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Posts de abril 2009

45 anos de ZH: década de 80

30 de abril de 2009 3

Leitorinhos, hoje destaquei uma reportagem da década de 80 que vai estar no livro 45 reportagens que marcaram a história. Confiram aí:

 

Os Brasiguaios

Autor: Carlos Wagner
Publicação: maio de 1986

 

Foto: Ronaldo Bernardi

 

Zero Hora encontrou um povo desconhecido vivendo no coração da América do Sul em 1986. Não se tratava de mais uma tribo indígena perdida no meio da selva. Pelo contrário. Muitos deles chamavam a atenção pelos olhos azuis e sobrenomes inconfundivelmente germânicos. Eram os brasiguaios, agricultores do Rio Grande do Sul e de outras partes do Brasil que estavam colonizando vastas áreas do Paraguai. Sem plenos direitos de cidadania em nenhum dos dois lados da fronteira, eram considerados homens sem pátria, vivendo em uma espécie de limbo da nacionalidade.

Quando o repórter Carlos Wagner abordou o tema, em reportagens publicadas durante o mês de maio de 1986, esses brasileiros eram estimados em cerca de um décimo da população paraguaia - 350 mil pessoas, mais de 100 mil delas saídas do Rio Grande do Sul. Zero Hora era o primeiro jornal a dar a atenção que o assunto merecia e a dedicar-lhe uma reportagem de fôlego, ajudando a pôr o termo “brasiguaio” no vocabulário brasileiro, de onde nunca mais saiu.

Wagner ouvira falar pela primeira vez da rota migratória durante a cobertura de conflitos agrários no interior do Rio Grande do Sul, no começo da década de 80. Também acompanhara a publicação de notas esparsas sobre dificuldades que os colonos brasileiros enfrentavam com as autoridades paraguaias – a maioria envolvendo escrituração de propriedades e vistos de permanência.

Mas o estalo do repórter sobre a dimensão histórica do fenômeno ocorreu durante uma incursão pela Fazenda Annoni, em Sarandi, quando um sem-terra aproximou-se do carro de ZH e perguntou por notícias de um primo que estava no Paraguai, onde havia comprado terras com o dinheiro da venda de uma casa em Ronda Alta, pequena cidade do norte do Estado. Em um momento de crise no campo, os brasileiros corriam ao país vizinho porque lá as terras custavam uma fração do preço no Brasil.

Wagner, o fotógrafo Valdir Friolin e o motorista Miguel Cunha viajaram de carro até o Paraguai para duas semanas de imersão no país brasiguaio. No meio do mato, em pontos remotos aonde se chegava por caminhos de chão batido, encontraram famílias gaúchas a domesticar a terra estrangeira. Depois do pesado trabalho na roça, esses agricultores sentavam-se na varanda e garantiam aos filhos: um dia aquele lugar inóspito seria uma cidade cheia de luzes, ruído de automóveis e prédios envidraçados. O sonho de muitos deles se realizou. Algumas das improvisadas aldeias de então são hoje cidades com milhares de habitantes, onde é normal escutar o português pelas ruas.

Nunca foi um caminho sem percalços, revelou a reportagem. Sem um estatuto legal para ampará-los, os brasileiros eram presas fáceis da máquina de extorsão montada pelo general Alfredo Stroessner, um dos mais longevos e corruptos ditadores da América do Sul - subjugou o Paraguai de 1954 a 1989. Apesar de levarem o crescimento econômico à região, os brasiguaios também tiveram de enfrentar sentimentos nacionalistas e xenófobos por parte da população local - um problema que persiste, passadas mais de duas décadas.

Responsável por apresentar essa realidade de forma pioneira e revelar para o Brasil a saga daqueles que se tornaram paraguaios na esperança de melhorar de vida, a reportagem venceu o Prêmio Esso para a Região Sul e virou livro, com o título Brasiguaios: Homens sem Pátria.

 

Um terço dos camponeses são gaúchos

Deixando uma trilha de mortes, sofrimentos e muito suor, agricultores brasileiros estão entrando em terras paraguaias. O governo do Brasil estima que existam 350 mil camponeses vivendo lá, dos quais 33% são gaúchos. Em regiões como o Alto Paraná, a de maior importância agrícola no Paraguai, na fronteira com a cidade brasileira de Foz do Iguaçu, há, em comunidades agrícolas e urbanas, cinco brasileiros para um paraguaio. Eles produzem 60% da soja e do algodão, os principais produtos econômicos do país.

A história destes camponeses começou em 1959. Naquela época, o general Alfredo Stroessner começou a colocar em prática um plano de modernização econômica. Stroessner batizou seu plano de “Crescimento para fora”, significando o aumento da presença paraguaia no mercado externo.

O forte da economia paraguaia sempre foi a agricultura, que representa mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB). Por isso, o alvo inicial dos tecnocratas paraguaios foi este setor. A palavra de ordem era modernizar através da mecanização em alta escala. Isso foi feito, mas não de imediato. A colonização do Alto Paraná foi planejada em etapas. A primeira delas foi a distribuição das terras. O governo Stroessner entregou a grandes colonizadoras brasileiras, norte-americanas, alemãs e japonesas a tarefa de organizar a distribuição de lotes. Os novos donos se encarregaram de expulsar os campesinos paraguaios, que eram, segundo um religioso que trabalhava com eles no Alto Paraná, considerados “indolentes para o pesado serviço de derrubar mato”. A retirada foi facilitada porque “eles não têm o mesmo sentimento de posse em relação à terra que o colono brasileiro tem. Eles simplesmente chegam e ocupam o solo”.

 

Foto: Ronaldo Bernardi

 

Solo faz a alegria dos Schöfer

O filho caçula da família Schöfer ergue, com alguma dificuldade, uma imensa raiz de mandioca, para mostrar a fertilidade das terras paraguaias. Há cinco anos, os Schöfer venderam a propriedade de sete hectares e um automóvel Corcel que tinham no município gaúcho de Santo Ângelo. Compraram 79 hectares em Mbaracayú.

O único receio que eles têm é perder a terra para as autoridades paraguaias, embora tenham a documentação em dia. Os boatos que circulam, na colônia, dão conta de agricultores que precisaram largar tudo e voltar ao Brasil, porque os documentos não foram reconhecidos.

- O resto vai indo muito bem, obrigado - disse o filho mais velho dos Schöfer, Ovídio, 30 anos.

A família também se ressente da falta de uma cooperativa no momento de comercializar os produtos. 

- Estes paraguaios são fogo quando a gente vai vender para eles. O bom é ter uma parte da safra contratada com eles e a outra com os brasileiros que vêm aqui comprar - reclamou Ovídio.

Saudades de casa os Schöfer não sentem.

- Trouxemos tudo que era nosso de lá. E aqui ao redor é só brasileiro - completou Ovídio.

Postado por David

45 anos de ZH: década de 70

29 de abril de 2009 8

Mais um capítulo do livro dos 45 anos da Zero Hora. Hoje é uma reportagem da década de 70 que destaco. Confere aí:

 

Euforia da Soja

Autor: André Pereira
Publicação: abril de 1974

 

O foco da reportagem seria a falta de chuva que devastava campos e plantações no Rio Grande do Sul, no outono de 1974. Mas ao deparar com imensas lavouras de um grão quase desconhecido, sendo colhido até de madrugada para escapar do calor, o repórter André Pereira acabou descobrindo a nova locomotiva da agricultura gaúcha: a soja, ou “o soja”, como preferem alguns. 

Estampando na capa o título “Euforia da Soja”, ZH apresentou a surpreendente pujança do cereal que impulsionava milhares de colheitadeiras, superlotava silos e armazéns, semeava cooperativas pelo Estado e devolvia a esperança ao meio rural. Em certa medida, a série de matérias saciou a curiosidade dos centros urbanos em relação àquela oleaginosa, de origem oriental, que alterou a história agrícola e econômica.

Quando enviou uma equipe à região celeiro, a seca castigava o setor primário havia mais de um mês. À medida que incursionava pelas áreas do Planalto, do Nordeste, das Missões e da Fronteira, a reportagem percebeu um fato novo, do qual só havia uma vaga noção na Redação de ZH: a exagerada dimensão que assumira a soja ao ocupar e valorizar, no verão, as terras antes tomadas apenas pela lavoura de trigo no inverno.

