O homem estava sentado atrás de uma grande escrivaninha. Fitava-me, impassível, com seus olhos amendoados e frios, as mãos pequenas pousadas no tampo da mesa. Aquelas mãos de golpes de caratê.
Vestia um terno preto, gravata preta e camisa branca. Não sorria. Será que algum dia aquele japonês sorriu? Japoneses sorriem?
A sala era enorme, repleta de livros. Parece que japonês lê muito... Lancei rapidamente o olhar por sobre os ombros e vi alguns sofás e poltronas atrás de mim. Alguns quadros nas paredes. Quadros caros, provavelmente.
— O senhor e a minha filha são chantagistas — disse o japonês.
— Eu...
— Cale-se.
Calei-me.
— Vocês são chantagistas. Estas fotos — sacou de um envelope pardo cópias das fotos que eu e Itsuko tiramos fazendo... bem, você sabe, tudo. Espalhou-as pela mesa. — O senhor é o companheiro da minha filha nessas fotos — continuou.
— Eu??? Eu...
— Cale-se! — repetiu.
Calei-me.
— Aqui há outras fotos — prosseguiu, e puxou de outro envelope pardo mais um punhado de fotos. Estiquei o pescoço. Vi que eram as fotos que os japoneses tinham tirado de mim havia pouco. Eu peladão. Engoli em seco.
— Veja a semelhança dos dois homens — falou o japonês.
Éramos mesmo semelhantes, eu e eu, nas duas situações. Não havia como negar que eu me parecia muito comigo mesmo, até quando nu. O fato de o meu rosto não aparecer no primeiro grupo de fotos não impedia que fosse reconhecido quando feita a comparação com as fotos do outro grupo.
— O senhor sabe o que vou fazer com essas fotos? — perguntou o japonês. Sua voz era calma, porém decidida. Um homem sério. Definitivamente.
— Er... — comecei.
— É uma pergunta retórica! Cale a boca. O senhor não fala aqui!
Engoli em seco de novo. E de novo me calei.
— Estou pensando em mandar essas fotos para o seu irmão...
Arregalei os olhos. Cara, não queria que meu irmão soubesse que me refocilei, me espadanei e chafurdei com a mulher dele. Não queria mesmo, tudo menos isso.
— Por favor, eu...
— Cale-se! O senhor só vai abrir a boca quando eu mandar!
Quando era para me mandar calar a boca, sua voz assumia um tom de aço de espada samurai. Balancei a cabeça, em assentimento. Estava nas mãos do japonês. Aquelas mãos de uma raça milenar, mãos de homens que lutavam kung-fu e construíam rádios de pilha e comandavam lavanderias.
— Eu poderia levar essas fotos à polícia — continuou, muito calmo, sem tirar as mãos assassinas da mesa. — Mas seria um escândalo, meus clientes e fornecedores seriam informados do caso, e não quero que isso aconteça.
Concordei em silêncio que isso não deveria acontecer. Ele foi em frente:
— Poderia também eliminar o senhor... fisicamente, digo — arregalei os olhos, não gostava da idéia de ser eliminado fisicamente. — Mas acho que não vale o esforço. O senhor é um pusilânime. Um inseto — sim, sentia-me um inseto. E estava até gostando de me sentir assim — Prefiro, portanto, mostrar as fotos para o seu irmão e contar tudo o que aconteceu. O senhor decerto que perderá a sua boa vida e se criará um clima tenso na família. Talvez até seu irmão tente matá-lo, nunca se sabe do que um homem traído é capaz. A maioria dos homens, sobretudo os latinos, preza muito essa coisa de fidelidade matrimonial.
Fechei os olhos e respirei fundo, pensando no Senhor: Deus! Deus! Me ajude! Senhor Jesus Cristo, minha Nossa Senhora, socorro!
— O problema — prosseguiu, depois de uma breve pausa. — É que não quero que minha filhinha se separe — suspirei. O matrimônio é uma coisa boa, definitivamente. Talvez a coisa se resolvesse em termos razoáveis. — Não quero... Então, vou lhe dar uma chance, senhor chantagista. O senhor quer mais uma chance?
Fiquei olhando-o, tentando adivinhar se aquela era outra pergunta retórica. Ele percebeu o meu dilema. Suspirou:
— Pode falar.
— Quero! Quero!
— Pois bem. O senhor é um homem de sorte. Como notei que não tem escrúpulos e é um cafajeste...
— Ei, eu sou boa gente! — protestei.
Ele riu.
— Como notei que é um canalha, um cafajeste e um safado, sem moral e sem escrúpulos, que é capaz de trair o próprio irmão e fazer chantagem barata com a mulher dele — disse, sorrindo, e sentindo prazer ao dizer aquilo tudo. Torci o nariz. Não me achava um canalha. — Como o senhor é tudo isso — completou — vou lhe dar servicinhos deste nível.
