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28 de abril de 2009 4

Zero Hora está fazendo 45 aninhos. Em comemoração, foi preparado um livro com 45 reportagens publicadas no jornal nessas quatro décadas e meia. O degas aqui compareceu com duas reportagens. Mas não serão trechos delas que publicarei a partir de agora. Serão de outros colegas, cada um deles representando uma década. Aproveitem e, se quiserem adquirir o livro, procurem as boas livrarias a partir do dia 4 de maio.

Aqui vai a primeira década: 1960. Mais precisamente 1967 e as guerras do Vietnã e a dos Seis Dias.

 

Guerra no Vietnã / Guerra dos Seis Dias

Autor: Carlos Alberto Kolecza
Publicação: junho de 1967

 

Chefes de Estado reunidos no Uruguai? Zero Hora estava lá. Norte-americanos em guerra contra os comunistas no Vietnã? ZH foi conferir. Árabes e israelenses brigando por territórios? ZH também incursionou pelas areias escaldantes do Oriente Médio. Tudo isso em 1967, o ano de carimbar o passaporte em coberturas internacionais.

A maratona começou em abril. Os enviados especiais Carlos Alberto Kolecza e Pilla Vares (repórteres de ZH), Dilamar Machado (Rádio Gaúcha) e Telmo Cúrcio (fotógrafo) registraram a Conferência de Punta del Este, no Uruguai, na qual representantes de Estado reforçaram os vínculos de cooperação regional. Coordenador da equipe, Dilamar se encarregou da instalação do equipamento, da revisão dos textos e dos boletins da rádio. Ainda encontrou tempo para visitar o presidente deposto João Goulart, exilado em Montevidéu desde o golpe militar de 1964, e levar os cigarros preferidos de Leonel Brizola, que estava no balneário uruguaio de Atlântida, também refugiado.

Em Punta del Este, o repórter Kolecza impressionou-se com a expressão de tédio do presidente norte-americano, Lyndon Johnson, que parecia cochilar em plena sessão de abertura da conferência. Pudera. Johnson lidava com um princípio de incêndio em seu país - o protesto dos negros por igualdade de direitos - e o fogaréu imprevisível no Vietnã.

Logo após o regresso do Uruguai, o então diretor de Redação de ZH, Paulo Amorim, decidiu enviar Kolecza para cobrir a Guerra no Vietnã, num atrevimento que espantou os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Na pressa de largar na frente, Kolecza viajou direto a Paris, sem saber que a embaixada do Vietnã do Sul não concedia visto em represália às posições do presidente francês Charles de Gaulle. Em Londres, também não obteve a permissão. Então, voou para Saigon (capital do Vietnã do Sul) como turista, antevendo contratempos no desembarque. Dito e feito. Antes de chegar ao balcão, foi mandado de volta à aeronave. Formou-se um burburinho. Diante da súbita aparição de um "turista brasileiro", logo pediram notícias de Pelé - o futebol brasileiro já abria portas no estrangeiro. O chefe do setor de fiscalização, até então engaiolado na sua saleta, apareceu sorridente. Foi a autorização que faltava.

No final da tarde, devidamente credenciado, o repórter pôde se aventurar pelas ruas de Saigon, circulando entre o formigueiro humano. Como percebeu o risco de ser confundido com um gringo extraviado - é descendente de poloneses da gaúcha Santa Rosa -, Kolecza se acautelou. Para comprar um maço de cigarros do outro lado da rua, convinha levar um vietnamita de escolta. O ódio aos americanos espreitava em cada bueiro.

- Nunca me senti tão catinguento ao chegar ao hotel. O medo é malcheiroso - lembraria o repórter depois.

Quando ZH, Rádio e TV Gaúcha estavam em Saigon, os norte-americanos empilhavam tropas, armamento e ilusões para conter o avanço dos comunistas apoiados pelo Vietnã do Norte. Não perguntaram o que os sul-vietnamitas achavam. Em meia hora, a máquina de guerra devastava arrozais. Podia-se calcular quantos quilos do cereal faltariam no dia seguinte na cozinha dos esquálidos guerrilheiros. Mas era impossível avaliar quantos túneis passavam debaixo dos coturnos dos marines. E os Estados Unidos perderam a guerra para um exército de magricelas.