Motivados pelo altíssimo valor da saca na colheita de 1973, produtores de todos os cantos partiram decididos para o plantio da soja. Alguns deixaram de semear culturas de subsistência para apostar no grão que enriquecera agricultores da noite para o dia no verão anterior. Chegou-se a cunhar a expressão “Santa Soja” para designar o seu milagroso poder de transformação.

André Pereira e o fotógrafo Galeno Rodrigues mandavam textos e fotos, diariamente, sobre a estiagem que ameaçava a soja e outros cereais. Naqueles primórdios, sem internet, celular nem câmera digital, os dois dispunham apenas do telefone fixo de hotéis ou empresas. A ligação caía com frequência, tamanha a precariedade das linhas. Em cidades maiores, o repórter pedia emprestado o aparelho de telex (funcionava como uma máquina de escrever conectada ao telefone) de bancos, Correios ou cooperativas. Mas o rotineiro era ditar as matérias por telefone para um colega de plantão na Redação, que a repassava para o copydesk (antiga função de revisor de textos). Para enviar as imagens, Galeno usava um aparelho de telefoto, que era carregado em uma mala adicional. Antes, porém, precisava revelar os filmes, muitas vezes improvisando laboratórios no banheiro do hotel.

O mais desafiador para André Pereira, um repórter iniciante com apenas 22 anos de idade e formação urbana, era entender o drama dos agricultores, transmitir as notícias corretamente e num texto desburocratizado, dispensando o formato de “pirâmide” - na prática jornalística, os fatos mais relevantes estão na abertura do texto – que se aprende na faculdade de comunicação. Optou pela narrativa e pela descrição ambiental, pois era na emoção da vivência do cotidiano, à espera da chuva salvadora, que os personagens se moviam. O estilo é uma marca de André Pereira.

A série “Euforia da Soja” conquistou o prêmio Esso Regional Sul daquele ano. Os jurados concluíram que revelou o novo cenário rural da região sul do Brasil. Mostrou o boom da soja, que enriqueceu e também empobreceu agricultores. Em 1974, o Rio Grande do Sul colheu 3,7 milhões de toneladas do grão. Em abril de 2009, a previsão da safra gaúcha de soja era de cerca de 7 milhões de toneladas.

 

Foto: Tadeu Vilani, BD ZH  11/04/2007

 

Medo da seca antecipa colheita

Os calendários agrícolas do Estado assinalam o 20 de abril como a data de início do pique da soja. A planta começa a amadurecer, encerrando o ciclo de granação. Joga a folha para o chão e espera pela foice dos pequenos agricultores ou pelas pesadas lâminas das colheitadeiras para, depois, ser carregada por caminhões até os silos. Com a ameaça da seca, no entanto, as lavouras já vêm sendo colhidas por plantadores apressados, que trabalham até a madrugada.

A antecipação da safra provoca transtornos e expõe deficiências de estrutura. A capacidade de armazenamento das cooperativas está sendo questionada, os mais otimistas alertam que faltarão silos, caso a fase de escoamento da produção não seja cumprida.

Entre os produtores menores, o problema imediato é o do aluguel de maquinaria para a colheita. Em Carazinho, o diretor da cooperativa tritícola, Jaime José Zart, diz que estão sendo cobrados preços exagerados pela trilhagem, chegando a atingir até Cr$ 12,00 por saca. Para o presidente da cooperativa, Alexis Setti, isso só merece uma classificação:

- É um roubo.

Jaime Zart analisa que a impaciência dos produtores, a carência de silos e os preços elevados no processamento e no transporte da soja decorrem da valorização do cereal.

- No passado, um plantador médio era considerado um homem rico e essa imagem, no início dessa safra, só contribuiu para que todos os serviços, direta ou indiretamente ligados à colheita, tivessem uma valorização correspondente à euforia. Assim como o plantador pensou que ganharia mais ainda esse ano, o que aluga máquinas, o que transporta a soja e o que trabalha na lavoura também quiseram tirar sua recompensa. E o mercado teve seus preços elevados em todos os setores.

Vão faltar silos para guardar a soja a partir dos próximos dias, quando a colheita for intensificada, mas não será o único problema. É preciso lugar para guardar também as sementes do próximo plantio. A excelente safra do ano passado, com preços ainda melhores, atraiu mais plantadores, que aumentaram em cerca de 30% as lavouras de soja. O presidente da cooperativa de Palmeira das Missões, Tadeu Cerski, admite:

- A nossa capacidade de armazenamento é realmente insuficiente. Na produção passada já houve dificuldades, imaginem agora que a soja teve sua área aumentada.

Os plantadores estão tão entusiasmados e confiantes que se recusam vender a soja pela atual cotação da bolsa internacional, de Cr$ 53,00 pela saca. Exigem pelo menos Cr$ 78,00, a média da safra passada.

- Saio perdendo, porque tive muito mais despesa ao aumentar minha lavoura e caprichar nos cuidados com a terra – diz um plantador, em Santo Ângelo.

Apesar do temor da estiagem, produtores apostam na soja. Adão Drevin, 25 anos, sócio do pai, Ricardo, na lavoura do distrito de Doutor Bozano, em Ijuí, aponta um reluzente automóvel Volkswagen, modelo 1974, com o qual vai a Santa Maria, onde cursa engenharia civil.

- Foi o soja que me deu – ressalta.

 Fede-fede, uma praga que ataca

- Tá aqui o bandido!

O velho Ítalo tinha certeza que pegaria a praga que ainda está atacando a soja, sugando a vagem e transformando os grãos em minguadas estruturas arredondadas, mas irregulares e manchadas. Ele pregou os olhos na lavoura a tarde inteira, ora se escondendo atrás das folhas, ora entrincheirando-se atrás da colheitadeira e, por vezes, frente a frente com o pequeno percevejo esverdeado e cinza, que as 30 toneladas de inseticida (Paration mais DDT) gastas na plantação não tinham conseguido exterminar. Afinal, depois de um bote certeiro e rápido, sua mão fechou-se sobre a praga. Triunfante, Ítalo Benvegnu, produtor de Passo Fundo, explicava quem era o bandido:

- É o fede-fede, que ataca a soja quando as folhas já estão amarelas, quando os grãos estão se formando nas vagens apenas algumas semanas antes da colheita. Pode ver por aí como as lavouras estão cheias desses percevejos espertos.

O fede-fede resistiu às pulverizações de veneno. Só morreria com a ingestão de inseticidas ou se fosse capturado e esmagado, como demonstrou Ítalo.

Postado por David

Atropelado por uma carroça

29 de abril de 2009 19

Houve uma época em que eu ia para o Rio de ônibus. Vinte e quatro horas queimando estrada, dureza. Fiz essa viagem umas duas ou três vezes. Na véspera de uma delas, meus amigos organizaram uma festinha de despedida, e acabei me excedendo um pouco na bebida, e no dia seguinte arrastei-me para a rodoviária com as entranhas ligeiramente putrefatas. Algo no meu interior havia se rompido, tinha certeza. Estava me sentindo muito, mas muito, mas muito mal ao me acomodar no assento do ônibus. Naquele momento de dor extrema, teci uma oração silenciosa ao Todo-Poderoso:

— Oh, Senhor dos Exércitos, oh, Aquele cujos nome e rosto são desconhecidos, por favor, por favor!, faça com que ninguém sente ao meu lado e eu possa enfrentar essa infindável viagem ungido pelo bálsamo da solidão!

Os passageiros começaram a entrar e eu na expectativa, enquanto gases mefíticos fermentavam-me no cérebro. Os bancos foram sendo preenchidos um a um. Logo, todos os lugares estavam tomados, menos um: o que ficava ao meu lado. Olhei ternamente para o firmamento azul e sussurrei:

— Obrigado…

Então, um sujeito com a cabeça coberta por um chapéu da largura de uma bandeja de garçom se materializou ao meu lado. Apareceu de inopino, como se tivesse sido cuspido do pavimento de metal. Devia ter uns, sei lá, 50 anos. Era magro e alto como um eucalipto e, debaixo de um nariz do tamanho de um celular, ostentava um sorriso cor de caramelo.

— Bom dia!!! — exclamou, com três pontos de exclamação, tocando com as costas da mão na aba do chapéu.

Percebi que se tratava de um tipo animado. O que eu menos precisava naquele momento era de um tipo animado, sobretudo um que usasse chapéu. Sabe como são esses caras que usam chapéu.

