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Posts de janeiro 2009

O cachorro indignado

31 de janeiro de 2009 38

É vasta, é lacrimosa a comoção cada vez que o jornal faz incursões pelo maravilhoso mundo animal. Agora mesmo o Ronaldo Bernardi fotografou cenas da vida selvagem em pleno Parcão, no meio da urbe cinzenta.

Aquele cágado arrastando a pacífica e moscona pomba para o meio do lago, onde ela serviu de repasto para o caçador e sua turma de cágados, que nem pareciam cágados, e sim piranhas atrozes.

Não sabia que cágados eram brabos desse jeito. Na verdade, nem sabia que aqueles bichos do Parcão se chamavam cágados. Pensava que fossem tartarugas, e até gostava disso. Cágado me parece meio de mau gosto. Em todo caso, fica aí demonstrada a importância do acento e de se manter afastado daquele laguinho perigoso.

Dias atrás, nós aqui do Esporte também invadimos essa seara nevrálgica. Publicamos matéria com Borg, um cachorro que foi associado ao Inter por sua dona. Notícia inofensiva, aparentemente.

Aparentemente.

A matéria despertou a indignação de uma torcedora que se identificou como “doutora Isabella Bard Correa, advogada e mestre em Direito Civil”. Doutora Isabella enviou um alentado e revoltado imeil que, em parte, reproduzo a seguir:

“Estou escrevendo para o senhor devido ter me sentido lesada, haja vista o Dudu (no pedigree o nome é Edward) ser sócio contribuinte do Internacional como meu dependente, com mensalidade devidamente descontada no meu contracheque da Justiça Federal.

Colocaram na reportagem da Zero Hora aquele cachorro que há dois dias era sócio. O Dudu é sócio desde que nasceu, é garoto propaganda de várias pet shops e inclusive tem book feito por agência de publicidade. Somos colorados apaixonados pelo Inter, o quarto dele é todo decorado com produtos da loja do Inter, saci, bola etc.

O Dudu só veste as roupinhas oficiais do Inter, porque compro tudo lá na loja. Ele tem camisetas autografadas, toalhas, bandeira do Inter e fotos com jogadores. Diante disso, acredito que posso requerer a foto do meu lhasa apso fardado na Zero Hora. Na carteira dele de contribuinte consta Eduardo Correa, por ser meu dependente.

Inexiste problema com os dirigentes do Inter, porque o Dudu será sempre criança, e criança não vota. Eu votei nesta eleição. Espero que o senhor acate meu pedido por ser plenamente possível. O Dudu é meu filho único, por isso é tudo pra mim”.

Note, caríssimo leitor, as agruras por que passa um operário da informação. Quando publicamos a notícia sobre Borg, o cão sócio, o fizemos na intenção singela de registrar o inusitado. Ou, pelo menos, o que acreditávamos ser inusitado. Não era. Não suspeitávamos que, entre os milhares de integrantes do quadro social do Inter, havia outro cachorro, Edward (chamo-o pelo nome de registro por não privar da intimidade dele).

Também não tínhamos como desconfiar que a dona, ou, como ela se autodenomina, mãe de Edward ficaria ofendida com a publicação da matéria sobre outro cãozinho colorado. E assim abrimos uma perigosa frente. Porque, uma vez que existem dois cachorros associados ao Inter, quem garante que não haverá mais? E os gatos, que também são receptáculos de incondicional amor de seus donos? E os peixinhos dourados? Tenho um amigo que ama seu peixinho dourado. E, por que não?, os cágados carnívoros? Ou um cágado carnívoro não pode ser sócio do Inter? Francamente, é melhor ficar à margem do mundo animal.

* Texto publicado em Zero Hora dominical.

Postado por David

O coelho malvado

31 de janeiro de 2009 4

Tempos atrás, o excelente repórter Marcelo Gonzatto, da Editoria de Geral, foi cobrir um baile de Carnaval no Clube do Professor Gaúcho. Marcelo registrava a folia com a competência habitual, bloquinho em punho, olhar arguto, quando teve a inquietante sensação de estar sendo observado.

De fato, ali adiante havia um homem, meio gordinho, de óculos, fantasiado de coelho, com uma lata de cerveja na mão, olhando-o fixamente. Incomodado com o olhar, Marcelo deslocou-se para outro ponto do salão a fim de continuar o seu trabalho em paz.

Porém, dois minutos depois, olhou para o lado e lá estava ele. O coelho. Ainda fitava o repórter, e ainda parecia hostil. Marcelo saiu dali. Foi para outro canto. Passados dois minutos, quem ele viu? Isso mesmo: o coelho de óculos.

E o coelho não parecia feliz. Marcelo ia se afastar novamente, mas, antes que pudesse se movimentar ou dizer cucamonga, sentiu um toque de dedo em seu ombro. Era o coelho:

– Tu és da Zero Hora?

– S-sou – gaguejou o Marcelo, prevendo o pior.

O pior aconteceu. O coelho, furioso, passou a imprecar contra o Marcelo e a Zero Hora, que ele acusava de ser contra o magistério. Não parava de insultar o aflito repórter, e só não partiu para as vias de fato porque um diretor do clube acorreu e escoltou o Marcelo até a saída.

