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Posts de março 2009

Você é o juiz — 5º capítulo

31 de março de 2009 26

As pequenas mãos de Luana eram dois passarinhos, dois pintassilgos claros que alçaram vôo preguiçoso para o alto, bem para o alto, sempre para o alto, e levaram com eles aqueles braços torneados e lisos e foram todos, mãos-pintassilgas e braços lisos, para cima da cabeça e se esticaram o mais que puderam e todo o corpo esbelto e curvilíneo de Luana se esticou também, ela estava se espreguiçando e, ao espreguiçar-se, ergueu a camiseta curta que vestia para além das ilhargas e então vi, por Deus que vi:

Ela estava sem calcinha. Nunca uma mulher havia ficado tão sem calcinha quanto Luana, naquele instante. A mulher mais sem calcinha do mundo.

E agora vou dizer uma coisa muito séria. Seriíssima. Preste atenção: se tem algo de que realmente gosto, se tem algo que realmente me faz feliz, é uma cunhada sem calcinha dentro do meu quarto, espreguiçando-se como uma angorá adolescente. Portanto, naquele momento senti-me muito, muito, muito feliz. Pensei nas crianças que morrem de fome na África, pensei nos palestinos em campos de refugiados, nos judeus que são explodidos por homens-bomba, nos europeus desempregados pela crise mundial, nos americanos que têm medo do Bin Laden, nos chineses vivendo em regime de semi-escravidão dentro de fábricas de guarda-chuva, nos japoneses que têm pinto pequeno, pensei em todas essas pessoas que passam por sofrimentos no mundo e disse para mim mesmo: eu não sou um deles, eu sou um sujeito que tem uma cunhada sem calcinha dentro do seu quarto. A vida é boa. A minha, pelo menos.

Depois de se espreguiçar e suspirar e sorrir de satisfação, Luana levou aqueles pintassilguinhos alvos à barra da camiseta e devagar, bem devagar, puxou-a pela cabeça. Ficou nua. Nuinha.

Coisa rica.

Avancei em sua direção para tocá-la, afagá-la e, quem sabe, mordiscá-la como se ela fosse um torresmo, que adoro torresmo, mas ela me afastou com a mão e ondulou até a cama. Deitou-se de bruços, empinou os quadris e, sem me olhar, fitando a parede verde-clara do meu quarto de casal, sussurrou:

- Quer?

Eu queria.

Eu quis.

Caminhei em direção à cama já tirando a roupa. Em um segundo, estávamos misturados entre os lençóis.

A vida é boa.

Nesse ponto da história em que tudo é alegria, preciso dar um depoimento sobre isso de refestelar-se com a própria cunhada. Acredite no que digo: é pecaminoso, é perigoso, certamente é reprovável e talvez seja até sujo. Mas é bom. Ai, como é bom.

Eu e Luana não fizemos amor. Fizemos sexo. Sexo sacana, proibido e um pouco pervertido, como tem de ser o sexo. Fizemos uma, duas, três vezes. Já estava me congratulando pelo meu desempenho atlético, quando ouvi vozes na casa, passos na escada, risos.

Por mil sogras resmunguentas, eles estavam voltando! Eles iam nos flagrar!

 

E agora? Flagraram???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!

Postado por David

Você é o juiz — 4º capítulo

30 de março de 2009 30

Tudo indicava que Luana me denunciaria como tarado assediador de cunhadinhas semi-virgens e que minha mulher se separaria de mim entre urros, cascatas de lágrimas e arremessos de objetos contundentes e que eu seria expulso da casa como Adão do Paraíso e demitido por justa causa do meu ótimo emprego e talvez fosse processado judicialmente e encarcerado no Presídio Central e sodomizado por seis negrões que poderiam ser zagueiros do Guarany de Bagé e que ao sair da cadeia não teria outra opção a não ser vender o corpo como um travesti loiro na Farrapos e nessa lida acabaria contraindo AIDS e morreria murcho e seco feito um Cazuza, sem um único amigo para chorar no meu enterro de indigente.

Era assim que via meu futuro, depois do episódio da cozinha.