— Este é o número 17? — apontou para o assento ao meu lado.

Era. Instalou-se. Virou-se para mim. Perguntou:

— Vai pro Rio?

O ônibus ia direto ao Rio. Muito direto. Olhei ressentido para os céus, onde o Senhor provavelmente devia estar rindo de mim. O homem não parou mais de falar durante o dia e a noite que passei enlatado naquele ônibus. Para tentar usufruir alguns momentos de paz, eu fazia que estava dormindo. Fechava os olhos, até roncava, e ele falando. Aí eu dormia mesmo, acordava: o desgranido ainda estava falando. Quando entramos no Rio, ele cantou Cidade Maravilhosa e pediu que o acompanhasse batendo palmas. Foi tão difícil…

Uma falta de sorte.

Quando contei essa desventura para os amigos, alguns comentaram:

— Mas tu deves ter dito algo para ele, senão ele não passaria o tempo todo falando contigo…

Quer dizer: a culpa era minha.

A mesma coisa quando fui atropelado por uma carroça. Fui. Por Deus. Jogava bola na Rua da Tendinha, um areão que havia entre os prédios da Coorigha e os que chamávamos de Blocos Amarelos. Estava com a bola dominada, pronto para empreender uma investida vertiginosa em direção à golerinha de chinelos de dedo, quando aquela caratonha de cavalo surgiu bem ao meu lado. Foi um dos momentos mais medonhos da minha existência. Ali estava, a 20 centímetros das minhas sobrancelhas, um baita de um cavalo, resfolgante como resfolgam os cavalos, cheio de patas e pernas e dentes, e eu:

— WOLFREMBAER!

Dei um salto para trás, e a carroceria da carroça me colheu. Atingiu-me no flanco, fiquei machucado, inchado, incapacitado para jogar, no sábado seguinte, a primeira partida do Cometa Futebol Clube, time que havíamos fundado naquela semana.

O que foi isso?

Falta de sorte, de novo. Mas teve gente que me criticou:

— Como é que tu não viu a carroça se aproximando??? Que mosqueada!

Ou seja: mais uma vez eu era culpado pelo meu próprio infortúnio.

A vida é assim. Acontece algo de errado? As pessoas procuram culpas. Não procuram soluções, não enxergam os méritos pretéritos, não discutem se a partir do erro pode haver evolução. Não. Elas querem culpados. O que foi feito de correto antes do erro não interessa. Interessa é o erro. Você sofre um acidente e morre. Morreu, pô. Já é ruim o suficiente. Mesmo assim, vai aparecer alguém para dizer que a culpa foi sua. Brabo.

O futebol, que de alguma forma é uma reprodução da vida, cada vez mais se transforma nisso: numa atividade em que só a vitória interessa. Um driblado medíocre como aquele Juan, do Flamengo, se sente humilhado pelo talento de Maicosuel, do Botafogo, e bota-lhe o dedo na cara, e o ameaça, e arrosta valentias. Por quê? Porque hoje só importa ganhar. A vitória a qualquer preço. Um time perdeu? Não vale nada. Não contam a bola na trave, a falha do juiz, o escorregão do zagueiro. Falta de sorte é falta de competência. O desafortunado é culpado pelo seu próprio infortúnio. E quem ganhou estava certo desde o início. Um mundo de vencedores. Tantas vezes, pobres vencedores.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por David

Mais aniversários

28 de abril de 2009 4

Zero Hora está fazendo 45 aninhos. Em comemoração, foi preparado um livro com 45 reportagens publicadas no jornal nessas quatro décadas e meia. O degas aqui compareceu com duas reportagens. Mas não serão trechos delas que publicarei a partir de agora. Serão de outros colegas, cada um deles representando uma década. Aproveitem e, se quiserem adquirir o livro, procurem as boas livrarias a partir do dia 4 de maio.

Aqui vai a primeira década: 1960. Mais precisamente 1967 e as guerras do Vietnã e a dos Seis Dias.

 

Guerra no Vietnã / Guerra dos Seis Dias

Autor: Carlos Alberto Kolecza
Publicação: junho de 1967

 

Chefes de Estado reunidos no Uruguai? Zero Hora estava lá. Norte-americanos em guerra contra os comunistas no Vietnã? ZH foi conferir. Árabes e israelenses brigando por territórios? ZH também incursionou pelas areias escaldantes do Oriente Médio. Tudo isso em 1967, o ano de carimbar o passaporte em coberturas internacionais.

A maratona começou em abril. Os enviados especiais Carlos Alberto Kolecza e Pilla Vares (repórteres de ZH), Dilamar Machado (Rádio Gaúcha) e Telmo Cúrcio (fotógrafo) registraram a Conferência de Punta del Este, no Uruguai, na qual representantes de Estado reforçaram os vínculos de cooperação regional. Coordenador da equipe, Dilamar se encarregou da instalação do equipamento, da revisão dos textos e dos boletins da rádio. Ainda encontrou tempo para visitar o presidente deposto João Goulart, exilado em Montevidéu desde o golpe militar de 1964, e levar os cigarros preferidos de Leonel Brizola, que estava no balneário uruguaio de Atlântida, também refugiado.

Em Punta del Este, o repórter Kolecza impressionou-se com a expressão de tédio do presidente norte-americano, Lyndon Johnson, que parecia cochilar em plena sessão de abertura da conferência. Pudera. Johnson lidava com um princípio de incêndio em seu país – o protesto dos negros por igualdade de direitos – e o fogaréu imprevisível no Vietnã.

Logo após o regresso do Uruguai, o então diretor de Redação de ZH, Paulo Amorim, decidiu enviar Kolecza para cobrir a Guerra no Vietnã, num atrevimento que espantou os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Na pressa de largar na frente, Kolecza viajou direto a Paris, sem saber que a embaixada do Vietnã do Sul não concedia visto em represália às posições do presidente francês Charles de Gaulle. Em Londres, também não obteve a permissão. Então, voou para Saigon (capital do Vietnã do Sul) como turista, antevendo contratempos no desembarque. Dito e feito. Antes de chegar ao balcão, foi mandado de volta à aeronave. Formou-se um burburinho. Diante da súbita aparição de um “turista brasileiro”, logo pediram notícias de Pelé – o futebol brasileiro já abria portas no estrangeiro. O chefe do setor de fiscalização, até então engaiolado na sua saleta, apareceu sorridente. Foi a autorização que faltava.

No final da tarde, devidamente credenciado, o repórter pôde se aventurar pelas ruas de Saigon, circulando entre o formigueiro humano. Como percebeu o risco de ser confundido com um gringo extraviado – é descendente de poloneses da gaúcha Santa Rosa -, Kolecza se acautelou. Para comprar um maço de cigarros do outro lado da rua, convinha levar um vietnamita de escolta. O ódio aos americanos espreitava em cada bueiro.

- Nunca me senti tão catinguento ao chegar ao hotel. O medo é malcheiroso – lembraria o repórter depois.

Quando ZH, Rádio e TV Gaúcha estavam em Saigon, os norte-americanos empilhavam tropas, armamento e ilusões para conter o avanço dos comunistas apoiados pelo Vietnã do Norte. Não perguntaram o que os sul-vietnamitas achavam. Em meia hora, a máquina de guerra devastava arrozais. Podia-se calcular quantos quilos do cereal faltariam no dia seguinte na cozinha dos esquálidos guerrilheiros. Mas era impossível avaliar quantos túneis passavam debaixo dos coturnos dos marines. E os Estados Unidos perderam a guerra para um exército de magricelas.

Do Vietnã, Kolecza correu para Israel. A Guerra dos Seis Dias, na verdade, foi de um só, o primeiro. Os outros cinco foram gastos no passeio triunfal dos tanques israelenses. Os vitoriosos pareciam saber até que distância segura poderiam levar os jornalistas estrangeiros às Colinas de Golan, enquanto ainda caíam obuses sírios.

Em Israel, a aflição de Kolecza era por localizar no aeroporto algum brasileiro com destino a Porto Alegre que pudesse trazer os filmes de TV até a sede da RBS. A maioria das imagens nunca foi ao ar. Virou suvenir de viajantes apressados - não completaram a entrega. Os textos e as fotos para ZH foram editados em Porto Alegre, na Redação, devido à precariedade das telecomunicações nos países em guerra.