Dentro do carro, arrancando de volta para a segurança da Redação, Marcelo ainda pôde ver o coelho, que corria atrás da viatura, irado e agressivo como raras vezes os coelhos são.

Realmente, o mundo animal é cheio de perigos para os operários da informação.

 

* Texto publicado em Zero Hora dominical.

Postado por David

Brigid de corpo inteiro

30 de janeiro de 2009 39

Eis a primeira foto da loirinha Brigid. Outras virão.

 

Foto: Adriana Franciosi

 

Semana que vem vai ter vídeo com o making of.

Os leitorinhos gostaram?

Postado por David

Bruxas — 13º capítulo

30 de janeiro de 2009 6

Brigid levava um bebê nos braços. Um menino de cabelos castanhos e ralos. Que idade devia ter? Dois? Três meses? Não podia ser muito mais. Haroldo ficou olhando, paralisado, de pé no corredor do shopping, enquanto a loira saía de uma loja de roupas infantis.

Dois ou três meses… Haroldo calculou mentalmente. Cristo! Aquele menino… era filho dele! Seu filho! Sim! Seu filho! Fechava direitinho com a data de suas aventuras no casarão! Haroldo começou a suar imediatamente. Um filho! Ele tinha um filho! Seu coração dava pulos na garganta. Ele levou a mão aos cabelos, passou-a pela nuca. Sentiu-se feliz, emocionado e, ao mesmo tempo, indignado. Ela estava escondendo o menino! Queriam tirar o filho dele! Gritou, estendendo o braço para frente:

- Brigid!

Ela estremeceu. Olhou para trás. Viu-o. E ele viu que ela o viu. Seus olhos se encontraram. Ela estugou o passo na direção contrária. Dobrou em um corredor transversal do shopping e sumiu de seu campo de visão. Haroldo saiu correndo, desviando dos transeuntes, gritando sempre:

- Brigid! Brigid! Brigid!

Ao virar a esquina do corredor, não a viu mais. Continuou correndo pelo shopping, assustando os clientes, gritando por Brigid. Em vão. Foi até a escada rolante, olhou para baixo. Nada. Viu uma loirinha no andar inferior, descambou escada abaixo, abordou-a. Não era Brigid. Era uma loira vulgar, uma coloninha que nem criança carregava.

Haroldo parou, ofegante, as mãos à cintura, olhando para os lados.

- Meu filho… – disse, baixinho. – Meu filho…

A idéia de ter um filho o excitava. Um filho! De um momento para outro, a vida de Haroldo, antes tão sensabor, ganhava significado. Ele era pai! Imaginou-se passeando com o menino pelo parque. Ele, o menino e… Brigid! Oh, teria orgulho de apresentá-la como a mãe de seu menino. Todos os homens iam sentir inveja dele. Nem precisavam casar, se ela não quisesse. Mas ele exigia participar da criação do filho. Era o filho dele, pô! Queria muito aquele filho… Fazia dois minutos que o vira, e já se sentia um paizão. Como fazer para reivindicá-lo? Teria de entrar no casarão de alguma forma. Como faria isso, com Cérbero no jardim e Strix na sala?

Haroldo ficou pensando, parado no corredor do shopping. As pessoas passavam e olhavam para ele, curiosas. Estava chamando a atenção. Caminhou até um banco de madeira sob uma palmeira. Sentou-se e pensou. Pensou, pensou. Tomou uma resolução, enfim. Saiu correndo, pagou o tíquete de estacionamento, desceu ao subsolo e encontrou seu carro. Saiu da garagem cantando pneus. Em poucos minutos, estacionava em frente ao casarão. Desceu do carro. Mal havia chegado ao portão, ele apareceu.

Cérbero.

O monstrou emergiu das sombras do jardim latindo furiosamente, jogando-se contra a cerca, arreganhando os dentes de navalha.

- Sai pra lá, desgraçado! – berrou Haroldo. Então, encheu os pulmões de ar e começou: – Brigid! Briiiiigid! BRIIIIIGID!!! Sou eu, Haroldo! Brigid! Brigid! Brigid! Sou eu, Haroldo! Quero o meu filho, Brigid! O filho é meu também, Brigid! O nosso filho, Brigid! Brigid! Briiigid! BRIGID!!!

Gritava. Gritava muito e alto e forte, espantando a vizinhança, que já acorria às janelas das casas do entorno. Um homem de calção, sem camisa e pés descalços surgiu à porta da casa da frente. Tinha um facão na mão. Haroldo olhou para ele e gritou:

- Quero o meu filho! Estou em busca do meu filho!

Virou-se para o casarão e prosseguiu:

- Brigid! Brigid! Quero o meu filho, Brigid! O nosso filho!

- Cala a boca! – ouviu. A voz vinha de algum ponto atrás dele. Era a voz infantil e assustadora de Strix. Haroldo virou-se, surpreso. Ela estava ali. Parada dentro do seu manto cinzento, os olhos malévolos brilhando, ferozes.