Do Vietnã, Kolecza correu para Israel. A Guerra dos Seis Dias, na verdade, foi de um só, o primeiro. Os outros cinco foram gastos no passeio triunfal dos tanques israelenses. Os vitoriosos pareciam saber até que distância segura poderiam levar os jornalistas estrangeiros às Colinas de Golan, enquanto ainda caíam obuses sírios.

Em Israel, a aflição de Kolecza era por localizar no aeroporto algum brasileiro com destino a Porto Alegre que pudesse trazer os filmes de TV até a sede da RBS. A maioria das imagens nunca foi ao ar. Virou suvenir de viajantes apressados - não completaram a entrega. Os textos e as fotos para ZH foram editados em Porto Alegre, na Redação, devido à precariedade das telecomunicações nos países em guerra.

 

OK é a arma secreta no Vietnã

No Vietnã, o "OK" é a arma de guerra que todo americano deve saber manejar, principalmente o civil, a quem foi confiada a guerra psicológica contra o vietcongue. Um americano deve responder OK ao alarido das crianças, mesmo que não entenda o que lhe dizem. Quando a conversa for com adultos, o OK deve ser a interjeição. Mesmo nos confins do país, toda criança aprende que, ao encontrar um americano, deve dizer-lhe OK, sempre. Elas os cercam ou acenam a seus comboios dizendo OK, OK, OK... Um número infindável de vezes. E os americanos devem responder da mesma forma: OK, OK, OK... O americano é o Mr. OK para os vietnamitas.

É de um ano o tempo que o soldado americano deve passar no Vietnã - um ano cujos dias são contados um por um. Quando o soldado é recém-chegado, ele diz:

- Estou aqui há tantas semanas e tantos dias.

Quando o ano está terminando, a contagem se inverte:

- Faltam tantas semanas e tantos dias para eu voltar.

Há os que não chegam a terminar a contagem, porque, no Vietnã, um ano é tempo suficiente para a morte fazer muitas colheitas. O mesmo acontece com os coreanos, filipinos e australianos que também lutam no Vietnã.

Nos quartéis, nos alojamentos, os calendários são sagrados. Sempre ocupam o melhor lugar da parede, sempre têm alguém para cuidá-los. Cada dia que passa é cuidadosamente riscado, eliminado com prazer.

Em Saigon, os soldados vivem em hotéis ou edifícios comprados especialmente para servir de alojamento, protegidos por cercas de arame farpado, guaritas e tonéis de concreto. Estes se destinam a evitar uma das formas de terrorismo preferidas pelo vietcongue: conduzir uma motocicleta carregada com uma bomba até perto do alojamento e deixá-la prosseguir sua corrida, sozinha, para o alvo, contra o qual explodirá. Para entrar num alojamento ou repartição americana, todo vietnamita deve mostrar uma autorização especial, que muitos levam ao pescoço, numa correntinha, para não se extraviar.

Vi moças que serviam na cantina dos oficiais, no aeroporto de Saigon, atravessar os postos de controle, em suas bicicletas, levando a autorização na boca, para não ter que parar. À noite, os soldados e oficiais de folga andam sempre em grupos, à paisana, somente nas ruas principais da capital. É raro um americano sozinho, à noite, ainda mais em algum bairro ou numa rua escura.

Os jipes e caminhões são atapetados com saquinhos de areia, para neutralizar o impacto da explosão das minas. Quando um veículo volta ao quartel, ele é examinado pela guarda com um espelho, que revela se alguma mina de plástico lhe foi grudada no chassi, enquanto estava fora.

Os oficiais, em Saigon, preferem os hotéis, sempre lotados, mas só conseguem uma vaga quando fazem a reserva com antecedência, senão arriscam-se a uma peregrinação infrutífera pelas portarias. As fotografias e pinturas de mulheres nuas enchem os cassinos e alojamentos. A foto mais popular ainda é aquela em que Marilyn Monroe, ao cruzar as pernas, foi surpreendida sem calcinha.