 

OK é a arma secreta no Vietnã

No Vietnã, o “OK” é a arma de guerra que todo americano deve saber manejar, principalmente o civil, a quem foi confiada a guerra psicológica contra o vietcongue. Um americano deve responder OK ao alarido das crianças, mesmo que não entenda o que lhe dizem. Quando a conversa for com adultos, o OK deve ser a interjeição. Mesmo nos confins do país, toda criança aprende que, ao encontrar um americano, deve dizer-lhe OK, sempre. Elas os cercam ou acenam a seus comboios dizendo OK, OK, OK… Um número infindável de vezes. E os americanos devem responder da mesma forma: OK, OK, OK… O americano é o Mr. OK para os vietnamitas.

É de um ano o tempo que o soldado americano deve passar no Vietnã – um ano cujos dias são contados um por um. Quando o soldado é recém-chegado, ele diz:

- Estou aqui há tantas semanas e tantos dias.

Quando o ano está terminando, a contagem se inverte:

- Faltam tantas semanas e tantos dias para eu voltar.

Há os que não chegam a terminar a contagem, porque, no Vietnã, um ano é tempo suficiente para a morte fazer muitas colheitas. O mesmo acontece com os coreanos, filipinos e australianos que também lutam no Vietnã.

Nos quartéis, nos alojamentos, os calendários são sagrados. Sempre ocupam o melhor lugar da parede, sempre têm alguém para cuidá-los. Cada dia que passa é cuidadosamente riscado, eliminado com prazer.

Em Saigon, os soldados vivem em hotéis ou edifícios comprados especialmente para servir de alojamento, protegidos por cercas de arame farpado, guaritas e tonéis de concreto. Estes se destinam a evitar uma das formas de terrorismo preferidas pelo vietcongue: conduzir uma motocicleta carregada com uma bomba até perto do alojamento e deixá-la prosseguir sua corrida, sozinha, para o alvo, contra o qual explodirá. Para entrar num alojamento ou repartição americana, todo vietnamita deve mostrar uma autorização especial, que muitos levam ao pescoço, numa correntinha, para não se extraviar.

Vi moças que serviam na cantina dos oficiais, no aeroporto de Saigon, atravessar os postos de controle, em suas bicicletas, levando a autorização na boca, para não ter que parar. À noite, os soldados e oficiais de folga andam sempre em grupos, à paisana, somente nas ruas principais da capital. É raro um americano sozinho, à noite, ainda mais em algum bairro ou numa rua escura.

Os jipes e caminhões são atapetados com saquinhos de areia, para neutralizar o impacto da explosão das minas. Quando um veículo volta ao quartel, ele é examinado pela guarda com um espelho, que revela se alguma mina de plástico lhe foi grudada no chassi, enquanto estava fora.

Os oficiais, em Saigon, preferem os hotéis, sempre lotados, mas só conseguem uma vaga quando fazem a reserva com antecedência, senão arriscam-se a uma peregrinação infrutífera pelas portarias. As fotografias e pinturas de mulheres nuas enchem os cassinos e alojamentos. A foto mais popular ainda é aquela em que Marilyn Monroe, ao cruzar as pernas, foi surpreendida sem calcinha.

Cartazes alertando para as precauções que todos devem tomar se alinham nas paredes, junto a outros que mostram como são as granadas do vietcongue, e ensinam a diferenciar um guerrilheiro dos camponeses da Força Popular. A advertência mais original vi num cassino de oficiais, na fronteira com o Camboja, perguntando: “Quantos segredos você derramou hoje?”, numa alusão aos perigos de inconfidências com vietnamitas.

Os que chegam ao Vietnã, com a cabeça cheia de recomendações, evitam todo contato com o povo. Divertia-me ver o filho do dono do hotel tentando inutilmente exercitar seu inglês com os oficiais americanos, autoprotegidos por uma cortina de silêncio. Com o passar do tempo, as precauções vão sendo esquecidas e os oficiais, principalmente, tornam-se cordiais e aceitam com fatalismo os riscos que correm, que são tão grandes no front como num passeio pela cidade. Alguns até se expõem, porque é impossível manter-se segregado um ano inteiro. E os terroristas estão em todos os lugares.

 

Tel-Aviv é uma cidade confiante

Tel-Aviv agora é uma cidade tranquila e confiante. Vejo no rosto de todos uma alegria incontida e a firme determinação de continuar preparando-se para a possibilidade de novas guerras. No front verifica-se a mesma coisa. Os soldados israelenses estão conscientes de que realizaram um fato sem precedentes na história da estratégia militar. Os correspondentes que se encontram aqui confirmaram a minha impressão: Israel é hoje um país orgulhoso de si mesmo.
Isso não significa que antes da guerra não se notasse esta fé nas possibilidades militares do exército de Moshe Dayan e Isaac Rabin. Havia, entretanto, a consciência do perigo e – por que não? – a possibilidade de se ver um esforço cair por terra. Aos poucos, durante os combates, esta pequena margem de incerteza cedeu lugar à determinação de vencer seja contra quem for.

Mas o que mais impressiona no israelense, após o combate, é a alegria pela conquista de Jerusalém. A maioria dos judeus que vivem no Estado de Israel, principalmente os jovens, não é religiosa. Porém, a volta à cidade de Salomão, após 2 mil anos, proporciona-lhes um júbilo extraordinário. Uma jovem sabra, bela como todas as que venceram o deserto, explicou-me que não se trata de vibrar porque os judeus retornaram ao templo de Salomão. Sorrindo, esbelta, disse-me que era a afirmação histórica de seu povo. A mesma explicação me foi dada por vários jovens integrantes do exército israelense. Todos tinham a mesma opinião: a luta era por uma afirmação como povo. Logo no início da guerra, um velho judeu que tinha escapado da matança nazista na Europa Oriental perguntou-me:

- Por que os judeus não têm o direito de construir sua nação, como todos os povos?

Depois da vitória em todas as frentes, parece-me que ninguém mais conseguirá arrebatar esse direito.

Postado por David

Novo folhetim e aniversário

28 de abril de 2009 85

Ei, pessoal, sabiam que estou de aniversário hoje???

Quase 40 anos!

De presente, vou contar uma novidade pra vocês: o próximo folhetim será a continuação de “Jô na Estrada”!

Gostaram???

Postado por David, da Redação, sorvendo um expresso

Você é o Juiz — Último capítulo (parte final)

27 de abril de 2009 53

E lá se foi a noite, e a manhã me encontrou desperto, aguardando…

Aguardando…

Mas nada acontecia. Tudo parecia normal. Será que havia algo errado?
Sentei-me à mesa do café sem fome. Mesmo assim, trinchei uma torrada, tomei um gole de café com leite, subi, escovei os dentes, já me preparava para sair, quando, enfim, ouvi o que tanto queria ouvir:

- Minhas jóóóóóóóiaaaaas!

A voz roufenha de dona Mirtes fez a mansão estremecer. Corremos todos escada acima e a encontramos no chão do quarto, a porta do roupeiro aberta e a caixa de jóias vazia rojada no carpete. Dona Mirtes soluçava:

- Roubaram tudo! Tudo! As jóias da minha família!!!

Era mamãe pra cá e Mirtes pra lá e calma e calma e traz um copo d´água com açúcar e chama a polícia e que absurdo meu Deus!

Em alguns minutos, a polícia chegou com estardalhaço. Todos fomos ouvidos. Tentei ser racional em meu relato. Disse que suspeitava dos homens que me haviam assaltado, pouco tempo antes. Eles me ouviram com severidade. Perto do meio-dia, consegui ira para o escritório. Então, fiz o que tinha de fazer: levei as jóias ao agiota, paguei a dívida e ainda consegui mais algum para repor o desfalque no caixa da empresa. Sei que ele saiu ganhando, as jóias valiam muito mais do que eu devia, mas não estava em condições de negociar.

Quando voltei para casa, soube da notícia: Laércio havia sido preso. Descobriram o colar em sua gaveta e o levaram algemado. Chantagista desgraçado. Ele bem que mereceu!

Portanto, minha situação ficou assim: continuei com meu casamento e com meu emprego, continuei morando onde morava e com as perspectivas profissionais que tinha antes de todas essas aventuras. A cunhada? Bem, essa eu não sabia se teria de novo. Será que ela seria fiel ao grandalhão? Duvido. Mas será que continuaria se interessando em mim? Um mistério.

A cozinheira? Dessa vou falar em seguida.

