.

— Senta — ordenou uma voz.

Sentei.

Uma mão veloz sacou o capuz da minha cabeça. Pisquei. E o vi. Lá estava ele.

O pai de Itsuko.

Cacildis!!! O que acontecerá com Danton???
Saiba em seguida, no último capítulo de… Boa Gente!

Postado por David

Boa Gente

26 de dezembro de 2008 8

Pessoal, o folhetim Boa Gente está não apenas nos últimos como nos derradeiros capítulos. Serão só mais… DOIS!

Aguardem que estão saindo!!!

Postado por David, no ar condicionado sem hífen

Manual do Escoteiro

26 de dezembro de 2008 20

Tinha sete anos de idade quando comprei meu primeiro livro, com meu próprio dinheiro. Não foi fruto de mesada ou doação familiar. Foi produto de trabalho duro — confeccionei e comercializei picolés de K-Suco, catei jornais antigos e garrafas na vizinhança e os vendi para o ferro-velho. Fiz isso tudo com um objetivo definido, não pelo dinheiro em si.

É que queria, precisava comprar o Manual do Escoteiro-Mirim, da Abril Cultural. Quem já leu um gibi da Disney sabe do que se trata: o manual que Huguinho, Zezinho e Luizinho, os sobrinhos do Pato Donald, consultam sempre que enfrentam uma contingência. Qualquer contingência, desde como encontrar o antídoto para os cogumelos venenosos da Austrália até a melhor forma de evitar a picada da terrível tse-tsé, a mosca do sono. Pois comprei o manual e o li e o reli inteiro, várias vezes.

Nos meses seguintes, a editora lançou outros manuais baseados nos personagens da Disney. Do Mickey, sobre mistérios e detetives; da Maga Patalógica e da Madame Min, sobre mágicas; do Zé Carioca, sobre futebol. Dez ao todo, num intervalo de mais ou menos três anos. Comprei-os, era uma necessidade comprá-los e lê-los e tê-los comigo. Minha estratégia não mudou: picolés de K-Suco, garrafas e jornais.

Sentia o maior orgulho da minha coleção. Minha mãe permitia que ocupasse lugar de honra na sala do pequeno apartamento em que morávamos, na Assis Brasil.

Bem.

Um dia aconteceu o seguinte: entramos no apartamento, eu, minha mãe e meus irmãos, e os meus livros… não estavam lá! Haviam sumido! Alguém os roubara. Desatei no choro mais desesperado que um menino de 10 anos pode chorar. Minha mãe, no entanto, logo desvendou o crime: alguém invadira o apartamento pela janela da sala, que dava para uma pequena área, que dava para outra área, de outro apartamento. Sem um minuto de hesitação, ela saiu de casa, marchou pelo corredor do edifício e bateu na porta do vizinho, que tinha um casal de filhos. A mãe dos garotos atendeu. Minha mãe:

— Um dos teus filhos entrou na minha casa e roubou os livros do meu filho.

Dez minutos depois, a coleção de manuais estava comigo de novo e comigo ainda está, na pequena biblioteca que montei em casa. Com uma exceção: meu primeiro livro, o Manual do Escoteiro-Mirim, eu o perdi nestes anos todos. Como sumiu, não sei. Sumiu, Só. E é uma dor.

Mas, naquele dia, minha mãe recuperou a coleção completa. Durante algum tempo senti raiva dos ladrões-mirins. Considerava-os uns malditos ambiciosos e desonestos. Depois, quando nos mudamos, pensava neles até com alguma admiração: eram ladrões de livros, afinal. Não se pode dizer que não fosse um delito nobre.

Hoje sei que não foi nem uma coisa nem outra. Os amiguinhos do alheio que me tomaram a coleção não fizeram isso porque amassem os livros: era porque eu, e não eles, os valorizava. Um sentimento de viés que faz alguém desejar algo não porque realmente deseja, mas porque o outro deseja. O prazer de ter nas mãos algo que as outras pessoas querem. Prazer que, às vezes, se transforma na ânsia de sabotagem. Alguém quer muito fazer algo e a outra pessoa vai lá e impede. Por que ela faz isso? Para sentir que tem o poder de roubar do outro a realização.

Não é esse o sentimento que motiva tanta gente neste nosso Rio Grande amado a fazer oposição sistemática a qualquer projeto, a qualquer governo, a qualquer empreendimento? Dificilmente se vê gente tentando ajudar. O que se vê é gente tentando solapar. Nestes finais de ano fala-se tanto em boa vontade. Eis um desejo útil para a Humanidade e, em especial, para esse naco meridional do Brasil: boa vontade. Um pouco de boa vontade já basta para 2009 ser, pelo menos, um ano razoável.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Os bons de briga

24 de dezembro de 2008 22

A gente brigava toda semana, lá no IAPI. Briga com inimigo e com amigo também. Quem não brigasse ficava malvisto. Era bichola. O meu grande amigo Amilton Cavalo, eu o conheci brigando com ele. Vinha do colégio com minha pastinha debaixo do braço, tranqüilão com trema, e vi que ali adiante uma turma jogava bolinha de gude. Era um cardume de guris, o gude estava cheio e faiscante. Resolvi passar por perto para conferir como estava o joguinho. Caminhava e olhava para o jogo, até que ouvi um grito:

— Ei! Qual é a tua, rapá?

Parecia ser comigo. Parei. Um guri moreno, mais ou menos do meu tamanho, encarava-me com as mãos na cintura, desafiador. Apontei para o meu próprio peito:

— Eu?

— Tu mesmo! Por que tu fez isso?

— Isso o quê, véio?

— Tu chutou a minha joga!

— Não chutei !@$%*$@!&* de joga nenhuma!

— Chutou, sua bichola!

— Bichola é o teu pai!

— Meu pai é do Alegrete!

— Bichola do Alegrete!

Em um segundo, rolávamos pelo areão da ruazinha, levantando poeira do chão e gritaria da gurizada, que nos cercou para fazer torcida. Soco zunindo para cá, soco zunindo para lá, de repente consegui gravateá-lo. Prendi-o fortemente pelo pescoço. Ele esperneava que nem um polvo com coceira, mas eu sabia que não conseguiria se libertar. Estava sufocando-o. Aí ele:

— Uf! Tudo bem! Uf! Me larga! Tu ganhou! Uf!

