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Posts de fevereiro 2009

Aquela noite, naquele bar (parte 2)

28 de fevereiro de 2009 16

Continuando a história Aquela noite, naquele bar:

 

 

“Eu estava com o braço estendido, esperando que Alice se levantasse. Não se levantou. Meu braço permanecia no ar, ia recolhê-lo, mas a mão de aço do grandalhão cingiu-me o pulso. Quase desmaiei de pavor. 

- Me larga - gemi.

Gargalhando sempre, ele torceu-me o braço às costas, e o fez com facilidade, com naturalidade, como se brincasse com uma criança. A dor da chave-de-braço espalhou-se por meu ombro. Gritei:

- Aiaiaiai…

Era um grito infantil, choroso, do qual me envergonhei, mas que não consegui evitar. Ao contrário, repetia, quase aos prantos, propositalmente súplice, na esperança de que ele se comovesse com a minha dor e me soltasse:

- Ai, meu braço! Vai quebrar meu braço! Meu braço! Meu braço!

Com a poderosa mão direita, ele torcia meu braço cada vez mais. Com o braço esquerdo, aplicou-me uma gravata. Enquanto a garganta se me fechava, sentia o cheiro azedo do meu verdugo. Lágrimas me vieram aos olhos. Eu choramingava:

- Me larga! Por favor! Me larga!

Ele ria. Estava se divertindo. Em meio ao desespero, consegui ver Alice, ainda sentada, ainda com um ar de interesse indiferente no rosto. Por que ela não protestava? Por que não gritava por ajuda? Jamais havia me sentido tão abandonado na vida.

Atrás de Alice, surgiu outra figura. Um homem. O dono do bar, creio, porque pediu:

- Por favor! Parem! Por favor! Vou chamar a polícia!

A ameaça dever ter surtido efeito, porque o grandão levou os lábios até a minha orelha e sussurrou:

- Pede desculpa.

- Pelo quê? 

- Pede desculpa!

- Desculpa! - bali. E repeti, implorando: - Desculpa! Desculpa! Me larga! Desculpa! Desculpadesculpadesculpa!

O que ele pedisse, eu faria, isso é que é. Faria.

Mas ele não soltou. Aumentou a pressão sobre meu braço, empurrou-me para baixo, devagar.

Ilustração de Gilmar Fraga

 

 

- Ajoelha, bichinha! - mandou - Ajoelha!

Ajoelhei-me. Ele largou meu pescoço e agarrou um tufo dos meus cabelos. Puxou minha cabeça para trás. Rosnou:

- Pede desculpa de novo!

E eu ali, ajoelhado, submetido, humilhado, cacarejei um pedido de desculpas entre soluços. Depois do que, o grandão, enfim, empurrou-me para o chão. Fiquei rojado no parquê, tossindo, a mão esfregando o pescoço ferido.

Ele deu dois passos na direção de Alice.

Apoiou-se no encosto da cadeira dela.

Abaixou-se à altura do rosto dela.

E a beijou na boca.

Beijou-a com fúria, mas sem pressa, longamente, desfrutando cada momento. Alice não fez menção de reagir. Ou, por outra, reagiu: ergueu as duas pequenas mãos brancas e apertou os bíceps poderosos do meu agressor. Ela estava gostando! Estava gostando!

Depois de alguns segundos, o grandão se desgrudou da minha namorada. Ergueu o torso. Afagou o cabelo loiro dela. E foi-se embora sorrindo, deixando-me ali no chão, ordenando, antes de sair:

- Paga a minha conta, babaca!

Não paguei conta alguma, lógico. Arrastei-me dali ouvindo as desculpas do dono do bar e os murmúrios dos clientes. Alice seguiu dois passos atrás, abraçando a bolsa, sorrindo estranhamente. Portava-se como se não estivéssemos juntos. Quando paramos ao lado do carro, ela falou:

- Quer que eu dirija?

Aquilo fez eu me sentir mais humilhado. Ela achava que eu não tinha condições nem de dirigir.

- Não - respondi.

Entrei no carro. Ela sentou no banco do carona. Tomei o caminho da minha casa. Ela:

- Ah, me deixa em casa. Estou cansada…”

 

 

O que aconteceu no trajeto, a reação de Gustavo, a reação de Alice… em breve na continuação de Aquela noite, naquele bar!

Postado por David

Aquela noite, naquele bar (parte 1)

27 de fevereiro de 2009 1

Minhas férias foram estendidas. Cansei de Fernando de Noronha e resolvi partir para a República Oriental do Uruguai.

Vou postar a partir de hoje a história “Aquela noite, naquele bar” que está no livro Antologia dos Cronistas Bissextos.

Segunda-feira eu volto!

 

 

“Depois do que aconteceu, tentei várias vezes descobrir de quem, afinal, tinha sido a ideia de ir àquele bar. Como se adiantasse. Como se pudesse voltar ao passado para corrigir o presente. “Se” não tivéssemos ido ao bar, “se” não tivéssemos saído aquela noite, se, se… Inútil. Aconteceu, pronto. A culpa não foi do bar, não foi de ninguém. Minha, talvez.

A verdade é que nunca havíamos pisado naquele bar e, por algum motivo, um de nós propôs que o conhecêssemos. Nós que digo somos eu e minha namorada Alice. Eu a amava, hoje sei o quanto. Estávamos juntos havia cinco anos, falávamos em casar e tudo mais. Agora, em retrospectiva, percebo que Alice não sentia o mesmo que eu. Ou não sentia em igual intensidade. Ou passava por uma crise, sei lá. O fato é que existia algum problema entre nós, como constatei naquela noite.

O bar não estava cheio, quando entramos. Não era um lugar muito grande, doze ou treze mesas, metade delas ocupada. Escolhemos uma encostada à parede. No instante em que levantei o braço para chamar o garçom, senti a presença do homem. Estava na mesa ao lado, sentado de frente para nós, sozinho. Já olhava para Alice e já sorria um sorrisinho de deboche. Fiquei incomodado, mas nada fiz. O garçom se aproximou, pedimos nossas bebidas, concentrei-me em Alice. Ela também havia notado o tipo.

- Tem um cara me olhando - reclamou.

Virei a cabeça para a esquerda e observei-o rapidamente.

Ele continuava fitando Alice com intensidade, e continuava sorrindo. Era um sujeito grande, de ombros largos e cara de mau. Devia ser um desses lutadores de jiu-jitsu. Não teria como enfrentá-lo. Nunca fui dado a atividades físicas, nem a emoções fortes. Sou funcionário, minha vida sempre foi pacífica, carimbo documentos, rubrico papéis, vem em quando atendo ao telefone. O máximo de exercício que faço é levantar o suporte do durex. E nunca, nunca briguei em bar. 

- Deve ser algum bêbado - dei de ombros. E debrucei-me na direção de Alice, fincando os cotovelos na mesa e tomando a mão dela sobre a toalha.