O fato é que cometi adultério com duas mulheres diferentes, sendo uma delas minha cunhada e a outra a cozinheira da casa em que morava, roubei, fui autor de um desfalque na empresa em que trabalho, enganei a todos e coloquei um homem inocente na cadeia. Admito: fiz tudo isso. Mas, considerando as circunstâncias, fiz errado?

Diga-me você: você resistiria à cunhada sedutora? Não? E, se não resistisse e fosse pego, como fui pelo mordomo, praticaria desfalque para pagar a chantagem? E, se o plano de lucrar com o desfalque falhasse, roubaria para se safar? Incriminaria um homem inocente, ainda que esse homem tivesse tentado lhe chantagear? Você faria isso tudo? Seja meu juiz! Estou esperando serenamente seu veredicto. Aguardo seu comentário.

Talvez você desaprove que eu, tantas vezes pecador, tenha saído de todas essas aventuras e desventuras sem punição. Pois garanto: não foi exatamente isso que ocorreu. Porque um dia depois da prisão de Laércio, ela veio me procurar.

Ela.

Jenifer.

A cozinheira.

Fez um sinal para que eu saísse da sala em que lia a última Ele e Ela, com a Sândi nua na capa. Segui-a até um dos banheiros da casa, como aquela casa tinha banheiros, Jesus Cristo! Foi então que Jenifer miou com sua vozinha de arroz-com-leite:

- Seu Rildo, eu queria lhe falar sobre tudo o que aconteceu…

Senti o peito se me oprimir.

- Tudo o quê?

- Tudo: o que houve entre nós, a prisão do Laércio, as jóias roubadas, aquela tarde…

Comecei a compreender o que ia acontecer. Estava nas mãos da cozinheira. Ela podia me chantagear de diversas formas: podia contar que a possuí, podia contar do roubo das jóias, podia me desgraçar definitivamente. Suspirei.

- O que você quer, Jenifer?

- O senhor mesmo disse que ia me dar uma recompensa…

- Quanto, Jenifer? Quanto? - já estava me acostumando a lidar com chantagistas.

- Bom… Acho que tudo ia ficar bem com uns duzentos mil…

- Duzentos mil?!?! Duzentos mil, Jenifer?!?!?!!!!

Olhei para ela. Seus lábios carnudos sorriam levemente. Debochadamente. Seus grandes olhos castanhos coruscavam de satisfação. Ela sabia que eu não tinha saída. Sabia que havia me derrotado. Fechei os olhos. Abri-os. Olhei para cima. Para o teto do banheiro. Para o firmamento. E pensei, em desespero: o que fiz de errado para merecer tanto sofrimento? Me diga: o quê???

Postado por David

Café TVCOM

27 de abril de 2009 1

Aqui está a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado.

 

Confere aí:

Postado por David

Você é o Juiz — Último capítulo (parte um)

27 de abril de 2009 13

Como já disse, você é o meu juiz. Quero que você me julgue. Que dê sua opinião. E que seja sincero: faria o mesmo que fiz, se estivesse em meu lugar? Sim ou não? Seja sincero, por favor. Seja objetivo.

Também eu tentarei ser sincero e objetivo. Vou contar o que ocorreu depois que saí da mansão. Caminhei algumas quadras e tomei um táxi. Levei o saco de pano com as jóias para o escritório e fechei-as à chave em uma gaveta da minha escrivaninha. Fiquei olhando para a gaveta por alguns segundos. Aquele arranjo não me deixava tranqüilo, em absoluto. O roubo poderia ser descoberto a qualquer momento. Contava que Laércio não me acusasse, mas, pressionado, ele era capaz de falar algo que me incriminasse, ou quem sabe a jararaca da minha sogra fosse capaz de me acusar, sabe-se lá. O fato é que não era impossível de que a polícia desse uma batida no escritório. Revistariam tudo, e aí eu estaria perdido: perderia o casamento com a filha do chefe, a cunhada gostosa que volta e meia cedia-me seus favores, a empregadinha voluptuosa que eu planejava pegar nos banheiros da vida, o emprego fácil e de bom salário, a casa em que morava, e ainda seria preso. Nada agradável. Mas não havia saída: precisava retornar o quanto antes para o escritório, para que meu álibi não fosse implodido. Ou seja: não tinha tempo para levar as jóias ao chantagista naquele dia. Até demorei mais do que esperava, com toda aquela função da cozinheira Jenifer, mas pelo menos consegui entrar sem ser notado.

Guardadas as jóias, saí do escritório a fim de ser visto pelo maior número possível de empregados. Eles tinham de saber que eu estava ali, trabalhando, enquanto lá na mansão o mordomo furtava as jóias da patroa. Circulei bastante pela empresa e, depois, voltei ao escritório e liguei para o agiota Lopes. Pedi-lhe mais um dia de prazo. Afinal, já tinha as jóias em meu poder, mas não podia me ausentar, sob pena de esfumaçar meu álibi. Só poderia entregá-las no dia seguinte.

- É muita coisa - assegurei. - Tanta que você vai me dar uma grana a mais para eu cobrir o rombo da transportadora.

- Vamos ver - grunhiu ele. - Se você estiver mentindo, vou pedir para o meu amigo trazer um dos seus dedinhos para mim como lembrança. Não existe aquele ditado: vão-se as jóias mas ficam os dedos? Pois é: se as jóias não vierem, quem virão serão os dedos.

Engoli em seco. Senti um arrepio percorrer-me a espinha. Olhei para o curativo em minha mão molestada, a bandagem branca e dolorosa. Pretendia ficar com todos os meus dez dedos, todos eles eram importantes para mim.

- Pode ficar tranquilo - jurei. - Amanhã, sem falta.

- Eu estou tranquilo - ele rosnou. - Você é que não deveria estar.

E desligou.

Em que situação me meti, francamente!

Fiquei na transportadora o máximo que pude. Queria que o roubo fosse descoberto antes de eu chegar em casa. Saí à noite, esperando encontrar um carro de polícia parado em frente à mansão. Mas não encontrei nada disso. Ao contrário: a casa estava calma, minha mulher, a bruxa da mãe dela e meu sogro-patrão jaziam aboletados em sofás diante da TV; Laércio deslizava, magro e silencioso como uma serpente, pelos corredores labirínticos da mansão; a cozinheira Jenifer e seu corpo de chacrete desapareceram nos esconderijos da despensa; e Luana, ah, Luana, ela havia entrado numa daquelas sainhas plissadas bem curtas, suas lindas pernas luziam ao ar livre, as meias três-quartos chegando-lhe à fronteira dos joelhos redondos, seus seios perfeitos mal se contidos por uma camisa branca, de mangas curtas e botões estourando no peito, era assim que Luana se vestia quando surgiu faiscante na sala. Riu um riso de malícias, de mulher que se sabe desejada.

- Hoje eu vou sair de colegial - anunciou, festiva.

Olhei para ela e senti a excitação pulsar-me no entrepernas.

- A… aonde você vai? - consegui perguntar, desesperado de desejo.

- Por aí… - desconversou ela, saindo a saltitar escada acima.

- É muito perigoso essa menina sair por aí desse jeito - gemi com dificuldade. - Vocês não deviam deixar…

- A Luana? - riu meu sogro. - Ela é que é o perigo! Os homens que se cuidem com essa garota!

- O Rildo ainda enxerga a Luana como uma menininha – ciciou Larissa, passando a mão por meus cabelos.

- Humf! - fez a sogra.

Em alguns minutos, Luana adejou casa afora. Tentei esquecê-la. Concentrei-me na questão das jóias. Decerto o roubo seria descoberto quando fôssemos dormir: a velha tiraria as jóias que havia usado durante o dia e, no momento de guardá-las, depararia com a caixa vazia. Seria um gritedo, uma loucura, a casa viria abaixo. Teria de estar bem preparado para representar minha surpresa e indignação ante o roubo.

O resto da noite transcorreu lentamente, as horas se esvaíam pastosas, sem que nada acontecesse. Perto da meia-noite, nos recolhemos. Fiquei de ouvidos atentos, esperando os berros da sogra. Mas não. Nada aconteceu. De olhos abertos no escuro, deitado ao lado de Larissa, que ressonava baixinho, calculei que a víbora não havia guardado as jóias na caixa. Devia tê-las deixado sobre uma penteadeira, algo assim. O escândalo se daria no dia seguinte. Ou não?