Soltei-o, satisfeito com meu desempenho de lutador. Ele se levantou, espanando o pó do calção e, quando me distraí, PAM!, acertou-me um soco na ponta do queixo. Traiçoeiro, esse Amilton Cavalo. Mesmo assim nos tornamos amigos para toda vida, e me orgulho de que, agora, o filho dele leva o meu nome.

***

O importante nem era vencer a briga. O importante era brigar. Todos respeitavam os bons brigadores. Eu não era bom de briga. Bons eram os gêmeos Renato e Ronaldo. Já contei deles? Vou contar. Iguaizinhos fisicamente, só que inconfundíveis, porque, de espírito, não havia ninguém mais diferente do que um do outro. Renato, colorado, pacífico, nunca brigou com ninguém. Ronaldo, gremista, invocado, brigava sempre que desafiado, e o fazia com técnica de profissional. Certa feita, vi quatro sujeitos discutirem com o Ronaldo em um bar. Quatro. Pois ele destruiu os quatro e o bar junto, cadeira, mesa, garrafa de bebida, tudo. Outra vez, um incauto o provocou na mesma ruazinha em que briguei com o Amilton. O Ronaldo transformou a cara dele em xis-bacon com ovo. Lutava com os punhos cerrados, à altura dos ombros, saltitando feito um pugilista cubano, compenetrado, sério, dono de uma calma assassina. Anunciava:

— Agora no nariz!

E, BAM, um foguete no nariz do coitado.

— Agora no olho!

BOF!, bomba no olho.

Era bonito de vê-lo brigando, aquele Ronaldo. Era bonito ver uma boa briga, brigada com os punhos e o cérebro. É por isso que gosto de boxe. É por isso que dá pena de ver a situação do boxe hoje, o Hollyfield lutando contra o tal gigante russo por uns trocados. Que tristeza.

***

Hoje, a luta das massas é o vale-tudo. Luta de bárbaros. Reflexo desses tempos bárbaros, é evidente. Naquela época, não. Naquela época lutava-se como se lutava no velho boxe de Tyson e Ali e Foreman: com os punhos e nada mais. Mesmo nas vilas, mesmo os pirralhos, mesmo as brigas de rua. Lembro de outra: um gordo lá do colégio arrumou confusão com dois colegas de aula. Os carinhas não eram pequenos, embora também não fossem grandes. O gordo, sim: mais do que gordo, grande. Na saída da aula, os dois acossaram o gordo. A gurizada do colégio cercou os três, esperando pelas emoções da briga. O gordo não quis saber. Sentou-se num barranquinho, abraçou os joelhos e lá ficou, de cabeça baixa. Os dois o rodeavam e o ofendiam. Ele nada. Todo mundo em volta, caçoando do gordo. Ele nem erguer os olhos erguia. Aí um dos guris bravateou:

— Ele não briga porque estamos de dois.

Ao que o gordo levantou a cabeça e rosnou:

— Nem de dois, nem de três.

E se ergueu e foi para cima. Gingava, aquele gordo, bailava feito um Travolta, e cada manotaço que desferia era um tiro de bazuca. Os guris não conseguiam ver seus punhos; sentiam-nos, só. Um massacre. O boxe legítimo. Que nem nas ruas nem nos ringues existe mais.

* Texto publicado hoje na página 50 de Zero Hora.

Postado por Davud

Boa gente - capítulo 15

23 de dezembro de 2008 16

- Minha porta! – gritei. – Minha porta!!!

Por que catzo estava preocupado com uma %4#@!J*7¨MM(¨%)&##@@ de uma porta numa hora daquelas, isso é algo que jamais descobri. Só sei que fiquei gritando minha porta, minha porta, até que aquela manada de japoneses irrompeu pela minha sala como se fosse… uma manada de japoneses e me cercou e me agarrou por braços e pernas. Quantos malditos japoneses eram? Pareceram-me uns 50, mas admito que deviam ser uns quatro ou cinco. Só sei que me ergueram do chão com facilidade, como se eu fosse uma criança, e me imobilizaram, e enfiaram um capuz preto na minha cabeça, e em segundos eu estava sendo carregado para fora, que nem um salame, para algum lugar que não podia imaginar, algum porão de torturadores japoneses. Gritei, abafado pelo capuz: 

– Socorro! Socorro! Soc…

Senti que algo, provavelmente um esparadrapo ou uma fita isolante, foi amarrado em volta da minha boca pelo lado de fora do capuz. Só conseguia gemer, e gemendo fui conduzido feito um cabrito amarrado pelos japoneses assassinos. O desespero tomou conta de mim, mas ainda assim tinha uma réstia de consciência para amaldiçoar todos os milhões de japoneses que andam sobre a Terra, tanto os que vivem à sombra do Monte Fuji, no Japão, quanto os que estão pelo mundo, tirando fotos de monumentos. E eu querendo conhecer a Terra do Sol Nascente e bibibi! Francamente! Terra da Yakuza! Terra de homens frios e sem alma! E também as mulheres, também elas, não se podia confiar nelas. Aquela Itsuko. Ela me usara. Queria sacanear o pai e sair ilesa. E com dez milhões, ainda por cima. O trabalho duro quem faria? Euzão. Tive que cometer todas aquelas loucuras com a mulher do meu irmão. Acha que é fácil isso? Três horas de sexo melequento??? Tive que ir de manhã para a rodoviária, que nojo. Todo aquele pobredo. Tive que enfrentar uma diarréia violenta. A humilhação de sentar numa latrina de banheiro de rodoviária! Tive que pegar uma mala que poderia conter uma bomba, corri o risco de ir pelos ares! E agora estava sendo seqüestrado por 50 japoneses assassinos. Antes de falecer, decerto que seria torturado com requintes de crueldade japonesa. Ah, por que não me contentei com a minha vida tranqüila, meu apartamento com piscina, minhas namoradinhas eventuais, minhas festas?… Por que tive de me refocilar com a mulher do meu irmão? Agora, O Senhor me punia. E eu merecia. Sim, merecia. Oh, Jesus, desculpe, por favor! Oh, Nossa Senhora, me ajude nesse momento crucial!

