Mais um capítulo do livro dos 45 anos da Zero Hora. Hoje é uma reportagem da década de 70 que destaco. Confere aí:
Euforia da Soja
Autor: André Pereira
Publicação: abril de 1974
O foco da reportagem seria a falta de chuva que devastava campos e plantações no Rio Grande do Sul, no outono de 1974. Mas ao deparar com imensas lavouras de um grão quase desconhecido, sendo colhido até de madrugada para escapar do calor, o repórter André Pereira acabou descobrindo a nova locomotiva da agricultura gaúcha: a soja, ou "o soja", como preferem alguns.
Estampando na capa o título "Euforia da Soja", ZH apresentou a surpreendente pujança do cereal que impulsionava milhares de colheitadeiras, superlotava silos e armazéns, semeava cooperativas pelo Estado e devolvia a esperança ao meio rural. Em certa medida, a série de matérias saciou a curiosidade dos centros urbanos em relação àquela oleaginosa, de origem oriental, que alterou a história agrícola e econômica.
Quando enviou uma equipe à região celeiro, a seca castigava o setor primário havia mais de um mês. À medida que incursionava pelas áreas do Planalto, do Nordeste, das Missões e da Fronteira, a reportagem percebeu um fato novo, do qual só havia uma vaga noção na Redação de ZH: a exagerada dimensão que assumira a soja ao ocupar e valorizar, no verão, as terras antes tomadas apenas pela lavoura de trigo no inverno.
Motivados pelo altíssimo valor da saca na colheita de 1973, produtores de todos os cantos partiram decididos para o plantio da soja. Alguns deixaram de semear culturas de subsistência para apostar no grão que enriquecera agricultores da noite para o dia no verão anterior. Chegou-se a cunhar a expressão "Santa Soja" para designar o seu milagroso poder de transformação.
André Pereira e o fotógrafo Galeno Rodrigues mandavam textos e fotos, diariamente, sobre a estiagem que ameaçava a soja e outros cereais. Naqueles primórdios, sem internet, celular nem câmera digital, os dois dispunham apenas do telefone fixo de hotéis ou empresas. A ligação caía com frequência, tamanha a precariedade das linhas. Em cidades maiores, o repórter pedia emprestado o aparelho de telex (funcionava como uma máquina de escrever conectada ao telefone) de bancos, Correios ou cooperativas. Mas o rotineiro era ditar as matérias por telefone para um colega de plantão na Redação, que a repassava para o copydesk (antiga função de revisor de textos). Para enviar as imagens, Galeno usava um aparelho de telefoto, que era carregado em uma mala adicional. Antes, porém, precisava revelar os filmes, muitas vezes improvisando laboratórios no banheiro do hotel.
O mais desafiador para André Pereira, um repórter iniciante com apenas 22 anos de idade e formação urbana, era entender o drama dos agricultores, transmitir as notícias corretamente e num texto desburocratizado, dispensando o formato de "pirâmide" - na prática jornalística, os fatos mais relevantes estão na abertura do texto - que se aprende na faculdade de comunicação. Optou pela narrativa e pela descrição ambiental, pois era na emoção da vivência do cotidiano, à espera da chuva salvadora, que os personagens se moviam. O estilo é uma marca de André Pereira.
A série "Euforia da Soja" conquistou o prêmio Esso Regional Sul daquele ano. Os jurados concluíram que revelou o novo cenário rural da região sul do Brasil. Mostrou o boom da soja, que enriqueceu e também empobreceu agricultores. Em 1974, o Rio Grande do Sul colheu 3,7 milhões de toneladas do grão. Em abril de 2009, a previsão da safra gaúcha de soja era de cerca de 7 milhões de toneladas.

Foto: Tadeu Vilani, BD ZH 11/04/2007
Medo da seca antecipa colheita
Os calendários agrícolas do Estado assinalam o 20 de abril como a data de início do pique da soja. A planta começa a amadurecer, encerrando o ciclo de granação. Joga a folha para o chão e espera pela foice dos pequenos agricultores ou pelas pesadas lâminas das colheitadeiras para, depois, ser carregada por caminhões até os silos. Com a ameaça da seca, no entanto, as lavouras já vêm sendo colhidas por plantadores apressados, que trabalham até a madrugada.
A antecipação da safra provoca transtornos e expõe deficiências de estrutura. A capacidade de armazenamento das cooperativas está sendo questionada, os mais otimistas alertam que faltarão silos, caso a fase de escoamento da produção não seja cumprida.
Entre os produtores menores, o problema imediato é o do aluguel de maquinaria para a colheita. Em Carazinho, o diretor da cooperativa tritícola, Jaime José Zart, diz que estão sendo cobrados preços exagerados pela trilhagem, chegando a atingir até Cr$ 12,00 por saca. Para o presidente da cooperativa, Alexis Setti, isso só merece uma classificação:
- É um roubo.
Jaime Zart analisa que a impaciência dos produtores, a carência de silos e os preços elevados no processamento e no transporte da soja decorrem da valorização do cereal.
- No passado, um plantador médio era considerado um homem rico e essa imagem, no início dessa safra, só contribuiu para que todos os serviços, direta ou indiretamente ligados à colheita, tivessem uma valorização correspondente à euforia. Assim como o plantador pensou que ganharia mais ainda esse ano, o que aluga máquinas, o que transporta a soja e o que trabalha na lavoura também quiseram tirar sua recompensa. E o mercado teve seus preços elevados em todos os setores.