Oh, por que nós homens nos deixamos levar pelos baixos instintos? Por que não somos racionais, práticos e sensatos como as mulheres? Como eu era estúpido! Destruíra minha vida por um mero prazer carnal. Por dois peitinhos nus. Verdade que eram peitinhos rijos, empinados e, muito provavelmente, macios como a brisa da primavera, mas ainda assim eram apenas peitinhos, e a maioria das mulheres tem peitinhos. Não como aqueles, certo, alguns são tão tristemente decaídos que não despertam nem sequer o interesse de vê-los desnudos, quanto mais apalpá-los, sová-los e sugá-los, que era o que eu tinha vontade de fazer com os peitinhos de Luana. Ah, aqueles peitinhos, tenho de confessar que… Mas o que estou dizendo? Na verdade, aqueles peitinhos me fizeram sofrer.

Vivi dias de inferno. Mas Luana passava por mim a todo momento e não dava mostras de que havia reprovado meu comportamento. Jantávamos à mesma mesa, vez ou outra trocávamos frases, e ela ali, indiferente como uma recepcionista de dentista. Era como se nada tivesse acontecido. Às vezes a gente sofre por peitinhos.

Fui me tranquilizando. Havia me safado bem daquela, aparentemente. Prometi não mais arriscar a boa vida que que havia conquistado com tanto esforço. Tentei esquecer Luana e seus peitinhos perfeitos, embora volta e meia eles retornassem nos meus sonhos mais doces.

Tudo estava normal na mansão, até uma prosaica noite de segunda-feira. Minha mulher, Larissa, fora à casa de uma amiga por algum motivo. Meus sogros tinham ido ao cinema. Eu e Luana estávamos sozinhos na mansão. Resolvi aproveitar os momentos de solidão para ler umas revistas no quarto. Estendi-me na cama, suspirei e abri a revista Vip. Aquela japetinha, a Sabrina Sato, reluzia na capa. Fiquei feliz.

Aí alguém bateu na porta.

Achei que talvez fosse o Laércio, por Deus que não pensei que encontraria Luana só de camiseta do outro lado da maçaneta. Mas foi o que encontrei. Luana vestia uma camiseta de malha branca, e nada mais. Quando a vi daquele jeito, pensei: está sem calcinha. Juro que pensei isso. Uma premonição, sei lá. É algo que tenho. Um poder extrasensorial, uma paranormalidade talvez, sei lá. O fato é que às vezes olho para uma mulher e sinto: está sem calcinha! É uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente, transcende a mente e o coração. Um mistério esse meu poder. Enfim, olhei para Luana ali, de pés descalços, sorrindo de leve e soube que ela estava sem calcinha.

Pois bem. Aquela mulher sem calcinha entrou no meu quarto sem convite. Foi entrando. A porta ficou entreaberta. Recuei dois metros para permitir que passasse.

- Estamos sozinhos em casa – ela disse, com a boca entreaberta.

- Eu sei… – também sabia que ela estava sem calcinha. Sabia!

- Tenho pensado naquela noite… na cozinha… – ela arfava.

Arregalei os olhos.

- Você saiu correndo… – justifiquei.

- Você me assustou, Rildo. Foi atrevido demais. Mas eu quero saber…

- O quê?

- Preciso saber…

Oh, uma cunhada sem calcinha precisava saber algo que eu sabia. Oh, Deus!

- O que você sente por mim?

Respirei fundo. Sabia que minha resposta era importante. Que o meu futuro dependia daqueles breves segundos de raciocínio. Pus toda a minha massa encefálica a trabalhar e sentenciei:

- Luana, nunca desejei uma mulher como desejo você.

Então aconteceu.

 

O que aconteceu??? O que Luana fez depois da resposta de Rildo? Saiba logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Postado por David

Café TVCOM

30 de março de 2009 3

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

 

Postado por David

OS VENCEDORES!!!!

30 de março de 2009 9

 

Ninguém acertou em cheio, mas como disse que ia premiar por aproximação, aí estão os vencedores:

Nome: Franciele Basso Fernandes Silva

Cidade: Erechim

Data: Segunda-feira, 30/03/2009 às 12h03min

Palpite: 1167 comentários.

 

Nome: Carlos Elienai da Silva

Cidade: Canoas

Data: Segunda-feira, 30/03/2009 às 11h51min

Palpite: 1158 comentários.