- De onde você veio? – estremeceu Haroldo.

- Quieto! – ela ordenou, e Haroldo e Cérbero se calaram.

- Eu disse para você não voltar.

- Eu vi meu filho! – a voz de Haroldo saiu esganiçada. – Eu vi! Não vou sair daqui enquanto não falar com Brigid e ver meu filho! Daqui não saio! Não saio! Não adianta! Vou gritar! Vou alertar toda a vizinhança! Vou chamar a polícia! Quero o meu filho!

Strix suspirou. Olhou para a casa. Para Haroldo. Para Cérbero, que os observava atrás das grades do jardim. Para Haroldo de novo.

- Venha – disse, enfim.

E caminhou em direção ao portão. Haroldo a seguiu, temeroso, olhando para Cérbero, que rosnava, ameaçador.

- Agora você vai conhecer o seu futuro – ciciou Strix, cruzando o portão. – Venha – repetiu.

E Haroldo foi.

E conheceu o seu futuro.

 

O que aconteceu com Haroldo no casarão???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!!!

Postado por David

Brigid

30 de janeiro de 2009 7

Atenção!

Hoje ainda, logo depois do próximo capítulo de Bruxas, que já está saindo, publicaremos fotos dela… da loirinha Brigid!

Aguardem!

Postado por David

A menina na rua

30 de janeiro de 2009 17

Lá estava eu, rodando a cinquentinha por hora com minha caranga pela Praia de Belas, e rolou um Police no rádio do carro, e tudo ia muito bem, só que havia aquela mulher conduzindo uma criança pela mão, no lado direito da rua, sobre a calçada. Ela e a criança, uma menina de uns cinco anos, pararam às franjas do meio-fio, esperando para atravessar a avenida. Não cheguei a olhar diretamente para elas, só tive a percepção de que se encontravam ali, mas foi o suficiente para ver que, num átimo de segundo, a menina se desprendeu da mãe e se arremessou para o meio da avenida. Correu com suas perninhas finas, estacou na pista em que vinha o meu carro e virou-se de frente para o para-brisa.

Uma menina magrinha. Cabelos pretos presos por um passador, pele clara e acho que olhos castanhos. Estava dentro de um vestidinho de jeans e usava algo amarelo por baixo, uma camisa, talvez. Meu carro estava a cerca de sete metros de distância quando afundei o pedal do freio com o pé direito. As rodas deslizaram em sua direção. Cingi com força as mãos no volante e atirei as costas para trás, de encontro ao banco, como se a força dos meus braços ajudasse o carro a parar. Olhava fixamente para ela e ela me encarava também, fitava-me no fundo dos olhos, calma, imóvel.

Enquanto o carro zunia rumo ao atropelamento certo, lembrei de um caso que meu avô sempre me contava. Um amigo dele tinha dois filhos pequenos. Um dia, passeava com os dois meninos, um em cada mão, perto dos trilhos de trem que rasgavam o bairro Navegantes. Pois, à aproximação do trem, ambos os meninos, sem combinação prévia, sem falar nada, sem nem sequer se olhar, libertaram-se das mãos do pai e correram para baixo das rodas de aço do trem. O pai perdeu os dois filhos de uma só vez. Enlouqueceu de dor.

Não sei como, mas tive tempo de recordar essa história e de pensar que as crianças fazem isso, elas se atiram da janela, elas mergulham sob os pneus do caminhão. Aquela menina mesmo. Por que ela fez aquilo? Podia ter continuado sua corrida e parado a salvo, no canteiro. Mas não. Imobilizou-se exatamente no caminho do carro. Por quê?

Percorri creio que uns dois metros enquanto pensava tudo isso. Faltavam cinco, e meu pé ainda fincava o pedal no fundo do piso, e a menina ainda me fitava com placidez, os bracinhos largados ao longo do corpo, relaxada, parecia até feliz. Quatro metros, e o olhar dela era profundo, ela não piscava, ela apenas aguardava. Três metros, eu queria gritar, mas a menina continuava sem mover um músculo, tranquila, uma estátua de sandalinha de plástico. Dois metros, a mãe gritou da calçada. Um metro, e rilhei os dentes, e todos os meus músculos se retesaram de horror.

A vinte centímetros dela, quem sabe menos, o carro parou.

Abençoada seja a tecnologia. Abençoados sejam os freios ABS.

Em um segundo, a mãe colheu-a da rua sem olhar para o carro, puxou-a pela mão, xingando com o dedo em riste. Fiquei parado, um pé no freio, outro na embreagem, sem saber o que pensar. Da calçada, a menina ouvia a censura da mãe aparentemente sem se importar. E ainda me olhava, a cabeça virada por sobre o ombro, aquele olhar sereno e perturbador. Por que aquela menina pulou para a rua? Por que me olhava daquele jeito? Ainda penso nessas perguntas. Ainda não sei quais são as respostas.