 

O que aconteceu? Saiba logo, AINDA HOJE, na segunda parte do último capítulo de… Você é o juiz!!!

Postado por David

Como matar uma galinha

25 de abril de 2009 17

Lembro da minha avó matando galinha. Dona Dina, chamava-se. Era miúda e aparentemente frágil.

Aparentemente.

Na verdade, podia ser impiedosa. Eu ali, sentado no chão do pátio da casa dela, no Navegantes, brincando de Forte Apache com meu irmão, e a vó escolhia a galinha que seria servida com arroz no domingo. Aproximava-se da penosa com cautela, as costas curvadas, a mão em concha como se estivesse pronta para distribuir ração, fazendo com a boca um barulho que, por algum motivo, atrai galinhas:

– Tzi, tzitzitzitzi…

A galinha mais inocente chegava perto. Num movimento rápido como uma chicotada, minha avó a capturava sem hesitação, erguia-a à altura do colo, levava as duas mãos pequenas ao seu pescoço e, num único, vigoroso e surpreendente golpe, CREC, desnucava-a e a matava sem que ela fizesse um só có.

Dona Dina. Não conhecia o medo.

Uma vez, tentamos matar galinha num acampamento lá em Cachoeira do Sul. Estávamos na estância do Meia. Meia é uma contração do apelido dele, Zé Colmeia. Instalamo-nos no fundo do campo e, em dois dias, ficamos sem víveres. Ainda se passariam outros dois para um carro chegar a fim de nos levar de volta à cidade. Que fazer? Decidimos roubar uma galinha da fazenda contígua.

Foi o que fizemos. Protegidos sob o tal manto escuro da noite, nos esgueiramos pelas coxilhas feito guerrilheiros e sequestramos uma galinha que ciscava nas cercanias. Ela não reagiu. Cacarejou um pouco, mas deixou-se levar sem maiores protestos. Esfregamos as mãos. Teríamos janta, enfim. Aí chegou a hora de executá-la. Quem o faria? Ninguém tinha coragem. Eu mesmo, que tantas vezes vira o fim de vidas de galinhas nas mãos da minha vó, não me animava a imitá-la. Até porque a galinha nos olhava com uns olhos muito doces, muito puros e, confesso, me afeiçoei por ela. Pior: enquanto ponderávamos acerca da melhor maneira de assassinar a galinha, bebíamos cerveja para relaxar. Foram tantos debates e tanta cerveja que alguns de nós ficamos incapacitados para a execução. Eu um deles. Não por falta de condições físicas, e sim psicológicas. A cerveja me deixou ainda mais sensível e, ao fitar aqueles olhos sem malícia da galinha, eu suspirava:

– É uma boa galinha… Gosto dela…

Finalmente, o Dadinho tomou coragem. Pegou a galinha pela cabeça e anunciou:

– Uma galinha a gente mata quebrando o pescoço dela! É isso que vou fazer!

E começou a rodar a galinha no ar como se estivesse numa daquelas provas de lançamento de martelo. Rodou-a, VUUUP, rodou-a, VUUUUUUUP, rodou-a várias vezes, até soltá-la no chão da estância. A galinha saiu correndo com o pescoço todo molenga, parecendo uma cobra viva, fazendo cuóóóóór…

Se minha avó estivesse naquele acampamento, não ficaríamos sem jantar.

Dona Dina não vacilava. Uma executora. Seria centroavante, se jogasse bola. Seria um Alcindo Martha de Freitas, o centroavante mais impiedoso que vi jogar. Alcindo mutilava zagas. Era completo: forte, veloz e habilidoso. Os goleiros o odiavam. Agora, acossado pelo diabetes, sei que não fraquejará. Enfrentará a doença com a mesma valentia com que expunha as canelas às travas de navalha dos zagueiros.

Alcindo, o Bugre Xucro, e Dona Dina. Carrascos gelados. Vi Dona Dina armada com uma lâmina de 15 centímetros de comprimento para com ela seccionar a jugular da porca Chica a fim de transformá-la, a Chica, em toucinho, linguiça, costelinha e presunto gordo. Vi o Bugre desmontando a defesa do Inter como se fosse armada de Lego, ele e Volmir ingressando na área a drible e ombraço e botando zagueiros e goleiro para dentro do gol quatro vezes, que o jogo terminou em 4 a 0. Que centroavante!

Alcindo e Dona Dina. Chegavam a dar medo.

*Texto publicado na página 43 de Zero Hora dominical

Postado por David

Você é o juiz

24 de abril de 2009 30

Já vou avisando: o próximo capítulo do folhetim será… o último!

Aguardem!

Postado por David, remando na redação

Onde está o Adair?

24 de abril de 2009 16

De ônibus vou meio cochilando, meio lendo, meio bebendo a paisagem que passa atrás do vidro, se é que é possível haver três meios numa única viagem. Pois viajava num interestadual, dias atrás, e lia um pequeno livro que madame Adèle Toussaint-Samson escreveu com muita graça em meados do século 19. Essa francesa viveu na corte do imperador Dom Pedro II e fez um delicioso relato sobre o Brasil de então. Lia-o, portanto, quando um grito me sobressaltou:

— Onde é que tu tá, Adair???

Era o passageiro do banco da frente falando ao celular. Pronunciava Adair com sotaque do interior paulista. Adaiur. As pessoas falam alto ao celular, realmente. Não tenho certeza de que seja necessário — a tecnologia das telecomunicações está tão desenvolvida… Mas talvez o Adair sofresse de problemas auditivos, porque nem bem voltei a me concentrar na leitura e o amigo dele repetiu:

— Certo! Mas me diz onde tu tá, Adair!

A nova interrupção me fez refletir sobre a revolução da telefonia móvel. Porque não é a internet a grande mudança do novo mundo. A internet ainda se restringe à elite. A mudança de comportamento, de hábitos e de possibilidades foi causada pelo celular. Com um celular na mão, um filho está sempre em lugar sabido, o socorro é imediato e, o principal, uma faxineira é uma empresa. Seguiria em frente com as considerações filosóficas sobre a importância do celular para a democracia, só que o passageiro da frente berrou outra vez:

— Ô, Adair! Onde é que tu tá, Adair???

Continuava dizendo Adaiur.

Aquilo me causou certa aflição. Por que, afinal, o Adair não revelava ao seu amigo onde ele, Adair, se encontrava? Seria um local proibido? Um local de pecado? Provavelmente não. Estávamos no meio da manhã, horário impróprio para a lascívia.

— Ei, Adair! – agora o amigo do Adair falava ainda mais alto. – Onde é que tu tá, Adair???

Talvez o Adair seja daquelas pessoas que não ouvem as outras. Muito comum isso. Você chega para o seu amigo e tenta desabafar:

— Puxa, cara, estou com um problema aí que…

Ele interrompe:

— É mesmo?!? Que coincidência! Eu também estou com um problema! Olha só:…

E desanda a falar do problema dele. Esse certamente é o Adair. Há gente demais assim, no mundo de hoje. Autocentrados, para não dizer egoístas.

— MÁ ONDE TU TÁ, ADAIURRR???

Ele berrava, mas não parecia irritado. Devia estar acostumado com a falta de atenção do Adair. Depois dessa última interrogação, a conversa deles teve breve prosseguimento. Trocaram mais duas ou três frases. Não prestei atenção nelas, pensava onde o Adair poderia estar. Até que o amigo do Adair desligou. Suspirei. Voltei à leitura. Evoluí um capítulo. E o celular do passageiro da frente tocou de novo, e de novo ele atendeu aos gritos:

— ALÔ???

Estaquei no meio de um parágrafo. Prestei atenção. Quem seria agora? O que ouvi a seguir me deixou perplexo:

— Adair?

O assunto entre os amigos ainda não se esgotara, para minha angústia. Mas o que se seguiu é que me deixou em pânico. O amigo do Adair perguntou com aquele seu sotaque de Piracicaba:

— Me diz: onde é que tu tá, Adair?

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por David

Você é o Juiz — 18º Capítulo

23 de abril de 2009 25

A cozinheira ficou um pouco espantada de me ver ali. Estacou. Aprumou-se. Alisou o avental, nervosa. Ia dar meia-volta, quando a chamei:

- Ei!

Parou.

Caminhei em sua direção. Ela ergueu a mão ao peito, como se tentasse sentir as batidas do coração. Cheguei perto.