Parabéns pelos chutes quase certeiros. Podem buscar seus ingressos e livros na portaria da Zero Hora, Ipiranga, 1075, quarto andar, a partir de hoje, segunda-feira.

Postado por David, com outro expresso

FECHOU!

30 de março de 2009 8

Um mil cento e sessenta e três comentários! Ou seja: 1.163! É o final do nosso concursão. Agora, o novo diretor do blog, o Matheus, vai fazer o levantamento para dizer quem ganhou.

Aguardem!!!

Postado por David, da redação, com um expresso na mão

Mais um esclarecimento

29 de março de 2009 5

Para quem ainda tem réstias de dúvidas: quem quiser ganhar os ingressos para o jogo do Brasil e os livros do degas aqui, precisa dar o seu palpite naquele post que tem mais de 600 comentários. Entenderam? Nos outros posts não adianta. Tem que ser ali, manja?

Ah, e o próximo capítulo do folhetim será publicado em seguida!

beijos.

Postado por David, tomando um mate

Homens no ventre da terra

28 de março de 2009 8

O jovem Vincent Van Gogh, sequioso para mudar o mundo e beber a vida, como todos os jovens, decidiu seguir a carreira de pregador. Saiu da sua Holanda natal e foi para a Bélgica, onde planejava atuar como pastor protestante. Era uma região de mineiros de carvão, talvez os trabalhadores mais sacrificados de tantos trabalhadores sacrificados que há. Van Gogh ficou assombrado com os sofrimentos impostos às famílias dos mineiros e, tomado de ânsia por reproduzir o que via, colheu pedaços de carvão do chão e começou a desenhar cenas do dia-a-dia dos trabalhadores. Assim descobriu a sua vocação para a pintura, e assim a Humanidade ganhou um gênio.

***

Há quem diga que Émile Zola inspirou-se nessa passagem da vida de Van Gogh para escrever o seu “Germinal”. Acho que não. Quando Germinal foi publicado, nos anos 80 do século 19, Van Gogh não era ninguém senão um fracassado candidato a pintor. De qualquer forma, Zola também foi viver entre os mineiros para escrever seu romance. Saiu de lá tão tocado que compôs uma obra-prima. Zola acreditava que dali, da terra prenhe de mineiros que forcejavam no seu ventre, brotaria a revolução. Donde o título do livro: germinal é o nome com o qual os revolucionários franceses rebatizaram março, o mês em que as sementes se desenvolvem sob a terra.

***

A mais importante região carbonífera do Brasil, até o fim dos anos 80, era o sul de Santa Catarina. Criciúma tornou-se conhecida como a Capital do Carvão. Hoje não existem mais minas em Criciúma, mas aquele pedaço do país restou marcado para sempre pela atividade mineira. Abaixo da superfície, em grande parte da cidade, ainda serpenteiam as galerias das quais os mineiros retiravam o carvão com que alimentavam as usinas elétricas.

Muitos mineiros adoeceram irremediavelmente devido ao trabalho excruciante sob a terra. Eu mesmo já tive na palma da mão um pulmão de mineiro. Por Deus. Um pulmão transformado em pedra preta do tamanho de um radinho de pilha. Fora extirpado de um mineiro que morreu de pneumoconiose, doença que aflige quem permanece longo tempo em contato com os eflúvios da pirita, o rejeito do carvão. É por isso que os mineiros aposentam-se com 15 anos de trabalho e nenhum deles permanece mais de oito anos sob a superfície.

Essa vida de dificuldades, essas condições precárias produzem homens especiais. Os mineiros, como constataram Zola e Van Gogh, são afeitos à luta. Eu, que vivi em Criciúma, compreendi que muitas vezes aquela cidade cai, mas sempre se levanta e segue em frente com trabalho, com esforço, com legítimo espírito mineiro. Agora mesmo, neste verão, Criciúma foi assolada pela enchente. Não me preocupei em demasia. Sei que a cidade sabe lidar com suas mazelas.

***

Um homem que considero símbolo desta alma guerreira de Criciúma é Valdomiro Vaz Franco. Em 1968, Valdomiro foi a estrela do único campeonato catarinense conquistado pelo Comerciário de Criciúma. Oswaldo Rolla, o Foguinho, o viu em campo e trouxe-o para o Inter. A partir de Valdomiro, o Inter forjou o maior time da sua história.