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David

Bruxas — 12º capítulo

29 de janeiro de 2009 28

Banco de Dados

Haroldo decidiu que voltaria ao casarão. Pouco se importava com o cachorro. Pouco se importava! Bem… Talvez um pouco se importasse. Coisa horrenda. Nunca tinha deparado com um animal assim. O bicho era feroz, via-se. E estava louco para devorá-lo.

Quem sabe, se chegasse com jeito, se se aproximasse devagar da casa… É. Brigid poderia vê-lo da janela, ou poderia estar entrando ou saindo da casa, ou quem sabe Amora… É. Voltaria lá no dia seguinte. Isso era certo. Voltaria. E disse alto, para si mesmo, apontando o indicador para o teto:

— Voooltareeemos!

Voltou.

No dia seguinte, depois do trabalho, estacionou o carro em frente ao casarão. Havia luzes na sala — elas estavam em casa. Haroldo desceu, aproximou-se do portão. Parou. Devia entrar? E se deixasse o portão aberto para facilitar a fuga?

Hum… Da outra vez, Cérbero como que se materializara ao seu lado. O bicho era muito rápido. Melhor não arriscar. Poderia apenas ficar ali, esperando até que uma delas aparecesse. Poderia, claro… Haroldo enfiou a cara entre as grades para tentar enxergar o cachorro e aí AAAAAHHHHHHHHHHH! Cérbero saltou sabe-se de onde, exatamente, precisamente, diretamente para a sua CARA!

Haroldo emitiu um urro de pavor e se jogou para trás. Caiu de costas na calçada, sentindo com nitidez o cheiro fétido do bafo do monstro. Ficou caído por alguns segundos, ofegante, fitando com os olhos esbugalhados a fera que latia e rosnava na sua direção e saltava na cerca com tamanha força que Haroldo tinha a impressão de que a derrubaria. Não esperou para ver se conseguiria. Levantou-se e correu para o carro. Entrou, deu a partida e zuniu para longe dali, repetindo:

— O bafo! O bafo! O bafo! Pude sentir o cheiro do bafo dele! Quase que o monstro me arranca a cara fora! Quase me arranca a cara fora!

Decidiu que não se arriscaria mais. Porém, estava resolvido a retornar ao casarão. Precisava tirar aquele mistério a limpo. Mais: precisava rever Brigid. E Amora também. Ah, sua vida se tornara colorida graças a elas. Não sabia se teria graça viver sem aquelas mulheres lindas e misteriosas, a partir de agora.

Pois Haroldo voltou ao casarão. Vinte e quatro horas depois, lá estava ele. Só que não saiu do carro. Ficou esperando sentado atrás do volante, de campana, olhando para as luzes nas janelas. Esperou, esperou, ninguém apareceu. De madrugada, quando as luzes se apagaram, ele foi embora. Voltou no dia seguinte, no outro e no outro ainda. Nada.

Continuou sua vigília durante um mês inteiro. Nada. Aos poucos, foi desanimando. Convenceu-se de que elas sabiam que ele estava ali e que, por isso, evitavam sair, ou não entravam, ou talvez houvesse outra porta, que droga. É verdade que, de vez em quando, ele passava de carro pela frente do casarão. Dava uma volta na quadra, mais uma, outra, mais outra. Nunca viu nenhuma delas. Cérbero, sim. Volta e meia via Cérbero circulando pelo terreno.

Os meses foram passando e, embora Haroldo não esquecesse o que lhe sucedeu no casarão, aos poucos foi desistindo de tentar encontrar Brigid. Afinal, ela não queria encontrá-lo. Se quisesse, o procuraria. E o acharia facilmente. Não, ela não queria mais vê-lo, isso era certo. Por que, então, aquela noite? Ou, antes: aquelas noites, que foram tantas… Por quê?…

Quase um ano se passou. Haroldo não esqueceu Brigid. Nem Amora. Nem Strix. Muito menos o cão Cérbero. Mas se conformou, que fazer? Sua vida voltou ao velho ritmo, à velha monotonia, tudo sempre igual, nenhuma emoção, nem alegria, nem medo; nem tensão, nem tesão.

Quase não passava mais em frente ao casarão, não alimentava esperanças de encontrá-las, até que, numa tarde de sábado, quando passeava distraído pelo shopping, a viu. Loira, linda e dourada, vestida de branco, como sempre, Brigid saía de uma loja, e com ela… Deus! Haroldo não acreditou no que viu! Não era possível! Ou era?

O que Haroldo viu?
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Postado por David

Bruxas — 11º capítulo

28 de janeiro de 2009 10

De algum lugar do fundo do jardim, das sombras, talvez de trás de uma árvore, ou quem sabe de um arbusto ou uma pedra, ou até brotado do chão, emergindo das profundezas, sabe-se lá, surgiu um cão.

Um cão.