- Como é seu nome?

Baixou a cabeça. Era mesmo uma mulata estuante de sensualidade.

- Jenifer.

- Jenifer… – aproximei-me bem dela.

- Jenifer… – repeti. Senti seu cheiro. O cheiro de fêmea que havia sido possuída havia pouco tempo.

- Jenifer… – disse outra vez.

Percebi que estava perturbada com minha presença. Devia estar calculando o que eu fazia ali. Devia estar se perguntando se vira o que ela tinha feito com o mordomo minutos atrás, num dos banheiros da mansão.

Era dona de um pescoço comprido e macio, de ombros redondos e de curvas onde devia haver curvas. Encostei-me nela e senti que estava ficando excitado com a situação. Ao mesmo tempo, precisava me concentrar. Ela era uma testemunha. O roubo seria descoberto, a polícia viria, encontraria o colar e, quando tudo isso acontecesse, aquela Jenifer ia ligar as coisas e me delatar. Qual seria a ligação dela com o mordomo? Quando os flagrei no banheiro ela pedia que ele parasse. Logo, devia ser a primeira investida séria de Laércio. Ou não? Ou aquela história de “para! para!” fazia parte do ritual dos dois? De qualquer forma, namorados não eram: Laércio tinha família e tudo mais. No máximo, ela era um caso dele. O que eu devia fazer com a mulata? Ela arfava de tão nervosa. Vi que seus seios subiam e desciam com a respiração forte. Era uma mulata sensacional.

- Senhor Rildo… – balbuciou ela. – O que o senhor quer comigo? O que o senhor está fazendo?

Já me esfregava nela. Olhei para os lados. O que não podia acontecer, de jeito nenhum, era o Laércio aparecer agora e nos ver. Aí, sim, tudo estaria perdido.

- Olha, Jenifer -  sussurrei – Quero que você venha aqui – empurrei-a para um banheiro. Outro banheiro da casa. Quantos banheiros será que havia naquele lugar?

Ela deu um gritinho. “Oh!” Mas cedeu. Entrou comigo no banheiro. Tranquei a porta. Fiz exatamente como havia feito Laércio minutos atrás. Prensei-a contra a parede.

- Jenifer… – ciciei.

- Senhor Rildo… O que é isso, senhor Rildo?

- Você não pode contar a ninguém que me viu aqui, entende? -  e, ao mesmo tempo, levei a mão àquelas coxas de marfim marrom. Eram coxas pétreas. Coxas sólidas e macias ao mesmo tempo. Como se alisasse uma pilastra de carne.

- Ah, seu Rildo… – ela gemeu. – Por que o senhor está fazendo isso comigo? Eu não conto. Juro que não conto. Ai…

Cachorra. Não fazia vinte minutos que o mordomo se servira dela, e agora já gemia em meus braços. Cachorra! Fiz o mesmo que Laércio. Deixei minha mão escorregar pelas partes internas daquelas pernas de madeira-de-lei e veludo e segurei as alças da calcinha azul que vira momentos antes. Exatamente como Laércio, baixei-lhe as calcinhas até os joelhos. Ela devia estar pensando que os homens são todos iguais, que inclusive fazem tudo igual. Toquei em seu sexo. Estava úmido e quente.

- Cachorra! – murmurei em seu ouvido, as palavras me saindo por entre os dentes.

- Seu Rildo – ela ofegava, ela tremia, eu tremia também.

- Cachorra! – levei-a para a pia, como Laércio a havia levado.

- Ai, seu Rildo!!!

- Cachorra! Cachorra!!! Cachorraaaaa!!!!!

- Seu… Rildo…

Foi rápido e bom. Nem sequer tirei as calças para ter aquela pantera cor de canela. Depois de tudo, enquanto fechava o zíper, disse-lhe no ouvido:

- Se você não contar a ninguém que me viu, vou recompensá-la, compreendeu?

- Compreendi – ela ainda arfava, feito uma cadela.

- Jura que não vai contar?

- Juro.

- Por Deus?

- Por Deus, seu Rildo.

Beijei-a na boca carnuda e me fui. Em um minuto, estava fora da mansão, suado, escabelado, excitado e feliz. Será que devia me preocupar com a mulata? Será que ela era um perigo? Isso eu acabaria descobrindo em breve. Ou não?

Descubra o que Rildo descobriu loguinho, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Postado por David

Você é o Juiz — 17º Capítulo

22 de abril de 2009 21

Eram gritos de mulher. Na verdade, não eram exatamente gritos, e sim gemidos. Prestando bem atenção, não se dirigiam a mim aqueles gritos, quer dizer, gemidos. A pessoa que gemia nem devia saber que eu estava na casa. De onde vinha o ruído? Esgueirei-me pelos cantos da sala, atento como um perdigueiro. Percebi que o som partia de um dos banheiros do lugar, um banheiro situado no meio de um corredor que levava aos quartos dos empregados. Fui até lá, devagar, pé ante pé, um tigre à espreita da vítima. Espiei pela porta entreaberta. E o que vi me surpreendeu. Laércio, o mordomo, tentava agarrar a cozinheira.

Mas que belo sacana havia me saído esse Laércio! Tinha prensado a cozinheira contra a parede. Enfiava as mãos por baixo da saia dela, agarrava-a com vontade. Com ânsia mesmo. Laércio queria de qualquer jeito sovar a cozinheira. Dei uma boa olhada nela. Hum. Nunca havia reparado naquela cozinheira, envolvido que estava com Larissa ou Luana, mas agora percebia que se tratava de uma mulata bem interessante. Boas pernas. Coxas fortes. Bem interessante, de fato. As possibilidades infinitas da vida na mansão! Laércio apalpava aquelas coxas cor de chocolate e resfolegava com a cabeça enfiada entre os seios da cozinheira. Ela arfava e repetia:

- Para! Para!

Mas não parecia querer realmente que ele parasse.

A calcinha dela apareceu entre os dedos ávidos do mordomo. Uma calcinha azul que podia ser menor. Em um segundo, a calcinha já lhe cobria os joelhos redondos. O sexo pulsante da cozinheira agora se expunha à concupiscência do mordomo. Grande Laércio! Invejei-o. Ganhara duzentos pacotes sem fazer esforço e agora ia se repoltrear com uma cozinheira gostosa.

A coisa ia acontecer ali mesmo e seria uma loucura. Senti vontade de assistir, mas achei que a função facilitaria o meu trabalho. Primeiro o dever, depois o prazer. Deixei Laércio se divertindo com a cozinheira e decidi que talvez me ocupasse dela mais tarde. Deslizei para a sala outra vez, subi as escadas e fui direto para o quarto da velha bruxa. Sabia onde estavam as joias: escondidas num fundo falso do roupeiro. Rapidamente abri o roupeiro, extraí o fundo falso e de lá saquei a caixa de joias. Faiscavam como um pequeno sol. Um tesouro! Piratas matariam pelo conteúdo daquela caixa. Coloquei-as todas em um saco de pano que trouxera especialmente para o trabalho, exceto um colar de brilhantes muito chamativo e, provavelmente, muito caro. Esse, meti no bolso das calças. Devolvi a caixa ao fundo falso, fechei o roupeiro e saí do quarto, sempre tendo o cuidado de apagar minhas impressões digitais.

Desci as escadas. Agora vinha a parte delicada do plano. Talvez a mais perigosa: teria de esconder o colar numa gaveta do quarto de Laércio. Queria imputar-lhe a culpa pelo roubo. Seria perfeito. Per-fei-to! Pagaria minha dívida com o agiota, cobriria o rombo na contabilidade da empresa e ainda me livraria do chantagista maldito. Ele não poderia me acusar de nada nem que desconfiasse. Se me denunciasse, teria de admitir que fez chantagem comigo, seria possível inclusive que o obrigassem a devolver os 200 mil que lhe paguei.

Era mesmo um plano genial. Mas, para esconder a joia em seu quarto, precisaria passar pelo banheiro onde o mordomo e a cozinheira espadanavam em sexo pecaminoso. Foi com muita, muita, mas muita cautela que passei pela frente do banheiro. Não pude evitar: dei uma espiadela. Laércio possuía a cozinheira em cima da pia, furiosamente, rosnando:

- Me chama de patrão! Me chama de patrão!

Ela gania:

- Patrãozinho! Patrãozinho!

