Continuando a história Aquela noite, naquele bar:
"Eu estava com o braço estendido, esperando que Alice se levantasse. Não se levantou. Meu braço permanecia no ar, ia recolhê-lo, mas a mão de aço do grandalhão cingiu-me o pulso. Quase desmaiei de pavor.
- Me larga - gemi.
Gargalhando sempre, ele torceu-me o braço às costas, e o fez com facilidade, com naturalidade, como se brincasse com uma criança. A dor da chave-de-braço espalhou-se por meu ombro. Gritei:
- Aiaiaiai...
Era um grito infantil, choroso, do qual me envergonhei, mas que não consegui evitar. Ao contrário, repetia, quase aos prantos, propositalmente súplice, na esperança de que ele se comovesse com a minha dor e me soltasse:
- Ai, meu braço! Vai quebrar meu braço! Meu braço! Meu braço!
Com a poderosa mão direita, ele torcia meu braço cada vez mais. Com o braço esquerdo, aplicou-me uma gravata. Enquanto a garganta se me fechava, sentia o cheiro azedo do meu verdugo. Lágrimas me vieram aos olhos. Eu choramingava:
- Me larga! Por favor! Me larga!
Ele ria. Estava se divertindo. Em meio ao desespero, consegui ver Alice, ainda sentada, ainda com um ar de interesse indiferente no rosto. Por que ela não protestava? Por que não gritava por ajuda? Jamais havia me sentido tão abandonado na vida.
Atrás de Alice, surgiu outra figura. Um homem. O dono do bar, creio, porque pediu:
- Por favor! Parem! Por favor! Vou chamar a polícia!
A ameaça dever ter surtido efeito, porque o grandão levou os lábios até a minha orelha e sussurrou:
- Pede desculpa.
- Pelo quê?
- Pede desculpa!
- Desculpa! - bali. E repeti, implorando: - Desculpa! Desculpa! Me larga! Desculpa! Desculpadesculpadesculpa!
O que ele pedisse, eu faria, isso é que é. Faria.
Mas ele não soltou. Aumentou a pressão sobre meu braço, empurrou-me para baixo, devagar.

Ilustração de Gilmar Fraga
- Ajoelha, bichinha! - mandou - Ajoelha!
Ajoelhei-me. Ele largou meu pescoço e agarrou um tufo dos meus cabelos. Puxou minha cabeça para trás. Rosnou:
- Pede desculpa de novo!
E eu ali, ajoelhado, submetido, humilhado, cacarejei um pedido de desculpas entre soluços. Depois do que, o grandão, enfim, empurrou-me para o chão. Fiquei rojado no parquê, tossindo, a mão esfregando o pescoço ferido.
Ele deu dois passos na direção de Alice.
Apoiou-se no encosto da cadeira dela.
Abaixou-se à altura do rosto dela.
E a beijou na boca.
Beijou-a com fúria, mas sem pressa, longamente, desfrutando cada momento. Alice não fez menção de reagir. Ou, por outra, reagiu: ergueu as duas pequenas mãos brancas e apertou os bíceps poderosos do meu agressor. Ela estava gostando! Estava gostando!
Depois de alguns segundos, o grandão se desgrudou da minha namorada. Ergueu o torso. Afagou o cabelo loiro dela. E foi-se embora sorrindo, deixando-me ali no chão, ordenando, antes de sair:
- Paga a minha conta, babaca!
Não paguei conta alguma, lógico. Arrastei-me dali ouvindo as desculpas do dono do bar e os murmúrios dos clientes. Alice seguiu dois passos atrás, abraçando a bolsa, sorrindo estranhamente. Portava-se como se não estivéssemos juntos. Quando paramos ao lado do carro, ela falou:
- Quer que eu dirija?
Aquilo fez eu me sentir mais humilhado. Ela achava que eu não tinha condições nem de dirigir.
- Não - respondi.
Entrei no carro. Ela sentou no banco do carona. Tomei o caminho da minha casa. Ela:
- Ah, me deixa em casa. Estou cansada..."
O que aconteceu no trajeto, a reação de Gustavo, a reação de Alice... em breve na continuação de Aquela noite, naquele bar!
Postado por David
"Depois do que aconteceu, tentei várias vezes descobrir de quem, afinal, tinha sido a ideia de ir àquele bar. Como se adiantasse. Como se pudesse voltar ao passado para corrigir o presente. "Se" não tivéssemos ido ao bar, "se" não tivéssemos saído aquela noite, se, se... Inútil. Aconteceu, pronto. A culpa não foi do bar, não foi de ninguém. Minha, talvez.
Noite de segunda-feira, jantávamos, eu o Tostão, o grande Tostão, centroavante do melhor time de futebol de todos os tempos, disse algo que me encantou e me fez sorrir e me faz sorrir ainda, quando lembro. Tostão contou acerca de um dia da Copa de 1994. Ele estava em Dallas, nos Estados Unidos, sentiu fome e sentou-se, só, para comer um sanduíche. Foi então que um senhor baixinho, de cabelos brancos, se aproximou, pediu licença para puxar uma cadeira e confessou, como tantos confessam a Tostão todos os dias, aqui no Paraguai:







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