Sorri. Fiz um comentário casual, tentei concentrar-me na minha bela namorada e demonstrar claramente ao estranho que formávamos um casal. Não adiantou. Ele continuava encarando-a ostensivamente. Uma falta de respeito. Um acinte. Que deveria fazer? Desafiá-lo seria uma temeridade. Ir embora, uma humilhação. Chamar o garçom, quem sabe? Pedir que tomasse uma providência? Garçom, aquele sujeito está olhando para a minha mulher. O garçom riria na minha cara. Olhar não é proibido, todo mundo se olha na noite, ele não podia fazer nada.

Resolvi fazer comunicação visual. Olhar para ele e mostrar minha contrariedade. O macho demarcando seu território para afugentar outro macho. Poderia funcionar.
Foi o que fiz. Torci de novo o pescoço para a esquerda e olhei nos olhos dele. Olhos pequenos, rasgados e frios. Olhos de cachorro pit-bull. Ele sustentou o olhar. Eu, não. Incomodou-me aquele jogo. Voltei-me mais uma vez para Alice. Vi que ela me estudava, e parecia aborrecida.

- Vamos embora daqui - decidi, aprumando-me na cadeira.

Tarde demais. Antes que fizesse menção de chamar o garçom, o tipo se materializou ao meu lado, ameaçador, enorme, dando a impressão de ter dois metros de altura.

- Tava me encarando? - perguntou, com um acento de malícia na voz rascante.
Óbvio que queria confusão. Devia ter saído de casa com esse objetivo. E, ao me ver com Alice, encantou-se com ela, o que não é difícil, e calculou que poderia me surrar sem esforço, o que também não é difícil.

O fato é que, sentado naquela cadeira, com a parede às minhas costas, com meus olhos postos na linha da cintura do monstro, senti-me um verme. Senti-me pequeno e frágil. E, confesso, senti medo. Um medo que borbulhou no meu estômago e amolentou-me as pernas e enozou-se na minha garganta. Minha vontade era sair correndo dali sem olhar para trás. Mas o medo que me impelia porta afora também me afivelava à cadeira. Foi com dificuldade que consegui balbuciar:

- O… o senhor… o senhor me desculpe. Nós não queremos confusão. Nós estamos indo embora…

Ele riu alto. Meu medo aumentou, ao som daquela gargalhada.

- “Nós” estamos indo embora? - caçoou. - “Nós” quem? Você vai. A loirinha fica.

Olhei para Alice. Observava a cena com interesse de espectadora, não como uma das protagonistas. Parecia não ter lado na disputa. A atitude imparcial dela me irritou, mas a irritação não era maior do que o medo. O medo superava tudo, todos os sentimentos que experimentara até então.

- Vamos embora, Alice - entendi uma mão trêmula para ela. Ela não se mexeu. Olhava de mim para o grandalhão e do grandalhão para mim.”

 

 

E agora? Será que o grandalhão vai atacar Gustavo ou não?

A continuação de Aquela noite, naquele bar você lê amanhã aqui no blog!

Postado por David

Bundas

25 de fevereiro de 2009 8

Juan Barbosa, Banco de Dados - 29/01/2008

Ressaca pós-Carnaval pegando… Como não vou conseguir criar nada hoje, escolhi uma crônica que foi publicada em 1999 na Zero Hora. Olha só:


Falemos sobre a bunda. Sem devassidão. Sem lascívia. Mas de uma perspectiva histórica. Científica, até. Os responsáveis pela bunda como é conhecida na atualidade, e aí me refiro ao conceito contemporâneo de bunda, ou seja, a bunda como ela é, os responsáveis por ela são os africanos. Mais especificamente os angolanos e os cabo-verdianos. Para ser ainda mais específico, as angolanas e as cabo-verdianas. Foram elas, angolanas e cabo-verdianas, que, ao chegarem aqui durante as trevas da escravatura, revolucionaram tudo o que se sabia sobre bunda até então.

Foi assim: naquela época, a palavra bunda não existia. Os portugueses, quando queriam falar a respeito das nádegas de uma cachopa, diziam, exatamente, nádegas. Ou região glútea, tanto faz. Aí, os escravos angolanos e cabo-verdianos chegaram ao Brasil. Só que eles não eram conhecidos como angolanos nem cabo-verdianos. Eram os bantos chamados bundos, que falavam o idioma ambundo. Ou quimbundo. A língua bunda, enfim.

Os bundos, esses, em especial as mulheres bundas, possuíam a tal região glútea muito mais sólida, avantajada, globosa e, por que não dizer?, frutuosa do que as européias, sempre tão aguadamente retinhas, como bem pode ver quem viajava antes das desvalorização do real. Os portugueses, que, ao contrário do que se acredita, não são bobos, logo encompridaram os olhares para as nádegas das bundas. Uma delas passava diante de uma turma de portugueses e eles já comentavam:

- Que bunda!

Em pouco tempo, a palavra bunda, antes designação de uma língua e de um povo, passou a ser sinônimo de nádegas. Assim nasceu a bunda moderna.

Você aí deve estar se perguntando: por que todo esse arrazoado acerca das bundas numa coluna de futebol? E eu respondo: por causa da Tiazinha, ora!

Todo o sucesso que a Tiazinha faz se deve a uma combinação da máscara com a bunda. Têm ligação direta, a máscara e a bunda. A máscara, o simples uso dela sugere a devassidão e a lascívia de que não falei lá em cima. Você olha para a Tiazinha e pensa: “Está mascarada para poder fazer sacanagem“. E a bunda, o uso que a Tiazinha faz da bunda, daqueles 92cm de quadril comparados aos 60cm de busto, o uso disso tudo é pura insinuação. Não é uma utilização violenta, agressiva, como a que emprega a Carla Perez. Não. É um uso circular, envolvente, lasso, dissoluto. Sensual. A bunda e a máscara, a máscara e a bunda, que união formidável consumada na personagem Tiazinha.

Você há de concordar comigo, mas, de repente, pode dizer: “Epa, mas não era uma coluna de futebol?” E é – o que eu quero enfatizar é que o gosto histórico do brasileiro pela bunda torna evidente o traço mais importante do nosso futebol – a negaça, a insinuação. Porque uma bunda que se projeta representa, exatamente, a negaça e a insinuação. Uma bunda como a da Tiazinha sugere. Provoca. A bunda da Tiazinha se oferece. E depois foge. Como um drible – o atacante oferece a bola e, quando o zagueiro vai apanhá-la, ele escapa rumo ao gol. Bunda e bola tantalizantes, isso daria até samba. Portanto, observe com atenção a bunda da Tiazinha e as demais, rotundas, inzoneiras, que desfilam no nosso Carnaval. Mas observe sem devassidão. Sem lascívia. Mas com seriedade histórica. Científica. Gravemente. E então você entenderá um pouco da nossa cultura. E do nosso futebol.”

Postado por David

Que peito!

24 de fevereiro de 2009 0

Agora uma crônica da Copa América, só que essa realizada em 2001 na Colômbia. Confere aí:

Seios.

Mamas.

Mamilos.

Peitos.

Essas coisas.

As calenhas valorizam muito os seios. E os seios das calenhas, de fato, chamam a atenção até dos testemunhas de Jeová que ontem passaram o dia orando com insistente alarido no estádio onde a Seleção jogou.