Mas não foi fácil. Valdomiro, com seu jeito matuto de ex-mineiro que era, com seu futebol prático mas ainda tosco, não caiu no agrado da torcida. O preferido dos torcedores era Urruzmendi, um ponta uruguaio cheio de habilidade, que fazia dezenas de embaixadas com uma tampinha de cerveja. Valdomiro entrava em campo abaixo de vaias. Um dia, marcou um gol contra a seleção da Romênia, correu para comemorar com a torcida e o que ouviu foram apupos, não aplausos. Mas Valdomiro não desistiu. Treinava mais do que todos. Até em casa treinava, caminhando no apartamento com pesos de ferro de oito quilos dentro dos sapatos, atormentando o vizinho do andar de baixo. Valdomiro venceu. É o único octacampeão gaúcho da história. É tricampeão brasileiro. Foi responsável direto por praticamente todos os gols importantes do Inter em uma década.

***

Nesse mês de abril, Valdomiro prepara-se para começar uma nova etapa da sua vida. Depois de quase 20 anos de obras, vai inaugurar um Centro de Esportes em Criciúma, sua cidade natal. Justamente no mês do centenário do Inter. Nada mais apropriado. Porque o Inter está na história de Valdomiro e Valdomiro, mais do que qualquer outro jogador desde 1909, ajudou, e muito, a escrever a história do Inter.

 

* Coluna publicada na página 41 da ZH dominical

Postado por David Coimbra

Cuidado com as regras

28 de março de 2009 6

Turma, a respeito do concurso pelos ingressos para o jogo do Brasil:

como tem muita gente confusa, vamos deixar claro que os comentários que serão contados e também os que serão considerados são apenas aqueles publicados no post “Ingressos de Graça!!!!”

Esclarecido?

Postado por David, remando em casa

O doce duelo de Ruy e Sant’Ana

28 de março de 2009 10

Jefferson Botega
Alien versus Predador, Lex Lutor versus Super-Homem, Coca versus Pepsi, Chico versus Caetano. Que nada! Duelo mesmo foi o travado na última quinta-feira, na Cidade Baixa: Professor Ruy Carlos Ostermann versus Paulo Sant’Ana. Ao menos era para ser um duelo, já que não foram poucas as vezes em que os dois se engalfinharam verbalmente pelas ondas da Rádio Gaúcha. No palco do Studio Clio, porém, esses dois dos maiores nomes da imprensa gaúcha de todos os tempos ensarilharam as armas. O talk show “Encontros com o Professor”, em que Ruy entrevistou Sant’Ana durante quase duas horas, terminou sendo cordial, alegre, emocionante e, sobretudo, rico em histórias porto-alegrenses.

Meia hora antes do show já havia fila na calçada da José do Patrocínio. Todas as 110 cadeiras do Studio foram ocupadas, e teve gente que ficou de fora. Sant’Ana, bem alinhado dentro de um terno preto que ele jura ser seu único, o pescoço amarrado por uma gravata vermelha que chamou a atenção dos torcedores de futebol, aguardava em uma salinha ao lado do palco. Fumava, claro. Estava nervoso.

– Vou ter que encarar o Professor… – comentou, meio que de brincadeira, meio a sério. E acrescentou num suspiro: – O meu contubérnio com o Ruy já dura 31 anos… Passo mais tempo com ele do que com minha mulher.

Ruy, mais relaxado, de camisa de mangas curtas e calças jeans, chamou-o ao palco, enfim. Sant’Ana examinou o público, a mão em aba protegendo os olhos da luz.

– É uma multidão! – comemorou. – Disseram que a entrada era gratuita, mas já havia cinco cambistas ali fora. 

Assista a trechos da conversa

A plateia riu seu primeiro riso da noite. Ruy confessou que há muito tempo queria fazer o encontro com Sant´Ana.

– Que muitos julgavam impossível – ajuntou Sant´Ana, e o público riu outra vez.