Um rotwailler, especulou Haroldo em seu horror, ou um dobermann. Não. Não podia ser um dobermann. Era muito maior do que um dobermann. Era maior do que qualquer cachorro que Haroldo já vira em toda a vida. Um rotwailler gigante, podia ser, Haroldo não sabia bem, só sabia que o monstro negro, sim, ele era negro e tinha uma cabeçorra negra e olhos assassinos e dentes pontiagudos e a boca também negra da qual pendia uma baba viscosa, pois Haroldo só sabia que essa fera corria rosnando na sua direção, com suas quatro pernas musculosas, suas patas que terminavam em garras afiadas, todo seu corpo fazendo um som abafado e ameaçador de força e energia agressivas prontas para explodir. Vou morrer, pensou, esta besta vai me matar a dentadas, arrancar-me pedaço por pedaço do corpo, até que eu morra.

Em um décimo de segundo, Haroldo compreendeu que, se corresse, o monstro o devoraria. E talvez fosse até pior. Todos dizem que não se deve correr dos cachorros. Compreendeu também que, se ficasse, o bicho pularia em sua garganta e a esfacelaria. E que, se tentasse lutar, não teria forças para suplantá-lo.

Naquele momento, Haroldo sentiu algo que jamais sentira na vida: o medo absoluto. Mais do que medo: pavor. Preparou-se para morrer trucidado, todos os seus músculos se retesaram, ele rilhou os dentes, prendeu a respiração e teve tempo de começar uma oração. Então ouviu aquela frase, dita em tom baixo, quase um sussurro, mas impositiva:

— Quieto, Cérbero!

E o cachorro estacou.

A um palmo de saltar sobre Haroldo, ele estacou. Ficou rosnando baixinho, fitando-o com seus olhos vermelhos de demônio, a boca negra aberta, os dentes dilaceradores de carne expostos, a respiração pesada fazendo um ruído de morte, louco para arrancar-lhe nacos do seu frágil corpo humano.

Haroldo olhou-o, paralisado pelo pânico, as costas grudadas à parede da casa.

— Quieto, Cérbero — repetiu a voz.

Só então Haroldo viu quem o salvara.

Strix.

Envolta em seu manto cinzento, a velha maligna surgira de algum lugar ao seu lado e comandara a fera. Encarou Haroldo com seu olhar de fogo e gelo e disse, baixinho porém perfeitamente audível:

— Vá embora daqui e não volte nunca mais. Se voltar, Cérbero vai comê-lo vivo.

Haroldo não discutiu, não questionou, não reclamou, nem sequer falou. Queria sair dali. Queria ver-se livre daquela fera. Cérbero. Aquilo era nome de cachorro? Deslizou para fora do alpentre, para fora do jardim, caminhando com dificuldade sobre suas pernas moles. Entrou no carro. Ligou-o, trêmulo, e arrancou para longe daquele lugar maldito.

Ao chegar em casa, ainda tremia. O que havia acontecido? Por que Strix o ameaçou daquele jeito? Por que ele não podia voltar ao casarão? Aquilo não podia ficar assim. Ah, não podia! Ele teria que fazer algo! Ele ia fazer!

O que fez?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Postado por David

Um Freud e dois Moisés

28 de janeiro de 2009 13

Um ano antes de morrer, já padecendo de câncer no maxilar, vivendo no doce exílio de Londres, Freud concebeu um livro que o atirou no centro de uma polêmica feroz. Refiro-me a Moisés e o Monoteísmo, artigos reunidos, originalmente publicados na revista Imago. São textos agradáveis porém profundos, como soíam ser os textos de Freud.

Um livro interessante. Sobretudo para quem gosta de História. Freud reconstitui a fundação da religião judaica e tira conclusões trepidantes. A primeira e mais controversa: Moisés não era judeu, e sim egípcio. Na verdade, um importante príncipe egípcio, muito influente no reinado do faraó Akhnaton. Há pouco menos de 34 séculos, esse Akhnaton instituiu a primeira religião monoteísta do mundo. Aton, o deus sol, era o único deus, não tinha apreço por liturgias, nem por representações pictóricas. Uma revolucionária novidade na velha Antiguidade.

Com a morte do faraó, o banimento de Aton e a volta furiosa do politeísmo ao Egito, Moisés escolheu os hebreus para entre eles disseminar sua religião — donde os judeus se autodenominarem “povo escolhido”. Então, Moisés reuniu seus seguidores adotados e marchou para a Palestina, em busca da terra de onde emanava leite e mel. Só que, mesmo tendo sido escolhido, o povo, ansioso para retomar o politeísmo, assassinou Moisés.

O monoteísmo só foi enfim adotado quando um segundo Moisés, que vivia numa fértil região de oásis no meio do deserto, apresentou aos judeus um deus “monstruoso, que vagava pela noite sedento de sangue”: Javé. Os dois deuses, Aton e Javé, se fundiram, bem como os dois Moisés, e assim nasceu o judaísmo.