Vão faltar silos para guardar a soja a partir dos próximos dias, quando a colheita for intensificada, mas não será o único problema. É preciso lugar para guardar também as sementes do próximo plantio. A excelente safra do ano passado, com preços ainda melhores, atraiu mais plantadores, que aumentaram em cerca de 30% as lavouras de soja. O presidente da cooperativa de Palmeira das Missões, Tadeu Cerski, admite:
- A nossa capacidade de armazenamento é realmente insuficiente. Na produção passada já houve dificuldades, imaginem agora que a soja teve sua área aumentada.
Os plantadores estão tão entusiasmados e confiantes que se recusam vender a soja pela atual cotação da bolsa internacional, de Cr$ 53,00 pela saca. Exigem pelo menos Cr$ 78,00, a média da safra passada.
- Saio perdendo, porque tive muito mais despesa ao aumentar minha lavoura e caprichar nos cuidados com a terra - diz um plantador, em Santo Ângelo.
Apesar do temor da estiagem, produtores apostam na soja. Adão Drevin, 25 anos, sócio do pai, Ricardo, na lavoura do distrito de Doutor Bozano, em Ijuí, aponta um reluzente automóvel Volkswagen, modelo 1974, com o qual vai a Santa Maria, onde cursa engenharia civil.
- Foi o soja que me deu - ressalta.
Fede-fede, uma praga que ataca
- Tá aqui o bandido!
O velho Ítalo tinha certeza que pegaria a praga que ainda está atacando a soja, sugando a vagem e transformando os grãos em minguadas estruturas arredondadas, mas irregulares e manchadas. Ele pregou os olhos na lavoura a tarde inteira, ora se escondendo atrás das folhas, ora entrincheirando-se atrás da colheitadeira e, por vezes, frente a frente com o pequeno percevejo esverdeado e cinza, que as 30 toneladas de inseticida (Paration mais DDT) gastas na plantação não tinham conseguido exterminar. Afinal, depois de um bote certeiro e rápido, sua mão fechou-se sobre a praga. Triunfante, Ítalo Benvegnu, produtor de Passo Fundo, explicava quem era o bandido:
- É o fede-fede, que ataca a soja quando as folhas já estão amarelas, quando os grãos estão se formando nas vagens apenas algumas semanas antes da colheita. Pode ver por aí como as lavouras estão cheias desses percevejos espertos.
O fede-fede resistiu às pulverizações de veneno. Só morreria com a ingestão de inseticidas ou se fosse capturado e esmagado, como demonstrou Ítalo.
Postado por David





caro davi.obrigada pela reportagem da soja e por ter citado meu nome,fotografo galeno rodrigues/ganehi cpom oandre´o premio esso,,como materia ilustrada/andre´pereira me chamou num canto e pediu minhs fotos pra mandar a tal matIera da soja com fotos
de materia ilustrada.ahi ele disse q dividiria o premio comigo:endre ganhou com minhas fotos o premio ESSO COM MATERIA ILUSTRADA DO BOMM DA SOJA/SO´Q ATE´HOJE ELE NUNCA ME PAGOU
E NEM DEU UM TOSTÃO,,,,NUNCA RECLAMEI...
MA FOI BO MEU,ficou histoir
gostaria q tu colocasse minhas fotos do ano desse boom da soja,tem no arquivo de ZERO HORA,ja q citase meu nome..agradeço..tem boa s fotos la as da soja por exemplo
GALENO RODRIGUES/FOTOGRAFO
legal estas reportagens que tu ta trazendo ae no blog.. é interessante ver parte da história contada no momento em que acontece.. parabéns..
alias, por falar em parabéns, fala sério ne David.. deve ser quase 40 de INPS..
David, aí vai a minha opinião sobre os confrontos das oitavas da Libertadores:
GREMIO X DEFENSOR
BOCA X SAN LUIS
NACIONAL X CHIVAS
SÃO PAULO X U.CHILE
CRUZEIRO X PALMEIRAS
SPORT X ESTUDIANTES
LIBERTAD X SAN MARTIN
CARACAS X DEP.CUENCA
Grande abraço.
... que te darei o livro com autógrafo e tudo. É uma forma de agradecimento por me inspirar a escrever um livro sobre isso. Espero que seja o primeiro de muitos. Um grande abraço, David.
Parabéns pela recuperação da reportagem!
Muito boa!
Abraços
Olá, David Coimbra!!! Quanto tempo, hein? Tá lembrado de mim. Sou o Mário Amaral, aquele do autógrafo do livro dos Canibais na Feira do Livro de Pelotas, em 2004, lembra? O motivo por estar postando aqui é que o livro que escrevi sobre o clássico Bra-Pel com o amigo Sérgio Osório já tá acabando. É um livro muito bom e com muitas histórias engraçadas sobre isso. Foi lançado em outubro de 2008 e fez ótimo sucesso na minha cidade. Se tu tiveres interesse, pode falar comigo mesmo...
Caro David: importante recuperação que fazes, o estilo do texto do André além de inovador à época, sempre se cracterizou por aliar leveza e contúdo!!
Parabéns pela recuperação
Abração
Villa