Fui posto em um carro. A essa altura, já haviam me atado os braços e as pernas. Estava indo para o matadouro. Gania de horror dentro daquele carro.

- Mnnnnnn! Mnnnnn!

Um japonês me deu um tapa do lado da orelha. Algum tipo de kung fu, certamente. Doeu.

- Quieto! – mandou.

Obedeci, sentindo a orelha latejar e zunir.

Eu ia falecer. Agora era certo. Ia falecer. Detestava falecer. Definitivamente.

Depois de algum tempo, sei lá quanto tempo, o carro parou. Fui retirado com rapidez e destreza, eles eram bons naquilo. Subimos por alguma espécie de elevador. Entramos em algum apartamento. Tudo isso eu deduzia pelo que ouvia sob o capuz, imerso em dor e escuridão.

Atiraram-me no chão. Doeu de novo. Tudo doía. E, em um segundo, velozes mãos japonesas desataram as amarras que me prendiam, puxaram o capuz da minha cabeça e aí… aí… aí… começaram a tirar minha roupa!

- Que é isso? – eu gritava. – Que é isso???

Estava em uma sala vazia, sem nenhum móvel, nada, e aquilo me deixou ainda mais assustado: devia ser a sala na qual os japoneses torturavam suas vítimas. Jesus Cristo amado!

- Socorro! – eu berrava. – Socorro!

E aqueles japoneses todos, com todas as suas mãos japonesas, me deixaram nu. Completamente nu. Nunca havia ficado tão nu na minha vida. Pensei: eles vão me estuprar. É isso que vai acontecer: serei sodomizado por 50 japoneses tarados. Bom, pelo menos não são 50 negrões. Naquele momento decisivo da existência, em que minha própria honra estava em jogo, compreendi que a gente sempre pode ver o lado bom das coisas. Mesmo as piores coisas. Preparei-me para a sevícia mais cruel, mas não foi o que ocorreu. Eles recolheram minhas roupas, meus sapatos, minhas cuecas, tudo, e saíram porta afora, me deixando caído no chão de parquê, pelado, desamparado, apavorado.

Levantei-me, tonto, e dei alguns passos vacilantes até a porta. Fiquei olhando para o trinco, indeciso. Deveria tentar abri-la? Certamente estaria trancada. Mas e se não estivesse? O que haveria do lado de fora? Poderia sair assim, nu? Será que era isso que os japoneses assassinos queriam? Matar-me nu, no meio da rua? E se não fosse a rua que estava do lado de fora? Se fosse, sei lá, uma câmara de torturas? Ou se fossem os 50 negrões, muito piores do que 50 japoneses?

Droga, droga, droga!

Bem, só descobriria a resposta a todas essas perguntas se abrisse a porta. Caminhei em direção a ela com a mão estendida. Ia abri-la, mas, antes que tocasse na maçaneta, a porta foi escancarada.

E eles e suas máquinas entraram.

Quem entrou???

Quem???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Boa Gente!

Postado por David

Boa gente - capítulo 14

22 de dezembro de 2008 17

Dinheiro. Dinheiro! Dinheirodinheirodinheiro!!! A mala estava cheia de dinheiro! Dinheiro, cara! Os vinte milhões! O japonês havia pago os vinte milhões que eu e Itsuko pedimos! Ah, os japoneses são um povo confiável. Definitivamente. Honestos. Dignos. A gente combina algo com um japonês, pode estar certo: ele vai cumprir. Que diferença existe entre um japonês probo e um brasileiro sacana. Por isso que o Japão é o Japão. Desenvolvido. Tecnológico. Educado. Confiável, enfim. Amo o povo japonês. Japonesas como Itsuko me concedidam prazer, japoneses como o pai de Itsuko me pagavam por isso. Viva o Japão! O Grande Yamato! O País do Sol Nascente! Terra em que Grêmio e Inter conquistaram o mundo!

Tirei a mala e o dinheiro da água. Comecei a secar a cédulas com panos de prato. Repetia, sem cessar, cantando como se fosse torcedor de futebol:

- Japão, Japão, Japão, viva o Japão! Japão, Japão, Japão, viva o Japão!

Tinha que ligar para Itsuko. Tinha que contar a ela que ela era um gênio. Gênia? Tanto faz. Itsuko sabia das coisas. Definitivamente. Consultei o relógio de pulso. Será que Rob estava em casa? Melhor não ligar. Melhor esperar pela ligação dela, como havíamos combinado. Estava excitado. A vida é boa. Muito boa. Decidi que a primeira viagem que faria com aquele dinheiro seria para o Japão. Conheceria uma civilização superior. Cultura milenar é outra coisa. Definitivamente.

Olhei para a montanha de dinheiro molhado que espalhara na mesa da cozinha. Notas de 50 e de 100. Que lindeza. Será que não seria melhor colocar tudo no forno? Virei a cabeça para o fogão. Não… Que estupidez. O dinheiro pegaria fogo e eu ficaria sem nenhum. Quem sabe o secador de cabelo? É… Secador de cabelo era uma boa idéia. Saí da cozinha, andei apressado em direção ao banheiro, para pegar o secador. No meio do caminho, quando estava na sala, a campainha da porta tocou. Estaquei. Ué? O porteiro sempre avisava quando alguém chegava de visita. A campainha não podia tocar assim, sem que eu soubesse antes que seria tocada. Seria algum vizinho? O zelador? Estranho. Caminhei devagar até a porta. Espiei pelo olho mágico. Ninguém. Quem quer que estivesse batendo, estava parado ao lado da porta, fora do alcance do olho mágico.

- Quem é? – gritei.

Silêncio.

- Quem é? – repeti.

Nada.

Meu coração começou a ribombar com força. Mais força ainda quando a campainha tocou mais uma vez. Recuei um passo, olhando para a porta.