As risadas deram-lhe confiança. Sant´Ana propôs contar uma piada. Ruy só balançou a cabeça. Sant’Ana avançou:

Em Garibaldi havia um judeu e um italiano que eram muito amigos e muito sovinas. Um dia, eles fizeram um trato: como ter amante é um empreendimento dispendioso, decidiram partilhar uma. Acharam uma bela jovem que aceitou a proposta e passaram a repartir seus favores e suas despesas. Depois de alguns anos, porém, a moça engravidou. E de gêmeos! O italiano levou-a para o Uruguai, para que o parto fosse feito de forma clandestina. O judeu, preocupado, ligava a todo momento: ‘Já nasceram?’ ‘Já nasceram’. Na última ligação, o italiano informou: ‘Nasceram. Mas, infelizmente, o meu morreu’.

As gargalhadas ribombavam pelo auditório. Ruy leu uma pergunta escrita em uma folha de papel:

– É verdade que tu não gostas de apertar mãos?

Sant’Ana admitiu que sim. Porque, quando criança, entrava nos bondes e via um cartaz afixado no teto: “Evite apertar mãos. Um conselho do Departamento de Saúde”.

– Desde então, faço o possível para não apertar mãos – completou. – Mas não chego a ser como o Faraco, o médico, que carregava um vidrinho de álcool no bolso e desinfetava as mãos depois de cada cumprimento.

A lembrança do tempo dos bondes remeteu Sant’Ana aos gostos da infância: o mogango com leite, a canjica, a cocada, a rapadura, o quibebe.

– Eu, ao contrário de ti – disse, apontando para o Ruy – não tenho uma cultura gastronômica desenvolvida. Gostaria que existisse um restaurante que fosse o Restaurante da Infância, com arroz com feijão, que eu como todos os dias, abóbora, aipim…

E a plateia suspirou ante a ideia.

Sant’Ana já controlava a assistência. Repetiu suas velhas e boas tiradas: Freud morreu em 15 de junho de 1939, exatamente no mesmo momento em que ele, Sant’Ana, nascia:

– Foi só uma troca de bastão.

Risos.

– Deus fez a mulher da costela do homem. Carne de segunda!

Muitos risos.

– O casamento é uma troca de maus humores durante o dia e maus odores durante a noite.

Gargalhadas.

O público estava pronto. Era a hora da poesia. Ruy quis saber por que Sant’Ana não para de fumar. Ele se levantou da cadeira, empostou a voz e declamou:

Um dia… por curiosidade, bem sem malícia que em mim pressentia, falei a um poeta que fumava triste.

– Dizei, oh, poeta, que mistério existe no cigarro, que todas as vezes que o põe na boca ficas triste, e triste fazes versos de saudade?

O Poeta olhou, sorriu e foi dizendo:

– Ah, se tu visses o que estou vendo agora, talvez fumasse mais do que fumei, pois nessa fumaça que vai se elevando, eu vejo pouco a pouco se formando, a imagem da mulher que eu mais amei!

O público: oooh…

Sant’Ana então relatou que fuma três maços de cigarro por dia, já fumou na UTI, fuma até debaixo do chuveiro, o sabonete preso entre o pescoço e o ombro, o cigarro equilibrado entre o indicador e o dedo médio, a salvo do jato d’água.

Risos, risos.

Falando em banho, Sant’Ana disse que não pode de forma alguma deixar que uma única gota d’água lhe entre pelo ouvido, sob pena de ficar surdo.

– Não tenho mais os tímpanos por causa de uma cirurgia – explicou.

O problema é que nenhum tampão veda-lhe os ouvidos de forma satisfatória. O jeito foi apelar para os recursos da carpintaria: agora, Sant’Ana toma banho com massa de calafetar paredes nas orelhas.

Risos, risos, risos.

O Professor já nem falava mais. Sant’Ana ergueu-se da cadeira, foi à frente do palco, olhou para dois acompanhantes que havia trazido: Professor Darcy, um violonista, e Samuel, acordeonista. Era hora de cantar. Sant’Ana, quando canta, transforma-se em carioca. Chia nos esses. Sempre chiando, às vezes tossindo, mas melodiosamente, entoou um samba antigo:

Não foi o tempo que pintou os meus cabelos

Foram as mulheres com o pincel da falsidade.

Agora, com os óculos na testa, o microfone na mão esquerda, o cigarro queimando na direita, Sant’Ana ora cantava um samba de Palo Vanzolini, ora declamava Augusto dos Anjos ou Guilherme de Almeida. Ruy ria. Todos riam. Sant’Ana respondeu a perguntas do público. Só homens perguntaram, 12 no total. Sua maior alegria como gremista? A Batalha dos Aflitos. Queria ser um cronista nacional? Claro que sim! E Ruy também devia ser um comentarista nacional, o principal da Globo. Sant’Ana concluiu afirmando que aquele era um dia feliz.