— Servicinhos?
— É. Coisas que o senhor poderá fazer. Que estão à sua altura.
— Que tipo de coisas?
— O senhor saberá com o tempo. Amanhã ou depois de amanhã eu terei um trabalho para o senhor. O senhor me prestará esses favores digamos... por um ano. Vai receber por isso, claro. E até mais do que merece. E seu irmão não saberá nada do que houve entre o senhor e a minha filha. Vai sair lucrando. Parabéns.
— Eu...
— Agora o senhor está dispensado. Aguarde um contato meu. Até mais.
Olhei para ele perplexo. Ele ergueu a cabeça e um japonês de terno surgiu de algum lugar, abriu a porta para mim e ficou me encarando significativamente. Saí da sala, saí do prédio em que se situava o escritório dele, um edifício de paredes espelhadas na Avenida Carlos Gomes. Caminhei desconcertado pela rua, sem saber o que pensar. Fiz uma rápida avaliação do que havia me ocorrido nos últimos dias. Um balanço. Ó:
Transei com uma mulher linda e sedutora. Ponto positivo.
Mas era a mulher do meu irmão. Ponto negativo.
Não ganhei vinte milhões, o que era ruim, mas também não fui preso, não me esvaí em fezes na rodoviária, nem fui sodomizado por 50 japoneses ou 50 negrões e tampouco faleci assassinado, e, para arrematar, meu irmão não descobrira nada. Tudo isso, se não era exatamente bom, também não era ruim.
Bem, eu também arranjara um emprego compulsório, me tornara uma espécie de escravo remunerado de um japonês mafioso. Isso não parecia nada bom.
Mas, no geral, não havia muitas perdas. Podia me dar por satisfeito. Decidi que, depois daquela aventura, não iria mais me meter em confusão. Nunca mais mulheres casadas, nunca mais contravenções, nunca mais nada fora da lei.
A não ser que o japonês me pedisse, claro.
Ainda tinha um ano de escravidão.
Tomei um táxi para ir para casa, não muito longe de onde estava. Cheguei ao prédio pensando que aquela Itsuko é que fora a causa da minha desgraça. Ela e seus planos mirabolantes. Quase me fizera perder tudo o que amealhara na vida, cruzcredo. Itsuko nunca mais, jurei para mim mesmo. A mulher do meu irmão, nunca mais. Não sou um cafajeste. Definitivamente.
No elevador, subindo até a minha cobertura, repetia essa frase para mim, mentalmente: não sou um cafajeste; a mulher do meu irmão, nunca mais! Nunca mais!
Curiosamente, a porta do apartamento estava encostada. Será que os japoneses tiveram esse cuidado antes de me levar com eles?
Estranho.
Afastei a porta e entrei. Caminhei alguns passos e senti que havia algo fora do lugar. Alguém estava lá! Vi um vulto acomodado no sofá da sala. Pensei em me virar e sair correndo dali, mas a pessoa percebeu que eu chegara e se levantou. Quase caí para trás: Itsuko!
— Você! — gritei.
Ela estava dentro de um vestidinho curto e justo. Muito curto. Minúsculo, até. Muito justo. Sufocante, inclusive. Como é que meu irmão permitia que sua mulher saísse por aí vestida daquele jeito? Realmente, Itsuko sabia provocar um homem. Mas a mim, não mais. De jeito nenhum. Estava vacinado contra japonesas sedutoras.
— Você quase acabou com a minha vida! — gritei, apontando um indicador trêmulo para ela.
Ela sorriu.
— Calma, Dan.
— Como calma??? Como...
— Calma. Esse plano deu errado, mas tenho outras idéias aqui — e bateu com a ponta do dedo delicado na testa lisa.
— Idéias?
— Ótimas idéias.
— Ótimas?
— Ótimas. E você vai me ajudar a pô-las em prática.
— Eu?
— Você.
— Olha, Itsuko, eu — não consegui ir em frente. Ela sentou-se no sofá e abriu as pernas. Abriu bem. E, cara, puxa vida, ela não usava nada por baixo daquele vestido justo e curto. Sorriu. E ordenou:
— Late.
— Hein?
— Late!
— Itsuko, olha, eu decidi que definitivamente...
— LATE!!!
Suspirei. Caí de quatro no chão. E comecei:
— Auuuuuu! Auauauauauauauuuuuu!
Não tive como resistir. Não sou um cafajeste. Mas também não sou de ferro. Definitivamente. Definitivamente!!!
FIM
Postado por David





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