- Quem é??? – gritei. – Vou chamar a polícia!

Recuei mais dois passos, sempre olhando para a porta. Ouvi o ruído de algo do lado de fora. O que seria? Som de metal se chocando, talvez…

Então a porta veio abaixo. Gritei de horror, e mais aterrorizado fiquei quando vi o que surgiu detrás da porta derrubada:

japoneses.

Aaaaaah! E agora? O que acontecerá com Danton??? Saiba logo, no próximo capítulo de… Boa Gente!

Postado por David

Depois da dura prova

20 de dezembro de 2008 26

O Grêmio venceu o primeiro Gre-Nal por 10 a 0, todo mundo sabe disso. O que todo mundo não sabe é que, de alguma forma, por causa dessa goleada é que o Inter existe e pulsa até hoje, 100 anos depois. Porque foi uma afronta. Um desplante. O Inter já havia sido fundado como uma resposta à recusa do Grêmio de aceitar forasteiros como sócios. Aí, no primeiro jogo entre os dois times, no primeiro jogo da história do Inter, o Grêmio vai lá e faz 10 a 0.

Ora, era mais ou menos evidente que o Grêmio venceria o jogo. Antes da partida, o capitão e centroavante do Grêmio, Booth, visitou os colorados pioneiros durante um treino deles na Rua Arlindo. Depois do que viu, previu:

– Eles recém iniciam e nós temos seis anos. Vamos passá-los por uma dura prova, mas se não desanimarem vão para frente, pois nunca vi tanto entusiasmo e tantos planos nesse assunto de futebol.

Naquele tempo, o capitão acumulava o cargo de técnico do time. Pelo jeito, portanto, Booth entendia da coisa. E, de fato, tudo o que predisse se confirmou. Ele próprio se encarregou de fazer valer sua profecia: marcou cinco gols no jogo.

Verdade que alguns colorados ficaram desanimados. O próprio presidente do clube, Leopoldo Seferin, meio que se afastou do futebol. Outros, porém, usaram a humilhação como combustível – o que, lembra?, fora profetizado por Booth. Destes renitentes, dois foram personagens fundamentais na história do Inter, do Gre-Nal e, por conseqüência, do futebol gaúcho. Preste atenção nesses nomes: Carlos Kluwe e Antenor Lemos. O Inter não existiria sem essa dupla. Antenor Lemos até jogou algumas partidas no time titular, mas não era exatamente um craque. Tornou-se mais importante como dirigente. Com sua voz de bumbo e tuba, ia para a Rua da Praia a fim de provocar os gremistas e açular os colorados. Nas reuniões entre dirigentes de clubes fazia de tudo, inclusive uma ou outra burla, para beneficiar o Inter e solapar os interesses do Grêmio. Graças à energia de Antenor Lemos, o Inter cresceu nos seus primeiros anos, apesar dos fracassos nos enfrentamentos com o futuro arquiinimigo.

Carlos Kluwe era outra história. Kluwe era bom de bola. Tinha metro e noventa de altura, jogava de center half, posição mais ou menos correspondente à do volante moderno, com a diferença de que, naquele esquema, o center half granjeava mais importância. Porque os times jogavam no 2-3-5: dois zagueiros, três médios e nada menos do que cinco atacantes. Uma alegria. Então, ao center half cabia a distribuição do jogo. Ele precisava saber jogar. Kluwe sabia. Mesmo assim, o Inter não conseguia vencer o Grêmio. Depois do Gre-Nal inaugural, o time de Kluwe continuou perdendo todas. Kluwe, irritado, jurou:

– Enquanto não ganhar deste tal de Grêmio, não posso largar esse negócio de futebol.

Tarefa complicada. Kluwe deixou de jogar e não conseguiu realizá-la. A primeira vitória colorada aconteceu só em 1915, e Kluwe não estava em campo. Parecia que ele não cumpriria a sua promessa, até que, em 1919, quatro anos depois de ele ter pendurado as chuteiras, o centroavante colorado Bedionda se machucou na véspera de um Gre-Nal. Kluwe não era centroavante, mas os dirigentes do Inter imploraram para que ele jogasse. Tanto pediram que ele aceitou. Não apenas jogou bem como marcou um dos gols da vitória de 2 a 0. Estava cumprida a promessa. Um ciclo se fechava. Agora, o Grêmio, antes tão altivo, tão orgulhoso, quase que indiferente às provocações do novo clube, agora o Grêmio não podia mais ignorá-lo. Havia um inimigo à espreita. Um inimigo que o acompanharia sem dar trégua século afora, que faria parte do seu destino, que seria parte da sua própria história.

 

*Texto publicado na página 59 de Zero Hora dominical

Postado por DAVID COIMBRA

Boa gente - capítulo 13

19 de dezembro de 2008 22

Enquanto dirigia de volta para casa, olhava para o lado, para a mala no banco do carona. Vinte milhões! Muito dinheiro, cara! Eu estava rico. Bem rico. Ah, um homem rico tem poder. Portas e pernas se abrem para um homem rico. As pessoas bajulam um homem rico e, olha, gosto de ser bajulado. Sim, senhor. Gosto. Quer ser sincero comigo? Tudo bem, desde que seja para elogio. Se for para me criticar, prefiro a bajulação covarde ou a hipocrisia cordial. Não me venham com a honestidade dura, essas chatices. Podem puxar o meu saco.

Vinte milhões.

Parei no semáforo e olhei de novo para a mala. De repente me ocorreu: e se ela não estivesse recheada de dinheiro? E se fosse tudo uma grande sacanagem do japonês? Cara… Não é que podia ser isso mesmo? A mala podia estar cheia de papel. Ou podia conter uma cobra venenosa, cruzcredo. Ou uma bomba! Jesus! Será que eu estava carregando uma bomba no meu próprio carro? Levando-a para o meu próprio apartamento? Quando abrisse a mala, CABUM!, lá se ia Danton e sua boa vida para o infinito desconhecido. Uma bomba, meu Deus! Que japonês desgraçado!

Um carro buzinou atrás de mim. O sinal estava verde. Apressadinho. Arranquei.