– Porque estou aqui, no tabernáculo do Ruy.

Ruy, sorrindo, reconheceu:

– Eu não podia imaginar que seria esse o desfecho.

Ninguém poderia. De pé, a plateia aplaudiu.

* Texto publicado na página 49 de ZH

Postado por David

Mais prêmios!!!

27 de março de 2009 54

Vamos melhorar a côsa: os dois que acertarem o número de comentários ganharão também um exemplar do livro “Canibais”, escrito pelo degas aqui.

Vamos!

Postado por David, remandão!

Regras do concurso

27 de março de 2009 7

Pessoal, para evitar injustiças, vou fazer assim: na segunda-feira, dia em que será dado o ingresso, só vou publicar o total de posts na hora do fechamento do concurso. Ou seja: o número de comentários não será atualizado. Aí não dá pra calcular o total de comentários. Se dois acertarem, dois levam os ingressos. Se forem mais de dois teremos de fazer segundo turno. Se ninguém acertar, leva por aproximação. Só valem comentários naquele primeiro post, certo? Vamos lá!!!

Postado por David, cedinho e já remando

Bermudas do Mainardi

27 de março de 2009 40

O Diogo Mainardi fez uma entrevista vestindo bermudas. No Manhattan Connection, algumas noites de domingo atrás. Não lembro do entrevistado, mas tenho certeza de que era alguém importante e que despejou sabedoria tela da TV afora. O problema é que só restou na minha mente limitada a imagem do Diogo Mainardi dentro daquelas bermudas.

Não que o Diogo Mainardi tenha pernas especialmente atraentes. É que não combinava. Primeiro porque o Manhattan Connection, meu programa favorito, é um programa de paletó e gravata. Segundo porque, mesmo com entrevistados de calções, como jogadores de futebol, os entrevistadores em geral vestem calças. E terceiro porque o Diogo Mainardi não parece ser tão relaxado.

O Diogo Mainardi, pelo menos o da Veja, parece um jornalista feroz, de opinião implacável, cercado de inimigos. Não faz o tipo praiano, nem o que passeia de mão no bolso. Posso ver o Diogo Mainardi da Veja em robe de chambre, bebericando um xerez em sua biblioteca, nunca de bermudas. Mas lá estava ele, com os joelhos expostos.

Verdade que o Diogo Mainardi da TV é outro. É cordato, alegre, até humilde. Mas as bermudas revelaram algo mais a seu respeito. Não entendia o que era. Entendi agora, graças ao escândalo das diretorias do Senado. Pelo seguinte: muitas vezes discordo do Diogo Mainardi. Em certas oportunidades ele roça a grosseria, como quando atacou o Jorge Furtado. Mas isso não me impede de gostar dele. Trata-se de um jornalista culto, bem informado e, o principal, independente. Basta-me para valorizar sua opinião. O que me despertava vaga irritação é que, volta e meia, o Diogo Mainardi dava a impressão de querer fazer polêmica pela polêmica. Até que o vi de bermudas na TV.

Foi singelo. Revelou certa inocência do Diogo Mainardi. Saiu para a entrevista vestido como estava em seu apartamento, sem premeditação. Não por irreverência. Ao contrário: porque Diogo Mainardi não está comprometido nem com sua própria imagem. Ainda que tenha sido apenas por casualidade, foi um gesto de desprendida nobreza, neste tempo em que o que mais se valoriza nas pessoas é, justamente, a imagem.

Foi nas informais bermudas do Diogo Mainardi que pensei ao saber das 181 diretorias do Senado. Aquele reduto de gravatas. Senhores comprometidos com sua própria imagem, mas onde fica a seriedade?

Tenho uma receita para atenuar a gastança do Senado: fechem o lugar. É uma instituição supérflua. Muitos países democráticos, como a Inglaterra, não têm Senado. A Câmara dos Deputados é o suficiente para a democracia funcionar. Claro, funcionaria melhor com menos apreço às aparências e mais à independência. Mas aí é esperar demais dessa gente engravatada.