São seios orgulhosos, arrogantes, agressivos, eu diria mesmo bélicos, que é um adjetivo apropriado para um país em guerra. Os brasileiros andam se perguntando:  que tipo de alimentação é fornecida às calenhas para que elas desenvolvam as mamas de forma tão exuberante?

Não é alimentação. As calenhas, quando completam quinze anos, em vez de debutar, dançar a valsa ou ir para a Disney, ganham silicone de presente. Bem isso: um dia, os pais calenhos chamam as adolescentes calenhas e perguntam:

- Quantos gramas você quer, filhinha?

O resultado é isso que está aqui, nos espantando a cada dia.

Esse culto ao peito faz com que as calenhas releguem um pouco as pernas, o que de vez em quando me aborrece, eu que sou um admirador exaltado das pernas femininas. Não que a pernas delas sejam feias, cambotas ou muito finas, nada disso. Mas elas não as mostram. Não vi uma única mulher de minissaia, na Colômbia. Verdade que elas se vestem com jeans justíssimos, que certamente lhes prejudicam a respiração. Verdade também que as blusas delas são, mais do que curtas, sumárias, lhes deixando ao ar livre não apenas umbigos de tamanho e formato variados, mas também harmônicas costelas e costas suaves. Tudo isso é verdade, e ainda assim sinto saudade das pernas macias das brasileiras. Nada como pátria.”

Postado por David

Só com o velho jeitinho

23 de fevereiro de 2009 0

Mais uma da Copa América, realizada no Paraguai:


“O Paraguai… As pessoas são solícitas e sorridentes, no Paraguai. Mas as coisas… As coisas só funcionam impulsionadas pelo jeitinho paraguaio. O comovente empenho dos nativos para que as coisas dêem certo não é o suficiente para superar alguns probleminhas como: falta de organização, falta de preparação, falta de estrutura, falta de conhecimento do que é preciso para organizar um evento intercontinental como a Copa América.

Os paraguaios bem que tentam, mas um irreprimível defeito comum de coordenação faz com que eles sempre se atrapalhem. Os policiais são a prova gritante disso. Quando mais de um policial guarnece uma rua e você chega de carro, há uma grande chance de acontecer de um mandar que você siga e outro, que pare. Na terça-feira, dia da primeira visita da Seleção ao país, ocorreu justamente esse problema. Quanto mais o ônibus da delegação se aproximava da Ponte da Amizade, mais nervosos ficavam os guardas e os soldados do exército designados para proteger os atletas. Os apitos furiosos acabaram por excitar ainda mais a multidão de paraguaios, brasileiros, brasiguaios, árabes e todos os demais tipos que se enfileiraram nas duas margens da avenida, esperando a Seleção passar.

Quando a Seleção finalmente ingressou em território paraguaio, aí, sim, deu-se a hecatombe. Um dos guardas liberou uma rua vicinal, outro determinou que os carros que vinham dela parassem no meio do caminho, um terceiro mandou que a avenida ficasse livre e um quarto ficou parado no meio do caos, olhando. Resultado: trancou tudo. Nenhum dos Opala velhos, ônibus lotados de sacoleiros, carretas abarrotadas ou táxis em estado precário conseguiu se mover. Mas todos buzinavam ferozmente. Horror.

Ontem, no dia do jogo, a confusão foi, obviamente, ainda maior. Não havia autorização de estacionamento para todos os veículos. A S-10 da Zero Hora teria que ficar na rua, à mercê de todos os espertalhões de Ciudad del Este. Um grave risco. o jeitinho - paraguaio - foi conversar com um dos encarregados, que, depois de ouvir simpaticamente toda a argumentação, pegou-me pelo braço, levou-me para um canto, passou-me uma autorização e recomendou:

- Não conta para os outros, ahn?, que tem poucas dessas.

Vencida essa etapa, era preciso obter uma entrada para assistir ao jogo.
E quem disse que havia entradas? O funcionário não achava de jeito nenhum. Procura, procura…Zero Hora, Zero Hora… Tinham perdido os ingressos para o pessoal da Zero hora. Sem problemas: a senhora do guichê apanhou um envelope a esmo. Lá estava escrito: Associated Press. Ela riscou aquilo e rabiscou embaixo: Zero Hora. Pronto. Algum colega americano assistiu à partida pela TV. Em compensação, o envelope destinado à Zero Hora tinha um ingresso a mais!

No Centro de Imprensa, mais emoções. Alguns computadores não davam acesso à internet pela razão singela de não possuírem a tecla arroba. Nada mais natural: o Estádio Três de Fevereiro ainda não ficou pronto, e só o Criador sabe quando ficará. horas antes do jogo, os operários, ainda estavam pintando, martelando, instalando frações, serrando. E, para complicar ainda mais, repetiu-se o problema verificado nos últimos dias: no momento em que os refletores foram ligados, o sistema caiu. Resultado: a preliminar entre Chile e México começou com treze minutos de atraso, empurrando o jogo do Brasil para mais adiante. Nas ruas, os rolos compressores trabalhavam sem parar no capeamento asfáltico.Para fugir do tumulto, Wanderley Luxemburgo, o auxiliar Candinho e o preparador de goleiros Valdir de Moraes viajaram de helicóptero de Foz do Iguaçu a Ciudad del Este a fim de ver a preliminar.

Uma confusão, mas nada que abale o humor dos paraguaios. Como o da comerciante Maria Del Pilar Aguilera que, vendo as ruas embandeiradas, ruidosas e congestionadas, sorriu e comentou, em entusiasmado espanhol paraguaio:

- Que lindo, isso! Nunca tinha visto coisa tão linda na vida. Que lindo!

Postado por David

Tostão

22 de fevereiro de 2009 5

Leitorinhos, sigo de férias em Fernando de Noronha pegando um solzinho… Aquela coisa básica de levantar os pés para cima, né? O Matheus segue ralando na redação da Zero Hora procurando textos para publicar no blog.

Até eu voltar ao batente – o que deve ser na… quinta-feira, ou quarta, sei lá – vocês vão ler algumas crônicas que saíram no livro Viagem, que escrevi em parceria com o Fernando Eichenberg.

Essa daí é foi durante a cobertura da Copa América de 1999, realizada no Paraguai.

 
“Tostão
 

Foto: Reprodução

Noite de segunda-feira, jantávamos, eu o Tostão, o grande Tostão, centroavante do melhor time de futebol de todos os tempos, disse algo que me encantou e me fez sorrir e me faz sorrir ainda, quando lembro. Tostão contou acerca de um dia da Copa de 1994. Ele estava em Dallas, nos Estados Unidos, sentiu fome e sentou-se, só, para comer um sanduíche. Foi então que um senhor baixinho, de cabelos brancos, se aproximou, pediu licença para puxar uma cadeira e confessou, como tantos confessam a Tostão todos os dias, aqui no Paraguai:

- Sempre fui seu fã.

Tostão sorriu simpaticamente, que ele é simpático, olhou bem para o rosto daquele senhor e perguntou se não o conhecia de algum lugar. Então o homem se identificou. Chamava-se Alfredo Di Stéfano.