Uma bomba. Olhei para a mala mais uma vez. Será que devia levá-la para o meu apartamento? Talvez eu devesse consultar um profissional. Um bombeiro, quem sabe. Ou um daqueles desarmadores de bombas da polícia. O problema é que eu não conhecia nenhum bombeiro ou desarmador de bomba. E, mesmo que conhecesse, como poderia explicar que andava com uma bomba dentro de uma mala? Teria que dizer de onde viera a mala. Além disso, em vez de bomba a mala poderia ter mesmo os vinte milhões. Neste caso, o policial ia querer saber onde eu arranjara o dinheiro.

É… Não havia saída. Eu teria que abrir a mala.

Ou não?

Cheguei ao prédio em que morava com essa dúvida. Coloquei o carro na garagem. Olhei de novo para a mala no banco do carona. Encostei a orelha nela para tentar ouvir algo. Pensei em sacudi-la, mas mudei de idéia. E se a bomba explode com a sacudida? Lembrei do caso do Riocentro. Que problema esse, uma bomba numa mala.

Peguei a mala com todo o cuidado, como se fosse um bebê. Saí do carro. Subi até meu andar pelo elevador com a orelha grudada na mala. Nem um ruído. Nada. Seria uma bomba silenciosa? Existem bombas silenciosas, decerto que existem. Acho que bombas que fazem barulho são só as bombas-relógio. Aquela bomba devia ser uma das que são acionadas pela abertura da mala. Aiaiai… Basta abrir a mala e… Aiaiai…

Cheguei ao apartamento. Entrei com a mala bem segura debaixo do braço. Não queria deixá-la cair e fazê-la explodir. Depositei a mala com todo o cuidado na mesinha de centro da sala, sentei-me no sofá e fiquei olhando para ela. Pensando. O que que eu faço agora? O que que eu faço? O quê?

Levantei-me. Caminhei até a cozinha. Tirei a garrafa d´água da geladeira. Bebi um gole. Voltei para a sala. Bebi mais um gole, de pé sobre o tapete, fitando a mala.

Então me ocorreu uma idéia que julguei genial: água! Levantei a garrafa da qual bebia no gargalo e a fitei. Água, cara! Isso! Encharcaria a mala e, se houvesse uma bomba, isso a desativaria. Se houvesse dinheiro, tudo bem: dinheiro seca e fica bom de novo. Emiti uma breve gargalhada e vibrei:

— Sou um gênio!

Colhi a mala da mesinha de centro. Decidi levá-la até a pia da cozinha. Encheria a pia d´água e mergulharia a mala. Abriria-a debaixo d´água. Gênio! Gênio! Aquele japonês assassino nunca imaginaria estar lidando com um gênio. Enchi a pia assobiando uma música dos Beatles. I say yes, You say no

Pia cheia, preparei-me para mergulhar a mala. Mergulhei-a. Levei a mão à fechadura.

Aí pensei: mas será que a água vai desativar a bomba mesmo? Bombas não explodem debaixo d´água? Já vi várias vezes bombas explodindo em rios nos filmes. E agora?

Hesitei.

Abria ou não abria? Abria ou não abria?

Mas que droga!

Decidi abrir. A gente tem que se arriscar na vida. Comecei a rezar baixinho:

— Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome…

Clic.

Abri a mala.

Espiei o que havia dentro.

Meu Deus! Meu Deus!!!

O que havia na mala???


Uau! Saiba logo, no próximo capítulo de Boa Gente!

Postado por David

Eu

19 de dezembro de 2008 22

Associações, congregações, confrarias, clubes e quejandos sempre me pareceram um pouco ridículos. Não muito; um pouco, só. Aquelas pessoas todas se movimentando em bloco. Alguém diz o que elas têm de fazer e elas fazem. Claro, se os outros querem agir desta forma, tudo bem. Para mim é algo quase insuportável.

As pessoas da minha família. Não gosto delas porque são da minha família. Gosto delas, ponto. Gosto de uma por uma. Pelo que cada uma é, não por obrigação de parentesco, não pelo sobrenome.

Tampouco sou entusiasta de nacionalismos, patriotismos ou bairrismos. Se há algo que me irrita é esperarem de mim comportamento de grupo. Qualquer grupo.

Ninguém tem nada a ver com o que faço, se o que fizer não afetar ninguém. Eu mesmo quero escolher as responsabilidades que vão me escravizar. Não abro mão de cometer erros através do meu próprio julgamento equivocado. Não gosto de me submeter a liturgias, solenidades me cansam e hierarquias são quase sempre risíveis. A grande conquista da democracia não foram bons governos; geralmente a democracia gera governos medíocres. A grande conquista da democracia foi a liberdade do indivíduo.

É por isso que fiquei eufórico com a história do jornalista iraquiano que atirou os sapatos no Bush. Euforia. Foi exatamente isso o que senti. Porque a ação do jornalista foi um gesto individual. Um homem, sozinho, contra uma instituição. Pois o presidente dos Estados Unidos é uma instituição, e poderosa como poucas.

Então lá estava aquele repórter solitário, sem nenhuma outra arma que não os sapatos que calçava, diante do homem que ocupa o cargo mais importante do mundo, cercado pelos seguranças mais alertas, mais profissionais, mais furiosos do mundo. E ele não se intimidou. Não se acovardou. Disparou uma sapatada no presidente americano aos olhos do planeta inteiro.

Fiquei imaginando o que todos os poderosos da Terra sentiram ao ver aquela sapatada. Todos eles, os grandes e os nem tanto. Empresários que oprimem seus funcionários, juízes de direito que pronunciam sentenças iníquas, jornalistas prepotentes, médicos arrogantes e também assaltantes que dominam suas vítimas sob a mira de uma arma, ou vândalos que atacam transeuntes indefesos e os espancam para lhes roubar os tênis, todos esses, cuidado! Alguém pode lhes atirar um sapato na cara. Cuidado, todos vocês que representam o status quo ou entidades ou instituições ou quaisquer grupos com quaisquer fins. Cuidado! Porque alguém, um cidadão comum, desses que passam pela rua sobraçando sacolas, que carregam fichinhas de ônibus nos bolsos e vestem camiseta de propaganda de magazine, um desses pode tirar o sapato e jogá-lo ao pé da sua orelha.