O bom Laércio…

Fui em frente. Entrei no quarto dele. Não escolhi muito: abri a última gaveta de uma penteadeira e acomodei o colar entre as meias e as cuecas do chantagista desgraçado. Limpei as impressões mais uma vez. Esperei alguns minutos, escutando com o ouvido colado à porta. Só poderia sair quando o caminho estivesse limpo. Esperei. Esperei.

Esperei.

Ouvi vozes ao longe. Laércio e a cozinheira deviam estar se despedindo. Malandro, esse Laércio. Esperei mais um pouco. Esperei. Esperei. Esperei.

Abri a porta, enfim. Tudo estava silencioso. Tudo calmo.

Já estava no corredor, quando ocorreu o inesperado.

A cozinheira me viu.

Sim. Ela me viu. Já havia se livrado de Laércio, que na certa se encontrava em outro ponto da mansão. Vinha caminhando placidamente pelo corredor, com o maior ar de inocência naquele rosto de rainha da bateria. E flagrou-me saindo do quarto do mordomo, com o saco de pano cheio de joias na mão.

E agora? O que eu poderia fazer???

 

 

O que Rildo fez? Ele conseguiu se livrar da cozinheira???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!

Postado por David

O carrasco, o machado e o condenado

22 de abril de 2009 15

A posteridade pingou um acento macabro no nome do doutor Guillotin. Teria sido ele o inventor da guilhotina, justamente ele, um médico, de quem se espera a preservação incondicional da vida. Mas Guillotin não inventou a guilhotina. Apenas defendeu com ardor sua utilização nas cerca de três mil execuções da Revolução Francesa. E o fez por caridade, como cabe a um médico, jamais por crueldade.

Até então as execuções eram muito dolorosas para os condenados. No enforcamento, a vítima ficava estrebuchando em agonia por, às vezes, 15, 20 minutos. Ontem mesmo o Sant’Ana lembrou que o carrasco de Tiradentes teve de saltar do patíbulo e se dependurar em seus ombros para aumentar-lhe o peso e assim lhe quebrar o pescoço, senão o homem não morria.

Na decapitação por machado a dor do apenado podia ser ainda maior, porque tudo dependia da habilidade do verdugo. Volta e meia o executor não acertava exatamente no pescoço, mas no lado do queixo, no meio do rosto ou nos ombros da infeliz vítima.

Neste 2009 comemoram-se 500 anos da ascensão ao trono da Inglaterra do rei Henrique VIII. Zero Hora inclusive publicou matéria a respeito, domingo passado. Henrique tornou-se célebre por sua quantidade de esposas (meia dúzia) e por desenvolver o inquietante hábito de enviar para o cadafalso pessoas com as quais desfrutava da maior intimidade, entre elas duas de suas mulheres e dois dos seus secretários pessoais que exerciam a importante função de primeiro-ministro. Eram eles Thomas More, o humanista que escreveu um livro intitulado Utopia, de onde derivaram-se a palavra e a noção de utopia, e Thomas Cromwell, famosa raposa política do século 16. Cromwell caiu em desgraça por ter sugerido ao rei casar-se com uma dama que ele, rei, não conhecia. Um arranjo político, é evidente. Como monsieur Daguerre ainda não havia inventado a fotografia, Henrique pediu que um pintor fizesse o retrato da moça. Pintado o quadro, o rei analisou-o, refletiu, ponderou e terminou por aprovar a donzela. Contratou casamento. Se vivesse em tempos de Internet, Henrique saberia que mesmo as fotos de corpo inteiro são enganadoras e que nada substitui o contato epidérmico. Quando viu a pretendente ao vivo, estremeceu. Era um bagulho de assustar criancinha. Aguentou o casamento por seis meses, ao cabo dos quais separou-se da dama e fez com que Cromwell se separasse de sua cabeça. Como estava (com toda razão!) furioso com o secretário, ordenou que o algoz encarregado de cumprir a pena fosse um jovem inexperiente. O rapaz, decerto nervoso por estar prestes a operar um cliente célebre, só conseguiu decepar Cromwell após três tentativas, o que deve ter sido muito irritante para Cromwell, mas pelo menos deixou bem claro para todo o reino que Henrique VIII não ficava com mulher feia.

A destreza do carrasco era tão fundamental que Ana Bolena, outras das mulheres de Henrique VIII que escalaram os degraus do cadafalso, exigiu que seu executor fosse um certo francês considerado mestre no ofício. Esse francês não empregava o machado vulgar na degola, mas espada, e gabava-se de sempre, sempre!, atingir o pescoço da vítima de forma precisa, piedosa e indolor. E foi desta forma que ele despachou Ana Bolena para as páginas da História. Com um zap.

Lendo esses relatos da História, o momento que me vinha à mente ao pensar na execução da pena de morte era o do pênalti no futebol. Nada mais parecido, no âmbito do esporte. Nada mais capital. Dias atrás, ao assistir à entrevista do Ronaldo Nazario com Marília Gabriela, essa imagem consolidou-se em mim. Ronaldo, um executor frio e experiente, confessou que, na hora do pênalti, ele quase chega a vacilar.

— É um momento especial – admitiu. — Estão lá só você, a bola e o goleiro.

O centroavante, a bola e o goleiro. O algoz, seu instrumento de trabalho e o condenado.

É uma aflição, o pênalti. Quase uma tortura. Por isso, reprovo a paradinha; a bola tocada mansa e debochada, inalcançável ao goleiro; a cavadinha; o escárnio. Reprovo. Pênalti exige solenidade. Mais: pede piedade. Uma execução rápida e indolor é o que de mais humano pode-se pedir na hora de qualquer penalidade máxima. No futebol ou no jogo da vida.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por David

Você é o Juiz — 16º Capítulo

21 de abril de 2009 7

Passei o resto da noite articulando o plano. Elucubrando. Pensei em cada detalhe. Cada pormenor. Nada poderia dar errado. Eu não podia falhar.

Não podia.

Em primeiro lugar, tinha de arranjar um álibi razoável para me ausentar do trabalho durante pelo menos uma hora. Bem. Poderia alegar que estava trancado no meu escritório por esse período. Isso era fácil, muitas vezes passava meia tarde sozinho. Até mais. O problema seria provar que não saíra de lá. Como?

Como???

Isso me consumiu boa parte da noite. A madrugada já ia alta quando ocorreu-me uma ideia que pareceu razoável. Podia usar as tecnologias contemporâneas. A doce Internet. Se ficasse dez minutos conversando por MSN com alguém, exatamente no meio daquela hora em que tinha de me ausentar, estaria provada a minha permanência no escritório. Bastaria, portanto, emprestar o meu laptop e a senha do meu MSN para alguém e forjar uma conversa com algum dos meus amigos. Decidi que pagaria a algum gaiato para ter essa conversa por mim. Não alguém do escritório: um conhecido que não soubesse muito a respeito da minha situação matrimonial ou profissional.

Foi o que fiz. Na manhã seguinte, encontrei um velho conhecido para falar por mim no MSN. Não foi difícil. Era um sujeito que estava desempregado havia algum tempo e sobrevivia de expediente. Dei-lhe cem reais e ele quase desmaiou. Percebi que, com cem reais, eu compraria até sua honra sexual.

Feito o negócio, pus em ação o resto do plano. Dei um jeito de sair do escritório sem ser visto. Não peguei meu carro; tomei um táxi. Fui até a mansão. Sabia que, àquela hora, não haveria ninguém em casa, exceto Laércio, e Laércio deveria estar ocupado cuidando da churrasqueira e da piscina para as atividades do próximo feriado, que se aproximava. Meus passos seguintes seriam três. Ei-los:

1. Entrar na mansão por uma janela lateral, sem que Laércio me visse.

2. Subir ao quarto da velha bruxa.

3. Subtrair as joias.

Depois, teria de fazer algo um pouco mais complicado, algo que vou relatar daqui a pouco.

Bem.

Dei o primeiro passo. Entrei na casa por uma janela que, obviamente, já deixara entreaberta.

Hora do segundo passo. Que não saiu como esperava. Quando havia posto o pé no primeiro degrau da escadaria, ouvi um ruído estranho. Estaquei. E estremeci. Uma voz me dizia:

- Para! Para!

Meu coração empedrou no peito. Quem havia me flagrado?

 

 

Quem???
Saiba já, já, num dos últimos capítulos de… Você é o juiz!!!

Postado por David