Sentado à minha frente, enquanto relembrava daquele dia americano, Tostão riu de contentamenteo, e em seu rosto se fez luz.

- Imagina! - disse - Era o Di Stéfano! O Alfredo Di Stéfano! Eu que era fã dele, sempre fui fã dele, e ele estava lá, sentado comigo, falando comigo, e até repartiu um sanduíche comigo!

Ali estava ninguém menos do que Tostão, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, campeão do mundo, um homem culto e vivido, um médico inteligente, viajado, lido, emocionando-se à recordação de um encontro com um ídolo.

Como o futebol pode fazer as pessoas radiantemente simples.” 

 

Saudações direto da beira-mar!

Postado por David

Uma família perigosa (parte 2)

20 de fevereiro de 2009 5

“Em 1816, o poeta inglês Lord Byron visitou a Biblioteca Ambrosiana, em Milão, e lá manuseou dez cartas que Lucrécia escreveu para um de seus tantos amores. Entre o fino papel das cartas, Lucrécia acomodou um presente para o amado: cachos de seus cabelos loiros. Lord Byron tomou com as próprias mãos um dos cachos, e foi o que bastou para, ele também, 303 anos depois da morte de Lucrécia, apaixonar-se por ela.

“Fiquei seduzido por aquele cacho de cabelos louros, os mais encantadores e mais belos que se possam imaginar”, escreveu o poeta. “Nunca vira cabelos mais admiráveis. Se pudesse, de qualquer maneira honesta, conseguir um daqueles fios, eu o tentaria”.

Henry de Koch, na sua história das cortesãs, diz que Byron tentou e conseguiu. Roubou um único fio do cabelo de Lucrecia e guardou-o como relíquia.
Lucrécia dava atenção especial a seus cabelos – lavava-os todas as semanas, para espanto de seus coetâneos dos séculos 15 e 16, época em que se dizia que lavar cabelo e tomar banho até mal fazia. O pintor Bartolomeo Veneziano retratou Lucrécia debaixo de seus cabelos loiros encaracolados e compridos, linda, o pequeno e firme seio esquerdo nu. Deve ter sido bom de ver.

Lucrécia era poderosa por ser filha de ninguém menos do que… o papa! Não se trata de sentido figurado: o papa, padre, pai de todos os católicos, aquela coisa. Não. O espanhol Roderigo Borgia, que ao se acomodar na curul do Vaticano assumiu o nome de Alexandre VI, era pai biológico de Lucrécia e de algumas outras criancinhas serelepes. Que mais serelepes ficaram à medida que cresceram.

Havia certa rivalidade entre os dois irmãos mais velhos de Lucrécia, César e Jofre. Causada, a rivalidade, pelo sentimento que eles nutriam pela própria irmã. Ambos a amavam com intensidade doentia e, pelo menos num dos casos, a culpa por tal paixão coube ao pai deles.

Quando Lucrécia completou 13 anos, Alexandre VI decidiu que ela devia casar. Os casamentos davam-se mais para selar alianças políticas ou econômicas do que por amor. Alexandre queria um acordo favorável com os Sforza, poderoso clã de Milão, mas não admitia correr riscos de transferir parte do seu poder para outra família. Seria importante, pois, que Lucrécia mantivesse laços afetivos permanentes com os Borgia.

Alexandre acreditava que o homem que deflorasse a filha ganharia sua fidelidade eterna. Por esse raciocínio, o primeiro homem de Lucrécia deveria ser um Borgia. O próprio Alexandre escolheu César para a tarefa, levou o casal para o quarto e orientou o ato. Guiou as mãos do rapaz nas carícias, fez com que fornecesse à irmã os prazeres das preliminares, impediu que ele se precipitasse na consumação e estremeceu de desejo ao testemunhar o êxtase a que se entregavam os dois irmãos. O papa cometeu um pequeno erro de cálculo ao promover o incesto entre seus dois filhos, porque foi César quem, a partir daquele dia, tornou-se escravo de Lucrécia.

O ciúme que César tinha da irmã foi o agente que a transformou em viúva repetidas vezes. Os maridos de Lucrécia pareciam bem de saúde numa noite e, na manhã seguinte, surgiam boiando nas águas do Tibre. Um deles safou-se de forma bizarra: os Borgia anularam o casamento acusando-o de impotência. O rapaz foi embora para casa contente com a fama, arranjou outra mulher, essa proveniente de família menos nobre, menos carola e menos perigosa, e teve três filhos.

César eliminava todos os que se aproximavam em demasia da irmã. Uma ou outra orgia, tudo bem, mas nada de envolvimento sério. Um dia, porém, ele foi longe demais. Foi quando deu cabo do próprio irmão, Jofre. O papa ficou descontente, disse que ele não deveria ter matado o irmãozinho; Lucrécia reclamou que aquilo era realmente desagradável, e a vida seguiu em frente.

César só admitia que um homem partilhasse Lucrécia com ele: o pai. Afinal, além de pai do casal, Alexandre VI era o papa!

César foi um dos estadistas mais importantes da Europa, no seu tempo. A custa de muitas guerras, reconquistou os chamados Estados Papais para o Vaticano. Era tão maquiavélico que Maquiavel se inspirou nele para escrever “O Príncipe”.
Depois de enviuvar pela terceira vez, Lucrécia casou-se com o duque de Ferrara, foi para o Norte da Itália, continuou acumulando amantes, mas, ao que se saiba, não envenenou mais nenhum. Nunca mais viu César ou Alexandre VI.

Esses dois, pai e filho, seguiram servindo Cantarella a quem os desagradasse. Um dia, no entanto, um criado enganou-se com as garrafas de vinho e ministrou aos anfitriões a bebida que estava destinada aos convidados. Alexandre e César foram envenenados por Cantarella. César conseguiu se salvar valendo-se de um antídoto pouco ortodoxo: abriu um burro pelo ventre e enfiou-se dentro dele. Saiu de lá curado.

Hm. Não sei se acredito nessa história. Em todo caso, se você for envenenado por Cantarella, é melhor ter um burro à mão.

Alexandre não teve tanta sorte. Agonizou durante oito dias e, ao pressentir que estava em seus momentos finais, deve ter pensando nas realizações da sua existência, deve ter lembrado o incesto cometido com a filha, as bacanais promovidas na corte do Vaticano, os homens de quem mandou decepar mãos e arrancar línguas, os que assistiu sendo esfolados vivos e todos os tantos e tantos que morreram por meio do veneno que ora o matava, deve ter pensando nisso tudo para formular sua última frase, dita antes de seu último suspiro:

- Agora já posso entrar no Reino dos Céus…”

Postado por David

Uma família perigosa (parte 1)

19 de fevereiro de 2009 8

Caco Konzen - BD ZH 22/10/2007

Leitorinhos, mais um capítulo especialíssimo do livro Jogo de Damas!

“É preciso um porco para fazer a Cantarella. A Cantarella era o veneno preferido dos Borgia, família de espanhóis que cometeu todo um renque de crimes durante o Renascimento, na Itália. Na lista dos Borgia está o adultério, o roubo, o incesto, a tortura e, claro, o assassinato por envenenamento com Cantarella. A preferência da família por aquele veneno em particular tinha boas razões: uma vez administrada, a Cantarella se mostrava infalível (ao que se sabe, só falhou uma vez), rápida e difícil de ser identificada.