Opine:

>> Você concorda com o fim do Senado?

* Texto publicado hoje na página 3 de Zero Hora.

Postado por David Coimbra

Ingresso de graça!!!!!

26 de março de 2009 1.166

Gostei da sugestão da Adriana!

Vamos fazer assim: quem adivinhar quantos comentários serão feitos nesse post aqui até às 13h de segunda-feira, ganhará um dos ingressos.

O outro ainda vou decidir como dar.

O palpite da Adriana já está registrado!

Postado por David, da Redação

Ingressos de graça!!!

26 de março de 2009 45

Pessoal, estou demorando para postar o capítulo seguinte do trepidante folhetim “Você é o juiz” porque estava batalhando um mimo para vocês. É o seguinte:

Ingressos gratuitos para o jogo do Brasil!

Isso mesmo!

O blog aqui tem dois ingressos para os leitores. Mas tenho uma dúvida: como dá-los para os leitores? Que tipo de concurso vocês sugerem?

Respostas nesse post.

Postado por David, da Redação

Você é o juiz — 3º capítulo

25 de março de 2009 28

Confesso: fiquei obcecado por aqueles peitos. Não só pelos peitos. Pelo conjunto. Por Luana inteirinha, das unhas branquinhas dos pés número 35 ao último fio de cabelo castanho tratado a creme rinse francês. Passava o dia pensando nela, lembrando daqueles mamilos espetados no meu peito. Ela me queria, ah, queria. Nenhuma mulher faz o que ela fez se não deseja se entregar ao homem feito uma cadela. Imaginava-me tendo um caso com Luana. Seria perfeito. Porque Luana, afinal, não ia querer que me separasse da minha mulher. Minha mulher era irmã dela! E elas se davam bem, eram amigas, não brigavam nem nada. Logo, o que Luana queria era sexo. Apenas sexo, sem envolvimento emocional. Loucuras, prazeres inenarráveis, muita excitação clandestina, sem cobranças, sem compromisso. Por mim, tudo bem. Eu era um homem preparado para viver uma aventura sexual insana.

Tentei encontrar Luana de novo naquele sábado mesmo. Não consegui. Ela não apareceu mais em casa durante o resto do dia. Saiu com umas amigas e só voltou tarde da madrugada. No domingo, acordei cedo na expectativa de esbarrar com ela em algum canto daquela casa cheia de cantos. Em vão. Luana não saiu do quarto até a hora do almoço. Estávamos em torno à mesa quando ela finalmente desceu, de cabelos molhados, short branco de malha, camiseta também branca e Havaianas. Uma graça em toda a sua simplicidade. Deu um bom dia geral e acomodou-se no lugar à minha frente. Pensei: fez de propósito. Ela tinha outros lugares para escolher e escolheu um que ficasse diante dos meus olhos. Quer se mostrar para mim. Meu coração cavalgava no peito veloz como o cavalo do Zorro, sentia-me agitado e excitado, sentia a vida pulsando-me nas veias como se tivesse bebido uma caixa de Red Bull e uma caneca de café expresso.

Só que ela não me olhava. Concentrava-se no filé de côngrio, o ar um pouco cansado das lides noturnas, porém relaxada. A todo momento tentava cruzar o meu olhar pelo dela, mas ela olhava para todos os lados, menos para mim. Aquilo me afligia. Pensei que tinha de chamar a atenção dela sem chamar a atenção dos outros que estava chamando a atenção dela. Complicado.

Na frente de Luana havia uma latinha de azeite de oliva. Já havia encharcado minha salada de azeite de oliva, mas considerei que pedir que me passasse a latinha seria uma boa oportunidade de ter algum contado com ela. Ela me olharia, eu lhe diria obrigado e talvez até nossos dedos se roçassem em meio ao movimento. Sim, seria legal. Olhei para a latinha. Pensei em dizer: “Luana, podes me passar a latinha de azeite de oliva, por obséquio?”

Desisti antes de abrir a boca.