Cartazes alertando para as precauções que todos devem tomar se alinham nas paredes, junto a outros que mostram como são as granadas do vietcongue, e ensinam a diferenciar um guerrilheiro dos camponeses da Força Popular. A advertência mais original vi num cassino de oficiais, na fronteira com o Camboja, perguntando: "Quantos segredos você derramou hoje?", numa alusão aos perigos de inconfidências com vietnamitas.

Os que chegam ao Vietnã, com a cabeça cheia de recomendações, evitam todo contato com o povo. Divertia-me ver o filho do dono do hotel tentando inutilmente exercitar seu inglês com os oficiais americanos, autoprotegidos por uma cortina de silêncio. Com o passar do tempo, as precauções vão sendo esquecidas e os oficiais, principalmente, tornam-se cordiais e aceitam com fatalismo os riscos que correm, que são tão grandes no front como num passeio pela cidade. Alguns até se expõem, porque é impossível manter-se segregado um ano inteiro. E os terroristas estão em todos os lugares.

 

Tel-Aviv é uma cidade confiante

Tel-Aviv agora é uma cidade tranquila e confiante. Vejo no rosto de todos uma alegria incontida e a firme determinação de continuar preparando-se para a possibilidade de novas guerras. No front verifica-se a mesma coisa. Os soldados israelenses estão conscientes de que realizaram um fato sem precedentes na história da estratégia militar. Os correspondentes que se encontram aqui confirmaram a minha impressão: Israel é hoje um país orgulhoso de si mesmo.
Isso não significa que antes da guerra não se notasse esta fé nas possibilidades militares do exército de Moshe Dayan e Isaac Rabin. Havia, entretanto, a consciência do perigo e - por que não? - a possibilidade de se ver um esforço cair por terra. Aos poucos, durante os combates, esta pequena margem de incerteza cedeu lugar à determinação de vencer seja contra quem for.

Mas o que mais impressiona no israelense, após o combate, é a alegria pela conquista de Jerusalém. A maioria dos judeus que vivem no Estado de Israel, principalmente os jovens, não é religiosa. Porém, a volta à cidade de Salomão, após 2 mil anos, proporciona-lhes um júbilo extraordinário. Uma jovem sabra, bela como todas as que venceram o deserto, explicou-me que não se trata de vibrar porque os judeus retornaram ao templo de Salomão. Sorrindo, esbelta, disse-me que era a afirmação histórica de seu povo. A mesma explicação me foi dada por vários jovens integrantes do exército israelense. Todos tinham a mesma opinião: a luta era por uma afirmação como povo. Logo no início da guerra, um velho judeu que tinha escapado da matança nazista na Europa Oriental perguntou-me:

- Por que os judeus não têm o direito de construir sua nação, como todos os povos?

Depois da vitória em todas as frentes, parece-me que ninguém mais conseguirá arrebatar esse direito.

Postado por David

Comentários (4)

  • Ortunho diz: 28 de abril de 2009

    David, usaram um texto teu na primeira prova do concurso para promotor do RS! Nem sabes o que fizeram com o teu texto: exploraram-no para cobrar conhecimentos gramaticais dos candidatos -- GRAMATICAIS!
    Certamente é o começo do fim -- cooptado pelo sistema e usado para torturar os pobres candidatos! Dá uma olhadinha em http://www.mp.rs.gov.br/areas/concurso/arquivos/prova_xlv_concurso.pdf, questões 16 e seguintes.

  • sereno diz: 28 de abril de 2009

    ótimo.
    parabens...
    e adorei o DEGAS
    srsrsr

  • Marcelo Xavier diz: 28 de abril de 2009

    Demorou para vocês terem essa idéia, hein? Até porque é um sinal dos tempos; não se faz mais reportagem como antigamente. Também, em plena geração twitter, quem vai querer ler seis, sete laudas de texto?

  • Laura F diz: 28 de abril de 2009

    Queria deixar registrado meu parabéns a esse grande colunista. E gostaria de saber se tem como tu me enviar um endereço para eu te mandar uns livros de presente.

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