A base da Cantarella é o arsênico. Os historiadores registraram duas fórmulas para prepará-la. Em ambas entra o porco. Assim:

Receita número 1:

1. Faça uma apetitosa bola de carne e arsênico.

2. Jogue a bola ao chão, perto do porco, chamando a atenção do porco para que ele a coma.

3. O porco comerá a bola com voracidade, como costumam fazer os porcos.

4. Em alguns minutos, o porco sentirá uma lancinante dor de barriga e gritará de um jeito como só um porco sabe fazer.

5. Pegue o porco. Amarre o porco. Pendure o porco de cabeça para baixo no galho de uma árvore.

6. O porco vai estrebuchar e sentir violentos espasmos e guinchar de dor. Não fique com pena.

7. Em breve, o porco irá falecer. Depois de dado o seu passamento, faça o sinal da cruz e coloque um pote de bom tamanho exatamente sob a boca semi-aberta do porco.

8. Espere.

 

9. Espere.

 

 

10. Uma baba entre amarela e marrom escorrerá da boca do porco e pingará dentro do pote. Essa baba é a Cantarella. Uma ou duas gotas num copo de vinho são o suficiente para devorar as entranhas de qualquer síndica de edifício.

Receita número 2:

É exatamente igual à número 1 até a fase 4. A partir daí, você não precisa amarrar o porco, nem pendurá-lo em uma árvore. Melhor. Isso deve dar um trabalhão, até porque o porco estará esperneando desesperadamente. Na Receita número 2 você precisa apenas esperar que o porco morra. Morto o porco, aí, sim, há que se trabalhar um tanto: você terá de abrir o porco pela barriga e arrancar-lhe o intestino. Nojento, sei, mas, se você realmente quiser usar a Cantarella na síndica terá de fazer algum sacrifício.

De posse do intestino, você terá de esperar que ele seque. Isso leva alguns dias, suponho, já que nunca sequei intestino de porco e os historiadores que escreveram a respeito dos Borgia não se imiscuíram nesse detalhe. Então, tome o intestino seco, moa bem moidinho e, pronto, o pó branco que se originará do processo é a temida Cantarella.

Os Borgia gostavam do veneno em pó. Falou-se muito, no século 15 e pelos séculos vindouros, dos anéis de Lucrécia Borgia. Adornados com enormes pedras preciosas, na verdade eram ocos. Premendo um dispositivo, Lucrécia fazia a pedra do anel abrir-se como uma tampa. No interior havia uma porção de Cantarella, que ela despejava na bebida de algum convidado indesejável, mexia como se fosse Nescauzinho e dava para o infeliz provar. Um ou dois goles e, PAM!, um italiano a menos na face da Terra.

Os talentos de Lucrécia Borgia não se resumiam a abreviar a passagem de seus desafetos por esse Vale de Lágrimas. Os contemporâneos diziam que ela era a mulher mais linda da Itália. Magra, alta, elegante e loura, devia ser algo como as nossas meninas de Cruz Alta e Horizontina.

 

Leitorinhos, amanhã eu mostro uma imagem da loirosa Lucrécia e conto para vocês todos os pormenores que aconteceram na sua vida. Não percam a continuação de “Uma família perigosa”!

Postado por David

A maior devassa da civilização (parte 2)

18 de fevereiro de 2009 4

Divulgação

Olá leitorinhos. Segue abaixo a continuação:

Quando Cláudio atravessou a Europa para conquistar a Bretanha, Messalina se esbaldou. Prostituiu-se abertamente e mandou que algumas esposas de senadores se prostituíssem também. Os maridos não gostaram muito, mas eram ordens da imperatriz, que fazer?…

Não contente em cobrar preços módicos por seus favores, Messalina resolveu apurar quem afinal era a maior rameira de Roma. Para tanto, propôs um desafio a Cnea, a prostituta mais infame do império. Uma espécie de ultimate fighting: as duas se entregariam a todos os homens que tivessem condições físicas de suportar por um dia inteiro. Aquela que levasse mais parceiros ao gozo seria a grande campeã. Em 24 horas, Cnea deu conta de 24 homens, respeitável média de um por hora. Messalina terminou a contagem em 30. Goleada consagradora. Messalina era a Pelé da sacanagem, a campeã das campeãs.

Apesar dessa tonitruante explosão de infidelidade, da traição que escorria pelas paredes do palácio, dos olhares de esguelha dos patrícios, Cláudio não desconfiava de nada. Porque amava profundamente Messalina, a quem confiava alguns dos negócios mais importantes do império. Parte dos súditos não lhe contava coisa alguma por temer uma eventual reação indignada dele – os cornos são assim; quando a traição lhes é revelada, revoltam-se contra quem a revelou. Outra parcela dos cidadãos acreditava que Cláudio sabia do que acontecia e, mansamente, dava seu consentimento. Messalina, portanto, podia continuar na atividade cornificadora em paz.

Só que, um dia, ela foi longe demais.

Houve quem dissesse que Messalina tinha se apaixonado e que, por amor, atravessou a fronteira da prudência para o lado de lá. Não sei… Messalina não parecia muito prudente. Mas, realmente, ela exagerou. Não apenas teve um caso com um nobre chamado Gaio Sílio como casou-se com ele. Pior: aproveitou-se da credulidade de Cláudio e, empregando um daqueles ardis que só as mulheres sabem empregar, conseguiu que o próprio imperador aprovasse formalmente o casamento.

Um dia, quando Cláudio estava em Óstia a trabalho, ela e Sílio celebraram os esponsais. O ponto alto da cerimônia foi o casal consumando a união numa cama king size armada no meio dos jardins do palácio, em frente a todos os convidados, inclusive as aias. A idéia de Messalina e do marido era depor Cláudio e assumir o poder. Os libertos de Cláudio, percebendo que, se a conjuração tivesse sucesso, perderiam o emprego, decidiram tomar uma atitude. Contaram tudo ao imperador. Mas tudo! Um dos libertos chegou a fazer uma lista dos homens que partilharam o leito com a imperatriz. A relação elevou-se a 156 romanos de diversas classes. Isso fora os que os libertos não descobriram.

Cláudio ficou em pedaços, coitado. Jurou que nunca mais se casaria e determinou que Messalina fosse executada, não tanto pelo adultério, mas pela conspiração política. Messalina morreu com menos de 24 anos. Pouco tempo, mas bem aproveitado. Na noite da execução de sua esposa, Cláudio sentou-se à mesa do jantar e, como ela não aparecesse, reclamou:

- Onde é que está a Messalina, que demora tanto?