Em primeiro lugar, não deveria dizer “Luana”. Pronunciar o nome dela poderia despertar a curiosidade dos outros. Era muito pessoal dizer “Luana”. Afinal, a megera da minha sogra estava bem ali ao lado, a um braço flácido da latinha. Alguém poderia se perguntar por que não pedi a latinha para a velha em vez de pedir para Luana. Então, nada de Luana. Que tal “Alguém pode me passar a latinha de azeite de oliva, por obséquio”? Não gostei também. O “por obséquio” era formal demais. Só “por favor” seria o suficiente.

Após mais algumas considerações, decidi-me por: “Alguém pode me passar a latinha de azeite de oliva, por favor?” Suspirei. Era uma boa fórmula de pedido de latinha de azeite, a melhor possível. Empostei a voz. Limpei a garganta. Falei:

— A latinha, por obs… favor – a saída atrapalhada me enervou. Tentei corrigir: – Ahn… de azeite, por obsé… por favor! Por favor! – Droga! Estava me confundindo todo. Luana, Larissa, a megera e o patrão me encararam. Até o Laércio me olhou lá de longe. Corei. Limpei a garganta de novo. Fui em frente: – É… o azeite de oliva…

Dona Mirtes empurrou a latinha na minha direção.

- Está nervosinho hoje, Carra?

Fiquei ainda mais vermelho.

- Mãe, para de provocar o Rildo – reclamou Larissa.

Olhei para Luana. Um risinho debochado lhe entortava a boca. Espalhei mais azeite na salada.

- Tu gosta de azeite, hein, Carra? – provocou a jararaca.

- Ô, mãe! – reclamou Larissa.

Não consegui me reequilibrar no resto do almoço. Perdi a fome. Perdi o jeito.
Imaginei que poderia encontrar Luana mais tarde, poderíamos trocar não apenas olhares, como também algumas palavras. Nada. Ela desapareceu outra vez. Saiu com alguma amiga, ou, pior, algum amigo. Nos dias seguintes, a mesma coisa. Quando via Luana, sempre tinha alguém por perto.

Até que, uma noite, lá pelas duas da madrugada, resolvi levantar e beber algo lá embaixo. Não conseguia dormir. Só pensava nos seios de Luana apontados para mim. Saí do quarto vestindo apenas calção e camiseta. Arrastei os chinelos pelo corredor. À altura do quarto de Luana, parei. Fitei a porta fechada. Suspirei. Segui em frente. Desci as escadas lentamente. Cheguei à cozinha. Abri a geladeira. Tirei de lá a garrafa d`água e bebi no gargalo mesmo. Depositei-a novamente na geladeira. Fechei a porta e… o maior susto!

Luana estava ali.

- Ah! – gritei.

Ela riu:

- O que houve? Estou tão feia assim?

Eu poderia uivar para a lua, vendo-a linda daquele jeito. Vestia uma camisolinha curta, transparente, sob a qual podia ver a calcinha minúscula. E nada mais. Nem seus pequenos pés estavam calçados.

- Nã-não… – balbuciei. – Nenhuma noite é escura com você por perto.

- Rá! – ela riu. - Parece uma cantada do Potter.

- Quem é Potter?

- Deixa pra lá… Está com insônia?

- Estou. Por sua causa.

- Minha? Por quê?

- Por causa daquele sábado, Luana…

Agora nossos corpos estavam bem próximos. Avancei um pouco mais. Parei a meio metro dela.

- Sábado? Que sábado? O que aconteceu no sábado? — ela perguntou, e não parecia haver malícia na pergunta.

- O que você me mostrou…

Aproximei-me ainda mais. Praticamente grudei nela.

- Mostrei?… O que eu mostrei?

Olhei para baixo. Para os seios dela.

- Os seus… seios… – sussurrei.

Ela ficou parada, sem ação ou palavras. Quieta. Os braços largados ao longo do corpo. Como se esperasse alguma ação minha. Pois agi. Agi. Envolvi sua cintura com minhas mãos, puxei-a para mim e tentei beijá-la na boca.

- Luana! – balbuciei.

Ela me empurrou com violência. Dei dois passos para trás e quase caí. Luana fincou-me um olhar de chamas. Ralhou:

- Seu tarado! Você é o marido da minha irmã!

E subiu as escadas correndo.

Fiquei parado na cozinha, perplexo, mudo e desesperado. E agora? Perderia tudo? Meu casamento? Minha casa? Meu emprego? Oh, Deus! O que me aconteceria?


O que aconteceu? Descubra logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Postado por David