***

Todos atacaram Freud depois da publicação de seu livro. Todos: judeus, cristãos e populares em geral. Vou citar algumas injúrias extraídas de uma pequena e ótima biografia de Freud que a L&PM lançou recentemente:

The Palestine Review, de Jerusalém, chamou Freud de Am Haaretz: “Um grosseiro ignorante”. O conhecido filósofo Martin Buber publicou uma refutação descontrolada, classificando a obra de “lamentável, não-científica e fundamentada em hipóteses indemonstráveis”. No Catholic Herald, de Londres, o padre Vincent McNabb escreveu que algumas páginas do livro “levam a questionar se o autor não é um maníaco sexual”. E acrescentou, ameaçador para 1938, época de führers e duces: “O professor Freud é, como seria esperado, grato à libra, à generosa Inglaterra, pelo acolhimento que recebeu aqui, mas quando reconhecemos nele o defensor despudorado do ateísmo e do incesto, nos perguntaremos se ele será sempre tão bem-vindo numa Inglaterra que ainda se pretende cristã”. Finalmente, alguns anônimos desabafavam assim: “Pena que esses canalhas da Alemanha não o tenham mandado para um campo de concentração, pois lá é o seu lugar”.

Não é só por aqui que as pessoas atacam o autor quando não gostam da obra.

***

Mas o que interessa é que toda essa fúria foi motivada pelo fato de Freud ter atingido um ídolo de judeus e cristãos. Moisés era, e é, um mito. As pessoas precisam de mitos. Eis a sedução do politeísmo. Tão atraente é a mitologia que os judeus chegaram a retornar ao politeísmo e a erigir bezerros de ouro, e a própria religião cristã, com todos os seus santos e familiares do Senhor, é disfarçadamente um politeísmo.

O futebol também tem seu panteão. E seus mitos. O mais caro dos mitos do futebol do RS, por exemplo, é o chamado “futebol gaúcho”. Ora, o único gaúcho entre os titulares da dupla é Bolívar. Terá ele “contaminado” todos os outros com o micróbio do futebol gaúcho de raça e luta e força e bibibi? Ou será que é o clima de Porto Alegre? Ou a “cultura guerreira” egressa dos Farrapos?

Nada disso. Todos jogam assim no mundo todo. O futebol sempre precisou de concentração e fôlego, mas nunca prescindiu do talento. Não houve time gaúcho bem-sucedido que não fosse bom. O “futebol gaúcho”, portanto, existe, sim: como mito, e só como mito. Mas os mitos têm sua força. O de Moisés mantém um povo unido há 3.400 anos, o do futebol gaúcho forma times vencedores há mais de cem. Cada um com seu mito, cada mito com sua função.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por David

Bruxas — 10º capítulo

27 de janeiro de 2009 5

Durante o resto daquele dia, Haroldo tentou consertar os danos causados por sua ausência. Voltou para o trabalho municiado com uma cartucheira de mentiras. Disse que foi sequestrado, que estava passando mal, que ficara doente, o que, de certa forma, era verdade.

Achou que não seria fácil convencer o chefe, mas seu lastimável estado de saúde acabou por comover o homem. Haroldo emagrecera quatro quilos, estava com a pele lívida e macerada, olheiras roxas afundavam-lhe os olhos.

— Nossa! — exclamaram os colegas ao vê-lo. — O que houve??? Você parece um fantasma!

Haroldo queria morrer. Realmente, queria morrer e transformar-se num fantasma. Precisava se recuperar. O chefe foi sensível: mandou-o de volta para casa. Haroldo voltou. Alimentou-se bem naquele dia. Descansou. Dormiu. No dia seguinte, acordou em melhor estado. Só então passou a tentar entender o que havia ocorrido no casarão. Aqueles licores, aquelas vitaminas que Brigid lhe servira… Ela o dopara, óbvio.

Haroldo não conseguia discernir o que era sonho do que era realidade. E aquela Strix. Quem era aquela mulher? Mama Strix, elas o chamavam. Uma megera mãe de duas pérolas. Haroldo tinha medo dela. Daquela Strix. Era certo que ela havia entrado no quarto. Era certo que também partilhara da cama com ele. Com eles. O que ela fizera? O que acontecera de fato naquelas noites brumosas?

Haroldo decidiu que forçaria a mente até descobrir. Também havia Brigid. E Amora. Precisava falar com ela. Com elas. Depois do trabalho, iria à academia. Procuraria Brigid. Tentaria esclarecer algumas coisas. Aquelas noites haviam sido muito intensas. Doentias, até. Haroldo não tinha certeza de que gostaria de repetir a dose. Bem, claro, fora bom, ele queria aquilo de novo, mas… não tanto! Uma semana de luxúria… Uma semana inteira! Como ele havia aguentado?

Haroldo ruminou suas dúvidas durante todo o dia. Ao sair do trabalho, correu para a academia. Estava ansioso para falar com Brigid. Chegou à academia e deu uma olhada pelo ambiente. Nada de Brigid. Trocou de roupa, foi para a sala dos equipamentos e procurou por ela. Não a encontrou. Decidiu esperar que ela aparecesse. Poderia estar atrasada… Não apareceu. Depois de uma hora, resolveu perguntar por ela. Foi à administração e a resposta o deixou petrificado:

— Ela pediu demissão há uma semana.

Haroldo não sabia o que pensar. Queria falar com Brigid, mas nem sequer tinha o telefone dela! Bem, poderia passar no casarão. A idéia de ver Strix o desencorajava, mas, em compensação, havia Brigid e Amora. Duas contra uma. Resolveu ir.