Os criados, constrangidos, informaram-lhe que ela havia sido morta por ordem dele. Cláudio balançou a cabeça, lamentoso:

- Ah, é mesmo…

Desta forma, chegou ao fim a curta porém palpitante vida de Valéria Messalina, mas não o destino de homem traído de Cláudio. Como todo chifrudo profissional, Cláudio descumpriu sua promessa e logo arranjou uma nova esposa. Que foi, é claro, a pior que ele poderia ter escolhido. Ninguém menos do que sua sobrinha Agripina, que, se não era tão lasciva como Messalina, era muito mais ambiciosa e tão bonita quanto. Messalina usava sua beleza para fazer sexo; Agripina para conquistar poder. Seduziu Cláudio e governou Roma através dele. E, se o governo de Cláudio não podia ser considerado de forma alguma ruim, melhorou deveras com a intervenção firme e sensata de Agripina.

O mando de Agripina teve seqüência por cinco anos. Ao cabo deste período de relativa tranqüilidade no império, ela se viu vitimada por aquele que é dos maiores males humanos: a ganância. Agripina envenenou a comida de Cláudio e o matou, tudo para elevar seu filho ao trono, um filho degenerado que ela controlava com sexo desde que ele ingressara na adolescência. Agripina continuou cometendo incesto com esse filho e manipulando-o, até que ele se cansou dela. E então, o filho assassinou a própria mãe e deu início a um período de terror poucas vezes visto na história da Humanidade. Não é à toa que até hoje tem gente que coloca nos cães o nome desse césar sanguinário: Nero.

Postado por David

A maior devassa da civilização (parte 1)

17 de fevereiro de 2009 5

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Leitorinhos! Aí vai mais um textinho do livro Jogo de Damas. Confiram:

Todo corno precisa de uma mulher que o cornifique, caso contrário lhe será difícil seguir sua tendência chifrúdica. Ou várias mulheres, lógico. Tenho um amigo que já foi corno sete vezes, com sete mulheres diferentes. As mulheres sempre o traem, ele as empurra para o adultério, como se desejasse ser traído. Acho até que deseja. As guampas tornam colorida a vida dele.

Cláudio era um desses homens destinados à cornice irremediável. Pelo menos três mulheres o traíram. Mas uma delas em especial. Uma foi a maior adúltera do Universo. A mulher mais lasciva, mais sensual, mais ninfomaníaca. A maior vadia da Civilização.

Valéria Messalina.

Você ouviu o som das trompas e dos clarins troando? Sim, porque, cada vez que o nome de Messalina é citado, soam as fanfarras. Que união explosiva, a do maior corno com a maior libertina de todos os tempos. Ou talvez tenha sido Messalina quem transformou Cláudio em um supercorno. É: de alguma forma, Cláudio foi uma criação de Messalina.

Cláudio já tinha sido traído pela primeira esposa, Urgulanila, que era tão feia quanto o nome. Por isso, e por alguns outros detalhes, como, por exemplo, um pequeno assassinato que ela cometeu, ele pediu o divórcio. Quando desposou Messalina, ela era uma adolescentezinha de 15 anos e ele um senhor se aproximando dos 50. A juventude não a impedia de traí-lo com método e empenho, e a maturidade não era capaz de abrir os olhos do traído.

O nome Messalina vem de messe, ou colheita. Bem apropriado para uma mulher tão dadivosa. Há um busto de Messalina no Museu Capitolino, em Roma: o nariz reto, a boca pequena, o rosto triangular, um queixo firme. Era loira. E, claro, bela.

Messalina teve amantes em toda Roma, fez sexo com servidores do palácio, com soldados, com atores, com escravos. Fazia sexo por diletantismo, e nisso se diferenciava da maior parte das mulheres. Como já disse Schopenhauer, para as mulheres, o sexo é um meio; para os homens, um fim. Messalina, não. Messalina gostava da coisa. À noite, Messalina assumia sua segunda identidade. Transformava-se na prostituta Lisisca. Metia-se debaixo de uma peruca preta e ia para a zona do meretrício da cidade, chamada Suburra. Subia num tamborete e oferecia-se pelo preço de uma marafona vulgar. Os homens a escolhiam, pagavam e a levavam para uma pequena cela em frente ao tamborete, alugada especialmente para esse fim – com o que, você já viu que o motel não foi inventado no Rio de Janeiro, e sim na velha e devassa Cidade Eterna. De manhã, quando os donos dos quartinhos queriam fechá-los e ir para casa, descansar, Messalina continuava firme, oferecendo-se. Não queria parar nunca. Voltava para o palácio dolorida, com as partes pudendas em carne-viva e ainda insatisfeita. Sofria de furor uterino, evidentemente.

Com muito jeitinho, Messalina conseguiu convencer Cláudio de que eles deveriam não apenas dormir em camas separadas, mas morar em alas diferentes do palácio. Cláudio consentiu, e ela transformou sua ala em um bordel. Quando queria um homem, convocava-o com as prerrogativas de imperatriz. Se o homem tivesse medo de trair o imperador e se recusasse a fazer sexo com ela, ela argumentava que, neste caso, iria contar ao imperador que o homem tentou fazer sexo com ela.

Certa feita, Messalina se apaixonou por um ator chamado Mnester. O ator vacilou. Não queria incorrer na ira de um imperador cornudo. Messalina queixou-se para Cláudio:

- Amuooor, sabe aquele atorzinho? O Mnester?

- Que é que tem?

- Ele não quer fazer as minhas vontades…

Cláudio franziu o cenho. Mandou chamar Mnester imediatamente. O ator apresentou-se, assustado. O imperador rosnou:

- Sugiro que você faça todas as vontades da imperatriz, rapazinho.

- Todas, césar?

- Todas.

- Mas… todas?

- Todas.

- Todinhas?

- Ouié.

 

O que Mnester fez? Obedeceu ao imperador? Saiba amanhã, na continuação de “A maior devassa da civilização“.

Postado por David

A Bela Cleo (parte 2)

15 de fevereiro de 2009 12

Continuação da A Bela Cleo:

 

“O envolvimento de Cleópatra com César, mais a ânsia de César em se tornar rei, acabaram por indispor parte de Roma contra ele. Seu assassínio, nos idos de março (15 de março) de 44 antes de Cristo, foi uma ocorrência previsível. E, embora Brutus tenha sido autor de uma das 23 punhaladas sofridas pelo ditador aos pés da estátua de Pompeu, embora Brutus tenha sido perseguido e derrotado pelo general Marco Antônio, embora Brutus não tenha sobrevivido mais de três anos após a morte de César, foram as gerações futuras que transformaram Brutus em símbolo de traição. Graças, é óbvio, à frase que César pronunciou no seu derradeiro suspiro:

- Até tu, Brutus, meu filho…

Para os romanos republicanos, contudo, Brutus foi um herói que lutou contra a tirania. Não tinham como imaginar que a tirania mal estava começando. Com a morte de Júlio César, o poder se diluiu num triunvirato formado por Marco Antônio, Lépido e Octávio.

A passagem de Lépido pelo governo foi, bem, lépida. Em pouco tempo, Marco Antônio, mais forte, e Octávio, mais inteligente, o afastaram e o enviaram para o exílio. Agora, era um ou outro: Marco Antônio ou Octávio. Cleópatra sabia disso e, para continuar se dando bem, seduziu Marco Antônio.

Escolheu errado.