É isso que esse jornalista fez. É isso que me deixou eufórico. Ele mostrou que o indivíduo pode, sozinho, ir lá e afrontar um poderoso, e tirar uma lasca do seu orgulho. Ele decidiu. Ele fez. Com sua cabeça, com suas mãos, usando tão-somente os sapatos que lhe protegiam os pés. Não pertencia a qualquer grupo, não estava ali como sócio de nenhum clube, não representava uma família, um país ou um partido. Um homem só, nada mais.

Essa é a eterna verdade: o espírito de um único homem, se o que lhe move é a liberdade, torna-se um espírito invencível.

*Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Boa gente - capítulo 12

18 de dezembro de 2008 13

Fiquei olhando para aquele japonês. Era um japonês muito parecido com outros japoneses que já vira. Tinha uma baita cara de japonês, aquele japonês. Olhos oblíquos, cabelos pretos e tudo mais. Um japonês pequeno e magro como quase sempre são os japoneses. Olhei bem para ele. Olhei e olhei para aquele japonês.

Mas ele não olhou para mim.

O japonês continuou parado a dois metros da entrada do bar, com uma mochila pendurada no ombro, fitando, com um ar um pouco aborrecido, algum lugar no meio da rodoviária. Aquele japonês está chateado, pensei. O que me deu certo alívio. Por algum motivo, achei que um japonês chateado não podia ser um japonês assassino. Um japonês assassino obviamente tem cara feroz. Ou concentrada. Ou até dissimuladamente distraída. Chateada, não. Certo que não. Um japonês chateado fica pensando nas coisas que chateiam os homens: nas mulheres. Ou no trabalho. Ou no dinheiro. Algo assim. Além disso, ele não me olhava, aquele japonês. Não demonstrava o menor interesse em mim. Talvez não estivesse me vigiando, afinal. Depois de alguns minutos, aconteceu algo que me deixou ainda mais aliviado. Uma loira gorda apareceu, o japonês bateu com o braço na perna e exclamou em português, não em japonês:

- Até que enfim!

A loira balbuciou alguma desculpa e saíram os dois, apressados, para os boxes dos ônibus. Suspirei. E pensei que nunca tinha visto um japonês com uma loira gorda. Definitivamente, um japonês com uma loira gorda era novidade absoluta para mim.

Meu café havia terminado. Será que devia pedir a chave para o dono do bar? Olhei em volta. Os dois clientes ainda estavam lá. Não, não podia pedir a chave na frente daqueles caras. Sabe-se lá quem eles eram. Talvez fossem agentes do japonês. Podiam estar disfarçados de pobres. Ah, porque pareciam pobres aqueles dois, isso é certo. Um deles usava até capanga. Nem sabia que ainda existia capanga… O outro vestia camisa de mangas curtas. Francamente, camisa de manga curta é bem coisa de pobre.

Pedi outro café para justificar minha presença ali. E outro. E mais outro. Continuei tomando cafés, esperando que todos os clientes fossem embora. O problema é que um saía e outro entrava. Levou mais de uma hora e sete cafés para que ficássemos só eu e o dono do bar. Percebi que ele já estava desconfiado da minha sede por café. Cada vez que eu pedia mais um café ele cofiava o bigode.

Finalmente, ficamos eu e ele. Só. Chamei-o.

- Outro café? – gritou, da outra ponta do balcão.

- Não, não… – hesitei. Se eu pedisse a chave agora, ele ficaria desconfiado. Afinal, por que um sujeito se entope de café para só depois pedir uma chave? Enquanto pensava no que fazer, ele se aproximou, curioso, cofiando o bigode. Senti o calor tomar conta do meu rosto. Enrubesci. Ele me encarava, decerto achando-me maluco. Mas que droga. Seja o que Deus quiser! Falei:

- Er… Eu sou o Petrônio…

- Ahn?

- O Petrônio!

- Prazer. Inácio.

- Er… O senhor não tem nada aí para mim?

O Inácio recuou um passo:

- O que você quer? Aqui não tem drogas, não!

- Não é nada disso! – a coisa começava a se complicar. – É que um japonês entrou aqui, não entrou?

- Vários japoneses entram aqui!

- Mas esse não deixou uma chave para mim?

O homem franziu a testa.

- Ah, a chave!

- Pois é! Eu sou o Petrônio!

- Ta bem.

Tirou a chave de algum lugar embaixo do balcão e me entregou. Sorri, aliviado.

- Mais alguma coisa?

- Só a conta.

Paguei e saí dali exultante. Eu tinha a chave! Agora, era só buscar o dinheiro. Praticamente corri até os armários. A chave correspondia ao armário número 12. Abri a porta. E lá estava ela. A mala com o dinheiro! Eu estava rico!

Peguei a mala e voei com ela para fora da rodoviária, prendendo-a firme sob o braço. Estou rico, pensava. Ricoricoricoricorico! Enquanto ligava o carro, com a mala no banco do carona, liguei para Itsuko. Ela atendeu e eu:

- A águia pousou! A águia pousou!

Itsuko sussurrou:

- Teu irmão está aqui. Vai pra casa que te ligo mais tarde.

Fui para casa tremendo de excitação. Tudo parecia azul e amarelo naquele belo dia de Porto Alegre. Mas não ficaria assim. Ah, não ficaria. Por quê??? Saiba logo, no próximo capítulo de Boa Gente!

Postado por David

Prêmio ARI

18 de dezembro de 2008 20

Moisés Mendes/Ricardo Chaves

Pessoal, a crônica “Certa noite de chuva” foi premiada com o segundo lugar no Prêmio ARI deste ano. Vou reproduzi-la para vocês.

E, de quebra, vou reproduzir também a do Moisés Mendes, que ganhou o primeiro lugar. Aí vai!

Certa noite de chuva
 * Por David Coimbra

Chovia muito no último dia em que vi meu pai. Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas.

Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses. Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão. Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

— Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir.

Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

— Vou comprar dois de cada! — recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias.

Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar. Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial.

Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos. Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal.

Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda. Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.

* Texto publicado em 28/12/2007 em Zero Hora

Don Juan e dona Alzira

 * Por Moisés Mendes

O estresse do mundo não está na aceleração, mas na gritaria. O mundo ficou gritado. Vaia-se até tocha olímpica. Tudo produz sons altos, não mais só nos grandes eventos e nas apoteoses, mas no dia-a-dia. Essa gritaria não existe em São Miguel das Missões.

Foi ali, uma noite dessas, ao lado das sombras das ruínas da catedral, que conversei por quase três horas com dona Alzira. Fiquei diante de uma benzedeira de 72 anos, hipnotizado pela fala murmurada da descendente de guaranis e de negros. Como jornalista também incorpora personagens, decidi que tentaria escutar o que ouvia como o escritor Carlos Castañeda escutou o bruxo Don Juan no México. Os cinqüentões de hoje, os adolescentes dos anos 70, conhecem a história do índio iaqui que induziu Castañeda a concluir que a magia curaria corpos e espíritos.

Quantos daquela geração se agarraram à idéia de que a única chance de sobrevivência estaria na consciência oculta que só se tornava visível com a ajuda de ervas estranhas. Diante de dona Alzira Oliveira Leite, atento como Castañeda diante do índio Juan Matus, queria saber tudo que pudesse daquela ciência das ervas e das benzeduras. Não tinha a pretensão de Castañeda de ser o escolhido por dona Alzira como herdeiro de seus segredos. Mas queria saber, por exemplo, se alguma vez as benzeduras também falhavam.

A resposta não veio direta, como na gramática objetiva dos brancos urbanos. Veio por partes, em ondas, como se aquela oralidade sussurrada fosse até as sombras das ruínas da catedral e voltasse. E aí fiquei sabendo que não são a benzedeira e a benzedura que falham. É algum mecanismo mal acionado, ou um receptor mal sintonizado, uma interferência estranha ou uma carência de fé. A razão não ajudava a entender aquilo. Simpatias da nossa infância também devem ter falhado por deficiências em algum circuito envolvido na aceitação e compreensão de chás e trouxinhas de escapulários com rezas que nos dependuravam no pescoço. É assim que se falha em tudo.

Me despedi e sugeri que, na manhã do dia seguinte, dona Alzira me benzeria. Por uns dois minutos, ouvi as preces da cabocla, sentado a menos de uma quadra das ruínas. Pretendia de novo atuar como repórter e ouvir e decifrar o que ela dizia às minhas costas. Peguei palavras soltas. O resto, todo o resto que era o todo, tinha sons indecifráveis. Só percebi depois da benzedura que havia sido tomado pela voz de dona Alzira, pelo toque de suas mãos em minha cabeça, por estar interagindo com alguém que se dispõe a curar. Assisti a dona Alzira benzer outras pessoas e, por alguns instantes, tive vontade de ficar mais um pouco, de prolongar a permanência no tempo sem pressa da benzedeira.

Saí das Missões ocupado com a desconfiança da minha vontade de acreditar na benzedura e também com o estranhamento de que enfim parecia mesmo crer naquilo, com certezas e dúvidas espirais como as respostas de dona Alzira. Fui me consolando. Castañeda conta nos muitos livros em que narra seu encontro com o bruxo que nossas referências são instrumentos imprestáveis para entender a magia de gente como Don Juan e dona Alzira.

Castañeda ouviu de Don Juan: esqueça a realidade objetiva, você pensa demais. Obediente, experimentou ervas alucinógenas, viajou, flutuou, viu a realidade pelo avesso. Viajou tanto, que foi acusado de ter inventado boa parte da convivência com o índio velho.

Nunca se sabe quais são as sensações reais e as inventadas depois de encontros como esse. Sei, porque a ciência me diz, que agrião, brócolis, chocolate amargo e vinho são de fato milagrosos e me convenci de que isso é verdadeiro — mesmo que algum índio tenha dito isso muito antes. Daquele encontro em São Miguel das Missões, que não cabe na mesma percepção das explicações categóricas, sei apenas que me fez bem.

Alguém zela por um mundo sem pressa e sem gritaria. Está bom assim e por enquanto essa é a verdade que basta.

* Texto publicado em 04/05/2008 em Zero Hora

Postado por David

Boa gente - capítulo 11

17 de dezembro de 2008 8

Não existe nada, nada, nada, nem dinheiro, nem mulher, nem fama ou glória ou Deus, em toda a Sua sabedoria, não existe nada mais importante para um homem do que os seus próprios intestinos. Sobretudo quando seus intestinos pulsam e latejam, ansiando por alívio. Quando as entranhas de um homem chamam, esse grito é mais alto e mais poderoso do que qualquer outro apelo. Por isso, entre os milhões do Japão e meu alívio interior, optei pelo meu alívio interior. Corri para o banheiro da rodoviária. Ou, antes: esgueirei-me para o banheiro imundo da rodoviária, caminhando com as pernas muito juntas, uma roçando na outra, esforçando-me para não fazer tudo ali mesmo, de pé, nas calças, o que seria a vergonha, o opróbrio, a humilhação.

Usei o banheiro da rodoviária e o fiz com gosto. Naquele momento, o banheiro salvador pareceu-me o Palácio de Versalhes. Era suntuoso, aquele banheiro de rodoviária, era perfumado. Era doce. Era só do que eu precisava.

Ali, sentado e sorrindo, filosofei, que em situações extremas o homem filosofa: as coisas boas da vida são as coisas simples, e essas coisas, essas pequenas e suaves e divertidas e triviais coisas da vida, eu as tinha. Tinha meu ótimo apartamento com piscina, tinha uma vida sem preocupações, tinha meus amigos e uma ou outra namorada eventual, tinha até a mulher do meu irmão para transar de vez em quando, por que arriscar tudo em troca do luxo improvável? Por quê??? Ganância? Vaidade? Luxúria? Não! Não necessitava de nada disso. Eu tinha a minha vidinha simples e agradável, poderia vivê-la assim, aprazivelmente, até o fim dos meus dias. Para que complicar?