Foi.

Dirigiu até a rua em que ficava o casarão. Estacionou o carro. Sorriu: havia luzes lá dentro. Elas estavam em casa! Abriu o portão do jardim. Entrou. Subiu no alpendre para tocar a campainha. E então o inferno veio em sua direção.

O que aconteceu com Haroldo???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Postado por David

A Ilha da Fantasia

26 de janeiro de 2009 11

HISTÓRIA FALADA

O Pachecão, editor de Polícia de um jornal que trabalhei, era mau. Mas algo estranho aconteceu depois que ele saiu de férias…

Assiste aí:

Postado por David

Bruxas — nono capítulo

26 de janeiro de 2009 3

O mundo tornou-se pastoso a partir daquele momento. Quanto tempo ele dormiu? Meia hora? Um dia inteiro?

Haroldo não sabia, mas, ao despertar, Brigid o esperava com um copo na mão. Vira e mexe ela está com um copo na mão, pensou Haroldo, enquanto olhava para aquele copázio cheio de um líquido cremoso e marrom.

— Que é isso? — quis saber.
— Vitamina — miou Brigid. — Você vai precisar.

Bebeu tudo. Precisava mesmo. Sentia-se fraco. Mas, ao terminar a bebida de um sabor doce indefinível, as forças se lhe retornaram. E Brigid já se jogou sobre ele e sua cabeça rodou e uma música suave flutuou nas sombras do quarto e destas mesmas sombras surgiu Amora, morena, alta, magra, nua, as pernas fortes, os braços macios, a boca sedenta, e tudo recomeçou.

Aquilo se repetiu muitas vezes. Haroldo dormia, sonhava com as mulheres em sua cama, acordava e as mulheres estavam em sua cama, engolia aquela vitamina, era possuído por elas, tinha a impressão de ver o vulto de Strix nos cantos do quarto, observando-o, de campana, como uma ave de rapina, acordava, dormia, bebia o suco, levantava-se para ir ao banheiro, pensava em sair e era puxado de novo para a cama pelas mão macias de Brigid.

Assim foi, assim continuou sendo, até que, numa das vezes em que Haroldo despertou, o quarto, pela primeira vez, estava iluminado pelo sol e, pela primeira vez, não havia ninguém com ele.

Estava sozinho.

Todo o seu corpo doía, sua cabeça doía, ele se sentia fraco e doente. Ergueu-se com dificuldade, arrastou-se até o banheiro e quase caiu. Uma tontura poderosa o obrigou a sentar-se no piso frio. Ainda no chão, Haroldo arrastou-se de joelhos até o vaso e vomitou a bílis.

Depois de se lavar, trêmulo e suado, Haroldo se vestiu e, finalmente, abriu a porta do quarto. Não havia ninguém no corredor, ninguém no segundo piso, ninguém em todo casarão. Ao ganhar a rua, Haroldo protegeu os olhos com as mãos. A luz do sol feriu suas retinas. Entrou no carro. Voltou para casa. No apartamento, colocou a bateria do celular para recarregar. Quando o aparelho ligou, Haroldo emitiu um ó de espanto: uma semana! Ele havia ficado uma semana no casarão.

Uma semana! Ele mal acreditava. E agora? O que seria da sua vida com aquela semana perdida? E o trabalho? E os amigos? Decerto estavam preocupados com ele. E Brigid? E Amora? Quando tornaria a vê-las. Devia vê-las de novo? Haroldo sentia-se mal. Não sabia o que fazer. A vida naquele casarão era definitivamente especial, muito mais colorida e interessante do que sua própria vida. Mas também parecia uma vida perigosa. O que devia fazer? O que fez?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Postado por David

Café TVCOM

26 de janeiro de 2009 3

Ó, aí vai a mais recente edição do programa Café TVCOM na íntegra, para quem perdeu:

Postado por David

Bruxas — oitavo capítulo

25 de janeiro de 2009 11

Elas haviam sumido. Para onde poderiam ter ido? Um segundo antes, apenas um segundinho antes, Haroldo ouvia a conversa delas e agora só Brigid estava lá, de pé, sorrindo, com um copinho de licor nas mãos.

— Para você — ofereceu.

Haroldo hesitou. Não confiava nas beberagens daquela casa. Mas como recusaria? Seria falta de educação. E um pouco de falta de coragem também. Pegou o copo.

Bebeu.

Oh, como era bom… E como era inebriante. Em dois segundos, Haroldo sentia-se feliz como um menino com um Chica Bom, em dois minutos, via-se subindo as escadas em direção ao quarto da loira Brigid. Ela era o seu Chica Bom, ah, era, e, enquanto galgava os degraus, Haroldo ia cantarolando baixinho:

— Chica Bom, bom, bom, Chica Bom, bom, bom…

Brigid o acompanhava sorrindo, puxando-o pela mão. Aquela mão fria e macia. No escuro do quarto, coisas estranhas começaram a acontecer. Brigid o levou para a cama, acomodou-o sobre os travesseiros, recuou dois passos e se despiu. Deitado de costas, Haroldo viu surgir aquela nudez loira e resplandecente e pensou que a vida pode ser boa. Nua, linda, fulgurante e ondulante, ela se aproximou da dama e, com suas próprias mãozinhas brancas, tirou a roupa dele, peça por peça, lentamente, e depois subiu em cima dele e esfregou-se nele e Haroldo pensou que explodiria de prazer e então outra coisa estranha aconteceu.