Octávio venceu. Marco Antônio e Cleópatra se suicidaram juntos, comovendo Shakespeare, que, séculos depois, imortalizaria o romance entre o arrebatado general romano e a astuta rainha do Egito.

Agora, você que não é bobo como um Cláudio, pense: uma mulher feia conseguiria conquistar dois dos homens mais importantes do planeta na sua época? Conseguiria conquistar um Júlio César, o calvo adúltero, que amava as mulheres belas e as assediava e as arrastava para a cama, ainda que fossem casadas? Por favor! Alguns historiadores alegam: ah, mas Cleópatra era inteligente… Então, você aí me diga: você prefere uma Barbara Bush inteligente ou uma Angelina Jolie burra?

Esse é o problema dos historiadores. Eles acham que a História é uma ciência exata, que independe da ação humana. Eles não acreditam que o talento excepcional de uma pessoa possa ser decisivo no rumo da História. Eles querem tirar o homem da História. O homem, que é justamente o único elemento que importa na História. Por essa razão, os historiadores adorariam que a História não fosse influenciada pela inteligência, pelo talento, pela ira, pelo medo ou pela beleza. Eles gostariam que o homem não influenciasse na História do homem. Tsc, tsc.

Donde essa onda de dizer que Cleópatra não era bonita. Claro que era! Só que Octávio, que, ao que consta, não possuía os mesmos apetites do calvo adúltero. Rejeitou Cleópatra e, para não correr riscos, mandou matar Cesário, o filho que ela tivera com César. Mas, como o prestígio de César com o povo fosse grande, Octávio, quando finalmente se tornou imperador, mudou seu nome próprio para Augusto e o nome do cargo para “césar”. Mais tarde, alemães e russos chamariam seus imperadores de césares. Kaiser, na Alemanha; Czar, na Rússia. Pronto: aí está a explicação de porque César era César mas não era césar.

Se os poderes de Cleópatra tivessem funcionado com Augusto, ela seria ainda maior do que foi. Seria talvez a maior mulher da história humana. Mas Augusto preferiu outra mulher, não tão bonita, nem tão sensual, mas de família romana respeitável: Lívia.

Essa Lívia era casada, tinha um filho, um menino chamado Tibério, e estava grávida de outro. Nada disso se constituiu em estorvo para o novo césar: ele ordenou que Lívia se divorciasse, ela achou a idéia excelente e o marido acedeu tão prontamente que até assistiu ao casamento dos dois, bem faceiro. Lívia se casou grávida do segundo filho, como já disse. A tradição, em Roma, determinava que o segundo filho fosse chamado de Druso. Sendo mulher, Drusilla. Esse Druso, mais tarde, se casaria com… Antônia! A mãe do nosso cornus maximus, Cláudio.”

 

Aliás, você prefere uma Barbara Bush inteligente ou uma Angelina Jolie burra?

Postado por David

A bela Cleo (parte 1)

14 de fevereiro de 2009 10

Derek Hawes, AP

“Agora virou moda dizer que Cleópatra era feia, sobretudo depois da descoberta de uma moeda de prata de 32 antes de Cristo em que está impressa a efígie dela. A moeda foi apresentada no começo de 2007 pela Universidade de Newcastle, na Inglaterra. A figura de Cleópatra aparece de perfil e embaixo está escrito: “Cleópatra Reginae regum filiorumque regum”, ou Cleópatra, rainha de reis e dos filhos dos reis. Belo título. Olhei bem para uma foto dessa moeda e, de fato, Cleópatra ali parece a síndica de um edifício onde eu morava, uma que os moradores chamavam de Dona Medonha. Mas não considero a moeda prova suficiente da beleza de Cleópatra ou da falta de. Há outros indícios mais fortes de que ela era bela. Um, poderoso, é o que aconteceu no primeiro encontro da rainha com César, narrado por Plutarco.

O criado mais próximo de Cleópatra, o fortão siciliano Apolodoro, carrega-a nos ombros enrolada em um tapete (Plutarco diz que é um colchão). Diante de César, Apolodoro desenrola o tapete e… surpresa! É Cleópatra, no frescor de seus 20 anos, quem sai de dentro, nua e linda, apetitosa como o Mumu que recheia o rocambole.

Marcus Lucanus, sobrinho de Sêneca, descreveu dessa forma o desenlace do lance de mestre do tapete:

“Confiante em sua beleza, Cleópatra mostrou-se, diante de César, aflita, mas sem derramar lágrimas. Da dor não havia tomado senão o que pudesse embelezá-la ainda mais. Com os cabelos despenteados e numa desordem favorável à volúpia, ela o aborda e fala nestes termos:

` Ó, César, o maior dos homens! Se a herdeira de Lagos, expulsa do trono de seus pais, pode ainda, neste infortúnio, lembrar-se de sua condição; se tua mão se digna a restabelecê-la em todos os direitos do seu nascimento, é uma rainha que vês a teus pés.`”

César ficou encantado. Passou a noite com Cleópatra, e foi uma noite memorável. Uma noite de dois mil anos. Até porque Cleópatra era uma especialista em determinadas técnicas sexuais. A principal delas: a felação. Chamavam Cleópatra de Cheilon, ou “a que tem lábios grossos”. Também a apelidaram de “Merochane”, ou “boquiaberta”. Cleo dominava tanto essa modalidade que, uma noite, satisfez cem romanos apenas se valendo de seus lábios de bergamota ponkan. Contam que ela tinha o hábito de treinar com os escravos. Escolhia um que a agradasse, passava algumas horas testando posições e habilidades com o rapaz, exigia dele tudo o que ele podia oferecer e, em seguida, mandava executá-lo para que não saísse pelo Egito se exibindo. O escravo morria com a sensação do dever cumprido.

Para amaciar a pele e torná-la agradável ao toque, a rainha ora se banhava com leite de cabra, ora com litros de esperma de escravos núbios. Não sei porque os escravos tinham de ser núbios, vai ver o esperma de escravos núbios possuía alguma propriedade hidratante especial. Isso para você ver como as mulheres sofriam numa época em que não existia creme Nívea.

Em seus banquetes, Cleópatra dissolvia pérolas em vinagre e dava a beberagem aos convidados. Se ficava bom, isso a História não conta, mas dizem que o preparado é tão afrodisíaco que os banquetes terminavam em orgias caudalosas como o Nilo.

Uma mulher dessas faz um homem lamber os saltos das suas sandálias. Júlio César lambeu. Não saía mais do Egito, só queria saber de fazer festa com Cleópatra. A primavera de 47 ele passou em cruzeiros pelo Nilo, se regalando com a rainha, usufruindo dos prazeres do dolce far niente. Três ou quatro meses de boa vida, porém, não seriam suficientes para lhe amolentar o ânimo guerreiro. Quando Farnaces, rei do Ponto, aproveitou-se da estada prolongada de César no Egito e liderou uma revolta na Ásia, o velho general romano reuniu seus exércitos, marchou até lá e liquidou a tarefa em quatro horas. Surpreso com a rapidez daquela guerra, que poderia durar meses, César disse:

- Veni, vidi, vici.

O tal vim, vi e venci, que é menos uma bazófia, como a posteridade compreendeu, e mais uma manifestação de espanto do soldado com a brevidade da batalha.