Não iria complicar. Não. De jeito nenhum. Definitivamente.

Saí daquele banheiro caminhando com decisão filosófica, no pleno domínio dos meus movimentos peristálticos. Eu sabia o que queria da minha vida. Sabia!

Assim refletindo, passei pela frente dos armários da rodoviária. Olhei para as portas de metal. Dentro de uma delas havia vinte milhões. Que loucura.

Parei.

Pensei mais um pouco: será que deveria ir até o bar, nem que fosse apenas para conferir se o japonês deixara a chave lá? Afinal, se eu entrasse no bar e pedisse um café, quem poderia me acusar de algo? A polícia ou a Yakuza decerto não suspeitariam de um homem que tão-somente entra num boteco e senta no balcão e pede um passado bem forte, não, de jeito nenhum.

Foi o que fiz. Entrei no boteco. Além de mim, havia outros dois fregueses. Ambos bebiam refrigerante. O dono limpava o balcão. Era um gordo de bigode. Aproximou-se de mim e me olhou com expressão vazia:

— Pois não?

— Um cafezinho, por favor.

Ele trouxe o cafezinho. Comecei a beber. Aí olhei para a porta e o que vi me deixou aterrorizado. Lá estava… Oh, Deus, desculpe por ter transado com a mulher do meu irmão, desculpe, desculpe! Sim, eu tinha que pedir desculpas, por que lá estava… um japonês!!!

Glup! E agora? O que acontecerá com Danton? Saiba logo, no próximo capítulo de… Boa Gente!

Postado por David

Quem vai pagar o jantar?

17 de dezembro de 2008 53

O Inter nasceu para o Gre-Nal. Por causa do Gre-Nal. O clássico é dos dois clubes, lógico, só existe se existirem ambos. Mas é mais do Inter. O Inter cevou-se na rivalidade com o Grêmio, desenvolveu-se, cresceu e, pode-se dizer, ainda está aí, à beira do centenário, graças a ela.

A origem disso tudo são as características das associações da época. Os clubes eram fundados para atividades específicas, como o União para os esportes náuticos e o Grêmio para o futebol, sim, mas também a fim de que um determinado grupo de pessoas se reunisse. Eram clubes fechados, portanto. Não era como hoje: alguém quer se associar, vai lá, compra um título de sócio e está feito. Nada disso. O candidato a sócio tinha de ser minimamente conhecido e aprovado pelos sócios mais antigos. Havia inclusive o sistema de bolas brancas e bolas pretas: uma pessoa, se quisesse se associar a um clube, teria de se submeter a um processo de votação. Cada conselheiro analisava o nome. Aprovando-o, depositava em uma urna uma bola branca. Rejeitando-o, bola preta. Depois da votação, o número de bolas era contado. Se desse mais brancas, ele seria empossado como sócio. Se desse mais pretas, voltaria cabisbaixo para casa, sentindo-se uma cueca frouxa.

Acontece que foi exatamente isso que ocorreu com os primeiros colorados. Verdade que nem havia colorados ainda. O que havia eram dois irmãos e um primo, os Poppe. Menos de dois anos antes, esses Poppe tinham vindo de São Paulo para Porto Alegre. Em São Paulo, eles jogavam futebol num clube chamado Internacional. Em Porto Alegre, queriam jogar bola também. Procuraram o Grêmio para se associar, mas, como ninguém os conhecia, foram rejeitados. Bola preta.

O outro clube de futebol da cidade, o Fuss-Ball Porto Alegre, era ainda mais fechado do que o Grêmio. Lá é que não conseguiriam entrar. A saída foi eles mesmos fundarem um clube. Na noite de 4 de abril de 1909, os Poppe se reuniram com amigos e conhecidos no porão de uma casa situada onde hoje há uma padaria na Avenida João Pessoa, em frente à Redenção, e fundaram uma associação inspirada no clube do qual eles faziam parte em São Paulo. O nome era o mesmo: Internacional. As cores também: vermelho e branco. E a camisa deveria ter, igualmente, listras verticais. Teve, durante algum tempo, até tornar-se toda vermelha, com mangas e golas brancas.

Como aquela entidade era uma espécie de afronta ao Grêmio, tornou-se mais ou menos óbvia a idéia de desafiar esse mesmo Grêmio para uma partida. Justamente a partida de inauguração do novo clube. O plano era o seguinte: os Poppe e seus amigos treinariam durante algum tempo e, quando se sentissem seguros das suas habilidades futebolísticas, desafiariam os gremistas.

Foi o que fizeram os colorados pioneiros. Construíram goleiras de madeira e, todos os fins de semana, treinavam num terreno baldio nas proximidades da Ilhota, mais ou menos onde hoje está plantado o Colégio Protásio Alves. Dois meses depois, uma comissão foi enviada à Baixada, a sede do Grêmio, no Moinhos de Vento. Eram todos muito jovens, garotos de 17, 18 anos de idade, enquanto que os gremistas já podiam ser considerados senhores, veteranos no futebol. Por essa razão, os dirigentes do Grêmio ofereceram o time B para o jogo. Os dirigentes do Inter não aceitaram. Queriam pegar os titulares. Os dirigentes do Grêmio argumentaram que, se o jogo fosse contra seus titulares, o novo time não teria chance de vitória. Não adiantou, os colorados queriam enfrentar o melhor time do adversário. Tudo bem, então, que fossem a campo os titulares.

Naquele tempo, não havia cobrança de ingressos. Os jogos eram festas. Os times se enfrentavam e depois participavam, todos juntos, de um baile, com chope e banquete. Os colorados se ofereceram para pagar o jantar e as despesas do baile. Aí foram os gremistas que protestaram. Não aceitaram a gentileza. Fizeram questão de pagar. Tudo bem, então, que os mais velhos pagassem a conta.

Tudo pronto, tudo acertado. Em breve, seria jogado o primeiro Gre-Nal.

*Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora.

Postado por David