Havia mais alguém ali. Ele sentiu. Mais do que a presença, Haroldo sentiu o toque de outra mulher, outras mãos ágeis e velozes. Mãos que sabiam o que fazer. Agora, Brigid já estava acavalada sobre o peito dele, alisando-o, acariciando-o, e aí as mãos delgadas e morenas dela, de Amora, envolveram-lhe o pescoço, e a cabeça dela se insinuou entre o peito dele e o peito de Brigid, e a boca de Amora procurou a sua e o sugou e mordiscou seus lábios e enfiou a língua entre seus dentes e os cabelos negros dela se misturavam aos cabelos loiros de Brigid e Haroldo ficou tonto de desejo. Havia duas mulheres lindas ali, na cama, com ele, aquilo não podia ser verdade. Em um segundo, ou um minuto, ou dez, ele não conseguia precisar, ele estava dentro de uma delas, não sabia qual. Os corpos se misturavam, as sensações eram tão deliciosas quanto misteriosas. As duas o beijavam, ambas estavam montadas nele, os rostos delas se fundiam, apareciam e desapareciam na penumbra, e ao mesmo tempo ele sentia o sexo úmido e quente que o envolvia e o levava ao êxtase. Eram duas mulheres, pareciam cem, mil. Braços, pernas, bocas, coxas, nádegas, línguas e seu sexo sendo envolvido pelo sexo molhado e quente de alguém que ele não sabia quem.

Depois de algum tempo, de muito tempo, Haroldo alcançou o clímax, um orgasmo convuso e soluçante como jamais havia experimentado. Seu corpo como que desfaleceu, seus membros ficaram lassos, ele percebeu que não resistiria ao sono e ao cansaço que o dominavam. Seus olhos pesavam, seu pensamento jazia confuso, ele viu que Amora deslizou para fora da cama, ele viu que Brigid se aninhou ao lado dele, ele já ia adormecer, e então, para seu horror, deparou com aquela presença maléfica bem ali, a dois passos de distância.

Strix.

Seus olhos de ave de rapina brilhavam no meio do quarto, sua boca malévola sorria com sarcasmo. Envolta em uma espécie de manto cinza, ela o observava ameaçadora e feroz.

Haroldo quis gritar, não conseguiu; quis sair correndo, Brigid o conteve com facilidade, segurou sua cabeça contra o travesseiro e em um átimo de segundo o mundo escureceu.

O que aconteceu com Haroldo???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Postado por David

Patrões e funcionários

25 de janeiro de 2009 135

Estou acompanhando interessado e atento a reação eletrizante dos leitores à coluna de sexta-feira, “O patrão”. A grande maioria tem manifestado apoio ao que escrevi, mas alguns têm formulado um raciocínio equivocado que dá bem a dimensão do quanto o brasileiro interpreta mal as relações sociais e mostra o porquê de o Brasil ter uma máquina pública atrasada e ineficiente.

Refiro-me aos que alegam que, por serem clientes da Zero Hora, também são meus patrões.

Errado.

Eu, bem como todos os cidadãos brasileiros, somos obrigados a pagar impostos. Ninguém é obrigado a ser cliente da Zero Hora.

Da mesma forma, o Estado é obrigado, em troca dos impostos, a prestar determinados serviços. Uma empresa privada, não. Se a ZH vender um jornal com páginas em branco e deixar claro que é esse o produto que está oferecendo, o cliente compra se quiser. Não vai para a cadeia se não comprá-lo. Se deixar de pagar impostos, sim, será preso.

Outra: se eu não trabalhar, se passar o dia inteiro na praia, tomando caipirinha, e a ZH ainda assim se dispuser a pagar o meu salário, ela pode fazê-lo e ninguém tem nada a ver com isso. É a empresa quem me paga. Já um funcionário público, não. Ele tem de servir ao público. E, em tese, servir bem.

Portanto, apesar do apreço que ZH tem por seus clientes e do apreço que eu tenho pelos leitores, os leitores e clientes não são meus patrões. São importantes, são fundamentais, são caríssimos, mas não são meus patrões. Todos eles, porém, são patrões dos servidores públicos.

Em outros países, a noção de que o contribuinte é o patrão é muito mais clara, inclusive para os funcionários públicos. Aliás, em outros países, os funcionários públicos não ganham, por exemplo, aposentadoria integral, nem se aposentam aos 45 anos de idade e vão para a iniciativa privada, tirar o lugar de outros trabalhadores. Em outros países, os funcionários públicos não têm estalilidade no emprego. Eles precisam trabalhar como trabalha um empregado da iniciativa privada. Mas isso é em outros países, ainda temos muito a avançar. Continuem o debate, que está bom.

Postado por David, remando e tomando um passado