As férias de César no Nilo acarretaram problemas também em Roma. Ele teve de voltar para Itália. Voltou. Viu. Venceu. Só que, para a surpresa dos patrícios romanos, de repente Cleópatra também apareceu por lá. E a festa continuou. César a instalou em seu próprio palácio e saía com ela pelas ruas da cidade, Cleópatra sempre ricamente ajaezada, exuberantemente morena do sol do Egito. Agora, é importante ressaltar que a pele de Cleópatra não devia ter o tom jambo natural das egípcias. Porque ela era grega, descendente do general Ptolomeu, dos exércitos de Alexandre Magno. Morena clara, imagino. Pascal disse que a história do mundo seria outra, se o nariz de Cleópatra fosse menor. Um frasista do quilate de Júlio César, esse Pascal. Foi ele quem criou aquela: “O coração tem razões que a própria razão desconhece“. E aquela outra: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro“. E uma que, suponho, Fernando Pessoa aproveitou ao escrever seu imortal “Mar Português”: “Tudo é grande na alma grande”.

Seja como for, a frase de Pascal contribuiu para a lenda de que Cleópatra tinha nariz grande, quem sabe até maior do que sua alma. Nisso, sim, acredito. O nariz um pouco grande, numa mulher, às vezes a torna assimetricamente sedutora. Vi o sarcófago de Cleópatra num museu de Londres: não era muito alta, passava pouco de 1m60cm. Então, você pode fazer uma boa imagem da rainha das rainhas: pouco maior de um metro e sessenta, lábios grossos, nariz proeminente, morena clara, pele macia. Já eu não preciso de todos esses dados. Para mim, Cleópatra sempre será Elisabeth Taylor, com seus olhos lilases, assim como Dom Pedro I sempre será Tarcísio Meira.

 

A morte de César e o novo marido de Cleópatra você confere… amanhã! Não perca!!

Postado por David

História Falada: A vizinha pelada

13 de fevereiro de 2009 3

HISTÓRIA FALADA

Recuperando uma História Falada do longínquo ano de 2007:

Uma noite, olhei pela janela e vi a vizinha nua. Completamente nua. Dançando. Sensual. E era só o começo.

 

Assiste aí:

Postado por David

O maior corno da história humana

12 de fevereiro de 2009 18

Mais um capítulo do livro Jogo de Damas:

 

Cláudio. Ecce homo. O maior corno da história da humanidade. O campeão dos campeões. O número 1. Que façanha magnífica! Em 120 séculos, jamais um homem foi tão chifrado, traído e guampificado pela mulher. Chifrado, traído e guampificado significam a mesma coisa, é como se dissesse que jamais um homem foi tão traído, traído e traído por uma mulher, mas uso os três adjetivos juntos para enfatizar que nunca, mas nunca mesmo, um homem foi vítima de adultério da forma como Cláudio foi. E com tudo testemunhado e documentado. Uma cornice pública, que entrou para a história e que segue sendo cantada pelos séculos.

Cláudio foi o cornudo clássico: todos os seus amigos, parentes, inimigos, conhecidos e até quem não o conhecia, todos sabiam. Menos ele. Além do mais, ele era corno, mas era feliz.

O nome Cláudio, ou, em latim, Claudius, devia ser sinônimo de chavelhudo, lunado, galhudo, chifrudo, guampudo ou, simplesmente, corno. Mas deu origem à palavra claudicante. Porque Cláudio era corno e manco. E gordo. E gago (chamavam-no Clau-clau-claudius). E feio como a necessidade. Apesar disso tudo, foi um dos césares romanos, o quarto de uma lista que chegou a 111, em 476 DC. Governou entre dois dos imperadores mais degenerados da história de cinco séculos do império. Dois monstros. Antes dele, Calígula; depois dele, Nero.
Suetônio, que viveu no primeiro século da Era Cristã, escreveu o grande livro sobre a vida privada dos imperadores romanos, A Vida dos 12 Césares. É Suetônio quem conta o tipão que era Cláudio:

“…sofreu de várias moléstias duradouras que lhe enfraqueceram de tal modo o espírito que ele chegou a ser considerado inapto para toda e qualquer função pública ou privada”.

Nem a mãe de Cláudio, Antônia, gostava dele. Quando queria xingar alguém, ralhava:

- Você é mais cretino do que o meu filho Cláudio!

A pessoa se sentia muito ofendida.

Antônia era a filha que a imperatriz Lívia tivera antes de se casar com Augusto, o primeiro césar, já que Júlio César, que deveria ter sido o primeiro césar, era César, mas nunca foi césar.

Explico. Ocorre que, até Júlio César, Roma era uma república algo austera, militar e viril. Mas César foi, para Roma, o que Péricles foi para a Grécia. Ambos queriam tudo e, querendo tudo, puseram tudo a perder.

César não tinha muitos escrúpulos sexuais. Seus soldados marchavam atrás dele cantando:

Escondam suas mulheres!

Aí vem o calvo adúltero!

Tenho um amigo que também poderia ser chamado de calvo adúltero…

Na lista das mulheres casadas seduzidas por César estão até as esposas de seus colegas de triunvirato, Crasso e Pompeu, e Servília, a mãe de Brutus, que se tornou seu filho adotivo. Adoção de filhos era prática comum, na Roma antiga. O adotado, assim, levava adiante o nome da família. Até alguns escravos libertos tomavam emprestado o nome do antigo senhor, como uma espécie de homenagem.

Houve quem dissesse que Brutus era filho bastardo de César. Mentira. Quando o caso entre César e Servília começou, Brutus já espremia as acnes da adolescência.

Os senadores invejosos não cansavam de difamar César, principalmente um certo Curião, que devia ser um grandessíssimo otário. Aí é que está: esses sujeitos que não têm chance nenhuma com as mulheres, que mal e mal conseguem arranjar uma para casar, são esses os moralistas, os guardiães da monogamia, os inimigos dos homens livres. César era um homem livre, que gozava a vida, que vivia seus dias plenamente. Curião, como tantos, inclusive algumas bestas que você conhece, ficava olhando a vida passar, remoendo-se de desgosto. Foi Curião quem disse, no Senado, que César era “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os homens”. Foi também Curião quem divulgou que César teve um caso com Nicomedes, o rei da Bitínia. Na presença de César, insinuou, o veneno escorrendo pela comissura dos lábios:

- Todos nós sabemos o que tu destes para Nicomedes.

O que tu destes para Nicomedes. Rimou.

Por conta disso, alguns senadores maldosos apelidaram Júlio César de “Rainha da Bitínia”.

Chato.

Mas César estava pouco ligando para os detratores. Até porque foi ele quem se regalou com a melhor mulher da época, a lendária rainha Cleópatra.”

Postado por David

Obama, por Gilmar Fraga

11 de fevereiro de 2009 2

Mais uma do Gilmar Fraga, aquele craque que ilustra as minhas colunas na Zero Hora. Olha como ele desenhou o presidente dos Estados Unidos Barack Obama:

Ilustração de Gilmar Fraga

Postado por David